Apanhado nas armadilhas do zeitgeist – pós-queda de Lehman Brothers – faz de Ryan Bingham a representação já não do yuppie todo-poderoso, implacável do cimo da sua solidão, mas da queda, do desamparo do animal ferido na vertigem deste tempo.
As coisas são o que são e já não são como outrora para poderem ser o que sempre foram. E serão.
Depois, é o confronto com os sinais desta abertura do século: o hedonismo nihilista que todos os laços reduz a pó, a queda, a quebra, a rasura de qualquer vínculo e a próximidade e o encontro como perigo indisfarçável do possível desmoronar da fortaleza da indiferença. Pobres de nós humanos, a nossa necessidade de consolo é possível de satisfazer.
Up in the Air | Jason Reitman | EUA / 2010
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A nossa necessidade de consolo é possível de satisfazer
- | João Amaro Correia / 1.2.16
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Tremendas Trivialidades
Extrair o drama da trivialidade, do humdrum da vida de todos os dias, é o tema de Leigh. Talvez a desagregação psicológica de Mary, por exemplo, seja a travessia solitária de cada um de nós pelo deserto onde a contemporaneidade nos lança. Talvez. E talvez aquilo que nos parece um dom ou um dado adquirido, a tranquilidade e o amor que envolvem Tom e Gerri e Joe, não seja menos que um projecto inteiro e íntegro de vida. E isso, certamente, é o que chama todos à mesa da sua morada.
Another Year | Mike Leigh | Inglaterra / 2010
Another Year | Mike Leigh | Inglaterra / 2010
- | João Amaro Correia / 27.1.16
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where the suburbs met utopia
where the suburbs met utopia
where the suburbs met utopia
Lost in the high street, where the dogs run
roaming suburban boys
Mother's got her hairdo to be done
She says they're too old for toys
Stood by the bus stop with a felt pen
in this suburban hell
and in the distance a police car
to break the suburban spell
Let's take a ride
and run with the dogs tonightin suburbia
You can't hide
Run with the dogs tonight
in suburbia
Break the window by the town hall
Listen! A siren screams
there in the distance like a roll call
of all the suburban dreams
Let's take a ride
and run with the dogs tonight
in suburbia
You can't hide
run with the dogs tonight
in suburbia
I only wanted something else to do but hang around
I only wanted something else to do but hang around
It's on the front page of the papers
This is their hour of need
Where's a policeman when you need one
to blame the colour TV?
Let's take a ride
and run with the dogs tonight
in suburbia
You can't hide
run with the dogs tonight
in suburbia
Suburbia
where the suburbs met utopia
What kind of dream was this
so easy to destroy?
And who are we to blame
for the sins of the past?
These slums of the future?
suburbia
where the suburbs met utopia
suburbia
where the suburbs met utopia
Suburbia | Pet Shop Boys / 1986
where the suburbs met utopia
Lost in the high street, where the dogs run
roaming suburban boys
Mother's got her hairdo to be done
She says they're too old for toys
Stood by the bus stop with a felt pen
in this suburban hell
and in the distance a police car
to break the suburban spell
Let's take a ride
and run with the dogs tonightin suburbia
You can't hide
Run with the dogs tonight
in suburbia
Break the window by the town hall
Listen! A siren screams
there in the distance like a roll call
of all the suburban dreams
Let's take a ride
and run with the dogs tonight
in suburbia
You can't hide
run with the dogs tonight
in suburbia
I only wanted something else to do but hang around
I only wanted something else to do but hang around
It's on the front page of the papers
This is their hour of need
Where's a policeman when you need one
to blame the colour TV?
Let's take a ride
and run with the dogs tonight
in suburbia
You can't hide
run with the dogs tonight
in suburbia
Suburbia
where the suburbs met utopia
What kind of dream was this
so easy to destroy?
And who are we to blame
for the sins of the past?
These slums of the future?
suburbia
where the suburbs met utopia
suburbia
where the suburbs met utopia
Suburbia | Pet Shop Boys / 1986
- | João Amaro Correia / 25.1.16
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dysfunction follows form
Arranha Céus | J.G. BAllard | 1975 / Trad. Marta Mendonça, Rute Mota
O tempo do idealismo, o optimismo tornado barbárie.
A humanidade degradada e incapaz de escapar à natureza.
A liberdade é tão mais preciosa quanto Eros e tanathos não se eximem a exterminá-la.
Michael Wolf
O tempo do idealismo, o optimismo tornado barbárie.
