abismos#3


[Storm King' Wall, Andy Goldsworthy, 1998]


A contingência pura do meu lugar


Não se pode dar o caso de eu não ter um lugar, pois estaria então, relativamente ao mundo, em estado de sobrevoo, e o mundo já não se manifestaria de nenhuma maneira (...). Por outro lado, embora este lugar actual possa ter-me sido atribuído pela minha liberdade («vim» para aqui), só pude ocupá-lo em função do que ocupava anteriormente e seguindo caminhos traçados pelos próprios objectos. E este lugar anterior reenvia-me a um outro, este a outro ainda, e assim sucessivamente até à contingência pura do meu lugar, ou seja, até aquele dos meus lugares que já não reenvia a nada de mim: o lugar que o nascimento me atribui. Realmente, de nada serviria explicar este último lugar por aquele que a minha mãe ocupava quando me deu à luz: a cadeia quebrou-se, os lugares escolhidos pelos meus pais não poderiam valer de forma alguma como explicação dos meus lugares (...) Nascer é, entre outras características, tomar o seu lugar, ou melhor, de acordo com o que acabamos de dizer, recebê-lo.


[O Ser e o Nada, Jean-Paul Sartre, 487]


via André Barata





Mas poder-se-á pensar esse lugar, em razão da nossa não-escolha, como um lugar que nos ocupa ainda antes de a ele chegarmos via essa sucessão de lugares que vamos ocupando? Nascer, portanto, a dádiva maior, o lugar que nos é gratuitamente dado, que existia antes de nós, e do qual somos precisa e permanentemente reenviados?





abismos#2





[Hefei, China, 21.05.2011, in The Economist]



Os optimistas chamavam de visionários aos starchitects. Resgatadores do futuro, que promoveriam, pelas suas intervenções, vertiginosas performances económicas, sociais, culturais, nas cidades. Antecipando o futuro, uma espécie de mercado de futuros das cidades. Não por acaso foi o rebentamento do mercado de futuros, em que se transformou o mercado imobiliário, a origem da crise económica do Ocidente. Não por acaso, assistimos hoje à migração desses starchitects para latitudes emergentes, com tudo o que daí importa, desde a produção das imagens aceites como globais, à hegemonia de um pensamento sem qualquer contrapartida crítica. E neste mundo todos queremos construir ícones.
O ícone, o objecto de culto diante do qual se baixa os olhos, limite da correspondência da a imagem com o objecto, da representação com a presença (Régis Debray), ergue-se como arquitectura encerrada sobre si, desvinculada de qualquer lugar. Um erguer, mais que um constuir, também ele refém do aparato performativo tecnológico. Se de momento o dogma é o da sustentabilidade, equivocada, sem dúvida, e martelada pelos classificados e desdobráveis da promoção imobiliária, já foi o do progresso infindável. E se este é optimista, radicalmente optimista, o outro, é o do medo: do fim dos recursos, do fim do nosso padrão de vida, quando temos já a consciência quer da finitude dos recursos, quer da nossa capacidade de aniquilação da vida no planeta. Mas foi nesse projecto optimista, nesse projecto moderno, que era também o projecto de uma democracia universal, que a ruptura sucedeu. A imposição do projecto moderno é, em última análise, a universalização dos mitos românticos da originalidade, do génio, da novidade, da vontade. Talvez por isso seja a arquitectura “estrela” um campeonado de pilinhas tornitroantes.

A reacção pública à música contemporânea tem paralelos com a reacção do mesmo público à produção arquitectónica comtemporânea. A vox populi consagra o mamarracho. E à mesma vox populi, que consome e se consome em pastiches nostálgicos de uma civilização rural que nunca foi o paraíso que perdemos, respondem os arquitectos com a infundada e ignorante incompreensão das massas à evidência das arquitectura que constroem. O paradoxo da democracia, voltando aos parágrafos acima, é convocar, então, essas arquitectura incompreendidas para a sua auto-representação. O poder, presumivelmente representativo dos cidadãos, decide legar-se e celebrar-se na polis justamente pelas arquitecturas que estas, quotidianamente, rejeitam.

