Two programmes taught at Washington State University have set out clear restrictions upon the language students can use, banning terms such as “The Man”, “Coloured People” and “Illegals/ Illegal Aliens”. The terms have been forbidden by certain professors on the basis that they are “oppressive and hateful”, according to one of the syllabuses reported by Campus Reform.
The Independent | 31.08.2015
A intolerância cresce nas universidades sob o lema e o programa político “controla a linguagem e és dono do pensamento”. Como é que os novos marxismos totalitários estão a usar o controlo dos departamentos de ciências sociais e humanas das universidades para impor uma nova linguagem ao serviço de um projeto político e ideológico que visa arrasar com o cânone cultural ocidental? A principal estratégia é o reforço da censura sobre a linguagem. O controlo da linguagem é a primeira fonte de doutrinação. Uma vez amestrados, os jovens estudantes ficam preparados para aceitar a censura como natural porque imposta sob o pretexto da promoção da igualdade. Quando a domesticação cultural e linguística estiver concluída, os próprios jovens se encarregarão de, através da autocensura, fazerem uso acrítico da nova linguagem sem se aperceberem que são sujeitos passivos de um experimentalismo político que visa o controlo total da sociedade através da destruição da “velha” cultura, tida como opressora das minorias, e a sua substituição pela mais radical das igualdades: a ausência de masculino e feminino como resultado da diferenciação biológica. Tome-se nota: “Tutors have been requested to consider asking students which pronouns they wish to be addressed by, warning against assuming gender-binary pronouns “he” and “she”. (Fonte: The Independent).
O objetivo último é impedir os estudantes do uso do pensamento crítico. Ao contrário do que pensam os neomarxistas, a linguagem é uma criação espontânea que resulta numa ordem constantemente reinventada pelas pessoas comuns que constituem o universo dos falantes. Não é a elite que cria a linguagem. Tão pouco a elite académica. A norma linguística impõe-se pela tradição e não pela pela autoridade de uma elite, ainda que essa elite se apresente como iluminada, portadora do futuro ou representante de grupos oprimidos que precisam de ser resgatados. O controlo dos departamentos de educação e ciências sociais pelos neomarxistas, através das suas inúmeras máscaras, permite-lhes inverter a realidade, impondo aos jovens estudantes critérios de avaliação que incluem a penalização dos que resistem a alinhar no processo de destruição/reconstrução linguística imposto pelos iluminados. Tome-se nota: “A further course entitled “Introduction to Comparative Ethics Studies” taught by Professor Rebecca Fowler also states that the use of “inappropriate terminology” will impact on students’ grades, “with the deduction of one point per incident”. (Fonte: The Independent).
A norma linguística deixa de ser o resultado de um lento processo de criação feito pelas pessoas comuns ao longo de muitas gerações e passa a ser o resultado do experimentalismo político tutelado pela elite académica que, para isso e quando necessário, usa a autoridade para reprimir os resistentes ao processo de destruição/reconstrução linguística tutelado por extremistas iluminados.
Via O Insurgente
Contas feitas
As ficções de que se alimentam os partidos, que pouco mais fazem que salvar aparências e ‘épater le bourgeois’, e a percepção generalizada de que São Bento já só cumpre ordens de Bruxelas, atiram o eleitorado mais fundo no barranco da desconfiança.
A coligação, pendurada na moral There Is No Alternative, exibe uns desajeitados números que confunde com o esforçado desempenho da economia. Apesar de quatro anos de governo e da asfixia fiscal imposta.
O PS de Costa, mais atordoado que o de Seguro, insiste na austeridade de rosto humano a toque de investimento (fantasia socialista para o esbulho tributário) e recupera elevadas visões que nos deixam tementes e trementes.
Quase todos vítimas da austeridade, somo-lo sobretudo das ficções partidárias servidas em ‘prime-time’. Geradas nos estritos campos político e mediático (que reciprocamente se sustentam) disfarçam com ruído a anemia partidária e a indiferença dos eleitores ao papaguear.
‘There’s no such thing as public money’, explicou Thatcher pacientemente, ‘there’s only taxpayers’ money’. Contas feitas, é o que sobra depois da rapina do Estado que vai decidir sortes à vigésima-quinta hora de 4 de Outubro.
Diário Económico / 01.09.2015
A coligação, pendurada na moral There Is No Alternative, exibe uns desajeitados números que confunde com o esforçado desempenho da economia. Apesar de quatro anos de governo e da asfixia fiscal imposta.
O PS de Costa, mais atordoado que o de Seguro, insiste na austeridade de rosto humano a toque de investimento (fantasia socialista para o esbulho tributário) e recupera elevadas visões que nos deixam tementes e trementes.
Quase todos vítimas da austeridade, somo-lo sobretudo das ficções partidárias servidas em ‘prime-time’. Geradas nos estritos campos político e mediático (que reciprocamente se sustentam) disfarçam com ruído a anemia partidária e a indiferença dos eleitores ao papaguear.
‘There’s no such thing as public money’, explicou Thatcher pacientemente, ‘there’s only taxpayers’ money’. Contas feitas, é o que sobra depois da rapina do Estado que vai decidir sortes à vigésima-quinta hora de 4 de Outubro.
Diário Económico / 01.09.2015
Zé do Pipo no país das maravilhas
As 1001 Noites, Vol. 1, O Inquieto | Miguel Gomes | Portugal / 2015
O mais espantoso no cinema de Miguel Gomes é o milagre. E a recusa do cinismo.
