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choro e ranger de dentes

Será também como um homem que, ao partir para fora, chamou os servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu.
Aquele que recebeu cinco talentos negociou com eles e ganhou outros cinco. Da mesma forma, aquele que recebeu dois ganhou outros dois. Mas aquele que apenas recebeu um foi fazer um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.
Passado muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e pediu-lhes contas. Aquele que tinha recebido cinco talentos aproximou-se e entregou-lhe outros cinco, dizendo: ‘Senhor, confiaste-me cinco talentos; aqui estão outros cinco que eu ganhei.’ O senhor disse-lhe: ‘Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.’
Veio, em seguida, o que tinha recebido dois talentos: ‘Senhor, disse ele, confiaste-me dois talentos; aqui estão outros dois que eu ganhei.’ O senhor disse-lhe: ‘Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.’
Veio, finalmente, o que tinha recebido um só talento: ‘Senhor, disse ele, sempre te conheci como homem duro, que ceifas onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, com medo, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence.’ O senhor respondeu-lhe: ‘Servo mau e preguiçoso! Sabias que eu ceifo onde não semeei e recolho onde não espalhei. Pois bem, devias ter levado o meu dinheiro aos banqueiros e, no meu regresso, teria levantado o meu dinheiro com juros.’ ‘Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos. Porque ao que tem será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.’

Mateus | 25, 14-30


E tu, que rumo levas? Perguntou Holme.
Não tenho rumo, respondeu o homem. Não tenho rumo nem vínculos. Ergueu o rosto para Holme. 
(...)
Sim, disse o cego. Eu cruzo-me com elas todos os dias. Gente que anda para trás e para diante por esse mundo fora que nem cães. Como se não tivessem um lar a quem chamem seu em parte nenhuma.

Nas Trevas Exteriores | Cormac McCarthy / 1968




Gementes et flentes in hac lacrimarum valle onde há muito recusámos a redenção. 


esterilidade

Deixarmos como legado a ruína. E também o asfalto betuminoso.
Talvez o programa - «vias de comunicação» - paradigmático do modernismo: o pragmatismo da máquina automóvel e da performance da velocidade, a celebração da técnica como progresso social. O esplendor do funcionalismo.
Se recorrermos a épocas anteriores verificamos a «polissemia» dos espaços. Como se um convento pudesse ser outra coisa que cada tempo assim o ditasse. Ou um palacete de outrora se dispusesse a servir agora de sede de uma qualquer instituição ou empresa. Uma auto-estrada será sempre uma auto-estrada. Sem possibilidade de reapropriação pela necessidade de cada geração.

Recorrendo a Tafuri e à topologia como declaração social, as auto-estradas revelam a esterilidade modernista.







IC19 | Portugal

notas sobre o deserto: o garrote

O dinheiro é o deus.
Os mercados a sua religião.
Os milhões de desempregados as vítimas sacrificiais sobre o seu altar.


Pode um sistema social representar-se pela arquitectura? Sabemos que os regimes de todos os tipos e de todos os tempos se quiseram perenes pela inscrição na pedra. E é evidência histórica que a arquitectura pode ser posta ao serviço da auto-celebração destes.
O que é novo no actual quadro cultural, político e ideológico, (cocktail ambíguo e pouco evidente de liberalismo financeiro radical e depravado marxismo cultural), é o zelo com que induz a sua própria dissimulação. A pretensão em naturalizar-se por forma a tornar-se auto-evidente. Esta atmosfera cultural é induzida nas sociedades apresentando-se como o modo natural de relacionamento humano e fonte natural de todas formas sociais e, nesse sentido, explicação única do mundo.
Por via do enfraquecimento e erradicação de qualquer vínculo afectivo e simbólico do indivíduo, diluído na massa alienada e narcotizada pelo consumo - tudo se reduz ao seu valor utilitário, mensurável e contabilizável, num infernal deve-e-haver que, no fim de contas, literalmente, transforma toda a realidade em dinheiro – geram-se as condições ideais para a atomização social e para a intensificação do caracter totalitário do poder. Sem termos dado conta disso a única liberdade de que hoje verdadeiramente dispomos é a de consumir (aquilo que nos dizem para consumirmos).

Estas ruínas da Grécia contemporânea, para além de todo o sentimentalismo e/ou humanismo vazio com que nos são apresentadas – também ideologicamente (e não há meio de se exterminarem todas as ideologias e este palavrão do jargão marxista?) – apresentam-nos com meridiana clareza o poder destrutivo do actual regime, enfim, ideológico. A asfixia que abre caminho por entre as ruínas que ela própria ergueu.

O que antes do terramoto da Troika era projectado como lugar de ostentação de status dos mais afluentes atenienses é hoje um escombro dessa proposta social que era já em si o ninho da serpente da fractura social. O dinheiro como divisor social único, o consumo como única via para a construção pessoal e de relação do indivíduo com o mundo. A arquitectura reduzida a pobre palco desta representação do mundo, num perverso trade off acrítico e auto-idulgente. Os recursos materiais duplamente elididos como um processo de reciclagem invertido e cada vez mais oneroso ambiental e economicamente. A perpetuação do fortuito, do supérfluo, do excesso, da arrogante e putatitva super-abundância das sociedades europeias numa paisagem ferida e agonizante.
A miséria não reside na escassez material mas antes na degradação com que paulatinamente fomos sujeitando a realidade às nossas representações e olhar cada vez mais narcísicos e desafectados dos próximo e do mundo.

Seja pelo inesperado ausente ao tempo do projecto, seja pela melancolia da representação da ruína como experiência da ausência e da perda em relação à história, as ruínas são lugares de beleza. O paradoxo destas contemporâneas ruínas gregas é a radical antecipação histórica dessa perda e a manifestação imediata do estado de falência cultural com que hoje projectamos o mundo. E a ruína-nova como representação arquitectónica deste tempo.

















