Um dia tocou o telefone. Do outro lado era a simpática voz do Charles Correa a perguntar: esqueceu-se de mim? Vem alguém buscar-me? Asneirada. Tinha chegado nesse dia a Lisboa. Sem tempo para mais nada saí do escritório a correr em direção ao aeroporto e peguei no carro que tinha mais à mão: um VW Lupo. Nas chegadas lá estava um dos mais extraordinários arquitectos do nosso tempo, a inseparável mulher e malas correspondentes a oito meses de viagens sem passar em casa. Muitas malas, portanto. Entre os pedidos de desculpa e a atrapalhação só quando chegámos ao carro é que percebi que não iamos caber todos. Chamava um taxi? Pedia reforços? Há protocolo para uma situação destas? Suspirei e confessei "I guess we have a problem". Ele sorriu e respondeu-me "Rodrigo, I´m from India. And in my country this car is a bus". Segui as orientações de quem percebia da coisa. Malas para a direita, pernas para a esquerda e outra por cima do tejadilho do Lupo agarrada com o braço de fora. Tipo Mumbai em Lisboa. Literalmente Mumbai em Lisboa. E lá fomos a rir compulsivamente pela cidade em direção ao hotel. Quando chegámos, ainda a rir, lá me agradeceu "I felt sixteen again on my the way to school". "Glad to be of service", respondi.
Rodrigo Moita de Deus | 31 da Armada
Showing posts with label janelas altas. Show all posts
Showing posts with label janelas altas. Show all posts
Todo o reino dividido contra si mesmo acaba em ruínas
- | João Amaro Correia / 12.3.15
-
0
comments
- Labels: janelas altas, lisboa, o caminho
moradas
Não esqueçais a hospitalidade, porque, graças a ela, alguns, sem o saberem, hospedaram Anjos. Hebreus 13,1-8 |
- | João Amaro Correia / 25.2.15
-
0
comments
- Labels: janelas altas, lisboa, o caminho, paisagem, polis
La Grande Bellezza
Palazzo della Civiltà Italiana | EUR | Giovanni Guerrini, Ernesto Bruno La Padula, Mario Romano / 1938-1943
- | João Amaro Correia / 23.2.15
-
0
comments
- Labels: a beleza salvará o mundo, janelas altas, Roma
moradas

Estou só, coloco a flor-cinza
na jarra de negrume amadurecido. Boca gémea,
dizes uma palavra que se perpetua diante das janelas,
e mudo trepa meu sonho por mim acima.
Sou a floração do tempo sem viço
e guardo resina para uma ave tardia:
ela traz o floco de neve na pena vermelho-vida;
de grãozito de gelo no bico, sobrevive ao Verão.
[Corona | Paul Celan / Trad. Gilda Lopes Encarnação + Edifício Jardim das Amoreiras, Arqtº Carrilho da Graça, 2010]
- | João Amaro Correia / 5.1.15
-
0
comments
- Labels: janelas altas, lisboa, lisboetas, paisagem
Corona
À minha mão vem o Outono comer as suas folhas: somos amigos.
Descansamos o tempo das nozes e ensinamo-lo a partir:
o tempo retorna à casa.
No espelho é domingo,
no sonho dorme-se,
a boca diz a verdade.
O meu olho desce até ao sexo da amada:
olhamo-nos,
dizemo-nos algo sombrio,
amamo-nos como papoila e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o mar no jorro-sangue da Lua.
Estamos abraçados à janela, vêem-nos da rua:
chegou a altura de se saber!
Chegou a altura de a pedra se dignar em florir,
de o coração do desassossego começar a bater.
Chegou a altura de ser altura.
Chegou a altura.
