Somos verdadeiramente pessoas seguras de si


sem-abrigo

[Manhattan, Nova Iorque, 29.10.2012]






Continuamos tão despreparados para enfrentar o terror que nos assalta. E pouca diferença fazem os dispositivos tecnológicos de que dispomos e em que nos barricamos. Às fontes do sofrimento - o declínio do corpo; a ira dos elementos; a dor causada pelos outros – de nenhuma delas nos abriga a arquitectura.


No sossego desses lagos sei o que faço e, sabendo o que faço, fico a saber quem sou.


É também peculiar o sentimento da duração em face de certas coisas pequenas, quanto mais simples mais impressionantes


zona de conforto


[Stalker, Andrei Tarkovsky, 1979]


É verdade que cada Estado tem o direito de regular os fluxos migratórios e implementar políticas ditadas pelas exigências gerais do bem comum, mas assegurando sempre o respeito pela dignidade de cada pess
oa. O direito que a pessoa tem de emigrar – como recorda o número 65 da Constituição conciliar Gaudium et spes – conta-se entre os direitos humanos fundamentais, com faculdade de cada um se estabelecer onde crê mais oportuno para uma melhor realização das suas capacidades e aspirações e dos seus projetos. No contexto sociopolítico atual, porém, ainda antes do direito a emigrar há que reafirmar o direito a não emigrar, isto é, a ter condições para permanecer na própria terra, podendo repetir, com o Beato João Paulo II, que «o direito primeiro do homem é viver na própria pátria.»


Bento XVI, Migrações: peregrinação de fé e de esperança


Em todos os domínios e sob todos os aspectos, é preciso desconfiar do emprego irreflectido, e mais ainda, do emprego deliberado das palavras em voga: elas contribuem frequentemente para criar as realidades que pretendem designar ou descrever.

Marc Augé, Para uma Antropologia da Mobilidade












A realidade é o que é: uma besta. É-o porque nos desfaz todo e qualquer sistema filosófico ou de pensamento, por mais sólido, fechado, monolítico que seja, sobre o qual se erguem todas as nossas mais profundas crenças. E as ideologias políticas do ocidente. E fá-lo com alguma violência.
Só um optimista avoado, para quem tudo é bom excepto o pessimista, ou um pessimista cavernícola, para quem tudo é mau excepto ele mesmo, podem aderir sem censura à realidade ou repulsá-la como se dela não nos chegassem também o que parecem milagres da natureza humana. Se a realidade é palco e fonte de violência, dor, sofrimento, também o é de beleza, alegria e consolo.
Uma virtude da crise – krisis – é colocar em questão o(s) olhar(es) sobre o real. Possibilidade para desinstalarmos e nos desinstalarmo-nos as certezas que até aqui nos trouxeram. E antes do deflagrar da crise todos nós, ocidente, éramos certeza. E optimismo. A História tinha terminado. O amanhã cantaria liberdade para todos.
Liberdade condicionada pela televisão. O preço a pagar seria esse: enxurradas de informação sempre envolvida por imagens sedutoras e reprodutíveis ao infinito. Imagens que evocavam uma realidade real mas não passavam de fabricações, efabulações, manipulações, simulações (Baudrillard) do real. Imagens desprovidas da espessura das coisas que, no concreto, acontecem e sucedem. Imagens de imagens que abriam o desejo de mais imagens. A sedução é sempre um jogo terrível. Esquivo. Equívoco. Aisthesis, estética, anastesia. Adormecemos debaixo da nuvem da estetização generalizada da vida. Uma estetização kitsch, como todo o kitsch, desprovida de profundidade ética, onde a beleza significa a mera aparência das coisas, a superfície das coisas. E ainda que seja na pele, pela pele, que primeiro tocamos o mundo e ele nos toca, pele sem músculo é só um tecido de células mortas. Agora não há cirurgia nem glossy que amacie a pele morta. Nem apague as sombras da luz glamourosa das imagens de outrora. Recordemos as metáforas dos discursos, teorias e crítica, arquitectónicas que bebiam dos manuais de medicina cirúrgica.
Multiculturalismos, transculturalismos, velocidade, comunicação global, abolição de fronteiras, fim de limites. A algaravia pós-moderna, académica e mediática, os sacerdotes da razão determinista e do insano optimismo antropológico ruíram. A realidade não deixou de ser realidade e o homem não deixou de ser homem. E surge aqui a possibilidade de contrabalanço proveniente das sombras da razão. Ou por outra, de matrizes estéticas e ideológicas fundadas na matéria irracional do homem. E, por consequência, o encerrar do homem e de sociedades em exercícios de recuperação de mitos e elaborações sobre um momento original, primeiro e limpo (fantasiosos e imaginários e perigosos), tanto de comunidades como de indivíduos. O cosmopolita só o poderá ser a partir de uma raiz. O cosmopolitismo só o poderá ser como abertura ao outro real. Ao outro e a toda a toda a sua (humana, demasiado humana) fragilidade, bem e mal. Em toda a sua realidade, sem a fantasia multicultural da bondade intrínseca no outro.