A humanidade degradada e incapaz de escapar à natureza.
A liberdade é tão mais preciosa quanto Eros e tanathos não se eximem a exterminá-la.
Michael Wolf
- | João Amaro Correia / 22.1.16
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Musa Consolatrix
Juventude | Paolo Sorrentino | Itália / 2015
Que a mão do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida,
Musa consoladora,
É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.
Não há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
De íntima paz, de vida e de conforto.
Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
À enchente das angústias;
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.
Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A última ilusão cair, bem como
Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, — e terá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz, o último bem, último e puro!
Musa Consolatrix | Machado de Assis
Que a mão do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida,
Musa consoladora,
É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.
Não há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
De íntima paz, de vida e de conforto.
Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
À enchente das angústias;
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.
Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A última ilusão cair, bem como
Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, — e terá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz, o último bem, último e puro!
Musa Consolatrix | Machado de Assis
- | João Amaro Correia / 22.1.16
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buy land, buy land, they doesn't do more
O dinheiro é o deus.
Os mercados a sua religião.
Os milhões de desempregados as vítimas sacrificiais sobre o seu altar.
The Big Short | Adam McKay | EUA / 2016
Os mercados a sua religião.
Os milhões de desempregados as vítimas sacrificiais sobre o seu altar.
The Big Short | Adam McKay | EUA / 2016
- | João Amaro Correia / 22.1.16
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Das festas, as vésperas
O tempo em que as puídas sombras do passado se transformam na rocha luminosa da verdade.
45 Years | Andrew Haigh | Inglaterra / 2015
- | João Amaro Correia / 22.1.16
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uma seta no coração do dia
A arte há de sobreviver às suas ruínas | Anselm Kiefer / Deriva Editores / 2015
A arte tem de ser dano.
O espinho na carne, o cisco no olho que cega apenas nos permite aceder ao invisível.
A arte tem de ser dano.
O espinho na carne, o cisco no olho que cega apenas nos permite aceder ao invisível.
- | João Amaro Correia / 18.9.15
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passagem
Tudo é santo, tudo é santo, tudo é santo. Não há nada natural na natureza, meu menino. Lembre-se. Quando a natureza te parecer natural, tudo estará acabado. E começará algo de novo. Adeus céu! Adeus mar! Sim, tudo é divino. Mas a divindade é também uma maldição: Deuses amam e odeiam ao mesmo tempo.
Medea | Pier Paolo Pasolini / 1969
É Medeia a estreita passagem (singular e colectiva) que obrigatoriamente teremos que fazer do irracional para o racional. Do mundo informe e caótico organizado pelos nossos demónios à capacidade de tentarmos compreender pelo logos, pela Verdade.
De uma arquitectura «orgânica» incrustada à «realidade natural»
para uma arquitectura calculada para lugar do Homem.
Medea | Pier Paolo Pasolini / 1969
É Medeia a estreita passagem (singular e colectiva) que obrigatoriamente teremos que fazer do irracional para o racional. Do mundo informe e caótico organizado pelos nossos demónios à capacidade de tentarmos compreender pelo logos, pela Verdade.
De uma arquitectura «orgânica» incrustada à «realidade natural»
para uma arquitectura calculada para lugar do Homem.
- | João Amaro Correia / 8.9.15
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Zé do Pipo no país das maravilhas
As 1001 Noites, Vol. 1, O Inquieto | Miguel Gomes | Portugal / 2015
O mais espantoso no cinema de Miguel Gomes é o milagre. E a recusa do cinismo.
A sensibilidade com que as personagens são filmadas e, muitas delas, a simplicidade com que crescem e inadvertidamente nos colocam na desconfortável posição de alguém que volta a acreditar (em qualquer coisa de humano).
Se a personagem principal de As 1001 Noites – O Inquieto somos nós, Portugueses, enquanto comunidade, tal só se compreende a partir das personagens singulares – tantos de nós – que a suportam. Assim como a vida que nos junta em comunidade é mais que o somatório de cada um dos nossos percursos singulares, o filme de Miguel Gomes, é mais, muito mais, que as tragédias, as pequenas ou grandes misérias, as virtudes e as fragilidades de cada personagem.
A verdade da experiência cinematográfica de As 1001 Noites – O Inquieto é o incessante trabalho de tactear uma sociedade deprimida, abatida, depauperada, sem esperança, por entre um amoroso labor de aproximação a cada uma das personagens (que poderia ser cada um de nós). Labor, entretecido entre o documentário e a ficção, feito de riso e lágrimas, de esperança e angústia, enfim, da argamassa que nos cola à Vida e uns aos outros.
