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moradas

6. Gosto tanto dos espíritos de segunda categoria ( Joubert, acima de todos) que, por delicadeza, viveram à sombra do génio dos outros e, receando poder tê-lo, se privaram do seu!


Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas

Bye, bye Lisboa!

Em 1990 Barcelona com 1,5 milhões de habitantes atraiu 1,7 milhões de Turistas. Em 2014 Barcelona recebeu 7,5 milhões de Turistas. Rendimento anual através do Turismo atingiu os 12 mil milhões de euros.

Nas Ramblas, em cada 10 transeuntes, 9 são turistas. 1991: 23,7191991 dormidas; 2003: 37,224 dormidas; 2013: 69,128 dormidas.

Assistiu-se assim, à tranformação de toda a cidade num Parque Temático Turístico e à redução de todas as actividades a uma única, omnipresente e obsessiva Monocultura. O Turismo.

Todo e qualquer sentido do Viver e Habitar quotidiano foi dominado e reduzido à erosão permanente do visitar, do residir temporário, do permanente happening nocturno e da festa contínua.

Ao permitir este consumir de forma erosiva, predadora e esgotante, de todas as características que, precisamente, constituíram o atractivo e o motivo da vinda e, originalmente, o apelo de vísita, Barcelona cada vez mais, e paradoxalmente, foi transformada num local onde Turistas apenas encontram outros Turistas. Uma plataforma globalizada, esvaziada dos seus conteúdos, dos seus moradores e autenticidade original.

Tudo isto levou a uma crescente revolta local, com movimentos cívicos e crescentes manifestações de rua, culminando este processo com a eleição de Ada Colau para presidir o Município.

A primeira medida de Colau foi instalar uma moratória durante 1 ano, de todo o licenciamento para novos projectos turísticos, incluindo hóteis, hostels, reconversões para alojamentos temporários, etc.

Levou também à produção do já famoso Documentário “Bye Bye Barcelona”, no qual, todas estas situações e desafios são ilustrados.

Entretanto, Colau entrou em confronto directo com a airbnb e a Booking.com, exigindo destas organizações especialistas em estadias temporárias, a relação completa das moradas e registos de ofertas dos seus sites.

A todos os endereços ilegais serão impostas multas de 15.000 a 90.000 euros, oferecendo Colau como alternativa ao pagamento das multas pelos proprietários destes alojamentos, a disponibilização pelos mesmos, destas moradas durante três anos, como habitaçào social, para os residentes locais.

A recusa das organizações referidas de disponibilizar as informações exigidas, poderá levar à proibição de acesso a estes sites especializados em oferta de alojamentos temporários, em todo o território da Catalunha.

Alfama recebeu recentemente, a visita do Secretário de Estado do Turismo e do Ministro da Economia, que triunfalmente e com um distanciamento “blasé” em relação a um possível papel regulador, equilibrador, planeador, recusaram qualquer reflexão ou dúvida quanto ao crescimento avassalador da oferta e transformação de todas as residências, em alojamentos temporários, sem qualquer tipo de regulamento ou limites, dedicados ao Turismo.

Nesta irrealista e irresponsável atitude caracterizada por um “laissez faire, laisser aller” in extremis, até criticaram uma tímida e tardia preocupação, formulada por um dos grandes responsáveis por esta ausência de gestão e planeamento, Manuel Salgado.

Com efeito, Manuel Salgado ao anunciar em 2008 “A Baixa nunca será um bairro residencial” e ao propor exclusivamente um investimento na hotelaria, residências universitárias e alojamentos de curta e média permanência, entregando a dinâmica do investimento únicamente às exigências dos “mercados”, abdicou da sua responsabilidade planeadora e reguladora, abrindo a caixa de pandora.

No início do processo, antes da crise e respectiva transformação, motivada pela mesma crise, da cidade num gigantesco negócio de estadias temporárias, e acima de tudo, do exôdo maciço de toda a juventude Portuguesa, estes, naturalmente os potenciais habitantes de uma Baixa ainda vazia , ainda teria sido possível planear / estabelecer um equilíbrio.

