cotidiano#10





[Enseada do Botafogo, Rio de Janeiro, 2010]


O corpo quase que morava ali, equilibrado nas curvas da enseada
Ao lado dos carros vermelhos que transportavam os donos da vida para seus escritórios
Ao lado dos emigrantes subjugados ao infinito
E crianças reclinadas sobre as ondas azuis.
Tantas vezes o corpo sobre as curvas, tantas
Que ficou como certas casinhas tortas, que jamais podem ser evocadas fora da paisagem.



[Enseada do Botafogo in Face Imóvel, Manoel de Barros, 1942]






Como estou só: Afago casas tortas,
Falo com o mar na rua suja…
Nu e liberto levo o vento
No ombro de losangos amarelos.

Ser menino aos trinta anos, que desgraça
Nesta borda de mar de Botafogo!
Que vontade de chorar pelos mendigos!
Que vontade de voltar para a fazenda!

Porque deixam um menino que é do mato
Amar o mar com tanta violência?



[Na enseada do Botafogo in Poesias, Manoel de Barros, 1956]