A sensibilidade com que as personagens são filmadas e, muitas delas, a simplicidade com que crescem e inadvertidamente nos colocam na desconfortável posição de alguém que volta a acreditar (em qualquer coisa de humano).
Se a personagem principal de As 1001 Noites – O Inquieto somos nós, Portugueses, enquanto comunidade, tal só se compreende a partir das personagens singulares – tantos de nós – que a suportam. Assim como a vida que nos junta em comunidade é mais que o somatório de cada um dos nossos percursos singulares, o filme de Miguel Gomes, é mais, muito mais, que as tragédias, as pequenas ou grandes misérias, as virtudes e as fragilidades de cada personagem.
A verdade da experiência cinematográfica de As 1001 Noites – O Inquieto é o incessante trabalho de tactear uma sociedade deprimida, abatida, depauperada, sem esperança, por entre um amoroso labor de aproximação a cada uma das personagens (que poderia ser cada um de nós). Labor, entretecido entre o documentário e a ficção, feito de riso e lágrimas, de esperança e angústia, enfim, da argamassa que nos cola à Vida e uns aos outros.
O mais espantoso no cinema de Miguel Gomes é o milagre. E a recusa do cinismo.
A sensibilidade com que as personagens são filmadas e, muitas delas, a simplicidade com que crescem e inadvertidamente nos colocam na desconfortável posição de alguém que volta a acreditar (em qualquer coisa de humano).
Se a personagem principal de As 1001 Noites – O Inquieto somos nós, Portugueses, enquanto comunidade, tal só se compreende a partir das personagens singulares – tantos de nós – que a suportam. Assim como a vida que nos junta em comunidade é mais que o somatório de cada um dos nossos percursos singulares, o filme de Miguel Gomes, é mais, muito mais, que as tragédias, as pequenas ou grandes misérias, as virtudes e as fragilidades de cada personagem.
A verdade da experiência cinematográfica de As 1001 Noites – O Inquieto é o incessante trabalho de tactear uma sociedade deprimida, abatida, depauperada, sem esperança, por entre um amoroso labor de aproximação a cada uma das personagens (que poderia ser cada um de nós). Labor, entretecido entre o documentário e a ficção, feito de riso e lágrimas, de esperança e angústia, enfim, da argamassa que nos cola à Vida e uns aos outros.
A sociedade da fealdade
A moda, como assunto sério, é bastante mais esclarecedora sobre a sociedade e o indivíduo dentro dela que qualquer tese ou dissertação em «ciências» sociais da Nova ou do ISCTE (dado que estas obedecem a uma natureza ideológica mais preocupada em fazer política que na procura da Verdade). A moda como hábitos e costumes com que atravessamos o quotidiano e não o mero campo da disciplina do desenho de vestuário, bem entendido.
A aceleração da sociedade de consumo e a omnipresença das mesmas imagens propagadas em todos os lugares do planeta tem efeito imediato na homogeneização da(s) cultura(s) (não só) visual e produzem uma profunda modificação (antropológica) no modo como o indivíduo se reconhece a si mesmo dentro das teias de relações sociais em que se insere. A exposição, cada vez mais acentuada, de todos nós às mesmas imagens resulta no seu consumo irreflectido e, a partir daqui, na elaboração de estratégias individuais que afirmem a individualidade dentro da terraplanagem cultural em curso.
Ora, resulta daqui a necessidade de se questionar o estatuto da imagem, da política da imagem e, para o que aqui interessa, a relação do indivíduo com essas imagens e como as interpreta no seu quotidiano, no modo de falar, de se vestir, no modo como se faz visível no meio do turbilhão onde todos nos queremos destacar - e aqui há que compreender, entre outras coisas, os fundamentos da cultura da sociedade de consumo, que insistem (como um martelo sobre as consciências) na promoção da «novidade», na celebração do «original», no recuo do espaço público de tudo (e todos) o que não obedeça a um padrão social que alimente a roda do consumo (os velhos com cada vez menos visibilidade; as crianças vistas como tábua rasa para endoutrinação de futuros consumidores, por exemplo).
São mais que conhecidos os efeitos estéticos e éticos desta voracidade. Como uma embriaguez de imagens e ruídos que a todos deixa em transe e incapazes de tecer um murmúrio crítico (racional) que seja. Enfim, uma sociedade de alienados sem capacidade de qualquer de subverter a ordem do consumo. Sendo a própria subversão absorvida pelas lógicas do mercado e tornadas, instantâneamente, produto disponível para consumo – e é esta a tremenda perversão do estádio actual do capitalismo que, tendo a capacidade para em tudo colocar um preço, chegou a hora, agora, de colocar cada um de nós, a partir do seu mais íntimo, à venda.
A tatuagem (e o piercing), por exemplo.
Até há pouco tempo significantes da fuga aos valores dominantes inscrita na pele, é agora, massificada e «democratizada» a incisão visível da ambiguidade com que, por via dos mecanismos do consumo, se debate cada indivíduo do interior da sua esfera mais íntima.