Assim também, a possível inserção da totalidade da Baixa num regulamento de rigor Patrimonial determinado pela Unesco não convinha à liberdade de manobra de intervenção e licenciamento de Manuel Salgado, pois iria impedir a sua política de “fachadismo” e de destruição sistemática dos Interiores Pombalinos pelos “investidores”.

Agora, dramaticamente é tarde, e provavelmente de forma irreversível Manuel Salgado e os dois ilustres visitantes de Alfama vão acabar perversamente por “ter razão” na sua irresponsável atitude e ausência de visão.

Entretanto, brevemente, em frente a Alfama vai surgir o novo terminal de Cruzeiros, aumentando o “potencial” e alargando, através das respectivas intervenções e arranjos da envolvente incluindo possivelmente a desejada desactivação da estação de Santa Apolónia, a plataforma da Monocultura.

Bye Bye Lisboa!


António Sérgio Rosa de Carvalho | Público / 13.09.2015

inútil paisagem
















A paisagem é o resultado de uma economia que se estabelece num lugar e da cultura que lhe é subjacente. É uma construção, uma forma de arquitectura, que surge com uma base económica fortíssima.

João Gomes da Silva | Público / 19.07.2015



Leitura talvez demasiado lata do sentido da economia, colocaria antes a cultura como a fonte donde procede a paisagem. E a paisagem, a teia de relações metafísicas entre o mundo sensível e o ideal, a a technê de domínio da natureza natural, onde primeiro se inscreve a nossa relação com o Mundo.

Estúpida paisagem


Lisboa acorda sitiada por dentro: turismo de massas; reabilitação hostelizante; golden-visação do parque habitacional; airbnbização das redes de vizinhança e de bairros inteiros. Soterrados nos escombros da crise económica, legitimamente procuramos pontos de fuga e possibilidades de sobrevivência.


1. Empreendedorismo hipster: Lisboa, cidade de serviços

O discurso vazio do empreendedorismo, num primeiro momento, emitido pela instância política (central) e a adesão a este discurso – ainda que epidérmica e ambígua, como é sempre, de resto, culturalmente a adesão dos portugueses a tudo o que vem «lá de fora» - por parte de exércitos de jovens qualificados desempregados, são o rosto mais visível e glamouroso da terceirização de Lisboa. A pretensão é a de uma cidade asséptica, clean, onde todos sejamos energicamente jovens pró-activos intervenientes das indústrias criativas e/ou I.T’s em detrimento das actividades tradicionais e industriais. A Câmara Municipal patrocina startups, ninhos de empresas, meros escritórios de sonhos destinados à frustração – perdoe-se o pessimismo.
A cidade das startups é uma cidade desvinculada do real. Será uma Lisboa construída para e por um desígnio social inexequível – aqui e em qualquer parte do mundo – de uma monocultura laboral (indústrias criativas/finança/I.T’s), que por muita sedução que se nos ofereça é, diremos, absurda e irreal.
Esta é uma Lisboa que se pretende rever nas duas ou três páginas que a Monocle ou a Wallpaper lhe oferece de quando em quando e que disso faz acontecimento cultural e social de uma relevância que não tem.