Torna-se evidente que a resposta reside nos lugares, por maior que seja o apelo e o desejo de um mundo encolhido e próximo. Globalização ou mundialização é apossibilidade de o mundo se tornar menos plano, mais aberto, de nos tornarmos mais recíprocos. Se a condição da arquitectura no lugar é a incessante relação destes, o nosso lugar hoje é maior porque o mundo encolheu. Admitindo que é das sensações que releva a experiência, é esta, paradoxal, e caótica, a nossa contemporânea.
The past is never dead. It's not even past. O tema faulkenriano torna precisa a necessidade de ter que lidar com o presente. E se algum do presente pode ser acusado com esta veemência reaccionária, admitindo que possamos fundir o conceito de presente com o de contemporaneidade, é porque a produção desse presente, de que todos somos responsáveis, é sem memória do que foi e sem desejo do que será.



abismos





[Lighthouse Tower, Rio de Janeiro, Mikou Design Studio]



Na verdade gostaria de pensar o que quer que fosse sobre isto. Mas isto explica-se a si mesmo. Uma coisa. Espúria, inconsequente, vaga, vazia, destituída de qualquer sentido do que quer que seja. Ou, pelo contrário, a afirmação – narcísica – do zeitgeist, que convoca, numa imagem, todas as patologias de que enferma a arquitectura mainstream ou publicável. Enventualmente, este exemplo seja tão eloquente como qualquer outro extraído de um qualquer sítio da rede.
A exemplaridade deste farol anuncia-nos o espírito do tempo, tanto como a condição cultural genérica em que quotidianamente submergimos, como o totalitarismo com que esta estética, dirigida e dirigista para a circulação e consumo instantâneos, opera. E há, claro, a questão narcísica, inevitável na prática contemporânea da arquitectura.
O totalitarismo deste tipo de imagens, destituídas de significado mas revestidas de lancinantes apelos à percepção e à consciência domesticada, que exluí do real a faculdade deste ser o território em que se constroem, inventam, abrem possibilidades. Em que o real é apenas o observável - consumível -  a partir de uma perspectiva unívoca e, presumivelmente, global, de que este tipo de produção de imaginário é o braço armado.

A fantasia, como apelo, é sempre de marketing apuradíssimo: This tower is for us the poetic embodiment of its natural and urban surroundings. It summarizes the tropical experience associated with lush South American vegetation, the deep skies of Brazil and the sensorial urban landscape. We have thought up a truly Brazilian tower which symbolizes the imagination, beliefs, myths and memories of Brazilians. One made of sensitive perceptions of light, sound, atmosphere and sensual experiences related to its geographical and urban location. An abstraction of the female form, our tower is rooted on the island of Cotunduba and offers itself to the sea via a large jetty. It is designed as an arch at the entrance to the city, a figure that frames the Brazilian landscape by a window cut into the organic shell. (???)

Não recuso o elogio da superfície. Pelo contrário, a obsessão pelo interior tenderá a elidir a superfície das coisas como o nosso primeiro contacto com o real, relegando-a, à superfície, ao que é carecido de valor. A perda dá-se quando a erosão aniquiladora da superfície desoculta uma realidade inefável, antes de qualquer possibilidade de completude no real. E a completude, a incessante e dinâmica relação entre uma construção e o seu entorno, é aquilo a que um ícone, encarcerado nos seus significados, está vedado.
À gramática da arquitectura sobrepõe-se um discurso de imagens: a frivolidade obstinada na construção de abismos vazios.




i vitelloni#2


[Av. Delfim Moreira, Rio de Janeiro]



Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
trouxe imigrantes?
trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.



[Inocentes do Leblon, Carlos Drummond de Andrade in Sentimento do Mundo, 1940]




Drogas, tou fora
Tá foda
Agora vambora
Nem vinho tomei
Me sinto muito sozinho
E ela é a lei


[Falso Leblon, Caetano Veloso, 2009]






i vitelloni


[Av. Graça Aranha, Rio de Janeiro]




Primeiro a praia, depois uma estréia,
depois o Baixo, e finalmente a festa
de madrugada, numa cobertura:
e eis que as nuvens a cobrir a lua
e o Corcovado já se dispersavam,
auspiciando uma manhã de praia
para um rapaz que àquela altura era
o derradeiro barco pra Citera.



[Antigo Verão, António Cícero]






onde estás?


