Oportunidade perdida

Com o PS atolado na geringonça, o PSD de regresso ao regaço da social-democracia e o CDS em busca de uma identidade mais “pragmática” e menos “ideológica”, não é crível que a próxima revisão constitucional sirva para nos livrar do peso cada vez mais insuportável do Estado sobre as nossas humildes cabeças e depauperados bolsos.

Qualquer visão que sugira sequer uma ruptura com a nossa tradição estatista apresenta poucas possibilidades de vicejar numa sociedade sitiada pelo Estado-babá. De oportunidade perdida em oportunidade perdida, o Estado engorda, enfraquece e soçobra diante da corte dos “direitos adquiridos” e das castas que se ufanam em banquetear-se à mesa do Orçamento.

A calamidade é tanto maior quanto o “rumo ao socialismo” trilhado nestes 40 anos sufocou a sociedade portuguesa na obscenidade materialista que, por definição, é o território de pasto do Estado totalitário que se vislumbra no horizonte.

Entre a leveza fútil de uma deputação que se ocupa em legislar profusamente tudo o que mexe e o sequestro do Estado por grupos de interesses, por ora, afigura-se impossível qualquer tipo de compromisso constitucional que liberte a sociedade, retire o Estado da economia e nos deixe no sossego do viver habitualmente.


Diário Económico | 18.03.2016

O monarca exemplar

Adivinhar o que se vai passar nos próximos 10 anos não só seria imprevidente como inútil.

Tanto pela imprevisibilidade do tempo quanto da personagem. Mas Marcelo surpreendeu - o que é surpreendente num espírito irrequieto onde a surpresa é a ausência de surpresa: despiu o fato de comentador e fazedor de factos e revestiu-se da gravitas que a posição cimeira na hierarquia de Estado impõe.

Mas talvez a chave possível para a leitura do que venha a suceder nos dois mandatos de Marcelo esteja na “política de proximidade” que tem praticado desde a campanha eleitoral. Proximidade destituída dos vazios chavões da cidadania esquerdista.

Proximidade autêntica, que resulta da sensibilidade e inteligência de Marcelo em estar e ser de igual para igual em qualquer circunstância e com quem quer que seja. Marcelo exercerá a presidência ao estilo de um monarca exemplar. Atento ao país, atento às pessoas, atento às circunstâncias. A ser assim, podemos finalmente contar com uma figura acima da querela e mesquinharia partidária.

Não se espere ‘vichyssoise’ no cardápio de Belém. Seria uma surpresa. Uma sopa servida fria.


Diário Económico | 09.03.2016

Conversas em Família na Era do Vazio

Entre outras coisas maravilhosas que a geringonça já nos trouxe chega-nos agora o ‘remake’ das Conversas em Família.

Costa, certamente deslumbrado consigo mesmo e com o Orçamento que nos vai alçar a cumes de crescimento jamais alcançados, faz-nos entrar no tempo das Conversas em Família 2.0.

E talvez haja aqui um paralelismo com o antigo regime, onde a televisão era explicitamente usada para exercícios de propaganda no estertor do Estado Novo.

Para além da patética redução da política a um paupérrimo exercício de comunicação, importaria muito pensar o tipo e a qualidade da comunicação. Afinal a geringonça devolve-nos um Ministério da Cultura que, não andasse entretido a distribuir alcavalas a “criadores”, já se teria ocupado a pensar verdadeiramente numa política de comunicação. E, já agora, já que existe, de cultura.

Mas antes assim. Todos conhecemos a inclinação socialista para a usurpação dos media e para colocá-los ao serviço da instrução e educação deste pobre povo. Deixemos o ridículo brilhar em todo o seu esplendor.


Diário Económico
| 17.02.2016

A nossa necessidade de consolo é possível de satisfazer

Apanhado nas armadilhas do zeitgeist – pós-queda de Lehman Brothers – faz de Ryan Bingham a representação já não do yuppie todo-poderoso, implacável do cimo da sua solidão, mas da queda, do desamparo do animal ferido na vertigem deste tempo.
As coisas são o que são e já não são como outrora para poderem ser o que sempre foram. E serão.

