moradas


Estou só, coloco a flor-cinza
na jarra de negrume amadurecido. Boca gémea,
dizes uma palavra que se perpetua diante das janelas,
e mudo trepa meu sonho por mim acima.

Sou a floração do tempo sem viço
e guardo resina para uma ave tardia:
ela traz o floco de neve na pena vermelho-vida;
de grãozito de gelo no bico, sobrevive ao Verão.


[Corona | Paul Celan / Trad. Gilda Lopes Encarnação + Edifício Jardim das Amoreiras, Arqtº Carrilho da Graça, 2010]

Corona


À minha mão vem o Outono comer as suas folhas: somos amigos.
Descansamos o tempo das nozes e ensinamo-lo a partir:
o tempo retorna à casa.

No espelho é domingo,
no sonho dorme-se,
a boca diz a verdade.

O meu olho desce até ao sexo da amada:
olhamo-nos,
dizemo-nos algo sombrio,
amamo-nos como papoila e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o mar no jorro-sangue da Lua.

Estamos abraçados à janela, vêem-nos da rua:
chegou a altura de se saber!
Chegou a altura de a pedra se dignar em florir,
de o coração do desassossego começar a bater.
Chegou a altura de ser altura.

Chegou a altura.


[Corona | Paul Celan / Trad. Gilda Lopes Encarnação + Sede EDP, Aires Mateus & Associados, Lda., 2014]

Elogio da Lonjura










Na fonte de teus olhos
vivem os fios dos pescadores do mar-errância.
Na fonte dos teus olhos
cumpre o mar a sua promessa.

Coração
entretido entre os homens, aqui arremesso
minhas vestes e o fulgor de um juramento:

Mais negro no negro, estou mais nu.
Só sendo traidor sou fiel.
Eu sou tu quando sou eu.

Na fonte de teus olhos
vogo e sonho a pilhagem.

Um fio prendeu um fio:
separamo-nos enlaçados.

Na fonte de teus
um enforcado estrangula a corda.


[Elogio da Lonjura | Paul Celan / Trad. Gilda Lopes Encarnação + Sede EDP, Aires Mateus & Associados, Lda., 2014]



A Casa



Se por acaso buscas
o verde exacto das folhas
a perfeição da linha que as atravessa e conta quantos dias faltam até à queda no chão
Digo-te que não traces medidas nem planos
Pois o céu mudará de cor e a terra ficará mais húmida
e da janela verás
como o vento sacode as copas amarelas e assobia à nossa porta.

E ainda assim
todos os dias são de primavera.

Jardim das Amoreiras, R.

Moradias









Moradas










Deserto é o homem que não encontra no seu coração um penhasco por onde se lançar.

Fossa Séptica Cultural

Mapas para as Estrelas é a evidência de que a doença que padecem os nossos dias é tão só cultural. Hollywood é uma casa de putas e o ego é a substância mais tóxica que cada um (de nós), viciado, consome: pestilento é o ar que respiramos.











[Mapas Para as Estrelas, David Cronemberg. 2014]

advenire

O deserto é o lugar da Verdade.

advenire

Abrir um caminho pelo deserto.

A minha Pátria é o meu iPhone

DESHAkram Khan Company / 2014









'Não faço a mínima ideia onde estou', replica Khan, em Londres, ao miúdo do call center, no Bangladesh. Uma metáfora mas também, depois uma viagem literal: 'Já sei onde estou'.



advenire


Caiu a chuva, vieram as torrentes e sopraram os ventos contra aquela casa; mas ela não caiu, porque estava fundada sobre a rocha.

Can you feel my heart beat?

