como numa cidade já não sabiam para onde ir.*


[Los Angeles, Andreas Gursky, 1988]


Se isto é uma crítica ou a crítica da razão cínica à era em que entrámos? Uma cidade sem fim? O tempo todo igual sob os escombros da cidade-fachada contínua? Errância indeterminada? Eternos viajantes desdobrados nas sombras e nos reflexos do vidro polido e vertical dos arranha-céus da representação social? Dissolução do individual dentro da construção e da arquitectura toda igual?
Já nos não serve o espaço euclidiano. A sua infinitude horizontal, o seu recorte no horizonte, é no espaço. O mundo plano expande-se pelo globo e a sua determinação é a do tempo. O espaço do corpo desagrega-se no instantâneo encadeado da paisagem electrónica. Os espaço é transitório e instável.
E Gursky revela as luzes da superfície, as luminárias da desorientação. Porque é na infra-estrutura, na cablagem encadeada e infinda, que as cidades se ligam e apressam a vertigem do tempo do humano. Enquanto se esquece a catástrofe iminente.


*Clarice Lispector

a cidade dos homens


[A Cidade, Teatro da Cornucópia, 2010]

Tenho horror à cidade.
um velho


De triviais nem nos apercebemos. Passamos por elas sem dar conta.
Pôr uns quantos homens a viver no mesmo sítio, em paz. Numa paz possível entre homens que se fixam, agregam, num e a um espaço. E trocam coisas entre si. Alimento por artefactos, artefactos por tempo. E com esta possibilidade cada um pôde inventar o desejo. Dissemelhante do outro homem vizinho.
Os espíritos serenaram, as monstruosidades que se escondiam e tomavam conta das montanhas e dos mares, transfiguraram-se em formas humanas. Os deuses eram agora émulos do próprio homem que tinha acabado de se descobrir a si mesmo – e no entanto ainda havia uns outros, cativos do deserto, que abdicavam de todos os deuses e de si próprios, por um deus único sem nome, loucura maior.
Não seria mais necessário percorrer paisagens, palmilhar territórios estranhos, arriscar a vida, em busca de sustento. A subsistência estaria facilitada se uns quantos se juntassem e, cada um deles, executasse a tarefa que melhor lhe servisse as inclinações do talento e da vontade. Que descoberta.
E riam-se de si próprios. Acomodavam-se anfiteatros e faziam à noite a mímica cómica e a música dos gestos do dia. Riam-se dos homens e dos deuses, tão amáveis que ao ridículo se prestavam. E pensavam-se a si, cada indivíduo único, ao pensar o outro. E imaginaram modos de viver com os outros. E pensavam-se justos e belos.
Organizaram-se, até. Uma organização possível, imperfeita, naturalmente, aperfeiçoando-se, claro, de geração em geração. E alguém tinha que se encarregar da conciliação e racionalização de múltiplos desejos diversos, muitas vezes contraditórios, até antagónicos. Alguém teria que expedir um pouco de organização. Seria o caos, se ninguém mandasse. Uma anarquia. E era um posto de importância na vida de todos. Pouca terra para tanta gente. Uma loucura. É preciso adquirir o poder.Guardar o poder, a seguir - autocracias, tiranias, violência, conivências interessadas, o poder. Isto, se um deles, o mais forte ou arguto, o conquistasse e preservasse. E pensou-se em discutir os assuntos comuns. E reuniam-se todos os homens numa assembleia. Democracia?

Estranha proposta, esta. Habitarmos juntos sobre o mesmo monte. E seremos tantos que depois será necessário que ocupemos o vale. E usaremos o rio para avançar um pouco mais pelo mundo. Tão extravagante fantasia que nos torna estranhos do outro que circula ao lado, que o não conhecemos mas que dele necessitamos. Incrível concepção, esta. E vem o arquitecto tirar as medidas ao chão para o melhor poder repartir.
Somos mortais. Construímo-las imperfeitas e sempre inacabadas. À medida de cada homem vão-se erguendo as cidades. Sobre muitas delas já não há notícia. Nada ficou nem das casas nem dos seus cidadãos.
Hipóteses sobre a origem da cidade: seja o fim da necessidade ou a origem do desejo.

a vida e a morte nas cidades


[Le Diable, Probablement, Robert Bresson, 1977]