Abandoned Nest |  Panayis Chrysovergis / 2015

egolatria

Ia dizer que a perda da arquitectura, dos arquitectos, reside numa pobre visão cultural do mundo. Mas talvez não seja exactamente assim.
Provavelmente a arquitectura, os arquitectos, têm-na. E corresponde rigorosamente à estação da História que atravessamos. Ao tempo em que a categoria do Belo é preterida pelo grotesco, pela megalomania, pela avidez, pela ganância, pela estupidez, pelo ridículo, pelo narcisismo radical e egomaníaco, pelo exaurir de recursos humanos, materiais e naturais, pelo irrisório. Pela indiferença. Pelo supérfluo. Pelo nihilismo.
Não errarei se pensar que categoria central do pensamento arquitectónico contemporâneo é a abjecção. No que não diferirá do das artes plásticas.


Por exemplo,
Cancer Centre | David Adjaye / Ruanda



Estádio Olímpico de Tóquio | Zaha Hadid / Japão



Centro de Artes - Fundação EDP | Amanda Levete / Lisboa



Triangle - Mairie de Paris | Herzog & de Meuron / Paris


coincidentemente, (ou não), quase sempre inciciativas de instituições do estado ou de poderosíssimas multinacionais que escapam ao escrutínio das comunidades onde pretendem intervir. As mais das vezes, os mesmos arquitectos que quando não estão a exaltar o seu ego se ocupam em leccionar sobre o progresso moral das nossas sociedades e o papel que nelas tem o poder transformador da arquitectura.
Enfim, é nosso o tempo da indigência cultural.

da ironia

AT&T Building | Philip Johnson | Nova Iorque / 1984



O Pós-Modernismo é uma puta velha e tonta que ninguém visita e não morre.

maison perversion

Admitir a Glass House como manifesto queer avant-la-lettre poderia não passar de uma blague drole não fossem os tempos de chumbo do revolucionário processo de inversão em curso que vivemos. E não se afiguraria mais sério se o caso não fosse o da hegemonia académica, mediática e política, da alucinada proposta revolucionária, ainda que edulcorada em doses massivas de sentimentalismo e consumismo aparentemente emancipador mas, em rigor, absolutamente alienantes.
A perversão de fundamentar uma tese numa visão particular do mundo em vez de a abrir, justamente, à surpresa do mundo e da realidade é, de facto, a perigosíssima doença que varre toda a comunidade científica, sobretudo nas humanidades. Enfim, o camp não nega o seu grotesco.

Fundamentar no desenho arquitectónico uma possibilidade redentora é sortilégio da mesma extracção com que Platão ergueu Kallipolis na sua República: uma cidade dirigida pelo filósofo-legislador o qual, arbitrariamente, define o que é o Bem, logo a justiça.
Excluindo a ideia de Bem da sua fonte transcendental abrem-se as portas a todas as arbitrariedades. A pretensão revolucionária produz, ao fim de contas, a redução do homem a si mesmo, através da hostilização e anulação das instituições naturais intermédias, abandonando-o, só, perante a máquina totalitária do Estado.
Em parecendo descabido, o recurso à Atenas do Séc. V a.C. para se chegar a New Canaan, Connecticut faz todo o sentido se nos ativermos à visão moderna do arquitecto e da própria arquitectura. A ilusão heróica e redentora, o vício pedagógico e transformador, que perseguirá o homem sempre que se esqueça da sua inexorável natureza servil. Já em Platão se exibia a visão totalitária que os sacerdotes impostores do progressismo e do experimentalismo social, com o seu cortejo de santos, pecadores e horrores, nos apresentam como libertadora.



Oikema, Maison du Plaisir | Claude-Nicolas Ledoux /1789


Nem Ledoux, por exemplo, chegou tão longe na engenharia social.

Uma latrina irrespirável

Salò ou Os 120 Dias de Sodoma | Pier Paolo Pasolini | Itália / 1975


*

Habitamos sociedades doentes.
Por um lado, o impulso libertador e emancipador que percorremos na modernidade, tantas das vezes mais que legítimo, justo, aportou em sociedades denominadas de democráticas; por outro o irracionalismo bárbaro e regressivo a que nos vai conduzindo o aprofundar das reivindicações emancipatórias. Alguma coisa mudou pelo caminho. Provavelmente o Homem e a visão que este tem de si, do mundo e de si no mundo.
A matança de Deus, ao invés do que se supunha, não deixou o espaço aberto a uma humanidade livre de imposições morais ou, sequer, emancipada da servidão. Sem Deus, é o Homem que pretende ocupar esse vazio. Sem Deus, é o Homem que pressupõe dominar toda a realidade, inclusivamente a que o transcende, seja pela indiferença, negação o aberta hostilidade.
Talvez o maior pecado – a própria linguagem se des-teologizou  e pecado é hoje uma palavra ou interdita ou motivo de troça – da modernidade seja a soberba. O Homem orgulhoso, revoltado, decaído do Éden divino, alcandorado ao paraíso do aqui e do agora, ocupa-se agora em fazer da sua fantasia a lei moral.
Bem entendido, serve a moral a que haja o mínimo de possibilidade de convivialidade e, mais, de civilização. Logo, se a moral deixa de ser comum e dirigida para o Bem Comum e se resume a espasmos individuais e subjectivos – espasmos esses, recorrentemente procedentes do baixo-ventre – temos aqui pasto para a barbárie lavrar dentro do nosso próprio coração. O orgulho, insubmissão funesta a Deus, à única fonte experimentada pela Humanidade de verdadeira liberdade erige cada um de nós em senhor absoluto do mundo. Por conseguinte, a sociedade pouco mais é quem um desconcerto ruidoso e dissonante onde deveria ser lugar de polifonia.
Deus morreu e o Estado usurpou-lhe  o lugar. Daí ser imperioso o controlo do aparelho de estado para fins de supremacia de uma, parcial e sempre pobre, qualquer visão do mundo e do Homem. Daí ser do aparelho de estado a suposição de única e suprema fonte legislativa, para além do bem e do mal e do Direito Natural. Emanada de cima para baixo, de uma casta iluminada – os novos gnósticos – depositante fiel da moral que, autoritariamente, pretende e muitas vezes adquire o controlo social – os media e a Academia há já décadas que estão reféns destes neo-gnósticos, seguindo rigorosamente, aliás, o guião marxista de Gramsci e da Escola de Frankfut.

