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A nossa necessidade de consolo é possível de satisfazer

Apanhado nas armadilhas do zeitgeist – pós-queda de Lehman Brothers – faz de Ryan Bingham a representação já não do yuppie todo-poderoso, implacável do cimo da sua solidão, mas da queda, do desamparo do animal ferido na vertigem deste tempo.
As coisas são o que são e já não são como outrora para poderem ser o que sempre foram. E serão.

Depois, é o confronto com os sinais desta abertura do século: o hedonismo nihilista que todos os laços reduz a pó, a queda, a quebra, a rasura de qualquer vínculo e a próximidade e o encontro como perigo indisfarçável do possível desmoronar da fortaleza da indiferença. Pobres de nós humanos, a nossa necessidade de consolo é possível de satisfazer.


Up in the Air | Jason Reitman | EUA / 2010

Tremendas Trivialidades

Extrair o drama da trivialidade, do humdrum da vida de todos os dias, é o tema de Leigh. Talvez a desagregação psicológica de Mary, por exemplo, seja a travessia solitária de cada um de nós pelo deserto onde a contemporaneidade nos lança. Talvez. E talvez aquilo que nos parece um dom ou um dado adquirido, a tranquilidade e o amor que envolvem Tom e Gerri e Joe, não seja menos que um projecto inteiro e íntegro de vida. E isso, certamente, é o que chama todos à mesa da sua morada.


Another Year | Mike Leigh | Inglaterra / 2010

Musa Consolatrix

Juventude | Paolo Sorrentino | Itália / 2015



Que a mão do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida,
Musa consoladora,
É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.

Não há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
De íntima paz, de vida e de conforto.

Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
À enchente das angústias;
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.

Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A última ilusão cair, bem como
Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, — e terá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz, o último bem, último e puro!


Musa Consolatrix | Machado de Assis

buy land, buy land, they doesn't do more

O dinheiro é o deus.
Os mercados a sua religião.
Os milhões de desempregados as vítimas sacrificiais sobre o seu altar.


The Big Short | Adam McKay | EUA / 2016

Das festas, as vésperas


O tempo em que as puídas sombras do passado se transformam na rocha luminosa da verdade.


45 Years | Andrew Haigh | Inglaterra / 2015

Contra o(s) Estado(s): da corrosão (pública) da intimidade


O bater de asas em Moscovo, o colapso do colapso do coração em Teriberka.
Kolya é não apenas o homem mas todos os desapossados e esmagados pela jugo da corrupção total. Nada escapa ao Leviatã devorador. Nada. Muito menos a alma humana.

É crimonoso o desprezo a que votamos quem, criminosamente, despreza a Humanidade.


Leviathan | Andrey Zvyagintsev | Rússia/2014

Zé do Pipo no país das maravilhas

As 1001 Noites, Vol. 1, O Inquieto | Miguel Gomes | Portugal / 2015


O mais espantoso no cinema de Miguel Gomes é o milagre. E a recusa do cinismo.
A sensibilidade com que as personagens são filmadas e, muitas delas, a simplicidade com que crescem e inadvertidamente nos colocam na desconfortável posição de alguém que volta a acreditar (em qualquer coisa de humano).
Se a personagem principal de As 1001 Noites – O Inquieto somos nós, Portugueses, enquanto comunidade, tal só se compreende a partir das personagens singulares – tantos de nós – que a suportam. Assim como a vida que nos junta em comunidade é mais que o somatório de cada um dos nossos percursos singulares, o filme de Miguel Gomes, é mais, muito mais, que as tragédias, as pequenas ou grandes misérias, as virtudes e as fragilidades de cada personagem.
A verdade da experiência cinematográfica de As 1001 Noites – O Inquieto é o incessante trabalho de tactear uma sociedade deprimida, abatida, depauperada, sem esperança, por entre um amoroso labor de aproximação a cada uma das personagens (que poderia ser cada um de nós). Labor, entretecido entre o documentário e a ficção, feito de riso e lágrimas, de esperança e angústia, enfim, da argamassa que nos cola à Vida e uns aos outros.

