Bye, bye Lisboa!

Em 1990 Barcelona com 1,5 milhões de habitantes atraiu 1,7 milhões de Turistas. Em 2014 Barcelona recebeu 7,5 milhões de Turistas. Rendimento anual através do Turismo atingiu os 12 mil milhões de euros.

Nas Ramblas, em cada 10 transeuntes, 9 são turistas. 1991: 23,7191991 dormidas; 2003: 37,224 dormidas; 2013: 69,128 dormidas.

Assistiu-se assim, à tranformação de toda a cidade num Parque Temático Turístico e à redução de todas as actividades a uma única, omnipresente e obsessiva Monocultura. O Turismo.

Todo e qualquer sentido do Viver e Habitar quotidiano foi dominado e reduzido à erosão permanente do visitar, do residir temporário, do permanente happening nocturno e da festa contínua.

Ao permitir este consumir de forma erosiva, predadora e esgotante, de todas as características que, precisamente, constituíram o atractivo e o motivo da vinda e, originalmente, o apelo de vísita, Barcelona cada vez mais, e paradoxalmente, foi transformada num local onde Turistas apenas encontram outros Turistas. Uma plataforma globalizada, esvaziada dos seus conteúdos, dos seus moradores e autenticidade original.

Tudo isto levou a uma crescente revolta local, com movimentos cívicos e crescentes manifestações de rua, culminando este processo com a eleição de Ada Colau para presidir o Município.

A primeira medida de Colau foi instalar uma moratória durante 1 ano, de todo o licenciamento para novos projectos turísticos, incluindo hóteis, hostels, reconversões para alojamentos temporários, etc.

Levou também à produção do já famoso Documentário “Bye Bye Barcelona”, no qual, todas estas situações e desafios são ilustrados.

Entretanto, Colau entrou em confronto directo com a airbnb e a Booking.com, exigindo destas organizações especialistas em estadias temporárias, a relação completa das moradas e registos de ofertas dos seus sites.

A todos os endereços ilegais serão impostas multas de 15.000 a 90.000 euros, oferecendo Colau como alternativa ao pagamento das multas pelos proprietários destes alojamentos, a disponibilização pelos mesmos, destas moradas durante três anos, como habitaçào social, para os residentes locais.

A recusa das organizações referidas de disponibilizar as informações exigidas, poderá levar à proibição de acesso a estes sites especializados em oferta de alojamentos temporários, em todo o território da Catalunha.

Alfama recebeu recentemente, a visita do Secretário de Estado do Turismo e do Ministro da Economia, que triunfalmente e com um distanciamento “blasé” em relação a um possível papel regulador, equilibrador, planeador, recusaram qualquer reflexão ou dúvida quanto ao crescimento avassalador da oferta e transformação de todas as residências, em alojamentos temporários, sem qualquer tipo de regulamento ou limites, dedicados ao Turismo.

Nesta irrealista e irresponsável atitude caracterizada por um “laissez faire, laisser aller” in extremis, até criticaram uma tímida e tardia preocupação, formulada por um dos grandes responsáveis por esta ausência de gestão e planeamento, Manuel Salgado.

Com efeito, Manuel Salgado ao anunciar em 2008 “A Baixa nunca será um bairro residencial” e ao propor exclusivamente um investimento na hotelaria, residências universitárias e alojamentos de curta e média permanência, entregando a dinâmica do investimento únicamente às exigências dos “mercados”, abdicou da sua responsabilidade planeadora e reguladora, abrindo a caixa de pandora.

No início do processo, antes da crise e respectiva transformação, motivada pela mesma crise, da cidade num gigantesco negócio de estadias temporárias, e acima de tudo, do exôdo maciço de toda a juventude Portuguesa, estes, naturalmente os potenciais habitantes de uma Baixa ainda vazia , ainda teria sido possível planear / estabelecer um equilíbrio.

Assim também, a possível inserção da totalidade da Baixa num regulamento de rigor Patrimonial determinado pela Unesco não convinha à liberdade de manobra de intervenção e licenciamento de Manuel Salgado, pois iria impedir a sua política de “fachadismo” e de destruição sistemática dos Interiores Pombalinos pelos “investidores”.

Agora, dramaticamente é tarde, e provavelmente de forma irreversível Manuel Salgado e os dois ilustres visitantes de Alfama vão acabar perversamente por “ter razão” na sua irresponsável atitude e ausência de visão.

Entretanto, brevemente, em frente a Alfama vai surgir o novo terminal de Cruzeiros, aumentando o “potencial” e alargando, através das respectivas intervenções e arranjos da envolvente incluindo possivelmente a desejada desactivação da estação de Santa Apolónia, a plataforma da Monocultura.

Bye Bye Lisboa!


António Sérgio Rosa de Carvalho | Público / 13.09.2015

uma seta no coração do dia

A arte há de sobreviver às suas ruínas | Anselm Kiefer / Deriva Editores / 2015


A arte tem de ser dano.


O espinho na carne, o cisco no olho que cega apenas nos permite aceder ao invisível.

tremendas trivialidades

Uma Mulher Sem Importância | Oscar Wilde / Truta


Evidentemente estamos no meio do furacão revisionista dos «estudos de género». Só assim se compreende a visitação a Uma Mulher Sem Importância a partir da hermenêutica de «igualdade de género» - esta psicose vai trazer-nos muito mais sofrimento.
Vejamos, naturalmente (ou realisticamente) o texto de Oscar Wilde impõe-nos a necessidade de olharmos para os códigos sociais e morais que regem, a cada época, cada sexo. Os desgraçadamente chamados «papéis de género», numa atribuição meramente cultural a essências – outra vez, essências – diversas e, perdão pelo reaccionarismo, naturais, são redutores e degradantes da condição de cada mulher e de cada homem. Seria demasiado fácil entendermo-nos, enquanto mulheres e homens, como «produto» de meras «construções sociais» - perdão pelo jargão ISCTE. Demasiado fácil e estúpido: tentar compreender o ser-se mulher e o ser-se homem a partir da perspectiva de «género» é reduzi-los a um exercício de gramática, um jogo de linguagem. Pior, admitir a linguagem como território de absoluto domínio e controlo de uma elite (académica, política, económica) a seu bel-prazer; a linguagem como ninho da serpente totalitária que passa por controlar o pensamento, primeiro, para controlar a alma, depois.
Mas a perversidade desta operação é tão maior quanto rasura o ser-se mulher e o ser-se homem do interior do mistério – outra vez, mistério – do que é ser-se mulher ou ser-se homem. Em cada lugar. Em cada tempo. A cada geração. E assim sucessivamente.
Entendamo-nos: o labor de todas as mulheres (e homens) de todos os tempos pela aquisição de dignidade igual para mulheres e homens, além de trespassado por sangue e indizível violência, decorre da pulsão natural de cada ser humano em construir uma vida feliz. Uma felicidade só possível numa sociedade onde a liberdade e a justiça são os bens mais preciosos e, talvez por isso, os mais frágeis. Consequentemente, os valores que terão necessariamente ser mais resolutamente defendidos pela arquitectura jurídica dessa sociedade. Não é utopia - até porque as utopias têm a infeliz e histórica inclinação a resultarem em extermínio de incontáveis vidas humanas -: é realismo, vida vivida e concreta.
Por isto tudo, pela psicose do «género» que infecta a intelligentsia, acaba por tornar-se um exotismo compreender a acção e a decisão de cada personagem (mulher ou homem) a partir de motivações interiores, livres e conscientes, que não reduzam cada personagem (mulher ou homem) a frívolas marionetas ao sabor dos costumes e da sociologia do momento. E é isto que subtilmente a Truta nos devolve a partir do texto: ainda que sejamos também influência do contexto somos, antes de mais, senhores do texto. Cada mulher, cada homem, destinados a nem sequer conseguirem encontrar os nomes do mistério de ser.

