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Oportunidade perdida

Com o PS atolado na geringonça, o PSD de regresso ao regaço da social-democracia e o CDS em busca de uma identidade mais “pragmática” e menos “ideológica”, não é crível que a próxima revisão constitucional sirva para nos livrar do peso cada vez mais insuportável do Estado sobre as nossas humildes cabeças e depauperados bolsos.

Qualquer visão que sugira sequer uma ruptura com a nossa tradição estatista apresenta poucas possibilidades de vicejar numa sociedade sitiada pelo Estado-babá. De oportunidade perdida em oportunidade perdida, o Estado engorda, enfraquece e soçobra diante da corte dos “direitos adquiridos” e das castas que se ufanam em banquetear-se à mesa do Orçamento.

A calamidade é tanto maior quanto o “rumo ao socialismo” trilhado nestes 40 anos sufocou a sociedade portuguesa na obscenidade materialista que, por definição, é o território de pasto do Estado totalitário que se vislumbra no horizonte.

Entre a leveza fútil de uma deputação que se ocupa em legislar profusamente tudo o que mexe e o sequestro do Estado por grupos de interesses, por ora, afigura-se impossível qualquer tipo de compromisso constitucional que liberte a sociedade, retire o Estado da economia e nos deixe no sossego do viver habitualmente.


Diário Económico | 18.03.2016

O monarca exemplar

Adivinhar o que se vai passar nos próximos 10 anos não só seria imprevidente como inútil.

Tanto pela imprevisibilidade do tempo quanto da personagem. Mas Marcelo surpreendeu - o que é surpreendente num espírito irrequieto onde a surpresa é a ausência de surpresa: despiu o fato de comentador e fazedor de factos e revestiu-se da gravitas que a posição cimeira na hierarquia de Estado impõe.

Mas talvez a chave possível para a leitura do que venha a suceder nos dois mandatos de Marcelo esteja na “política de proximidade” que tem praticado desde a campanha eleitoral. Proximidade destituída dos vazios chavões da cidadania esquerdista.

Proximidade autêntica, que resulta da sensibilidade e inteligência de Marcelo em estar e ser de igual para igual em qualquer circunstância e com quem quer que seja. Marcelo exercerá a presidência ao estilo de um monarca exemplar. Atento ao país, atento às pessoas, atento às circunstâncias. A ser assim, podemos finalmente contar com uma figura acima da querela e mesquinharia partidária.

Não se espere ‘vichyssoise’ no cardápio de Belém. Seria uma surpresa. Uma sopa servida fria.


Diário Económico | 09.03.2016

Conversas em Família na Era do Vazio

Entre outras coisas maravilhosas que a geringonça já nos trouxe chega-nos agora o ‘remake’ das Conversas em Família.

Costa, certamente deslumbrado consigo mesmo e com o Orçamento que nos vai alçar a cumes de crescimento jamais alcançados, faz-nos entrar no tempo das Conversas em Família 2.0.

E talvez haja aqui um paralelismo com o antigo regime, onde a televisão era explicitamente usada para exercícios de propaganda no estertor do Estado Novo.

Para além da patética redução da política a um paupérrimo exercício de comunicação, importaria muito pensar o tipo e a qualidade da comunicação. Afinal a geringonça devolve-nos um Ministério da Cultura que, não andasse entretido a distribuir alcavalas a “criadores”, já se teria ocupado a pensar verdadeiramente numa política de comunicação. E, já agora, já que existe, de cultura.

Mas antes assim. Todos conhecemos a inclinação socialista para a usurpação dos media e para colocá-los ao serviço da instrução e educação deste pobre povo. Deixemos o ridículo brilhar em todo o seu esplendor.


Diário Económico
| 17.02.2016

Sair do armário: diga qualquer coisa de Direita

De todos os méritos de Paulo Portas na liderança do CDS, e foram alguns, um dos mais relevantes terá sido a capacidade de atracção de «jovens quadros», na gramática portista, ao partido. São alguns nomes que, por sortilégio do calendário político, em pouco tempo ganharam lastro político, governativo e, não menos importante, mediático.

Destacam-se, naturalmente, Adolfo Mesquita Nunes, pelo excelente trabalho no Turismo, e Assunção Cristas, na difícil pasta da Agricultura. Cristas que, apesar de tudo ainda deixa grande parte da direita na expectativa, tem, para já, a enormíssima vantagem de poder articular com algum recato as diversas tendências que convivem no CDS.

Liberais e neo-liberais, conservadores e democratas-cristãos, têm agora oportunidade para construir tranquilamente uma casa comum para lá das limitações históricas.

A grande responsabilidade aos ombros de Cristas é apontar o futuro a uma direita afirmativa, que recusa os complexos do pós-25 de Abril, cosmopolita, por ser verdadeiramente conservadora e, citando Adolfo Mesquita Nunes, «sensata», avessa a qualquer tipo de engenharia social a despeito da crua realidade das coisas. É isto que urgentemente necessitamos.

Diário Económico | 19.01.2016

Esperar 2016

2016 , um ano para esperar:

Por um governo que governe, concorde-se ou discorde-se, e que não se reduza a patéticos exercícios de sobrevivência; por um primeiro-ministro que dispa o fato de Maquiavel dos pequenitos e seja, de facto, um líder para o país; pelo tino dos nossos governantes que, por um instante, por um ano, submetam o interesse pessoal ao bem comum; pelo juizinho dos nossos políticos, que abandonem os jogos florais com que nos presenteiam diariamente no simulacro de Parlamento onde se passeiam - e, já agora, que o Parlamento seja a arena de confronto e da dissensão de ideias e não de ressentimentos e mesquinhez; por um espaço público desintoxicado da indigência cultural em que temos penado.

