SERIA QUASE UMA HERESIA MUDAR ESTAS PEDRAS DE SÍTIO SEM A AUTORIZAÇÃO DO TEMPO O ARQUITECTO DO ACASO

 



[Lote 436 | Serra de Carnaxide / 2019/...] 

Um projecto de arquitectura é lacónico ou não é. O excesso de palavras, o discurso ruidoso, a trincheira onde, cada vez mais habitamos, derruba a «resistência íntima» [Josep Maria Esquirol]. E impõe-se-nos, hoje, agora, não o silêncio, mas alguma contenção para que o abrigado seja salvo de algum excesso dispensável do abrigo (ou do ego de quem o desenha). 
Desenhar uma casa como ser ‘o outro’.

O PÃO NOSSO DE CADA DIA

 


1.
Gritos antigos
que ainda flutuam como algas de som entre as coisas
enredam-se nas costas aéreas do meu pensamento.
Os séculos desfazem-se então como grãos de esquecimento
e eu sou de novo o primeiro homem
a laborar o seu lugar entre a espuma,
tentando ficar de pé entre as lanças amargas
com que se tece o vulto da noite.
Basta que um fio de cabelo toque o fundo.


Segunda Poesia Vertical | Poesia Vertical / Roberto Juarroz, trad. jac


DIRTY PEARL | Anita Louise Lane, 1959-2021

 
Ah wanna tell ya 'bout a girl
You know, she lives in apt. 29
Why? That's the one right up top a mine
I start to cry, I start to cry
Oh, I hear her walkin'
Walkin' barefoot cross the floor-boards
All through this lonesome night
And I hear her crying too
Hot-tears come splashin' on down
Leaking through the cracks
Down upon my face
I catch 'em in my mouth
Walk and cry, walk and cry
From her to eternity
From her to eternity
From her to eternity
I read her diary on her sheets
Scrutinizing every little piece of dirt
Tore out a page and stuffed it inside my shirt
Fled outta the window
And shinning it down the vine
Outta her nightmare
And back into mine
Mine! O Mine!
From her to eternity
From her to eternity
From her to eternity
Cry! Cry! Cry!
She's wearing them bloo-stockens, I bet
And standin' like this with my ear to the ceiling
Listen I know it must sound absurd
But I can hear the most melancholy sound I ever heard
Walk and cry, kneel and cry
From her to eternity
From her to eternity
Oh tell me why? Why? Why?
Why the ceiling still shakes?
Why the fixtures turn to serpents snakes?
This desire to possess her is a wound
And it's naggin' at me like a shrew
But I know, that to possess her
Is, therefore, not to desire her
O o o then ya know
That lil girl would just have to go
Go! Go!
From her to eternity
.
.
.
From Her to Eternity | Nick Cave & The Bad Seeds, 1984
.
Wings of Desire | Wim Wenders, 1987

O Estado caixeiro-viajante


Shibbolethm | Doris Salcedo / 2007



Sempre que se discute o encerramento de serviços públicos no interior do país, como actualmente se discute o encerramento de balcões da Caixa Geral de Depósitos (e sua substituição, em zonas rurais, por caixeiros-viajantes em carrinhas), lembro-me de um artigo do filósofo inglês Roger Scruton sobre a importância da icónica cabina telefónica britânica (publicado em 1996 na revista norte-americana City Journal e em 2000, em Portugal, na colectânea "Paradigma Urbano", da editora Quetzal).

Para Scruton, a estrutura de ferro fundido e vermelho imperial não alberga apenas a função telefónica. Ela é também uma promessa de resguardo e auxílio, no bulício opressor da cidade ou na solidão distante de um percurso rural ("o símbolo reconfortante de um lar, com o qual se pode, a qualquer momento, estabelecer um contacto apaziguador").

Mas mais: na consistência e dignidade do seu estilo clássico, a cabina é, em todas as paragens, "a imagem acabada da ordem pública e legítima, que simboliza a identidade nacional e se assume como uma promessa de segurança e de estabilidade institucionais".

