terra devastada


[Jardim Gramacho, Andrew Lenz, 2007]


Abarcamos tudo, mas só pegamos vento.


Três deles, ignorando o que custaria um dia a seu repouso e felicidade o conhecimento das corrupções de cá, e que esse contato geraria sua ruína, que suponho já avançada (pobres deles que se deixaram levar pelo gosto da novidade e deixaram a brandura de seu céu para vir ver o nosso), estiveram em Rouen, quando ali estava o finado rei Carlos IX: o rei falou longamente com eles, foram-lhes mostrados nossos modos, nossa pompa, a forma de uma bela cidade e, depois disso, alguém lhes pediu sua opinião, querendo saber deles o que haviam nisso considerado mais admirável. Eles responderam três coisas.


[Dos Canibais, Michel Montagne, 1580]




O lixo é a parte da nossa história que não queremos no álbum de fotografia.

[Vik Muniz, Pessoal e Transmissível, Tsf, 28.09.2011]





É mais sobre o ego de Vik Muniz e algumas boas intenções - ainda que uma boa intenção, uma só, apagaria o fogo do inferno - (ou algumas boas intenções nascidas da ferida narcísica do autor?), não tanto um filme sobre os dejectos da sociedade.
Jardim Gramacho, o maior aterro sanitário da América Latina, é o território – paisagem – onde Lucy Walker filma Vik Muniz no processo de produção de fotografias de imagens construídas com o lixo catado na lixeira. A proposta de Muniz é a de envolver os catadores na criação dessas imagens, processo que, uma vez finalizado, contemplaria o retorno à comunidade dos catadores do valor com que as fotografias fossem transaccionadas em leilão.
Interessa-me menos a intenção e mais o território e o porquê da escolha do Jardim Gramacho.
Sobre isso o filme é omisso. Apenas umas parcas elaborações do artista sobre a sua vocação e filiação pop – será sempre a conlusão óbvia de qualquer pop, o esgravatar o lixo – sobre a matéria como fim único da arte e do homem, a evidência de que o lixo é a matéria do que rejeitamos ver, cheirar, sentir, no nosso espaço. A ausência, portanto, de qualquer pensamento sobre a paisagem, a sociedade, a cidade, a arte, e a relação destas todas.
Para lá das boas intenções, Wasteland é uma belíssima jogada do marketing, com todos os ingredientes demagógicos – outro fim da pop? – para brincar com o pathos da audiência e levá-la ao preciso ponto a que Vik Muniz pretende: a anestesia e a indiferença ao real. Mas só após este ter (sido) consumido aquela.
April is the cruelest month, diz Eliot, o mês do recomeço do ciclo das estações e do inferno da História, do regresso ao cultivo da terra dura nos campos devastados da Europa pós-I Guerra Mundial. Inexplicavelmente o mesmo título do poema de Eliot e o do filme à volta de Vik Muniz no lixo.


[Wasteland, Lucy Walker, 2010]












E é da produção do lixo que Michel Serres nos desperta para uma reflexão sobre a sociedade ocidental contemporânea. Da sua situação pela acção no território, pelo que torna visível e invisível. A poluição como assinatura.
A poluição – palavra que decorre da poluição nocturna, a ejaculação com que o macho marca o seu território vital – hoje o lixo e a destruição com que, à escala do globo, assinamos a nossa presença e acção.
Como os animais que mijam no território para o delimitarem, nós sujamos o território para o possuirmos. Assim nascem os limites, a arquitectura da casa, a construção das cidades, as nações. À volta dos mortos enterrados e em decomposição fixam-se as cidades dos vivos. Onde jaz um homem morto é onde se faz erguer uma cidade; erguemos uma cidade onde enterramos os nossos mortos. A sujidade como sinal de posse e, em movimento inverso, a expansão do dejecto como alargamento da propriedade.

Da vagina à casa, à cidade, à nação. E a religião.
É esta distinção fundamental, a do Ocidente, a quem foi revelado um Deus que não deixa lugar. O universalismo de um corpo que deixa intacto o útero da mãe à nascença e o túmulo vazio à morte. A abolição do sangue e das secreções como lei da paisagem. Uma cultura fundada no espaço vital sem desejo da propriedade além da que o corpo exige.

A propriedade é um roubo, proclamam os modernos, sem perceberem que a propriedade é uma decorrência do espaço vital. Só nos apropriamos do que necessitamos. A necessidade é a ordem do espaço.
A propriedade é um roubo, proclamam os modernos quando o processo moderno da propriedade alastra e vai excluindo cada vez mais indivíduos.


Serres não escapa ao impasse. Proclama, também ele, um fim da propriedade, já não sob reacção à imoralidade desta, mas como necessidade imperiosa para evitar o apocalipse numa paisagem que afirma global.
Marcas globais, publicidade globais que poluem o espaço de percepção (e poluir a alma não é o propósito da “indústria do marketing”?) – a poluição suave - , ruídos, devastações, catástrofes, provocados por acção humana, que rasgam qualquer fronteira e limite – poluição dura - que destroem a despeito dos mapas e das nações. Sendo um espaço global, de circulação global, uma única comunidade global sujeita à acção de si própria, não necessitará mais de fronteiras ou limites, de propriedade.
Optimista radical, com fé no processo do futuro da hominização do homem, o caminho, (utopia?) de Serres esquece a contingência. E a contingência exige-nos um leito para descanso à noite, um buraco para defecar, um claustro para a intimidade do amor. O espaço onde nos refugiarmos da poluição com que sujamos o próximo, a Terra; espaço reservado onde nos limpemos da poeira dos dias. Pelo menos enquanto a lei não for a do amor. A nós, ao próximo, à Terra.