Se, por um lado, a tatuagem pretende a individuação radical do sujeito - tão radical que este se submete a sessões de tortura com agulhas para a inscrever – através dos desenhos que se supõem «únicos» e «originais», é, por outro lado, sinónimo da massificação do gosto e da padronização de comportamentos. O objecto que se pretendia único e singular, numa sociedade onde cada vez mais somos iguais uns aos outros no gosto e no desejo, desenhado para afirmar veementemente os valores individuais do sujeito, é afinal, agora, símbolo da sujeição e submissão passiva e acrítica do sujeito a esses mesmos valores que pretendia contrariar. O 'mercado', mais uma vez, açambarcou as 'margens' que dele procuravam fugir. O mercado insidiosamente chegou à alma.
***
O discurso progressista, assente na língua-de-pau das «diversidades» concorre e é, afinal, o idiota útil do rolo compressor consumista que não deixa nada, absolutamente nada, de fora do mercado.
***
Lateralmente: um outro facto pode estar na origem da proliferação das (horríveis) tatuagens. Se o substracto antropológico do cristianismo em que se fundava a nossa civilização afirmava cada mulher e cada homem como ser único, singular, feito à imagem de Deus, estava tatuado no espírito e na alma de cada mulher e de cada homem essa singularidade e originalidade irrepetíveis, sem necessidade de exteriorização da individualidade. No novo mundo, ateu e secular, sem qualquer tipo de referência à singularidade do ser humano e onde o sujeito é mera célula do quadro excel, é necessário o recurso a estratégias de visibilidade que afirmem explicitamente o sujeito.
You can run, but you can't hide. Nada nem ninguém está a salvo do nihilismo consumista.
***
Sobra a questão do belo e do corpo. E a recusa modernista - ocupado que estava o modernismo com a funcionalidade e a objectividade a partir da tábula-rasa da História - em pensar o belo. O pós-modernismo querendo recuperar a História pretendeu fazê-lo através da ironia. E a ironia pouco mais realizou que a irrisão. E hoje, o coração do pensamento e da produção artísticas contemporâneos é a mortal derrisão. O nihilismo (narcisista) a partir do qual hoje olhamos para o mundo - e o pretendemos conformar à nossa subjectividade - recusa qualquer absoluto. Qualquer ideia de que se suspeite pôr em causa a cadeia da relativização dos valores é atirada para o beco do anátema intelectual. Muito menos recuperar a categoria do belo para pensar o mundo. Nada pode travar a (transcendente) máquina do mercado que perversamente nos seduz à sua servidão usando a nossa própria liberdade como via. Produzir um juízo estético sobre os gatafunhos inscritos sobre a pele é, na fantasia da liberdade que o mercado nos serve, um pecado contra a emancipação do gosto e do corpo. Obviamente, a relativização do gosto e o uso do corpo como território político, são os meios pelos quais a fealdade se massifica. Estamos cada vez mais rodeados do feio.
notas sobre o deserto
Por absurdo: estamos a caminho de obter os mesmos gloriosos resultados dos mais sanguíneos regimes da modernidade mas por outras vias.
As elites aprenderam, nos escombros dos regimes 'racionais' do séc. XX, que é mais eficaz (política, económica, socialmente) cada um de nós oferecer-se voluntariamente à servidão do que erguer qualquer regime à força da espada e da bota cardada. Alimentar o homem-massa com a ilusão da liberdade é, por paradoxo, terrivelmente mais lucrativo e proveitoso que qualquer dispositivo jurídico ou social que até hoje foi posto a funcionar.
A grande descoberta pós-moderna é que o mercado é a mais implacável máquina de controlo. Tão implacável que, de momento, tudo está à venda. A começar pela dignidade de cada um de nós.
Via Crucis do Corpo: a Paixão de Maria
I. Jesus é condenado à morte
II. Jesus carrega a cruz às costas
III. Jesus cai pela primeira vez
IV. Jesus encontra a sua Mãe
V. Simão Cirineu ajuda a Jesus
VI Verónica limpa o rosto de Jesus
VII. Jesus cai pela segunda vez
VIII. Jesus encontra as mulheres de Jerusalém
IX. Jesus cai pela terceira vez
X. Jesus é despojado de suas vestes
XI. Jesus é pregado na cruz
XII. Jesus morre na cruz
XIII. Jesus é descido da cruz
XIV. Jesus é Sepultado
Jesus ressucita dos mortos
Estações da Cruz | Dietrich Brüggemann, Ann Brüggemann | Alemanha / 2014
Não é sem algum embaraço que assistimos a Estações da Cruz. O redutor simplismo com que nos vamos colocando as questões da fé e da experiência dessa fé no concreto da vida é fortemente abalado pela, ela sim, simplicidade cortante deste filme. Por apenas 14 planos fixos, um por cada estação da Via Crucis, acompanhamos a trágica jornada espiritual de Maria.
Proveniente de uma minoritária comunidade que se organiza em volta da Fraternidade Sacerdotal de S.Paulo (ficção a partir da excomungada Fraternidade Sacerdotal S. Pio X) Maria, 14 anos, vive enredada entre as contradições do legalismo com que a família e o padre Weber vivem e lhe transmitem a fé, as pulsões naturais de uma adolesce e a censura, quando não intolerância, de um mundo cada vez mais secularizado, sexualizado e adverso à gramática do religioso.
Na semana que antecede a Confirmação, e no seu percurso de preparação para este Sacramento, Maria dá a sua vida em sacrifício pela cura do pequeno irmão autista. É esta a motivação com que Maria se propõe a um caminho de santidade. E aqui a perplexidade surge-nos, desde logo, pelo contexto rigorista em que Maria cresce.
