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O Estado caixeiro-viajante
Shibbolethm | Doris Salcedo / 2007
Sempre que se discute o encerramento de serviços públicos no interior do país, como actualmente se discute o encerramento de balcões da Caixa Geral de Depósitos (e sua substituição, em zonas rurais, por caixeiros-viajantes em carrinhas), lembro-me de um artigo do filósofo inglês Roger Scruton sobre a importância da icónica cabina telefónica britânica (publicado em 1996 na revista norte-americana City Journal e em 2000, em Portugal, na colectânea "Paradigma Urbano", da editora Quetzal).
Para Scruton, a estrutura de ferro fundido e vermelho imperial não alberga apenas a função telefónica. Ela é também uma promessa de resguardo e auxílio, no bulício opressor da cidade ou na solidão distante de um percurso rural ("o símbolo reconfortante de um lar, com o qual se pode, a qualquer momento, estabelecer um contacto apaziguador").
Mas mais: na consistência e dignidade do seu estilo clássico, a cabina é, em todas as paragens, "a imagem acabada da ordem pública e legítima, que simboliza a identidade nacional e se assume como uma promessa de segurança e de estabilidade institucionais".
Roger Scruton parece por vezes um santo padroeiro das causas perdidas, um daqueles conservadores hiperbólicos, em permanente estado de elegia, que descortinam a ameaça da desordem eterna na mais ínfima mudança da ordem conhecida. Nesse artigo queixa-se da substituição progressiva da cabina telefónica "familiar" por uma versão moderna, "bárbara", que "não representa a estabilidade nem a ordem, mas a agitação frenética de uma mutação constante".
Porém, o artigo tem um subtexto interessante na ideia de que até o mais pequeno elemento de serviço público pode afirmar uma soberania nacional e incutir um espírito comunitário, de pertença, que enquadre e dê sentido à conflitualidade e à superficialidade transitória dos assuntos humanos.
Em muitas cidades, vilas e aldeias do interior de Portugal, o que hoje mais impressiona é a ausência cada vez maior de marcos da soberania nacional - que, goste-se ou não, é afirmada pela presença do Estado.
Falo de terras que ficaram sucessivamente sem hospitais e centros de saúde, urgências e maternidades, escolas e postos dos Correios, quartéis da guarda e esquadras da polícia, tribunais e repartições de Finanças. Da presença do país a que pertencem, sobra-lhes apenas o pelourinho ou o castelo medieval, que falam de outros tempos, imemoriais, e a televisão ou a rádio, que falam quase sempre de lugares desconhecidos.
Não discuto a racionalidade económica imediata das decisões que nos trouxeram até aqui (nem acho que o caso da Caixa seja especialmente grave). Apenas lamento que Portugal se leve tão pouco a sério, a ponto de nunca debaterem os riscos de se retirarem referências de coesão e identidade comum a uma grande parte do território.
É claro que para esse debate será necessária a existência de uma esquerda que não deteste a ideia de mação, ou de pátria, e de uma direita que não abomine a ideia de Estado. Ou seja, uma esquerda que perceba que é a nação que melhor reproduz o sentimento de destino partilhado indispensável às políticas de solidariedade que defende; e uma direita para a qual o anti-estatismo seja só a vontade liberal de remeter o Estado ao seu papel subsidiário, não uma demanda melancólica, pré-moderna, pela sua aniquilação.
Enquanto tal maturidade política não existir, vai permanecendo a dúvida: por quanto mais tempo serão aquelas terras, remotas e descartáveis, ainda Portugal?
Francisco Mendes da Silva | Jornal de Negócios / 19.04.2017
- | João Amaro Correia / 19.4.17
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- Labels: paisagem, portugueses
moradas
8. Com certezas, não pode haver estilo: a preocupação de dizer bem é o apanágio daqueles que não conseguem adormecer numa fé. À falta de um apoio sólido, agarram-se às palavras - simulacros de realidade; enquanto os outros, fortes nas suas convicções, desprezam a aparência e se refastelam no conforto da improvisação.
Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
- | João Amaro Correia / 1.2.16
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moradas
7. Se Molière se tivesse debruçado sobre os seus abismos, Pascal - com os seus - teria feito figura de jornalista.
Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
- | João Amaro Correia / 29.1.16
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moradas
6. Gosto tanto dos espíritos de segunda categoria ( Joubert, acima de todos) que, por delicadeza, viveram à sombra do génio dos outros e, receando poder tê-lo, se privaram do seu!
Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
- | João Amaro Correia / 28.1.16
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moradas
5. Das «verdades»,já não queremos suportar o peso, nem sermos delas vítimas ou cúmplices. Sonho com um mundo onde se morresse por uma vírgula.
Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
- | João Amaro Correia / 27.1.16
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moradas
4. Sem as dúvidas que temos acerca de nós próprios, o nosso cepticismo seria letra morta, inquietação convencional, doutrina filosófica.
Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
- | João Amaro Correia / 25.1.16
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- Labels: E. M. Cioran, fotografia, paisagem
where the suburbs met utopia
where the suburbs met utopia
where the suburbs met utopia
Lost in the high street, where the dogs run
roaming suburban boys
Mother's got her hairdo to be done
She says they're too old for toys
Stood by the bus stop with a felt pen
in this suburban hell
and in the distance a police car
to break the suburban spell
Let's take a ride
and run with the dogs tonightin suburbia
You can't hide
Run with the dogs tonight
in suburbia
Break the window by the town hall
Listen! A siren screams
there in the distance like a roll call
of all the suburban dreams
Let's take a ride
and run with the dogs tonight
in suburbia
You can't hide
run with the dogs tonight
in suburbia
I only wanted something else to do but hang around
I only wanted something else to do but hang around
It's on the front page of the papers
This is their hour of need
Where's a policeman when you need one
to blame the colour TV?
Let's take a ride
and run with the dogs tonight
in suburbia
You can't hide
run with the dogs tonight
in suburbia
Suburbia
where the suburbs met utopia
What kind of dream was this
so easy to destroy?
And who are we to blame
for the sins of the past?
These slums of the future?
suburbia
where the suburbs met utopia
suburbia
where the suburbs met utopia
Suburbia | Pet Shop Boys / 1986
where the suburbs met utopia
Lost in the high street, where the dogs run
roaming suburban boys
Mother's got her hairdo to be done
She says they're too old for toys
Stood by the bus stop with a felt pen
in this suburban hell
and in the distance a police car
to break the suburban spell
Let's take a ride
and run with the dogs tonightin suburbia
You can't hide
Run with the dogs tonight
in suburbia
Break the window by the town hall
Listen! A siren screams
there in the distance like a roll call
of all the suburban dreams
Let's take a ride
and run with the dogs tonight
in suburbia
You can't hide
run with the dogs tonight
in suburbia
I only wanted something else to do but hang around
I only wanted something else to do but hang around
It's on the front page of the papers
This is their hour of need
Where's a policeman when you need one
to blame the colour TV?
Let's take a ride
and run with the dogs tonight
in suburbia
You can't hide
run with the dogs tonight
in suburbia
Suburbia
where the suburbs met utopia
What kind of dream was this
so easy to destroy?
And who are we to blame
for the sins of the past?
These slums of the future?
suburbia
where the suburbs met utopia
suburbia
where the suburbs met utopia
Suburbia | Pet Shop Boys / 1986
- | João Amaro Correia / 25.1.16
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- Labels: a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, paisagem
Para o Mar
Avançar sobre o murete que separa
A estrada do passeio à beira mar
Recorda, vívido, o que em tempos conheci:
A alegria em miniatura das praias.
Tudo se amontoa sob um baixo horizonte:
Praia íngreme, mar azul, toalhas, toucas garridas,
Desmaio sussurrado e repetido de ondinhas
Sobre a areia clara e quente, e mais ao longe,
Encalhado na tarde, o casco branco de um vapor –
E ainda é assim, tudo, tudo ainda é assim!