20,000 Days on Earth | Iain Forsyth, Jane Pollard + Nick Cave / 2014










A memória é edição do que se vai amontoando ao canto sem razão. Pelos corredores dos arquivos mortos do que somos, fomos, queríamos ter sido, o passado é permanente reconstrução que vem.
Nick Cave é a sageza que ele próprio teve ao inventar o Nick Cave. Visceralmente idolatrado pelas multidões que reconhecem a cada 3 minutos de qualquer canção sua pedaços da Verdade, Nick Cave foi tecendo a persona Nick Cave para lhes poder dizer: são apenas canções. O Nick Cave, obcecado com a canção, tem que ser Nick Cave para prosseguir a vidinha habitualmente.



O tempo passa? Não passa / no abismo do coração.

Boyhood | Richard Linklater / 2014





























Passa o tempo e as coisas nunca encontram os nomes. As coisas que colidem, que se desencontram, que se desacertam, as coisas que se acertam, eventualmente, as coisas que se perdem, as coisas que se desaprendem. As coisas banais, as autênticas, as reais. E talvez seja essa a forma em Boyhood e nos nossos dias banais, em acerto desacertado com a substância da vida.



Whormhole



Interstellar | Christopher Nolan / 2014








No fundo, o rigor físico que (dizem) Nolan usou em Interstellar cavou um pouco mais o buraco negro da nossa ignorância científica sobre a causa primeira do Universo, da existência, do sentido de tudo isto. Sobra talvez um detalhe, um pequeno diálogo perdido no meio do filme e do Espaço. Uma hipótese que, tanto quando se sabe, não está em cima da mesa de qualquer laboratório de astrofísica, nem sequer no do Vaticano (por falar nisso, o que pensar da politicamente correcta ausência da hipótese de ter sido Deus o Criador?). Um ensaio que não possa ser, com a tecnologia disponível, exactamente verificada pelo método experimental. A hipótese do Amor ser uma outra dimensão, a juntar às já conhecidas, e de ser essa dimensão a que transcende o reino do tangível e verificável que, apesar de toda a maravilha, nos prende ao meramente sensível.
Se o 'Amor liberta', como se canta desde o nascimento da Humanidade, talvez seja boa ideia dar uma chance a Brand de encontrar algures por aí o que procura desde o dia em que nasceu.



O Inferno do Igual


o avesso do avesso do avesso

Nightcrawler | Dan Gilroy / 2014











Pode ser uma alegoria do 'capitalismo selvagem'. Pode ser uma alegoria da fabricação das imagens que consumimos em prime-time. Pode ser uma previsão da distopia onde estaremos todos online mas desvinculados do próximo. Pode ser a visibilidade do não tão subtil processo de dessensibilização ao outro e à violência a que todos os dias somos sujeitos. Pode ser uma desmontagem do valor que se atribui às imagens e de como é quem atribui esse valor. Pode ser a desocultação do valor das imagens como mera mercadoria que se consome, descarta e gera lucro.
Nightcrawler é uma grande ideia, maior que o filme.



Teologia Política













O poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente yada yada yada, a lenga-lenga dos petizes moralistas, sem entender que o poder obedece, por definição, à lógica da decisão, da escolha, da separação, da desunião, logo, da violência, da corrupção. Assim é desde que Caim matou Abel, assim será até à segunda vinda de Cristo.
House of Cards é obsceno. No sentido literal do étimo porque traz à cena aquilo a que não deveríamos ter acesso.
Não é a pequena política da West Wing. É o Poder. E o Poder, a lógica do poder - inversa da da Caridade (Amor) - sugere o Homem como Deus.
A Francis Underwood, a figura semi-divina, o paradoxal servil-king-maker, não interessa tanto chegar à Sala Oval, apesar de o parecer, a Francis Underwood interessa mais mandar sobre quem ocupa a Sala Oval. E é essa condição, auto-legitimada, que não deve justificação a nada nem a ninguém (so long checks & balances), amoral porque centrada em si mesmo e na Vontade de Poder, que dispõe da vida e da morte de acordo com esse desígnio total e totalitário.
E é esta ideia e esta praxis do Poder que constrói os estados contemporâneos, onde cada um de nós é apenas sujeito da grande máquina que escapa ao entendimento da vida quotidiana, da (nossa) vida narcotizada em consumo e desperdício que gera mais consumo e mais desperdício, a caminho, um pouco mais todos os dias, da servidão.
House of Cards é uma Teologia Política de um Mundo sem Deus e Francis Underwood o seu Sumo-Sacerdote.