Em Estações da Cruz a forma é inextricável das questões que levanta. A coincidência formal das 14 estações do caminho da Cruz com os 14 longos planos fixos em que se desenvolve o filme é essencial para a compreensão deste olhar cru sobre os mistérios da fé e da experiência religiosa. A austeridade formal e a secura da câmara relegam à palavra o privilégio na construção das relações que as personagens estabelecem entre si. E é pela palavra que Maria procura, inocentemente, dizer-se e dizer Deus. Sem questionarmos a autenticidade da fé de Maria – por ser o indizível a paradoxal forja da fé de cada mulher e homem - é questionável o rigor implacável com que lhe são transmitidos os fundamentos dessa fé.
Estações da Cruz recusa a provocação fútil ou sequer propõe um juízo na apresentação das personagens que, a nossos olhos, porventura corrompem e distorcem os fundamentos da fé católica. Antes, somos interpelados pelo mistério da fé. E é aqui o enigma do filme: uma fé que pode ser destrutiva e disruptiva se vivida pelo rigor da letra da lei; ou resgate do Homem e da sua humanidade interpelado pelo Deus do amor e misericórdia.
É do ventre da experiência religiosa que nascem as civilizações, apesar da original e trágica hipótese moderna de um mundo sem Deus. Quando o Papa Ratzinger nos diz que “existem tantos caminhos para Deus quantos os seres humanos” sabemos que a experiência religiosa é absolutamente diversa em cada um de nós. Radicalmente diferente. Na certeza de que a busca de Deus é provavelmente a mais radical experiência humana. E aquela que, desde os alvores da Humanidade, dá forma às civilizações. A questão central em Estações da Cruz é o modo como a teia legalista sufoca a fé de Maria e, por extensão, a própria Maria. Por Paulo somos advertidos de que a «letra mata» - e se há alguém vive com radicalidade o Espírito d'O Ressuscitado é o Apóstolo – e é a esta luz que a Cruz, aqui, vai perdendo o seu sentido, amarrada a uma rede asfixiante que destrói aquilo que, pela fé, deverá ser radicalmente livre: o coração de cada mulher, o coração de cada homem.
Cristo suportava o Mal, o Demónio, as tentações e toda a sorte de contradições e fragilidades humanas. Mas Cristo não suportava os Fariseus na sua visão estrita da Lei. Foi contra o Fariseus que o Filho do Homem ergueu a espada e recusou a paz. Foi contra a detestável visão legalista da Lei, que aprisiona e encerra os homens numa infernal e hipócrita burocracia da Alma, que Jesus anunciou uma só Lei. A lei do Amor.
Ao contrário do que nos diz Dietrich Bruggemann, a Fé é mesmo para «levar a sério». Por isso tem necessariamente ser suportada pela Razão. Só uma Fé esclarecida pode, depois, iluminar a Razão.
Adenda: publicado no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
II. Jesus carrega a cruz às costas
III. Jesus cai pela primeira vez
IV. Jesus encontra a sua Mãe
V. Simão Cirineu ajuda a Jesus
VI Verónica limpa o rosto de Jesus
VII. Jesus cai pela segunda vez
VIII. Jesus encontra as mulheres de Jerusalém
IX. Jesus cai pela terceira vez
X. Jesus é despojado de suas vestes
XI. Jesus é pregado na cruz
XII. Jesus morre na cruz
XIII. Jesus é descido da cruz
XIV. Jesus é Sepultado
Jesus ressucita dos mortos
Estações da Cruz | Dietrich Brüggemann, Ann Brüggemann | Alemanha / 2014
Não é sem algum embaraço que assistimos a Estações da Cruz. O redutor simplismo com que nos vamos colocando as questões da fé e da experiência dessa fé no concreto da vida é fortemente abalado pela, ela sim, simplicidade cortante deste filme. Por apenas 14 planos fixos, um por cada estação da Via Crucis, acompanhamos a trágica jornada espiritual de Maria.
Proveniente de uma minoritária comunidade que se organiza em volta da Fraternidade Sacerdotal de S.Paulo (ficção a partir da excomungada Fraternidade Sacerdotal S. Pio X) Maria, 14 anos, vive enredada entre as contradições do legalismo com que a família e o padre Weber vivem e lhe transmitem a fé, as pulsões naturais de uma adolesce e a censura, quando não intolerância, de um mundo cada vez mais secularizado, sexualizado e adverso à gramática do religioso.
Na semana que antecede a Confirmação, e no seu percurso de preparação para este Sacramento, Maria dá a sua vida em sacrifício pela cura do pequeno irmão autista. É esta a motivação com que Maria se propõe a um caminho de santidade. E aqui a perplexidade surge-nos, desde logo, pelo contexto rigorista em que Maria cresce.
Em Estações da Cruz a forma é inextricável das questões que levanta. A coincidência formal das 14 estações do caminho da Cruz com os 14 longos planos fixos em que se desenvolve o filme é essencial para a compreensão deste olhar cru sobre os mistérios da fé e da experiência religiosa. A austeridade formal e a secura da câmara relegam à palavra o privilégio na construção das relações que as personagens estabelecem entre si. E é pela palavra que Maria procura, inocentemente, dizer-se e dizer Deus. Sem questionarmos a autenticidade da fé de Maria – por ser o indizível a paradoxal forja da fé de cada mulher e homem - é questionável o rigor implacável com que lhe são transmitidos os fundamentos dessa fé.