O mais espantoso no cinema de Miguel Gomes é o milagre. E a recusa do cinismo.
A sensibilidade com que as personagens são filmadas e, muitas delas, a simplicidade com que crescem e inadvertidamente nos colocam na desconfortável posição de alguém que volta a acreditar (em qualquer coisa de humano).
Se a personagem principal de As 1001 Noites – O Inquieto somos nós, Portugueses, enquanto comunidade, tal só se compreende a partir das personagens singulares – tantos de nós – que a suportam. Assim como a vida que nos junta em comunidade é mais que o somatório de cada um dos nossos percursos singulares, o filme de Miguel Gomes, é mais, muito mais, que as tragédias, as pequenas ou grandes misérias, as virtudes e as fragilidades de cada personagem.
A verdade da experiência cinematográfica de As 1001 Noites – O Inquieto é o incessante trabalho de tactear uma sociedade deprimida, abatida, depauperada, sem esperança, por entre um amoroso labor de aproximação a cada uma das personagens (que poderia ser cada um de nós). Labor, entretecido entre o documentário e a ficção, feito de riso e lágrimas, de esperança e angústia, enfim, da argamassa que nos cola à Vida e uns aos outros.
- | João Amaro Correia / 31.8.15
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A sociedade da fealdade
A moda, como assunto sério, é bastante mais esclarecedora sobre a sociedade e o indivíduo dentro dela que qualquer tese ou dissertação em «ciências» sociais da Nova ou do ISCTE (dado que estas obedecem a uma natureza ideológica mais preocupada em fazer política que na procura da Verdade). A moda como hábitos e costumes com que atravessamos o quotidiano e não o mero campo da disciplina do desenho de vestuário, bem entendido.
A aceleração da sociedade de consumo e a omnipresença das mesmas imagens propagadas em todos os lugares do planeta tem efeito imediato na homogeneização da(s) cultura(s) (não só) visual e produzem uma profunda modificação (antropológica) no modo como o indivíduo se reconhece a si mesmo dentro das teias de relações sociais em que se insere. A exposição, cada vez mais acentuada, de todos nós às mesmas imagens resulta no seu consumo irreflectido e, a partir daqui, na elaboração de estratégias individuais que afirmem a individualidade dentro da terraplanagem cultural em curso.
Ora, resulta daqui a necessidade de se questionar o estatuto da imagem, da política da imagem e, para o que aqui interessa, a relação do indivíduo com essas imagens e como as interpreta no seu quotidiano, no modo de falar, de se vestir, no modo como se faz visível no meio do turbilhão onde todos nos queremos destacar - e aqui há que compreender, entre outras coisas, os fundamentos da cultura da sociedade de consumo, que insistem (como um martelo sobre as consciências) na promoção da «novidade», na celebração do «original», no recuo do espaço público de tudo (e todos) o que não obedeça a um padrão social que alimente a roda do consumo (os velhos com cada vez menos visibilidade; as crianças vistas como tábua rasa para endoutrinação de futuros consumidores, por exemplo).
São mais que conhecidos os efeitos estéticos e éticos desta voracidade. Como uma embriaguez de imagens e ruídos que a todos deixa em transe e incapazes de tecer um murmúrio crítico (racional) que seja. Enfim, uma sociedade de alienados sem capacidade de qualquer de subverter a ordem do consumo. Sendo a própria subversão absorvida pelas lógicas do mercado e tornadas, instantâneamente, produto disponível para consumo – e é esta a tremenda perversão do estádio actual do capitalismo que, tendo a capacidade para em tudo colocar um preço, chegou a hora, agora, de colocar cada um de nós, a partir do seu mais íntimo, à venda.
A tatuagem (e o piercing), por exemplo.
Até há pouco tempo significantes da fuga aos valores dominantes inscrita na pele, é agora, massificada e «democratizada» a incisão visível da ambiguidade com que, por via dos mecanismos do consumo, se debate cada indivíduo do interior da sua esfera mais íntima.
Se, por um lado, a tatuagem pretende a individuação radical do sujeito - tão radical que este se submete a sessões de tortura com agulhas para a inscrever – através dos desenhos que se supõem «únicos» e «originais», é, por outro lado, sinónimo da massificação do gosto e da padronização de comportamentos. O objecto que se pretendia único e singular, numa sociedade onde cada vez mais somos iguais uns aos outros no gosto e no desejo, desenhado para afirmar veementemente os valores individuais do sujeito, é afinal, agora, símbolo da sujeição e submissão passiva e acrítica do sujeito a esses mesmos valores que pretendia contrariar. O 'mercado', mais uma vez, açambarcou as 'margens' que dele procuravam fugir. O mercado insidiosamente chegou à alma.