2. Airbnbização do quotidiano: Lisboa, cidade de turistas.

No entanto, a realidade, essa besta, é bem mais divertida, complexa e contraditória, que as visões do progresso dos nossos gurus do empreendedorismo. Verificamos que as actividades que mais têm sido sujeitas ao ímpeto modernizador são as actividades tradicionais do pequeno comércio e, sobretudo, da restauração. Surpreendentemente, ou talvez não, os nossos jovens qualificados e abandonados ao desemprego foram ao baú dos avós e descobriram as receitas tradicionais, os petiscos de outrora, os objectos da vida portuguesa carregados, até há pouco tempo, do lastro de um Portugal arcaico do qual, até com o discurso da adesão à Europa, se fugia a todo o custo. As imagens ainda vivas da pobreza das gerações anteriores, da sardinha que se dividia por cinco, foram resgatadass, embrulhadas e transfiguradas em objectos de sedução que se afirmam agora como genuinamente portugueses. Uma cidade de cadeias de hamburgarias e bifanarias do bairro, como tentativa espúria da recuperação/construção de uma memória do que nunca existiu. Uma cidade atada ao deslumbramento parolo da marca Portugal, que redescobre a sardinha de conserva e as pataniscas de bacalhau, outrora representações do atavismo lisboeta, hoje guindados a símbolo de uma pós-modernidade timidamente afirmativa dos nossos valores dentro do contexto da globalização.
Mas apesar de tudo, as arcaicas & pós-modernas latas de conservas não servem para nós, lisboetas, habitantes de lisboa, os que cá trabalham e vivem. A marca Portugal é mais um isco very-typical e de sedução às classes-médias europeias que aqui chegam pelas companhias de aviação low-cost.
Se a fuga à crise, embrulhada no discurso do empreendedorismo, uniformizou o pequeno comércio e a restauração a partir de imagens que resultam num postiço de tradição e modernidade – começa a ser difícil almoçar um bitoque que não esteja mergulhado num molho conceptual – a cidade disneylandiza-se. Lisboa transforma-se lentamente em parque temático onde todas as opções da política urbana são direccionadas para o acolhimento às massas do turismo.
O turismo é visto pelos poderes públicos como hipótese redentora do país que, num assomo de modernidade induzida pelas directivas de Bruxelas, pacata e provincianamente abateu e desmantelou todas as actividades económicas que tradicionalmente o alimentavam.
Lisboa tranquilamente abandona os lisboetas e estes esvaziam os seus apartamentos para short-rental aos turistas acidentais. A pouco e pouco revertemos o parque habitacional para o aluguer temporário às aves migratórias da globalização. Um imóvel é agora apenas e só uma oportunidade de investimento. Uma casa já não é uma casa, é uma aplicação.
A vida nos bairros «históricos» torna-se um inferno. Ridículos e excessivos tuck-tucks – a fazer lembrar imagens de riquexós e de subserviência -; sôfregos agentes imobiliários – sector que tem acolhido milhares de desempregados e os explora com o regime de comissões – que depois dos chineses, (em migração para Espanha devido às tribulações dos golden-visa), se dedicam agora a incitar franceses e outras nacionalidades em fuga às brutais cargas fiscais impostas pelas gloriosas e decadentes sociais-democracias do norte, ao investimento seguro e de alta rentabilidade na charmosa Lisboa; hotéis de charme e boutiques hosteis que impregnam a cidade e arrasam com o pouco que resta do viver habitual da cidade.


3. Golden-visação da propriedade: saudades da ética do pato-bravo.

Dizimados pela crise, os tradicionais actores da construção civil e do imobiliário, os pequenos empreiteiros, os patos-bravos que tanta gente empregavam, desapareceram de vez. Os que sobraram estão agora ao serviço dos poucos a quem sobrou algum dinheiro e, oportunistas, vêm as óbvias oportunidades de uma cidade que se supõe a reconfigurar a partir do seu centro.
Os até há poucos anos promotores imobiliários, agora a braços com falências e execuções e o desamparo do desaparecimento do BES, são substituídos por indivíduos que, como cogumelos, aparecem do nada, trazendo na mala muito dinheiro e ilusões de multiplicação deste.
O imobiliário acolhe quem foge da instabilidade da bolsa e, assim, financeiriza-se: um imóvel é comprado, pintado e vendido, num espaço de poucas semanas e com rentabilidades, no mínimo, intrigantes – a mão invisível e a teleologia de mercado não explicam tudo. Mas diversamente do outrora tão vituperado pato-bravo, qualquer traço de ética, ainda que mínimo, esfumou-se na voracidade e velocidade da circulação do capital investido.
O pato-bravo aparecia, fazia a obra, comercializava-a e, talvez por isso mesmo, era obrigado a um critério mínimo de ética e de qualidade construtiva. Os que hoje acorrem com ganância ao sector imobiliário, soltos das amarras garantistas construtivas e éticas que a venda do imóvel para habitação impunha, operam pequenas obras à superfície de imóveis que, na maior parte dos casos, se encontravam há longo tempo devolutos e, consequentemente, sem quaisquer condições habitabilidade e segurança. Caricaturando, um mero balde de tinta pode tornar-se um investimento que resultará num retorno de milhares de euros.