Não fosse a arquitectura a construção de um pensamento e, nesse sentido, também uma visão de um tempo no tempo, seria inexplicável que ela se furtasse ao zeitgeist. Até naquilo que este tem de mais patético, histérico e caricatural. E é exactamente no campo da linguagem e da cultura onde a demência hodierna alcança maior poder destrutivo.
Também como caricatura do métier, a arquitectura como prática cultural, está sujeita ao labor pernicioso deste progressismo de olhos postos na barbárie – ou não fosse a arquitectura o território predilecto das realizações da «desconstrução»:
Está aqui tudo: obsessão racionalista/modernista/estatista/totalitária da legislação e normativização – o Estado totalitário como fonte única da legitimidade da moral; nominalismo – a flatus vocis, já velha do séc. XI, que recusa qualquer juízo universal e faz tudo vaguear ao sabor do ‘acto da mente’; psicose, desafectação do real e das realidades que transcendem o Homem – o capricho soberano que não admite a contradição nem frustração; inversão da linguagem por forma a forçar a inversão da realidade (oh soberba) - género como radical afirmação da subjectividade e de domínio do sujeito oprimido sobre as condições naturais com que o sexo o surpreendeu desde o dia em que nasceu; liberdade como paupérrima expressão de uma birra; dissolução que qualquer possibilidade de lógica e racionalidade expostas à efémera vontade do baixo-ventre.
Se o lugar concreto no corpo da reivindicação LGBT(junte a inicial que lhe aprouver) é o ânus, por extensão, a sua realização arquitectónica é a retrete. Uma latrina irrespirável.

notas sobre o deserto#2

Mleeta Resistance Tourist Landmark, Líbano | Ambroise Tézenas


Secreção do tempo. Desta estação da nossa História.
Mais que a esteticização do mal – moral ou natural – é a transformação e espectacularização da miséria. De caminho, tudo transformado em experiência, logo, transaccionável. O mundo, a história, o sofrimento, a capacidade de tudo se colocar no mercado. O humano, luminoso e sombrio, no que de mais íntimo tem, sujeito à lei da oferta e da procura. E sabemos como se regula essa lei: des lieux de mort devenus des destinations touristiques
.


Uma série, por exemplo, I Was There. Como de alguém proveniente das classes-médias ocidentais a quem as low-cost e o indolente estado social proporcionam uma semana de álcool e alienação em Ibiza. e profusamente a regista em selfies propagadas pelas redes sociais. Perfis que amontoam experiências atrás de experiências, consumo sobre consumo. Espectadores passivos do mundo e da vida que consumimos olhamo-los/nos com o olhar entorpecido, narcotizado, distorcido, degradado, pelo valor meramente utilitário com que as coisas são trocadas.

badlands


Receptionist: Does he have Alzheimer's?
David Grant: No, he just believes what people tell him.
Receptionist: That's too bad.

Nebraska | Alexander Payne | EUA / 2014


Tal como em Sideways Alexander Payne faz-se à estrada. Também na estrada para Lincoln, Nebraska, se encena um ritual: em Sideways uma atribulada «despedida de solteiro», em Nebraska um ritual de despedida.
Redivivo: o ressentimento ou a saudade de um exilado em Billings, Montana, inadvertidamente e/ou por uma ilusão encerrados no derradeiro esforço de vida; também a viagem por uma América que lentamente se desfaz, uma América porventura mais autêntica que a do glamour in colour de Hollywood.
Uma viagem amarga e doce pelas contradições de um homem, de uma família, de um país - um país sequer com nome. Contradições que, afinal, talvez não sejam assim tão díspares.

*

Impossível não recorrer ao mais austero e provavelmente mais belo disco de Bruce Springsteen. Nebraska (1982) foi também a viagem do ‘Boss’, encerrado num quarto e no seu íntimo labirinto.

notas sobre o deserto


*
O dinheiro é o deus.
Os mercados a sua religião.
Os milhões de desempregados as vítimas sacrificiais sobre o seu altar.

*

Vivemos no ruído e na confusão.
Se a linguagem servia de território estável à convivialidade, à civilização, de há décadas que os progressistas têm vindo sistematicamente a «desconstruir» esse terreno comum. Não se negam as possibilidades criativas desta «desconstrução». Tanto estéticas quanto éticas. Mas a «desconstrução» da civilização é sistemática exactamente porque pretende, politicamente, a dissolução de uma sociedade e de uma civilização que, nos corredores da academia, da política, da intelligentsia, é vista como mãe de todas as opressões, discricionariedades e violências. É no íntimo da tolerância onde a serpente deposita os seus nefastos ovos.

*

Temos que o político pretende a tudo sobrepor-se.
Vivemos o tempo de uma fundamental inversão. A política pós-antropológica pretende que o político a tudo se sobreponha. Ao reino da estética e ao da ética quando, na melhor das hipóteses, o político é justamente decorrência da estética e da ética. Mais que tudo ser relativo – que o não é – pior é tudo ser invertido. A começar pela linguagem em permanente redefinição - por exemplo: casamento já não é mais a união estável de um macho com uma fêmea com fim à procriação e à manutenção da espécie, mas uma união ilimitada onde cabe tudo o que o capricho ditar; género sobrepõe-se a sexo como psicótica ditadura do eu sobre as realidades imutáveis que o transcendem.
Desentendemo-nos agora na novilíngua que nos é implantada através de sucessivas vagas ideológicas: da esquerda adolescentóide e pseudo-emancipadora à direita liberal responsável pela financeirização da realidade. Resulta daqui o desentendimento cada vez mais ruidoso entre os sujeitos e a dissolução de qualquer vínculo humano, mais forte que a contingência dos dias, entre eles.

*

A hipótese moderna da emancipação é cada vez mais soterrada nos abismos de servidões a que
voluntariamente ou impensadamente aderimos. Dos hábitos de consumo dementes à narcotização da consciência a tudo servimos mas sobretudo do eu somos escravos.
Tudo isto é servido num discurso de alteridade, de atenção ao outro, que decorre mais da insaciável voracidade do eu do que verdadeira possibilidade de relação.
Se já nem a mesma língua falamos como nos compreenderemos?

Europa Caffe


A festa de Babette | Gabriel Axel | Dinamarca / 1987


Wherever the Catholic sun doth shine,
There’s always laughter and good red wine.
At least I’ve always found it so.
Benedicamus Domino!

