preferia não o fazer





A proposta do André Barata pode muito bem ser tida com proveito para pensar o que foi, é, a prática dos arquitectos sobre o território, as cidades, e a paisagem. E a própria acção dos orgãos e associações corporativos que, parecem, são dissociados da realidade dessa prática. Ou, no mínimo, silenciados.

É evidente a relevância da propriedade fundiária e imobiliária para a estruturação da economia geral do país e da paisagem em que essa economia se exerce, no contexto de uma economia de mercado, num sector, paradoxalmente, hiper-legislado mas absolutamente desregulado - antes, regulado pelos interesses fácticos dos construtores, nas teias das leis do financiamento partidário e das finanças locais, que abrem brechas ao convívio pouco saudável, funesto mesmo, entre agentes económicos privados com (legítimos) interesses de lucro e agentes da causa pública com (ilegítima) ignorância, desleixo e incúria, sobre o bem comum. E, em movimento contrário, deveria ser ela própria, a paisagem, centro de um pensamento de uma política económica que ultrapassasse os lúdicos e provincianíssimos – e pouco democráticos, diga-se – PIN’s do ex-ministo Manuel Pinho, ou a megalomania rodo-ferroviária que acomete todo o nosso impulso desenvolvimentista e estraçalha e segrega ainda mais algumas regiões deste «país profundamente desigual».

Aparte a lógica cultural fundada na observação de que a galinha do município (ou região) do vizinho é sempre mais fogosa – e modernaça – que a minha, que lobrigou a políticas territoriais e ambientais, com pesadíssimos encargos sobre o quotidiano dos cidadãos, e que hoje se confirmam catastróficas. O resultado destas políticas, ou de ausência delas - que pouco ou nada se debatem em público, soterradas pela avalanche da macroeconomia do ‘ajustamento’- o que tem sido, enfim, a produção do espaço, se assim se possa dizer, adquire contornos de paradoxo entre a visibilidade crua e cruel das suas consequências e a invisibilidade ruidosamente silenciosa das causas. Ou, no mínimo, estas não são tidas em conta no debate que não se está a fazer – salvo parcas luminosas e singulares excepções nas quais o próprio André é interveniente – sobre o que queremos nós de nós e dos lugares que construimos e habitamos.
Aquilo que no pensamento do André é fixado como o princípio «Não uso e não pago», traduzo-o para a produção arquitectónica, urbanística e territorial, como princípio Bartleby. Talvez a única posição arquitectónica e política consequentes a tomar hoje pelos arquitectos seja a do não-fazer.
Em bom rigor, está tudo construído (feito): país é dotado de parque habitacional suficiente para todos os seus habitantes e ainda sobrarão uns quantos condomínios à beira-mar plantados para o canalizador de Brighton trazer a prole a sazonais retemperadores banhos; as comunidades locais estão essencialmente providas de equipamentos socias e culturais – não é aqui lugar para percorrer o ‘alegado’ cadastro criminal da Parque Escolar e perversão daquilo que seria uma boa ideia, a despeito de socialista; existem ‘acessibilidades’ e ‘vias’ para o progresso marchar do Minho à Madeira. Carece-se sim de vigor na imposição de políticas justas relativamente à habitação – talvez a nova lei das rendas -, de recuperação dos centros das cidades – sem o fausto e o glamour socrático dos programas Polis e em articulação com a política habitacional – impedindo a gentrificação e a consequente segregação das classes mais modestas do centro das cidades e, no pano de fundo de tudo, a percepção do território e da paisagem como organismo sensível a todas estas incidências e práticas, o que só se concretizará pela via holística do planeamento regional e territorial – começar pela implantação de redes regionais, sector a sector, da educação à saúde, da justiça às indústrias, seria um bom princípio dessa política económica e territorial.
Nesta história recente, a acção da prática corrente da arquitectura balançou, grosso modo e com excepções que são sempre lugares de beleza e respiração, entre a ensandecida euforia dos anos noventa e a desistência resignada (ou emigrada) hediorna. Pelo meio, os ‘fundos’ europeus, os estádios de futebol mortos, as auto-estradas froteiras e maneiras de o interior mais depressa se esvaziar para o litoral, e muitos equívocos, para não dizer mais, que polarizaram e incentivaram, quer disciplinarmente, que culturalmente, esta acção. E qualquer destas atitudes decorre do olhar acrítico sobre a realidade e a cultura que serve essa realidade.
Seria precisamente aqui que os arquitectos (et pour cause, engenheiros e todos quantos trabalham e pensam o território), deveriam ter tido algumas palavras, mesmo que não ouvidas. E se não as ouvimos é porque elas jamais foram pronunciadas ou foram-no tibiamente e eivadas de sentido corporativo. Uma espécie de «abstenção violenta» avant la lettre.
Falamos de omissão, portanto. Mas, regressando ao princípio, ao princípio Bartleby (Não uso, não pago), esta omissão a ser praticada pelos arquitectos seria assertiva, afirmativa e, por uma vez, política, inversa da mesquinha, corporativa e egoísta (perdoai o pleonasmo), acção acrítica do passado recente que também cavou parte do buraco onde nos encontramos.