Estações da Cruz recusa a provocação fútil ou sequer propõe um juízo na apresentação das personagens que, a nossos olhos, porventura corrompem e distorcem os fundamentos da fé católica. Antes, somos interpelados pelo mistério da fé. E é aqui o enigma do filme: uma fé que pode ser destrutiva e disruptiva se vivida pelo rigor da letra da lei; ou resgate do Homem e da sua humanidade interpelado pelo Deus do amor e misericórdia.
É do ventre da experiência religiosa que nascem as civilizações, apesar da original e trágica hipótese moderna de um mundo sem Deus. Quando o Papa Ratzinger nos diz que “existem tantos caminhos para Deus quantos os seres humanos” sabemos que a experiência religiosa é absolutamente diversa em cada um de nós. Radicalmente diferente. Na certeza de que a busca de Deus é provavelmente a mais radical experiência humana. E aquela que, desde os alvores da Humanidade, dá forma às civilizações. A questão central em Estações da Cruz é o modo como a teia legalista sufoca a fé de Maria e, por extensão, a própria Maria. Por Paulo somos advertidos de que a «letra mata» - e se há alguém vive com radicalidade o Espírito d'O Ressuscitado é o Apóstolo – e é a esta luz que a Cruz, aqui, vai perdendo o seu sentido, amarrada a uma rede asfixiante que destrói aquilo que, pela fé, deverá ser radicalmente livre: o coração de cada mulher, o coração de cada homem.
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Cristo suportava o Mal, o Demónio, as tentações e toda a sorte de contradições e fragilidades humanas. Mas Cristo não suportava os Fariseus na sua visão estrita da Lei. Foi contra o Fariseus que o Filho do Homem ergueu a espada e recusou a paz. Foi contra a detestável visão legalista da Lei, que aprisiona e encerra os homens numa infernal e hipócrita burocracia da Alma, que Jesus anunciou uma só Lei. A lei do Amor.
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Ao contrário do que nos diz Dietrich Bruggemann, a Fé é mesmo para «levar a sério». Por isso tem necessariamente ser suportada pela Razão. Só uma Fé esclarecida pode, depois, iluminar a Razão.
Adenda: publicado no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
Insuficiente
Para além do regozijo infrene da situação e da inquietação melancólica da oposição convinha lermos os últimos dados do desempenho económico com a cautela que uma campanha eleitoral dispensa.
Ainda que a economia venha lentamente a recuperar dos anos de chumbo de 2012/2013 e os números do desemprego sejam um pouco mais animadores, não se vislumbra ainda, nem se prevê que tal venha a suceder, uma alternativa ao modelo social de precariedade imposto pela intervenção externa.
E é justamente deste modelo social que se deve partir para uma análise mais profunda aos números da emigração. Sabemos que o emprego gerado é, por um lado, mal pago, precário e sujeito a cada vez mais reduzidas garantias sociais e, por outro lado, que esta tíbia animação se verifica em sectores de pouco exigente qualificação.
Como antecipação do futuro da já mítica “geração mais bem preparada de sempre” é manifestamente insuficiente o que se lhe oferece para que aqui permaneça. Sair é ainda contingente a “um país que não se basta a só próprio”.
in Diário Económico | 20.08.2015
Ainda que a economia venha lentamente a recuperar dos anos de chumbo de 2012/2013 e os números do desemprego sejam um pouco mais animadores, não se vislumbra ainda, nem se prevê que tal venha a suceder, uma alternativa ao modelo social de precariedade imposto pela intervenção externa.
E é justamente deste modelo social que se deve partir para uma análise mais profunda aos números da emigração. Sabemos que o emprego gerado é, por um lado, mal pago, precário e sujeito a cada vez mais reduzidas garantias sociais e, por outro lado, que esta tíbia animação se verifica em sectores de pouco exigente qualificação.
Como antecipação do futuro da já mítica “geração mais bem preparada de sempre” é manifestamente insuficiente o que se lhe oferece para que aqui permaneça. Sair é ainda contingente a “um país que não se basta a só próprio”.
in Diário Económico | 20.08.2015
A sociedade da demência
Protect me from what I want | Jenny Holzer / 1988
Diz-me os teus likes, dir-te-ei quem és.
O ethos do capitalismo neo-liberal na era da alienação (consumista) fez da liberdade a primeira vítima. Desbrava agora a última fronteira entre ser-se pessoa ou coisa: tudo está à venda; todos somos (e fazemo-nos) «produto».
Voluntarimente escolhemos (livremente) a mais profunda servidão.
A estrada
Loin des Hommes | David Oelhoffen | França / 2014
Em última instância, o sentido adquire-se na sequência final em que Daru se separa de Mohamed depois de o invocar à raiva de estar vivo - apesar de tudo - num mundo sem sentido. Como se do caminhar, singular e único, contingente e imprevisível, de cada um de nós pela estrada árida da vida exala suficiente significado que contrarie o absurdo da existência. O absurdo inexplicável e indizível tornado crueldade pela cegueira com que, devotos, aderimos a uma qualquer causa que nos resgate de uma existência insignificante.