É ir cultivando a terra, deitando a semente, ir apanhando as batatas.






Objectos Imediatos | José Pedro Croft / 2014

Sínodo LGBT













Antes de mais, destas últimas semanas ficaríamos com a ideia de que o que sucedeu em Roma, ao invés de um Sínodo dos Bispos sobre a Família, teria sido, antes, um sínodo LGBT, tal a profusão de notícias contraditórias e a confusão difundida por Roma. E a confusão, diz-nos a Doutrina, é diabólica.
No entanto, destas últimas semanas podemos reter, no essencial, o que tem sido a Igreja na sua relação com o mundo. A Igreja pós-conciliar.

Da relação da Igreja com o mundo pelos media: profeticamente disse ainda hoje o Arcebispo Chaput, de Filadélfia, colhermos informação na imprensa é um equívoco. A imprensa, sabemo-lo, está interessada na espectacularização da dissensão e, em última análise, no ataque à Igreja. E, como a ignorância abunda nas redações, facilmente obtemos explicação para parte da confusão difundida a partir de Roma. Mas não explica toda. (E sobre esta relação Igreja/media recomendo a leitura de um post do Tiago Cavaco, pastor Baptista, no blog A Voz do Deserto, a propósito do despropósito deste Sínodo.)
Nota também para o equívoco que é a suposta abertura e «transparência» deste Sínodo em que, pela primeira vez, não foi permitida a publicação das transcrições de todas as intervenções do colégio sinodal.
Depois, vários vícios, diria dogmas, seculares, que, como também profeticamente avisou o Beato Paulo VI, são o «o fumo de Satanás no altar do Senhor». De todos eles, o maior, o da «democracia», como se esta não fosse parte, não o todo, do processo de decisão que emana da Tradição. E como se o estado das puras democracias ocidentais não fosse lamentável para que não lhes puséssemos a vista no exemplo do que é o Bem-comum sitiado por interesses particulares e divisionistas. Depois, o clássico de inspiração marxista, «conservadores» vs. «progressistas» e a concomitante acrobacia semântica que faz do conservador uma figura cavernícula a bramir a inexorável marcha do «progresso» e dos amanhãs que cantam. Também de inspiração marxista, chegamos ao núcleo do que tem sido este Sínodo dos Bispos sobre a Família visto pela imprensa: a agenda LGBT (política, portanto) já hegemónica nas redações e tornada como que uma realidade inquestionável, dogmática, diria, da contemporaneidade iluminada a povoar as consciências tomadas pelo aggiornamento permanente da Igreja.