Nunca é tarde para nada. Tão pouco para acudir ao território e à paisagem, aos lugares que habitamos. Estes poderão gerar as ‘mais-valias’ que o ministro Santos Pereira ansiosamente persegue e que lhe deixará certamente tempo para um delicioso pastel de Belém que lhe sobre do afã exportador, num lugar mais belo. Ou o legado do regime será uma rede auto-estradas secas ao sol e betão apodrecido pelo abandono.


inter homines esse


[Cais da Rocha do Conde de Óbidos, Lisboa]





O espaço público é o que nos junta e mantém separados.










geometria descritiva


[ISCTE, Raúl Hestnes Ferreira, 2000]




[...]
Assim como o espaço rodeado por quatro paredes tem um valor específico, provocado não tanto pelo facto de ser espaço mas pelo de estar rodeado por paredes.


[...]
- dizia-lhe ela de repente -, você já pensou que um ponto, um único ponto sem dimensões, é o máximo de solidão? Um ponto não pode contar nem consigo mesmo, foi-não-foi está fora de si.


[Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector, 1944]

céu de Lisboa/gosto tanto dela assim*


[ISCTE, Raúl Hestnes Ferreira, 2000]


*Apropriado.

paisagens in extremis#2


[Anachrony, Nermine Hammam, 2010]


A paisagem, coreografada, fotografada, como maneira de explicação da realidade do exílio. O problema que se põe não é o da representação – ainda que a paisagem seja a evidência das representações – mas mais o do resgate do eu pelo exacto lugar onde somos






[Koyaanisqatsi: Life Out of Balance, Godfrey Reggio, 1982]


E é esta a exacta questão que se lenvanta quando reconhecemos a capacidade avassaladora da destruição total de todas as paisagens que nos são possíveis. Esta competência letal assombra – e maravilha – pelos múltiplos territórios a que todos os dias vamos chegando.  Se a natureza é uma invenção da cultura, intervir no território é, obviamente, o empreendimento de reflectir a possibilidade de destruição, manutenção, transformação das representações – e memória(s) – e de nós mesmos. Como comunidade e como indivíduos.
Chamar-se pós-História à capacidade de aniquilamento da História é ironia académica. Resta-nos o consolo do Universo incomensuravelmente mais vasto e minucioso. E esta alegria não é ironia.






[Roden Crater, James Turrell]


Escavar montanhas, reabrir crateras: faz-se tanto por um raio de luz.







paisagens in extremis


[Fata Morgana, Werner Herzog, 1969]







Da Base Aérea de Wendover, centro de treino dos homens que largaram a bomba atómica sobre Hiroshima, restam hoje ruínas. E memórias.
Lugar central da história do séc. XX, no meio do deserto do Utah, restam os destroços da ciência e da geopolítica. Devastação que ninguém esquece, abandonada do meio de nada, que cobre, ainda, todo a históia do planeta e a toda a forma de vida conhecida na Terra. Lugar esquecido impossível de esquecer, por entre aço torcido, terra estéril e loucura.