[Praia do Botafogo, Rio de Janeiro]



Parado no ônibus no último semáforo da São Clemente. Abre o sinal e abre-se a Baía da Guanabara. Todas as manhãs, atrás entre o inferno do trânsito do Botafogo - passagem ente Norte e Sul, garganta da geografia absurda – e o display luminoso do iPod. À frente a luz luminosa o céu de um azul celeste celestial. A Coca-Cola no alto do prédio mais alto da Praia do Botafogo, sinal do tráfego nocturno da baía, luz néon artificial vermelho de Atlanta, igual a Tóquio, a mesma de Times Square: todos somos iguais, universalmente unidos no consumo. Um hambúrguer ou a possibilidade de escolher uma iguaria vietnamita ao lado do boteco nordestino. Somos um, somos todos, todos atravessamos o mesmo sinal. Já há novo governo em Lisboa?, reload a página do Público.
Troco o random dos dedos sobre o iPod, ou Mozart ou Einsturzende Neubauten entre uma chamada de Lisboa, onde estás?, uma mensagem para Londres, onde estás?, uma imagem de Buenos Aires, venha à Copa América. Propaganda dos lugares, economia das cidades. Onde estás? São Paulo Fashion Week, na propaganda seguinte, nos corpos padronizados das imagens glam de griffes globais. No ecrãn do ônibus a Rede Globo twitta em menos de 140 caracteres e uma imagem um novo governo em Portugal e um restaurante texano que serve bife de leão, separados pelos augúrios do dia para os sagatarianos. Português falado com acento alemão espanhol francês pernambucano babélia lusófona trans-oceânica.
Será que ela está no Pão de Açúcar? Onde estás? Estar-aí, ser-aí.
As manifestações tecnológicas do lugar, a privacidade dentro do espaço público e a extensão do lugar aberto e comum dentro da intimidade. Abre o sinal. Onde estás? Sábado encontramo-nos em Paraty. Virás a Belo Horizonte?, seguimos depois para Inhotim.
Lisboa, Rio de Janeiro, Londres, São Paulo, Buenos Aires, Paraty,  Belo Horizonte.
Onde estou?





ruínas





[Paris, Texas, Wim Wenders, 1984]



A modernidade inaugural de Piranesi é tanto na edificação de arquitecturas imaginárias, edificando sobre territórios mentais o que seria impossibilitado de construir – e a representação da ruína como experiência da ausência e da perda em relação à história; e uma imagem é já uma ruína, arrisco – como na produção e comércio dessas imagens. Como consequência imediata sobre o agora consumidor-espectador a alteração do imaginário e das maneiras da percepção do real.
Reduzidos ao hoje Photoshop, incautos arquitectos redizemos incessantemente o realismo como mantra das imagens sobre as quais trabalhamos.
A realidade deixou de ser o território operativo e especulativo do arquitecto – com o fim na transformação dessa realidade – mas antes a abdicação a forças poderosas, activas e, eventualmente, dissimuladas, que desconhecemos ou preferimos esquecer. Onde antes a arquitectura era emancipação, é hoje resignação.
E uma imagem é já uma ruína, arrisco.





água rasa























[Pinturas e Platibandas, Anna Mariani, 2010]



O que dizem essas casas? Sob o sol-a-todo-sol do Nordeste Brasileiro, em meio à dura vida humana, o que insinua sua lírica geometria?


De frente para a câmera de Anna Mariani, elas parecem esboçar um sorriso silencioso. A câmera não pretende interpretar os seus signos, mas entrar numa espécie de estado amoroso com a delicadeza de sua poesia. As fotografias são como monalisas pintadas por Volpi.


Para mim, são coisas íntimas. Casas que conheço por dentro. Em Santo Amaro, onde nasci, no Recôncavo baiano, as pessoas pintam suas casas a cada fevereiro para as festas da padroeira: é como comprar um vestido novo. A cidade fica endomingada, como se fosse um cenário de teatro ingênuo, com todas as casas recém-pintadas. É simples: é a alegria de viver, a vontade de ser mais bonito. Aos olhos do próximo, aos olhos de Deus.


É complicado: vendo essas casas reduzidas à sua "essência" formal, em retratos frontais, sobretudo aquelas que Anna foi encontrar longe da minha microrregião, no sertão, onde exibem mais inspiração e rigor, eu me pergunto qual o caráter do ensinamento que elas trazem. O impacto estético que produzem em nós sem dúvida confirma e ultrapassa o sentido de superação da miséria. Os homens que desenvolveram esse estilo visual numa região tão pobre do Brasil nos fazem ver que há muitos níveis insondados, muitos estágios misteriosos nas relações entre as massas e o que se convencionou chamar de modernidade.