O sentido


A crer que os rituais da democracia ainda não foram totalmente esvaziados do sentido que possam adquirir no concreto das nossas vidas, sobra para o debate desta quarta-feira uma útil ocasião para se compreender com alguma serenidade aquilo que nos trazem Passos e Costa.

Mas o exercício é difícil. Se a Passos se pede que acorde da hibernação e nos mostre como pode protagonizar um horizonte de esperança para os próximos quatro anos quando o próprio, nos últimos quatro, não pôde ou não o soube fazer, a Costa impõe-se necessariamente um discurso que introduza alguma ordem na balbúrdia instalada no combóio socialista.

Para os 20 a 25% de indecisos revelados pelas sondagens conhecidas pode estar aqui a última oportunidade para, fora do circo das “acções de campanha”, encaixarem as propostas de Passos e Costa numa lógica que lhes responda às suas preocupações e inquietações.

Eventualmente mais pragmáticos que os convertidos à ideologia, aguardam que alguma racionalidade lhes seja, por fim, oferecida. Nem que seja a do mal menor.


Diário Económico | 09.09.2015

passagem

Tudo é santo, tudo é santo, tudo é santo. Não há nada natural na natureza, meu menino. Lembre-se. Quando a natureza te parecer natural, tudo estará acabado. E começará algo de novo. Adeus céu! Adeus mar! Sim, tudo é divino. Mas a divindade é também uma maldição: Deuses amam e odeiam ao mesmo tempo.



Medea | Pier Paolo Pasolini / 1969

É Medeia a estreita passagem (singular e colectiva) que obrigatoriamente teremos que fazer do irracional para o racional. Do mundo informe e caótico organizado pelos nossos demónios à capacidade de tentarmos compreender pelo logos, pela Verdade.

De uma arquitectura «orgânica» incrustada à «realidade natural»
para uma arquitectura calculada para lugar do Homem.

Siza do mundo

Que marcas ficaram da educação dada pelos seus pais?

Tudo de bom que tenho e posso ter. O meu pai era engenheiro e professor na Escola Industrial à noite, uma pessoa que trabalhava muito, inteligente e culto. A família era a preocupação máxima naqueles tempos que não eram fáceis: éramos cinco, o meu pai tinha bom emprego, mas os salários eram baixos e não havia grandes apoios. A minha mãe dedicou-se aos filhos e tivemos uma infância muito feliz.

Quis ser escultor, mas a ideia de vida boémia associada à profissão não agradou à família. Agradece ao seu pai ser arquitecto?

Ele gostaria mais que fosse engenheiro, arquitecto foi tolerável [risos], mas nunca me impôs coisa alguma, era uma pessoa encantadora, não dava para discutir ou tomar atitudes radicais. Fui para Belas Artes com a ideia de mudar paulatinamente para escultura, mas depois interessei-me pela arquitectura.

O interesse teve a ver com os professores?

Teve a ver com a renovação profunda, pois o corpo docente, quando entrei, em 1949, estava a aproximar-se ou mesmo na idade da reforma. Houve renovação muito certeira, tendo vindo de Lisboa para o Porto o mestre Carlos Ramos que chegou como professor de Arquitectura e passou a director quando o anterior saiu. Era uma pessoa de grande qualidade, grande arquitecto e pedagogo, um homem de grande diplomacia, capaz de levar avante enorme renovação num tempo em que era difícil e, sobretudo, não era bem vista. Escolheu com grande certeza o novo corpo docente quando não havia concursos, optou por gente muito nova, alguns recém-formados e já num empenho grande pela conquista da modernidade que não era muito bem-vinda naqueles tempos de ditadura.

O hábito de ter muita gente à mesa em casa ajudou no diálogo que quer no atelier?

Não directamente, mas o ambiente em que fui educado influenciou. As famílias eram grandes, havia proximidade de vizinhos, ambiente confortável - embora por vezes asfixiante e fechado - e estabilidade, substituída por mobilidade.

E isso é bom?

Como tudo tem duas faces: é bom pela abertura, maior contacto e conhecimento, mas também se criou uma instabilidade que afecta ou caracteriza um pouco a própria arquitectura.

Em que sentido?

No sentido em que, por exemplo, hoje não se faz ou aluga uma casa para gerações. A dispersão da família vai até à emigração, à distância, e isso, em relação à arquitectura, cria um apetite não da qualidade de antes, mas da fácil reciclagem e mudança. Sinto na arquitectura de hoje uma menor qualidade física e de durabilidade. Não é por acaso que aparece na arquitectura moderna o ‘plan libre', ou seja, uma maneira de as casas se poderem transformar, prevendo uma grande liberdade no projectado, mas com a possibilidade de reciclagem que, até certo ponto, é ainda um desejo de estabilidade, pois reciclar/transformar tem qualquer coisa que se pretende manter. Mas hoje constrói-se com frequência a pensar em 20 anos de vida da casa, não há essa qualidade estável e intemporal dessa altura. Isso não é assim tão directo e autêntico. Reparei, quando tinha trabalho em Berlim, que os arquitectos com mais prestígio viviam em casas antigas e chegavam a subir quatro pisos todos os dias, uma vez que não tinham ascensores. Era o ambiente não só da cidade, mas da própria casa - sem ‘plan libre', as casas antigas são muito flexíveis, pois os espaços não são especializados. Na arquitectura de hoje o que se vê nas casas é um espaço próprio para a sala de jantar, outro para a sala de estar, outro para o quarto... conformado de tal maneira que é difícil modificar o funcionamento da casa. Nas antigas, as divisões eram quase todas iguais e podia mudar o uso. A família crescia ou decrescia e compunha-se o modo de utilizar a casa.

Costuma dizer que o arquitecto é um especialista em não ser especialista...

É um trocadilho que faço [risos]. A especialização existe e é necessária, mas isso não deve significar dispersão e muitas vezes significa. Na minha profissão, há muitos projectos em que o arquitecto desenha a casa; depois vem um engenheiro e estuda a estrutura para cumprir aquele desenho; vem o electrotécnico e coloca uns candeeiros; vem o do ar condicionado e coloca umas grelhas, isto é, absolutamente disperso. Ora, a especialização é necessária, mas o trabalho de equipa é indispensável sob pena de haver perda de qualidade. Desde o início uma equipa tem de dialogar, surgem sempre muitas contradições, os interesses directos e imediatos de uma das especialidades colidem com os de outra e é preciso trabalhar em equipa. Por vocação, o arquitecto está talhado para ser o coordenador e não pode ser especializado em tudo, devendo concentrar-se nessa coordenação em direcção a um todo coerente.

Na apresentação da tese de um discípulo falou na arquitectura associada à alegria que contamina os espaços. É uma ideia que liga à sua obra desde o início?

Quando disse isso queria referir-me, sobretudo, a este aspecto: o trabalho do arquitecto exige muita concentração e pode ser muito aborrecido, cheio de obstáculos e exigindo quase uma obsessão na concentração. Isto só pode fazer-se bem com prazer. Se predominam os aborrecimentos, esta actividade é para esquecer. Há outros aspectos aos quais ligo a ideia de prazer que compensam isto e têm de ser conquistados, mesmo que seja muito difícil. O resultado disso deve ser uma atmosfera muito agradável e que recebe, tem abertura para as pessoas viverem a sua vida. A arquitectura não pode ser impositiva no sentido de como se utiliza e é fruída. E a isso ligo a ideia de alegria no sentido de plenitude no que se refere à casa.

O Pavilhão de Portugal, um dos seus projectos, pode servir como pagamento de dívida ao Estado. Como analisa isso?