Mais. Que Portugal se torne um lugar culturalmente respirável e que os jornalistas noticiem mais e opinem menos e, milagre, que os jornais resistam e, se possível, apareçam mais títulos excluídos ao rolo compressor da tabloidização que, miseravelmente, nos cai em cima todos os dias.

2016, um ano para esperar: sentado.


Diário Económico | 5.1.2016

Iceberg

É inegável o impacto que a publicação dos ‘rankings’ das escolas teve na sociedade portuguesa e, até por isso, convém usar de alguma cautela ao olharmos para eles.

Ainda assim, e por muito incompleto que seja o resumo da informação acerca das escolas, são um bom indicador de que os pais dispõem na hora de escolher a escola dos filhos. E, não de somenos importância, servirão também para desfazer alguns mitos a que temos sido expostos há décadas pelos órfãos de Rosseau que insistem no uso da escola como instrumento
de ‘transformação do homem’.

Mas talvez a virtude maior do ‘ranking’ das escolas possa relacionar-se com uma possibilidade, remota, é certo, de demolição da ideologia (totalitária) igualitarista que alimenta os burocratas da 5 de Outubro.

O credo igualitarista da ‘educação’ sem avaliação como ferramenta privilegiada da mobilidade social elide os critérios do mérito e nivela por baixo, qual rolo compressor, a possibilidade de uma escola pública (e privada) que escape à engenharia social das luminárias alapadas aos corredores do Ministério. Perpetuando a paralisia social.

Os resultados estão à vista. O ‘ranking’ das escolas é só a ponta de um iceberg que está a partir o país a meio.


Diário Económico | 17.12.2015

A bout de souffle

Politicamente ferido por uma derrota eleitoral, eticamente colado a vagas e oportunistas papeletas secretamente assinadas nos esconsos da Assembleia com os partidos da esquerda não-democrática (e também com Heloísa Apolónia), moralmente desacreditado pela golpada com que a todos (com a excepção de Pedro Nuno Santos e Carlos César) ludibriou, lá chegou António Costa, o usurpador, a primeiro-ministro.

Por entre o ‘excel’ ridente martelado por Centeno e uma economia anémica; por entre o garrote de Bruxelas e as promessas a cobrar pelo desvario dos inconfiáveis PCP e BE; por entre o peso da realidade e a leveza da alucinação esquerdista, a Costa, o funambulista, e ao XXI Governo Constitucional nada sobrará além de um diário exercício de equilibrismo circense. E de vale-tudo.

À falta de escrúpulos que Costa, o contorcionista, nos habituou – e o espantoso uso orwelliano da linguagem no discurso de tomada de posse? –, junta-se um corpo de governantes-faca-nos-dentes a guardar o caminho estreito até as sondagens acenarem ao PS e irmos a eleições. Isto, naturalmente, se Costa, a rã, não perder o fôlego de sobrevivente no Kama Sutra quotidiano que vai ter de praticar com os escorpiões da extrema-esquerda.


Diário Económico | 30.11.2015

(Submissão) Schengen Area Revisited

De excepção em excepção, de restrição em restrição, o Espaço Schengen tem vindo a ser revisto ao sabor dos acontecimentos e do medo.

A distopia europeísta em curso, construída a partir da crença na intrínseca bondade humana e orlada numa bonita retórica multicultural para consolo da boa consciência das elites bruxelenses, apagou a Europa do concerto das potências, paralisou-a em contradições internas e alimentou durante décadas no seu coração o ninho da serpente onde prospera o terror.

Mais do que qualquer restrição interna à circulação, urge o diálogo e o envolvimento com os países (e civilizações) que fazem fronteira com a Europa e a afirmação vigorosa da perenidade dos valores europeus. Da Turquia aos poucos Estados que ainda sobram na linha do Mediterrâneo é indispensável implicar a comunidade internacional no drama dos refugiados; a todos, aos que cá estamos e aos que pretendem vir, devem ser claros os valores com que de há milénios se ergue uma Europa que recusa ser refém do terror.

Caso contrário – como a multidão que Kavafis reuniu no fórum, obnubilada consigo própria e ofuscada com o brilho decaído das jóias do seu passado – estamos condenados a lamentar: E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?/ Essa gente era uma espécie de solução.


Diário Económico | 20.11.2015

Fora do Mundo

Com aplauso e comoção dos “democratas” militantes de todos os comunismos - que se veem já alçados ao poder - Costa vai fazendo a única coisa que pode fazer: sob os auspícios de um “acordo histórico” saciar os espoliados do regime pelo governo anterior.

O anúncio a conta-gotas da ‘defesa do emprego, salários e pensões’ – a sublinhar públicas dificuldades em alcançar um acordo que pouco mais é que privadas ambições de poder – não mais é que o regresso ao festim orçamental dos viciados no dinheiro dos outros.

Nas últimas semanas fomos aprendendo que para Costa tudo o que é deixa de ser. Ainda que o PS socrático-costista se alimente da redefinição permanente da linguagem como estratégia de desestabilização da realidade, a realidade não deixa de ser o que é: uma besta. E é exactamente aí, na realidade, onde se desfazem os “outros mundos possíveis” em que habitam as brilhantes cabeças da nossa esquerda. O anúncio de mais austeridade (preventiva) vem colocar o devaneio esquerdista no seu preciso lugar: fora da realidade.


Diário Económico | 9.11.2015

A Fonte Luminosa secou

Desconhecemos o que vai sobrar depois do burlesco onde estamos metidos pela cegueira socialista.

O que sabemos é que o ressentimento e a arrogância são o ‘leitmotiv’ de António Costa e de um Partido Socialista erguido à volta da intratável herança socrática. A partir daqui tudo é possível. E o seu contrário também.

Costa poderá até vir a ser saciado na demanda ilegítima pelo poder. Costa poderá até, a curto prazo, regressar ao andor em que foi levado pelas ruas da paróquia até ser deposto a 4 de Outubro. Mas o legado que se projecta é a de um PS que no futuro suportará o pesado fardo de ter aberto as portas do poder à esquerda anti-democrática. Coisa de somenos se se tiver em conta a tradição socialista de, à esquerda, ser barragem à demência dos vários comunismos.