***
Longe dos homens quando impossibilitados de lhes oferecer uma clara e irrevogável particularidade que lhes permita classificar, arrumar, enquadrar, organizar, dominar, o impenetrável e inclassificável mistério que cada um de nós transporta.
this is how we were meant to live
Lote 4 | S. Mateus da Calheta, Terceira, Açores / 2008
Miguel met us at the airport to give us the key, as well as a gift of fruit to welcome us. We have stayed in 5-star hotels, and some beautiful AirBnbs, but this was the pièce de résistance, a 4-bedroom, 3-bathroom designer home easily twice as big as our large home. All geometric angles at times with dizzying effects, with 16 foot ceilings, there was a terrace for three of the bedrooms and a large yard that overlooked forest and sea. Warm mahogany floors, stark white walls and drapes, beautiful ceramic and stone tiling, carrera marble, a huge contemporary fireplace, and top-of-the-line fixtures and dishware--this is how we were meant to live. Cleverly designed, we had total privacy despite being a home with 10-foot high glass walls that opened up in all directions. We took the opportunity to wash our clothes and let them dry in total peace under a warm sun and a blue sky, with a lively breeze keeping us perfectly comfortable. The UNESCO designated early 15th-Century, Angra do Heroísmo, the first European City in the Atlantic and the festival in nearby Praia da Vitoria, would have to wait. Fresh pineapple and espresso for breakfast, it was PERFECTION.
Our stay at Miguels modern villa was fantastic and very comfortable. Miguel is a great host, who even provided extra furniture for us to use, and helped us with everything we needed. The house is very spacious, homely, comfortable and clean. The garden looks out over a small forest and gives the feeling you are staying in the forest canopy. Lots of bird concerts, and good place to spot bats. Definately recommended! Thanks for everything Miguel!
Airbnb | São Mateus da Calheta, Açores, Portugal
Miguel met us at the airport to give us the key, as well as a gift of fruit to welcome us. We have stayed in 5-star hotels, and some beautiful AirBnbs, but this was the pièce de résistance, a 4-bedroom, 3-bathroom designer home easily twice as big as our large home. All geometric angles at times with dizzying effects, with 16 foot ceilings, there was a terrace for three of the bedrooms and a large yard that overlooked forest and sea. Warm mahogany floors, stark white walls and drapes, beautiful ceramic and stone tiling, carrera marble, a huge contemporary fireplace, and top-of-the-line fixtures and dishware--this is how we were meant to live. Cleverly designed, we had total privacy despite being a home with 10-foot high glass walls that opened up in all directions. We took the opportunity to wash our clothes and let them dry in total peace under a warm sun and a blue sky, with a lively breeze keeping us perfectly comfortable. The UNESCO designated early 15th-Century, Angra do Heroísmo, the first European City in the Atlantic and the festival in nearby Praia da Vitoria, would have to wait. Fresh pineapple and espresso for breakfast, it was PERFECTION.
Our stay at Miguels modern villa was fantastic and very comfortable. Miguel is a great host, who even provided extra furniture for us to use, and helped us with everything we needed. The house is very spacious, homely, comfortable and clean. The garden looks out over a small forest and gives the feeling you are staying in the forest canopy. Lots of bird concerts, and good place to spot bats. Definately recommended! Thanks for everything Miguel!
Airbnb | São Mateus da Calheta, Açores, Portugal
Descamisados
À esquerda, impacientes com as derivas direitistas do PS, com o monólito comunista e com a indisponibilidade bloquista em partilhar responsabilidades da governação, os descamisados do BE federados no Livre fazem fé em negociar com o PS uma maioria absoluta. E com isto tornar a governação refém da agenda vanguardista que não mais adie o paraíso socialista. Os infindáveis grupúsculos que reiteram à vez a pureza ideológica da tribo não serão contas deste rosário.
À direita, o albergue espanhol do PSD e o sucesso relativo do CDS-unipessoal atenuam qualquer vontade de dissidência. Mais pragmática, usa o perigo esquerdista como argumento suficiente para captura do voto mais conservador que não se revê no discurso social desta direita moderna. O que vai dando para manter as fileiras em sossego. Sobra um punhado de votos de descontentamento ou ressentimento que encontram abrigo em partidos ‘single-issue', de carácter unipessoal ou de lugar nenhum. Obviamente, não é daqui que vai surgir qualquer solução governativa que altere o nosso viver habitual.
in Diário Económico | 10.08.2015
choro e ranger de dentes
Será também como um homem que, ao partir para fora, chamou os servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu.
Aquele que recebeu cinco talentos negociou com eles e ganhou outros cinco. Da mesma forma, aquele que recebeu dois ganhou outros dois. Mas aquele que apenas recebeu um foi fazer um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.
Passado muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e pediu-lhes contas. Aquele que tinha recebido cinco talentos aproximou-se e entregou-lhe outros cinco, dizendo: ‘Senhor, confiaste-me cinco talentos; aqui estão outros cinco que eu ganhei.’ O senhor disse-lhe: ‘Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.’
Veio, em seguida, o que tinha recebido dois talentos: ‘Senhor, disse ele, confiaste-me dois talentos; aqui estão outros dois que eu ganhei.’ O senhor disse-lhe: ‘Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.’