[Brasília]



A loucura das utopias, tanto quanto o desprezo pelo homem, é o desprezo pela sua contigência. O ódio ao real, projectado noutros futuros, arrancados com violência às possibilidades do hoje.
A utopia brasiliense soçobra agora às forças que a própria utopia pôs em andamento: mercados imobiliários vorazes que sitiam a política; o consumo como categoria única de construção individual e social, a exclusão e o ressentimento. E a óbvia impossibilidade de se erguer uma cidade, uma comunidade e uma sociedade a partir destes valores.
No coração do Brasil, a democracia equivocamente transparente das superfícies de vidro de Niemeyer sob o sol tropical, a impossibilidade de vizinhança nas superquadras de Lúcio Costa sobre a terra deserta, a cidade sitiada por si própria.
As ideologias, todas, não são mais que a maneira de querer transformar o real pela lei da força e pelo terror – e a realidade portuguesa do presente confirma-o à saciedade -; dispositivos intelectuais do interesse de uns poucos, sem adesão à realidade, sem percepção da integralidade dos lugares e dos homens e da sua acção neles – que justamente só através dessa acção devêm lugares.
A política exilou-se no Palácio do Planalto e exilou a cidade e os cidadãos. É impossível a liberdade nesta ruína de cidade nova.
O planeta favela não nos afecta a uns poucos, é o coração do que estamos hoje a construir.





[Pousada Favelinha, Rio de Janeiro]



E aos lugares é estranha a avalanche da turistificação do olhar, outra forma de esteticização da realidade a partir das categorias do consumo. A crítica de Benjamin à reprodutibilidade da obra de arte na era da técnica enuncia claramente a capacidade da fotofgrafia (por exemplo) tornar a miséria humana objecto de consumo. Também a arquitectura.
Transformar uma laje (casa na favela) em pousada é levar por diante, pela arquitectura, a espectacularização da miséria, tornando-a objecto de consumo – ainda que distanciado da experiência real do quotidiano – sem qualquer relação com a vida vivida das favelas. O baile funk por cima da laje para patricinha da Zona Sul do Rio experimentar a dureza do morro ao sábado à noite ou para gringo sedento da carne das neguinhas é apenas uma forma perversa da democracia e um muito violento uso do poder (de compra). Passivos, somos todos espectadores das nossas próprias vidas. Alguém lucrará.





[Hearst Castle, Califórnia]



Steve Hearst, bisneto do magnata William Randolph Hearst, proprietário dessoutra ruína nova que inspirou a Xanadu de Orson Welles, lucrará com certeza com a abertura desse delírio monstruoso ao público. E, como no Rio de Janeiro, é a mediatização e a espectacularização das feridas de narciso abertas em cada um pela volúpia das imagens que espoleta o interesse e que renderá fartos proventos.


Loucura, delírio e violência, semântica da mesma utopia, é um bom negócio. Mas mortal.

imitação da vida


[Sangue do meu sangue, João Canijo, 2011]



