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choro e ranger de dentes

Será também como um homem que, ao partir para fora, chamou os servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu.
Aquele que recebeu cinco talentos negociou com eles e ganhou outros cinco. Da mesma forma, aquele que recebeu dois ganhou outros dois. Mas aquele que apenas recebeu um foi fazer um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.
Passado muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e pediu-lhes contas. Aquele que tinha recebido cinco talentos aproximou-se e entregou-lhe outros cinco, dizendo: ‘Senhor, confiaste-me cinco talentos; aqui estão outros cinco que eu ganhei.’ O senhor disse-lhe: ‘Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.’
Veio, em seguida, o que tinha recebido dois talentos: ‘Senhor, disse ele, confiaste-me dois talentos; aqui estão outros dois que eu ganhei.’ O senhor disse-lhe: ‘Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.’
Veio, finalmente, o que tinha recebido um só talento: ‘Senhor, disse ele, sempre te conheci como homem duro, que ceifas onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, com medo, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence.’ O senhor respondeu-lhe: ‘Servo mau e preguiçoso! Sabias que eu ceifo onde não semeei e recolho onde não espalhei. Pois bem, devias ter levado o meu dinheiro aos banqueiros e, no meu regresso, teria levantado o meu dinheiro com juros.’ ‘Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos. Porque ao que tem será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.’

Mateus | 25, 14-30


E tu, que rumo levas? Perguntou Holme.
Não tenho rumo, respondeu o homem. Não tenho rumo nem vínculos. Ergueu o rosto para Holme. 
(...)
Sim, disse o cego. Eu cruzo-me com elas todos os dias. Gente que anda para trás e para diante por esse mundo fora que nem cães. Como se não tivessem um lar a quem chamem seu em parte nenhuma.

Nas Trevas Exteriores | Cormac McCarthy / 1968




Gementes et flentes in hac lacrimarum valle onde há muito recusámos a redenção. 


Fillhos de Deus








Acha que as pessoas eram mais ruins nessa época do que são agora? indagou o auxiliar.
O velho contemplava a cidade inundada. Não, respondeu. Não me parece. Acho que as pessoas são iguais desde o dia em que Deus criou a primeira.


Filho de Deus | Cormac McCarthy / 1973



As personagens de Cormac McCarthy aproximam-nos de Deus.
O Mal existe e existe em cada um de nós. O mistério de cada ser humano é em McCarthy reduzido à cinza da impossível redenção. Vagantes, em deambulação incessante e louca, como indivíduos postos à margem da família humana, entregues a si mesmos e de si mesmos à sua própria loucura.
E talvez seja esta a palavra de Deus revelada por McCarthy: o silêncio brutal com que Deus confronta a ainda maior brutalidade de que cada um de nós é capaz. O silêncio de Deus diante do Mal.
Lester Ballard, por exemplo, patético assassino e necrófilo, que faz do sexo com os cadáveres que amontoa nas cavernas por onde pernoita o troféu de uma existência condenada à omissão da sua própria humanidade e que, exactamente do lado de lá da sua humanidade, se revela ele próprio humano.
O critério de McCarthy é a assunção da realidade do Mal que habita em nós e por nós no mundo. As suas personagens, em toda a sua sordidez, depravação e monstruosidade, não são o incomum, o excepcional, da gramática do ser. Pelo contrário, são a linguagem comum com que dizemos a nossa própria humanidade. Por isso as encontremos em permanente digressão, em incessante nomadismo à procura dessa humanidade.
Como a besta que é parte do humano, só desse reduto humano se pode aceder a uma possível salvação. Talvez seja essa humanidade que Deus permite que se revele no silêncio com que nos abandona.