[Caetano Veloso, para o catálogo da exposição Des maisons comme des tableaux, Centre Georges Pompidou, 1988]








Regresso a Pinturas e Platibandas, agora com o livro nas mãos, de cuidadíssima edição do Instituto Moreira Salles. E regresso à sensibilidade e amor com que Ana Mariani fotografou e recolheu, entre 1976 e 1995, imagens de habitações populares do Nordeste Brasileiro. O levantamento é conduzido por uma sensibilidade que transforma as pequenas habitações das duras condições de vida nordestina em pedaços de poesia, em minuciosas peças de câmara, no meio do desconcerto sinfónico do Sertão.
Uma plástica elementar: erguida em base de cal; a profusão cromática sobre a geometria simples das casas e das platibandas; o conhecimento e sageza dos métodos construtivos tradicionais; a sabedoria e inteligência ancestrais e arcaicas no modo de apropriação e transformação do que o mundo nos vai dando.
A tecnologia das mãos sobre o barro escasso: pintar uma casa, uma cidade, a vida.


E a porta da casa dela
Nem parecia uma porta
Tinha uma luz azulada
Que vinha de nenhum lugar


[Retirante, Vinícius Cantuária & Laurie Anderson, 1999]



(this is not a miracle)


[Corcovado, Rio de Janeiro]


For this could be the biggest sky
And I could have the faintest idea


[This Is Not America, David Bowie + Pat Metheny, 1984]

sociedade sem classes#2





















































































Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa.*






















































































































*Dom Casmurro, Machado de Assis





brevíssima dissertação em antropologia da religião, antropologia política e antropologia do espaço, comparadas


[Nossa Senhora da Nazaré]






















[Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, Sítio da Nazaré, Nazaré, Portugal, c.1377, mandado edificar por D. Fernando, onde Vasco da Gama rezou a última missa antes de partir na viagem marítima para a Índia, abrindo os caminhos da globalização moderna.]




[Nossa Senhora de Copacabana]





























[Igreja de Nossa Senhora de Copacabana, Copacabana*, Rio de Janeiro, c.1746, demolida em 1918 para dar lugar ao Forte de Copacanana, onde a 5 de Julho de 1922 eclode a Revolta dos 18 e o Rio de Janeiro entra na modernidade política.]










*
Copacabana é uma palavra boliviana, trazida para o Rio de Janeiro no séc. XVII. Foi
encontrada, onde hoje é o Forte de Copacabana, uma imagem de Nuestra Señora de Copacabana, em 1746. O poder agregador da religião e os pequenos ‘milagres’ operados na vida concreta dos indivíduos era razão suficiente, à época, para a edificação de uma igreja e consequente urbanização do entorno. Anterior à venerada na Nossa Senhora boliviana, Copacabana deriva da divindade Cópac Awana, de origem quíchua, que o sincretismo transformou numa santa católica das margens do lago Titicaca.






sobre o chão de Lisboa


[Terreiro do Paço/Praça do Comércio, Lisboa, Fevereiro 2009]


Mas os modelos mais imediatos para cidades planejadas vieram, curiosamente, dos assentamentos coloniais espanhóis e portugueses na América Latina, onde a norma era um esquema rigoroso de ruas e praças perpendiculares.

O último dia do mundo: Fúria, ruína e razão no grande terremoto de Lisboa de 1755, Nicholas Shrady, 2011



Tome-se o devido distanciamento à distância que toma um inglês ao escrever sobre Portugal: sempre com alguma condescendência, que a todo o momento torna implícita a razão da simples existência e improvável sobrevivência de Portugal mercê de especiais favores ingleses. Aparte isto, note-se em Fúria, Ruína e Razão o detalhe e vivacidade das muitas pequenas estórias que teceram a grande História. Do drama da tragédia às intrigas da corte; da guerra aberta Carvalho e Melo vs. Jesuítas, sobre o domínio da razão da destruição e construção, ao vigor de um Manuel da Maia aos 78 anos a lançar Lisboa moderna cumprindo o projecto político de Pombal; das repercussões nas cortes, salões e círculos iluministas europeus às insidiosas manobras pela configuração de uma coroa absoluta. E o centro do texto: mal natural vs mal moral.
Embora o panorama genérico da sociedade e cultura portuguesas seja equivocado, porque lido numa grelha anglo-saxónica impossibilitada de compreensão do pessoalismo ibérico (cf. Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda), o pormenor é vívido e esclarecedor. Mas entre Voltaire e Malagrida, contudo, não é necessário mais, hoje, tomar partido. Muito menos o do fastidioso politicamente correcto.








paisagem sem fundo






Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.


Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.


Devagar... as janelas olham.