O desconchavo de um tempo em que se ergue o absoluto vazio de António Costa a bardo de uma esquerda política e culturalmente patológica pode apenas, por enquanto, ser travado por Cavaco Silva que, em estertor final, observa o óbvio: o governo de um Estado democrático não pode ser suportado por partidos anti-democráticos. Muito menos a ele pertencerem.

Diário Económico | 31.10.2015

Realismo

Feliz ou infeliz, a conjugação “arco da governabilidade” adquire um sentido preciso por uma única e simples razão: os partidos com assento parlamentar à esquerda deste espectro são revolucionários.
E se não sobrassem outras razões do domínio da alucinação programática, esta seria suficiente para erradicar o BE e o PC de qualquer pretensão de poder num regime democrático.

Posto isto, e dando de barato o desnorte das coreografias com que António Costa nos tem presenteado desde o discurso da noite eleitoral (onde teve a ousadia de não pronunciar a palavra derrota), com alguma frieza e recomendáveis doses de realismo, chega-se facilmente à conclusão da necessidade imperiosa de um entendimento duradouro entre a Coligação e o PS. Seja este baseado em acordos de regime ou, num "exercício mais atrevido", sob a forma de uma coligação governamental.

Quanto mais não fosse, seria uma última oportunidade para esperarmos uma consensual e profunda reforma do Estado que nos livrasse de vez do peso insustentável com que o vamos suportando.

Assim pensasse mais António Costa no país e menos na sua sobrevivência política.

Diário Económico | 13.10.2014

Bye, bye Lisboa!

Em 1990 Barcelona com 1,5 milhões de habitantes atraiu 1,7 milhões de Turistas. Em 2014 Barcelona recebeu 7,5 milhões de Turistas. Rendimento anual através do Turismo atingiu os 12 mil milhões de euros.

Nas Ramblas, em cada 10 transeuntes, 9 são turistas. 1991: 23,7191991 dormidas; 2003: 37,224 dormidas; 2013: 69,128 dormidas.

Assistiu-se assim, à tranformação de toda a cidade num Parque Temático Turístico e à redução de todas as actividades a uma única, omnipresente e obsessiva Monocultura. O Turismo.

Todo e qualquer sentido do Viver e Habitar quotidiano foi dominado e reduzido à erosão permanente do visitar, do residir temporário, do permanente happening nocturno e da festa contínua.

Ao permitir este consumir de forma erosiva, predadora e esgotante, de todas as características que, precisamente, constituíram o atractivo e o motivo da vinda e, originalmente, o apelo de vísita, Barcelona cada vez mais, e paradoxalmente, foi transformada num local onde Turistas apenas encontram outros Turistas. Uma plataforma globalizada, esvaziada dos seus conteúdos, dos seus moradores e autenticidade original.

Tudo isto levou a uma crescente revolta local, com movimentos cívicos e crescentes manifestações de rua, culminando este processo com a eleição de Ada Colau para presidir o Município.

A primeira medida de Colau foi instalar uma moratória durante 1 ano, de todo o licenciamento para novos projectos turísticos, incluindo hóteis, hostels, reconversões para alojamentos temporários, etc.

Levou também à produção do já famoso Documentário “Bye Bye Barcelona”, no qual, todas estas situações e desafios são ilustrados.

Entretanto, Colau entrou em confronto directo com a airbnb e a Booking.com, exigindo destas organizações especialistas em estadias temporárias, a relação completa das moradas e registos de ofertas dos seus sites.

A todos os endereços ilegais serão impostas multas de 15.000 a 90.000 euros, oferecendo Colau como alternativa ao pagamento das multas pelos proprietários destes alojamentos, a disponibilização pelos mesmos, destas moradas durante três anos, como habitaçào social, para os residentes locais.

A recusa das organizações referidas de disponibilizar as informações exigidas, poderá levar à proibição de acesso a estes sites especializados em oferta de alojamentos temporários, em todo o território da Catalunha.

Alfama recebeu recentemente, a visita do Secretário de Estado do Turismo e do Ministro da Economia, que triunfalmente e com um distanciamento “blasé” em relação a um possível papel regulador, equilibrador, planeador, recusaram qualquer reflexão ou dúvida quanto ao crescimento avassalador da oferta e transformação de todas as residências, em alojamentos temporários, sem qualquer tipo de regulamento ou limites, dedicados ao Turismo.

Nesta irrealista e irresponsável atitude caracterizada por um “laissez faire, laisser aller” in extremis, até criticaram uma tímida e tardia preocupação, formulada por um dos grandes responsáveis por esta ausência de gestão e planeamento, Manuel Salgado.

Com efeito, Manuel Salgado ao anunciar em 2008 “A Baixa nunca será um bairro residencial” e ao propor exclusivamente um investimento na hotelaria, residências universitárias e alojamentos de curta e média permanência, entregando a dinâmica do investimento únicamente às exigências dos “mercados”, abdicou da sua responsabilidade planeadora e reguladora, abrindo a caixa de pandora.

No início do processo, antes da crise e respectiva transformação, motivada pela mesma crise, da cidade num gigantesco negócio de estadias temporárias, e acima de tudo, do exôdo maciço de toda a juventude Portuguesa, estes, naturalmente os potenciais habitantes de uma Baixa ainda vazia , ainda teria sido possível planear / estabelecer um equilíbrio.

Assim também, a possível inserção da totalidade da Baixa num regulamento de rigor Patrimonial determinado pela Unesco não convinha à liberdade de manobra de intervenção e licenciamento de Manuel Salgado, pois iria impedir a sua política de “fachadismo” e de destruição sistemática dos Interiores Pombalinos pelos “investidores”.