Por hipótese, se o genérico final de Sangue do meu sangue fosse o da abertura do filme – embora parecesse mais adequado à possibilidade urbana lisboeta que o filme representa o uso da música de Toni Carreira do que um sucedâneo português do gangsta rap -, talvez se cingissem, por contaminação, as múltiplas leituras que o filme oferece a uma ligeira sociologia de pacotilha. A que nos diz, por métodos irrepreensivelmente pós-estruturalistas, que da má cidade procedem, inexoravelmente, maus cidadãos e infames seres humanos. Porque não é, apesar de tudo, o problema da cidade que está aqui em causa, mas mais o da possibilidade de em qualquer que seja a condição urbana, habitacional, ou familiar, a vida prosseguir com toda a dignidade que cada cidadão tem direito (e dever).
Telmo, o traficante cobarde, por acaso ocupa uma das habitações socias do Bairro Padre Cruz – não por acaso, cenário do mais monstruoso momento da narrativa, a fazer lembrar o mais cruel dos Pasolinis, mais que Ettore Scola -, enquanto que na casa da família Fialho, precária e construida pela possibilidade, existem as sequências de maior ternura e amor. Nada disto refuta o que acima se cita sobre o determinismo sociológico, mas o inverso é também verdade. E se os escassos minutos do genérico final apavoram pela catástrofe urbana dos últimos 37 anos, todos os anteriores 135’ nos dizem ser isso o que menos importa.

Há, então, muitas Lisboas. E a confirmação do truísmo de que existem tantas Lisboas como lisboetas: a extemporânea incursão de Márcia, que mora e trabalha no Bairro Padre Cruz, ao café trendy do centro da cidade – onde se apresentam os “estilos de vida alternativos”, “plurais”, numa algo demagógica sequência de duas mulheres a beijarem-se –; a da moradia de Beto, vindo do Bairro e hoje médico “com posição” – exemplo de mobilidade social, e de hipocrisia(?) -, curiosamente quase sempre filmada pela janela horizontal corbusiana, aqui revista à luz do asséptico cânone Wallpaper; o labiríntico bairro africano, de luz e sombra, de interdito, do rígidos códigos de acesso, de esconderijos. Mas é sempre a fragilidade do que nos une uns ao outros o que aqui está em jogo.

A representação cinematográfica do espaço é prodigiosa. Se a maior parte da acção decorre no interior da casa onde Márcia habita com os filhos e a irmã, onde a câmara não tem espaço de recuo, onde todos os planos são apertados, onde o som da gritaria da velha da casa ao lado se sobrepõe à televisão ligada, alto volume, na novela ou na bola, onde estas se sobrepõem às conversas entre os membros da família, onde as conversas se cruzam em absurda cacofonia que impede a intimidade e o imprenscindível espaço ao segredo e à respiração de cada um, (e a bonança sonora só ocorre quando Toni Carreira canta e ampara suavemente todas as angústias da casa); a casa moderna, generosa nas dimensões, mas que isola e aparta cada um dos seus habitantes; o apartamento providenciado pelos serviços sociais do Estado, obscurecido pelos estores de plástico corridos, sede da remediada rede de tráfico de droga.

É, com certeza, um filme moralista. E só o consegue ser porque reconhece dignidade em todas as formas de vida, das possíveis às resignadas, das reflectidas às que vão inconscientes ao sabor dos tempos, das voluntárias e voluntaristas, às criminosas, sem fazer uso dos clichets dos pós-modernos departamentos de ciências socias entre a Av. de Berna e a Cidade Universitária.
A defesa intransigente de quem se ama e da família – mas arrisco que o realizador não tenha arriscado esta palavra. Mais que as arquitecturas, o que dentro delas fazemos. Formas possíveis do habitar que são, sempre, as formas possíveis de ser.



Ao acaso, imediatamente antes, Life during wartime (2009), de Todd Solondz, sequela de Happiness (1998), num contexto radicalmente diferente do sul da Florida, dos prósperos reformados, da classe média americana em fuga, dos condomínios de palmeiras implantadas e estacionementos assegurados, das donas de casa desesperadas, do ressentimento, da auto-segregação - de que temos também sucedâneos na periferia de Lisboa - debatia exactamente essa possilidade de que nem só de casas e lugares se fazem os homens. Muito pelo contrário.

a sétima colina#5



Príncipe Real Design District

cidade de deus#2


[Palazzo Ramirez de Montalvo, Giorgio Vasari, 1568]