Eta vida besta, meu Deus.





por Tom Zé

[Cidadezinha Qualquer, Carlos Drummond de Andrade, in Alguma Poesia, 1930]






Alguma Poesia, recolha de poemas de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1930, é também um livro de cidades e espaço. Desde logo o espaço da irrupção do modernismo brasileiro – segunda geração – e, dentro desse espaço, o da singular voz de CDA.
Os poemas cantam as paisagens da Minas Gerais natal de CDA, as cidades desse estado interior, as paisagens quotidianas através das quais o poeta se lançava a definir-se a si mesmo. Da viagem à França, Rússia, Inglaterra, há o regresso ao Brasil trazendo o desprezo pelo brasileiro que suspira pela europeização acabando na americanização. A machina, o cinema dos heróis da Paramount, o automóvel, todo o projecto optimista do modernismo na afirmação de um cântico que adquiria sentido no espaço e nas cidades brasileiras. Depois da primeira geração ter debatido regionalismos e internaconalismos, enquanto o Palácio Capanema se encontrava em execução, CDA abre-nos à nova paisagem sem fundo do Brasil.






[Ipanema, Rio de Janeiro]


Foi no Rio.
Eu passava na Avenida quase meia-noite.
Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis.
Havia a promessa do mar
e bondes tilintavam,
abafando o calor
que soprava no vento
e o vento vinha de Minas.


Meus paralíticos sonhos desgosto de viver
(a vida para mim é vontade de morrer)
faziam de mim homem-realejo imperturbavelmente
na Galeria Cruzeiro quente quente
e como não conhecia ninguém a não ser o doce vento mineiro,
nenhuma vontade de beber, eu disse: Acabemos com isso.


Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas
autos abertos correndo caminho do mar
voluptosidade errante do calor
mil presentes da vida aos homens indiferentes,
que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram.


O mar batia em meu peito, já não sabia no cais.
A rua acabou, quede árvores? a cidade sou eu
a cidade sou eu
sou eu a cidade
meu amor.


[Coração Numeroso, Carlos Drummond de Andrade, in Alguma Poesia, 1930]








[Av. Rio Branco, Rio de Janeiro]


Fios nervos riscos faíscas.
As cores nascem e morrem
com impudor violento.
Onde meu vermelho? Virou cinza.
Passou boa! Peço a palavra!
Meus amigos estão todos satisfeitos
com a vida dos outros.
Fútil nas sorveterias.
Pedante nas livrarias...
Nas praias nu nu nu nu nu nu.
Tu tu tu tu tu no meu coração.


Mas tantos assassinatos, meu Deus.
E tantos adultérios também.
E tantos tantíssimos contos-do-vigário...
(Este povo quer me passar a perna.)


Meu coração vai molemente dentro do táxi.


[Rio de Janeiro, Carlos Drummond de Andrade, in Alguma Poesia, 1930]


pour épater la bourgeoisie


[THX1138, George Lucas, 1971]



Caro Pedro,
O meu comentário ao seu post assenta numa divergência e numa perturbação.
Será irrelevante para o caso o cansaço que advém a uma pobre alma conservadora-liberal essa propaganda do terror que toda a intelligentsia espalhou por estes dias. O famoso ‘medo do que aí vem’. Também porque não tiveram ‘medo do que aí foi’, durante seis anos de delinquência política (e outras),também  porque a complacência, quando não conluio, com os desmandos de um governo de esquerda foi olímpica. Uma perturbação que se confirma ao percorrer o debate público, a blogosfera, ao verificar o cinismo em que todos, mas todos, estamos mergulhados. Por isso celebrei, celebro, celebrarei, a queda de um primeiro-ministro que escandalosa e vertiginosamente se dedicou a corroer as formas da democracia liberal e representativa.  Uma perturbação, apenas.

Serei ignorante, muito ignorante, mas divergência não será necessariamente desconhecimento e insensibilidade. Muito menos emprenhar pelos ouvidos dos que fazem o ‘jornalismo’ dos Públicos, dos Expressos, das RTPs e dos DNs que se calhar consumo, ou, quiçá, académicos, legitimados pela universidade liberal, pagos e alimentados por ela, mas sempre prontos ao maior e alucinante foguetório conceptual, que deslumbra os mais inermes, mas sem qualquer adesão à realidade, que se calhar também consumo.


