is chicago, is not chicago*


[Chicago, Adam Broomberg & Oliver Chanarin]





E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.


[À Espera dos Bárbaros, Konstantinos Kavafis]



Podem as origens das cidades se sustentarem em teorias diversas, até mesmo antagónicas, mas aceita-se, de comum acordo, que essas diferentes origens ultrapassam o estrito reduto de um funcionalismo reduzido à necessidade. Ao desejo de viver próximo do próximo e receptivo ao estrangeiro não assistirá apenas uma mera razão prática e utilitária que seja de modo a erguer cidades. Evidentemente que o comércio é uma razão determinante para que possamos aportar nalgumas cidades do mundo – escrevo isto de Lisboa – e quem diz o comércio diz a possibilidade da extinção, por satisfação, de insondáveis desejos humanos, do amor aos utensílios e artefactos. Sendo certo que a teoria proporciona divertidas elaborações a partir da visão materialista, ou mineralista, no dizer de de Landa, radicar a apesar de tudo pacífica convivialidade entre estranhos que as cidades proporcionam nos fluidos dinâmicos da matéria (sic.) é, historicamente, uma possibilidade apenas ao alcance de quem viva nesta era do cinismo. Ainda que encontremos razões para concordar com de Landa. E talvez essas razões decorram, justamente, por atravessarmos a era do cinismo.
Chicago. Não a Chicago heróica que se levanta mais alta que o vento do Michigan. Chicago, a cidade inventada no meio do deserto do Negev, pelos árabes, com a finalidade de treinar as tropas árabes na guerra contra os israelitas. Chicago a reprodução espacial de Ramallah, criteriosamente coberta de areia e cuidadosamente grafitada, como o campo de refugiados de Jenin.
E aqui, nesta estória inventada, é onde se atravessa a História, como um palco onde se representam as cidades e a História, e as tragédias de um conflito antigo. Teatro de guerra, dizem, como técnica arquitectónica de destruição da própria arquitectura. Mas esta Chicago não a vejo tanto como representação mas mais como expressão. Uma tragédia em que a representação e o palco da representação são o dizer em si mesmo do que ali é. Mesmo que o nome, Chicago, o seja pelos buracos de balas pintados nas paredes como homenagem a Al Capone. A vida, a arquitectura, como ensaio da História.
Dir-me-ão, a arquitectura suporta sempre uma ideia. Evidentemente. Serviu, serve, servirá, sempre, um qualquer programa político e de reordenamento social. Temos até, na nossa casa europeia, cicatrizes ainda vivas do serviço a causas inumanas e opressoras da escala do corpo. Mas estas cicatrizes no deserto, literais, são o próprio corpo.

Noutra ferida, ou noutro instante da mesma dor do ódio, cresce, no meio dos destroços e do metal torcido pelo fogo, uma pequena esperança.


*Is Chicago, is not Chicago, Soul Coughing.
A man
drives a plane
into the
Chrysler building



[anterior ao 11 de Setembro]



para o António