Agora, dramaticamente é tarde, e provavelmente de forma irreversível Manuel Salgado e os dois ilustres visitantes de Alfama vão acabar perversamente por “ter razão” na sua irresponsável atitude e ausência de visão.

Entretanto, brevemente, em frente a Alfama vai surgir o novo terminal de Cruzeiros, aumentando o “potencial” e alargando, através das respectivas intervenções e arranjos da envolvente incluindo possivelmente a desejada desactivação da estação de Santa Apolónia, a plataforma da Monocultura.

Bye Bye Lisboa!


António Sérgio Rosa de Carvalho | Público / 13.09.2015

O sentido


A crer que os rituais da democracia ainda não foram totalmente esvaziados do sentido que possam adquirir no concreto das nossas vidas, sobra para o debate desta quarta-feira uma útil ocasião para se compreender com alguma serenidade aquilo que nos trazem Passos e Costa.

Mas o exercício é difícil. Se a Passos se pede que acorde da hibernação e nos mostre como pode protagonizar um horizonte de esperança para os próximos quatro anos quando o próprio, nos últimos quatro, não pôde ou não o soube fazer, a Costa impõe-se necessariamente um discurso que introduza alguma ordem na balbúrdia instalada no combóio socialista.

Para os 20 a 25% de indecisos revelados pelas sondagens conhecidas pode estar aqui a última oportunidade para, fora do circo das “acções de campanha”, encaixarem as propostas de Passos e Costa numa lógica que lhes responda às suas preocupações e inquietações.

Eventualmente mais pragmáticos que os convertidos à ideologia, aguardam que alguma racionalidade lhes seja, por fim, oferecida. Nem que seja a do mal menor.


Diário Económico | 09.09.2015

O risco de se ser labrego

A nudez pressupõe a ausência de vestes, mas não coincide com ela.

A Nudez, Giorgio Agamben

A fotografia da capa da Cristina é notável. Desde logo porque expõe a nu e a cru as tremendas contradições do nosso espaço público. E porque convoca múltiplas dimensões, públicas e privadas, que, paradoxalmente, se confundem no nosso paupérrimo discurso público.
De início a dimensão política. É inescapável ao momento e ao contexto de campanha eleitoral em que Joana Amaral Dias se apresenta como candidata. E que a própria assume na condição de «mulher e candidata». Ainda que de consequências irrelevantes no decurso da coisa política – pela irrelevância política da Joana Amaral Dias – a fotografia parte de um discurso, equivocado e muitas vezes perigoso, da exposição da intimidade como argumento político. A «transparência», as mais das vezes encenada, como dogma que se nos impõe na «sociedade aberta» - e consequente redução do pessoal a uma personalidade lisa, desprovida de espessura. Depois da encenação pública, surge a encenação do privado, território, por definição, excluído à mise-en-scène. O dogma da transparência como mecanismo de legitimação de uma verdade fabricada e carente de autenticidade.
Pretende também esta imagem suplantar a gravitas que se impõe ao discurso político, numa lógica que remete para o «conservadorismo» cavernícola qualquer pressuposto de que a política, por ser o território onde se decide o bem-comum, terá que necessariamente ser percorrido com contenção e prudência. Em Joana Amaral Dias nua representar-se-ia a ruptura com essa visão arcaica dos engravatados – um pouco à laia da não-gravata de Tsipras e do casaco de cabedal de Varoufakis . Visão suplantada por um mundo de «mentes abertas» sempre disponíveis para serem «elas próprias» e recusarem qualquer encenação delas mesmo que as restringisse no apelo de uma inefável liberdade radical e emancipada. Gente que arrisca – o «risco» da capa em trocadilho com a anunciada «gravidez de risco» em mais uma dissonância entre o privado e o público -, que «ousa». Em última instância o que esta imagem não entende é que «sermos nós próprios» não passa de uma auto-encenação, as mais das vezes auto-engano, onde vamos digladiando e afogando as nossas contradições e demónios – donde todo o discurso político de uma putativa autenticidade do político encerra um equívoco irresolúvel.

Mais susceptível de inquietação é o discurso cultural desta imagem, tanto nas espessuras estética e ética.  Há, por um lado, um discurso da assumpção do risco – o que quer que isso seja – apresentando a nudez como transgressão (ainda e sempre esta visão primitiva?), ademais a nudez de uma mulher, política, grávida. O risco, a ousadia, a transgressão de um corpo despido que se expõe em toda a sua força, fragilidade e autenticidade. Na novilíngua da sociedade hiperssexualizada – porque o sexo é um dos mais potentes motores do consumo - «transgressão» é não mais que cumprir o previsível guião da permanente ruptura que não rompe com absolutamente nada. Pelo contrário, uma «transgressão» que se mede apenas na amplitude narcísica, unidimensional e pobre, de resto.
Num tempo em que o sexo deixou há muito de ser «tabu» - mais uma expressão da novilíngua que pretende deslocar o sexo e a sexualidade de uma esfera relacional para impô-los como altar da «emancipação» e da «liberdade» (não é evidente a irracionalidade?) - a juntar à anunciada dimensão política desta fotografia somos levados a questionar os fundamentos deste feminismo que, ele próprio, objectifica o corpo da mulher. A objectificação e mercantilização do corpo, aqui soterradas num discurso «artístico» que mais não pretende que auto-justificar-se e excluir-se dessa mesma objectificação.

Há ainda o aspecto simbólico do homem, oculto, que envolve Joana nos seus braços. Um homem de bícepes esculpidos, a elevar ainda mais a perfeição desta imagem. Um homem, ao que foi dito, pai da criança que Joana traz no ventre. Um homem que esconde o rosto e que, para efeitos de feminismo, será sempre um vulto de um qualquer homem ameaçador. A tensão, que o revela menos interessado na completude e integridade da mulher na gloriosa gravidez mas mais refém de uma sensualidade de subúrbio que o leva ao irracional de prender e forçar a mulher.

