agora nome

Oh, seria tudo tão diferente se tudo tivesse sido diferente. Pois ela só seria diferente se fosse outra, e até então só soubera, muitas vezes e de muitas formas, fingir ser ela mesma.

De prática fácil, e sempre impune, foi um passo para uma espécie febril de intolerância com a realidade. Logo perdeu o foco original e viu mentiras e verdades embaralharem diante de seus olhos de inventora. Aquilo que o resto do mundo admitia como real, para ela não passava de uma mordaça incômoda que a obrigava a rastejar pela normalidade tediosa da cidadezinha, atrofiando suas asas. E a mentira? Essa de improviso, a libertava para o voo.


Nisso consistia o maior talento de Júlia: mentir antes para si. E acreditar (ah, sim, acreditar!), pois, se acreditasse, o mundo todo se convenceria.

Mentir não. Por isso não falaria.

Dispensando redes e cordas. E então seria o choque entre o real e o ilusório.


(lá está: uma plantação: só uma plantação. tudo real como as coisas que existem e foram vistas e receberam nomes. a plantação existe porque a vejo, e se posso ver e acreditar, não há por que temer. pois vejo, sim, e digo mais: são laranjais! é isso, minha senhora, olhe com toda a atenção, Júlia Capovilla: la-ran-jais! nenhum mistério, finalmente nenhum mistério! nenhum abismo por trás dos laranjais…)


“a não ser que” é produto de sonho. o real, preciso recorrer ao real. o real é o sufocamento – só no início será o sufocamento . depois deve ser outra coisa, uma coisa que ainda desconheço. tenho de esperar.

 


[Suíte Dama da Noite, Manoela Sawitzki, 2009]




[lote 12, Angra do Heroísmo, 2004.2007]



Chega anterior aos olhos e ao ouvido. E o ouvido antes dos olhos, se estamos na floresta. Estar, verbo pobre, inexacto, desajeitado, inábil, incompleto. Se permanecemos na floresta, lugar incerto oculto sem nome. E incerto é tudo antes de lhe darmos nome.
Chega incerto anterior aos olhos ouvido, ao corpo. Seja estar, pemanecer.
Antes do corpo, ainda apenas bocados de olhos ouvido, as mãos: os nomes recolhem-se constroem-se à mão: às mãos, a língua é o vento iminente que incendeia a garganta. Mas só depois do corpo. Ainda não. Ainda não os incêndios e as palavras que caem, as palavras têm sempre de cair. É essa a situação condição do corpo no mundo.
Agora.
Olhos ouvido mãos garganta, ainda não corpo, quase nomes.

ou

um lugar que o é só depois dos nomes: ergue-se um muro perpendicular ao vento do Norte. Um pouco de protecção. As mãos precedem os olhos no desejo da paisagem e rasgam um buraco no muro. Os olhos precedem o pensamento no desejo. O pensamento só completo depois da fresta aberta, muro ferido na alegria do que é no outro lado. Contemplação da construção: da eficácia da teoria que explique o desejo do muro da paisagem: do lugar.
Lugar, agora. Nome justo. Estética da justiça, a medida certa, apropriada, das coisas. Por exemplo, da janela que nomeia o vale ao fundo para onde se abre. Construir. Nomear.

ou

juntamos olhos ouvido língua garganta mãos, já corpo, já nome.
Agora corpo. Agora nome. Agora arquitectura.