Via Crucis do Corpo: a Paixão de Maria

I. Jesus é condenado à morte



II. Jesus carrega a cruz às costas



III. Jesus cai pela primeira vez



IV. Jesus encontra a sua Mãe



V. Simão Cirineu ajuda a Jesus



VI Verónica limpa o rosto de Jesus



VII. Jesus cai pela segunda vez



VIII. Jesus encontra as mulheres de Jerusalém



IX. Jesus cai pela terceira vez



X. Jesus é despojado de suas vestes



XI. Jesus é pregado na cruz



XII. Jesus morre na cruz



XIII. Jesus é descido da cruz



XIV. Jesus é Sepultado


Jesus ressucita dos mortos


Estações da Cruz | Dietrich Brüggemann, Ann Brüggemann | Alemanha / 2014


Não é sem algum embaraço que assistimos a Estações da Cruz. O redutor simplismo com que nos vamos colocando as questões da fé e da experiência dessa fé no concreto da vida é fortemente abalado pela, ela sim, simplicidade cortante deste filme. Por apenas 14 planos fixos, um por cada estação da Via Crucis, acompanhamos a trágica jornada espiritual de Maria.
Proveniente de uma minoritária comunidade que se organiza em volta da Fraternidade Sacerdotal de S.Paulo (ficção a partir da excomungada Fraternidade Sacerdotal S. Pio X) Maria, 14 anos, vive enredada entre as contradições do legalismo com que a família e o padre Weber vivem e lhe transmitem a fé, as pulsões naturais de uma adolesce e a censura, quando não intolerância, de um mundo cada vez mais secularizado, sexualizado e adverso à gramática do religioso.
Na semana que antecede a Confirmação, e no seu percurso de preparação para este Sacramento, Maria dá a sua vida em sacrifício pela cura do pequeno irmão autista. É esta a motivação com que Maria se propõe a um caminho de santidade. E aqui a perplexidade surge-nos, desde logo, pelo contexto rigorista em que Maria cresce.
Em Estações da Cruz a forma é inextricável das questões que levanta. A coincidência formal das 14 estações do caminho da Cruz com os 14 longos planos fixos em que se desenvolve o filme é essencial para a compreensão deste olhar cru sobre os mistérios da fé e da experiência religiosa. A austeridade formal e a secura da câmara relegam à palavra o privilégio na construção das relações que as personagens estabelecem entre si. E é pela palavra que Maria procura, inocentemente, dizer-se e dizer Deus. Sem questionarmos a autenticidade da fé de Maria – por ser o indizível a paradoxal forja da fé de cada mulher e homem - é questionável o rigor implacável com que lhe são transmitidos os fundamentos dessa fé.
Estações da Cruz recusa a provocação fútil ou sequer propõe um juízo na apresentação das personagens que, a nossos olhos, porventura corrompem e distorcem os fundamentos da fé católica. Antes, somos interpelados pelo mistério da fé. E é aqui o enigma do filme: uma fé que pode ser destrutiva e disruptiva se vivida pelo rigor da letra da lei; ou resgate do Homem e da sua humanidade interpelado pelo Deus do amor e misericórdia.
É do ventre da experiência religiosa que nascem as civilizações, apesar da original e trágica hipótese moderna de um mundo sem Deus. Quando o Papa Ratzinger nos diz que “existem tantos caminhos para Deus quantos os seres humanos” sabemos que a experiência religiosa é absolutamente diversa em cada um de nós. Radicalmente diferente. Na certeza de que a busca de Deus é provavelmente a mais radical experiência humana. E aquela que, desde os alvores da Humanidade, dá forma às civilizações. A questão central em Estações da Cruz é o modo como a teia legalista sufoca a fé de Maria e, por extensão, a própria Maria. Por Paulo somos advertidos de que a «letra mata» - e se há alguém vive com radicalidade o Espírito d'O Ressuscitado é o Apóstolo – e é a esta luz que a Cruz, aqui, vai perdendo o seu sentido, amarrada a uma rede asfixiante que destrói aquilo que, pela fé, deverá ser radicalmente livre: o coração de cada mulher, o coração de cada homem.