***
O discurso progressista, assente na língua-de-pau das «diversidades» concorre e é, afinal, o idiota útil do rolo compressor consumista que não deixa nada, absolutamente nada, de fora do mercado.
***
Lateralmente: um outro facto pode estar na origem da proliferação das (horríveis) tatuagens. Se o substracto antropológico do cristianismo em que se fundava a nossa civilização afirmava cada mulher e cada homem como ser único, singular, feito à imagem de Deus, estava tatuado no espírito e na alma de cada mulher e de cada homem essa singularidade e originalidade irrepetíveis, sem necessidade de exteriorização da individualidade. No novo mundo, ateu e secular, sem qualquer tipo de referência à singularidade do ser humano e onde o sujeito é mera célula do quadro excel, é necessário o recurso a estratégias de visibilidade que afirmem explicitamente o sujeito.
You can run, but you can't hide. Nada nem ninguém está a salvo do nihilismo consumista.
***
Sobra a questão do belo e do corpo. E a recusa modernista - ocupado que estava o modernismo com a funcionalidade e a objectividade a partir da tábula-rasa da História - em pensar o belo. O pós-modernismo querendo recuperar a História pretendeu fazê-lo através da ironia. E a ironia pouco mais realizou que a irrisão. E hoje, o coração do pensamento e da produção artísticas contemporâneos é a mortal derrisão. O nihilismo (narcisista) a partir do qual hoje olhamos para o mundo - e o pretendemos conformar à nossa subjectividade - recusa qualquer absoluto. Qualquer ideia de que se suspeite pôr em causa a cadeia da relativização dos valores é atirada para o beco do anátema intelectual. Muito menos recuperar a categoria do belo para pensar o mundo. Nada pode travar a (transcendente) máquina do mercado que perversamente nos seduz à sua servidão usando a nossa própria liberdade como via. Produzir um juízo estético sobre os gatafunhos inscritos sobre a pele é, na fantasia da liberdade que o mercado nos serve, um pecado contra a emancipação do gosto e do corpo. Obviamente, a relativização do gosto e o uso do corpo como território político, são os meios pelos quais a fealdade se massifica. Estamos cada vez mais rodeados do feio.
- | João Amaro Correia / 28.8.15
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Via Crucis do Corpo: a Paixão de Maria
I. Jesus é condenado à morte
II. Jesus carrega a cruz às costas
III. Jesus cai pela primeira vez
IV. Jesus encontra a sua Mãe
V. Simão Cirineu ajuda a Jesus
VI Verónica limpa o rosto de Jesus
VII. Jesus cai pela segunda vez
VIII. Jesus encontra as mulheres de Jerusalém
IX. Jesus cai pela terceira vez
X. Jesus é despojado de suas vestes
XI. Jesus é pregado na cruz
XII. Jesus morre na cruz
XIII. Jesus é descido da cruz
XIV. Jesus é Sepultado
Jesus ressucita dos mortos
Estações da Cruz | Dietrich Brüggemann, Ann Brüggemann | Alemanha / 2014
Não é sem algum embaraço que assistimos a Estações da Cruz. O redutor simplismo com que nos vamos colocando as questões da fé e da experiência dessa fé no concreto da vida é fortemente abalado pela, ela sim, simplicidade cortante deste filme. Por apenas 14 planos fixos, um por cada estação da Via Crucis, acompanhamos a trágica jornada espiritual de Maria.
Proveniente de uma minoritária comunidade que se organiza em volta da Fraternidade Sacerdotal de S.Paulo (ficção a partir da excomungada Fraternidade Sacerdotal S. Pio X) Maria, 14 anos, vive enredada entre as contradições do legalismo com que a família e o padre Weber vivem e lhe transmitem a fé, as pulsões naturais de uma adolesce e a censura, quando não intolerância, de um mundo cada vez mais secularizado, sexualizado e adverso à gramática do religioso.
Na semana que antecede a Confirmação, e no seu percurso de preparação para este Sacramento, Maria dá a sua vida em sacrifício pela cura do pequeno irmão autista. É esta a motivação com que Maria se propõe a um caminho de santidade. E aqui a perplexidade surge-nos, desde logo, pelo contexto rigorista em que Maria cresce.