Abrir a porta, avançar pelo quarto, não é andar para diante por uma rua de uma cidade. Dois lugares do habitar, de habitar diverso, de mundos de possibilidades distintas. Ainda que por entre casas inquietas e igrejas desassossegadas e cidades desorganizadas, a maior interrogação: «cada vez mais habitada e cada vez menos habitável». A Terra. É esse o desespero deste filme.
elispse:
Charles investiga por entre os clochards da beira do Sena aqueles que sabem ou não caminhar. Pelo desgaste da sola das alpercatas, empirismo simples que, como voz entre o espanto e a certeza, lhe permite afirmar: tu, sabes caminhar.
Há qualquer coisa de crístico no caminho de Charles: os vagabundos tanto como discípulos ou detritos vivos da sociedade; a preocupação do seu círculo íntimo perante o futuro de Charles – futuro que Charles nega, na indiferença sobre o presente, a vida e o real. É preciso tudo destruir, avisa um jovem militante empertigado, para tudo re-construir. E Charles não acredita. Talvez tenha chegado tarde à revolução. Talvez ainda não tenha chegado a deus.
elipse:
Caminhar. Como quem procura, como quem marcha, como quem escolhe, como quem prescinde de mapas, como quem chega, como quem quer chegar.
Os corpos, nas casas, nunca são corpos, a câmara nunca verdadeiramente os filma. E Bresson repete-se nas mãos. As mãos que abrem portas. As mãos que lavam lágrimas. As mãos que dão abraços. As mãos que disparam o revolver. O corpo são sempre bocados do corpo. Verdadeiramente só o corpo intacto de Charles, nu, na água.
elipse:
Charles, flâneur parisiense, na aleatoriedade da indiferença. Nós, um pouco de todos, no autocarro onde todos nos interrogamos sobre o real que todos construímos. O diabo, provavelmente, explica, resignado, um de nós, sobre quem faz girar a História. Evidentemente que esta resposta não satisfaz Charles.
O pesadelo nuclear, a psicanálise, deus, Marx, a droga, os filmes, a morte, o indivíduo dissolvido na alienação da sociedade industrial.
elipse:
Charles caminha pela cidade como quem caminha sobre as águas. Sabe que vai morrer. Escolhe exactamente como e onde vai morrer. Uma bala é suficiente, mas não chega. Aponta no mapa do metro, por baixo da superfície da cidade, onde quer morrer. Uma cidade como a via dolorosa. A via dolorosa está congestionada.
elipse:
uma cidade, mesmo no pessimismo apocalíptico de Bresson, é o melhor lugar para se viver. E morrer.
elipse: 

x, y, z

Mas, nos tempos seguintes, houve tremores de terra e inundações extraordinárias e, no espaço de um dia e uma noite nefastos, todos os vossos combatentes foram tragados duma só vez pela terra, e a Ilha Atlântida também desapareceu mergulhando nas águas. É por isso que ainda hoje esse mar é impraticável e inexplorável, pois a navegação é dificultada pelos baixios lodosos que a ilha formou quando se afundou.

Timeu, Platão


É antigo o pavor sublime do que se não compreende.
Depois Descartes inventou um modo de domínio do tempo e do espaço. E os arquitectos desenharam uma grelha, coordenadas racionais sobre a superfície da terra. Uma ilusão da razão universal que se derrama indiscriminadamente sobre a superfície da terra e a domina. Um horizonte optimista para encontrar um lugar do mundo. Estável e perene; todos os lugares familiares a qualquer estrangeiro. O fim da viagem e do desconhecido: a severidade cartesiana abriga a consciência do inesperado. O mundo fixou-se plano.


[Dirty Harry,Don Siegel, 1971]

Optimista e equívoca a consciência que nas escarpas da costa oeste riscou uma grelha no chão e dela erguer uma cidade. Em cima de uma fissura da terra construi-se um paradoxo. E não discutimos da sua beleza: a imaginação serve a necessidade de razão mesmo na contradição.
Mas o mundo é uma construção humana, imperfeita e inacabada. Na arquitectura como na vida, nada se completa exaustivamente. Nem uma ideia. Há o lugar da latência e das coisas por vir. A retícula é um constrangimento comovente.

não é a terra que mata, são as casas


[Lisbon earthquake, circa 1755]

e só depois das casas a Terra se torna Mundo.
A Terra está para além da perspectiva do(s) mundo(s), é a pré-existência ao ser-no-mundo, sujeito construtor do(s) mundo(s). O ser-no-mundo necessita de abrigo às potentíssimas e desconhecidas forças da Terra. Constrói as casas que tornam a Terra inteligível através da matéria. A Terra, mais que o natural, ou o cenário palco, dos homens, das casas, da arte e da política, algo que ultrapassa a perspectiva humana, mas sendo pela acção humana iluminada.
Habita-nos o inconsciente a luta genésica Homem Natureza. Escapa-nos ao entendimento a força sublime que irrompe sem previsão. A devastação atribui-se ao desconhecido terrífico. A religião chamou-lhe mal, como um mito primário. Malagridas e voltaires. Depois a razão. Fomos expulsos do jardim pela pulsão do auto-conhecimento, como expulsámos deus pelas luzes encantatórias e ilusórias da razão: o terror é o que desconhecemos. E na terrífica ignorância nomeamos o mal e a culpa no que não entendemos. Mas não é o movimento das placas tectónicas que traz a morte.
A violência dos continentes que se mexem e chocam é ignorada na fabricação das casas. A energia libertada pelo abrupto agitar do chão faz sucumbir a construção humana. A arquitectura destroçada é soterrada nos escombros do medo, incapaz de se dizer perante a grande catástrofe sempre iminente e da qual se esqueceu no seu quotidiano ser, resumida ao tempo mais próximo e à função mais urgente; a política revela-se incapaz – menos eficaz ainda no território do despotismo.
Como o templo de Heidegger, que convoca a si tudo o que o rodeia e que pela cultura adquire o seu sentido, as fissuras nos muros devêm das fracturas da terra e do esquecimento dos homens. A arquitectura não supera a morte, a devastação inclemente, ainda que dela possa inventar algo de novo.

fulguração


[Steven Holl]

A palavra composição é propriamente terrível. Dá para tanta morte...