As ondas de choque, calculadas pelo «risco» e pela «ousadia», têm como óbvia consequência a divisão do mundo entre os «progressistas» que aderem impensadamente à imagem e os «conservadores» que mostram alguma prudência e crítica a partir de um qualquer pensamento que se possa extrair desta imagem. Num tempo em que qualquer objecto seja posto a circular como «novidade» qualquer reflexão que se possa fazer à volta dos seus valores intrínsecos é  censurada pelo próprio rótulo da «novidade». Ao gosto do neo-marxismo hegemónico nas elites culturais, divide-se o mundo para uma qualquer dialéctica que resulta numa síntese previsível de inversão dos termos com efeitos políticos evidentes: o «libertário» é o que mostra tudo numa sociedade onde já tudo foi mostrado e não cessa de ser mostrado, onde a noção de obscenidade (fora de cena) se apagou no tsunami com que o privado derruba o público; o «velho do Restelo» é o que exige algum afastamento (ruptura?) com a devassa narcísica auto-imposta pela lógica das redes sociais.

Por tudo e também pelas inusitadas toneladas de photoshop esta é uma péssima imagem. Mas que é já a imagem da indigência cultural e política deste tempo que Portugal passa.

Controla a linguagem e és dono do pensamento

Two programmes taught at Washington State University have set out clear restrictions upon the language students can use, banning terms such as “The Man”, “Coloured People” and “Illegals/ Illegal Aliens”. The terms have been forbidden by certain professors on the basis that they are “oppressive and hateful”, according to one of the syllabuses reported by Campus Reform.

The Independent | 31.08.2015

A intolerância cresce nas universidades sob o lema e o programa político “controla a linguagem e és dono do pensamento”. Como é que os novos marxismos totalitários estão a usar o controlo dos departamentos de ciências sociais e humanas das universidades para impor uma nova linguagem ao serviço de um projeto político e ideológico que visa arrasar com o cânone cultural ocidental? A principal estratégia é o reforço da censura sobre a linguagem. O controlo da linguagem é a primeira fonte de doutrinação. Uma vez amestrados, os jovens estudantes ficam preparados para aceitar a censura como natural porque imposta sob o pretexto da promoção da igualdade. Quando a domesticação cultural e linguística estiver concluída, os próprios jovens se encarregarão de, através da autocensura, fazerem uso acrítico da nova linguagem sem se aperceberem que são sujeitos passivos de um experimentalismo político que visa o controlo total da sociedade através da destruição da “velha” cultura, tida como opressora das minorias, e a sua substituição pela mais radical das igualdades: a ausência de masculino e feminino como resultado da diferenciação biológica. Tome-se nota: “Tutors have been requested to consider asking students which pronouns they wish to be addressed by, warning against assuming gender-binary pronouns “he” and “she”. (Fonte: The Independent).

O objetivo último é impedir os estudantes do uso do pensamento crítico. Ao contrário do que pensam os neomarxistas, a linguagem é uma criação espontânea que resulta numa ordem constantemente reinventada pelas pessoas comuns que constituem o universo dos falantes. Não é a elite que cria a linguagem. Tão pouco a elite académica. A norma linguística impõe-se pela tradição e não pela pela autoridade de uma elite, ainda que essa elite se apresente como iluminada, portadora do futuro ou representante de grupos oprimidos que precisam de ser resgatados. O controlo dos departamentos de educação e ciências sociais pelos neomarxistas, através das suas inúmeras máscaras, permite-lhes inverter a realidade, impondo aos jovens estudantes critérios de avaliação que incluem a penalização dos que resistem a alinhar no processo de destruição/reconstrução linguística imposto pelos iluminados. Tome-se nota: “A further course entitled “Introduction to Comparative Ethics Studies” taught by Professor Rebecca Fowler also states that the use of “inappropriate terminology” will impact on students’ grades, “with the deduction of one point per incident”. (Fonte: The Independent).

A norma linguística deixa de ser o resultado de um lento processo de criação feito pelas pessoas comuns ao longo de muitas gerações e passa a ser o resultado do experimentalismo político tutelado pela elite académica que, para isso e quando necessário, usa a autoridade para reprimir os resistentes ao processo de destruição/reconstrução linguística tutelado por extremistas iluminados.


Via O Insurgente

Contas feitas

As ficções de que se alimentam os partidos, que pouco mais fazem que salvar aparências e ‘épater le bourgeois’, e a percepção generalizada de que São Bento já só cumpre ordens de Bruxelas, atiram o eleitorado mais fundo no barranco da desconfiança.

A coligação, pendurada na moral There Is No Alternative, exibe uns desajeitados números que confunde com o esforçado desempenho da economia. Apesar de quatro anos de governo e da asfixia fiscal imposta.
O PS de Costa, mais atordoado que o de Seguro, insiste na austeridade de rosto humano a toque de investimento (fantasia socialista para o esbulho tributário) e recupera elevadas visões que nos deixam tementes e trementes.

Quase todos vítimas da austeridade, somo-lo sobretudo das ficções partidárias servidas em ‘prime-time’. Geradas nos estritos campos político e mediático (que reciprocamente se sustentam) disfarçam com ruído a anemia partidária e a indiferença dos eleitores ao papaguear.

‘There’s no such thing as public money’, explicou Thatcher pacientemente, ‘there’s only taxpayers’ money’. Contas feitas, é o que sobra depois da rapina do Estado que vai decidir sortes à vigésima-quinta hora de 4 de Outubro.