***

Cristo suportava o Mal, o Demónio, as tentações e toda a sorte de contradições e fragilidades humanas. Mas Cristo não suportava os Fariseus na sua visão estrita da Lei. Foi contra o Fariseus que o Filho do Homem ergueu a espada e recusou a paz. Foi contra a detestável visão legalista da Lei, que aprisiona e encerra os homens numa infernal e hipócrita burocracia da Alma, que Jesus anunciou uma só Lei. A lei do Amor.

***

Ao contrário do que nos diz Dietrich Bruggemann, a Fé é mesmo para «levar a sério». Por isso tem necessariamente ser suportada pela Razão. Só uma Fé esclarecida pode, depois, iluminar a Razão.



Adenda: publicado no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

A estrada


Loin des Hommes | David Oelhoffen | França / 2014


Em última instância, o sentido adquire-se na sequência final em que Daru se separa de Mohamed depois de o invocar à raiva de estar vivo - apesar de tudo - num mundo sem sentido. Como se do caminhar, singular e único, contingente e imprevisível, de cada um de nós pela estrada árida da vida exala suficiente significado que contrarie o absurdo da existência. O absurdo inexplicável e indizível tornado crueldade pela cegueira com que, devotos, aderimos a uma qualquer causa que nos resgate de uma existência insignificante.

***

Longe dos homens quando impossibilitados de lhes oferecer uma clara e irrevogável particularidade que lhes permita classificar, arrumar, enquadrar, organizar, dominar, o impenetrável e inclassificável mistério que cada um de nós transporta.

A balada de um homem gordo


Vargas: This isn't the real Mexico. You know that. All border towns bring out the worst in a country.










A Sede do Mal | Orson Welles / 1958




A noção de fronteira é «boa para pensar»: na vastidão da fronteira não deve existir maior abandono que na cidade por onde os homens a atravessam.
Coisas que fogem à jurisdição dos homens: na histeria identitária como classificar quem voluntariamente escolhe esse lugar sem eu e sem nome, sem centro nem periferia?

Ida





Da ferida nazi à máquina totalitária comunista viajamos com Ana (Ida) à procura do seu passado pelo passado da Polónia. E em cada frame recebemos um postal ilustrado desse passado recente da Polónia. Em road movie de câmara, permanece em aberto a dúvida e a fé e a contingência da dúvida e da fé.



Ida | Paweł Pawlikowski | Polónia / 2014

O fim de uma era

Os filmes são também lugares de respiração. Sobretudo numa época em que um filme já não é apenas um filme mas um arrazoado de efeitos digitais ou um fogo de artifício virtual, encontram-se, ainda assim, lugares de sensibilidade. E os melhores são, desde logo, aqueles onde não se passa nada.
Como na vida habitual das pessoas normais.

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Montado a partir do dispositivo road movie, o que é facto é que, além das breves horas que Kurt e Mark passam juntos, nada nos faz crer que esta seja uma viagem rumo a uma epifania da liberdade. E daí, talvez a liberdade maior e a mais autêntica, seja essas pequenas horas no meio da floresta, onde Kurt e Mark, que são também da paisagem, ensaiam uma verdade qualquer no que comunicam. E de regresso à cidade, a vida segue. Mark apreensivo quanto à iminente paternidade – e a voz da rádio lança ainda mais preocupação sobre o futuro -; Kurt, muito provavelmente enredado no seu próprio labirinto vedado à idade adulta.

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Como diz Mark a Kurt, a propósito do fecho da loja de discos em segunda-mão – são evidentes os sinais do fim: a decadente paisagem industrial americana, o abandono e a nostalgia que permanentemente nos interpelam, (tanto na relação dos dois amigos, como no mundo que os rodeia).
Um filme apenas possível à beira da crise, que eclodiu pouco tempo depois, em 2008. Que, de certo modo, antecipa, como a calmaria anterior à tempestade, o fim de uma era.


Old Joy | Kelly Reichardt | EUA / 2006