Hilaire Belloc



Quis o destino que surgisse, por uma última vez, a oportunidade para Babette realizar-se na cozinha. Como artesã dedicada, era pelo seu ofício que a sua vida adquiria sentido. A cozinha como arte, síntese de uma cultura, de uma visão do mundo.
E é nesse último jantar que se revela, curiosamente, uma das fronteiras entre o Norte e o Sul.
O Norte, austero, puritano, pietista, kierkgaardiano, que separa o corpo da alma, esse Norte que representa o corpo como o Mal que arrastamos, condenados, na peregrinação até ao Paraíso; o corpo reprimido e reeducado para negação de todos os seus prazeres que mais não são que traços dessa perversidade original que fez o Homem desabar do Éden. O Norte, obcecado com o mal e com o que faz mal.
O Sul, papista, hedonista, que compreende o Homem como inteiro, sem fractura possível entre corpo e alma. Este Sul do Sol e do sal, do excesso e da imprudência, do corpo que se inscreve no espírito e do espírito que pelo corpo acede ao Mundo. O Sul, aberto à experiência radical e integral dos dons gretuitos que Deus põe no Mundo à disposição do Homem.

Talvez na cozinha de Babette possamos compreender um pouco melhor o que na Europa nos separa.

Sabe quem eu sou?

Welcome to New York | Abel Ferrara / 2014


É Depardieu e a história de um corpo que Abel Ferrara filma.
É a história de um corpo, vago pela solidão, sitiado pela ambição, encarcerado pelo vício. Um corpo brutal, porcino, em estrondoso contraste com os corpos esculturais das prostitutas contratadas para satisfação impossível da voragem animal de “Devereaux”. Um corpo que se constitui a partir do instinto animal. Que rosna, que grunhe, que respira ofegante.
Esqueça-se DSK, a alta finança, a grande política. Porque este pode ser também um filme político: não há diferença entre um príncipe do mundo e um anónimo assalariado quando expostos e soterrados pelo abismo interior que (nos) habita cada um de nós.
Um corpo doente que recusa a salvação: Para mim não há redenção.

Breve História do esquecimento

Não nos será possível a condição contemporânea sem distanciamento. O homem contemporâneo permanece dessincronizado da sua época. Ainda que actual, estar dentro da actualidade não será condição suficiente. Torna-se imperioso viver o tempo de modo anacrónico, mas sem qualquer traço nostálgico nem de condenação do presente. O século, saeculum, nome primevo do tempo de vida, é a coragem de olhar o tempo, a época, para entender a obscuridade fundamental: “contemporain est celui qui perçoit en plein visage le faisceau de ténèbres qui provient de son temps”.
Ser contemporâneo é, por Agamben, manter uma relação particular com o tempo. Uma relação que será uma fractura entre o saeculum e as gerações, e será nessa fractura que eles se encontram. À contemporaneidade exige-se aperceber da obscuridade do presente, relacioná-la com outros tempos, através de uma leitura original da história. Citar a história em função de uma necessidade que provém de uma exigência à qual não se pode deixar de atender: a ultrapassagem do “agora” pela “luz invisível que é a obscuridade do presente”.
Este é um exercício que extravasa as aparências das coisas. Provavelmente, ao contrário, é este o mundo interior das coisas, o íntimo onde adquirem, constroem, o seu próprio sentido.

Coliseu | Roma / c.80

Ao contrário de uma ruína - a construção sujeita à imprevisibilidade do tempo que transcende o estreito território do projecto -  a pretensão de alguma arquitectura contemporânea é fazer uso do reportório da História sem que nos surpreenda qualquer hipótese de futuro ou sequer de reflexão sobre o passado. Ícones, imagens, espectros, fantasmas que fazem do nosso tempo o tempo da incerteza.
Ou isto ou talvez estejamos condenados a eternamente a experimentar e procurar, à luz da obscuridade que é a condição dos nossos olhos, aproximarmo-nos à Ideia de Platão.

Stadio della Roma | Dan Meis


Laudato si' [1]

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4. Deterioração da qualidade de vida humana e degradação social

43. Tendo em conta que o ser humano também é uma criatura deste mundo, que tem direito a viver e ser feliz e, além disso, possui uma dignidade especial, não podemos deixar de considerar os efeitos da degradação ambiental, do modelo actual de desenvolvimento e da cultura do descarte sobre a vida das pessoas.

44. Nota-se hoje, por exemplo, o crescimento desmedido e descontrolado de muitas cidades que se tornaram pouco saudáveis para viver, devido não só à poluição proveniente de emissões tóxicas mas também ao caos urbano, aos problemas de transporte e à poluição visiva e acústica. Muitas cidades são grandes estruturas que não funcionam, gastando energia e água em excesso. Há bairros que, embora construídos recentemente, apresentam-se congestionados e desordenados, sem espaços verdes suficientes. Não é conveniente para os habitantes deste planeta viver cada vez mais submersos de cimento, asfalto, vidro e metais, privados do contacto físico com a natureza.

45. Nalguns lugares, rurais e urbanos, a privatização dos espaços tornou difícil o acesso dos cidadãos a áreas de especial beleza; noutros, criaram-se áreas residenciais «ecológicas» postas à disposição só de poucos, procurando-se evitar que outros entrem a perturbar uma tranquilidade artificial. Muitas vezes encontra-se uma cidade bela e cheia de espaços verdes e bem cuidados nalgumas áreas «seguras», mas não em áreas menos visíveis, onde vivem os descartados da sociedade.

46. Entre os componentes sociais da mudança global, incluem-se os efeitos laborais dalgumas inovações tecnológicas, a exclusão social, a desigualdade no fornecimento e consumo da energia e doutros serviços, a fragmentação social, o aumento da violência e o aparecimento de novas formas de agressividade social, o narcotráfico e o consumo crescente de drogas entre os mais jovens, a perda de identidade. São alguns sinais, entre outros, que mostram como o crescimento nos últimos dois séculos não significou, em todos os seus aspectos, um verdadeiro progresso integral e uma melhoria da qualidade de vida. Alguns destes sinais são ao mesmo tempo sintomas duma verdadeira degradação social, duma silenciosa ruptura dos vínculos de integração e comunhão social.