Já tive a informação de que iria ficar consignado à Universidade de Lisboa...

E parece-lhe boa ideia?

É uma possibilidade boa, assim haja disponibilidade financeira. É uma utilização muito apropriada para aquele edifício que foi feito com a condição de ser adaptável a qualquer programa. Esteve para ser instalações do Governo ou centro cultural, nada disso foi para a frente, tenho esperança que agora se concretize.

Com trabalho espalhado pelo Mundo inteiro, identifica uma cidade na qual se reveja como arquitecto e como cidadão?

Há muitas e conheço poucas, porque ao fim e ao cabo o Mundo é muito grande [risos]. Dou o exemplo de Nápoles. Muitos visitantes classificam-na como caótica, mas dizem os de lá que perigoso é passar o sinal verde [risos]. Mas há algo muito interessante: não há acidentes. Porque se criou uma cultura de convivência que tem a ver com essa exteriorização vital, acompanhada por respeito e cuidado. Quem não é de lá fica estarrecido, eu guiei lá e parei para que fosse um amigo a conduzir. Claro que tem aspectos negativos, mas é uma cidade fascinante.

Elegeria mais alguma?

Muitas, quase todas em que trabalhei. Por exemplo, Berlim: quem visita a cidade tem ali à mão a história da evolução da arquitectura moderna, está lá tudo, incluindo os arquitectos que tiveram de exilar-se e deram impulso determinante nos Estados Unidos. Posso dizer que não há cidades desinteressantes.

Na família alargada inclui Le Corbusier, Mies van der Rohe, Frank Lloyd Wright, Alvar Aalto, Gropius, Utzon, Niemeyer...

E p'raí mais mil! E alguns a nascer [risos]...

Certo, mas a pergunta é o que há de comum para se filiar nessa família grande?

Modernidade. Sobretudo no tempo em que fiz escola, a arquitectura moderna era quase considerada perigosa e havia um empenho numa suposta arquitectura nacional: há grandes arquitectos que tiveram de remeter-se ao que chamámos "português suave" ou não teriam trabalho. Fizeram obra de grande modernidade, mas, depois, tinham de conter-se como Rogério de Azevedo, cuja obra era de uma modernidade explosiva. Havia pouca informação, um corpo docente de qualidade, mas envelhecido e, em muitos casos, frustrado por causa do ambiente da profissão. Quando entrei a referência quase única de modernidade era Le Corbusier.

Maiores perigos para a arquitectura?

Vi há pouco tempo um documentário onde se dizia que a arquitectura passara a ser mercadoria e não objecto de desejo ou necessidade, atribuindo-se a isso certa decadência da própria. No caso português está afectada por coisas que vêm da Comunidade Europeia. Exemplo: em nome do mercado livre, deixa de haver regras para honorários dos arquitectos e, em alguns casos, estabelece-se uma concorrência feroz.

Gosta de Pessoa, Picasso, ópera, a voz de Caruso, cinema - como ‘Citizen Kane' e neo-realismo italiano -, jazz de Miles Davis e Billie Holiday. E mais?

Tudo o que referiu tem muito de afim. A arquitectura tem muito a ver com música, cinema, ballet, pintura, escultura, literatura. Faz-me impressão haver quem considere que um arquitecto não pode fazer escultura por estar a meter a foice em seara alheia quando são actividades com muito em comum.

Há alguma obra que gostasse de realizar?

Não penso nisso. Quando me entregam trabalho a primeira coisa que penso é: ‘Que trabalhão que vai ser!' [risos] Nunca pensei assim, não luto por isso e penso que não vale a pena.


***


Compreende o comportamento da União Europeia face à Grécia?

É lamentável e agudizado com o problema da migração e a dificuldade de controlo face à dispersão das ilhas, também verificada em Itália. E tudo é remetido para a ideia de que ‘estes países do sul não sabem pensar'. Mas agora bateu à porta de Inglaterra através de França, de maneira que há um sobressalto. E há países em que se erguem muros depois de tanto regozijo com a queda do muro de Berlim por outras razões. A Comunidade Europeia está a construir uma prisão para si própria, pois esses muros funcionam ao contrário.

Está a falhar a União Europeia, entendida como espaço de solidariedade?

Desapareceu por completo.

Vê-a caminhar para a desunião?

A continuar assim não tenho dúvidas, mas espero que não continue assim. Esteve à beira de suceder a primeira expulsão de um país da Comunidade Europeia, coisa que não estava prevista nos seus princípios. E havendo essa também surgiriam a segunda e a terceira...

Um efeito dominó?

E nós numa calha de transporte rápido. Mas o mundo é muito mais do que a Comunidade Europeia, muita coisa está a acontecer. Se os países do sul da Europa compram menos isso prejudica a Alemanha, mas também há transformações na China que põem em questão esse grande mercado como alimento europeu. Mesmo querendo desligar e fragmentar, tudo está ligado. Acredito que vá haver modificação, porque, a páginas tantas, tal como os migrantes vão bater à porta, outras coisas irão bater à porta. Se não houver, a mudança mais radical seria mesmo o fim da Comunidade Europeia.

Como analisa o papel da Alemanha?

Ultimamente veio a notícia de que a Alemanha ganhou 100 mil milhões de euros com a crise grega. Isto diz tudo. A não transformação das decisões actuais tem muito a ver com isto. Cria-se de novo um nacionalismo e um egoísmo que são o oposto do que era a ideia utópica e romântica de Comunidade Europeia.

Nunca o convenceu o projecto?

No início convenceu. A ideia que estava por trás da fundação convenceu-me e houve um arranque ainda mais convincente. Uma das razões por que Portugal mudou profundamente, e vejo isso muitas vezes esquecido, foi pelo apoio, umas vezes bem usado, outras mal, vindo da Comunidade Europeia. Falando de coisas comezinhas, lembro-me bem do que era chegar a Lamego, Vila do Conde ou Viana do Castelo quando tinha trabalho lá! Tudo mudou, nas cidades do interior há universidades, bibliotecas, equipamentos vários, no essencial a mudança foi muito positiva.

O Pritzker, outros prémios ganhos e doutoramentos honoris causa o que lhe dizem?

Têm um significado para o ego e em termos de acesso a trabalho, embora às vezes funcionem ao contrário. Nunca perdi a consciência de que é algo que pode ou não acontecer, pois a atribuição de prémios depende de júris, circunstâncias, eventos, etc. Não sou o maior, porque há muito bons arquitectos no Mundo, uns mais conhecidos, outros menos.

Um dos seus filhos [ndr: Álvaro Leite Siza, irmão de Joana Marinho Leite Siza] é arquitecto e premiado: motivo de orgulho ou o cumprimento livre da vida dele?

Não fiz pressão para que fosse arquitecto; pelo contrário, várias vezes lhe disse: ‘Não te metas nisso.' Mas é a sua paixão e respeito a escolha.

Como é a vizinhança entre ateliers com Eduardo Souto de Moura no sentido do diálogo e da partilha de ideias?

Temos esses momentos, mas não tão frequentes como se possa julgar, porque ele tem vida muito ocupada, muitas viagens, eu tenho algumas e, às vezes, passamos uma semana sem nos encontrarmos.

Mas é útil?

Com certeza e, por exemplo, para Nápoles o convite foi feito aos dois.

O tempo é grande arquitecto ou escultor?

Entre ambos há grandes afinidades.

Revê-se mais no primeiro ou no segundo?