4. O evento e o quotidiano: excrescências do inferno.

Por último, um outro fenómeno que atravessa Lisboa é a loucura dos eventos. Mais do que urbanístico ou arquitectónico, este será, talvez, um fenómeno para verificação psicanalítica e antropológica.
Tudo é que é «espaço verde» ou jardim, a partir da Primavera é ocupado com eventos. Eventos que celebram um multiculturalismo politicamente-correcto, festivais que comemoram a vida, o cão, o gato e o canário, eventos de causas e lutas patrocinadas por cervejeiras. De repente, toda a vida se transforma e transtorna num eterno evento -  naturalmente para disseminação viral nas redes sociais. Provavelmente, tal como estes eventos ocupam os vazios da cidade, serão, primeiramente, para ocupar os vazios existenciais do cidadão. Ocupado e cada vez mais esmagado pelo peso do trabalho, que organiza todo o quotidiano da vida e da cidade, quando sozinho, confrontado consigo mesmo e em tempos desocupados do serviço, o pobre do cidadão deixa de ter direito ao silêncio para ter de suportar uma plêiade de acontecimentos e eventos e festivais que cobrem todos os fins-de-semana soalheiros. O silêncio e a tranquilidade dos bairros torna-se um luxo. O acontecimento para massas ao ar livre perpetua a alienação do consumo – aliás, o próprio evento é, por um lado, fenómeno para ser consumido e, por outro, constituído a partir da própria lógica da mercantilização capitalista da realidade que tudo coisifica. O tempo é coisificado, o silêncio é objectificado. Tudo é medido e mensurável: o descanso e o silêncio têm um preço alto.


Pode uma cidade sobreviver assim?

Esta é uma Lisboa que troca uma estação de combóio por um jardim. Em que a obsessão do turismo se concretiza como uma avalanche que destrói a ecologia urbana. Em que o embasbacamento empreendedor uniformiza os restaurantes, cafés, as tascas e a vida, ela própria já devidamente vigiada pela ASAE. É uma cidade onde o espaço público é paulatinamente capturado pelo interesse particular, seja o do pequeno café que com umas três ou quatro mesas ocupa dois terços do passeio em calçada, seja o das grandes empresas que alugam praças e avenidas inteiras – para a realização de eventos, evidentemente.
Os lisboetas prosseguem o seu percurso de fuga para as periferias. Lisboa transforma-se apenas em local de trabalho onde artificialmente se presume reconstruir, em plástico, uma memória daquilo que nunca foi.

E aos lugares é estranha a avalanche da turistificação do olhar, outra forma de esteticização da realidade a partir das categorias do consumo. A crítica de Benjamin à reprodutibilidade da obra de arte na era da técnica enuncia claramente a capacidade da fotofgrafia (por exemplo) tornar a miséria humana objecto de consumo. Também a arquitectura. Também as cidades

Tudo hostelizar, golden-visar, airbnbizar, é levar por diante, pela arquitectura, pelo urbanismo, a espectacularização do vazio e do plástico, tornando-a, à cidade, mero objecto de consumo sem qualquer relação com a vida vivida da polis. 

Todo o reino dividido contra si mesmo acaba em ruínas

Quem não está comigo está contra Mim e quem não junta comigo dispersa.

moradas



































Não esqueçais a hospitalidade, porque, graças a ela, alguns, sem o saberem, hospedaram Anjos.

Hebreus 13,1-8



varandas



moradas















































Casca da árvore nocturna, facas filhas da ferrugem
segredam-te os nomes, o tempo e os corações.
Uma palavra, adormecida quando a ouvimos,
deslizou para debaixo da folhagem:
eloquente há-de o Outono ser,
mais eloquente a mão que o recolhe,
fresca como a papoila do esquecimento a boca que a beija.


A Eternidade | Paul Celan / Trad. Gilda Lopes Encarnação

moradas

Sempre te tornaste então
aquilo que nunca em ti conheci:
por toda a parte bate o meu coração
numa terra de fontes,

onde nenhuma boca bebe e nenhum
corpo as sombras debrua,
onde a água brota a fingir
e o fingido como água espuma.

Irrompes em todas as frontes,
pairas em tudo o que é fingido.
Inventaste um jogo
que quer ser esquecido.