Na realidade, não creio que haja texto fantástico, mas processos estéticos de descrever um mundo que evolui por delírio...

Maria Gabriela Llansol


Com efeito, a representação do mundo de Maria Gabriela Llansol é o voltar os olhos para a invenção do mundo. Antes da necessidade de qualquer ciência descritiva do real é o real que inventamos, necessariamente pelos nomes, a que esse rigoroso real nos convoca. O acto primeiro é nomear. A ciência ou a religião ou a política só depois da estética. E a estética, como matéria que não se explica pelo gosto ou pelo prazer ou pelo olhar desatento com que nos aproximamos ou afastamos dos objectos. Dizer antes, pelo olhar com que os objectos nos surpreendem. O mundo é à velocidade do olhar. O seu tempo é o do desejo e o seu espaço é entre as coisas.
Seja o texto realista ou a racional função das coisas que se elevam pelo seu cintilar matemático, o campo de batalha é a membrana que a um tempo nos suspende e nos junta ao mundo. A khora, a estética da khora, do entre, do intersticial, do lugar orla do físico, do informe e do indeterminado – estética a que apela Llansol, ia dizer, se Llansol nos não devolvesse à possibilidade ilimitada da(s) estética(s) – lançada contra a lógica da não-contradição dos filósofos, como a origem. Uma origem de equívocos, a princípio, de ambiguidade, que a cada instante vai criando a sua própria verdade, desfeita no instante seguinte pelo fulgor do nome imediato. E o fulgor é aquela ideia que parte do futuro.
O edifício do formalismo kantiano, o juízo do gosto e o juízo final, é abatido pela vontade da construção do real sem a condenação a priori de um sentido lógico. O texto como as cidades como a vida, desenrolar incompleto das coisas, micro-narrativas interminadas, cidades abertas, rigorosa ordem-estética de cada fragmento, cada singularidade reinventada, cada edifício orgânico. O texto, melhor, a construção do texto regressa à ordem da arquitectura.
O eterno devir do mundo é a construção. As filosofias regem-se pelo ritmo da elevação dos muros e pelo som que faz o gesto ainda mais humano de os abrirmos. Os nomes eclodem da exigência unívoca e libertam-se em permanentemente renovados fios que os ligam entre si e os objectos. E é aí, nessa teia hiper-real, sempre construída, por vontade e por acaso, que o real emerge sempre novo sempre oscilante.
Os edifícios, as cidades, sobrevivem-nos. O que é novo será ruína. O corpo que transportamos perecerá sob as pedras que levantámos. Como construir uma casa?, como construir uma vida?

tudo o que sou capaz*


[Ângelo de Sousa]

É do domínio da contingência o avanço pelo espaço. As formas movem-se pela síncope insólita da realidade. Ou da realidade insólita.
Sageza é a invenção à justa medida da realidade.

*Tudo o que sou capaz, Jorge Silva Melo, 2009

a casa consciente


[Home, Ursula Meier, 2008]


elle avance
Sabemos que a casa é uma forma mental. Não como a racionalidade iluminadora do desenho de Leonardo, a cosa mentale que faz estender à mão o poder da vontade da razão, do conhecimento, no encalço da razão das coisas, antes como a quase psicanalítica poética do espaço, do re-conhecimento dos medos e do lugar que nos protege do medo. Um jogo, a partir do lustprinzip freudiano, do desejo de desejo-de-prazer que recusa – no inconsciente – qualquer forma de medo e terror que o destrua. A casa é o lugar onde a aflição e o terror e a necessidade são extintas pelo calor do fogo que acolhe.

A casa estende-se pelo exterior, os planos abrem-se, enquadram-se através das janelas, a partir do inteior. A luz é como em Hopper, o dourado das cearas, o azul brilhante do céu.

Uma família escolheu um sítio e os materias. Uma família construiu uma casa. Uma casa abrigava uma família.
Marion, ingénuo oráculo da catástrofe iminente, pergunta a Marthe, da sua capacidade de permanecer em casa. Marthe respnde com a liberdade.
O equilíbrio frágil em que balançam as diferenças entre cada um é mantido pelos fios invisíveis do amor que os une, da protecção mútua, do abrigo que encontraram, longe das outras casas e da cidade, dos outros homens.

elle est plus capable de rien
E as máquinas pesadas avançam, numa coreografia da eficácia dura e impiedosa. A velha auto-estrada é reactivada. O corte abrupto, não inesperado mas sempre na esperança adiado. O corte com o mundo. O corte da distância justa que tinham encontrado. A estrutura dos laços que os integravam, que era a subsistência da família e de cada um dentro da família, é desintegrada.

A câmara divide-se, vinca o interior e o exterior, que agora violentamente divergem.  E um sem o outro não sobrevivem.