Roger Scruton parece por vezes um santo padroeiro das causas perdidas, um daqueles conservadores hiperbólicos, em permanente estado de elegia, que descortinam a ameaça da desordem eterna na mais ínfima mudança da ordem conhecida. Nesse artigo queixa-se da substituição progressiva da cabina telefónica "familiar" por uma versão moderna, "bárbara", que "não representa a estabilidade nem a ordem, mas a agitação frenética de uma mutação constante".

Porém, o artigo tem um subtexto interessante na ideia de que até o mais pequeno elemento de serviço público pode afirmar uma soberania nacional e incutir um espírito comunitário, de pertença, que enquadre e dê sentido à conflitualidade e à superficialidade transitória dos assuntos humanos.

Em muitas cidades, vilas e aldeias do interior de Portugal, o que hoje mais impressiona é a ausência cada vez maior de marcos da soberania nacional - que, goste-se ou não, é afirmada pela presença do Estado.

Falo de terras que ficaram sucessivamente sem hospitais e centros de saúde, urgências e maternidades, escolas e postos dos Correios, quartéis da guarda e esquadras da polícia, tribunais e repartições de Finanças. Da presença do país a que pertencem, sobra-lhes apenas o pelourinho ou o castelo medieval, que falam de outros tempos, imemoriais, e a televisão ou a rádio, que falam quase sempre de lugares desconhecidos.

Não discuto a racionalidade económica imediata das decisões que nos trouxeram até aqui (nem acho que o caso da Caixa seja especialmente grave). Apenas lamento que Portugal se leve tão pouco a sério, a ponto de nunca debaterem os riscos de se retirarem referências de coesão e identidade comum a uma grande parte do território.

É claro que para esse debate será necessária a existência de uma esquerda que não deteste a ideia de mação, ou de pátria, e de uma direita que não abomine a ideia de Estado. Ou seja, uma esquerda que perceba que é a nação que melhor reproduz o sentimento de destino partilhado indispensável às políticas de solidariedade que defende; e uma direita para a qual o anti-estatismo seja só a vontade liberal de remeter o Estado ao seu papel subsidiário, não uma demanda melancólica, pré-moderna, pela sua aniquilação.

Enquanto tal maturidade política não existir, vai permanecendo a dúvida: por quanto mais tempo serão aquelas terras, remotas e descartáveis, ainda Portugal?



Francisco Mendes da Silva | Jornal de Negócios / 19.04.2017

Aprender a rezar, a foder e a morrer na era do cinismo

Bangalô |  Marcelo Mirisola

Oportunidade perdida

Com o PS atolado na geringonça, o PSD de regresso ao regaço da social-democracia e o CDS em busca de uma identidade mais “pragmática” e menos “ideológica”, não é crível que a próxima revisão constitucional sirva para nos livrar do peso cada vez mais insuportável do Estado sobre as nossas humildes cabeças e depauperados bolsos.

Qualquer visão que sugira sequer uma ruptura com a nossa tradição estatista apresenta poucas possibilidades de vicejar numa sociedade sitiada pelo Estado-babá. De oportunidade perdida em oportunidade perdida, o Estado engorda, enfraquece e soçobra diante da corte dos “direitos adquiridos” e das castas que se ufanam em banquetear-se à mesa do Orçamento.

A calamidade é tanto maior quanto o “rumo ao socialismo” trilhado nestes 40 anos sufocou a sociedade portuguesa na obscenidade materialista que, por definição, é o território de pasto do Estado totalitário que se vislumbra no horizonte.

Entre a leveza fútil de uma deputação que se ocupa em legislar profusamente tudo o que mexe e o sequestro do Estado por grupos de interesses, por ora, afigura-se impossível qualquer tipo de compromisso constitucional que liberte a sociedade, retire o Estado da economia e nos deixe no sossego do viver habitualmente.


Diário Económico | 18.03.2016

O monarca exemplar

Adivinhar o que se vai passar nos próximos 10 anos não só seria imprevidente como inútil.

Tanto pela imprevisibilidade do tempo quanto da personagem. Mas Marcelo surpreendeu - o que é surpreendente num espírito irrequieto onde a surpresa é a ausência de surpresa: despiu o fato de comentador e fazedor de factos e revestiu-se da gravitas que a posição cimeira na hierarquia de Estado impõe.