Atribuo mais à arquitectura. Até no Chiado foi notório, concluída a recuperação, eu não deixava de passear pelas ruas e sentir uma certa frustração porque estava tudo muito fresco, limpinho e faltava uma certa ‘patine' no sentido geral... Uma cidade não se faz em três anos, é preciso ocupar, transformar, haver intervenções várias que um arquitecto não pode simular. A respeito da Malagueira em Évora: criticava-se muito por as casas serem todas brancas e semelhantes. Eu sabia que iriam ter intervenções, jardins e tal... E isso aconteceu, algumas não me agradam, mas aquele sector tem vida própria, mesmo sem os equipamentos projectados.

Como é que um antigo praticante de hóquei em patins vê o desporto português?

É muito diferente, joguei só nos juniores do Infante de Sagres e pagava o bilhete nas deslocações. Agora é um negócio de milhões e isso traz atrelado um aumento de qualidade impensável. A tal transformação na sociedade portuguesa também passa pelo desporto: quando apareceu a primeira medalha de ouro olímpica foi uma enorme excitação.

Só com Lopes, Rosa, Fernanda e Nelson...

Sim, mas houve outras participações boas em muitas modalidades. No fundo, é como os prémios, passa por várias questões. Claro que é extraordinário: lembro-me de assistir na Holanda, em Roterdão, à vitória de Carlos Lopes na maratona e a excitação era enorme! Outro caso é o de Rosa Mota - ganhou no Japão e têm lá um monumento em sua homenagem. E faz sentido: aquela miúda franzina a impor-se de um modo tão espectacular...


***


O projecto democrático em Portugal evoluiu bem ou mal?

A história é muito complicada e, nos últimos tempos, há uma regressão dramática...

Vê na sociedade portuguesa aspectos que lhe lembrem tempos da ditadura?

Não digo tanto, nem por sombras, mas, em capítulos como saúde ou educação, onde a melhoria foi fantástica, estamos a assistir a inversão.

A culpa é nossa, como eleitores incapazes de distinguir os melhores projectos?

Cada um percebe de acordo com os seus interesses, não vou dizer que os eleitores são ignorantes. O que tem acontecido é um medo de mudança, talvez provocado pelo que aconteceu na Grécia. Ficou bastante claro com o caso grego que, surgindo um governo a querer real transformação da situação actual da - como é que se chama? - austeridade, é posto na prateleira, vai fora... De modo que não me espanta se no espírito de muitos eleitores estiver o receio do pior, este conformismo de ‘está mau, mas com um salto no escuro pode ficar pior'. Isso deve ter influência, porque senão haveria uma transformação radical neste País. Não me parece que as pessoas não saibam interpretar ou não tenham consciência do que se passa quando cai na própria pele.

Como olha figuras políticas diferentes como são Passos Coelho e António Costa?

Olho com esperança de que haja uma mudança. Não faço prognósticos, mas a mudança nas próximas eleições é fundamental. De António Costa, a quem conheço de trabalho na Câmara de Lisboa, tenho a melhor das impressões, penso ser alguém com grande capacidade de decisão.

Espera que o PCP seja Governo algum dia?

Pode até ser uma vantagem que não, permanecendo como voz crítica expressiva. E, no plano autárquico, vem realizando trabalho notável.

Tem falado sobre a ideia simultânea da experiência e da necessidade de libertação dessa experiência...

Não é bem libertar, é conviver no sentido da inovação e o apetite que aparece mais facilmente na juventude. O envelhecimento obriga a uma disciplina de preservação de uma certa espontaneidade e paixão pelo que se faz. Aqui a experiência não deve funcionar no sentido de predominar a ideia pré-estabelecida, mas sim a pesquisa e a inovação.

Aconselha na arquitectura um olhar que não seja superficial, mas uma análise em profundidade. Aconselha-o também à sociedade portuguesa?

Não aconselho - é uma necessidade que toda a gente sente, até porque sofre as consequências de determinadas decisões. Esse sentido crítico que estava subterrâneo e não se expressava, impedindo o diálogo e o enriquecimento das análises face ao que se passa, é fundamental.

Fica preocupado com a predominância do factor económico sobre os restantes?

É um bocado aborrecido abrir o jornal e só ver números. Começo a afastá-los para ver se encontro as pessoas, mas é difícil. Não entendo essa ideia de o País estar bem e as pessoas mal. Ou por outra, entendo...

Como é que entende?

Como um álibi: apresentar algo positivo, mesmo que não esteja enraizado na realidade.

A sociedade portuguesa decepciona-o?

Não só a portuguesa, em grau diferente conforme o que se passa por país e dentro da Comunidade Europeia em cada país consoante a análise e as considerações do que se passa. No fundo, isto tem geografia muito interessante ou desinteressante em função do ponto de vista.

Há ideologia na arquitectura em geral?

Está cheia dela... O arquitecto, com raríssimas excepções, trabalha contratado para outros e o seu desempenho é como uma caminhada entre condicionamentos. Depois do 25 de Abril, quando houve os programas SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local), foi um momento muito importante para a arquitectura no plano transformador, embora vilipendiado por alguns. Entre os muitos debates que fazíamos, entre nós e com as populações, para alguns havia uma grande esperança de uma arquitectura de vanguarda e sempre pensei que não iria acontecer - quando aconteceu durou pouco como na vanguarda soviética com um período curto de grande renovação. No caso do SAAL, até pela urgência que havia na acção, com grande precariedade naquele programa, muito dependente da evolução política, o momento foi transformador. Depois foi classificado como um fiasco com o suporte de se ter construído pouco, mas esqueceram-se de dizer que o programa só durou dois anos. Em minha opinião fez-se muito e teve grande notoriedade fora de Portugal. Os primeiros trabalhos que tive lá fora, na Alemanha e na Holanda, foram motivados pelo conhecimento acerca desse programa.

Ter deixado a sua intervenção na sociedade sem receios de se assumir politicamente criou-lhe constrangimentos?

De um modo geral criou aos intervenientes no programa SAAL, penalizados e marginalizados.

Por que razão a admiração ao seu trabalho surgiu primeiro no estrangeiro?

Nunca é assim, preto e branco. Tinha clientes privados que apreciavam o meu trabalho e ficaram amigos, algo que, no processo de um projecto, é uma grande ‘performance' [risos]. Havia outros que não gostavam, mas continua a ser assim. Em relação ao reconhecimento fora com base nesse tipo de trabalho explica-se porque, na Europa, havia uma onda semelhante - o tema da participação era fundamental em Itália e França. A tensão grande tinha a ver com o que se passava nesses países e a situação política na Europa era conturbada. Havia uma grande atenção ao que se passava em Portugal - basta lembrar que os Estados Unidos chegaram a ter uma esquadra no Tejo - e a este programa que tinha a ver com muito trabalho em curso nos países que referi. Fui chamado à Alemanha e à Holanda no âmbito de um trabalho em que a participação era não só desejada, mas necessária. Na Holanda havia o tema dos imigrantes e dos conflitos, existindo um desejo de integração com base num programa de assistência social; na Alemanha o tema latente era já a unificação do país. Construí muito perto do muro, discutia-se e desenhava-se com a crença dos berlinenses envolvidos no projecto na perspectiva de que seria unificado. Pensei que os fulanos estavam loucos, mas, afinal, não...

Sente a recuperação do Chiado como alteração de ideias feitas em relação a si?

Quando me foi entregue o trabalho havia já uma polémica, porque muitos consideravam que era a oportunidade de introduzir a arquitectura moderna no Chiado. Muitos apreciaram o meu plano, outros criticaram-no como conformista e conservador.

Quem for lá hoje vê no que se transformou...

Agrada-lhe?

Muito, muito... Não me agrada tanto que não fosse prolongado por toda a Baixa e todo o centro de Lisboa, embora tenha sentido, com esta administração, a vontade de não esquecer o que foi aquele trabalho e as consequências que teve. E digo isto porque uma parte do plano feito na altura e nunca realizado foi retomada pela Câmara actual há dois anos e está quase concluída.