O interior sufoca, no desespero de recuperar o anterior da casa. O exterior é a agressão contínua, imparável, das máquinas velozes e letais à mínima desatenção, o lixo e os resíduos da velocidade contemporânea. A casa torna-se bunker. Judith, a indiferente, fica presa no exterior, e no interior a Marthe, atordoada, pretende recuperar a casa.

A luz já não é a do sol mas a ruidosa fluorescência sobre o cinzento dos blocos de cimento, a evasiva à agressão que vem de fora.

Fechada sobre si, a casa definha. Vai morrendo à medida que cada um da família implode pela finitude do que os unia. O amor subsiste, ainda. Frágil, à procura de outro lugar para reconstruir a casa. Que será já outra.

europa caffe#6


[Café Desejo, Rua da Palmeira, Lisboa]



q;

Em plena urbanização metropolitana, a ocupação
do espaço, o crédito à habitação e a gestão do território
conspiraram e decidiram. Enterrem-se de pé
[e ponham-lhes
um molho de malvas a sair das órbitas para o ar livre dos
imensos sepulcros encalhados

 
à beira do ainda-assim-majestoso esqueleto
[do mar-oceano.


[As Paisagens Que Mudam de Lugar in A Terceira Mão, Manuel Gusmão, 2007]

substância ligante

Temos de tornar dispare um espaço, de dispará-lo ou explodi-lo, para descobrir a complexidade do que é capaz; e, inversamente, a complexidade profunda ou intensiva de um espaço é a evidenciada nesses momentos que o tornam díspar, levando-o para fora de si, para que se possa dobrar de novo.

[Construções, John Rajchaman, 1998]


O que procuravam só em cada um deles se encontrava. O caminho da procura era o seu próprio corpo. Não tanto o corpo físico mas as paixões da sua específica vitalidade, o sensível que os ligava à terra, os sentidos com que se faz o mundo é, sobretudo, suspeito de impostura.

[O Senhor de Herbais, Maria Gabriela Llansol, 2002]




Richard Serra

O construir na terra torna-se a circunstância, substância ligante, entre as coisas. é o que atribui lugar às coisas. O vínculo de uma coisa ao lugar, o ter-lugar, acontece no espaço. O ter-lugar significa ter início e limites. É a origem de uma coisa, é o espaçamento que cede relações entre uma coisa e outra numa convivência não estática. Razão pela qual o elemento essencial na relação entre as coisas não é “o” espaço mas o carácter que o lugar dissemina nos espaços. O erguer da construção será o esforço para produção da integração das coisas. O que permite estabelecer as relações da ocupação de uma coisa com o mundo. A arrumação das coisas em si, por si e no mundo: onde o espaço se permite. Decorre deste pensamento a confirmação da singularidade dos espaços. Espaço enquanto experiência e enquanto medium que torna possível a localização das coisas. A experiência da anti-utopia, onde o lugar é o que evidencia, institui e imprime o carácter fundamental do espaço.
É esta, então, a relação fulcral, entre os lugares e os espaços, que torna possível o habitar. Nesta relação essencial e fundadora do carácter do habitar, ainda não da experiência do habitar, os lugares compreendem múltiplos outros lugares, entre os quais se revelam afinidades que introduzem e nos informam do carácter do lugar. Essas afinidades, como intervalos, assumem proporções que ultrapassam o espaço geométrico, abstracto. É uma distância entre os homens e a coisa que não se deixa dominar pelo jogo simples das três dimensões nem determinar como demora.

inertes

A coincidência das fontes visuais e literárias leva-nos a considerar como uma apropriada hipótese de que a imagem reproduz o plano definitivamente aprovado para a Praça do Comércio, em grande parte ensaiado no dia da inauguração da estátua equestre, a 6 de Junho de 1775, com recurso à simulação em madeira de parte substancial do projecto.


A Praça Real do Tejo in Praças Reais - Passado, Presente e Futuro, Manuel Figueira de Faria




Tudo isto lançou um novo debate sobre a necessidade de reformas e de uma mudança de mentalidades e procedimentos no país, com a participação intensa e conflituosa dos partidos políticos e dos grupos profissionais mais em xeque.
Em Portugal, a História não acabou.