Veio, finalmente, o que tinha recebido um só talento: ‘Senhor, disse ele, sempre te conheci como homem duro, que ceifas onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, com medo, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence.’ O senhor respondeu-lhe: ‘Servo mau e preguiçoso! Sabias que eu ceifo onde não semeei e recolho onde não espalhei. Pois bem, devias ter levado o meu dinheiro aos banqueiros e, no meu regresso, teria levantado o meu dinheiro com juros.’ ‘Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos. Porque ao que tem será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.’
Mateus | 25, 14-30
Nas Trevas Exteriores | Cormac McCarthy / 1968
Aquele que recebeu cinco talentos negociou com eles e ganhou outros cinco. Da mesma forma, aquele que recebeu dois ganhou outros dois. Mas aquele que apenas recebeu um foi fazer um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.
Passado muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e pediu-lhes contas. Aquele que tinha recebido cinco talentos aproximou-se e entregou-lhe outros cinco, dizendo: ‘Senhor, confiaste-me cinco talentos; aqui estão outros cinco que eu ganhei.’ O senhor disse-lhe: ‘Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.’
Veio, em seguida, o que tinha recebido dois talentos: ‘Senhor, disse ele, confiaste-me dois talentos; aqui estão outros dois que eu ganhei.’ O senhor disse-lhe: ‘Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.’
Veio, finalmente, o que tinha recebido um só talento: ‘Senhor, disse ele, sempre te conheci como homem duro, que ceifas onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, com medo, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence.’ O senhor respondeu-lhe: ‘Servo mau e preguiçoso! Sabias que eu ceifo onde não semeei e recolho onde não espalhei. Pois bem, devias ter levado o meu dinheiro aos banqueiros e, no meu regresso, teria levantado o meu dinheiro com juros.’ ‘Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos. Porque ao que tem será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.’
Mateus | 25, 14-30
E tu, que rumo levas? Perguntou Holme.
Não tenho rumo, respondeu o homem. Não tenho rumo nem vínculos. Ergueu o rosto para Holme.
(...)
Sim, disse o cego. Eu cruzo-me com elas todos os dias. Gente que anda para trás e para diante por esse mundo fora que nem cães. Como se não tivessem um lar a quem chamem seu em parte nenhuma.
Gementes et flentes in hac lacrimarum valle onde há muito recusámos a
redenção.
A balada de um homem gordo
Vargas: This isn't the real Mexico. You know that. All border towns bring out the worst in a country.
A Sede do Mal | Orson Welles / 1958
A noção de fronteira é «boa para pensar»: na vastidão da fronteira não deve existir maior abandono que na cidade por onde os homens a atravessam.
Coisas que fogem à jurisdição dos homens: na histeria identitária como classificar quem voluntariamente escolhe esse lugar sem eu e sem nome, sem centro nem periferia?
Ida
Da ferida nazi à máquina totalitária comunista viajamos com Ana (Ida) à procura do seu passado pelo passado da Polónia. E em cada frame recebemos um postal ilustrado desse passado recente da Polónia. Em road movie de câmara, permanece em aberto a dúvida e a fé e a contingência da dúvida e da fé.
Ida | Paweł Pawlikowski | Polónia / 2014
inútil paisagem
A paisagem é o resultado de uma economia que se estabelece num lugar e da cultura que lhe é subjacente. É uma construção, uma forma de arquitectura, que surge com uma base económica fortíssima.
João Gomes da Silva | Público / 19.07.2015
Leitura talvez demasiado lata do sentido da economia, colocaria antes a cultura como a fonte donde procede a paisagem. E a paisagem, a teia de relações metafísicas entre o mundo sensível e o ideal, a a technê de domínio da natureza natural, onde primeiro se inscreve a nossa relação com o Mundo.
esterilidade
Deixarmos como legado a ruína. E também o asfalto betuminoso.
Talvez o programa - «vias de comunicação» - paradigmático do modernismo: o pragmatismo da máquina automóvel e da performance da velocidade, a celebração da técnica como progresso social. O esplendor do funcionalismo.
Se recorrermos a épocas anteriores verificamos a «polissemia» dos espaços. Como se um convento pudesse ser outra coisa que cada tempo assim o ditasse. Ou um palacete de outrora se dispusesse a servir agora de sede de uma qualquer instituição ou empresa. Uma auto-estrada será sempre uma auto-estrada. Sem possibilidade de reapropriação pela necessidade de cada geração.
Recorrendo a Tafuri e à topologia como declaração social, as auto-estradas revelam a esterilidade modernista.
notas sobre o deserto: o garrote
O dinheiro é o deus.
Os mercados a sua religião.
Os milhões de desempregados as vítimas sacrificiais sobre o seu altar.
Pode um sistema social representar-se pela arquitectura? Sabemos que os regimes de todos os tipos e de todos os tempos se quiseram perenes pela inscrição na pedra. E é evidência histórica que a arquitectura pode ser posta ao serviço da auto-celebração destes.
O que é novo no actual quadro cultural, político e ideológico, (cocktail ambíguo e pouco evidente de liberalismo financeiro radical e depravado marxismo cultural), é o zelo com que induz a sua própria dissimulação. A pretensão em naturalizar-se por forma a tornar-se auto-evidente. Esta atmosfera cultural é induzida nas sociedades apresentando-se como o modo natural de relacionamento humano e fonte natural de todas formas sociais e, nesse sentido, explicação única do mundo.