A lei ainda é a da dureza. E por enquanto, esse espaço global escapa ao império da poluição e do dinheiro – dinheiro, esssa epécie de excremento que desejamos e repulsamos. A propriedade não é um roubo, tanto quanto é a única defesa legal para as remoções que estão em curso para que o império do dinheiro siga a sua marcha.
A marcha que desaloja milhares para a construção de “infra-esturutas”, chamam, para a Copa2014 e as Olimpíadas2016, a mesma marcha com que Vik Muniz canibaliza o catador que leva a Londres ao leilão das suas falhas narcísicas.






da merda e outros excrementos





[O Mal Limpo, Michel Serres, 2008]



O nosso lugar é onde cagamos.E amamos. 

μελαγχολία


[Filz TV, Joseph Beuys, 1970]







i.


[Angelus, Jean-François Millet, 1857]



Quando eu estudava História nos anos de 1960 e 1970, a Reacção não vinha nos livros que eu lia: era um movimento político e cultural anacrónico que representava o passado clerical e aristocrático que a burguesia e o capitalismo tinham varrido da Europa.


Curiosamente foi por via da minha especialização em história da arte que a Reacção começou a interessar-me. Apesar da implacável censura da ortodoxia modernista que dominava a academia no campo da história da arte e apagava toda a informação que não fosse conforme à ideia do progresso das artes, fui percebendo que afinal as vanguardas não eram o único movimento artístico existente nos tempos contemporâneos. Recordo um trabalho académico que me levou a descobrir, muito surpreendido, que existiram em Portugal dezenas de artistas que, pintando paisagem, assuntos sacros ou retrato, não respeitavam o cânone da vanguarda inaugurada pelos impressionistas e Cézanne. Todos estes artistas tinham desaparecido da história - e continuam ainda hoje em parte incerta.


Cruzei-me nessa altura com o famoso quadro Angelus (1857) do pintor francês Jean-François Millet, uma das pinturas com maior influência sobre o gosto popular em toda a história da arte contemporânea. Envolvidos pela luz dourada do pôr do sol nos campos planos e tristes do Norte, um homem e uma mulher interrompem o trabalho agrícola e recolhem-se em oração quando toca o Angelus que adivinhamos porvir dos sinos de uma igreja que se vê ao longe. Recordei aquilo que já tinha esquecido: três vezes por dia, ao nascer do sol, ao meio-dia e ao entardecer, os sinos das igrejas levavam as pessoas a deter-se para rezar uma Avé-Maria, a outra designação que se dá à prece do Angelus. No preciso momento em que escrevo isto, ouço ao longe o sino da igreja da aldeia: são seis da tarde.


Ao princípio, achei o quadro num pouco kitsch, não me surpreendendo portanto o seu sucesso popular. Mas pouco a pouco, ao longo dos anos e das leituras, percebi-lhe o contexto: a Europa do século XIX e do início do século XX não foi apenas a Europa da burguesia, do capitalismo, do proletariado. Foi também a Europa reaccionária, na qual ocorreu um poderoso movimento de reafirmação religiosa dirigido por cristãos de várias denominações e expresso em várias escolas de Arte e Arquitectura sacra (que só hoje começam a merecer alguma atenção académica). O quadro de Millet integra-se nesse ambiente, representando a vida ritmada pelo tempo antigo ligado ao movimento do dia e às estações do ano, um tempo ecológico que o cristianismo implantou na Europa, e que estava então a ser substituído aceleradamente pelo tempo "dos mercadores", como escrevia Jacques le Goff no seguimento de Marx, o tempo fabril e comercial do relógio e do capitalismo.


Millet pintou o seu Angelus num gosto e com uma cultura que desaparecem da nossa memória, à medida que deixamos de ouvir o som antigo dos sinos, que só aos velhos faz hoje semicerrar os olhos, baixar a fronte e suspender por um instante o vazio do tempo.


[Angelus, Paulo Varela Gomes, Público, 26.11.2011]





[Angelus, Salvador Dalí, 1935]

















No sphere of high culture is implicated in the fall of the affluent society in the same way art is. Yesterday I commented on the resistance to melancholy, the flight from reality, that enabled art in our time to promote the fantasy of an unlimited market. Some have called the system that has now fallen "offshore capitalism"; perhaps another description is "post-modern capitalism". In post-modern capitalism, secondary markets created a counter-reality that was unfettered by production. The economy was run like a theme park. It's obvious how deeply involved in that daydream was the art of the last 20 years, which so gleefully rejected anything that might tie it to the slow, patient, tedious stuff of real creativity.


