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Deixarias que te lavassem os pés?#11


translado o teu silêncio
para esta língua
morta

























Deixarias que te lavassem os pés?#10

Acordou de noite e ficou deitado, à escuta. Não se conseguia lembrar onde estava. Este pensamento fê-lo sorrir. Onde estamos?, perguntou.
O que é que disseste, papá?
Nada. Está tudo bem. Dorme.
Vai correr tudo bem, não vai, papá?
Vai, sim.
E não nos vai acontecer mal nenhum, pois não?
Claro que não.
Porque nós transportamos o fogo.
Sim. Porque nós transportamos o fogo.


A Estrada, Cormac McCarthy








Deixarias que te lavassem os pés?#9

























Deixarias que te lavassem os pés?#8


Quando terminei, todos se retiraram para os seus quartos, ficando só nós os três. A senhora trouxe-me uma camisa branca de dormir e umas meias. Fiz uma vénia e disse:
- Não quero as meias, mãezinha. Nunca usei meias. Estamos habituados a andar de onutcha.
Então ela foi buscar um velho kafkan de seda fina, e rasgou-o em duas onutchas. O marido disse:
- Os sapatos deste pobre estão a desfazer-se. Traz as tuas galochas, as grandes, para ele calçar por cima. Depois virou-se para mim, dizendo:
- Vai para aquele quarto, não está ali ninguém e muda a roupa.
Fui, vesti-me e vim de novo para junto deles. Sentei-me na cadeira e começaram a calçar-me. O senhor enrolou-me as onutchas à volta dos pés e das pernas e a senhora calçou-me os sapatos. Eu não queria, mas eles insistiram, fizeram-me sentar e disseram-me:
- Senta-te e cala-te. Cristo lavou os pés aos seus discípulos.
Não havia nada a fazer e comecei a chorar. Também eles choraram.