Vamos por partes.
Experimentamos hoje uma tremenda dificuldade em ouvir sem exaltação irracional e alguma ira a doutrina tradicional da Igreja no que toca à moral sexual e familiar. No mundo hiper-sexualizado e do prazer de imediata satisfação, a mensagem da castidade e do sexo como dádiva não encaixa. O homem moderno, habituado a ver atendidos todos os seus desejos, ou antes, caprichos, resiste a aceder, muito menos compreender, o que é dito pela Igreja. A vontade de emancipação radical deste sujeito moderno leva-o à grande recusa de qualquer obstáculo que se possa interpor entre o desejo e a imediata satisfação deste. É correcto o diagnóstico que há pouco tempo fez a Conferência Episcopal Alemã, que refere, sobre a incapacidade da doutrina exposta na Humanae Vitae chegar ao coração dos homens.
Estes mesmos homens, mergulhados na mais narcotizada atmosfera cultural que o Ocidente experimentou, erguem-se, do meio do lamaçal da irracionalidade em que habita, para, com soberba e orgulho (doenças típicas de um certo modernismo), reclamar a sua subjectividade e umbigo como o novo Absoluto. O eu elevado a Deus. A egolatria que devém psicose: o capricho como forma de leitura do mundo e, consequentemente, princípio de organização do real. Daqui à construção de uma obsessiva ideia de democracia como palanque onde os outros terão imperiosamente que ouvir e cumprir a vontade do eu é um instante. Da polifonia onde se ouça a voz de cada crente, de cada homem, e que canta toda a Igreja, passamos rapidamente ao ruidoso coro da dissensão do mundo.
É este o primeiro momento do ataque à Tradição. Um ataque caucionado por uma ideologia que anuncia a tábua rasa do passado, logo da Tradição, em prol da novidade permanente. E a novidade, parece, é a homossexualidade e o adultério e as separações. Coisas nunca vistas e experimentadas pela humanidade e descobertas há coisa de 5 anos pela faróis do progresso civilizacional em gabinetes de estudos sociais da Academia Ocidental.
De que falamos quando falamos de «acolhimento» a homossexuais e a divorciados recasados? Falamos em rasgar as epístolas de Paulo? Falamos em renunciar ao anúncio sempre novo da Verdade do Evangelho na Pessoa de Cristo e dos ensinamentos (moral) que dimanam sempre fulgurantes do Salvador? Falamos em esquecer a realidade do mal e da pessoa de Satanás (e o Papa Francisco amiúde se lhe refere) e do pecado, que tantas e tantas vezes para eles somos alertados por Cristo? Falamos em abolir o 6º mandamento da Lei Mosaica? Falamos em abrir brechas na beleza da doutrina tradicional da moral sexual e familiar por causa da exigência desta, escudados na sensibilidade contemporânea do hedonismo radical? Falamos em desistir da bondade da Verdade por troca com o "bonismo" (Papa Francisco), do sentimentalismo e auto-indulgência com que vivemos? De que falamos então quando falamos em "acolhimento"?
Obviamente que o sofrimento dos irmãos, de todos os irmãos, deve ser a prioridade dessa Igreja-hospital-de-campanha anunciada pelo Papa Francisco. Deve ser a prioridade de todos nós, em obediência ao imperativo da Caridade e do Amor. Mas a Misericórdia não pode ser a erosão do rigor doutrinal, a Misericórdia não pode ser dita como novo fariseísmo que, desta vez, decorre do mundo radicalmente secular, a Misericórdia não é, jamais, contradição com a Verdade. A Misericórdia não é complacência. Muito pelo contrário.

O texto de Kasper enferma em várias contradições, ainda que possa sugerir uma nova direção pastoral sobre estas matérias. E, de caminho, abrindo o recurso à excepcionalidade e às irrepetíveis circunstâncias de cada caso (o óbvio ululante), mina, não o edifico doutrinal, mas a condenação não ao pecador mas ao pecado.
Por outro lado, é espantoso que num debate sobre moral sexual e família, no afã da novidade e de 'acompanhamento' do mundo, não se ouça uma palavra a partir da magistral Teologia do Corpo de S. João Paulo II que, recorde-se, foi uma brutal resposta a, lá está, novos problemas, entre os quais o aparecimento da SIDA, dentro dos ensinamentos da Igreja. Espantoso também como a Verdade, o mal, o pecado, a caridade (amor) são termos quase apagados da gramática do que temos ouvido ultimamente e com mais estridência de dentro da Igreja - sim, a semântica também molda a realidade.
Como disse o Cardeal Dolan, em resposta a Kasper (por acaso, ou não, autor de infelicíssimas e lamentáveis acusações às igrejas africanas), não é a Igreja que tem que ser transformada pelo mundo, é o mundo que necessita de ser transformado pela Igreja. E isso, a Igreja só o poderá fazer se proclamar com alegria a Verdade de Cristo; se permanentemente se converter a essa Verdade, ciente das suas misérias e pecados. A Igreja e todos nós.

