![]() [Theatro Municipal, Francisco Passos, Albert Guilbert, Cinelândia, Rio de Janeiro, 1909] Como jogo de espelhos, vemo-nos a nós próprios. Cada vez no teatro, é um pouco mais de avanço da luz e da sombra do que somos, sobretudo, enquanto comunidade. É deles o lugar privilegiado das cidades. O lugar onde a cidade se reconhece. O teatro é, com certeza, o lugar mais civilizado das cidades. |
a comunidade que é
- | João Amaro Correia / 29.8.11
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uma casa para Bartleby#2
![]() [Normandia, Agosto 2011, Pedro Neves] Hegel concede à arquitectura o primado entre as artes liberais. Não por acaso atribui à imediata função da arquitectura simbolizar-se a si mesma – pirâmide, túmulo -, como que designasse a ordem, a proporção, a harmonia clássicas, a essência da própria arquitectura, em que as formas seriam modeladas pelas essências fixas da sua função. Para tal seria necessária a ponderação e a cautela pelo uso da razão e das suas regras na especulação arquitectónica como, de resto, em toda a elaboração humana. Mas a especulação é já um excesso da razão. Porque não é fixa, nem estável, como o pressuposto clássico, a arquitectura romântica explode em simbolismo, o uso exacerbado do decorativismo e do detalhe. O controlo do excesso, a teleologia da própria arquitectura segundo Hegel, torna-se antes uma teleologia da auto-aparência, numa expressão das contingências do próprio projecto, da realidade. Auto-referente, a arquitectura tornar-se estéril quando refém da dominância da função; em lugar de abertura, há encerramento. E violência. |
![]() [Normandia, Agosto 2011, Pedro Neves] Inacção que não se confunde com inércia. As palavras sobre palavras sem qualquer vestígio do real que não a realidade do marketing urbano – vago, vazio, irreal e absurdamente concreto – que exigem à arquitectura recuo e defesa. A inacção pode ser a recusa civilizada em alimentar a cadeia humana da conquista agressiva dos limites do outro. Ou talvez uma desesperada última tentativa em defesa de um limite, de um corpo, de uma casa, de um território, de uma cultura. É quando a linguagem é encarcerada na mais pobre das suas funções, a comunicação, que ela se torna violência. E tem início a destruição do real e, por extensão, da arquitectura. Ah Bartleby! Ah Humanity! |
- | João Amaro Correia / 24.8.11
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cotidiano#13

[Lagoa, Rio de Janeiro, 2010]
Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados
Por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar
Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas varandas voltadas para a velhice
Muito danificados pelas intempéries
Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para o diálogo interior
Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber
Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginando relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior
Não levantemos os homens que se sentam à saída
Porque se movem em seus carreiros interiores
Equilibram com dificuldade uma ideia
Qualquer coisa muito nítida, semelhante
A uma folha vazia
E põem ninhos nas árvores para se libertarem
Da gaiola terrível, invisível muitas vezes
De tão dura
Não nos aproximemos dos homens que põem as mãos nas grades
Que encostam a cabeça aos ferros
Sem outras mãos onde agarrar as mãos
Sem outra cabeça onde encostar o coração
Não lhes toquemos senão com os materiais secretos
Do amor.
Não lhes peçamos para entrar
Porque a sua força é para fora e a sua espera
É a fé inabalável no mistério que inclina
Os homens por dentro
Não os levantemos
Nem nos sentemos ao lado deles.
Sentemo-nos
No lado oposto, onde eles podem vir para erguer-nos
A qualquer instante
[Homens que são como lugares mal situados, Daniel Faria, 1998]
- | João Amaro Correia / 10.8.11
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- Labels: rio de janeiro
lume brando
ii. A duração é o que de nós e em nós produz a significação da realidade. É a organização da vida. Não no tempo dos relógios, não na narrativa linear das coisas que se sucedem nos rumores do jornalismo. A sucessão é aleatória, subordinada ao regime da consciência. É a sucessão das imagens que nos habitam - que habitamos - e não dos conceitos que erguemos e reduzem a realidade ao catálogo ambíguo das palavras. Uma espécie de complacência onde o que importa é a aguda consciência do eu no mundo. A suspensão, a epoché, a nova ordem que emerge da supressão da realidade, para o real se tornar mais intenso, o caminho de regresso a nós mesmos. O regresso ao eu como registo e fixação e inscrição do eu-no-Mundo. Duração como recuperação e regresso da experiência do real. A experiência contínua, não sucessiva, irrepetível, dos lugares e das coisas. A experiência e o desejo do consolo do mundo: o belo é a transcendência do mortal ressumado, na sua “inteligência” – racionalidade – à sua condição passageira – animal. O elogio do tempo, da efemeridade das coisas que permanecem, que nos conduz à união. Ser vivo com as coisas do mundo. O lugar é chíasma, o salto, o abismo e o regresso. E finalmente: feliz todo aquele que tem os seus locais de duração; porque, mesmo que para sempre seja forçado a partir para uma terra estranha, sem esperança de regressar ao seu próprio ambiente, não será jamais um expatriado. E os locais da duração também nada têm de notável, muitas vezes nem estão assinalados em nenhum mapa ou não têm no mapa qualquer nome. Um modelo perfeito do mundo inteiro. [...] a festa de agradecimento da presença no lugar. Impulso temporal da duração, tu rodeias-me de um espaço descritível e a descrição cria o espaço que se lhe segue. [...] acabo por não ser simplesmente só eu. A duração é o meu desprendimento, ele deixa-me sair e ser. [Poema à Duração, Peter Handke] |
- | João Amaro Correia / 5.8.11
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cotidiano#12
![]() [Av. República do Chile, Rio de Janeiro, 2010] Real, real porque me abandonaste? E, no entanto, às vezes bem preciso de entregar nas tuas mãos o meu espírito e que, por um momento, baste que seja feita a tua vontade para tudo de novo ter sentido, não digo a vida, mas ao menos o vivido, nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade. Oh, juntar os pedaços de todos os livros e desimaginar o mundo, descriá-lo, amarrado ao mastro mais altivo do passado! Mas onde encontrar um passado? [A ferida, Manuel António Pina, 2003] |
- | João Amaro Correia / 4.8.11
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outra beleza
Only in the beauty created by others is there consolation, in the music of others and in others’ poems. Only others save us, even though solitude tastes like opium. The others are not hell, if you see them early, with their foreheads pure, cleansed by dreams. That is why I wonder what word should be used, “he” or “you.” Every “he” is a betrayal of a certain “you” but in return someone else’s poem offers the fidelity of a sober dialogue. [In The Beauty Created By Others, Adam Zagajewski, trad. Renata Gorczynski] We find conmfort only in another beauty, in onthers’ music, in the poetry of others, Salvation lies with others, though solitude may taste like opium. Other people aren’t hell if you glimpse them at dawn, when their brows are clean, rinsed by dreams. This is why I pause: which word to use, you or he. Each he betrays some you, but calm conversation bides its time in other’s poems. [Another Beauty, Adam Zagajewski, trad. Clare Cavanagh] |
Apenas na beleza criada por outros encontramos consolo, na música de outros e nos poemas dos outros. São os outros que nos slavam, Ainda que a solidão tenha o gosto do ópio. Os outros não são o inferno se os virem pela alvorada, com as suas frontes puras, limpas pelos sonhos. Por isso hesito que palavra usar, “ele” ou “tu”. Todo o “ele” é uma traição a um certo “tu”., mas o poema de outro oferece a fidelidade de um diálogo sóbrio. [Outra Beleza, Adam Zagajewski, trad. jac] |
- | João Amaro Correia / 1.8.11
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