Mas talvez a chave possível para a leitura do que venha a suceder nos dois mandatos de Marcelo esteja na “política de proximidade” que tem praticado desde a campanha eleitoral. Proximidade destituída dos vazios chavões da cidadania esquerdista.

Proximidade autêntica, que resulta da sensibilidade e inteligência de Marcelo em estar e ser de igual para igual em qualquer circunstância e com quem quer que seja. Marcelo exercerá a presidência ao estilo de um monarca exemplar. Atento ao país, atento às pessoas, atento às circunstâncias. A ser assim, podemos finalmente contar com uma figura acima da querela e mesquinharia partidária.

Não se espere ‘vichyssoise’ no cardápio de Belém. Seria uma surpresa. Uma sopa servida fria.


Diário Económico | 09.03.2016

Conversas em Família na Era do Vazio

Entre outras coisas maravilhosas que a geringonça já nos trouxe chega-nos agora o ‘remake’ das Conversas em Família.

Costa, certamente deslumbrado consigo mesmo e com o Orçamento que nos vai alçar a cumes de crescimento jamais alcançados, faz-nos entrar no tempo das Conversas em Família 2.0.

E talvez haja aqui um paralelismo com o antigo regime, onde a televisão era explicitamente usada para exercícios de propaganda no estertor do Estado Novo.

Para além da patética redução da política a um paupérrimo exercício de comunicação, importaria muito pensar o tipo e a qualidade da comunicação. Afinal a geringonça devolve-nos um Ministério da Cultura que, não andasse entretido a distribuir alcavalas a “criadores”, já se teria ocupado a pensar verdadeiramente numa política de comunicação. E, já agora, já que existe, de cultura.

Mas antes assim. Todos conhecemos a inclinação socialista para a usurpação dos media e para colocá-los ao serviço da instrução e educação deste pobre povo. Deixemos o ridículo brilhar em todo o seu esplendor.


Diário Económico
| 17.02.2016

A nossa necessidade de consolo é possível de satisfazer

Apanhado nas armadilhas do zeitgeist – pós-queda de Lehman Brothers – faz de Ryan Bingham a representação já não do yuppie todo-poderoso, implacável do cimo da sua solidão, mas da queda, do desamparo do animal ferido na vertigem deste tempo.
As coisas são o que são e já não são como outrora para poderem ser o que sempre foram. E serão.

Depois, é o confronto com os sinais desta abertura do século: o hedonismo nihilista que todos os laços reduz a pó, a queda, a quebra, a rasura de qualquer vínculo e a próximidade e o encontro como perigo indisfarçável do possível desmoronar da fortaleza da indiferença. Pobres de nós humanos, a nossa necessidade de consolo é possível de satisfazer.


Up in the Air | Jason Reitman | EUA / 2010

moradas

8. Com certezas, não pode haver estilo: a preocupação de dizer bem é o apanágio daqueles que não conseguem adormecer numa fé. À falta de um apoio sólido, agarram-se às palavras - simulacros de realidade; enquanto os outros, fortes nas suas convicções, desprezam a aparência e se refastelam no conforto da improvisação.


Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas

moradas

7. Se Molière se tivesse debruçado sobre os seus abismos, Pascal - com os seus - teria feito figura de jornalista.


Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas

moradas

6. Gosto tanto dos espíritos de segunda categoria ( Joubert, acima de todos) que, por delicadeza, viveram à sombra do génio dos outros e, receando poder tê-lo, se privaram do seu!


Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas

Tremendas Trivialidades

Extrair o drama da trivialidade, do humdrum da vida de todos os dias, é o tema de Leigh. Talvez a desagregação psicológica de Mary, por exemplo, seja a travessia solitária de cada um de nós pelo deserto onde a contemporaneidade nos lança. Talvez. E talvez aquilo que nos parece um dom ou um dado adquirido, a tranquilidade e o amor que envolvem Tom e Gerri e Joe, não seja menos que um projecto inteiro e íntegro de vida. E isso, certamente, é o que chama todos à mesa da sua morada.


Another Year | Mike Leigh | Inglaterra / 2010