Drama, the novel, even cinema have all kept a safer distance from the booming monster of modern capitalism than artists did. What I want to ask now is – why? What happened? How did art become the mirror of fraud? It is not a story that starts with Damien Hirst's diamond skull but one that goes back to the very origins of the consumer society.


After the second world war artists were steeped in history and introspection. Art has never been more serious in its view of life than it was in the era of Mark Rothko and Francis Bacon. But even as modern painting reached such heights and depths, western society was going through an epochal transformation. The power of the capitalist economies in the postwar era was unprecedented in world history. An entirely new lifestyle, that of "consumerism", was born.


Consumerism instantly inspired artists. Pop art in America and Britain took the surfaces of objects, the instant appearances of the new bright world, as its subject matter. Everywhere, emotional depth in art was censored. Abstract Expressionism had to die. Art could teach people to look at the world in a new way: to embrace the cool. Pop art taught everyone to enjoy money and the mass media and 1980s post-modernism taught the same lesson again.


These emotional styles have long since been so popularised that even intelligent people accept that reality television is a form of culture and celebrities fit receptacles for our ephemeral floods of feeling. All the shallowness of modern mass culture began in avant-garde art 40 years ago. We're Warhol's ugly brood. Art has even fed the unsustainable appetites that are destroying the planet by constantly telling everyone cities are better than the countryside, culture more real than nature. It has become the enemy of truth, the murderer of decency.


The modern world has screwed itself and art led the way.


[How art killed our culture, Jonhatan Jones, The Guardian, 6.3.2009]



[Piss Christ, Andres Serrano, 1987]



ii.

Imersos nesta tecnologia opinativa, não temos tempo para nos confrontarmos connosco mesmos. Do alto da auto-indulgente e presuntiva coerência – esse valor monolítico – vamos derramando pelas redes sociais em geral e pelo mundo em particular as nossas visões. Se a crise é, etimologicamente, transição, é a melhor ocasião para que redobremos a atenção sobre nós mesmos. Não nos tomemos muito a sério. Vigilância sobre nós e deixar o mundo passar um pouco mais ao largo.
Podemos começar por ler e rememorar tudo o que dissémos, escrevemos e pensámos, sobre o estado das coisas ao longo dos últimos meses. Três ou quatro bastam. O suficiente para conseguirmos, com necessária auto-ironia, soltar uma sonora gargalhada sobre a nossa presunção. E para ter a exacta consciência da nossa ignorância e perplexidade sobre o que se está a passar. O ego não sofrerá pela via do riso.
Falo por mim.


iii.






[Paris, Texas, Wim Wenders, 1984]

Global Business




















Toda a narrativa da cidade global é mais sobre consumo que sobre a polis. Aristóteles recorda na Política que o fim da cidade é viver segundo o bem. Não, apenas, viver bem: Este é o fim supremo seja em comum para todos os homens, seja para cada um separadamente. Estes, porém, unem-se e mantêm a comunidade política até mesmo tendo em vista o simples viver, porque existe provavelmente uma certa porção de bem até mesmo no facto de viver; se não há um excesso de dificuldades quanto ao modo de viver, é evidente que a maior parte dos homens suporta muitos sofrimentos e se apega à vida como se nela houvesse uma espécie de serenidade e uma doçura natural. Há, então, um princípio moral na cidade, embora a política não seja a administração de princípios morais.
A falsa, mas prevalecente e dominante, ideia de que tudo é político, traz ao domínio da política elementos que lhe são estranhos [Carl Schmitt], faz resvalar a política e a acção política para a neutralidade, quando não para a confusão deliberada de esferas antiéticas.
Recorrendo ainda a Schmitt – um perigo, reconheço – se o princípio da moral é determinado pelas noções de bem e mal, o da economia da de lucro, o da estética das de belo e feio, o da política decorre da distinção amigo/inimigo. O limite da política será, por conseguinte, a guerra, que se inscreve na política não como fim, naturalmente, mas como possibilidade. E é na guerra que se contempla a realidade que a normalidade do quotidiano veda.





The technology slowdown threatens not just our financial markets, but the entire modern political order, which is predicated on easy and relentless growth. O abandono da causa científica e a consequente impotência da tecnologia, a despeito do ímpeto da tecnologia comunicacional e da informação, com profundas implicações no ordenamento político contemporâneo, desvela o que tem sido o dogma que sustenta o Ocidente desde o séc. XVIII: o crescimento irrestrito e infinito. Hoje sabemos que tal é uma impossibilidade material. O planeta exaurido de recursos é só uma imagem dessa percepção, mesmo que apocalíptica. Mas é este o dogma de fé, positivista e materialista, que domina o pensamento ocidental de há 300 anos.



Tudo ser política reduz a política à sua sujeição aos poderes fácticos que, por sua natureza, escapam ao escrutínio público. Por consequência, a falência do político sugere-se dissimulada de paz perpétua, sob a direcção não explícita dos mercados, (mercados dominadores dos dispositivos da comuniação): The story of youngpeople, full of ambition, energy, skill and talent, moving to enticing citiesthat call to them like a siren’s song is as old as modern civilization. And in a world where national bordersare easier to traverse, where more countries are joining the prosperous globalmiddle class and where the cost of a one-way plane ticket is more affordable,young professionals probably have more cities to choose from than ever before.