Deitar-se, comer, dormir com as ondas em fundo
(De ouvidos nos transistores, um som remansado
Debaixo do céu), ou levar pela mão, para baixo e para cima,
Meninos acanhados, de folhos brancos
E agarrando-se ao ar imenso: ou empurrar
Velhos hirtos em cadeiras de rodas, para gozarem
Um último Verão- tudo isto ainda acontece,
Em parte um prazer de cada ano, em parte um ritual,
Como quando, feliz por estar só, eu procurava
Na areia cromos de Jogadores de Cricket,
Ou, muito antes, os meus pais se conheceram
Ao som do mesmo cacarejar de praia.
Alheio agora a tudo isso, observo a cena sem nuvens:
A mesma água límpida sobre seixos polidos,
Ao longe a voz dos banhistas em protestos agudos,
Já no limiar e depois os charutos baratos,
Os papéis de chocolates, as folhas de chá e, entre
As rochas, as latas a enferrujar, até que umas poucas
Famílias começam o caminho de volta aos carros.
O vapor branco já partiu. Como vidro embaciado,
A luz do sol esbranquiçou. Se a pior coisa
De um tempo imaculado é não estarmos à altura,
Pode ser que com o hábito esta gente refine,
Vindo a banhos tão sem jeito despida
Ano após ano, ensinando os seus filhos com uma espécie
De momice; e ajudando os velhos, também, como deve ser.
Para o Mar | in Janelas Altas | Philip Larkin / Trad. de Rui Carvalho Homem / Ed. Cotovia
A estrada do passeio à beira mar
Recorda, vívido, o que em tempos conheci:
A alegria em miniatura das praias.
Tudo se amontoa sob um baixo horizonte:
Praia íngreme, mar azul, toalhas, toucas garridas,
Desmaio sussurrado e repetido de ondinhas
Sobre a areia clara e quente, e mais ao longe,
Encalhado na tarde, o casco branco de um vapor –
E ainda é assim, tudo, tudo ainda é assim!
Deitar-se, comer, dormir com as ondas em fundo
(De ouvidos nos transistores, um som remansado
Debaixo do céu), ou levar pela mão, para baixo e para cima,
Meninos acanhados, de folhos brancos
E agarrando-se ao ar imenso: ou empurrar
Velhos hirtos em cadeiras de rodas, para gozarem
Um último Verão- tudo isto ainda acontece,
Em parte um prazer de cada ano, em parte um ritual,
Como quando, feliz por estar só, eu procurava
Na areia cromos de Jogadores de Cricket,
Ou, muito antes, os meus pais se conheceram
Ao som do mesmo cacarejar de praia.
Alheio agora a tudo isso, observo a cena sem nuvens:
A mesma água límpida sobre seixos polidos,
Ao longe a voz dos banhistas em protestos agudos,
Já no limiar e depois os charutos baratos,
Os papéis de chocolates, as folhas de chá e, entre
As rochas, as latas a enferrujar, até que umas poucas
Famílias começam o caminho de volta aos carros.
O vapor branco já partiu. Como vidro embaciado,
A luz do sol esbranquiçou. Se a pior coisa
De um tempo imaculado é não estarmos à altura,
Pode ser que com o hábito esta gente refine,
Vindo a banhos tão sem jeito despida
Ano após ano, ensinando os seus filhos com uma espécie
De momice; e ajudando os velhos, também, como deve ser.
Para o Mar | in Janelas Altas | Philip Larkin / Trad. de Rui Carvalho Homem / Ed. Cotovia
- | João Amaro Correia / 22.1.16
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moradas
Existe na estupidez uma seriedade que, melhor orientada, poderia multiplicar o número de obras-primas.
3. Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
3. Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
- | João Amaro Correia / 22.1.16
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- Labels: E. M. Cioran, fotografia, paisagem
moradas
Tantas páginas, tantos livros que foram as nossas fontes de emoção, e que relemos para estudar neles a qualidade dos advérbios ou a propriedade dos adjectivos!
2. Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
2. Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
- | João Amaro Correia / 21.1.16
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- Labels: E. M. Cioran, fotografia, paisagem
moradas
1. Formados na escola dos caprichosos, idólatras do fragmento e do estigma, fazemos parte de um tempo clínico em que apenas contam os casos. Debruçamo-nos sobre aquilo que um escritor calou, sobre aquilo que poderia ter dito, sobre as suas profundezas mudas. Se ele deixar uma obra, se ele se explica, pode contar com o nosso esquecimento. Magia do artista irrealizado..., de um vencido que deixa fugir as suas decepções, que não sabe fazê-las frutificar.
Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
- | João Amaro Correia / 20.1.16
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A estrada
Loin des Hommes | David Oelhoffen | França / 2014
Em última instância, o sentido adquire-se na sequência final em que Daru se separa de Mohamed depois de o invocar à raiva de estar vivo - apesar de tudo - num mundo sem sentido. Como se do caminhar, singular e único, contingente e imprevisível, de cada um de nós pela estrada árida da vida exala suficiente significado que contrarie o absurdo da existência. O absurdo inexplicável e indizível tornado crueldade pela cegueira com que, devotos, aderimos a uma qualquer causa que nos resgate de uma existência insignificante.
***
Longe dos homens quando impossibilitados de lhes oferecer uma clara e irrevogável particularidade que lhes permita classificar, arrumar, enquadrar, organizar, dominar, o impenetrável e inclassificável mistério que cada um de nós transporta.
- | João Amaro Correia / 17.8.15
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- Labels: a beleza salvará o mundo, a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, cinema, notas sobre o deserto, paisagem
this is how we were meant to live
Lote 4 | S. Mateus da Calheta, Terceira, Açores / 2008
Miguel met us at the airport to give us the key, as well as a gift of fruit to welcome us. We have stayed in 5-star hotels, and some beautiful AirBnbs, but this was the pièce de résistance, a 4-bedroom, 3-bathroom designer home easily twice as big as our large home. All geometric angles at times with dizzying effects, with 16 foot ceilings, there was a terrace for three of the bedrooms and a large yard that overlooked forest and sea. Warm mahogany floors, stark white walls and drapes, beautiful ceramic and stone tiling, carrera marble, a huge contemporary fireplace, and top-of-the-line fixtures and dishware--this is how we were meant to live. Cleverly designed, we had total privacy despite being a home with 10-foot high glass walls that opened up in all directions. We took the opportunity to wash our clothes and let them dry in total peace under a warm sun and a blue sky, with a lively breeze keeping us perfectly comfortable. The UNESCO designated early 15th-Century, Angra do Heroísmo, the first European City in the Atlantic and the festival in nearby Praia da Vitoria, would have to wait. Fresh pineapple and espresso for breakfast, it was PERFECTION.
Our stay at Miguels modern villa was fantastic and very comfortable. Miguel is a great host, who even provided extra furniture for us to use, and helped us with everything we needed. The house is very spacious, homely, comfortable and clean. The garden looks out over a small forest and gives the feeling you are staying in the forest canopy. Lots of bird concerts, and good place to spot bats. Definately recommended! Thanks for everything Miguel!
Airbnb | São Mateus da Calheta, Açores, Portugal
Miguel met us at the airport to give us the key, as well as a gift of fruit to welcome us. We have stayed in 5-star hotels, and some beautiful AirBnbs, but this was the pièce de résistance, a 4-bedroom, 3-bathroom designer home easily twice as big as our large home. All geometric angles at times with dizzying effects, with 16 foot ceilings, there was a terrace for three of the bedrooms and a large yard that overlooked forest and sea. Warm mahogany floors, stark white walls and drapes, beautiful ceramic and stone tiling, carrera marble, a huge contemporary fireplace, and top-of-the-line fixtures and dishware--this is how we were meant to live. Cleverly designed, we had total privacy despite being a home with 10-foot high glass walls that opened up in all directions. We took the opportunity to wash our clothes and let them dry in total peace under a warm sun and a blue sky, with a lively breeze keeping us perfectly comfortable. The UNESCO designated early 15th-Century, Angra do Heroísmo, the first European City in the Atlantic and the festival in nearby Praia da Vitoria, would have to wait. Fresh pineapple and espresso for breakfast, it was PERFECTION.