O problema que daqui decorre para uma pensamento espacial e arquitectónico é, exactamente, o do permanente desenho, redesenho, dos limites e das fronteiras. As fronteiras não se fazem e desfazem: redesenham-se. Eventualmente, o único problema intrínseca e verdadeiramente arquitectónico. Uma parede é uma parede é uma parede. Como e onde a abrir? Por onde deixar entrar o ar a luz e o vento? E o mundo.







Quando a criança era criança, Arremessou um bastão como se fosse uma lança contra uma árvore, E ela ainda está lá, chacoalhando, até hoje.


Quando uma criança era criança, Esperava a primeira neve, Como ainda espera até agora.


Quando uma criança era criança, tinha uma timidez na frente de estranhos, como ainda tem.


Quando uma criança era uma criança, alcançava cerejas nos galhos mais altos das árvores como, com algum orgulho, ainda consegue fazer hoje,



Quando uma criança era criança, inha, em cada cume de montanha, a busca por uma montanha ainda mais alta,e em cada cidade, a busca por uma cidade ainda maior, e ainda é assim,


Quando uma criança era criança, Avelãs frescas machucavam sua língua, parecido com o que fazem agora,


Quando uma criança era criança, amoras enchiam sua mão como somente as amoras conseguem, e também fazem agora,


Quando uma criança era uma criança, Era suficiente comer uma maçã, uma laranja, pão, E agora é a mesma coisa.


Quando uma criança era uma criança, brincava com entusiasmo, e agora tem tanta excitação como tinha, porém só quando pensa em trabalho.


Quando uma criança era uma criança, Visualizava uma clara imagem do Paraíso, e agora no máximo consegue só imaginá-lo, não podia conceber o vazio absoluto, que hoje estremece no seu pensamento.


Aconteceu. O fogo, mais uma vez, penetrou na Terra. Não caiu ruidosamente sobre os cimos como o raio em seu fragor. Sem abalo, sem trovão, a chama iluminou tudo por dentro.*


[Fall I, Bas Jan Ader, 1970]


[Fall II, Bas Jan Ader, 1970]


[I'm Too Sad to Tell You, Bas Jan Ader, 1971]


[Broken fall (organic), Bas Jan Ader, 1971]


[Nightfall, Bas Jan Ader, 1971]


[Broken fall (geometric), Bas Jan Ader, 1971]


Bas Jan Ader, 1942.1975




*A Missa Sobre o Mundo, Pierre Teilhard de Chardin, 1923


Muitas pessoas, então, pareciam lindas e agora só algumas parecem, com alguma sorte.


Quando uma criança era uma criança, Uma vez acordou numa cama estranha, e agora faz isso de novo e de novo.



Quando uma criança era uma criança, Mastigava espinafre, ervilhas, bolinhos de arroz, e couve-flor cozida, e comia tudo isto não somente porque precisava comer.


Como pode ser que eu, que sou eu, antes de ser eu mesmo não era eu, e que algum dia, eu, que sou eu, não serei mais quem eu sou?


Quando a criança era uma criança era a época destas perguntas: Existe de fato o Mal e as pessoas que são realmente más?


da dificuldade em Humpty Dumpty se manter sobre o muro

[Sky Mirror, Anish Kapoor, 2006]






Assustai-vos. Assustai-vos, preclaro leitor, sempre que ouvirdes de um homem que não obedece a dogmas. A verdade, a Verdade, é bem capaz de ser de outra ordem que não a das palavras. Subjaz atrás delas, antes delas, como húmus que lhes dá alimento. Imperceptível. Quase invisível. E o discurso anti-dogma, à superfície de um livre-pensamento, aponta directamente ao coração de uma cultura que se ergue(u) sólida do maciço do dogma. Um discurso de diálise. Moderno, et pour cause, supostamente emancipador do indivíduo, orgulhoso, que durante toda a história da humanidade terá sido agrilhoado à opressão do céu, da terra, do próximo, do outro, da cultura e, provavelmente, do canário. Uma longa noite escura de ignorância redimida a 14 de Julho de 1789. E de então para cá, sim, o progresso. Radioso. Tanto quanto hoje o experimentamos.