Uma Democracia Europeia (Desde 1976), in História de Portugal, Rui Ramos


Um discurso sobre o poder.
É a estória com que comummente narramos da relação de cada um nós com a realidade portuguesa. À mesa do café, à saída de infindáveis e estéreis «reuniões de trabalho», no adro da igreja, no táxi, somos jogadores de um jogo absurdo entre nós e eles. Eles, o Poder.
A narrativa portuguesa talvez se destaque por ter sido levantada pela própria construção do poder político. Ou o poder político construiu-se impondo uma narrativa de força e de poder que agregasse um território desigual, comunidades diversas, interesses antagónicos e, as mais das vezes, indiferença generalizada. E é provável que seja este o fio comum ou unificador dos acidentes que aconteceram aos que habitam o bocado mais ocidental da Península Ibérica. E a ideia, hoje inquestionada, da unidade histórica, que julgamos perene e gerada na vontade de todos os do séc. XII em diante, será, possivelmente, a vitória do Poder. A sua derrota é a pequena conversa de café, esse absurdo palavroso em que habitualmente nos detemos como atalho a redimir a indiferença, também generalizada, com que construímos um vago destino colectivo.
A produção de um destino – mítico nome que damos à vontade que nos excede – jaz sob os escombros da tibieza do viver habitualmente. Burocrático, evidentemente. E a burocracia é a indecifrável teia de dependências e inter-dependências, sem a qual nada é possível e na qual o fazer falece às portas do devido procedimento. O assentimento que a cada vez mais proficiente e opulenta cadeia hierárquica terá necessariamente que emitir é o visto possível ao fazer e a marca do Poder. Em qualquer actividade da nossa vida, individual e colectiva. O Poder engrandece-se, a vontade individual expira. Somos desertos de responsabilidade.


[Blow Up, Michelangelo Antonioni, 1966]

Ao arquitecto cabem decisões.
As decisões tomam-se pelo mínimo denominador comum: «isto em Portugal!...»; «é mesmo à portuguesa»; «conhecendo a nossa realidade como conheço». Expressões epidérmicas da estrutura inconsciente que nos governa as resoluções. Indecididos, equivocamo-nos, em projecto, sobre que realidade será essa. Inventamos o «cliente», utilizador, um típico pacato – pacato – cidadão que se moverá nesta realidade que irradia da auto-representação auto-depreciativa.
Inventamos um modo operativo dentro desta realidade funcionária. A praxis é a do pequeno expediente, entre leis, num nebuloso labirinto jurídico. Mascara-se de legalidade a realidade. Expede-se o dia-a-dia em subtis manobras através da miríade de poderes. No residual espaço vazio entre eles. Mas dentro da omnipresença do grande Poder.
Haverá uma ética do arquitecto? Porque se a estética é uma ética da incansável procura da beleza, mesmo que na fealdade, a que se remeterá a intervenção do arquitecto na comunidade?
Desenhar a partir dessa auto-representação perpetuando-a resignada?, redefinir radicalmente a realidade em tabua rasa do que apreendemos sobre nós mesmos?, ou inventar a nova realidade – uma nova que emerge necessariamente de cada projecto - a partir do que pensamos que somos para, com e através da arquitectura, negociar-se o que desejamos ser? Não será questão nova. Pensando bem, era a verve revolucionária e radical que explodiu na miríade modernista, esse desejo fundo do novo e da superação de uma civilização iníqua. Pensando bem, é este o labirinto português: entre um passado resignado e o presente de uma modernidade deslumbrada, recente e imperfeitamente adquirida, que se julgou futuro. Pensando bem, passado e futuro é o labirinto do desejo do arquitecto no presente.
Não é nova nem original esta invenção da aparência. Do Terreiro do Paço aos estádios do bodo real futebuleiro, panis et circencis, como quem afirma a autoridade, a capacidade, a visão, dentro da pequenez remediada. Porque também a arquitectura é, necessariamente, um discurso do e sobre o poder. Até no modo quase impossível com que por aí se vai erguendo.

aprender com las vegas a não ser las vegas


Blue Swallow motel, Tucumcari, New Mexico



Is it all right if I look straight into your face

Sam Shepard



Experimenta-se a América antes de se aterrar na América.

agora nome

Oh, seria tudo tão diferente se tudo tivesse sido diferente. Pois ela só seria diferente se fosse outra, e até então só soubera, muitas vezes e de muitas formas, fingir ser ela mesma.

De prática fácil, e sempre impune, foi um passo para uma espécie febril de intolerância com a realidade. Logo perdeu o foco original e viu mentiras e verdades embaralharem diante de seus olhos de inventora. Aquilo que o resto do mundo admitia como real, para ela não passava de uma mordaça incômoda que a obrigava a rastejar pela normalidade tediosa da cidadezinha, atrofiando suas asas. E a mentira? Essa de improviso, a libertava para o voo.


Nisso consistia o maior talento de Júlia: mentir antes para si. E acreditar (ah, sim, acreditar!), pois, se acreditasse, o mundo todo se convenceria.

Mentir não. Por isso não falaria.

Dispensando redes e cordas. E então seria o choque entre o real e o ilusório.


(lá está: uma plantação: só uma plantação. tudo real como as coisas que existem e foram vistas e receberam nomes. a plantação existe porque a vejo, e se posso ver e acreditar, não há por que temer. pois vejo, sim, e digo mais: são laranjais! é isso, minha senhora, olhe com toda a atenção, Júlia Capovilla: la-ran-jais! nenhum mistério, finalmente nenhum mistério! nenhum abismo por trás dos laranjais…)


“a não ser que” é produto de sonho. o real, preciso recorrer ao real. o real é o sufocamento – só no início será o sufocamento . depois deve ser outra coisa, uma coisa que ainda desconheço. tenho de esperar.