Mas rejeitou a hipótese de ter intervenção mais ampla...

Cheguei a ser convidado pelo presidente Sampaio para estender o trabalho do gabinete à Baixa. Expliquei ao presidente que eram coisas com ritmos diferentes. O Chiado, núcleo compacto com determinadas características, era algo de grande urgência, em relação ao qual se exigia uma intervenção muito rápida e estruturada, enquanto que, na Baixa, é um processo a um ritmo diverso, longo e disse-lhe que esse problema deveria ser canalizado, tal como o do Bairro Alto e de outros em Lisboa, para uma estrutura dentro da Câmara. Sampaio compreendeu e aceitou, mas a questão da Baixa não foi logo encarada. Neste momento há sintomas melhores, nem sempre bem realizados. Quanto à inovação, a Baixa e o Chiado são como um edifício único pela maneira até como arrancaram com o terramoto de 1755, não faria sentido realizar um implante numa zona que estava a funcionar bem, apesar de já ter sintomas de desertificação como noutras cidades.

Partilhou o seu arquivo com Gulbenkian, Serralves e Canadá: qual é a mensagem?

Um interesse do Canadá por ter nos seus arquivos material meu e que apareceu quando não havia cá. Talvez fizesse o mesmo caso já existisse cá, pois os arquivos do Canadian Centre for Architecture são os melhores. O acordo entre as entidades prevê mesmo critério e catalogação para partilha e consulta no Mundo, embora a directa seja só para profissionais e estudiosos, evitando que desapareçam desenhos. Também há material meu no Pompidou e no MoMa.


Diário Económico | 03.09.2015

O risco de se ser labrego

A nudez pressupõe a ausência de vestes, mas não coincide com ela.

A Nudez, Giorgio Agamben

A fotografia da capa da Cristina é notável. Desde logo porque expõe a nu e a cru as tremendas contradições do nosso espaço público. E porque convoca múltiplas dimensões, públicas e privadas, que, paradoxalmente, se confundem no nosso paupérrimo discurso público.
De início a dimensão política. É inescapável ao momento e ao contexto de campanha eleitoral em que Joana Amaral Dias se apresenta como candidata. E que a própria assume na condição de «mulher e candidata». Ainda que de consequências irrelevantes no decurso da coisa política – pela irrelevância política da Joana Amaral Dias – a fotografia parte de um discurso, equivocado e muitas vezes perigoso, da exposição da intimidade como argumento político. A «transparência», as mais das vezes encenada, como dogma que se nos impõe na «sociedade aberta» - e consequente redução do pessoal a uma personalidade lisa, desprovida de espessura. Depois da encenação pública, surge a encenação do privado, território, por definição, excluído à mise-en-scène. O dogma da transparência como mecanismo de legitimação de uma verdade fabricada e carente de autenticidade.
Pretende também esta imagem suplantar a gravitas que se impõe ao discurso político, numa lógica que remete para o «conservadorismo» cavernícola qualquer pressuposto de que a política, por ser o território onde se decide o bem-comum, terá que necessariamente ser percorrido com contenção e prudência. Em Joana Amaral Dias nua representar-se-ia a ruptura com essa visão arcaica dos engravatados – um pouco à laia da não-gravata de Tsipras e do casaco de cabedal de Varoufakis . Visão suplantada por um mundo de «mentes abertas» sempre disponíveis para serem «elas próprias» e recusarem qualquer encenação delas mesmo que as restringisse no apelo de uma inefável liberdade radical e emancipada. Gente que arrisca – o «risco» da capa em trocadilho com a anunciada «gravidez de risco» em mais uma dissonância entre o privado e o público -, que «ousa». Em última instância o que esta imagem não entende é que «sermos nós próprios» não passa de uma auto-encenação, as mais das vezes auto-engano, onde vamos digladiando e afogando as nossas contradições e demónios – donde todo o discurso político de uma putativa autenticidade do político encerra um equívoco irresolúvel.

Mais susceptível de inquietação é o discurso cultural desta imagem, tanto nas espessuras estética e ética.  Há, por um lado, um discurso da assumpção do risco – o que quer que isso seja – apresentando a nudez como transgressão (ainda e sempre esta visão primitiva?), ademais a nudez de uma mulher, política, grávida. O risco, a ousadia, a transgressão de um corpo despido que se expõe em toda a sua força, fragilidade e autenticidade. Na novilíngua da sociedade hiperssexualizada – porque o sexo é um dos mais potentes motores do consumo - «transgressão» é não mais que cumprir o previsível guião da permanente ruptura que não rompe com absolutamente nada. Pelo contrário, uma «transgressão» que se mede apenas na amplitude narcísica, unidimensional e pobre, de resto.
Num tempo em que o sexo deixou há muito de ser «tabu» - mais uma expressão da novilíngua que pretende deslocar o sexo e a sexualidade de uma esfera relacional para impô-los como altar da «emancipação» e da «liberdade» (não é evidente a irracionalidade?) - a juntar à anunciada dimensão política desta fotografia somos levados a questionar os fundamentos deste feminismo que, ele próprio, objectifica o corpo da mulher. A objectificação e mercantilização do corpo, aqui soterradas num discurso «artístico» que mais não pretende que auto-justificar-se e excluir-se dessa mesma objectificação.

Há ainda o aspecto simbólico do homem, oculto, que envolve Joana nos seus braços. Um homem de bícepes esculpidos, a elevar ainda mais a perfeição desta imagem. Um homem, ao que foi dito, pai da criança que Joana traz no ventre. Um homem que esconde o rosto e que, para efeitos de feminismo, será sempre um vulto de um qualquer homem ameaçador. A tensão, que o revela menos interessado na completude e integridade da mulher na gloriosa gravidez mas mais refém de uma sensualidade de subúrbio que o leva ao irracional de prender e forçar a mulher.

As ondas de choque, calculadas pelo «risco» e pela «ousadia», têm como óbvia consequência a divisão do mundo entre os «progressistas» que aderem impensadamente à imagem e os «conservadores» que mostram alguma prudência e crítica a partir de um qualquer pensamento que se possa extrair desta imagem. Num tempo em que qualquer objecto seja posto a circular como «novidade» qualquer reflexão que se possa fazer à volta dos seus valores intrínsecos é  censurada pelo próprio rótulo da «novidade». Ao gosto do neo-marxismo hegemónico nas elites culturais, divide-se o mundo para uma qualquer dialéctica que resulta numa síntese previsível de inversão dos termos com efeitos políticos evidentes: o «libertário» é o que mostra tudo numa sociedade onde já tudo foi mostrado e não cessa de ser mostrado, onde a noção de obscenidade (fora de cena) se apagou no tsunami com que o privado derruba o público; o «velho do Restelo» é o que exige algum afastamento (ruptura?) com a devassa narcísica auto-imposta pela lógica das redes sociais.

Por tudo e também pelas inusitadas toneladas de photoshop esta é uma péssima imagem. Mas que é já a imagem da indigência cultural e política deste tempo que Portugal passa.

O Grito


Controla a linguagem e és dono do pensamento

Two programmes taught at Washington State University have set out clear restrictions upon the language students can use, banning terms such as “The Man”, “Coloured People” and “Illegals/ Illegal Aliens”. The terms have been forbidden by certain professors on the basis that they are “oppressive and hateful”, according to one of the syllabuses reported by Campus Reform.