Tudo isto deixar-nos-ia perplexos e desorientados, como se de Roma ainda erradiasse a grande recusa do Papa Bento XVI e a sede vacante fosse o estado actual da cadeira de Pedro. Não fosse a fé de que o Espírito Santo conduz a Igreja ao altar onde, santificada, seja a verdadeira esposa de Cristo.



REALITY TV

Gone Girl | David Fincher / 2014










O que a televisão esconde quando mostra tudo. Um único plano salva um filme?

quotidiana


todos os dias
são dias do juízo final
todos os dias
menos este










Denúncia










Democracia, alfa e ómega dos clérigos laicos contemporâneos, vive disto: de «denúncias».
Para além da óbvia fealdade da palavra e da obscenidade do acto, é esclarecedor que o «debate público» - outra ficção do país dos póneis democráticos - se faça sobre e a partir de «denúncias» e da ruína moral de todos.



SubSolo












Coisas que acontecem em Lisboa quando vêm as chuvas e necessitamos, necessitamos sempre, de um milagre: "O céu devia estar cheio de rezas e choros, porque nessa tarde condensou a água de repente e choveu tudo duma vez. Fez-se escuro como a pele dum rato e, minutos depois, largou o peso na terra."



coisas que passam e ressuscitam no tempo duplo da exumação*












Café Chave d'Ouro, Lisboa | Arqtº Norte Júnior, 1936

*Carlos Drummond de Andrade

arquitectura & poder


Power is a lot like real estate. It's all about location, location, location. The closer you are to the source, the higher your property value.












Such a waste of talent. He chose money over power. In this town, a mistake nearly everyone makes. Money is the Mc-mansion in Sarasota that starts falling apart after 10 years. Power is the old stone building that stands for centuries. I cannot respect someone who doesn't see the difference.


Francis Underwood, House of Cards

A Educação Pela Pedra

Aprenderei a amar as casas
quando entender que as casas
são feitas de gente
que foi feita por gente
e que contém em si a possibilidade
de fazer gente.


[Two-Lane Blacktop, Matilde Campilho, in Jóquei]














Cada geração tem a Copa que a define





Selecção Portuguesa, Saltillo, 1986




Há algo de bonito em ser um país que usa as Copas para recordar de si mesmo.

Perceba: não há uma conversa sobre o Mundial em que nossas memórias não sejam convocadas. Parece um caminho que facilmente nos explica, balizando o tempo em meio a nossas histórias e ainda define nossas gerações, como as guerras definem as gerações americanas e os golpes, as tailandesas. Pelas Copas, sabemos o que ouvíamos, o que sorríamos, o que chorávamos, com mais facilidade e precisão do que, por exemplo, pelos Carnavais.

Eu? Eu sou da geração que viu o mundo encaretar antes de ter idade para aloprar. Fechei os anos 80 com 11 anos, na zona oeste do Rio. Não cheirei na Hippopotamus, não tive blazer com ombreiras, perdi a virgindade com camisinha – algo impensável para os meus tios.

Quando virei adolescente – 12 anos em 1990 -, meu mundo tinha medo da Aids, da hiperinflação, dos excessos de cores e de 4-3-3 com um único cabeça de área. Era um ensaio do pós-Apocalipse: ganhávamos pouco, tudo perdia valor rapidamente, só nos restava abrir mão do prazer em nome da sobrevivência.

Camisinha. Compras do mês. Dois volantes. Três zagueiros. A Copa de 1990, de lazarônica lembrança, foi a epítome futebolística de um mundo que morria de medo de gozar.

A Itália registrou a pior média de gols dos Mundiais – 2,21 por partida – num festival de empates surdos selado por uma final controversa e a sensação de que talvez o futebol trouxesse ansiedades demais. O zen-budismo surgia como possibilidade de remédio contra essas angústias.