O espectáculo abre-se em cascata. Espectáculos dentro de espectáculos. Já avisara Deleuze - anti-dogmático instituído agora em dogma? – tudo se dobra, desdobra, redobra, e quem sabe tenhamos recuado ao barroco. A crise são crises. Crises dentro da crise. Septicémia do corpo social que evidentemente infecta o emancipado sujeito. A inteligência – e perversidade - do capitalismo é precisamente o movimento de absorção para o seu interior aquilo que aparentemente se afirma como margem, (cf. naquilo que se conhece como arte contemporânea).

Pedir a um crítico profissional que esboce um horizonte tem a mesma pertinência que pedir ao Jorge Coelho que tutele o ordenamento do território português. É esse o espectáculo que dá da classe Paul Goldberger: o problema não é afinal starsystem a mais, sê-lo-á, porventura, a menos; os ícones dos feitos da modernidade e da pós-modernidade não são apenas ícones, são agora altares diante dos quais todos nós dos devemos prostrar contritos; a criatividade é difícil, a objecção à livre-insanidade do arquitecto ora pela acusação de inconsistência, no caso de diferença, ora pela de auto-paródia, no caso de repetição. Foi a especulação, não foram os arquitectos, não foi a boa vontade dos construtores, foi o dinheiro que tudo suja. Somos todos bons selvagens.
E tudo se resume ao sistema mediático. É aqui que tudo se legitima. Onde tudo nasce e tudo morre. Alfa e ómega do que se foi construindo nas últimas décadas, atmosfera cultural inescapável, sortilégio mais ou menos frívolo de imagens sem espessura nem gravidade, jogo de espelhos e de enganos, distorção do real, fabricação da realidade a duas dimensões, sem cheiro nem cor – hoje em dia é tudo branco psicótico – nem dor.
Arquitectura? Claro, no necesitamos más. A emancipação deixou-nos sós. Sem nada que construir.




Quando a criança era uma criança era a época destas perguntas: Aquilo que eu vejo e ouço e cheiro não é só a aparência de um mundo diante de um mundo?


Quando a criança era uma criança era a época destas perguntas: Um lugar na vida sob o sol não é apenas um sonho?


vendilhões do templo

[Igreja de Jesus, Rafael Moneo, San Sebastian, 2012]

E, aparentemente, no hemisfério norte e ocidental, há ainda por construir. Uma igreja, por acaso. De Rafael Moneo, por outro acaso – ou decisão da diocese de San Sebastian. E logo filiada na genealogia Siza/Ando, dizem.
Curiosamente em tempo de declínio do número de «fiéis» na outrora católica Espanha – que quando o não for (católica) de vez, deixará de o ser (Espanha), e já estivemos mais longe - a encomenda surge com um discurso, e um programa, por supuesto, à volta da comunidade, ao quotidiano, à vida.
Complexidades e contradições a gosto: se a um católico é estranho e antiético o discurso da abstracção, ah, a abstracção, pegar em Siza pela mão e excluí-lo do concreto, do real, não o é menos. E se a inclusão do supermercado no térreo do espaço sagrado sublinhará o carácter comunitário do templo e a presença deste no seio da comunidade, da vida de todos os dias, tanta parede branca, minimal way, quase apaga essa presença do espaço público. Espanha não é, ainda, França, e a presença de um crucifixo em público não será ainda um crime lesa sua majestade la republique, essoutra religião ateia. Onde está a cruz? Porquê tanta timidez? Porquê a vergonha do que se é e onde se é? Mais um europeu e pós-moderno exercício de desprezo de si mesmo? Aguardemos que os departamentos de studies da Av. De Berna se pronunciem.

A dificuldade moderna em erguer templos, pela óbvia razão de ser uma ideologia ateia, só encontra paralelo na bizarra dificuldade de grande parte da Igreja Católica em (re)encontrar uma estética que procure tornar sensível toda a beleza da Palavra. Sem recorrer ao kitsch reaccionário ou ao deslumbramento acrítico com o que dizem ser a vanguarda cultural.












[Santuário Theotokos, Ruy Ohtake, São Paulo, 2012]

Uns metros abaixo, o Pe. Pop Marcelo Rossi inaugura finalmente o seu desejado santuário. Nem nos detemos na perversão que é a teologia pop do dito, uma aberração para-evangélica que quase quase determina a escatologia da salvação ao aqui e ao agora, nem no quase culto da personalidade associado, e vamos directos à proposta de Ruy Ohtake, filho da Tomie.
Uma espécie de contra-relógio da fé. E por consequência da arquitectura. Size matters: da altura da cruz à largura do altar; da capacidade para 20.000 almas à distância à «estética tradicional do templos do catolicismo». Verdade. Se Deus está em todo o lado, também pode estar muito bem num armazém de mercadorias revestido a chapa ondulada. «Será um novo cartão-postal de São Paulo», entusiasma-se o sacerdote. «Uma construção para durar 700 anos.» Talvez com um pouco menos de orgulho se lembre da passagem da Escritura em que Cristo nos recorda do seu poder para destruir os templos dos salomões em três dias.