The Independent | 31.08.2015

A intolerância cresce nas universidades sob o lema e o programa político “controla a linguagem e és dono do pensamento”. Como é que os novos marxismos totalitários estão a usar o controlo dos departamentos de ciências sociais e humanas das universidades para impor uma nova linguagem ao serviço de um projeto político e ideológico que visa arrasar com o cânone cultural ocidental? A principal estratégia é o reforço da censura sobre a linguagem. O controlo da linguagem é a primeira fonte de doutrinação. Uma vez amestrados, os jovens estudantes ficam preparados para aceitar a censura como natural porque imposta sob o pretexto da promoção da igualdade. Quando a domesticação cultural e linguística estiver concluída, os próprios jovens se encarregarão de, através da autocensura, fazerem uso acrítico da nova linguagem sem se aperceberem que são sujeitos passivos de um experimentalismo político que visa o controlo total da sociedade através da destruição da “velha” cultura, tida como opressora das minorias, e a sua substituição pela mais radical das igualdades: a ausência de masculino e feminino como resultado da diferenciação biológica. Tome-se nota: “Tutors have been requested to consider asking students which pronouns they wish to be addressed by, warning against assuming gender-binary pronouns “he” and “she”. (Fonte: The Independent).

O objetivo último é impedir os estudantes do uso do pensamento crítico. Ao contrário do que pensam os neomarxistas, a linguagem é uma criação espontânea que resulta numa ordem constantemente reinventada pelas pessoas comuns que constituem o universo dos falantes. Não é a elite que cria a linguagem. Tão pouco a elite académica. A norma linguística impõe-se pela tradição e não pela pela autoridade de uma elite, ainda que essa elite se apresente como iluminada, portadora do futuro ou representante de grupos oprimidos que precisam de ser resgatados. O controlo dos departamentos de educação e ciências sociais pelos neomarxistas, através das suas inúmeras máscaras, permite-lhes inverter a realidade, impondo aos jovens estudantes critérios de avaliação que incluem a penalização dos que resistem a alinhar no processo de destruição/reconstrução linguística imposto pelos iluminados. Tome-se nota: “A further course entitled “Introduction to Comparative Ethics Studies” taught by Professor Rebecca Fowler also states that the use of “inappropriate terminology” will impact on students’ grades, “with the deduction of one point per incident”. (Fonte: The Independent).

A norma linguística deixa de ser o resultado de um lento processo de criação feito pelas pessoas comuns ao longo de muitas gerações e passa a ser o resultado do experimentalismo político tutelado pela elite académica que, para isso e quando necessário, usa a autoridade para reprimir os resistentes ao processo de destruição/reconstrução linguística tutelado por extremistas iluminados.


Via O Insurgente

Contas feitas

As ficções de que se alimentam os partidos, que pouco mais fazem que salvar aparências e ‘épater le bourgeois’, e a percepção generalizada de que São Bento já só cumpre ordens de Bruxelas, atiram o eleitorado mais fundo no barranco da desconfiança.

A coligação, pendurada na moral There Is No Alternative, exibe uns desajeitados números que confunde com o esforçado desempenho da economia. Apesar de quatro anos de governo e da asfixia fiscal imposta.
O PS de Costa, mais atordoado que o de Seguro, insiste na austeridade de rosto humano a toque de investimento (fantasia socialista para o esbulho tributário) e recupera elevadas visões que nos deixam tementes e trementes.

Quase todos vítimas da austeridade, somo-lo sobretudo das ficções partidárias servidas em ‘prime-time’. Geradas nos estritos campos político e mediático (que reciprocamente se sustentam) disfarçam com ruído a anemia partidária e a indiferença dos eleitores ao papaguear.

‘There’s no such thing as public money’, explicou Thatcher pacientemente, ‘there’s only taxpayers’ money’. Contas feitas, é o que sobra depois da rapina do Estado que vai decidir sortes à vigésima-quinta hora de 4 de Outubro.


Diário Económico / 01.09.2015

Zé do Pipo no país das maravilhas

As 1001 Noites, Vol. 1, O Inquieto | Miguel Gomes | Portugal / 2015


O mais espantoso no cinema de Miguel Gomes é o milagre. E a recusa do cinismo.
A sensibilidade com que as personagens são filmadas e, muitas delas, a simplicidade com que crescem e inadvertidamente nos colocam na desconfortável posição de alguém que volta a acreditar (em qualquer coisa de humano).
Se a personagem principal de As 1001 Noites – O Inquieto somos nós, Portugueses, enquanto comunidade, tal só se compreende a partir das personagens singulares – tantos de nós – que a suportam. Assim como a vida que nos junta em comunidade é mais que o somatório de cada um dos nossos percursos singulares, o filme de Miguel Gomes, é mais, muito mais, que as tragédias, as pequenas ou grandes misérias, as virtudes e as fragilidades de cada personagem.
A verdade da experiência cinematográfica de As 1001 Noites – O Inquieto é o incessante trabalho de tactear uma sociedade deprimida, abatida, depauperada, sem esperança, por entre um amoroso labor de aproximação a cada uma das personagens (que poderia ser cada um de nós). Labor, entretecido entre o documentário e a ficção, feito de riso e lágrimas, de esperança e angústia, enfim, da argamassa que nos cola à Vida e uns aos outros.

A sociedade da fealdade


A moda, como assunto sério, é bastante mais esclarecedora sobre a sociedade e o indivíduo dentro dela que qualquer tese ou dissertação em «ciências» sociais da Nova ou do ISCTE (dado que estas obedecem a uma natureza ideológica mais preocupada em fazer política que na procura da Verdade). A moda como hábitos e costumes com que atravessamos o quotidiano e não o mero campo da disciplina do desenho de vestuário, bem entendido.
A aceleração da sociedade de consumo e a omnipresença das mesmas imagens propagadas em todos os lugares do planeta tem efeito imediato na homogeneização da(s) cultura(s) (não só) visual e produzem uma profunda modificação (antropológica) no modo como o indivíduo se reconhece a si mesmo dentro das teias de relações sociais em que se insere. A exposição, cada vez mais acentuada, de todos nós às mesmas imagens resulta no seu consumo irreflectido e, a partir daqui, na elaboração de estratégias individuais que afirmem a individualidade dentro da terraplanagem cultural em curso.
Ora, resulta daqui a necessidade de se questionar o estatuto da imagem, da política da imagem e, para o que aqui interessa, a relação do indivíduo com essas imagens e como as interpreta no seu quotidiano, no modo de falar, de se vestir, no modo como se faz visível no meio do turbilhão onde todos nos queremos destacar - e aqui há que compreender, entre outras coisas, os fundamentos da cultura da sociedade de consumo, que insistem (como um martelo sobre as consciências) na promoção da «novidade», na celebração do «original», no recuo do espaço público de tudo (e todos) o que não obedeça a um padrão social que alimente a roda do consumo (os velhos com cada vez menos visibilidade; as crianças vistas como tábua rasa para endoutrinação de futuros consumidores, por exemplo).
São mais que conhecidos os efeitos estéticos e éticos desta voracidade. Como uma embriaguez de imagens e ruídos que a todos deixa em transe e incapazes de tecer um murmúrio crítico (racional) que seja. Enfim, uma sociedade de alienados sem capacidade de qualquer de subverter a ordem do consumo. Sendo a própria subversão absorvida pelas lógicas do mercado e tornadas, instantâneamente, produto disponível para consumo – e é esta a tremenda perversão do estádio actual do capitalismo que, tendo a capacidade para em tudo colocar um preço, chegou a hora, agora, de colocar cada um de nós, a partir do seu mais íntimo, à venda.