47. A isto vêm juntar-se as dinâmicas dos mass-media e do mundo digital, que, quando se tornam omnipresentes, não favorecem o desenvolvimento duma capacidade de viver com sabedoria, pensar em profundidade, amar com generosidade. Neste contexto, os grandes sábios do passado correriam o risco de ver sufocada a sua sabedoria no meio do ruído dispersivo da informação. Isto exige de nós um esforço para que esses meios se traduzam num novo desenvolvimento cultural da humanidade, e não numa deterioração da sua riqueza mais profunda. A verdadeira sabedoria, fruto da reflexão, do diálogo e do encontro generoso entre as pessoas, não se adquire com uma mera acumulação de dados, que, numa espécie de poluição mental, acabam por saturar e confundir. Ao mesmo tempo tendem a substituir as relações reais com os outros, com todos os desafios que implicam, por um tipo de comunicação mediada pela internet. Isto permite seleccionar ou eliminar a nosso arbítrio as relações e, deste modo, frequentemente gera-se um novo tipo de emoções artificiais, que têm a ver mais com dispositivos e monitores do que com as pessoas e a natureza. Os meios actuais permitem-nos comunicar e partilhar conhecimentos e afectos. Mas, às vezes, também nos impedem de tomar contacto directo com a angústia, a trepidação, a alegria do outro e com a complexidade da sua experiência pessoal. Por isso, não deveria surpreender-nos o facto de, a par da oferta sufocante destes produtos, ir crescendo uma profunda e melancólica insatisfação nas relações interpessoais ou um nocivo isolamento.


Louvado Sejas, Carta Encíclica Sobre o Cuidado da Casa Comum | Francisco / 2015

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Nymphomaniac, Vol. I, Vol. II | Lars von Trier / 2014

Por uma geometria narrativa confessional, (ou psicanalítica), Joe vai contando a Seligman a vertigem sexual ao redor da qual toda a sua existência toma sentido. Nem por um momento se sugere um moralismo barato, antes o confronto do espectador com imagens explícitas e palavras - palavras que aqui adquirem presença preponderante pela sua crueza desapiedada
Ninfomaníaca estilhaça o relativismo ético e moral das nossas sociedades. Uma história contada por alguém doente, alguém que distingue com meridiana clareza o bem e o mal, por contraponto a quem a ouve e que não mais é que a auto-complacência cheia de si da actual sociedade hipnotizada por psicoterapias (que mais não são que dispositivos totalitários de controlo), e embriagada pelo materialismo. E tão importante quanto a voracidade sexual doentia de Joe – que a leva à total dessensibilização ao prazer – é a assexualidade de Seligman, que vive uma existência que recusa a sua própria sexualidade.
Como que inversão do dispositivo cinematográfico, como procura de imagens para contar o que se vai dizendo, importa aqui o que se vai contando. E o que se vai contando é uma história em que rebenta com o espartilho do politicamente correcto com que hoje as nossas sociedades se auto-reprimem e vigiam. E assim talvez faça sentido ser uma pessoa doente a dizê-lo, por contraponto à suposta saúde e civilidade do velho ouvinte. E depois no fim Joe dá-lhe um tiro, na afirmação radical da sua liberdade.
E von Trier diz-nos que afinal a pior patologia é mesmo a vida asséptica e assexuada, a linguagem policiada de que o velho Seligman é representação.
Não tanto a cinematografia mas mais como o conto moral, contado com irrisão por alguém que olha o humanismozinho de classe média e o sentimentalismo garandiloquente pequeno-burguês que domina hoje a paisagem cultural do Ocidente, faça de Ninfomaníaca um objecto também político - naturalmente que a crítica do Guardian ou do NYTimes ou do Público jamais aprovaria um filme como este.

breve história do lugar estético do arquitecto na cadeia de produção pós-industrial


