8. Com certezas, não pode haver estilo: a preocupação de dizer bem é o apanágio daqueles que não conseguem adormecer numa fé. À falta de um apoio sólido, agarram-se às palavras - simulacros de realidade; enquanto os outros, fortes nas suas convicções, desprezam a aparência e se refastelam no conforto da improvisação.
Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
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7. Se Molière se tivesse debruçado sobre os seus abismos, Pascal - com os seus - teria feito figura de jornalista.
Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
- | João Amaro Correia / 29.1.16
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6. Gosto tanto dos espíritos de segunda categoria ( Joubert, acima de todos) que, por delicadeza, viveram à sombra do génio dos outros e, receando poder tê-lo, se privaram do seu!
Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
- | João Amaro Correia / 28.1.16
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5. Das «verdades»,já não queremos suportar o peso, nem sermos delas vítimas ou cúmplices. Sonho com um mundo onde se morresse por uma vírgula.
Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
- | João Amaro Correia / 27.1.16
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4. Sem as dúvidas que temos acerca de nós próprios, o nosso cepticismo seria letra morta, inquietação convencional, doutrina filosófica.
Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
- | João Amaro Correia / 25.1.16
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Para o Mar
Avançar sobre o murete que separa
A estrada do passeio à beira mar
Recorda, vívido, o que em tempos conheci:
A alegria em miniatura das praias.
Tudo se amontoa sob um baixo horizonte:
Praia íngreme, mar azul, toalhas, toucas garridas,
Desmaio sussurrado e repetido de ondinhas
Sobre a areia clara e quente, e mais ao longe,
Encalhado na tarde, o casco branco de um vapor –
E ainda é assim, tudo, tudo ainda é assim!
Deitar-se, comer, dormir com as ondas em fundo
(De ouvidos nos transistores, um som remansado
Debaixo do céu), ou levar pela mão, para baixo e para cima,
Meninos acanhados, de folhos brancos
E agarrando-se ao ar imenso: ou empurrar
Velhos hirtos em cadeiras de rodas, para gozarem
Um último Verão- tudo isto ainda acontece,
Em parte um prazer de cada ano, em parte um ritual,
Como quando, feliz por estar só, eu procurava
Na areia cromos de Jogadores de Cricket,
Ou, muito antes, os meus pais se conheceram
Ao som do mesmo cacarejar de praia.
Alheio agora a tudo isso, observo a cena sem nuvens:
A mesma água límpida sobre seixos polidos,
Ao longe a voz dos banhistas em protestos agudos,
Já no limiar e depois os charutos baratos,
Os papéis de chocolates, as folhas de chá e, entre
As rochas, as latas a enferrujar, até que umas poucas
Famílias começam o caminho de volta aos carros.
O vapor branco já partiu. Como vidro embaciado,
A luz do sol esbranquiçou. Se a pior coisa
De um tempo imaculado é não estarmos à altura,
Pode ser que com o hábito esta gente refine,
Vindo a banhos tão sem jeito despida
Ano após ano, ensinando os seus filhos com uma espécie
De momice; e ajudando os velhos, também, como deve ser.
Para o Mar | in Janelas Altas | Philip Larkin / Trad. de Rui Carvalho Homem / Ed. Cotovia
A estrada do passeio à beira mar
Recorda, vívido, o que em tempos conheci:
A alegria em miniatura das praias.
Tudo se amontoa sob um baixo horizonte:
Praia íngreme, mar azul, toalhas, toucas garridas,
Desmaio sussurrado e repetido de ondinhas
Sobre a areia clara e quente, e mais ao longe,
Encalhado na tarde, o casco branco de um vapor –
E ainda é assim, tudo, tudo ainda é assim!
Deitar-se, comer, dormir com as ondas em fundo
(De ouvidos nos transistores, um som remansado
Debaixo do céu), ou levar pela mão, para baixo e para cima,
Meninos acanhados, de folhos brancos
E agarrando-se ao ar imenso: ou empurrar
Velhos hirtos em cadeiras de rodas, para gozarem
Um último Verão- tudo isto ainda acontece,
Em parte um prazer de cada ano, em parte um ritual,
Como quando, feliz por estar só, eu procurava
Na areia cromos de Jogadores de Cricket,
Ou, muito antes, os meus pais se conheceram
Ao som do mesmo cacarejar de praia.