Em Estações da Cruz a forma é inextricável das questões que levanta. A coincidência formal das 14 estações do caminho da Cruz com os 14 longos planos fixos em que se desenvolve o filme é essencial para a compreensão deste olhar cru sobre os mistérios da fé e da experiência religiosa. A austeridade formal e a secura da câmara relegam à palavra o privilégio na construção das relações que as personagens estabelecem entre si. E é pela palavra que Maria procura, inocentemente, dizer-se e dizer Deus. Sem questionarmos a autenticidade da fé de Maria – por ser o indizível a paradoxal forja da fé de cada mulher e homem - é questionável o rigor implacável com que lhe são transmitidos os fundamentos dessa fé.
Estações da Cruz recusa a provocação fútil ou sequer propõe um juízo na apresentação das personagens que, a nossos olhos, porventura corrompem e distorcem os fundamentos da fé católica. Antes, somos interpelados pelo mistério da fé. E é aqui o enigma do filme: uma fé que pode ser destrutiva e disruptiva se vivida pelo rigor da letra da lei; ou resgate do Homem e da sua humanidade interpelado pelo Deus do amor e misericórdia.
É do ventre da experiência religiosa que nascem as civilizações, apesar da original e trágica hipótese moderna de um mundo sem Deus. Quando o Papa Ratzinger nos diz que “existem tantos caminhos para Deus quantos os seres humanos” sabemos que a experiência religiosa é absolutamente diversa em cada um de nós. Radicalmente diferente. Na certeza de que a busca de Deus é provavelmente a mais radical experiência humana. E aquela que, desde os alvores da Humanidade, dá forma às civilizações. A questão central em Estações da Cruz é o modo como a teia legalista sufoca a fé de Maria e, por extensão, a própria Maria. Por Paulo somos advertidos de que a «letra mata» - e se há alguém vive com radicalidade o Espírito d'O Ressuscitado é o Apóstolo – e é a esta luz que a Cruz, aqui, vai perdendo o seu sentido, amarrada a uma rede asfixiante que destrói aquilo que, pela fé, deverá ser radicalmente livre: o coração de cada mulher, o coração de cada homem.
Cristo suportava o Mal, o Demónio, as tentações e toda a sorte de contradições e fragilidades humanas. Mas Cristo não suportava os Fariseus na sua visão estrita da Lei. Foi contra o Fariseus que o Filho do Homem ergueu a espada e recusou a paz. Foi contra a detestável visão legalista da Lei, que aprisiona e encerra os homens numa infernal e hipócrita burocracia da Alma, que Jesus anunciou uma só Lei. A lei do Amor.
Ao contrário do que nos diz Dietrich Bruggemann, a Fé é mesmo para «levar a sério». Por isso tem necessariamente ser suportada pela Razão. Só uma Fé esclarecida pode, depois, iluminar a Razão.
Adenda: publicado no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
II. Jesus carrega a cruz às costas
III. Jesus cai pela primeira vez
IV. Jesus encontra a sua Mãe
V. Simão Cirineu ajuda a Jesus
VI Verónica limpa o rosto de Jesus
VII. Jesus cai pela segunda vez
VIII. Jesus encontra as mulheres de Jerusalém
IX. Jesus cai pela terceira vez
X. Jesus é despojado de suas vestes
XI. Jesus é pregado na cruz
XII. Jesus morre na cruz
XIII. Jesus é descido da cruz
XIV. Jesus é Sepultado
Jesus ressucita dos mortos
Estações da Cruz | Dietrich Brüggemann, Ann Brüggemann | Alemanha / 2014
Não é sem algum embaraço que assistimos a Estações da Cruz. O redutor simplismo com que nos vamos colocando as questões da fé e da experiência dessa fé no concreto da vida é fortemente abalado pela, ela sim, simplicidade cortante deste filme. Por apenas 14 planos fixos, um por cada estação da Via Crucis, acompanhamos a trágica jornada espiritual de Maria.
Proveniente de uma minoritária comunidade que se organiza em volta da Fraternidade Sacerdotal de S.Paulo (ficção a partir da excomungada Fraternidade Sacerdotal S. Pio X) Maria, 14 anos, vive enredada entre as contradições do legalismo com que a família e o padre Weber vivem e lhe transmitem a fé, as pulsões naturais de uma adolesce e a censura, quando não intolerância, de um mundo cada vez mais secularizado, sexualizado e adverso à gramática do religioso.
