A Nudez, Giorgio Agamben
A fotografia da capa da Cristina é notável. Desde logo porque expõe a nu e a cru as tremendas contradições do nosso espaço público. E porque convoca múltiplas dimensões, públicas e privadas, que, paradoxalmente, se confundem no nosso paupérrimo discurso público.
De início a dimensão política. É inescapável ao momento e ao contexto de campanha eleitoral em que Joana Amaral Dias se apresenta como candidata. E que a própria assume na condição de «mulher e candidata». Ainda que de consequências irrelevantes no decurso da coisa política – pela irrelevância política da Joana Amaral Dias – a fotografia parte de um discurso, equivocado e muitas vezes perigoso, da exposição da intimidade como argumento político. A «transparência», as mais das vezes encenada, como dogma que se nos impõe na «sociedade aberta» - e consequente redução do pessoal a uma personalidade lisa, desprovida de espessura. Depois da encenação pública, surge a encenação do privado, território, por definição, excluído à mise-en-scène. O dogma da transparência como mecanismo de legitimação de uma verdade fabricada e carente de autenticidade.
Pretende também esta imagem suplantar a gravitas que se impõe ao discurso político, numa lógica que remete para o «conservadorismo» cavernícola qualquer pressuposto de que a política, por ser o território onde se decide o bem-comum, terá que necessariamente ser percorrido com contenção e prudência. Em Joana Amaral Dias nua representar-se-ia a ruptura com essa visão arcaica dos engravatados – um pouco à laia da não-gravata de Tsipras e do casaco de cabedal de Varoufakis . Visão suplantada por um mundo de «mentes abertas» sempre disponíveis para serem «elas próprias» e recusarem qualquer encenação delas mesmo que as restringisse no apelo de uma inefável liberdade radical e emancipada. Gente que arrisca – o «risco» da capa em trocadilho com a anunciada «gravidez de risco» em mais uma dissonância entre o privado e o público -, que «ousa». Em última instância o que esta imagem não entende é que «sermos nós próprios» não passa de uma auto-encenação, as mais das vezes auto-engano, onde vamos digladiando e afogando as nossas contradições e demónios – donde todo o discurso político de uma putativa autenticidade do político encerra um equívoco irresolúvel.
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Num tempo em que o sexo deixou há muito de ser «tabu» - mais uma expressão da novilíngua que pretende deslocar o sexo e a sexualidade de uma esfera relacional para impô-los como altar da «emancipação» e da «liberdade» (não é evidente a irracionalidade?) - a juntar à anunciada dimensão política desta fotografia somos levados a questionar os fundamentos deste feminismo que, ele próprio, objectifica o corpo da mulher. A objectificação e mercantilização do corpo, aqui soterradas num discurso «artístico» que mais não pretende que auto-justificar-se e excluir-se dessa mesma objectificação.
Há ainda o aspecto simbólico do homem, oculto, que envolve Joana nos seus braços. Um homem de bícepes esculpidos, a elevar ainda mais a perfeição desta imagem. Um homem, ao que foi dito, pai da criança que Joana traz no ventre. Um homem que esconde o rosto e que, para efeitos de feminismo, será sempre um vulto de um qualquer homem ameaçador. A tensão, que o revela menos interessado na completude e integridade da mulher na gloriosa gravidez mas mais refém de uma sensualidade de subúrbio que o leva ao irracional de prender e forçar a mulher.
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Por tudo e também pelas inusitadas toneladas de photoshop esta é uma péssima imagem. Mas que é já a imagem da indigência cultural e política deste tempo que Portugal passa.