A tatuagem (e o piercing), por exemplo.
Até há pouco tempo significantes da fuga aos valores dominantes inscrita na pele, é agora, massificada e «democratizada» a incisão visível da ambiguidade com que, por via dos mecanismos do consumo, se debate cada indivíduo do interior da sua esfera mais íntima.
Se, por um lado, a tatuagem pretende a individuação radical do sujeito - tão radical que este se submete a sessões de tortura com agulhas para a inscrever – através dos desenhos que se supõem «únicos» e «originais», é, por outro lado, sinónimo da massificação do gosto e da padronização de comportamentos. O objecto que se pretendia único e singular, numa sociedade onde cada vez mais somos iguais uns aos outros no gosto e no desejo, desenhado para afirmar veementemente os valores individuais do sujeito, é afinal, agora, símbolo da sujeição e submissão passiva e acrítica do sujeito a esses mesmos valores que pretendia contrariar. O 'mercado', mais uma vez, açambarcou as 'margens' que dele procuravam fugir. O mercado insidiosamente chegou à alma.

***

O discurso progressista, assente na língua-de-pau das «diversidades» concorre e é, afinal, o idiota útil do rolo compressor consumista que não deixa nada, absolutamente nada, de fora do mercado.

***

Lateralmente: um outro facto pode estar na origem da proliferação das (horríveis) tatuagens. Se o substracto antropológico do cristianismo em que se fundava a nossa civilização afirmava cada mulher e cada homem como ser único, singular, feito à imagem de Deus, estava tatuado no espírito e na alma de cada mulher e de cada homem essa singularidade e originalidade irrepetíveis, sem necessidade de exteriorização da individualidade. No novo mundo, ateu e secular, sem qualquer tipo de referência à singularidade do ser humano e onde o sujeito é mera célula do quadro excel, é necessário o recurso a estratégias de visibilidade que afirmem explicitamente o sujeito.
You can run, but you can't hide. Nada nem ninguém está a salvo do nihilismo consumista.

***
 
Sobra a questão do belo e do corpo. E a recusa modernista - ocupado que estava o modernismo com a funcionalidade e a objectividade a partir da tábula-rasa da História - em pensar o belo. O pós-modernismo querendo recuperar a História pretendeu fazê-lo através da ironia. E a ironia pouco mais realizou que a irrisão. E hoje, o coração do pensamento e da produção artísticas contemporâneos é a mortal derrisão. O nihilismo (narcisista) a partir do qual hoje olhamos para o mundo - e o pretendemos conformar à nossa subjectividade - recusa qualquer absoluto. Qualquer ideia de que se suspeite pôr em causa a cadeia da relativização dos valores é atirada para o beco do anátema intelectual. Muito menos recuperar a categoria do belo para pensar o mundo. Nada pode travar a (transcendente) máquina do mercado que perversamente nos seduz à sua servidão usando a nossa própria liberdade como via. Produzir um juízo estético sobre os gatafunhos inscritos sobre a pele é, na fantasia da liberdade que o mercado nos serve, um pecado contra a emancipação do gosto e do corpo. Obviamente, a relativização do gosto e o uso do corpo como território político, são os meios pelos quais a fealdade se massifica. Estamos cada vez mais rodeados do feio.
 

notas sobre o deserto


Por absurdo: estamos a caminho de obter os mesmos gloriosos resultados dos mais sanguíneos regimes da modernidade mas por outras vias.
As elites aprenderam, nos escombros dos regimes 'racionais' do séc. XX, que é mais eficaz (política, económica, socialmente) cada um de nós oferecer-se voluntariamente à servidão do que erguer qualquer regime à força da espada e da bota cardada. Alimentar o homem-massa com a ilusão da liberdade é, por paradoxo, terrivelmente mais lucrativo e proveitoso que qualquer dispositivo jurídico ou social que até hoje foi posto a funcionar.
A grande descoberta pós-moderna é que o mercado é a mais implacável máquina de controlo. Tão implacável que, de momento, tudo está à venda. A começar pela dignidade de cada um de nós.

Via Crucis do Corpo: a Paixão de Maria

I. Jesus é condenado à morte



II. Jesus carrega a cruz às costas



III. Jesus cai pela primeira vez



IV. Jesus encontra a sua Mãe



V. Simão Cirineu ajuda a Jesus



VI Verónica limpa o rosto de Jesus



VII. Jesus cai pela segunda vez



VIII. Jesus encontra as mulheres de Jerusalém



IX. Jesus cai pela terceira vez



X. Jesus é despojado de suas vestes



XI. Jesus é pregado na cruz



XII. Jesus morre na cruz



XIII. Jesus é descido da cruz



XIV. Jesus é Sepultado


Jesus ressucita dos mortos


Estações da Cruz | Dietrich Brüggemann, Ann Brüggemann | Alemanha / 2014


Não é sem algum embaraço que assistimos a Estações da Cruz. O redutor simplismo com que nos vamos colocando as questões da fé e da experiência dessa fé no concreto da vida é fortemente abalado pela, ela sim, simplicidade cortante deste filme. Por apenas 14 planos fixos, um por cada estação da Via Crucis, acompanhamos a trágica jornada espiritual de Maria.
Proveniente de uma minoritária comunidade que se organiza em volta da Fraternidade Sacerdotal de S.Paulo (ficção a partir da excomungada Fraternidade Sacerdotal S. Pio X) Maria, 14 anos, vive enredada entre as contradições do legalismo com que a família e o padre Weber vivem e lhe transmitem a fé, as pulsões naturais de uma adolesce e a censura, quando não intolerância, de um mundo cada vez mais secularizado, sexualizado e adverso à gramática do religioso.
Na semana que antecede a Confirmação, e no seu percurso de preparação para este Sacramento, Maria dá a sua vida em sacrifício pela cura do pequeno irmão autista. É esta a motivação com que Maria se propõe a um caminho de santidade. E aqui a perplexidade surge-nos, desde logo, pelo contexto rigorista em que Maria cresce.
Em Estações da Cruz a forma é inextricável das questões que levanta. A coincidência formal das 14 estações do caminho da Cruz com os 14 longos planos fixos em que se desenvolve o filme é essencial para a compreensão deste olhar cru sobre os mistérios da fé e da experiência religiosa. A austeridade formal e a secura da câmara relegam à palavra o privilégio na construção das relações que as personagens estabelecem entre si. E é pela palavra que Maria procura, inocentemente, dizer-se e dizer Deus. Sem questionarmos a autenticidade da fé de Maria – por ser o indizível a paradoxal forja da fé de cada mulher e homem - é questionável o rigor implacável com que lhe são transmitidos os fundamentos dessa fé.
Estações da Cruz recusa a provocação fútil ou sequer propõe um juízo na apresentação das personagens que, a nossos olhos, porventura corrompem e distorcem os fundamentos da fé católica. Antes, somos interpelados pelo mistério da fé. E é aqui o enigma do filme: uma fé que pode ser destrutiva e disruptiva se vivida pelo rigor da letra da lei; ou resgate do Homem e da sua humanidade interpelado pelo Deus do amor e misericórdia.
É do ventre da experiência religiosa que nascem as civilizações, apesar da original e trágica hipótese moderna de um mundo sem Deus. Quando o Papa Ratzinger nos diz que “existem tantos caminhos para Deus quantos os seres humanos” sabemos que a experiência religiosa é absolutamente diversa em cada um de nós. Radicalmente diferente. Na certeza de que a busca de Deus é provavelmente a mais radical experiência humana. E aquela que, desde os alvores da Humanidade, dá forma às civilizações. A questão central em Estações da Cruz é o modo como a teia legalista sufoca a fé de Maria e, por extensão, a própria Maria. Por Paulo somos advertidos de que a «letra mata» - e se há alguém vive com radicalidade o Espírito d'O Ressuscitado é o Apóstolo – e é a esta luz que a Cruz, aqui, vai perdendo o seu sentido, amarrada a uma rede asfixiante que destrói aquilo que, pela fé, deverá ser radicalmente livre: o coração de cada mulher, o coração de cada homem.