Diário Económico / 01.09.2015

A sociedade da fealdade


A moda, como assunto sério, é bastante mais esclarecedora sobre a sociedade e o indivíduo dentro dela que qualquer tese ou dissertação em «ciências» sociais da Nova ou do ISCTE (dado que estas obedecem a uma natureza ideológica mais preocupada em fazer política que na procura da Verdade). A moda como hábitos e costumes com que atravessamos o quotidiano e não o mero campo da disciplina do desenho de vestuário, bem entendido.
A aceleração da sociedade de consumo e a omnipresença das mesmas imagens propagadas em todos os lugares do planeta tem efeito imediato na homogeneização da(s) cultura(s) (não só) visual e produzem uma profunda modificação (antropológica) no modo como o indivíduo se reconhece a si mesmo dentro das teias de relações sociais em que se insere. A exposição, cada vez mais acentuada, de todos nós às mesmas imagens resulta no seu consumo irreflectido e, a partir daqui, na elaboração de estratégias individuais que afirmem a individualidade dentro da terraplanagem cultural em curso.
Ora, resulta daqui a necessidade de se questionar o estatuto da imagem, da política da imagem e, para o que aqui interessa, a relação do indivíduo com essas imagens e como as interpreta no seu quotidiano, no modo de falar, de se vestir, no modo como se faz visível no meio do turbilhão onde todos nos queremos destacar - e aqui há que compreender, entre outras coisas, os fundamentos da cultura da sociedade de consumo, que insistem (como um martelo sobre as consciências) na promoção da «novidade», na celebração do «original», no recuo do espaço público de tudo (e todos) o que não obedeça a um padrão social que alimente a roda do consumo (os velhos com cada vez menos visibilidade; as crianças vistas como tábua rasa para endoutrinação de futuros consumidores, por exemplo).
São mais que conhecidos os efeitos estéticos e éticos desta voracidade. Como uma embriaguez de imagens e ruídos que a todos deixa em transe e incapazes de tecer um murmúrio crítico (racional) que seja. Enfim, uma sociedade de alienados sem capacidade de qualquer de subverter a ordem do consumo. Sendo a própria subversão absorvida pelas lógicas do mercado e tornadas, instantâneamente, produto disponível para consumo – e é esta a tremenda perversão do estádio actual do capitalismo que, tendo a capacidade para em tudo colocar um preço, chegou a hora, agora, de colocar cada um de nós, a partir do seu mais íntimo, à venda.


A tatuagem (e o piercing), por exemplo.
Até há pouco tempo significantes da fuga aos valores dominantes inscrita na pele, é agora, massificada e «democratizada» a incisão visível da ambiguidade com que, por via dos mecanismos do consumo, se debate cada indivíduo do interior da sua esfera mais íntima.
Se, por um lado, a tatuagem pretende a individuação radical do sujeito - tão radical que este se submete a sessões de tortura com agulhas para a inscrever – através dos desenhos que se supõem «únicos» e «originais», é, por outro lado, sinónimo da massificação do gosto e da padronização de comportamentos. O objecto que se pretendia único e singular, numa sociedade onde cada vez mais somos iguais uns aos outros no gosto e no desejo, desenhado para afirmar veementemente os valores individuais do sujeito, é afinal, agora, símbolo da sujeição e submissão passiva e acrítica do sujeito a esses mesmos valores que pretendia contrariar. O 'mercado', mais uma vez, açambarcou as 'margens' que dele procuravam fugir. O mercado insidiosamente chegou à alma.

***

O discurso progressista, assente na língua-de-pau das «diversidades» concorre e é, afinal, o idiota útil do rolo compressor consumista que não deixa nada, absolutamente nada, de fora do mercado.

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Lateralmente: um outro facto pode estar na origem da proliferação das (horríveis) tatuagens. Se o substracto antropológico do cristianismo em que se fundava a nossa civilização afirmava cada mulher e cada homem como ser único, singular, feito à imagem de Deus, estava tatuado no espírito e na alma de cada mulher e de cada homem essa singularidade e originalidade irrepetíveis, sem necessidade de exteriorização da individualidade. No novo mundo, ateu e secular, sem qualquer tipo de referência à singularidade do ser humano e onde o sujeito é mera célula do quadro excel, é necessário o recurso a estratégias de visibilidade que afirmem explicitamente o sujeito.
You can run, but you can't hide. Nada nem ninguém está a salvo do nihilismo consumista.

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Sobra a questão do belo e do corpo. E a recusa modernista - ocupado que estava o modernismo com a funcionalidade e a objectividade a partir da tábula-rasa da História - em pensar o belo. O pós-modernismo querendo recuperar a História pretendeu fazê-lo através da ironia. E a ironia pouco mais realizou que a irrisão. E hoje, o coração do pensamento e da produção artísticas contemporâneos é a mortal derrisão. O nihilismo (narcisista) a partir do qual hoje olhamos para o mundo - e o pretendemos conformar à nossa subjectividade - recusa qualquer absoluto. Qualquer ideia de que se suspeite pôr em causa a cadeia da relativização dos valores é atirada para o beco do anátema intelectual. Muito menos recuperar a categoria do belo para pensar o mundo. Nada pode travar a (transcendente) máquina do mercado que perversamente nos seduz à sua servidão usando a nossa própria liberdade como via. Produzir um juízo estético sobre os gatafunhos inscritos sobre a pele é, na fantasia da liberdade que o mercado nos serve, um pecado contra a emancipação do gosto e do corpo. Obviamente, a relativização do gosto e o uso do corpo como território político, são os meios pelos quais a fealdade se massifica. Estamos cada vez mais rodeados do feio.
 