[Corona | Paul Celan / Trad. Gilda Lopes Encarnação + Sede EDP, Aires Mateus & Associados, Lda., 2014]
- | João Amaro Correia / 27.12.14
-
0
comments
- Labels: janelas altas, lisboa, lisboetas, paisagem
Elogio da Lonjura
Na fonte de teus olhos vivem os fios dos pescadores do mar-errância. Na fonte dos teus olhos cumpre o mar a sua promessa. Coração entretido entre os homens, aqui arremesso minhas vestes e o fulgor de um juramento: Mais negro no negro, estou mais nu. Só sendo traidor sou fiel. Eu sou tu quando sou eu. Na fonte de teus olhos vogo e sonho a pilhagem. Um fio prendeu um fio: separamo-nos enlaçados. Na fonte de teus um enforcado estrangula a corda. [Elogio da Lonjura | Paul Celan / Trad. Gilda Lopes Encarnação + Sede EDP, Aires Mateus & Associados, Lda., 2014] |
- | João Amaro Correia / 27.12.14
-
0
comments
- Labels: janelas altas, lisboa, lisboetas, paisagem
A Casa
Se por acaso buscas
o verde exacto das folhas
a perfeição da linha que as atravessa e conta quantos dias faltam até à queda no chão
Digo-te que não traces medidas nem planos
Pois o céu mudará de cor e a terra ficará mais húmida
e da janela verás
como o vento sacode as copas amarelas e assobia à nossa porta.
E ainda assim
todos os dias são de primavera.
Jardim das Amoreiras, R.
- | João Amaro Correia / 26.12.14
-
0
comments
- Labels: janelas altas, lisboa, notas sobre o deserto, paisagem
Moradias
- | João Amaro Correia / 26.12.14
-
0
comments
- Labels: janelas altas, lisboa, notas sobre o deserto, paisagem
advenire
Caiu a chuva, vieram as torrentes e sopraram os ventos contra aquela casa; mas ela não caiu, porque estava fundada sobre a rocha.
- | João Amaro Correia / 8.12.14
-
0
comments
- Labels: janelas altas, notas sobre o deserto
É ir cultivando a terra, deitando a semente, ir apanhando as batatas.
- | João Amaro Correia / 8.12.14
-
0
comments
- Labels: a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, janelas altas
coisas que passam e ressuscitam no tempo duplo da exumação*
- | João Amaro Correia / 1.10.14
-
0
comments
- Labels: janelas altas, lisboa, lisboetas
A Educação Pela Pedra
quando entender que as casas são feitas de gente que foi feita por gente e que contém em si a possibilidade de fazer gente. [Two-Lane Blacktop, Matilde Campilho, in Jóquei] |
- | João Amaro Correia / 10.7.14
-
0
comments
- Labels: janelas altas
dos trabalhos do mundo corrompida/que servidões carrega a minha vida*
Lamentam-se os arquitectos
lamentam-se os promotores lamentam-se os construtores lamentam-se os políticos e os inspectores do fisco. A cidade, crise e a sustentabilidade o golden-visa e a expansão dos mercados e toda esta gente, com nome e apelido, posição, e até opinião, sobre o deserto onde agora colhemos a paisagem que em todos estes anos semeamos. |
*Servidões | Herberto Hélder
- | João Amaro Correia / 4.3.14
-
0
comments
- Labels: janelas altas, lisboa, notas sobre o deserto
no mais carnal das nádegas/as marcas/das frescas cuecas*
Lumiar | Lisboa
*Servidões | Herberto Hélder
A lei, o corpo normativo que se preocupa com o que se pode ou não pode fazer, é omisso no como fazer. A fealdade é o preço, às vezes, da liberdade.
|
*Servidões | Herberto Hélder
- | João Amaro Correia / 4.3.14
-
0
comments
- Labels: janelas altas, lisboa, notas sobre o deserto
se isto é um Homem
I collect evidence of man’s inhumanity against God. The pain we cause Him. We have poisoned His atmosphere. We have slaughtered His creatures of the wild, polluted His rivers. We have even taken God’s noblest creation, man, and brainwashed him into becoming our product, packed, stalked and canned. The Night of the Iguana | Tennessee Williams |
- | João Amaro Correia / 4.3.14
-
0
comments
- Labels: a grande guerra, janelas altas
the bling ring Quinta do Lago
- | João Amaro Correia / 28.8.13
-
0
comments
- Labels: janelas altas, paisagem
janelas altas
[El Corte Inglés, Lisboa]
As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.
É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas
Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos
As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.