Vamos, então, ao que importa. A realidade com horizonte no real e não na utopia. Com o desejo de transformação do real com os materiais, contraditórios e caóticos que esse real nos fornece, e não com qualquer devaneio sentimental.
E o que importa começará pela divergência que aludo acima: para o Pedro, presumo, a democracia liberal e representativa será um obstáculo a remover em direcção ao paraíso terrestre. Muito embora creia em paraísos - eles são de outra substância que não deste mundo – as experiências trágicas do passado recente da civilização levam-me a recusar qualquer utopia. A utopia não é mais que o desprezo profundo pelo homem e a sua condição. É a incapacidade de aceitar o homem e a sua falibilidade, o erro e o acerto a que sempre e em toda a nossa actividade estamos sujeitos. E se hoje a utopia dominante é a do capital, há poucos anos foi a da igualdade a ferro e fogo. As duas com consequências, naturalmente, sobre a paisagem, porque ambas configuram um projecto totalitário com domínio de tudo o que diga respeito ao humano.

Mas a paisagem do capital.
Apenas um cego surdo mudo, ou um cínico, poderá passar impávido sobre tudo o que estamos a passar. Todas as transformações que organizam e desorganizam o mundo em que vivemos.
O mundo não é flat – o chato na tradução brasileira parece-me muito mais interessante que o geométrico plano da tradução portuguesa – apenas o é nos cálculos dos especuladores, como o foi em todo o projecto racionalista e progressista. E estaremos de acordo. O mundo é muito mais interessante que o plano sem fim. Muito mais imprevisível e surpreendente.
A expansão planetária do capital é isso mesmo, planetária. E se há dez ou vinte anos poderíamos voltar os olhos ao Ocidente – como dois aviões se voltaram para duas torres na paisagem de Manhattan -  hoje os olhos permanecem  ansiosos, instáveis, alvoraçados porque porque, sabemos, o planeta é esférico e os nossos olhos não alcançam o outro lado que sabemos existir.  O capital não escolhe territórios nem regiões, ocupa-se a ocupar o espaço que lhe permitem. Que a política lhe permite. A falência da política.
O poder legitimado pela fonte popular, sitiado pelos poderes fácticos.  O actual enquadramento económico global não é escrutinado por nenhuma organização supra-nacional, quando os estados se mostram incapazes de contrariar o anonimato e a velocidade do capital pouco interessado no bem comum.
A pequena agricultura da África, a subsistência de centenas de comunidades, estará esvaída. E pense-se na PAC. O conforto europeu, por exemplo, e a prosperidade dos sindicalistas franceses e as folclóricas peregrinações de Boaventura Sousa Santos aos Fórum Internacional de Porto Alegre em gongóricos ditirambos alter-mundistas, e o preço em sangue, doença, morte, pago no continente africano. Pense-se nas patricinhas & mauricinhos do Leblon, escandalizados com a violência do Rio mas nem por isso menos viciados na maconha que alimenta os circuitos do tráfico e da violência no morro. Pense-se no agro-business que leva korn-flakes ao pequeno-almoço de cada vez mais quantidades de gente em todo o planeta, mas também dizima milhares de hectares em todo o mundo com monoculturas intensivas. Talvez falte em tudo isto globalização e não o seu contrário. E globalização pressupõe, pressuporá, regras iguais a todos. Mas a falência da política. Como conciliar a melhor distribuição da riqueza proporcionada pelo mercado livre com a justiça e equidade sociais? Como conciliar a vontade individual, cada vez mais avessa a grilhões com a vontade colectiva com a qual muitas vezes violentamente choca. Como, afinal, fortalecer a democracia liberal? (A minha ignorância e incertezas não me dão respostas a isto.)

Recuso é a visão do mundo de Tordesilhas: de um lado socialistas, plenos de boas intenções e dignidades para todos, do outro, capitalistas, venais senhores dos mais tenebrosos desígnios. Recuso o monopólio do coração e da sensibilidade a que, implicitamente, no seu texto o Pedro se alcandora.
Nestes termos, estaríamos a debater a realidade com categorias oitocentistas
épater la bourgeoisie revolucionária. Seria demasiado fácil e manso. E o mundo é muito maior e complexo e contraditório.




de ouro e fogo no findar do dia*





[Estudo para Copacabana, Nadir Afonso]










[Copacabana, Nadir Afonso]










[Rio de Janeiro, Nadir Afonso]










[Rio de JaneiroNadir Afonso]










[Rio de Janeiro, Estação de Metro dos Restauradores, Lisboa, Nadir Afonso]





*Meu Rio, Caetano Veloso, 2000