Insuficiente

Para além do regozijo infrene da situação e da inquietação melancólica da oposição convinha lermos os últimos dados do desempenho económico com a cautela que uma campanha eleitoral dispensa.
Ainda que a economia venha lentamente a recuperar dos anos de chumbo de 2012/2013 e os números do desemprego sejam um pouco mais animadores, não se vislumbra ainda, nem se prevê que tal venha a suceder, uma alternativa ao modelo social de precariedade imposto pela intervenção externa.
E é justamente deste modelo social que se deve partir para uma análise mais profunda aos números da emigração. Sabemos que o emprego gerado é, por um lado, mal pago, precário e sujeito a cada vez mais reduzidas garantias sociais e, por outro lado, que esta tíbia animação se verifica em sectores de pouco exigente qualificação.
Como antecipação do futuro da já mítica “geração mais bem preparada de sempre” é manifestamente insuficiente o que se lhe oferece para que aqui permaneça. Sair é ainda contingente a “um país que não se basta a só próprio”.


in Diário Económico | 20.08.2015

Descamisados


Acreditar que depois de 4 de Outubro os pequenos partidos ascendam a charneira do sistema é mais fantasia do que realidade.

À esquerda, impacientes com as derivas direitistas do PS, com o monólito comunista e com a indisponibilidade bloquista em partilhar responsabilidades da governação, os descamisados do BE federados no Livre fazem fé em negociar com o PS uma maioria absoluta. E com isto tornar a governação refém da agenda vanguardista que não mais adie o paraíso socialista. Os infindáveis grupúsculos que reiteram à vez a pureza ideológica da tribo não serão contas deste rosário.

À direita, o albergue espanhol do PSD e o sucesso relativo do CDS-unipessoal atenuam qualquer vontade de dissidência. Mais pragmática, usa o perigo esquerdista como argumento suficiente para captura do voto mais conservador que não se revê no discurso social desta direita moderna. O que vai dando para manter as fileiras em sossego. Sobra um punhado de votos de descontentamento ou ressentimento que encontram abrigo em partidos ‘single-issue', de carácter unipessoal ou de lugar nenhum. Obviamente, não é daqui que vai surgir qualquer solução governativa que altere o nosso viver habitual.


in Diário Económico | 10.08.2015

Estúpida paisagem


Lisboa acorda sitiada por dentro: turismo de massas; reabilitação hostelizante; golden-visação do parque habitacional; airbnbização das redes de vizinhança e de bairros inteiros. Soterrados nos escombros da crise económica, legitimamente procuramos pontos de fuga e possibilidades de sobrevivência.


1. Empreendedorismo hipster: Lisboa, cidade de serviços

O discurso vazio do empreendedorismo, num primeiro momento, emitido pela instância política (central) e a adesão a este discurso – ainda que epidérmica e ambígua, como é sempre, de resto, culturalmente a adesão dos portugueses a tudo o que vem «lá de fora» - por parte de exércitos de jovens qualificados desempregados, são o rosto mais visível e glamouroso da terceirização de Lisboa. A pretensão é a de uma cidade asséptica, clean, onde todos sejamos energicamente jovens pró-activos intervenientes das indústrias criativas e/ou I.T’s em detrimento das actividades tradicionais e industriais. A Câmara Municipal patrocina startups, ninhos de empresas, meros escritórios de sonhos destinados à frustração – perdoe-se o pessimismo.
A cidade das startups é uma cidade desvinculada do real. Será uma Lisboa construída para e por um desígnio social inexequível – aqui e em qualquer parte do mundo – de uma monocultura laboral (indústrias criativas/finança/I.T’s), que por muita sedução que se nos ofereça é, diremos, absurda e irreal.
Esta é uma Lisboa que se pretende rever nas duas ou três páginas que a Monocle ou a Wallpaper lhe oferece de quando em quando e que disso faz acontecimento cultural e social de uma relevância que não tem.

2. Airbnbização do quotidiano: Lisboa, cidade de turistas.

No entanto, a realidade, essa besta, é bem mais divertida, complexa e contraditória, que as visões do progresso dos nossos gurus do empreendedorismo. Verificamos que as actividades que mais têm sido sujeitas ao ímpeto modernizador são as actividades tradicionais do pequeno comércio e, sobretudo, da restauração. Surpreendentemente, ou talvez não, os nossos jovens qualificados e abandonados ao desemprego foram ao baú dos avós e descobriram as receitas tradicionais, os petiscos de outrora, os objectos da vida portuguesa carregados, até há pouco tempo, do lastro de um Portugal arcaico do qual, até com o discurso da adesão à Europa, se fugia a todo o custo. As imagens ainda vivas da pobreza das gerações anteriores, da sardinha que se dividia por cinco, foram resgatadass, embrulhadas e transfiguradas em objectos de sedução que se afirmam agora como genuinamente portugueses. Uma cidade de cadeias de hamburgarias e bifanarias do bairro, como tentativa espúria da recuperação/construção de uma memória do que nunca existiu. Uma cidade atada ao deslumbramento parolo da marca Portugal, que redescobre a sardinha de conserva e as pataniscas de bacalhau, outrora representações do atavismo lisboeta, hoje guindados a símbolo de uma pós-modernidade timidamente afirmativa dos nossos valores dentro do contexto da globalização.
Mas apesar de tudo, as arcaicas & pós-modernas latas de conservas não servem para nós, lisboetas, habitantes de lisboa, os que cá trabalham e vivem. A marca Portugal é mais um isco very-typical e de sedução às classes-médias europeias que aqui chegam pelas companhias de aviação low-cost.
Se a fuga à crise, embrulhada no discurso do empreendedorismo, uniformizou o pequeno comércio e a restauração a partir de imagens que resultam num postiço de tradição e modernidade – começa a ser difícil almoçar um bitoque que não esteja mergulhado num molho conceptual – a cidade disneylandiza-se. Lisboa transforma-se lentamente em parque temático onde todas as opções da política urbana são direccionadas para o acolhimento às massas do turismo.
O turismo é visto pelos poderes públicos como hipótese redentora do país que, num assomo de modernidade induzida pelas directivas de Bruxelas, pacata e provincianamente abateu e desmantelou todas as actividades económicas que tradicionalmente o alimentavam.
Lisboa tranquilamente abandona os lisboetas e estes esvaziam os seus apartamentos para short-rental aos turistas acidentais. A pouco e pouco revertemos o parque habitacional para o aluguer temporário às aves migratórias da globalização. Um imóvel é agora apenas e só uma oportunidade de investimento. Uma casa já não é uma casa, é uma aplicação.
A vida nos bairros «históricos» torna-se um inferno. Ridículos e excessivos tuck-tucks – a fazer lembrar imagens de riquexós e de subserviência -; sôfregos agentes imobiliários – sector que tem acolhido milhares de desempregados e os explora com o regime de comissões – que depois dos chineses, (em migração para Espanha devido às tribulações dos golden-visa), se dedicam agora a incitar franceses e outras nacionalidades em fuga às brutais cargas fiscais impostas pelas gloriosas e decadentes sociais-democracias do norte, ao investimento seguro e de alta rentabilidade na charmosa Lisboa; hotéis de charme e boutiques hosteis que impregnam a cidade e arrasam com o pouco que resta do viver habitual da cidade.