Les Mercuriales, Bagnolet, Paris,  Serge Lana + Alfred H. Milh, 1975

- As andorinhas nunca usam os ninhos construídos pela mão do homem – disse Jed muito depressa – é impossível. E se um homem lhe tocou no ninho, até o abandonam e vão construir outro novo.
- Como é que sabes isso?
- Li isto há alguns anos num livro sobre o comportamento animal, estava a documentar-me para um quadro.
Era falso, nunca lera nada daquilo, mas o pai pareceu instantaneamente aliviado e logo se acalmou. Quem diria, pensou Jed, que ele andava há mais de sessenta anos com aquele peso no coração!... Peso que provavelmente o acompanhara ao longo de toda a sua carreira de arquitecto!...
- Depois do bac inscrevi-me nas Belas-Artes de Paris. O que inquietava um pouco a minha mãe, que preferia que eu fizesse um curso de engenharia; mas fui muito apoiado pelo teu avô. Penso que ele tinha uma ambição artística, como fotógrafo, mas nunca teve a possibilidade de fotografar mais que casamentos e primeiras comunhões…
Jed nunca vira o pai ocupado com outra coisa que não fossem problemas técnicos e, para o fim, a maioria das vezes, problemas financeiros; a ideia de que o pai também fizera Belas-Artes, de que a arquitectura fazia parte das disciplinas artísticas, era surpreendente, desconfortável.
- Sim, eu também queria ser um artista… - disse o pai com acrimónia, quase com maldade. – Mas não consegui. A corrente dominante quando eu era novo era o funcionalismo, a bem dizer dominava já desde há várias décadas, em arquitectura nada se tinha passado depois de Le Corbusier e de Van der Rohe. Todas as cidades novas, todas as cidades que se construíam nos subúrbios nos anos 50 e 60 foram marcadas pela sua influência. Eu e alguns outros nas Belas-Artes tínhamos a ambição de fazer coisa diferente. Não rejeitávamos propriamente o primado da função, nem a noção de «máquina de habitar»; mas o que púnhamos em questão era o que implicava o facto de se habitar em determinado lugar. Como os marxistas, como os liberais, Le Corbusier era um produtivista. O que ele imaginava para o homem eram edifícios de escritórios, quadrados utilitários, sem decoração de qualquer espécie; e edifícios de habitação mais ou menos idênticos, com algumas funções suplementares – jardim de infância, ginásio, piscina; e vias rápidas entre os dois. Na sua célula de habitação o homem devia beneficiar de ar puro e de luz, muito importante a seus olhos; e entre as estruturas de trabalho e as estruturas de habitação o espaço livre era reservado à natureza selvagem: florestas, rios – imagino que no espírito dele as famílias humanas deviam poder passear por lá aos domingos; de qualquer modo ele queria reservar esse espaço, era uma espécie de ecologista antecipado, para ele a Humanidade devia limitar-se a módulos de habitação circunscritos no meio da Natureza, mas sem em caso algum a modificarem. Quando pensamos nisto vemos que é pavorosamente primitivo, é uma regressão terrível relativamente a qualquer paisagem rural – mistura subtil, complexa, evolutiva, de prados, campos, florestas, aldeias. É a visão de um espírito brutal, totalitário. Le Corbusier parecia-nos um espírito totalitário e brutal, imbuído de um gosto intenso pela fealdade; mas foi a sua visão que prevaleceu ao longo de todo o século XX. Quanto a nós, éramos antes influenciados por Charles Fourrier… - Sorriu ao ver a expressão de surpresa do filho. – escolhemos sobretudo as teorias sexuais de Fourrier, e é certo que são bastante burlescas. É difícil ler o Fourrier imediato. Com as suas histórias de turbilhões, de faquires fêmeas e de fadas do exército do Reno, até nos espanta que tenha tido discípulos, gente que o levava a sério, que pretendia realmente construir um novo modelo de sociedade com base nos seus livros. É incompreensível se tentarmos ver nele um pensador, porque não se percebe absolutamente nada do seu pensamento, mas, no fundo, Fourrier não é um pensador, é um guru, o primeiro da sua espécie, e, como acontece com todos os gurus, o êxito veio-lhe, não da adesão intelectual a uma teoria, mas, pelo contrário, da incompreensão geral, associada a um inalterável optimismo, em especial no plano sexual. Porém, o verdadeiro tema de Fourrier, o que em primeiro lugar lhe interessa, não é o sexo, mas a organização da produção. A grande questão que se lhe põe é esta: porque é que o homem trabalha? Porque é que ele ocupa um determinado lugar na organização social, aceita lá estar e cumprir a sua tarefa? A esta questão os liberais respondiam que era pura e simplesmente o engodo do lucro; nós achávamos que era uma resposta insuficiente. Quanto aos marxistas, esses não respondiam a nada, nem sequer se interessavam pelo assunto, e aliás foi por isso que o comunismo fracassou: mal se suprimiu o aguilhão financeiro as pessoas deixaram de trabalhar, sabotaram a sua tarefa, o absentismo aumentou em proporções enormes; nunca o comunismo foi capaz de assegurar a produção e a distribuição dos bens mais elementares. Fourrier conhecera o Ancien Régime, e estava consciente de que muito antes do aparecimento do capitalismo haviam tido lugar pesquisas científicas, progressos técnicos, e que havia pessoas que trabalhavam duramente, por vezes muito duramente, sem serem impelidas pelo engodo do ganho mas por alguma coisa muito mais vaga aos olhos de um homem moderno: o amor a Deus, no caso dos monges, ou mais simplesmente a honra da função.
O pai de Jed calou-se, percebeu que o filho o escutava agora com muita atenção.
- Sim… - comentou ele -, existe sem dúvida uma relação com o que tu tentaste fazer nos teus quadros. há muitos galimatias em Fourrier, na sua totalidade quase ilegíveis; e talvez haja ainda, apesar de tudo, algo a retirar de lá. Enfim, era o que nós pensávamos naquela altura…
Calou-se, pareceu mergulhar de novo nas suas recordações. As borrascas tinham acalmado, dando lugar a uma noite estrelada, silenciosa; uma espessa camada de neve cobria os telhados.