Corona | Paul Celan / Trad. Gilda Lopes Encarnaçã











Rosa Rilke Raimundo Correia






































Uma pálpebra,
Mais uma, mais outras,
Enfim, dezenas
De pálpebras sobre pálpebras
Tentando fazer
Das minhas trevas
Alguma coisa a mais
Que lágrimas


Rosa Rilke Raimundo Correia | Paulo Leminski



moradas


Estou só, coloco a flor-cinza
na jarra de negrume amadurecido. Boca gémea,
dizes uma palavra que se perpetua diante das janelas,
e mudo trepa meu sonho por mim acima.

Sou a floração do tempo sem viço
e guardo resina para uma ave tardia:
ela traz o floco de neve na pena vermelho-vida;
de grãozito de gelo no bico, sobrevive ao Verão.


[Corona | Paul Celan / Trad. Gilda Lopes Encarnação + Edifício Jardim das Amoreiras, Arqtº Carrilho da Graça, 2010]

Corona


À minha mão vem o Outono comer as suas folhas: somos amigos.
Descansamos o tempo das nozes e ensinamo-lo a partir:
o tempo retorna à casa.

No espelho é domingo,
no sonho dorme-se,
a boca diz a verdade.

O meu olho desce até ao sexo da amada:
olhamo-nos,
dizemo-nos algo sombrio,
amamo-nos como papoila e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o mar no jorro-sangue da Lua.

Estamos abraçados à janela, vêem-nos da rua:
chegou a altura de se saber!
Chegou a altura de a pedra se dignar em florir,
de o coração do desassossego começar a bater.
Chegou a altura de ser altura.

Chegou a altura.


[Corona | Paul Celan / Trad. Gilda Lopes Encarnação + Sede EDP, Aires Mateus & Associados, Lda., 2014]

Elogio da Lonjura










Na fonte de teus olhos
vivem os fios dos pescadores do mar-errância.
Na fonte dos teus olhos
cumpre o mar a sua promessa.

Coração
entretido entre os homens, aqui arremesso
minhas vestes e o fulgor de um juramento:

Mais negro no negro, estou mais nu.
Só sendo traidor sou fiel.
Eu sou tu quando sou eu.

Na fonte de teus olhos
vogo e sonho a pilhagem.

Um fio prendeu um fio:
separamo-nos enlaçados.

Na fonte de teus
um enforcado estrangula a corda.


[Elogio da Lonjura | Paul Celan / Trad. Gilda Lopes Encarnação + Sede EDP, Aires Mateus & Associados, Lda., 2014]



A Casa



Se por acaso buscas
o verde exacto das folhas
a perfeição da linha que as atravessa e conta quantos dias faltam até à queda no chão
Digo-te que não traces medidas nem planos
Pois o céu mudará de cor e a terra ficará mais húmida
e da janela verás
como o vento sacode as copas amarelas e assobia à nossa porta.

E ainda assim
todos os dias são de primavera.

Jardim das Amoreiras, R.

Moradias









SubSolo












Coisas que acontecem em Lisboa quando vêm as chuvas e necessitamos, necessitamos sempre, de um milagre: "O céu devia estar cheio de rezas e choros, porque nessa tarde condensou a água de repente e choveu tudo duma vez. Fez-se escuro como a pele dum rato e, minutos depois, largou o peso na terra."



coisas que passam e ressuscitam no tempo duplo da exumação*












Café Chave d'Ouro, Lisboa | Arqtº Norte Júnior, 1936

*Carlos Drummond de Andrade

Príncipe Real Design District

Lisboa, 12.03.2014

dos trabalhos do mundo corrompida/que servidões carrega a minha vida*








Lamentam-se os arquitectos
lamentam-se os promotores
lamentam-se os construtores
lamentam-se os políticos e os inspectores do fisco.

A cidade, crise e a sustentabilidade
o golden-visa e a expansão dos mercados
e toda esta gente, com nome e apelido, posição, e até opinião, sobre o deserto onde agora colhemos
a paisagem que em todos estes anos semeamos.








*Servidões | Herberto Hélder

no mais carnal das nádegas/as marcas/das frescas cuecas*

Lumiar | Lisboa









A lei, o corpo normativo que se preocupa com o que se pode ou não pode fazer, é omisso no como fazer. A fealdade é o preço, às vezes, da liberdade.






*Servidões | Herberto Hélder