As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões | Daniel Faria
- | João Amaro Correia / 30.7.13
-
0
comments
- Labels: janelas altas, notas sobre o deserto
do not go gentle into that good night
A coisa que somos é sempre outra coisa | José Tolentino Mendonça |
ii.
A duração é o que de nós e em nós produz a significação da realidade. É a organização da vida. Não no tempo dos relógios, não na narrativa linear das coisas que se sucedem nos rumores do jornalismo. A sucessão é aleatória, subordinada ao regime da consciência. É a sucessão das imagens que nos habitam - que habitamos - e não dos conceitos que erguemos e reduzem a realidade ao catálogo ambíguo das palavras. Uma espécie de complacência onde o que importa é a aguda consciência do eu no mundo. A suspensão, a epoché, a nova ordem que emerge da supressão da realidade, para o real se tornar mais intenso, o caminho de regresso a nós mesmos. O regresso ao eu como registo e fixação e inscrição do eu-no-Mundo. Duração como recuperação e regresso da experiência do real. A experiência contínua, não sucessiva, irrepetível, dos lugares e das coisas. A experiência e o desejo do consolo do mundo: o belo é a transcendência do mortal ressumado, na sua “inteligência” – racionalidade – à sua condição passageira – animal. O elogio do tempo, da efemeridade das coisas que permanecem, que nos conduz à união. Ser vivo com as coisas do mundo. O lugar é chíasma, o salto, o abismo e o regresso. E finalmente: feliz todo aquele que tem os seus locais de duração; porque, mesmo que para sempre seja forçado a partir para uma terra estranha, sem esperança de regressar ao seu próprio ambiente, não será jamais um expatriado. E os locais da duração também nada têm de notável, muitas vezes nem estão assinalados em nenhum mapa ou não têm no mapa qualquer nome. Um modelo perfeito do mundo inteiro. [...] a festa de agradecimento da presença no lugar. Impulso temporal da duração, tu rodeias-me de um espaço descritível e a descrição cria o espaço que se lhe segue. [...] acabo por não ser simplesmente só eu. A duração é o meu desprendimento, ele deixa-me sair e ser. [Poema à Duração, Peter Handke] |
- | João Amaro Correia / 23.7.13
-
0
comments
- Labels: janelas altas, notas sobre o deserto
janelas altas
When I see a couple of kids
And guess he's fucking her and she's Taking pills or wearing a diaphragm, I know this is paradise Everyone old has dreamed of all their lives-- Bonds and gestures pushed to one side Like an outdated combine harvester, And everyone young going down the long slide To happiness, endlessly. I wonder if Anyone looked at me, forty years back, And thought, That'll be the life; No God any more, or sweating in the dark About hell and that, or having to hide What you think of the priest. He And his lot will all go down the long slide Like free bloody birds. And immediately Rather than words comes the thought of high windows: The sun-comprehending glass, And beyond it, the deep blue air, that shows Nothing, and is nowhere, and is endless. |
Quando vejo um casal de miúdos
E percebo que ele a anda a foder e ela Usa um diafragma ou toma a pílula Sei que isto é o paraíso Com que os velhos sonharam toda a vida — Compromissos e gestos postos de lado Que nem debulhadora fora de moda, E toda a gente nova a descer pelo escorrega, Interminavelmente, para a felicidade. Será Que alguém olhou para mim, há quarenta anos, E pensou: Isso é que vai ser boa vida; Nada de Deus, ou de suores nocturnos, Ou medo do inferno, ou ter de esconder Do padre aquilo em que se pensa. Ele E a malta dele, c’um raio, hão-de ir todos pelo escorrega Abaixo, livres que nem pássaros? E de imediato, Em vez de palavras, vêm-me à ideia janelas altas: O vidro que acolhe o sol, e mais além O ar azul e profundo, que não revela Nada e está em lado nenhum e não tem fim. |
High Windows / Janelas Altas, Philip Larkin, 1967
- | João Amaro Correia / 17.6.13
-
0
comments
- Labels: janelas altas, notas sobre o deserto
Subscribe to:
Posts (Atom)