Robert Moses, the greatbuilder of New York City in the 1950s and 1960s, or Oscar Niemeyer, the greatarchitect of Brasilia, belong to a past when people still had concrete ideasabout the future. Voters today prefer Victorian houses. Science fiction hascollapsed as a literary genre. Men reached the moon in July 1969, and Woodstockbegan three weeks later. With the benefit of hindsight, we can see that thiswas when the hippies took over the country, and when the true cultural war overProgress was lost.Não nos permitimos já a uma imagem do futuro e desesperamos no presente.




O espaço, tratado como plano pelo mainstream ideológico – de esquerda ou direita – resulta como ironia objectiva (reverso nas consequências das boas intenções dos princípios), mas tão pouco irónica, porque narrativa deliberadamente construída para a exclusão da política na decisão sobre a polis.
Depois do consenso keynesiano, da época dos gestos de planeamento no pós-Grande Depressão dos anos 30 – e de muitas das perversas certezas do modernismo -, o Consensode Washington consagra a reversão do antagonismo dos agentes do planeamento urbano: urbanista confunde-se com o empreendedor. O promotor é agora quem produz o espaço. E este, legitimamente, rege-se pelo princípio económico e não pelo do bem comum. O mesmo promotor que adquire ascendente sobre a decisão política por esta estar refém das receitas que decorrem do imobiliário (coda).
Resulta daqui uma lógica de territórios e micro-territórios de exclusão, cada vez mais excluídos, passe a tautologia. Territórios que não cabem no contexto modernista do planeamento, muito menos no da atmosfera da construção de imaginários já prontos a habitar – consumir- espaços de exclusão que constroem a realidade como sobras do quadro ideológico do consumo.
A cidade real é ocultada sobre a paisagem mediática, mas o real é subversivo a qualquer photoshop.











O amor é cego/Ray Charles é cego/Stevie Wonder é cego/E o albino Hermeto não encherga mesmo muito bem


E eu menos a conhecera mais a amara?

[O Estrangeiro, Caetano Veloso, 1990]

hubris


[Rua Frederico Eyer, Rio de Janeiro, 2011]


xi
O Rio resiste à metaforização por uma decisão de essência. A literalidade do seu apelo torna-a quase cidade obscena, mas salva-se porque a hibridez é a sua raison d’être, e legitima-se a presença luxuriante porque outra Lei Natural seria um extermínio. As raízes das árvores irrompem pelos passeios do Leblon, alastrando como a Daphne barroca até aos nossos pés, prontas a enlaçá-los, mãos e braços inimagináveis à consciência existencialmente impressionada, ad nauseam, de um Roquentin, pelo excesso de presença das raízes de um castanheiro. Ou a floresta da Tijuca, floresta urbana, plantada às ordens do império, mas que agora destrepa pelos morros abaixo, enleando-se nas grades que afastam os olhares muito ricos dos muito pobres, atravessando, num salto, as ruas por que micos andarilham, acima das nossas cabeças, em cabos de telefone hibridados com liames. Brotam a humidade e o verdor muito além dos jardins autorizados das universidades, pátios adentro, insolentes com os bustos das eminências, como, logo à entrada da Pontifícia, o do Padre António Vieira. Dizia ele: "Há homens que são como as velas; sacrificam-se, queimando-se para dar luz aos outros." Como o sacrificado turista que cai do bondinho, enquanto fazia a travessia do aqueduto da Lapa, da altura de algumas dezenas de metros. Lá em baixo agora, em estertor, as crianças aparecem e rodeiam-no, como a um estranho mais estranho que os “vira-lata” que aguardam pela sua vez. Então tomam a máquina fotográfica, introduzem suas mãos pequenas nos bolsos do moribundo, livram-nos da carteira, do maço, do isqueiro e das moedas, uma a uma. E vão em seguida. Ele morre mais leve. Esta é a capital do império europeu que se arrojou pelo hemisfério sul.










xii
É condição do híbrido que os seus elementos compitam em equilíbrio instável, nunca se permitindo um a submissão ao outro. A cidade afloresta-se duas vezes, como o dia e a noite, mãe e filho um do outro. De cima abaixo, tomada pelo ímpeto da mata atlântica, como um viço selvagem que, descendo do Alto ao Baixo Gávea, contorna a Lagoa, Jardim Botânico ao lado, até às avenidas ricas, em linha com passeios amplos virgulados por Art Déco, alcançando a larga Praça Antero de Quental, antecâmara da derradeira linha moderna dos hotéis de luxo e da silhueta recortada dos postais turísticos. O vigor derrete-se finalmente no areal contínuo de Ipanema e do Leblon, como gelo em caipirinha. De longe, o menor esforço da vista descobre o morro dos dois irmãos, ou a simetria protuberante de dois seios apontados ao céu, e por detrás, cimeiro, a imensa pedra da gávea, a pique sobre o oceano, plana como um catre, à altura de deus. E, novamente, com vigor idêntico a cidade afloresta-se também de baixo acima, da abundância à gratuitidade, iluminando-se pelas encostas dos morros, Rocinha de um lado, Vidigal do outro, construções empoleiradas, pátio que é telha, telha que é chão, encarrapitados na mesma lógica de domínio e submissão que comanda a floresta tropical, mas sob outros tons, cor de tijolo sobre cores da natureza, como banco de corais empolados pelo tempero solar no declínio dos dias.