Our stay at Miguels modern villa was fantastic and very comfortable. Miguel is a great host, who even provided extra furniture for us to use, and helped us with everything we needed. The house is very spacious, homely, comfortable and clean. The garden looks out over a small forest and gives the feeling you are staying in the forest canopy. Lots of bird concerts, and good place to spot bats. Definately recommended! Thanks for everything Miguel!
Airbnb | São Mateus da Calheta, Açores, Portugal
- | João Amaro Correia / 12.8.15
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- Labels: arquitectura, paisagem
A balada de um homem gordo
Vargas: This isn't the real Mexico. You know that. All border towns bring out the worst in a country.
A Sede do Mal | Orson Welles / 1958
A noção de fronteira é «boa para pensar»: na vastidão da fronteira não deve existir maior abandono que na cidade por onde os homens a atravessam.
Coisas que fogem à jurisdição dos homens: na histeria identitária como classificar quem voluntariamente escolhe esse lugar sem eu e sem nome, sem centro nem periferia?
- | João Amaro Correia / 27.7.15
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- Labels: a beleza salvará o mundo, cinema, paisagem
inútil paisagem
A paisagem é o resultado de uma economia que se estabelece num lugar e da cultura que lhe é subjacente. É uma construção, uma forma de arquitectura, que surge com uma base económica fortíssima.
João Gomes da Silva | Público / 19.07.2015
Leitura talvez demasiado lata do sentido da economia, colocaria antes a cultura como a fonte donde procede a paisagem. E a paisagem, a teia de relações metafísicas entre o mundo sensível e o ideal, a a technê de domínio da natureza natural, onde primeiro se inscreve a nossa relação com o Mundo.
- | João Amaro Correia / 26.7.15
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- Labels: lisboa, lisboetas, paisagem
esterilidade
Deixarmos como legado a ruína. E também o asfalto betuminoso.
Talvez o programa - «vias de comunicação» - paradigmático do modernismo: o pragmatismo da máquina automóvel e da performance da velocidade, a celebração da técnica como progresso social. O esplendor do funcionalismo.
Se recorrermos a épocas anteriores verificamos a «polissemia» dos espaços. Como se um convento pudesse ser outra coisa que cada tempo assim o ditasse. Ou um palacete de outrora se dispusesse a servir agora de sede de uma qualquer instituição ou empresa. Uma auto-estrada será sempre uma auto-estrada. Sem possibilidade de reapropriação pela necessidade de cada geração.
Recorrendo a Tafuri e à topologia como declaração social, as auto-estradas revelam a esterilidade modernista.
- | João Amaro Correia / 25.7.15
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- Labels: arquitectura, paisagem, relativismo
notas sobre o deserto: o garrote
O dinheiro é o deus.
Os mercados a sua religião.
Os milhões de desempregados as vítimas sacrificiais sobre o seu altar.
Pode um sistema social representar-se pela arquitectura? Sabemos que os regimes de todos os tipos e de todos os tempos se quiseram perenes pela inscrição na pedra. E é evidência histórica que a arquitectura pode ser posta ao serviço da auto-celebração destes.
O que é novo no actual quadro cultural, político e ideológico, (cocktail ambíguo e pouco evidente de liberalismo financeiro radical e depravado marxismo cultural), é o zelo com que induz a sua própria dissimulação. A pretensão em naturalizar-se por forma a tornar-se auto-evidente. Esta atmosfera cultural é induzida nas sociedades apresentando-se como o modo natural de relacionamento humano e fonte natural de todas formas sociais e, nesse sentido, explicação única do mundo.
Por via do enfraquecimento e erradicação de qualquer vínculo afectivo e simbólico do indivíduo, diluído na massa alienada e narcotizada pelo consumo - tudo se reduz ao seu valor utilitário, mensurável e contabilizável, num infernal deve-e-haver que, no fim de contas, literalmente, transforma toda a realidade em dinheiro – geram-se as condições ideais para a atomização social e para a intensificação do caracter totalitário do poder. Sem termos dado conta disso a única liberdade de que hoje verdadeiramente dispomos é a de consumir (aquilo que nos dizem para consumirmos).