3. Golden-visação da propriedade: saudades da ética do pato-bravo.

Dizimados pela crise, os tradicionais actores da construção civil e do imobiliário, os pequenos empreiteiros, os patos-bravos que tanta gente empregavam, desapareceram de vez. Os que sobraram estão agora ao serviço dos poucos a quem sobrou algum dinheiro e, oportunistas, vêm as óbvias oportunidades de uma cidade que se supõe a reconfigurar a partir do seu centro.
Os até há poucos anos promotores imobiliários, agora a braços com falências e execuções e o desamparo do desaparecimento do BES, são substituídos por indivíduos que, como cogumelos, aparecem do nada, trazendo na mala muito dinheiro e ilusões de multiplicação deste.
O imobiliário acolhe quem foge da instabilidade da bolsa e, assim, financeiriza-se: um imóvel é comprado, pintado e vendido, num espaço de poucas semanas e com rentabilidades, no mínimo, intrigantes – a mão invisível e a teleologia de mercado não explicam tudo. Mas diversamente do outrora tão vituperado pato-bravo, qualquer traço de ética, ainda que mínimo, esfumou-se na voracidade e velocidade da circulação do capital investido.
O pato-bravo aparecia, fazia a obra, comercializava-a e, talvez por isso mesmo, era obrigado a um critério mínimo de ética e de qualidade construtiva. Os que hoje acorrem com ganância ao sector imobiliário, soltos das amarras garantistas construtivas e éticas que a venda do imóvel para habitação impunha, operam pequenas obras à superfície de imóveis que, na maior parte dos casos, se encontravam há longo tempo devolutos e, consequentemente, sem quaisquer condições habitabilidade e segurança. Caricaturando, um mero balde de tinta pode tornar-se um investimento que resultará num retorno de milhares de euros.


4. O evento e o quotidiano: excrescências do inferno.

Por último, um outro fenómeno que atravessa Lisboa é a loucura dos eventos. Mais do que urbanístico ou arquitectónico, este será, talvez, um fenómeno para verificação psicanalítica e antropológica.
Tudo é que é «espaço verde» ou jardim, a partir da Primavera é ocupado com eventos. Eventos que celebram um multiculturalismo politicamente-correcto, festivais que comemoram a vida, o cão, o gato e o canário, eventos de causas e lutas patrocinadas por cervejeiras. De repente, toda a vida se transforma e transtorna num eterno evento -  naturalmente para disseminação viral nas redes sociais. Provavelmente, tal como estes eventos ocupam os vazios da cidade, serão, primeiramente, para ocupar os vazios existenciais do cidadão. Ocupado e cada vez mais esmagado pelo peso do trabalho, que organiza todo o quotidiano da vida e da cidade, quando sozinho, confrontado consigo mesmo e em tempos desocupados do serviço, o pobre do cidadão deixa de ter direito ao silêncio para ter de suportar uma plêiade de acontecimentos e eventos e festivais que cobrem todos os fins-de-semana soalheiros. O silêncio e a tranquilidade dos bairros torna-se um luxo. O acontecimento para massas ao ar livre perpetua a alienação do consumo – aliás, o próprio evento é, por um lado, fenómeno para ser consumido e, por outro, constituído a partir da própria lógica da mercantilização capitalista da realidade que tudo coisifica. O tempo é coisificado, o silêncio é objectificado. Tudo é medido e mensurável: o descanso e o silêncio têm um preço alto.


Pode uma cidade sobreviver assim?

Esta é uma Lisboa que troca uma estação de combóio por um jardim. Em que a obsessão do turismo se concretiza como uma avalanche que destrói a ecologia urbana. Em que o embasbacamento empreendedor uniformiza os restaurantes, cafés, as tascas e a vida, ela própria já devidamente vigiada pela ASAE. É uma cidade onde o espaço público é paulatinamente capturado pelo interesse particular, seja o do pequeno café que com umas três ou quatro mesas ocupa dois terços do passeio em calçada, seja o das grandes empresas que alugam praças e avenidas inteiras – para a realização de eventos, evidentemente.
Os lisboetas prosseguem o seu percurso de fuga para as periferias. Lisboa transforma-se apenas em local de trabalho onde artificialmente se presume reconstruir, em plástico, uma memória daquilo que nunca foi.

E aos lugares é estranha a avalanche da turistificação do olhar, outra forma de esteticização da realidade a partir das categorias do consumo. A crítica de Benjamin à reprodutibilidade da obra de arte na era da técnica enuncia claramente a capacidade da fotofgrafia (por exemplo) tornar a miséria humana objecto de consumo. Também a arquitectura. Também as cidades

Tudo hostelizar, golden-visar, airbnbizar, é levar por diante, pela arquitectura, pelo urbanismo, a espectacularização do vazio e do plástico, tornando-a, à cidade, mero objecto de consumo sem qualquer relação com a vida vivida da polis.