Viajantes híbridos, André Barata

sorria, você não está na Barra


[Avenida das Américas, Rio de Janeiro, 2011]

ou o granito branco & vidro verde:


Weather `round here choppin` and changin`
Surgery in the air
Print shirts and southern accents
Cigars and big hair
We got the wheels and petrol is cheap
Only went there for a week
Git the sun got the sand
Got the batteries in the handy cam
Her eyes all swimming pool blue
Dumb bells on a diving board
Baby`s always attracted to the things she`s afraid of
Big girl with the sweet tooth
Watches the skinny girl in the photo shoot
Freshmen squeaky clean
She tastes of chlorine


Miami
My mammy


Love the movies
Love to walk those movie sets
Get to shoot someone in the foot
Get to smoke some cigarettes
No big deal we know the score
Just back from the video store
Got the car and the car chase
What`s he got inside the case
I want a close up of that face
Here comes the car chase


Miami
My mammy
Miami


I bought two new suits
Miami
Pink and blue
Miami
I took a picture of you
My mammy
Getting hot in a photo booth
Miami
I said you looked like a madonna
You said maybe
Said I want to have your baby
Baby
Baby
We could make something beautiful
Something that wouldn`t be a problem
At least not in
Miami
Some places are like your auntie
But there`s no place like


Miami
My mammy


Miami


Miami

[Miami, U2, 1997]




sem disparar um tiro





[Última página do jornal O Globo, 15.11.2011. A Cyrela é uma das mais importantas promotoras imobiliárias da cidade do Rio de Janeiro.]





É este o mantra da pós-operação da Rocinha. Uma reviravolta na narrativa mediátia que, na madrugada de sábado para domingo, progamava o céu a abater-se sobre a cidade.
Repetida à exaustão, a frase ergue-se como fronteira entre o bem e o mal e inventa uma história blindada à realidade. Uma narrativa para ser ela mesma quem a constrói a nova realidade.
Não por acaso, a narrativa que melhor serve, de facto, as partes interessadas no poder sobre a cidade: media, política, imobiliário. 





panis et circensis


[O Globo, 25.11.2010]




Talvez o poder esteja hoje menos na acção que na comunicação, subvertendo a operatividade dos conceitos e, em primeira análise, o próprio étimo das palavras. Se a acção sobre a polis se submete, agora, à acção comunicadora,  subverte-se o principado da política que possui uma legitimação, nas sociedades ocidentais, que emana do processo da democracia representativa.
Os acontecimentos são programados não pela política, em vista à prossecução de um projecto comunitário, escrutinado pelo voto universal, mas pelos media, que servem interesses que nãos os do bem comum, ainda que legítimos. O acontecimento tende a ganhar estatuto de realidade passando a realidade a ser construída a partir da programação do acontecimento e da sucessão destes. E aqui abre-se a porta à completa desvirtuação e desmontagem de um sentido do real porque, a partir daqui, o sentido do real é transmitido – em directo, ao vivo – pela narrativa mediática. Assim foi a última madrugada no Rio de Janeiro:
- A encenação de uma guerra, com termos, retórica e todos os instrumentos adoptados pela comunicação do estado de excepção ou emergência.
- A utilização, encenada também, do dispositivo militar. O objectivo parece claro, em vista à manipulação do medo das classes médias – as de poder aquisitivo, evidentemente – para garantia de obtenção de votos e audiências.
- A estratégia da comunicação, essa da manipulação do medo e dos fantasmas mais profundos de cada indivíduo, recusa qualquer cedência ao logos, não exibindo qualquer argumentação lógica. Naturalmente o recuo da lógica e da racionalidade é ocupado pelo pathos, a-racional, e pela estratégica manipulação das emoções da audiência – e somo todos espectadores.
- A partir do discurso bélico ergue-se uma estrutura comunicacional maniqueísta, como cortina de fumo sobre a realidade. Panis et circensis que desvia o olhar de problemas tão fundos como o conluio polícia-crime. A exibição do ridículo luxo das casas do Nem ou de outro qualquer miserável bandido é o epítome do mal. O signo do criminoso que oprime os pobres bons que são agora resgatados pelo Estado.



Um outro aspecto é o uso da metáfora bélica para demonstração inequívoca de uma acção sobre o território. A narrativa prevalecente, dos heróis do lado do bem contra os bandidos do mal começou a tomar forma quando o Rio de Janeiro assegurou a realização da Copa 2014 e das Olimpíadas 2016. São, portanto, globais, os interesses que se movem em direcção à cidade do Rio de Janeiro e são esses que estão em confronto, muito para além da ingenuidade bem intencionada de muitos.
A ocupação dos morros pelas UPP’s será, quando muito, um golpe para o pequeno traficante, o desgraçado que vende a maconha a retalho à elite da Zona Sul, mas não atingirá o grande tráfico que prosseguirá tranquilamente a sua actividade, devidamente respaldado em ramificações na política e nas forças policiais.  Mas a ocupação terá influência forte sobre a valorização imobiliária nas zonas circundantes – como aconteceu com a valorização de cerca de 100% do valor imobiliário no Botafogo, após a ocupação do morro da Dona Marta – e mesmo no interior das favelas.
Pode-se compreender reprodução vertiginosa da insegurança e do medo, a narrativa oficial, como subjacente à construção de shoppings e condomínios fechados, espaço para onde se auto-segregam os de maior poder aquisitivo. Como se pode compreender, à luz dessa mesma narrativa, os interesses que se escondem por debaixo dela neste Rio de Janeiro pré-Copa e pré-Olimpiadas. Provavelmente os interesses que segregarão ainda mais, para mais longe (das câmaras da TV), quem agora, nesta narrativa épica, está a ser resgatado pelo Estado.

