o tempo que dura


[Maison Carré, Alvar Aalto, 1956]

Querendo crer que a respiração de uma obra de arte resulta do movimento a que nos comprometemos na experiência em roda da sua essência, talvez esta ideia se esgote quando o mundo é uma casa. Não porque a casa não estabeleça relações de contiguidade activa com o seu contexto; que essa actividade resulte numa co-produção do espaço; que da colaboração casa mundo, pelo tempo, resulte a instabilidade espacial que o (pré)domínio cultural do modernismo ainda pretenda elidir. Não. Antes pela sua duração. E se se compreender a duração como a efemeridade das coisas que permanecem, compreende-se necessariamente uma extensão absolutamente diversa da duração da casa mundo e uma outra, a da obra de arte. Como processo, e penso o processo como o sistema contínuo das experiências mentais a partir de um objecto, as relações que se vão revelando e estabelecendo entre o sujeito e, e na, casa, será de uma outra espessura rítmica que diferirá da da obra de arte. E ainda não é uma questão de andamento. De disparidade entre um larghissimo ou um allegro ma non tropo. Será talvez o acaso da produção da própria espacialidade. Um acaso pensado, o da arte, quando ela própria se submete à decisão da arquitectura. Arquitectura, quando não recusa ser tornada objecto, quando não se recorda que isso, ser objecto – isolado, restringido nas relações das coisas umas com as outras – é uma maneira de morrer: a vindicação da aparência sobre a essência.
Que os dogmas mentais do modernismo sejam de difícil superação, - a inclinação a aceitar um tempo universal (e unívoco) como adequado a qualquer homem em qualquer circunstância, por exemplo – tal não poderá tornar a arquitectura (ainda) refém da ideia de um espaço infinitamente contínuo. Uma casa não será apenas um modelo de mundo mas mais, bastante mais, o próprio mundo. E aqui, re-aproximando-se à obra de arte, ambas, a arte e arquitectura, abandonam a condição de representação da realidade, para se transfigurarem elas próprias em realidade.
O paradoxo da arquitectura então será esse. O do tempo que dura. Sobrevivem as casas aos homens e à sua realidade. Sendo elas próprias a realidade. Para nós, homens, resta aprender que é «feliz todo aquele que tem os seus locais de duração». Mesmo que numa ruína, (que talvez não seja outra coisa que um novo encontro do seu espaço no tempo).