Estas ruínas da Grécia contemporânea, para além de todo o sentimentalismo e/ou humanismo vazio com que nos são apresentadas – também ideologicamente (e não há meio de se exterminarem todas as ideologias e este palavrão do jargão marxista?) – apresentam-nos com meridiana clareza o poder destrutivo do actual regime, enfim, ideológico. A asfixia que abre caminho por entre as ruínas que ela própria ergueu.
O que antes do terramoto da Troika era projectado como lugar de ostentação de status dos mais afluentes atenienses é hoje um escombro dessa proposta social que era já em si o ninho da serpente da fractura social. O dinheiro como divisor social único, o consumo como única via para a construção pessoal e de relação do indivíduo com o mundo. A arquitectura reduzida a pobre palco desta representação do mundo, num perverso trade off acrítico e auto-idulgente. Os recursos materiais duplamente elididos como um processo de reciclagem invertido e cada vez mais oneroso ambiental e economicamente. A perpetuação do fortuito, do supérfluo, do excesso, da arrogante e putatitva super-abundância das sociedades europeias numa paisagem ferida e agonizante.
A miséria não reside na escassez material mas antes na degradação com que paulatinamente fomos sujeitando a realidade às nossas representações e olhar cada vez mais narcísicos e desafectados dos próximo e do mundo.
Seja pelo inesperado ausente ao tempo do projecto, seja pela melancolia da representação da ruína como experiência da ausência e da perda em relação à história, as ruínas são lugares de beleza. O paradoxo destas contemporâneas ruínas gregas é a radical antecipação histórica dessa perda e a manifestação imediata do estado de falência cultural com que hoje projectamos o mundo. E a ruína-nova como representação arquitectónica deste tempo.

Abandoned Nest | Panayis Chrysovergis / 2015
Os mercados a sua religião.
Os milhões de desempregados as vítimas sacrificiais sobre o seu altar.
Pode um sistema social representar-se pela arquitectura? Sabemos que os regimes de todos os tipos e de todos os tempos se quiseram perenes pela inscrição na pedra. E é evidência histórica que a arquitectura pode ser posta ao serviço da auto-celebração destes.
O que é novo no actual quadro cultural, político e ideológico, (cocktail ambíguo e pouco evidente de liberalismo financeiro radical e depravado marxismo cultural), é o zelo com que induz a sua própria dissimulação. A pretensão em naturalizar-se por forma a tornar-se auto-evidente. Esta atmosfera cultural é induzida nas sociedades apresentando-se como o modo natural de relacionamento humano e fonte natural de todas formas sociais e, nesse sentido, explicação única do mundo.
Por via do enfraquecimento e erradicação de qualquer vínculo afectivo e simbólico do indivíduo, diluído na massa alienada e narcotizada pelo consumo - tudo se reduz ao seu valor utilitário, mensurável e contabilizável, num infernal deve-e-haver que, no fim de contas, literalmente, transforma toda a realidade em dinheiro – geram-se as condições ideais para a atomização social e para a intensificação do caracter totalitário do poder. Sem termos dado conta disso a única liberdade de que hoje verdadeiramente dispomos é a de consumir (aquilo que nos dizem para consumirmos).
Estas ruínas da Grécia contemporânea, para além de todo o sentimentalismo e/ou humanismo vazio com que nos são apresentadas – também ideologicamente (e não há meio de se exterminarem todas as ideologias e este palavrão do jargão marxista?) – apresentam-nos com meridiana clareza o poder destrutivo do actual regime, enfim, ideológico. A asfixia que abre caminho por entre as ruínas que ela própria ergueu.
O que antes do terramoto da Troika era projectado como lugar de ostentação de status dos mais afluentes atenienses é hoje um escombro dessa proposta social que era já em si o ninho da serpente da fractura social. O dinheiro como divisor social único, o consumo como única via para a construção pessoal e de relação do indivíduo com o mundo. A arquitectura reduzida a pobre palco desta representação do mundo, num perverso trade off acrítico e auto-idulgente. Os recursos materiais duplamente elididos como um processo de reciclagem invertido e cada vez mais oneroso ambiental e economicamente. A perpetuação do fortuito, do supérfluo, do excesso, da arrogante e putatitva super-abundância das sociedades europeias numa paisagem ferida e agonizante.