Na semana que antecede a Confirmação, e no seu percurso de preparação para este Sacramento, Maria dá a sua vida em sacrifício pela cura do pequeno irmão autista. É esta a motivação com que Maria se propõe a um caminho de santidade. E aqui a perplexidade surge-nos, desde logo, pelo contexto rigorista em que Maria cresce.
Em Estações da Cruz a forma é inextricável das questões que levanta. A coincidência formal das 14 estações do caminho da Cruz com os 14 longos planos fixos em que se desenvolve o filme é essencial para a compreensão deste olhar cru sobre os mistérios da fé e da experiência religiosa. A austeridade formal e a secura da câmara relegam à palavra o privilégio na construção das relações que as personagens estabelecem entre si. E é pela palavra que Maria procura, inocentemente, dizer-se e dizer Deus. Sem questionarmos a autenticidade da fé de Maria – por ser o indizível a paradoxal forja da fé de cada mulher e homem - é questionável o rigor implacável com que lhe são transmitidos os fundamentos dessa fé.
Estações da Cruz recusa a provocação fútil ou sequer propõe um juízo na apresentação das personagens que, a nossos olhos, porventura corrompem e distorcem os fundamentos da fé católica. Antes, somos interpelados pelo mistério da fé. E é aqui o enigma do filme: uma fé que pode ser destrutiva e disruptiva se vivida pelo rigor da letra da lei; ou resgate do Homem e da sua humanidade interpelado pelo Deus do amor e misericórdia.
É do ventre da experiência religiosa que nascem as civilizações, apesar da original e trágica hipótese moderna de um mundo sem Deus. Quando o Papa Ratzinger nos diz que “existem tantos caminhos para Deus quantos os seres humanos” sabemos que a experiência religiosa é absolutamente diversa em cada um de nós. Radicalmente diferente. Na certeza de que a busca de Deus é provavelmente a mais radical experiência humana. E aquela que, desde os alvores da Humanidade, dá forma às civilizações. A questão central em Estações da Cruz é o modo como a teia legalista sufoca a fé de Maria e, por extensão, a própria Maria. Por Paulo somos advertidos de que a «letra mata» - e se há alguém vive com radicalidade o Espírito d'O Ressuscitado é o Apóstolo – e é a esta luz que a Cruz, aqui, vai perdendo o seu sentido, amarrada a uma rede asfixiante que destrói aquilo que, pela fé, deverá ser radicalmente livre: o coração de cada mulher, o coração de cada homem.
***
Cristo suportava o Mal, o Demónio, as tentações e toda a sorte de contradições e fragilidades humanas. Mas Cristo não suportava os Fariseus na sua visão estrita da Lei. Foi contra o Fariseus que o Filho do Homem ergueu a espada e recusou a paz. Foi contra a detestável visão legalista da Lei, que aprisiona e encerra os homens numa infernal e hipócrita burocracia da Alma, que Jesus anunciou uma só Lei. A lei do Amor.
***
Ao contrário do que nos diz Dietrich Bruggemann, a Fé é mesmo para «levar a sério». Por isso tem necessariamente ser suportada pela Razão. Só uma Fé esclarecida pode, depois, iluminar a Razão.
Adenda: publicado no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
- | João Amaro Correia / 23.8.15
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A sociedade da demência
Protect me from what I want | Jenny Holzer / 1988
Diz-me os teus likes, dir-te-ei quem és.
O ethos do capitalismo neo-liberal na era da alienação (consumista) fez da liberdade a primeira vítima. Desbrava agora a última fronteira entre ser-se pessoa ou coisa: tudo está à venda; todos somos (e fazemo-nos) «produto».
Voluntarimente escolhemos (livremente) a mais profunda servidão.
- | João Amaro Correia / 18.8.15
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A estrada
Loin des Hommes | David Oelhoffen | França / 2014
Em última instância, o sentido adquire-se na sequência final em que Daru se separa de Mohamed depois de o invocar à raiva de estar vivo - apesar de tudo - num mundo sem sentido. Como se do caminhar, singular e único, contingente e imprevisível, de cada um de nós pela estrada árida da vida exala suficiente significado que contrarie o absurdo da existência. O absurdo inexplicável e indizível tornado crueldade pela cegueira com que, devotos, aderimos a uma qualquer causa que nos resgate de uma existência insignificante.
***
Longe dos homens quando impossibilitados de lhes oferecer uma clara e irrevogável particularidade que lhes permita classificar, arrumar, enquadrar, organizar, dominar, o impenetrável e inclassificável mistério que cada um de nós transporta.