Depois, é o confronto com os sinais desta abertura do século: o hedonismo nihilista que todos os laços reduz a pó, a queda, a quebra, a rasura de qualquer vínculo e a próximidade e o encontro como perigo indisfarçável do possível desmoronar da fortaleza da indiferença. Pobres de nós humanos, a nossa necessidade de consolo é possível de satisfazer.


Up in the Air | Jason Reitman | EUA / 2010

moradas

8. Com certezas, não pode haver estilo: a preocupação de dizer bem é o apanágio daqueles que não conseguem adormecer numa fé. À falta de um apoio sólido, agarram-se às palavras - simulacros de realidade; enquanto os outros, fortes nas suas convicções, desprezam a aparência e se refastelam no conforto da improvisação.


Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas

moradas

7. Se Molière se tivesse debruçado sobre os seus abismos, Pascal - com os seus - teria feito figura de jornalista.


Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas

moradas

6. Gosto tanto dos espíritos de segunda categoria ( Joubert, acima de todos) que, por delicadeza, viveram à sombra do génio dos outros e, receando poder tê-lo, se privaram do seu!


Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas

Tremendas Trivialidades

Extrair o drama da trivialidade, do humdrum da vida de todos os dias, é o tema de Leigh. Talvez a desagregação psicológica de Mary, por exemplo, seja a travessia solitária de cada um de nós pelo deserto onde a contemporaneidade nos lança. Talvez. E talvez aquilo que nos parece um dom ou um dado adquirido, a tranquilidade e o amor que envolvem Tom e Gerri e Joe, não seja menos que um projecto inteiro e íntegro de vida. E isso, certamente, é o que chama todos à mesa da sua morada.


Another Year | Mike Leigh | Inglaterra / 2010

moradas

5. Das «verdades»,já não queremos suportar o peso, nem sermos delas vítimas ou cúmplices. Sonho com um mundo onde se morresse por uma vírgula.


Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas

moradas

4. Sem as dúvidas que temos acerca de nós próprios, o nosso cepticismo seria letra morta, inquietação convencional, doutrina filosófica.


Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas

where the suburbs met utopia

where the suburbs met utopia
where the suburbs met utopia

Lost in the high street, where the dogs run
roaming suburban boys
Mother's got her hairdo to be done
She says they're too old for toys
Stood by the bus stop with a felt pen
in this suburban hell
and in the distance a police car
to break the suburban spell

Let's take a ride
and run with the dogs tonightin suburbia
You can't hide
Run with the dogs tonight
in suburbia

Break the window by the town hall
Listen! A siren screams
there in the distance like a roll call
of all the suburban dreams

Let's take a ride
and run with the dogs tonight
in suburbia
You can't hide
run with the dogs tonight
in suburbia

I only wanted something else to do but hang around
I only wanted something else to do but hang around

It's on the front page of the papers
This is their hour of need
Where's a policeman when you need one
to blame the colour TV?

Let's take a ride
and run with the dogs tonight
in suburbia
You can't hide
run with the dogs tonight
in suburbia

Suburbia
where the suburbs met utopia
What kind of dream was this
so easy to destroy?
And who are we to blame
for the sins of the past?
These slums of the future?
suburbia
where the suburbs met utopia
suburbia
where the suburbs met utopia



Suburbia
| Pet Shop Boys / 1986

Para o Mar

Avançar sobre o murete que separa
A estrada do passeio à beira mar

Recorda, vívido, o que em tempos conheci:
A alegria em miniatura das praias.
Tudo se amontoa sob um baixo horizonte:
Praia íngreme, mar azul, toalhas, toucas garridas,
Desmaio sussurrado e repetido de ondinhas
Sobre a areia clara e quente, e mais ao longe,
Encalhado na tarde, o casco branco de um vapor –

E ainda é assim, tudo, tudo ainda é assim!
Deitar-se, comer, dormir com as ondas em fundo
(De ouvidos nos transistores, um som remansado
Debaixo do céu), ou levar pela mão, para baixo e para cima,
Meninos acanhados, de folhos brancos
E agarrando-se ao ar imenso: ou empurrar
Velhos hirtos em cadeiras de rodas, para gozarem
Um último Verão- tudo isto ainda acontece,
Em parte um prazer de cada ano, em parte um ritual,