***

Cristo suportava o Mal, o Demónio, as tentações e toda a sorte de contradições e fragilidades humanas. Mas Cristo não suportava os Fariseus na sua visão estrita da Lei. Foi contra o Fariseus que o Filho do Homem ergueu a espada e recusou a paz. Foi contra a detestável visão legalista da Lei, que aprisiona e encerra os homens numa infernal e hipócrita burocracia da Alma, que Jesus anunciou uma só Lei. A lei do Amor.

***

Ao contrário do que nos diz Dietrich Bruggemann, a Fé é mesmo para «levar a sério». Por isso tem necessariamente ser suportada pela Razão. Só uma Fé esclarecida pode, depois, iluminar a Razão.



Adenda: publicado no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

Insuficiente

Para além do regozijo infrene da situação e da inquietação melancólica da oposição convinha lermos os últimos dados do desempenho económico com a cautela que uma campanha eleitoral dispensa.
Ainda que a economia venha lentamente a recuperar dos anos de chumbo de 2012/2013 e os números do desemprego sejam um pouco mais animadores, não se vislumbra ainda, nem se prevê que tal venha a suceder, uma alternativa ao modelo social de precariedade imposto pela intervenção externa.
E é justamente deste modelo social que se deve partir para uma análise mais profunda aos números da emigração. Sabemos que o emprego gerado é, por um lado, mal pago, precário e sujeito a cada vez mais reduzidas garantias sociais e, por outro lado, que esta tíbia animação se verifica em sectores de pouco exigente qualificação.
Como antecipação do futuro da já mítica “geração mais bem preparada de sempre” é manifestamente insuficiente o que se lhe oferece para que aqui permaneça. Sair é ainda contingente a “um país que não se basta a só próprio”.


in Diário Económico | 20.08.2015

A sociedade da demência



Protect me from what I want | Jenny Holzer / 1988




Diz-me os teus likes, dir-te-ei quem és.
O ethos do capitalismo neo-liberal na era da alienação (consumista) fez da liberdade a primeira vítima. Desbrava agora a última fronteira entre ser-se pessoa ou coisa: tudo está à venda; todos somos (e fazemo-nos) «produto».
Voluntarimente escolhemos (livremente) a mais profunda servidão.



Psicopolítica | Byung-Chul Han / 2015

A estrada


Loin des Hommes | David Oelhoffen | França / 2014


Em última instância, o sentido adquire-se na sequência final em que Daru se separa de Mohamed depois de o invocar à raiva de estar vivo - apesar de tudo - num mundo sem sentido. Como se do caminhar, singular e único, contingente e imprevisível, de cada um de nós pela estrada árida da vida exala suficiente significado que contrarie o absurdo da existência. O absurdo inexplicável e indizível tornado crueldade pela cegueira com que, devotos, aderimos a uma qualquer causa que nos resgate de uma existência insignificante.

***

Longe dos homens quando impossibilitados de lhes oferecer uma clara e irrevogável particularidade que lhes permita classificar, arrumar, enquadrar, organizar, dominar, o impenetrável e inclassificável mistério que cada um de nós transporta.

this is how we were meant to live

Lote 4 | S. Mateus da Calheta, Terceira, Açores / 2008


Miguel met us at the airport to give us the key, as well as a gift of fruit to welcome us. We have stayed in 5-star hotels, and some beautiful AirBnbs, but this was the pièce de résistance, a 4-bedroom, 3-bathroom designer home easily twice as big as our large home. All geometric angles at times with dizzying effects, with 16 foot ceilings, there was a terrace for three of the bedrooms and a large yard that overlooked forest and sea. Warm mahogany floors, stark white walls and drapes, beautiful ceramic and stone tiling, carrera marble, a huge contemporary fireplace, and top-of-the-line fixtures and dishware--this is how we were meant to live. Cleverly designed, we had total privacy despite being a home with 10-foot high glass walls that opened up in all directions. We took the opportunity to wash our clothes and let them dry in total peace under a warm sun and a blue sky, with a lively breeze keeping us perfectly comfortable. The UNESCO designated early 15th-Century, Angra do Heroísmo, the first European City in the Atlantic and the festival in nearby Praia da Vitoria, would have to wait. Fresh pineapple and espresso for breakfast, it was PERFECTION.


Our stay at Miguels modern villa was fantastic and very comfortable. Miguel is a great host, who even provided extra furniture for us to use, and helped us with everything we needed. The house is very spacious, homely, comfortable and clean. The garden looks out over a small forest and gives the feeling you are staying in the forest canopy. Lots of bird concerts, and good place to spot bats. Definately recommended! Thanks for everything Miguel!


Airbnb | São Mateus da Calheta, Açores, Portugal 

Descamisados


Acreditar que depois de 4 de Outubro os pequenos partidos ascendam a charneira do sistema é mais fantasia do que realidade.

À esquerda, impacientes com as derivas direitistas do PS, com o monólito comunista e com a indisponibilidade bloquista em partilhar responsabilidades da governação, os descamisados do BE federados no Livre fazem fé em negociar com o PS uma maioria absoluta. E com isto tornar a governação refém da agenda vanguardista que não mais adie o paraíso socialista. Os infindáveis grupúsculos que reiteram à vez a pureza ideológica da tribo não serão contas deste rosário.

À direita, o albergue espanhol do PSD e o sucesso relativo do CDS-unipessoal atenuam qualquer vontade de dissidência. Mais pragmática, usa o perigo esquerdista como argumento suficiente para captura do voto mais conservador que não se revê no discurso social desta direita moderna. O que vai dando para manter as fileiras em sossego. Sobra um punhado de votos de descontentamento ou ressentimento que encontram abrigo em partidos ‘single-issue', de carácter unipessoal ou de lugar nenhum. Obviamente, não é daqui que vai surgir qualquer solução governativa que altere o nosso viver habitual.


in Diário Económico | 10.08.2015

choro e ranger de dentes

Será também como um homem que, ao partir para fora, chamou os servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu.
Aquele que recebeu cinco talentos negociou com eles e ganhou outros cinco. Da mesma forma, aquele que recebeu dois ganhou outros dois. Mas aquele que apenas recebeu um foi fazer um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.
Passado muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e pediu-lhes contas. Aquele que tinha recebido cinco talentos aproximou-se e entregou-lhe outros cinco, dizendo: ‘Senhor, confiaste-me cinco talentos; aqui estão outros cinco que eu ganhei.’ O senhor disse-lhe: ‘Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.’
Veio, em seguida, o que tinha recebido dois talentos: ‘Senhor, disse ele, confiaste-me dois talentos; aqui estão outros dois que eu ganhei.’ O senhor disse-lhe: ‘Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.’
Veio, finalmente, o que tinha recebido um só talento: ‘Senhor, disse ele, sempre te conheci como homem duro, que ceifas onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, com medo, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence.’ O senhor respondeu-lhe: ‘Servo mau e preguiçoso! Sabias que eu ceifo onde não semeei e recolho onde não espalhei. Pois bem, devias ter levado o meu dinheiro aos banqueiros e, no meu regresso, teria levantado o meu dinheiro com juros.’ ‘Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos. Porque ao que tem será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.’

Mateus | 25, 14-30


E tu, que rumo levas? Perguntou Holme.
Não tenho rumo, respondeu o homem. Não tenho rumo nem vínculos. Ergueu o rosto para Holme. 
(...)
Sim, disse o cego. Eu cruzo-me com elas todos os dias. Gente que anda para trás e para diante por esse mundo fora que nem cães. Como se não tivessem um lar a quem chamem seu em parte nenhuma.

Nas Trevas Exteriores | Cormac McCarthy / 1968




Gementes et flentes in hac lacrimarum valle onde há muito recusámos a redenção.