 


[Suíte Dama da Noite, Manoela Sawitzki, 2009]




[lote 12, Angra do Heroísmo, 2004.2007]



Chega anterior aos olhos e ao ouvido. E o ouvido antes dos olhos, se estamos na floresta. Estar, verbo pobre, inexacto, desajeitado, inábil, incompleto. Se permanecemos na floresta, lugar incerto oculto sem nome. E incerto é tudo antes de lhe darmos nome.
Chega incerto anterior aos olhos ouvido, ao corpo. Seja estar, pemanecer.
Antes do corpo, ainda apenas bocados de olhos ouvido, as mãos: os nomes recolhem-se constroem-se à mão: às mãos, a língua é o vento iminente que incendeia a garganta. Mas só depois do corpo. Ainda não. Ainda não os incêndios e as palavras que caem, as palavras têm sempre de cair. É essa a situação condição do corpo no mundo.
Agora.
Olhos ouvido mãos garganta, ainda não corpo, quase nomes.

ou

um lugar que o é só depois dos nomes: ergue-se um muro perpendicular ao vento do Norte. Um pouco de protecção. As mãos precedem os olhos no desejo da paisagem e rasgam um buraco no muro. Os olhos precedem o pensamento no desejo. O pensamento só completo depois da fresta aberta, muro ferido na alegria do que é no outro lado. Contemplação da construção: da eficácia da teoria que explique o desejo do muro da paisagem: do lugar.
Lugar, agora. Nome justo. Estética da justiça, a medida certa, apropriada, das coisas. Por exemplo, da janela que nomeia o vale ao fundo para onde se abre. Construir. Nomear.

ou

juntamos olhos ouvido língua garganta mãos, já corpo, já nome.
Agora corpo. Agora nome. Agora arquitectura.

celle-là, je ne l’ai pas vue partir


[Un Prophète, Jacques Audiard, 2009]


Na realidade confinada, a tortura e o sofrimento, físicos e morais, a lógica da crueldade é a lógica da própria luta pelo poder. Porque é numa prisão ainda, sempre, lembramo-nos do Foucault e do dispositivo de poder em que se ergue, ainda mais, a arquitectura. Mas é só uma sociedade, uma amostra da sociedade, com a mesma mecânica de vigilância, de poder, de contra-poder, de confronto entre poderes, de toda a simbólica em redor da luta pela sobrevivência ou supremacia. Lá dentro quanto cá fora, pode ser Kafka o cameraman.
Uma sociedade, fechada, murada entre a crueza do método da repressão burocrático e o pequeno expediente quotidiano que lá dentro se reinventa. Uma sociedade onde é permitido a alguém, Malik, por exemplo, cumprir um trajecto iniciático – e consuma-se o ritual na última sequência, liberdade plena, à porta da prisão, no cortejo dos signos da maturidade adquirida na violência e no terror.
Mas é o espaço que importa.
Em português ser e estar são os verbos que importam ao espaço. É-se num espaço, também porque se está num espaço. Está-se na prisão e a prisão é, justamente, a inibição do ser. É o lugar onde apenas se pode – coercivamente – estar. A suspensão do ser, antiética do espaço que é, precisamente, o lugar da construção da liberdade. Antes, a liberdade constrói-se no exacto instante de encontro do corpo com o espaço. Espaço hierarquizado. Na prisão a hierarquia, a divisão do espaço, invenção para supressão o ser. E só depois desse encontro se ergue o lugar.
O impedimento primeiro do corpo-no-mundo é a grande violência da prisão.

duas ruas em lisboa


Talvez tenha a ver com os horários da biografia do quotidiano ou com a topografia das horas, mas subitamente dou-me a cismar sobre duas ruas particulares das mitologias que os anos – e a cidade – me foram erguendo.

As ruas nunca são particulares, naturalmente. Apenas nos apropriamos delas à medida que as reconhecemos e elas nos reconhecem a nós.

Talvez a Rua da Escola Politécnica seja a da velocidade indiferente do dia. A elegante via que corro para aceder à cidade. As janelas que passam por mim, um pouco desprendidas no seu viver-habitualmente burguês. Outrora vaidosamente burguês. Talvez seja uma mulher, elegante e luminosa, por quem passo sem grande atenção, ensimesmado nos negócios do dia.

Talvez a Rua do Século seja a da hora crepuscular. Nocturna, pesada, avenida que traz a noite. Que me carrega os passos indecisos e trocados, pelas dúvidas do dia que se vertem na noite, ou pelo fino álcool que se atravessa. São pedras mais duras. Palácios de um poder antigo. Palácios renunciados, alguns desolados, de um poder agora frouxo. Pedras mais escuras. Muros reflexo dos candeeiros falsamente nostálgicos que intermitentemente iluminam. Servirá de grande consolo re-conhecer que depois de mim lá persistirão as mesmas inamovíveis nocturnas pedras?