Acabou a guerra que nunca houve. Apenas media e a política. Por esta perversa ordem.







homem em queda







[Rua Marquês de S. Vicente, Rio de Janeiro, 11.11.2011]




São 23h37 no Rio de Janeiro. A Marquês de S. Vicente está tranquila depois ao princípio da noite a Gávea e todos os bairros limítrofes à Rocinha terem sido sobrevoados por helicópteros e de, pela janela, entrar o ruído dos tambores da guerra e do trânsito pesado, presumivelmente, militar. 
O rapaz que me trouxe o jantar trouxe também notícia dos restaurantes e bares vazios do Baixo-Gávea e do deserto de gente da Marquês de S. Vicente. A bonança antes da tempestade anunciada. Uma calma de morte.


Estou preso. Impossibilitado de livremente e em segurança circular. Uma primeira experiência de cárcere em meio o teatro das operações de uma guerra que tem o princípio agendado para as 05h00 desta madrugada. 
notícias do dispositivo militar já em movimento pelas ruas. O Leblon, onde o solo e o imobiliário é transaccionado ao mais elevado valor da América do Sul, serve de entreposto aos tanques da guerra. A Rocinha, a poucos quilómetros, aguarda.


Os media - ou perverso monopólio imperial da Globo - exibem uma exaltação quase libidinal com as imagens e palavras de batalha. Guerra pela Paz, anunciam o absurdo paradoxo, enquanto convocam o espectador para um universo maniqueísta, de bons e maus, de heróis e bandidos.




Outra exaltação e exultação, em Itália celebra-se a queda de Berlusconi. Depois de Papandreou na Grécia, Berlusconi é o segundo primeiro-ministro de uma país europeu a cair por força dos mercados. Ambos devidamente substituídos por técnicos, os quais, com responsabilidades recentes no edifício financeiro europeu. O edifício que agora colapsa e arrasta economias, sociedades, e ilusões. E vidas.
Já antes o primeiro-ministro de Portugal, tal como o da Irlanda, fora substituído no dealbar da crise das dívidas, mas estes, apesar de tudo, legitimamente eleitos pelos respectivos concidadãos. A vez da Espanha, no próximo domingo.
Sopremos sobre a poeira veloz que assenta sobre a realidade à velocidade da informação: ainda teremos saudades de Il Cavalieri. Agente de uma perversa forma de exercício do poder, exercia-o legitimamente, escrutinado pelos eleitores italianos.
A queda do último citizen Kane foi o salto no abismo da Europa. A admissão de que está entregue a poderes difusos e dissimulados que escapam ao contrato democrático e ao escrutínio público. A política ruiu logo onde a humanidade a inventou. A democracia estilhaçou-se no território onde, com muito sangue, foi inventada. A república agora mera abstracção dos mercados.

















Enquanto se anima o Jornal das 10 da Globo News com implacável sorriso, interrompem-se os directos da Rocinha com os do festival SWU  - Começa com você | Conscientização pela sustentabilidade, convém de cedo industriar as almas na neo-religião verde, para alimentar o neo-mercado verde, com consumos verdes - onde, no palco, Snoop Dogg verte mais uma performance da sua arte, impregnada dos valores amesquinhastes de que se alimenta a própria indústria: machismo, sexismo, consumismo, alienação, verdes e sustentáveis, evidentemente. A seguir, a leveza e a pop deliciosa, nas palavras do repórter, dos Black Eyed Peas. A juventude em marcha para a grande sociedade do consumo. Compra compra e sarei felice, na próxima notícia constam as medidas do governo da presidenta Dilma para contraria a contracção, que se prevê acentuada, da economia global e evitar o regresso do Brasil a níveis de crescimento, sic, medíocres. Juros e facilidades de consumo amplamente democratizados. O mundo todo alinhado pelo dogma materialista do crescimento. E do crescimento sustentado no consumo. Haverá um enfarte, de tanto o mundo consumir. Até lá, a alienação. E a felicidade ostentada por um honesto cidadão, em frente à câmara, ao tomar conhecimento desse incentivo petista ao consumo, quando inquirido pela televisão numa loja de automóveis onde se preparava para adquirir a sua desejável viatura.





Zapping à Sic Internacional e a uma minguante e desajeitada manifestação em Aveiro contra o encerramento de serviços de saúde. Portugal envelhecido. Este país não é para velhos. Este país não é para novos. Este país está em lenta agonia.