Suponhamos que somos confrontados com uma realidade desesperante – com Pimlico, por exemplo. Se meditarmos no que é realmente melhor para Pimlico, chegaremos à conclusão de que o fio do raciocínio nos conduz ao trono, ou ao misticismo e à arbitrariedade. Não basta uma pessoa ter uma visão negativa de Pimlico, porque, nesse caso, limitar-se-á a dar um tiro na cabeça, ou a mudar de casa e ir viver para Chelsea. Também não basta, evidentemente, uma pessoa ter uma visão positiva de Pimlico, porque, nesse caso, Pimlico continuará a ser o que é, o que seria péssimo. A única maneira de sair disto parece ser amar Pimlico, amar este bairro com uma ligação transcendental e sem qualquer motivação de ordem mundana. Se aparecesse um homem que amasse Pimlico, aí se construiriam torres de marfim e pináculos de ouro; Pimlico ataviar-se-ia como se ataviam as mulheres apaixonadas. Porque a decoração não serve para esconder coisas horríveis, mas para decorar coisas que já são adoráveis. Uma mãe não põe uma fita azul ao filho porque ele fica feiíssimo sem ela. E um namorado não oferece um colar à namorada para ela esconder o pescoço. Se as pessoas amassem Pimlico como as mães amam os seus filhos – de forma arbitrária, porque são os filhos delas -, dentro de um ou dois anos Pimlico seria mais belo do que Florença. Alguns leitores dirão que estou simplesmente a fantasiar. E eu respondo que não, que isto é a história da humanidade. Foi assim que as cidades se tornaram grandiosas. Recuemos às mais obscuras raízes da civilização e verificaremos que elas se encontram enroscadas em redor de uma pedra sagrada ou de um poço sagrado. As pessoas começaram a prestar homenagem a um local e, a seguir, conquistaram glórias em sua honra. Os romanos não amavam Roma pelo facto de ser uma grande cidade; foi porque a amavam que Roma se tornou uma grande cidade.


[Ortodoxia, G.K. Chesterton, 1908]





[2001: Odisseia no Espaço, Stanley Kubrick, 1968]

a sétima colina#4



Príncipe Real Design District

manual do prestidigitador


[Chirologia: Or The Natvrall Langvage Of The Hand, John Bulwer, 1644]



O ofício da mão é mais rico do que comummente imaginamos (…). A mão alcança e se estira, recebe e dá as boas vindas, e não apenas às coisas: a mão estende-se ela mesma e acolhe as suas próprias boas vindas nas mãos dos outros (…). Os gestos das mãos discorrem por todas as partes através da linguagem na sua pureza mais perfeita, precisamente quando se fala estando em silêncio (…). Todo o movimento da mão em cada uma das suas acções conduz ao pensamento; todo o peso da mão se transporta a si mesmo. Toda a acção da mão está enraizada no pensamento.


[O que é uma coisa, Martin Heidegger, 1952]



Diz-se Revolução
o Movimento de um corpo que
Descrevendo uma curva fechada
passa sucessivamente pelos
mesmos lugares
.


[Turn On, Tune In, Drop Out, Timothy Leary, 1967, in Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde, Manuel António Pina]

biografia: lugares & casas


[Londres, 2007]


Os lugares são
a geografia da solidão.
São lugares comuns a casa a cama.


[Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde, Manuel António Pina, 1974]



[Ed Ruscha, 1992]


Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraidíssimo percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde no café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes eu faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.


[Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde, Manuel António Pina, 1974]

a sétima colina#3



Príncipe Real Design District

1962


[Le Havre, Aki Kaurismäki, 2011]



E, tal como outros espaços dos seus filmes, recusa-se a dizer "hoje"?