Por via do enfraquecimento e erradicação de qualquer vínculo afectivo e simbólico do indivíduo, diluído na massa alienada e narcotizada pelo consumo - tudo se reduz ao seu valor utilitário, mensurável e contabilizável, num infernal deve-e-haver que, no fim de contas, literalmente, transforma toda a realidade em dinheiro – geram-se as condições ideais para a atomização social e para a intensificação do caracter totalitário do poder. Sem termos dado conta disso a única liberdade de que hoje verdadeiramente dispomos é a de consumir (aquilo que nos dizem para consumirmos).
Estas ruínas da Grécia contemporânea, para além de todo o sentimentalismo e/ou humanismo vazio com que nos são apresentadas – também ideologicamente (e não há meio de se exterminarem todas as ideologias e este palavrão do jargão marxista?) – apresentam-nos com meridiana clareza o poder destrutivo do actual regime, enfim, ideológico. A asfixia que abre caminho por entre as ruínas que ela própria ergueu.
O que antes do terramoto da Troika era projectado como lugar de ostentação de status dos mais afluentes atenienses é hoje um escombro dessa proposta social que era já em si o ninho da serpente da fractura social. O dinheiro como divisor social único, o consumo como única via para a construção pessoal e de relação do indivíduo com o mundo. A arquitectura reduzida a pobre palco desta representação do mundo, num perverso trade off acrítico e auto-idulgente. Os recursos materiais duplamente elididos como um processo de reciclagem invertido e cada vez mais oneroso ambiental e economicamente. A perpetuação do fortuito, do supérfluo, do excesso, da arrogante e putatitva super-abundância das sociedades europeias numa paisagem ferida e agonizante.
A miséria não reside na escassez material mas antes na degradação com que paulatinamente fomos sujeitando a realidade às nossas representações e olhar cada vez mais narcísicos e desafectados dos próximo e do mundo.
Seja pelo inesperado ausente ao tempo do projecto, seja pela melancolia da representação da ruína como experiência da ausência e da perda em relação à história, as ruínas são lugares de beleza. O paradoxo destas contemporâneas ruínas gregas é a radical antecipação histórica dessa perda e a manifestação imediata do estado de falência cultural com que hoje projectamos o mundo. E a ruína-nova como representação arquitectónica deste tempo.

Abandoned Nest | Panayis Chrysovergis / 2015
Os mercados a sua religião.
Os milhões de desempregados as vítimas sacrificiais sobre o seu altar.
Pode um sistema social representar-se pela arquitectura? Sabemos que os regimes de todos os tipos e de todos os tempos se quiseram perenes pela inscrição na pedra. E é evidência histórica que a arquitectura pode ser posta ao serviço da auto-celebração destes.
O que é novo no actual quadro cultural, político e ideológico, (cocktail ambíguo e pouco evidente de liberalismo financeiro radical e depravado marxismo cultural), é o zelo com que induz a sua própria dissimulação. A pretensão em naturalizar-se por forma a tornar-se auto-evidente. Esta atmosfera cultural é induzida nas sociedades apresentando-se como o modo natural de relacionamento humano e fonte natural de todas formas sociais e, nesse sentido, explicação única do mundo.
Por via do enfraquecimento e erradicação de qualquer vínculo afectivo e simbólico do indivíduo, diluído na massa alienada e narcotizada pelo consumo - tudo se reduz ao seu valor utilitário, mensurável e contabilizável, num infernal deve-e-haver que, no fim de contas, literalmente, transforma toda a realidade em dinheiro – geram-se as condições ideais para a atomização social e para a intensificação do caracter totalitário do poder. Sem termos dado conta disso a única liberdade de que hoje verdadeiramente dispomos é a de consumir (aquilo que nos dizem para consumirmos).
Estas ruínas da Grécia contemporânea, para além de todo o sentimentalismo e/ou humanismo vazio com que nos são apresentadas – também ideologicamente (e não há meio de se exterminarem todas as ideologias e este palavrão do jargão marxista?) – apresentam-nos com meridiana clareza o poder destrutivo do actual regime, enfim, ideológico. A asfixia que abre caminho por entre as ruínas que ela própria ergueu.
O que antes do terramoto da Troika era projectado como lugar de ostentação de status dos mais afluentes atenienses é hoje um escombro dessa proposta social que era já em si o ninho da serpente da fractura social. O dinheiro como divisor social único, o consumo como única via para a construção pessoal e de relação do indivíduo com o mundo. A arquitectura reduzida a pobre palco desta representação do mundo, num perverso trade off acrítico e auto-idulgente. Os recursos materiais duplamente elididos como um processo de reciclagem invertido e cada vez mais oneroso ambiental e economicamente. A perpetuação do fortuito, do supérfluo, do excesso, da arrogante e putatitva super-abundância das sociedades europeias numa paisagem ferida e agonizante.
A miséria não reside na escassez material mas antes na degradação com que paulatinamente fomos sujeitando a realidade às nossas representações e olhar cada vez mais narcísicos e desafectados dos próximo e do mundo.
Seja pelo inesperado ausente ao tempo do projecto, seja pela melancolia da representação da ruína como experiência da ausência e da perda em relação à história, as ruínas são lugares de beleza. O paradoxo destas contemporâneas ruínas gregas é a radical antecipação histórica dessa perda e a manifestação imediata do estado de falência cultural com que hoje projectamos o mundo. E a ruína-nova como representação arquitectónica deste tempo.

Abandoned Nest | Panayis Chrysovergis / 2015
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