- | João Amaro Correia / 17.8.15
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Ida
Da ferida nazi à máquina totalitária comunista viajamos com Ana (Ida) à procura do seu passado pelo passado da Polónia. E em cada frame recebemos um postal ilustrado desse passado recente da Polónia. Em road movie de câmara, permanece em aberto a dúvida e a fé e a contingência da dúvida e da fé.
Ida | Paweł Pawlikowski | Polónia / 2014
- | João Amaro Correia / 27.7.15
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Fillhos de Deus
Acha que as pessoas eram mais ruins nessa época do que são agora? indagou o auxiliar.
O velho contemplava a cidade inundada. Não, respondeu. Não me parece. Acho que as pessoas são iguais desde o dia em que Deus criou a primeira.
Filho de Deus | Cormac McCarthy / 1973
As personagens de Cormac McCarthy aproximam-nos de Deus.
O Mal existe e existe em cada um de nós. O mistério de cada ser humano é em McCarthy reduzido à cinza da impossível redenção. Vagantes, em deambulação incessante e louca, como indivíduos postos à margem da família humana, entregues a si mesmos e de si mesmos à sua própria loucura.
E talvez seja esta a palavra de Deus revelada por McCarthy: o silêncio brutal com que Deus confronta a ainda maior brutalidade de que cada um de nós é capaz. O silêncio de Deus diante do Mal.
Lester Ballard, por exemplo, patético assassino e necrófilo, que faz do sexo com os cadáveres que amontoa nas cavernas por onde pernoita o troféu de uma existência condenada à omissão da sua própria humanidade e que, exactamente do lado de lá da sua humanidade, se revela ele próprio humano.
O critério de McCarthy é a assunção da realidade do Mal que habita em nós e por nós no mundo. As suas personagens, em toda a sua sordidez, depravação e monstruosidade, não são o incomum, o excepcional, da gramática do ser. Pelo contrário, são a linguagem comum com que dizemos a nossa própria humanidade. Por isso as encontremos em permanente digressão, em incessante nomadismo à procura dessa humanidade.
Como a besta que é parte do humano, só desse reduto humano se pode aceder a uma possível salvação. Talvez seja essa humanidade que Deus permite que se revele no silêncio com que nos abandona.
- | João Amaro Correia / 23.7.15
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shoreline
Projecto de licenciamento para Castelo de Areia | Renzo Piano
É apenas uma questão de escala. Uma questão da natureza do tempo. É esta a condenação da arquitectura: erguer ilusões.
Go home and don’t look back.
É apenas uma questão de escala. Uma questão da natureza do tempo. É esta a condenação da arquitectura: erguer ilusões.
Go home and don’t look back.
- | João Amaro Correia / 14.7.15
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O fim de uma era
Os filmes são também lugares de respiração. Sobretudo numa época em que um filme já não é apenas um filme mas um arrazoado de efeitos digitais ou um fogo de artifício virtual, encontram-se, ainda assim, lugares de sensibilidade. E os melhores são, desde logo, aqueles onde não se passa nada.
Como na vida habitual das pessoas normais.
Montado a partir do dispositivo road movie, o que é facto é que, além das breves horas que Kurt e Mark passam juntos, nada nos faz crer que esta seja uma viagem rumo a uma epifania da liberdade. E daí, talvez a liberdade maior e a mais autêntica, seja essas pequenas horas no meio da floresta, onde Kurt e Mark, que são também da paisagem, ensaiam uma verdade qualquer no que comunicam. E de regresso à cidade, a vida segue. Mark apreensivo quanto à iminente paternidade – e a voz da rádio lança ainda mais preocupação sobre o futuro -; Kurt, muito provavelmente enredado no seu próprio labirinto vedado à idade adulta.
Como diz Mark a Kurt, a propósito do fecho da loja de discos em segunda-mão – são evidentes os sinais do fim: a decadente paisagem industrial americana, o abandono e a nostalgia que permanentemente nos interpelam, (tanto na relação dos dois amigos, como no mundo que os rodeia).
Um filme apenas possível à beira da crise, que eclodiu pouco tempo depois, em 2008. Que, de certo modo, antecipa, como a calmaria anterior à tempestade, o fim de uma era.
Old Joy | Kelly Reichardt | EUA / 2006
Como na vida habitual das pessoas normais.