Alheio agora a tudo isso, observo a cena sem nuvens:
A mesma água límpida sobre seixos polidos,
Ao longe a voz dos banhistas em protestos agudos,
Já no limiar e depois os charutos baratos,
Os papéis de chocolates, as folhas de chá e, entre
As rochas, as latas a enferrujar, até que umas poucas
Famílias começam o caminho de volta aos carros.
O vapor branco já partiu. Como vidro embaciado,
A luz do sol esbranquiçou. Se a pior coisa
De um tempo imaculado é não estarmos à altura,
Pode ser que com o hábito esta gente refine,
Vindo a banhos tão sem jeito despida
Ano após ano, ensinando os seus filhos com uma espécie
De momice; e ajudando os velhos, também, como deve ser.
Para o Mar | in Janelas Altas | Philip Larkin / Trad. de Rui Carvalho Homem / Ed. Cotovia
- | João Amaro Correia / 22.1.16
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Existe na estupidez uma seriedade que, melhor orientada, poderia multiplicar o número de obras-primas.
3. Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
3. Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
- | João Amaro Correia / 22.1.16
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Tantas páginas, tantos livros que foram as nossas fontes de emoção, e que relemos para estudar neles a qualidade dos advérbios ou a propriedade dos adjectivos!
2. Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
2. Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
- | João Amaro Correia / 21.1.16
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moradas
1. Formados na escola dos caprichosos, idólatras do fragmento e do estigma, fazemos parte de um tempo clínico em que apenas contam os casos. Debruçamo-nos sobre aquilo que um escritor calou, sobre aquilo que poderia ter dito, sobre as suas profundezas mudas. Se ele deixar uma obra, se ele se explica, pode contar com o nosso esquecimento. Magia do artista irrealizado..., de um vencido que deixa fugir as suas decepções, que não sabe fazê-las frutificar.
Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas
- | João Amaro Correia / 20.1.16
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o estado a que chegámos
A partir da rodagem d'O Estado das Coisas (1982) chegamos a Lisboa e ao final deste 2015. Atravessámos um país à velocidade das transformações aceleradas e das bruscas travagens sociais. Viagem por um país, pela cultura de um país, condenado a reconhecer-se pelo olhar do outro.
Wim Wenders | À luz do dia até os sons brilham
- | João Amaro Correia / 18.11.15
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notas sobre o deserto#2
Mleeta Resistance Tourist Landmark, Líbano | Ambroise Tézenas
Secreção do tempo. Desta estação da nossa História.
Mais que a esteticização do mal – moral ou natural – é a transformação e espectacularização da miséria. De caminho, tudo transformado em experiência, logo, transaccionável. O mundo, a história, o sofrimento, a capacidade de tudo se colocar no mercado. O humano, luminoso e sombrio, no que de mais íntimo tem, sujeito à lei da oferta e da procura. E sabemos como se regula essa lei: des lieux de mort devenus des destinations touristiques.
Mais que a esteticização do mal – moral ou natural – é a transformação e espectacularização da miséria. De caminho, tudo transformado em experiência, logo, transaccionável. O mundo, a história, o sofrimento, a capacidade de tudo se colocar no mercado. O humano, luminoso e sombrio, no que de mais íntimo tem, sujeito à lei da oferta e da procura. E sabemos como se regula essa lei: des lieux de mort devenus des destinations touristiques.
Uma série, por exemplo, I Was There. Como de alguém proveniente das classes-médias ocidentais a quem as low-cost e o indolente estado social proporcionam uma semana de álcool e alienação em Ibiza. e profusamente a regista em selfies propagadas pelas redes sociais. Perfis que amontoam experiências atrás de experiências, consumo sobre consumo. Espectadores passivos do mundo e da vida que consumimos olhamo-los/nos com o olhar entorpecido, narcotizado, distorcido, degradado, pelo valor meramente utilitário com que as coisas são trocadas.
- | João Amaro Correia / 13.7.15
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