Como quando, feliz por estar só, eu procurava
Na areia cromos de Jogadores de Cricket,
Ou, muito antes, os meus pais se conheceram
Ao som do mesmo cacarejar de praia.
Alheio agora a tudo isso, observo a cena sem nuvens:
A mesma água límpida sobre seixos polidos,
Ao longe a voz dos banhistas em protestos agudos,
Já no limiar e depois os charutos baratos,
Os papéis de chocolates, as folhas de chá e, entre

As rochas, as latas a enferrujar, até que umas poucas
Famílias começam o caminho de volta aos carros.
O vapor branco já partiu. Como vidro embaciado,
A luz do sol esbranquiçou. Se a pior coisa
De um tempo imaculado é não estarmos à altura,
Pode ser que com o hábito esta gente refine,
Vindo a banhos tão sem jeito despida
Ano após ano, ensinando os seus filhos com uma espécie
De momice; e ajudando os velhos, também, como deve ser.



Para o Mar
| in Janelas Altas | Philip Larkin / Trad. de Rui Carvalho Homem / Ed. Cotovia

moradas

Existe na estupidez uma seriedade que, melhor orientada, poderia multiplicar o número de obras-primas.


3. Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas

dysfunction follows form

Arranha Céus | J.G. BAllard | 1975 / Trad. Marta Mendonça, Rute Mota

O tempo do idealismo, o optimismo tornado barbárie.
A humanidade degradada e incapaz de escapar à natureza.
A liberdade é tão mais preciosa quanto Eros e tanathos não se eximem a exterminá-la.


Michael Wolf

Musa Consolatrix

Juventude | Paolo Sorrentino | Itália / 2015



Que a mão do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida,
Musa consoladora,
É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.

Não há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
De íntima paz, de vida e de conforto.

Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
À enchente das angústias;
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.

Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A última ilusão cair, bem como
Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, — e terá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz, o último bem, último e puro!


Musa Consolatrix | Machado de Assis

buy land, buy land, they doesn't do more

O dinheiro é o deus.
Os mercados a sua religião.
Os milhões de desempregados as vítimas sacrificiais sobre o seu altar.


The Big Short | Adam McKay | EUA / 2016

Das festas, as vésperas


O tempo em que as puídas sombras do passado se transformam na rocha luminosa da verdade.


45 Years | Andrew Haigh | Inglaterra / 2015

moradas

Tantas páginas, tantos livros que foram as nossas fontes de emoção, e que relemos para estudar neles a qualidade dos advérbios ou a propriedade dos adjectivos!

2. Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas

moradas


1. Formados na escola dos caprichosos, idólatras do fragmento e do estigma, fazemos parte de um tempo clínico em que apenas contam os casos. Debruçamo-nos sobre aquilo que um escritor calou, sobre aquilo que poderia ter dito, sobre as suas profundezas mudas. Se ele deixar uma obra, se ele se explica, pode contar com o nosso esquecimento. Magia do artista irrealizado..., de um vencido que deixa fugir as suas decepções, que não sabe fazê-las frutificar.

Silogismos da Amargura, Atrofia do Verbo | E. M. Cioran | Trad. Manuel de Freitas

Sair do armário: diga qualquer coisa de Direita

De todos os méritos de Paulo Portas na liderança do CDS, e foram alguns, um dos mais relevantes terá sido a capacidade de atracção de «jovens quadros», na gramática portista, ao partido. São alguns nomes que, por sortilégio do calendário político, em pouco tempo ganharam lastro político, governativo e, não menos importante, mediático.

Destacam-se, naturalmente, Adolfo Mesquita Nunes, pelo excelente trabalho no Turismo, e Assunção Cristas, na difícil pasta da Agricultura. Cristas que, apesar de tudo ainda deixa grande parte da direita na expectativa, tem, para já, a enormíssima vantagem de poder articular com algum recato as diversas tendências que convivem no CDS.

Liberais e neo-liberais, conservadores e democratas-cristãos, têm agora oportunidade para construir tranquilamente uma casa comum para lá das limitações históricas.

A grande responsabilidade aos ombros de Cristas é apontar o futuro a uma direita afirmativa, que recusa os complexos do pós-25 de Abril, cosmopolita, por ser verdadeiramente conservadora e, citando Adolfo Mesquita Nunes, «sensata», avessa a qualquer tipo de engenharia social a despeito da crua realidade das coisas. É isto que urgentemente necessitamos.

Diário Económico | 19.01.2016