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Montado a partir do dispositivo road movie, o que é facto é que, além das breves horas que Kurt e Mark passam juntos, nada nos faz crer que esta seja uma viagem rumo a uma epifania da liberdade. E daí, talvez a liberdade maior e a mais autêntica, seja essas pequenas horas no meio da floresta, onde Kurt e Mark, que são também da paisagem, ensaiam uma verdade qualquer no que comunicam. E de regresso à cidade, a vida segue. Mark apreensivo quanto à iminente paternidade – e a voz da rádio lança ainda mais preocupação sobre o futuro -; Kurt, muito provavelmente enredado no seu próprio labirinto vedado à idade adulta.
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Como diz Mark a Kurt, a propósito do fecho da loja de discos em segunda-mão – são evidentes os sinais do fim: a decadente paisagem industrial americana, o abandono e a nostalgia que permanentemente nos interpelam, (tanto na relação dos dois amigos, como no mundo que os rodeia).
Um filme apenas possível à beira da crise, que eclodiu pouco tempo depois, em 2008. Que, de certo modo, antecipa, como a calmaria anterior à tempestade, o fim de uma era.
Old Joy | Kelly Reichardt | EUA / 2006
- | João Amaro Correia / 14.7.15
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Verão de 1939
Le Corbusier pintando um fresco na Villa E-1027 de Eileen Gray, Verão de 1939
Provavelmente nem será uma questão de ideologia. Pragmatismo, talvez. Oportunismo, certamente.
Mais que tudo, talvez até mais que arquitecto, Le Corbusier é um publicista. O maior da história da arquitectura. E realizou com tanta pertinência e eficácia o métier que os pressupostos da sua arquitectura se tornaram hegemónicos e, como não dizer, totalitários.
E não nos preocupemos, a linha de sucessão foi excelentemente ocupada.
Mais que tudo, talvez até mais que arquitecto, Le Corbusier é um publicista. O maior da história da arquitectura. E realizou com tanta pertinência e eficácia o métier que os pressupostos da sua arquitectura se tornaram hegemónicos e, como não dizer, totalitários.
E não nos preocupemos, a linha de sucessão foi excelentemente ocupada.
Parecerão, contudo, inquietantes estas eventuais patéticas tentativas de desvendar em pormenor o homem por de trás da obra. Repare-se: o seu pensamento, totalitário, é evidentemente, tirânico; consequentemente a obra é megalómana e, ela própria, tirânica. Mas ainda assim capaz da beleza perene e do milagre do belo que consola.
É bem provável que em todos os desertos do mundo nasçam flores. E "perdoa-se tanta coisa em nome da beleza". Quanto ao mais, deixe-se os mortos aos mortos, os fantasmas aos fantasmas, que o belo é para todos.
É bem provável que em todos os desertos do mundo nasçam flores. E "perdoa-se tanta coisa em nome da beleza". Quanto ao mais, deixe-se os mortos aos mortos, os fantasmas aos fantasmas, que o belo é para todos.
- | João Amaro Correia / 13.7.15
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notas sobre o deserto#2
Mleeta Resistance Tourist Landmark, Líbano | Ambroise Tézenas
Secreção do tempo. Desta estação da nossa História.
Mais que a esteticização do mal – moral ou natural – é a transformação e espectacularização da miséria. De caminho, tudo transformado em experiência, logo, transaccionável. O mundo, a história, o sofrimento, a capacidade de tudo se colocar no mercado. O humano, luminoso e sombrio, no que de mais íntimo tem, sujeito à lei da oferta e da procura. E sabemos como se regula essa lei: des lieux de mort devenus des destinations touristiques.
Mais que a esteticização do mal – moral ou natural – é a transformação e espectacularização da miséria. De caminho, tudo transformado em experiência, logo, transaccionável. O mundo, a história, o sofrimento, a capacidade de tudo se colocar no mercado. O humano, luminoso e sombrio, no que de mais íntimo tem, sujeito à lei da oferta e da procura. E sabemos como se regula essa lei: des lieux de mort devenus des destinations touristiques.
Uma série, por exemplo, I Was There. Como de alguém proveniente das classes-médias ocidentais a quem as low-cost e o indolente estado social proporcionam uma semana de álcool e alienação em Ibiza. e profusamente a regista em selfies propagadas pelas redes sociais. Perfis que amontoam experiências atrás de experiências, consumo sobre consumo. Espectadores passivos do mundo e da vida que consumimos olhamo-los/nos com o olhar entorpecido, narcotizado, distorcido, degradado, pelo valor meramente utilitário com que as coisas são trocadas.
- | João Amaro Correia / 13.7.15
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