A miséria não reside na escassez material mas antes na degradação com que paulatinamente fomos sujeitando a realidade às nossas representações e olhar cada vez mais narcísicos e desafectados dos próximo e do mundo.
Seja pelo inesperado ausente ao tempo do projecto, seja pela melancolia da representação da ruína como experiência da ausência e da perda em relação à história, as ruínas são lugares de beleza. O paradoxo destas contemporâneas ruínas gregas é a radical antecipação histórica dessa perda e a manifestação imediata do estado de falência cultural com que hoje projectamos o mundo. E a ruína-nova como representação arquitectónica deste tempo.

Abandoned Nest | Panayis Chrysovergis / 2015
- | João Amaro Correia / 24.7.15
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- Labels: arquitectura, paisagem, relativismo
O fim de uma era
Os filmes são também lugares de respiração. Sobretudo numa época em que um filme já não é apenas um filme mas um arrazoado de efeitos digitais ou um fogo de artifício virtual, encontram-se, ainda assim, lugares de sensibilidade. E os melhores são, desde logo, aqueles onde não se passa nada.
Como na vida habitual das pessoas normais.
Montado a partir do dispositivo road movie, o que é facto é que, além das breves horas que Kurt e Mark passam juntos, nada nos faz crer que esta seja uma viagem rumo a uma epifania da liberdade. E daí, talvez a liberdade maior e a mais autêntica, seja essas pequenas horas no meio da floresta, onde Kurt e Mark, que são também da paisagem, ensaiam uma verdade qualquer no que comunicam. E de regresso à cidade, a vida segue. Mark apreensivo quanto à iminente paternidade – e a voz da rádio lança ainda mais preocupação sobre o futuro -; Kurt, muito provavelmente enredado no seu próprio labirinto vedado à idade adulta.
Como diz Mark a Kurt, a propósito do fecho da loja de discos em segunda-mão – são evidentes os sinais do fim: a decadente paisagem industrial americana, o abandono e a nostalgia que permanentemente nos interpelam, (tanto na relação dos dois amigos, como no mundo que os rodeia).
Um filme apenas possível à beira da crise, que eclodiu pouco tempo depois, em 2008. Que, de certo modo, antecipa, como a calmaria anterior à tempestade, o fim de uma era.
Old Joy | Kelly Reichardt | EUA / 2006
Como na vida habitual das pessoas normais.
*
Montado a partir do dispositivo road movie, o que é facto é que, além das breves horas que Kurt e Mark passam juntos, nada nos faz crer que esta seja uma viagem rumo a uma epifania da liberdade. E daí, talvez a liberdade maior e a mais autêntica, seja essas pequenas horas no meio da floresta, onde Kurt e Mark, que são também da paisagem, ensaiam uma verdade qualquer no que comunicam. E de regresso à cidade, a vida segue. Mark apreensivo quanto à iminente paternidade – e a voz da rádio lança ainda mais preocupação sobre o futuro -; Kurt, muito provavelmente enredado no seu próprio labirinto vedado à idade adulta.
*
Como diz Mark a Kurt, a propósito do fecho da loja de discos em segunda-mão – são evidentes os sinais do fim: a decadente paisagem industrial americana, o abandono e a nostalgia que permanentemente nos interpelam, (tanto na relação dos dois amigos, como no mundo que os rodeia).
Um filme apenas possível à beira da crise, que eclodiu pouco tempo depois, em 2008. Que, de certo modo, antecipa, como a calmaria anterior à tempestade, o fim de uma era.
Old Joy | Kelly Reichardt | EUA / 2006
- | João Amaro Correia / 14.7.15
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badlands
Receptionist: Does he have Alzheimer's?
David Grant: No, he just believes what people tell him.
Receptionist: That's too bad.
Nebraska | Alexander Payne | EUA / 2014
Tal como em Sideways Alexander Payne faz-se à estrada. Também na estrada para Lincoln, Nebraska, se encena um ritual: em Sideways uma atribulada «despedida de solteiro», em Nebraska um ritual de despedida.