- Eu era jovem… - disse ele por fim com uma espécie de incredulidade suavizada. – Tu talvez não possas dar por isso inteiramente, porque nasceste numa família que já era rica. Mas eu era jovem e preparava-me para me tornar arquitecto, e estava em Paris; tudo me parecia possível. E eu não era o único, Paris era alegre naquela altura, tinha-se a impressão de que se podia reconstruir o mundo. Foi então que conheci a tua mãe, estudava no Conservatório, tocava violino. Éramos na verdade uma espécie de bando de artistas. Enfim, não fomos além de escrever quatro ou cinco artigos numa revista de arquitectura, com várias assinaturas. Em grande parte eram textos políticos. Neles defendíamos a ideia de que uma sociedade complexa, ramificada, com níveis de organização múltiplos, como a que Fourrier propunha, exige uma arquitectura complexa, ramificada, múltipla, com margem para a criatividade individual. Atacávamos violentamente Van der Rohe – que fornecia estruturas vazias, moduláveis, as mesmas que serviam de modelo aos open space das empresas – e sobretudo Le Corbusier, que construía incansavelmente espaços concentracionários, divididos em células idênticas, boas exactamente, dizíamos, para uma prisão modelo. Esses artigos tiveram uma certa repercussão, acho que Deleuze falou deles; mas eu tinha que trabalhar, e ou outros também; entrámos em grandes gabinetes de arquitectos, e a vida tornou-se de repente muito menos divertida. A minha situação financeira bem depressa melhorou, nessa época havia muito trabalho, a França estava a reconstruir-se a grande velocidade. Comprei a casa do Raincy, achei boa ideia, naquele tempo era uma cidade agradável. E além disso consegui-a por um óptimo preço, foi um cliente que me proporcionou o negócio, um promotor imobiliário. O proprietário era um velhote, visivelmente um intelectual, sempre de fato cinzento de três peças e de flor na botoeira, uma flor diferente de cada vez que o via. Parecia ter saído da Belle Époque, quando muito dos anos 30, não conseguia associá-lo ao que o rodeava. Poderíamos imaginar encontrá-lo, sei lá, no quai Voltaire… enfim, no Raincy de certeza que não. Era um antigo universitário, especializado em esoterismo e História das Religiões, lembro-me de que sabia muito da Cabala e da gnose, mas interessava-se por essas coisas de um modo muito especial, por exemplo, por René Guénon só tinha desprezo. «Aquele imbecil do Guénon», era assim que ele dizia, acho que tinha escrito várias críticas virulentas aos livros dele. Nunca fora casado, enfim, tinha vivido para os seus trabalhos, como se costuma dizer. Li um longo artigo escrito por ele numa revista de ciências humanas onde desenvolvia umas considerações bastante curiosas sobre o Destino, sobre a possibilidade de desenvolver uma nova religião baseada no princípio da sincronicidade. Só a biblioteca valia o preço da casa, acho eu – tinha mais de cinco mil volumes, em francês, em inglês e em alemão. Foi lá que descobri as obras de William Morris.
Deteve-se a notar uma mudança de expressão na cara de Jed.
- Conheces William Morris?
- Não, papá. Mas eu também vivi naquela casa, e lembro-me da biblioteca… - Suspirou, hesitou. – Não percebo porque é que esperaste tantos anos para me falares de tudo isso.
- É porque vou morrer em breve, penso eu – disse simplesmente o pai. – Enfim, não já, não depois de amanhã, mas não estou cá muito tempo, é uma evidência… - Olhou em volta e sorriu quase jovialmente.
- Podes servir-me mais conhaque?
Jed tornou a servi-lo imediatamente. Acendeu um Gitanes e aspirou o fumo, deliciado.
- E depois a tua mão ficou grávida de ti. O fim da gravidez correu mal, tiveram de lhe fazer uma cesariana. O médico anunciou-lhe que não poderia ter mais filhos, e além disso ficou com cicatrizes, bastante feias. Isto para ela era duro; porque, sabes, era uma bela mulher… Não éramos infelizes os dois, nunca houve entre nós uma discussão séria, mas a verdade é que eu não falava muito com ela. Há também o violino, acho que ela nunca devia ter parado com ele. Lembro-me de uma noite, na porte Bagnolet, vinha eu do trabalho no meu Mercedes. Já eram nove horas mas ainda havia engarrafamentos; não sei o que desencadeou a coisa, talvez os prédios das Mercuriales porque eu trabalhava num projecto muito semelhante que achava sem interesse e feio, mas vi-me dentro do meu carro no meio dos desvios de ligação de acesso rápido, diante daqueles edifícios imundos, e de repente disse para mim mesmo que não podia continuar. Tinha quase quarenta anos, a minha vida profissional era um sucesso, mas não podia continuar. Em poucos minutos decidi fundar a minha própria empresa, para tentar fazer arquitectura tal como a entendia. Sabia que ia ser difícil, mas não queria morrer sem ao menos ter tentado. Apelei aos antigos companheiros das Belas-Artes, mas estavam todos instalados na vida – também eles tinham triunfado, e já não lhes apetecia muito correr riscos. Lancei-me então sozinho. Retomei o contacto com o Bernard Lamarche-Vadel: tínhamo-nos conhecido alguns anos antes, tínhamos simpatizado um com o outro, e ele apresentou-me a gente da figuração livre: Combas, Di Rosa… Não sei se já te falei de William Morris…
- Já, sim, papá, acabaste há cinco minutos de me falar dele.
- Ah… - Interrompeu-se, e atravessou-lhe o rosto uma expressão alucinada. – Vou experimentar um Dunhill… - Puxou algumas fumaças. – Também é bom; é diferente dos Gitanes, mas é bom. Não percebo porque é que toda a gente deixou de fumar de repente.
Calou-se, saboreou o seu cigarro até ao fim. Jed esperava. Lá fora, muitoa o longe, uma buzina solitária tentava interpretar «Nasceu-nos um menino»; falhava notas e repetia; e depois voltou ao silêncio: não houve concerto de buzinas. Nos telhados de Paris, a camada de neve era agora espessa, estabilizada: havia qualquer coisa de definitivo naquele silêncio, pensou Jed.
- William Morris era próximo dos pré-rafaelitas – continuou o pai -, de Gabriel Dante Rossetti ao princípio, e de Burne-Jones até ao fim. A ideia fundamental dos pré-rafaelitas é que a arte começou a degenera logo após a Idade Média, que desde o início do Renascimento se separou de toda a espiritualidade, de toda a autenticidade, e se tornou uma actividade puramente industrial e comercial, e que os assim chamados grandes mestres do Renascimento – quer sejam Botticelli, Rembrandt ou Leonardo da Vinci – na realidade se comportavam pura e simplesmente como chefes de empresas comerciais; exactamente como hoje em dia Jeff Koons ou Damien Hirst, os grandes mestres do Renascimento dirigiam com pulso de ferro oficinas de cinquenta, ou até cem assistentes, que produziam em cadeia quadros, esculturas, frescos. Eles, pessoalmente, limitavam-se a fornecer a orientação geral, a assinar a obra acabada, e sobretudo dedicavam-se às relações públicas junto dos mecenas do momento – príncipes ou papas. Para os pré-rafaelitas, tal como para William Morris, a distinção entre a arte e o artesanato, entre a concepção e a execução, devia ser abolida: todo o homem, à sua escala, podia ser um produtor de beleza – seja na produção de um quadro, de uma peça de vestuário ou de um móvel; e igualmente todo o homem tinha o direito de, na sua vida quotidiana, estar rodeado de objectos belos. Ele aliava esra convicção a um activismo socialista que o levou, cada vez mais, a empenhar-se nos movimentos de emancipação do proletariado; pretendia pura e simplesmente pôr fim ao sistema de produção industrial.
«O que é curioso é que Gropius, quando fundou a Bauhaus, estava exactamente na mesma linha – talvez um pouco menos política, com mais preocupações espirituais, embora na realidade também ele tenha sido socialista. Na Proclamação da Bauhaus de 1919 declara pretender ultrapassar a oposição entre arte e artesanato, proclama o direito à beleza para todos: exactamente o programa de William Morris. Mas a pouco e pouco, à medida que a Bauhaus se aproximou da indústria, tornou-se cada vez mais funcionalista e produtivista; Kandinsky e Klee foram marginalizados dentro do corpo docente e, no momento em que o instituto foi fechado por Goering, a verdade é que ele se passara para o serviço da produção capitalista.
«E nós, nós não estávamos verdadeiramente politizados; mas o pensamento de William Morris ajudou-nos a libertar-nos do interdito que Le Corbusier lançara sobre qualquer forma de ornamentação. Lembro-me de que Combas era inicialmente bastante reservado – aquele não era verdadeiramente o universo dos pintores pré-rafaelitas; mas tinha que concordar que os motivos de papel pintado desenhados por William Morris eram belíssimos, e quando compreendeu de verdade do que se tratava tornou-se um total entusiasta. Nada poderia dar-lhe maior prazer que desenhar motivos para tecidos de decoração, papéis pintados ou frisos exteriores, repetidos em todo um conjunto de edifícios. No entanto os da figuração livre estavam bastante sozinhos na época, pois a corrente minimalista continuava a ser dominante e o graf ainda não existia – pelo menos não se falava nele. Então montaram-se processos para todos os projectos mais ou menos interessantes que eram objecto de concurso, e ficou-se à espera…