Se a Norte temos a timidez, que não humildade, e alguns equívocos estéticos que podem muito bem caracterizar a nossa época – e a relação que as nossas sociedades mantêm com o sagrado – a Sul, toda a nova ostentação e vaidade de quem se sente abençoado com um punhado de dólares mais. E esta ostentação é todo um programa, o único, diria, do que se vai construindo pelos emergentes: Brasil, China, Rússia, Dubai, o que interessa é o tamanho e o tamanho da auto-afirmação diante do mundo.




pour épater le bourgeois

Naturalmente que a esta questão, O que farão os arquitectos quando já não puderem construir?, estarão habilitados a responder os arquitectos residentes do hemisfério norte e ocidental. Exactamente os ‘territórios’ mais densamente povoados pelas ‘práticas’ e ‘visões’ da arquitectura quando, como afirma o Tiago, se tem uma visão (quase) escatológica da arquitectura na história da salvação do mundo - “A arquitectura tenta projectar o futuro, numa altura em que cada vez mais nos tentam cortar qualquer perspectiva de o fazer.”.
Talvez a crise nos faça recuar na construção, e em bom rigor, estará quase tudo construído no hemisfério norte e ocidental – nesse sentido, seria o fim da história, no hemisfério norte e ocidental, se a arquitectura fosse uma forma de ‘projectar’ o futuro. Mas não, por enquanto a crise, pelo menos, acabará com o excesso de desenho. E, esperemos, com as ‘visões’ e ‘novas práticas’ e ‘reinvenções’.
Porque a arquitectura é o que é, com mais ou menos razão, desde a antiguidade, que o tão humano horror ao vazio tenta atribuir ao que não o é (arquitectura), essa qualidade. Necessariamente a arquitectura é construção – o inverso não é necessariamente verdadeiro – seja o facto arquitectónico uma realidade de séculos, meses, efémera, este exige sempre um suporte físico. Construído. Matéria obedecendo às leis da gravidade. E talvez o que dê legitimidade de arquitectura a qualquer um destes factos construídos seja a realidade da habitabilidade, usabilidade, praticabilidade, de cada um deles. Embora seja uma ideia extremamente interessante (Santiago Baptista), a radicalização conceptual da arquitectura, ou do que ela possa ser, parece mais um exercício ocioso pour épater le bourgeois em que todos nos tornámos cinicamente especialistas.












[Interface Rodoviário de Cascais]

Mas a realidade é uma besta e a realidade é que o grosso do legado moderno são as estruturas dificilmente transformáveis: auto-estradas, pontes, "viadutos, a parte de baixo de uma ponte, as áreas entre a linha do comboio e as traseiras de um edifício, telhados, túneis". Ao contrário de todas as outras épocas da nossa civilização, deixamos em herança, as ruínas de uma sociedade que se alimentou do ‘funcionalismo’ e da utilidade prática de um amontoado de coisas que, mais tarde ou mais cedo, serão aniquiladas por outras, estritamente funcionais provavelmente. Por isso, para além de assustador, porque dito debaixo do guarda-chuva de um certo humanismo que alivia a boa-consciênca, «perceber como é que as pessoas funcionam dentro dos espaços» é o reiterar do discurso totalitário modernista.
As pessoas são absurdas. E os arquitectos também.


Quando a criança era uma criança era a época destas perguntas: Quando foi que o tempo começou, e onde é que o espaço termina?


Quando a criança era uma criança era a época destas perguntas: Por que estou aqui, e por que não lá?


Quando a criança era uma criança era a época destas perguntas: Por que eu sou eu e não você?


Quando a criança era criança, não fazia poses na hora da fotografia


Quando a criança era criança, tinha um redemoinho no cabelo


Quando a criança era criança, saía correndo


Quando a criança era criança, sentava-se sempre de pernas cruzadas


Quando a criança era criança, não tinha nenhum costume


Quando a criança era criança, não tinha opinião a respeito de nada


Quando a criança era criança,tudo lhe parecia ter alma


Quando a criança era criança, não sabia que era criança


lisboetas


lisboetas


lisboetas


lisboetas


lisboetas


lisboetas


lisboetas


lisboetas


lisboetas


lisboetas


lisboetas


lisboetas


lisboetas


lisboetas