Sobram sempre as cidades.




 no Próximo Futuro

manuel vicente


[Quartel de Bombeiros, Manuel Vicente, Macau]


Maria Gabriela Llansol.

enterrar no tempo a nossa luz


[Zona residencial das Olaias, Tomás Taveira, 1982]


O espaços do nosso quotidiano, em toda a sua aventura, não se afastam daquilo que foi o trabalho de Tseu no Labirinto: a nossa memória é o fio de Adriadne que utilizamos para trilhar o labirinto urbano. O espaço como palco das acções humanas não existe. Seria demasiado simples. Mera cenografia para o corpo. O espaço existe a partir do que nos impele: o espaço geométrico não é mais que um quadro de vida. A cartografia das motivações para o percorrermos e descobrirmos. A cor de cada uma das partes do mundo. O valor sensível do mundo.
Homem errante, um ser cujo ser despertado que não pára de tactear-se toda a vida, com sentidos agudos e temerosos, inteiramente entregue à procura de alargar o espaço que lhe é vital. Intensificar as imagens a que o labirinto convoca o caminhante é o labor do espaço.

das casas e de outras coisas#2


[Balcão: Livraria, Rua do Século, 2007-...]

A escrita já me havia ensinado a incompatibilidade, não com o mundo, como pensam os imbecis, mas com o medo. O medo? Sim, o medo. O medo de encarar as diversas estéticas do mundo. O mundo é puramente estético. Mas raramente é santo. Era aí que eu queria atingir a sobriedade da casa, a pureza das suas linhas, a sua modéstia. Meras aparências para armadilhar as almas.


Nascemos de uma realidade normal e tão anormalmente misteriosa?

[O senhor de Herbais, Maria Gabriela Llansol, 2002]



O problema filosófico da estética contemporânea é precisamente o que fazer face ao impasse melancólico de que está acometida.
O real impõe presença. São as extensões das coisas, predicados do mundo, os atributos da representação que dele fazemos. O real, ainda antes do pensamento – também representação – é o confronto do corpo-no-mundo. Um ainda-não-pensado.
A realidade como articulação dos objectos entre si. Presentes, inapelavelmente presentes. E a realidade pode partir-se. Dividir-se na ignorância ou no desejo excessivo. Construir a realidade pelo do desejo supõe atenção, cuidado, mesura.
Sobre as ruínas, restos de palavras, imagens rasgadas: só depois do corpo, o desejo.

um país que não se basta a si próprio


[História de Portugal, Rui Ramos, Bernardo de Vasconcelos e Sousa, Nuno Monteiro, 2009]



A construção política de um estado de todo improvável que nasceu e sobrevive contra. Contra a exiguidade do rectângulo, contra a insuficiência de recursos, contra um vizinho que apavora.
E um Estado político omnipresente. Que de tanto existir e querer ser, deixou que o indivíduo existisse pouco.
Da ocupação artificiosa do espaço, da necessidade de espaço - recurso e subsistência – depois confinados ao rectângulo, limitados por uma fronteira rígida, o mar como caminho, necessidade interesse e espaço, o mar que foi o espaço.
Perde-se o mar que se ousou dividir a meio, na ignorância do planeta, e as glórias, que nunca foram glória, mas apenas, repete-se, necessidade e violência, remetemo-nos ao rectângulo improvável.
Já fomos mar e nunca Europa. Um rectângulo improvável. Sem agora.