Silenciosamente, lentamente, imperceptivelmente, ao longo das últimas décadas construímos um país que agora reconhecemos e nomeamos como ruína. 
Na ruína coincide a natureza com a cultura. Nesta ruína do Portugal contemporâneo experimentamos a coincidência da paisagem abandonada, desertificada, arruinada, com a sociedade que se não reconhece mais a si mesma, que se desvinculou da sua história, da sua cultura e do seu futuro. A ruína da paisagem é o preço a pagar pela alienação em ar-condicionado do shopping mall e do glamour da(s) moda(s) ansiosa(s) que a televisão dita. É uma paisagem e uma casa portuguesa, com certeza.
Depois do fim do império, do desfazer dos sonhos europeus, no regresso às fronteiras do séc. XIII, o regresso a índices e à realidade como catálogo da pobreza (material).Depois do lead dos jornais que noticiavam que metade dos portugueses ainda não tinham adquirido – consumido – uma peça de roupa desde o início de 2011, a reinvenção da profissão do engraxador, agora abrilhantada e actualizada pelo design dos alunos do IADE. O design lobo que fetichiza o objecto e a mercadoria e que, com pele de cordeiro, sensibiliza e se sensibiliza com a crise económica. Viver habitualmente sim, mas embalado por design consumível.

















Falta ainda percorrer algumas horas até à invasão da Rocinha. A roça que até há poucos anos produzia alimentos para a Zona Sul do Rio. A roça onde se foram fixando, a partir das décadas de 40 e 50 os migrantes maioritariamente nordestinos, e que encontraram alguma oportunidade nos trabalhos da construção dos novos bairros da cidade, Ipanema, Leblon.
100.000 pessoas obrigadas à pobreza e à marginalização em busca de um módico de dignidade numa sociedade herdeira directa da escravocracia. 
A guerra, o estado de excepção, o Homo Sacer, destituído de direitos mas ainda assim obrigado a um vínculo social que o prende à própria opressão. O abandonado necessita de alguém que o abandone e nesse exílio dentro de si mesmo jamais se desvinculará desse que o abandona. Jamais terá a condição da liberdade.



[Daqui]


O estado de excepção, expressão cada dia mais recorrente nos media portugueses e europeus. Estado de excepção, estado de possibilidade de instalação de todo o tipo de arbítrio e discrição acima da lei. A impossibilidade de pensar o real além da saída única e última que o pensamento único apresenta. A moralidade é frágil, a excepção a força das coisas.




60% da área ocupada pela Rocinha está acima da cota 100, cota a partir da qual não é permitida qualquer construção, na cidade do Rio de Janeiro. A Rocinha ocupa um território muito apetecível: excelente localização, ente a Zona Sul e a Barra, com vista sobre a espectacular paisagem e o mar. Acima da cota 100, a excepção à lei que e necessidade construiu na Rocinha facilmente o mercado imobiliário reverterá em regra.
Não são necessários dotes de vidente para perceber que serão as disposições do mercado a agir imediatamente após a performance do dispositivo de guerra. Depois da violência ostensiva do aparato mediático e militar seguirá a violência silenciosa, mas não menos assassina, do mercado imobiliário.
Mais sucintamente, o mercado inflacionará exponencialmente o valor fundiário, assim se dê a pacificação. Pode ser que este seja o novo nome, politicamente correcto, do que eram as remoções.
O cartão postal mostrar-se-á ainda mais brilhante e luminoso: o poder político, inefável, cúmplice – alguém que não um incauto espectador do império Globo acreditará que o miserável Nem é a cabeça, o signo, de todos os fantasmas que povoam a polis carioca?, que é na desterritorialização do traficante de maconha e cocaína, que serve os mauricinhos da Zona Sul, ainda que tenha proventos de 8.000.000 de reais por mês que, segundo o próprio, metade dos quais iriam para bolsos de forças policiais corruptas, que se resolverá o problema da pobreza e das feridas sociais que ocupam democraticamente o território da cidade com excepção do bairro do Leblon?-, o poder político serve-se da cidade e das feridas que a rasgam para se servir dela. Comunica uma cidade pós-moderna, global e limpa e pacificada erguida sobre a violência, o sofrimento e a morte. Purificada de tudo o que possa machucar a imagem da televisão de efeitos globais com devida ressonância na economia que tem interesses no território da cidade.
O Homo Sacer permanecerá exluído e preso, mas agora longe das câmaras, do afã da copa e das olimpíadas, e da força das coisas do mercado imobiliário.




Hoje, agora, no Rio de Janeiro, há homens com hora marcada para morrer. Não há muito a fazer. Apenas acompanhar a emissão em directo da Globo News.




Há homens com hora marcada para morrer
As minhas orações estarão com eles.







Para a Matilde.