Redivivo: o ressentimento ou a saudade de um exilado em Billings, Montana, inadvertidamente e/ou por uma ilusão encerrados no derradeiro esforço de vida; também a viagem por uma América que lentamente se desfaz, uma América porventura mais autêntica que a do glamour in colour de Hollywood.
Uma viagem amarga e doce pelas contradições de um homem, de uma família, de um país - um país sequer com nome. Contradições que, afinal, talvez não sejam assim tão díspares.
*
Impossível não recorrer ao mais austero e provavelmente mais belo disco de Bruce Springsteen. Nebraska (1982) foi também a viagem do ‘Boss’, encerrado num quarto e no seu íntimo labirinto.
- | João Amaro Correia / 12.7.15
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- Labels: a beleza salvará o mundo, a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, paisagem, relativismo
Breve História do esquecimento
Não nos será possível a condição contemporânea sem distanciamento. O homem contemporâneo permanece dessincronizado da sua época. Ainda que actual, estar dentro da actualidade não será condição suficiente. Torna-se imperioso viver o tempo de modo anacrónico, mas sem qualquer traço nostálgico nem de condenação do presente. O século, saeculum, nome primevo do tempo de vida, é a coragem de olhar o tempo, a época, para entender a obscuridade fundamental: “contemporain est celui qui perçoit en plein visage le faisceau de ténèbres qui provient de son temps”.
Ser contemporâneo é, por Agamben, manter uma relação particular com o tempo. Uma relação que será uma fractura entre o saeculum e as gerações, e será nessa fractura que eles se encontram. À contemporaneidade exige-se aperceber da obscuridade do presente, relacioná-la com outros tempos, através de uma leitura original da história. Citar a história em função de uma necessidade que provém de uma exigência à qual não se pode deixar de atender: a ultrapassagem do “agora” pela “luz invisível que é a obscuridade do presente”.
Este é um exercício que extravasa as aparências das coisas. Provavelmente, ao contrário, é este o mundo interior das coisas, o íntimo onde adquirem, constroem, o seu próprio sentido.
Coliseu | Roma / c.80
Ao contrário de uma ruína - a construção sujeita à imprevisibilidade do tempo que transcende o estreito território do projecto - a pretensão de alguma arquitectura contemporânea é fazer uso do reportório da História sem que nos surpreenda qualquer hipótese de futuro ou sequer de reflexão sobre o passado. Ícones, imagens, espectros, fantasmas que fazem do nosso tempo o tempo da incerteza.
Ou isto ou talvez estejamos condenados a eternamente a experimentar e procurar, à luz da obscuridade que é a condição dos nossos olhos, aproximarmo-nos à Ideia de Platão.
Stadio della Roma | Dan Meis
Ser contemporâneo é, por Agamben, manter uma relação particular com o tempo. Uma relação que será uma fractura entre o saeculum e as gerações, e será nessa fractura que eles se encontram. À contemporaneidade exige-se aperceber da obscuridade do presente, relacioná-la com outros tempos, através de uma leitura original da história. Citar a história em função de uma necessidade que provém de uma exigência à qual não se pode deixar de atender: a ultrapassagem do “agora” pela “luz invisível que é a obscuridade do presente”.
Este é um exercício que extravasa as aparências das coisas. Provavelmente, ao contrário, é este o mundo interior das coisas, o íntimo onde adquirem, constroem, o seu próprio sentido.
Coliseu | Roma / c.80
Ao contrário de uma ruína - a construção sujeita à imprevisibilidade do tempo que transcende o estreito território do projecto - a pretensão de alguma arquitectura contemporânea é fazer uso do reportório da História sem que nos surpreenda qualquer hipótese de futuro ou sequer de reflexão sobre o passado. Ícones, imagens, espectros, fantasmas que fazem do nosso tempo o tempo da incerteza.
Ou isto ou talvez estejamos condenados a eternamente a experimentar e procurar, à luz da obscuridade que é a condição dos nossos olhos, aproximarmo-nos à Ideia de Platão.
Stadio della Roma | Dan Meis
- | João Amaro Correia / 8.7.15
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