O pai calou-se de novo, ficou como que suspenso nas suas recordações, e depois encolheu-se, pareceu tornar-se mais pequeno, adelgaçar-se, e Jed tomou então consciência do arrebatamento, do entusiasmo como que ele estivera a falar naqueles últimos minutos. Nunca desde criança o ouvira falar assim – e pensou imediatamente que nunca mais tornaria a ouvi-lo falar assim; ele acabava de reviver pela última vez a esperança e o fracasso que constituíam a história da sua vida. Em geral, uma vida humana pouca coisa é, pode resumir-se a um restrito número de acontecimentos, e desta vez Jed compreendera de verdade a amargura e os anos perdidos, o cancro e o stress, e também o suicídio da mãe.
- Os funcionalistas estavam numa posição dominante em todos os júris… - concluiu o pai suavemente. – Eu esbarrei num vidro; todos nós esbarrámos num vidro. Combas e Di Rosa não recuaram imediatamente, telefonaram-me durante anos para saber se alguma coisa se desbloqueava… Depois, vendo que nada acontecia, concentraram-se no seu trabalho de pintores. E eu tive mesmo que acabar por aceitar uma encomenda normal. A primeira foi Port-Ambarès – e depois acumulou-se tudo, sobretudo arranjos de estâncias balneares. Arrumei os meus projectos em pastas de cartão, que continuam num armário do meu escritório, no Raincy, poderás ir lá vê-los…
Reteve-se quando ia a dizer «depois de eu morrer», mas Jed compreendera perfeitamente.


O Mapa e o Território | Michel Houellebecq / 2010

Felizes os que morreram por cidades carnais,/Porque elas são o corpo da cidade de Deus

Virgem Negra, Rocamadour, França 

Desde o início da minha estadia que me habituara a ir todos os dias à capela Notre-Dame e a sentar-me uns minutos diante da Virgem Negra - a mesma que há mais de mil anos inspirava tantas peregrinações e perante a qual se tinham ajoelhado tantos santos e tantos reis. Era uma imagem estranha, que testemunhava um universo inteiramente desaparecido. A Virgem estava sentada, muito direita; o seu rosto de olhos fechados, tão distante que parecia extraterrestre, estava coroada com um diadema. O Menino Jesus - que em boa verdade não tinha feições de criança, mas é adulto, e até de velho - estava sentado, também ele muito direito, nos joelhos da Virgem; também ele tinha olhos fechados, e o seu rosto penetrante, sábio e poderoso estava igualmente encimado por uma coroa. Não havia qualquer ternura, qualquer carência maternal quer na atitude dos olhos, quer na do rosto. Não era o Menino Jesus que ali estava representado; era já o rei do mundo. A sua serenidade, a sensação de poder espiritual, de força intangível que dele emanavam eram quase assustadoras. 

Matthias Grünewald, A Crucificação (detalhe), 1523–1525 



Esta representação sobre-humana estava nos antípodas do Cristo torturado, sofredor, que fora representado por Matthias Grünewald e que tanto impressionara Huysmans. A Idade Média de Huysmans era a idade gótica e até mesmo do gótico tardio: patética, realista, moral, estava já próxima do Renascimento, mais do que da era romana. Eu lembrava-me de uma conversa que tivera, uns anos antes, com um professor de história da Sorbonne. No início da Idade Média, explicará-me ele, a questão do julgamento individual quase não se colocava; foi muito mais tarde, com Hiëronymus Bosh, por exemplo, que surgiram as representações assustadoras em que Cristo separa a corte dos eleitos da legião dos condenados; em que há diabos a arrastar para os suplícios do Inferno os pecadores não arrependidos. A visão romana era diferente, muito mais unanimista: ao morrer, o crente entrava num estado de sono profundo e recolhia-se na terra. Após o cumprimento de todas as profecias, na hora do segundo advento de Cristo, era o povo cristão inteiro, unido e solidário, que se erguia do túmulo, ressuscitado no seu corpo glorioso, e que se punha e, marcha para o Paraíso. 

Hiëronymus Bosh, Jardim das Delícias (detalhe), 1490-1510


O julgamento moral, o julgamento individual, a individualidade em si mesma não eram noções compreendidas pelos homens da idade romana, e também eu sentia a minha individualidade a dissolver-se, ao longo dos meus sonhos cada vez mais prolongados diante da Virgem de Rocamadour. 



Submissão | Michel Houellebecq / 2015

poetry don’t work on whores




Se o western já não é um género e mais um tema a paisagem já não é aberta e redentora (Ford) mas claustrofóbica e pedaço inapelável da própria narrativa.
É a narrativa agora território onde se espalham os estilhaços das personagens. Uma declaração dos contornos psicológicos de quem percorre a paisagem.

A Fronteira não é a promessa: a Fronteira é uma paisagem psicológica onde se coreografa a morte permanentemente anunciada. O Great Wide Open é a assombrada errância de Jesse James e da lenda em que ele próprio se converteu. A encenação na beleza da paisagem de um destino que transcende já no aqui e no agora.











O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford | Andrew Dominik / 2007

A minha Pátria é o meu iPhone

DESH | Akram Khan Company / 2014









'Não faço a mínima ideia onde estou', replica Khan, em Londres, ao miúdo do call center, no Bangladesh. Uma metáfora mas também, depois uma viagem literal: 'Já sei onde estou'.



O tempo passa? Não passa / no abismo do coração.

Boyhood | Richard Linklater / 2014





























Passa o tempo e as coisas nunca encontram os nomes. As coisas que colidem, que se desencontram, que se desacertam, as coisas que se acertam, eventualmente, as coisas que se perdem, as coisas que se desaprendem. As coisas banais, as autênticas, as reais. E talvez seja essa a forma em Boyhood e nos nossos dias banais, em acerto desacertado com a substância da vida.