Bartleby, o Arquitecto#2


[R. Barata Ribeiro, Coapacana, Rio de Janeiro, 2011]










A promessa democrática cobriu-nos com o diáfano manto da ilusão do progresso sem fim. Ou antes, que a arquitectura seria a visibilidade construída do projecto político democrático, sustentado na crença profunda do progresso ilimitado. Progresso material, apenas, ao arrepio do alarde utópico e idealista das vanguardas de início do séc.XX.
A arquitectura ergueu ‘máquinas de habitar’, ainda que pouco habitadas e habitáveis, mas manifestas da estética industrial e de engenharia social.
Nefelibatas, arquitectos, acreditámos: as nossas escolas são, ainda hoje, a caixa de ressonância do mecaniscismo estéril, do racionalismo infecundo e do materialismo perverso, que serve tanto o desígnio capitalista voraz, quanto o equívoco igualitário socialista. Capitalismo e socialismo, os dois quadros políticos sem os quais, aparentemente, não nos é permitido pensar, hoje, a realidade; capitalismo e socialismo, os dois lados do mesmo totalitário pensamento materialista, e, ainda que se combatam mortalmente, ou talvez por isso, não são mais que o monopólio do pensamento único que se exprime por estas duas vias violentas. Assinale-se, este é o monopólio da razão utilitarista.

Se a construção da arquitectura é pôr-em-obra, necessariamente, a relação de realidades estritamente mensuráveis, a arquitectura é a construção de princípios impossíveis de aferir pela objectividade precisa.
Ainda que essencial, o quadro de áreas reveste-se hoje a forma do princípio instaurador e constituinte da arquitectura. Sendo a exposição objectiva do valor material da realidade, sendo a realidade, evidentemente, bastante mais larga que o seu resumo monetário, o dogma financeiro – o racionalismo em todo o seu esplendor – é o regime totalitário da construção (arquitectura?), o seu princípio, meio e fim e a sua redução à condição de techné omitindo a poiética.
Mesmo ao mais radical optimista será tarefa de complexidade elevada extrair beleza de um quadro excell.




Bartleby, o Arquitecto

sejamos imperialistas, cadê?*



Império global


É raro o mês em que não leio um livro ou vejo um filme que não me dê vontade de declarar guerra aos ingleses (aqueles que conheço pessoalmente são excelentes pessoas; poupá-los-ia na guerra a travar). O casus belli que recentemente me encheu de fúria assassina tem que ver com a minha profissão de professor de História da Arquitectura: é um calhamaço de 900 páginas intitulado A Global History of Architecture. Foi publicado pela primeira vez há uns anos, mas saiu agora uma edição nova muito remodelada. O editor é norte-americano e os três autores são professores nos EUA: um sino-havaiano-americano, um suíço-americano e um indiano-indiano. Não sendo ingleses, os autores servem a glória do defunto império britânico com um descaramento que não dá para acreditar. 

É pena, porque o livro assenta numa ideia interessante: está organizado em "fatias" temporais começando em 3500 a.C. e comparando todas as arquitecturas dentro de cada período (agora já não se escreve a.C. ou d.C.; escreve-se BCE, "before the current era", ou CE, "current era"; trata-se da estupidez política em todo o seu esplendor: como se o modo de contar o tempo histórico que todos usamos tivesse sido inventado por um senhor chamado Corrente). 

Apesar de a ideia-base do livro ser boa, a sacanagem começa logo no princípio: nas 20 páginas dedicadas às "Primeiras Culturas", anda-se pelo Crescente Fértil, a China, o rio Indo, e chega-se por fim à Europa, que então era um sítio primitivo e não vale mais que uma página e meia. Todavia, desta página e meia, quase dois terços do texto e todas as ilustrações são dedicadas à Inglaterra. O resto afina pelo mesmo tom: a "fatia" correspondente ao ano 1000 tem 50 páginas, 13 para a Europa, das quais duas para a França, três para a Itália e três para a Inglaterra. Das 30 páginas dedicadas ao Renascimento europeu, a inglaterrinha tem direito a 10% (três páginas), enquanto à arquitectura dos espanhóis na Europa e no resto do mundo se concedem cinco (os portugueses só aparecem em meia página a propósito das fortalezas africanas). Perto da actualidade o desequilíbrio entra em vertigem: nos séculos XVII e XVIII, a arquitectura inglesa tem o mesmo número de páginas que toda a gente na Europa, com excepção da Itália, e o século XIX é praticamente apenas inglês (a escolha em matéria de cidades coloniais é simples: houve três: Calcutá, Bombaim e Deli). Finalmente, a primeira metade do século XX tem 60 páginas e mais de 30 vão para as arquitecturas inglesa, colonial inglesa e norte-americana. 

A culpa é nossa, os da Europa do Sul (incluindo os franceses), que não conseguimos "vender" a nossa História? Não. O livro é uma manifestação do poder imperial: foi feito para que toda a gente pense em inglês e para que toda a História passe obrigatoriamente pela Inglaterra e os EUA. É também para isso que recrutam professores de todo o mundo: o poder anglo-saxónico é mais digestível, se for engolido com caril.

Espero ansiosamente por uma história global da arquitectura escrita por brasileiros.



[Paulo Varela Gomes, Público, 5.11.2011]
    

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó 
O que quer 
O que pode esta língua?  [Língua, Caetano Veloso, 1981]

lavoura arcaica#2

lavoura arcaica


[Newcastle, 2009]



Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objectos que o quarto consagra estão primeiro os objectos do corpo; […]


[Lavoura Arcaica, Raduan Nassar, 1975]