A arquitectura moderna desagrada-me intensamente...
É sempre uma luta contra o tempo quando filmo. Os "caterpillars" estão invariavelmente atrás de mim. Estão sempre a querer demolir a área que estou a filmas. Temos sempre que lhes pagar para nos darem uma semana mais de rodagem antes da demolição total. Tem sido sempre assim na minha vida. Deve ser por alguma coisa de que gosto.
Como filmar em cubos modernos, que é o que se chama hoje arquitectura? E é um erro pedir a arquitectos que façam cubos nos sítios em que há chuva. Deviam fazer um telhado. Deve haver problemas aqui [Fundação de Serralves] com a água. Mas não tive tempo ainda de investigar, isto não parece assim tão mau...
Quando as pessoas têm algum dinheiro fazem as suas casas como cubos, cheias de pormenores, mas acabam por não se enquadrar na área... e não parecem muito funcionais.


[Aki Kaurismäki, Público, 17.02.2012]



métro, boulot, dodo


[Estação do Metro do Marquês de Pombal, José Santa Rita + João Santa Rita, 1999]






Entendo a generosidade e o prazer do outro que recordo de uma entrevista ao Arqtº. Manuel Graça Dias – não recordo quando, não recordo onde – enquanto percorria cidades do mundo, com amor grande e devoção à mais importante e complexa realização da humanidade. Entende-se o amor, pela casualidade do mundo, pelo caos que nas cidades organizamos, pelos significados que se recolhem nas ruas e aumentam o mundo, a devoção ao mundo e às coisas dos homens que decidem o seu destino comum. Às cidades, que obedecem à necessidade de resistência, a exceder os limites da mortalidade humana. À vida prtática e à beleza. A beleza da duração, para as prolongar. Pelo encontro.




[Admitindo ainda que seja, neste discurso, a manutenção do módico de pudor sobre a vida íntima do outro - que, de facto, em nada importa ao espaço público - lembro também nessa entrevista alguma recusa do território doméstico. Um excessivo pensamento da praticabilidade do que é íntimo, e sobre o espaço do íntimo, um certo funcionalismo do dormir, comer, foder, como estritas necessidades biológicas – não por acaso as estritas funções que permitem manter saudável indivíduo que age sobre o espaço público da cidade.
Talvez não tenha recordado Manuel Graça Dias da possibilidade de dar a volta ao mundo sem se sair do quarto, quem nem só de milhas andadas se erguem toneladas de literatura de viagens, de lautas refeições, ou, maior pecado, a Manuel Graça Dias não tenha ocorrido a sequência de abertura de Le Mépris. Aventura maior?

A partir do encontro na polis produz-se o sentido colectivo da existência que, necessariamente, terá que ser reflectido nos instantes de recolhimento ao abrigo interior para, a partir deste, se regressar ao passeio público e ao outro.]


Mas falava também de densidade, necessariamente de deslocações, de mobilidade. E da monotonia das viagens de metro. Enfadonhas, provavelmente.
Monótonas como, à superfície pública, serão todas as vidas privadas com que nos cruzamos na cidade. Em percursos pré-definidos, debaixo do chão, a contrariar essa cidade aberta e livre que Manuel Graça Dias ama – às quais aqui devotamos também grande amor – em túneis escuros, connosco atados a Pod’s, Phone’s, Pads, jornais, livros– outra maneira do espaço privado.
Vejamos, o terror escondido ao cruzar os olhos da garota do banco da frente, uma viagem à possível vida do rapaz do skate encostado à porta da carruagem repetitiva, da velha elegante de outra Av. de Roma, de outra velha mais velha mais à frente na puída Almirante Reis – ocorre-me uma outra sequência, na Berlim dividida pelos homens e dos anjos do desejo nos compreendem nessas minúsculas viagens, e nos amam tanto que connosco, homens, desejam viajar. Aventuras. Liberdade.

Como o encontro com o outro só é possível depois do encontro connosco mesmos, a realidade da superfície, a vida vivida da cidade, em alegria e liberdade, só será possível se nos for possível o recolhimento ao território interior. Onde nos possamos privar do outro e da cidade. Onde nos é dada a possibilidade de, imaginemos, sermos monótonos. Mesmo num buraco abaixo da superfície das coisas.




[O encontro, a beleza, são possíveis numa esquina vazia da estação do Marquês.]