Acabaríamos, por caminhos tortos, chegando ao Nirvana no ano seguinte, e o Nirvana acabaria em 1994. Todo niilismo tem fim, e não vestiríamos flanela no verão americano. A economia ensaiava uma reação, e Parreira parecia um economista da PUC-Rio no comando de medidas impopulares: Dunga e Mauro Silva, com vistas a Bebeto e… Müller. Não, isso foi até 1993, quando Romário voltou à camiseta canarinho nos brados do povo. Mesmo assim, até as mulheres reclamavam, já que os shortinhos tinham se encompridado em bermudas de surfista.

Em múltiplos sentidos, 1994 foi o ano que marcou minha geração. Aos 16 anos, eu continuava virgem, mas já era campeão do mundo e a latinha de coca era R$ 1. Trocávamos Senna por Romário, e muito embora zero a zero e pênaltis fossem um final meio mais ou menos, ser tetra era um barato, e nossas adolescências estavam salvas.

Se me dissessem que, vinte anos depois, a Copa seria num Brasil de tanto prazer represado, de medos renovados e ranço, eu jamais acreditaria. Carregamos esta Copa como um fardo, envergonhados por não sermos o que nunca fomos.

Por outro lado, vimos um país no divã, desconstruindo a si mesmo, em busca de seu verdadeiro eu, evitando ao máximo o transe do futebol como se fosse não apenas um vício, mas uma crendice que deveríamos abandonar em nome do desenvolvimento, do próximo passo, da quebra de padrão.

O melhor legado desta Copa 2014 foi reunir tanta gente em torno de um debate de país. Talvez esta Copa tenha sido fundamental para o alvorecer de uma nação diferente, catalisando almas, frustrações e sonhos, mais do que obras, mais do que investimentos.

Só ficou chato quando começamos a negar a nós mesmos, minimalizando nossa vocação de festa. Como se, depois da encaretada da culpa sexual, fosse a vez da encaretada da utopia, enquadrando o prazer e revistando a consciência nacional.

Fechados para balanço, entendemos que o futebol muito nos deu como nação e orgulho, mas muito nos tira também. Que não é direito básico nem religião, embora nos inspire e nos una em torno de algo que se sente ao longo de 8 milhões e meio de quilômetros quadrados. Que é um dos fios que seguram essa trama, como a língua portuguesa e a herança cristã que também respiramos sem ver. Que nos situa no tempo e ainda nos define cada geração, melhor do que qualquer guerra, revolução ou golpe.

E daí que você não vê muitas ruas pintadas de verde e amarelo, se todas as conversas e olhares já estão enfeitados com lembranças e fervor? Vamos reconhecer nosso habitat, sim, nos olhos dos turistas, dos jornalistas, dos jogadores e das crianças, que se explicarão a partir de nós, daqui a 20 anos – ou apenas cinco Copas.


Márvio dos Anjos / Globo Esporte














Mitteleuropa













É reconfortante que a viagem tenha uma arquitectura e que seja possível contribuir com algumas pedras para esta última, embora o viajante pareça ser não tanto alguém que constrói paisagens – tarefa do sedentário – como alguém que as desmonta e desfaz, à semelhança do barão von R. descrito por Hoffman, que corria mundo coleccionando panoramas e, quando o considerava necessário para gozar ou criar uma bela perspectiva, mandava cortar árvores, desbastar ramos, aplanar as irregularidades do solo, abater florestas inteiras ou demolir fábricas que tolhessem o olhar. Mas também a destruição é uma arquitectura, uma desconstrução que segue regras e cálculos, uma arte de decompor e recompor, ou seja, de criar uma outra ordem: quando um muro de folhagens caía de súbito, abrindo a imagem das ruínas de um castelo longínquo na luz do crepúsculo, o barão von R. detinha-se alguns minutos a contemplar o espectáculo que ele próprio encenara e depois voltava a partir à pressa, para não mais ali regressar.

Danúbio | Claudio Magris, 1986