adenda: História de Portugal, António Barreto

das casas e de outras coisas




1. A mulher vive na casa; ela toma o seu nome.
2. A casa sabe quem a ama.
3. Uma casa vazia é uma das metamorfoses do espaço vazio.
4. A respiração de uma casa é o som das vozes no seu interior.
5. Sinto que te estou a deixar.
6. Amei-te em/um/sentido.
7. Pare sempre é sempre para.
8. Espanto Deus da alma.
9. Espanto ampara o corpo.
10. A casa é uma coisa nocturna, isto é visto de fora, quando as luzes estão apagadas.
11. A casa é como um gato preto à noite, apenas uma silhueta.
12. A casa vagueia à noite, quando os seus ocupantes dormem.
13. Os sonhos nocturnos avançam em compartimentos fixos.
14. Os sonhos diurnos empalidecem a luz.
15. A abertura da casa ao mundo advém do excessivo som dos seus habitantes.
16. A casa gosta da teia, lembra a sua construção.
17. O irmão da casa é o jardim.
18. Quando a casa entristece as nuvens que a cobrem empalidecem e não há movimento de ar.
19. A casa nunca esquece o som de quem originalmente a ocupa.
20. Os fantasmas da casa permanecem no seu interior, se eles saem e acedem ao exterior, desaparecem.
21. A casa apenas tem medo de deuses, fogo, vento e silêncio.
22. O sangue da casa é o movimento das pessoas no seu interior, quando permanecem quietos.
23. A casa é vista a chorar quando irradia as águas da chuva.
24. Os deuses invejam a casa, porque a casa não pode voar.
25. As escadas da casa são misteriosas porque se movimentam para cima e para baixo ao mesmo tempo e simultaneamente.
26. Neve é feminino, gelo é masculino.
27. A casa teme o vento e tem medo das árvores.
28. A casa transporta o seu peso próprio, e também as penas no seu interior.
29. A luz é a ligação directa da casa com o céu.
30. Deus deu ao homem duas casas, o seu corpo e a sua alma.
31. Todas as almas implodem quando uma mulher morre. É aí que o coração do homem desaparece.
32. O santuário da casa é o quarto fechado.
33. O homem dá nomes aos compartimentos, Deus deu o espaço.
34. O som da casa é o seu distante lamento.
35. A mobília de uma casa é a silenciosa testemunha do homem.
36. O puxador da porta inverte o tempo.
37. O aroma de um quarto define-se pela presença da mulher e pela sua ausência.
38. A sombra da casa comprova a escura bi-dimensionalidade.
39. O calendário da casa é a interna queda das folhas.
40. Videiras trepadeiras na casa sugere a intemporalidade.
41. Quando o vestido de uma mulher cai no chão do quarto Deus ouve-o.
42. O nascimento da casa é de uma mulher.
43. Dançar em casa é um fruto proibido.
44. A casa espera o carteiro.
45. As janelas da casa desejam o sol.
46. Janelas geladas são os quadros desenhados de uma casa.
47. O alpendre da casa medeia a natureza e o construído.
48. A casa permanece durante anos.
49. Papel florido no seu interior faz a casa sentir-se ansiosa.
50. Portas trancadas no interior da casa significa tanto alegria ou horror.
51. Os pavimentos em pedra de uma casa no inverno emanam frio para toda a extensão da casa.
52. Os pensamentos de uma casa particular devem manter-se em segredo.
53. O calor levanta-se na casa por forma a regressar ao sol.
54. Deus nomeia a casa.
55. A alma de uma casa é a sua alma.
56. O alpendre da casa anuncia o pesar da casa.
57. O brilho da lua dentro da casa é mais negra luz imaginável.
58. A casa acorda de manhã e sorri aos pássaros.
59. A estrelas nocturnas indicam-nos que neva no Universo.
60. A madrugada vermelha torna a casa sonolenta.
61. A casa brinca com o lago através dos reflexos.
62. O vento sopra as folhas caídas de uma árvore porque a quer ver nua.
63. A lua revela à casa que as outras casas têm alma.
64. A casa fecha os olhos quando sofre uma remodelação.
65. A casa sabe que há uma inevitável operação à espera dela.
66. Raízes são os parentes próximos das fundações da casa.
67. Nuvens iluminadas são os silenciosos pensamentos de Deus reflectidos.
68. Uma mulher desdobra-se como uma casa de inúmeros compartimentos.
69. Uma mulher move-se na casa como os anjos pelo céu.
70. Quando a mulher amacia o seu cabelo a casa permanece silenciosa.
71. As carpetes da casa são as sandálias da casa.
72. A mulher lava o seu corpo como a lua banha a casa... suavemente.
73. A voz de uma mulher é varia como a luz de um longo dia num compartimento.
74. Quando a mulher lava o vidro de uma janela lava os abandonados pensamentos de Deus.
75. Os lábios da mulher fecham-se como os cortinados da casa se fecham para serem abertos na madrugada.
76. O gato na casa é o vigilante silencioso.
77. Os livros na biblioteca da casa envelhecem com os habitantes da casa.
78. Quando dois amantes conversam num quarto o ar escuta.
79. As estantes de livros de uma casa guardam os amores passados e presentes e aguardam por futuros volumes.
80. Uma taça de fruta numa mesa na sala sugere um toque de pigmento volumétrico.
81. Ela abraça a coluna de madeira e imagina a árvore que lhe era anterior.
82. A fuligem na cobertura é a estola da casa.
83. Os olhos de uma mulher que olham pela persiana aberta tornam o os olhos do pavão plausíveis.
84. As mãos do velho pintor seguram o corrimão de madeira para que este suporte a sua densa visão.
85. O estúdio de um pintor é para pintar e para fazer outras coisas também.
86. O pintor embalsama a morte.
87. Quando uma mulher balança uma criança nos seus braços confunde a morte.
88. Quando uma mulher sopra um beijo na casa... ela detém-se...
89. Os olhos dos músicos de um quarteto de cordas cruzam-se na sala e trocam-se entre eles bem como aos seus corações.
90. Uma casa nasce, vive e morre e é nomeada casa.
91. A casa alcança a imortalidade quando se torna apenas um pensamento que deixa de existir.
92. Deus castiga a casa banido-a do tempo.
93. As cobras entram em casa para escapar à ira de Deus.
94. Os gansos selvagens voam em triângulo para perfurarem as nuvens.
95. O peso das pedras de granito de uma casa devém da absorção pelas pedras de toda a melancolia da casa.
96. A humidade nas pedras da casa forma-se a partir do medo da casa ao nevoeiro.
97. As cortinas da casa são os seus véus, quando removidas revela-se a nudez da casa.
98. A casa é o colaborador sexual da mulher, preenchida de pensamentos íntimos.
99. O ar é convidado quando uma mulher abre a janela.
100. Livros são fêmeas, um misterioso ritual reside no seu interior.


(continua)

[Sentences on the House and Other Sentences, John Hejduk, in Uncontrollable Beauty: Toward a New Aesthetics, versão JAC]