Sínodo LGBT













Antes de mais, destas últimas semanas ficaríamos com a ideia de que o que sucedeu em Roma, ao invés de um Sínodo dos Bispos sobre a Família, teria sido, antes, um sínodo LGBT, tal a profusão de notícias contraditórias e a confusão difundida por Roma. E a confusão, diz-nos a Doutrina, é diabólica.
No entanto, destas últimas semanas podemos reter, no essencial, o que tem sido a Igreja na sua relação com o mundo. A Igreja pós-conciliar.

Da relação da Igreja com o mundo pelos media: profeticamente disse ainda hoje o Arcebispo Chaput, de Filadélfia, colhermos informação na imprensa é um equívoco. A imprensa, sabemo-lo, está interessada na espectacularização da dissensão e, em última análise, no ataque à Igreja. E, como a ignorância abunda nas redações, facilmente obtemos explicação para parte da confusão difundida a partir de Roma. Mas não explica toda. (E sobre esta relação Igreja/media recomendo a leitura de um post do Tiago Cavaco, pastor Baptista, no blog A Voz do Deserto, a propósito do despropósito deste Sínodo.)
Nota também para o equívoco que é a suposta abertura e «transparência» deste Sínodo em que, pela primeira vez, não foi permitida a publicação das transcrições de todas as intervenções do colégio sinodal.
Depois, vários vícios, diria dogmas, seculares, que, como também profeticamente avisou o Beato Paulo VI, são o «o fumo de Satanás no altar do Senhor». De todos eles, o maior, o da «democracia», como se esta não fosse parte, não o todo, do processo de decisão que emana da Tradição. E como se o estado das puras democracias ocidentais não fosse lamentável para que não lhes puséssemos a vista no exemplo do que é o Bem-comum sitiado por interesses particulares e divisionistas. Depois, o clássico de inspiração marxista, «conservadores» vs. «progressistas» e a concomitante acrobacia semântica que faz do conservador uma figura cavernícula a bramir a inexorável marcha do «progresso» e dos amanhãs que cantam. Também de inspiração marxista, chegamos ao núcleo do que tem sido este Sínodo dos Bispos sobre a Família visto pela imprensa: a agenda LGBT (política, portanto) já hegemónica nas redações e tornada como que uma realidade inquestionável, dogmática, diria, da contemporaneidade iluminada a povoar as consciências tomadas pelo aggiornamento permanente da Igreja.

Vamos por partes.
Experimentamos hoje uma tremenda dificuldade em ouvir sem exaltação irracional e alguma ira a doutrina tradicional da Igreja no que toca à moral sexual e familiar. No mundo hiper-sexualizado e do prazer de imediata satisfação, a mensagem da castidade e do sexo como dádiva não encaixa. O homem moderno, habituado a ver atendidos todos os seus desejos, ou antes, caprichos, resiste a aceder, muito menos compreender, o que é dito pela Igreja. A vontade de emancipação radical deste sujeito moderno leva-o à grande recusa de qualquer obstáculo que se possa interpor entre o desejo e a imediata satisfação deste. É correcto o diagnóstico que há pouco tempo fez a Conferência Episcopal Alemã, que refere, sobre a incapacidade da doutrina exposta na Humanae Vitae chegar ao coração dos homens.
Estes mesmos homens, mergulhados na mais narcotizada atmosfera cultural que o Ocidente experimentou, erguem-se, do meio do lamaçal da irracionalidade em que habita, para, com soberba e orgulho (doenças típicas de um certo modernismo), reclamar a sua subjectividade e umbigo como o novo Absoluto. O eu elevado a Deus. A egolatria que devém psicose: o capricho como forma de leitura do mundo e, consequentemente, princípio de organização do real. Daqui à construção de uma obsessiva ideia de democracia como palanque onde os outros terão imperiosamente que ouvir e cumprir a vontade do eu é um instante. Da polifonia onde se ouça a voz de cada crente, de cada homem, e que canta toda a Igreja, passamos rapidamente ao ruidoso coro da dissensão do mundo.
É este o primeiro momento do ataque à Tradição. Um ataque caucionado por uma ideologia que anuncia a tábua rasa do passado, logo da Tradição, em prol da novidade permanente. E a novidade, parece, é a homossexualidade e o adultério e as separações. Coisas nunca vistas e experimentadas pela humanidade e descobertas há coisa de 5 anos pela faróis do progresso civilizacional em gabinetes de estudos sociais da Academia Ocidental.
De que falamos quando falamos de «acolhimento» a homossexuais e a divorciados recasados? Falamos em rasgar as epístolas de Paulo? Falamos em renunciar ao anúncio sempre novo da Verdade do Evangelho na Pessoa de Cristo e dos ensinamentos (moral) que dimanam sempre fulgurantes do Salvador? Falamos em esquecer a realidade do mal e da pessoa de Satanás (e o Papa Francisco amiúde se lhe refere) e do pecado, que tantas e tantas vezes para eles somos alertados por Cristo? Falamos em abolir o 6º mandamento da Lei Mosaica? Falamos em abrir brechas na beleza da doutrina tradicional da moral sexual e familiar por causa da exigência desta, escudados na sensibilidade contemporânea do hedonismo radical? Falamos em desistir da bondade da Verdade por troca com o "bonismo" (Papa Francisco), do sentimentalismo e auto-indulgência com que vivemos? De que falamos então quando falamos em "acolhimento"?
Obviamente que o sofrimento dos irmãos, de todos os irmãos, deve ser a prioridade dessa Igreja-hospital-de-campanha anunciada pelo Papa Francisco. Deve ser a prioridade de todos nós, em obediência ao imperativo da Caridade e do Amor. Mas a Misericórdia não pode ser a erosão do rigor doutrinal, a Misericórdia não pode ser dita como novo fariseísmo que, desta vez, decorre do mundo radicalmente secular, a Misericórdia não é, jamais, contradição com a Verdade. A Misericórdia não é complacência. Muito pelo contrário.

O texto de Kasper enferma em várias contradições, ainda que possa sugerir uma nova direção pastoral sobre estas matérias. E, de caminho, abrindo o recurso à excepcionalidade e às irrepetíveis circunstâncias de cada caso (o óbvio ululante), mina, não o edifico doutrinal, mas a condenação não ao pecador mas ao pecado.
Por outro lado, é espantoso que num debate sobre moral sexual e família, no afã da novidade e de 'acompanhamento' do mundo, não se ouça uma palavra a partir da magistral Teologia do Corpo de S. João Paulo II que, recorde-se, foi uma brutal resposta a, lá está, novos problemas, entre os quais o aparecimento da SIDA, dentro dos ensinamentos da Igreja. Espantoso também como a Verdade, o mal, o pecado, a caridade (amor) são termos quase apagados da gramática do que temos ouvido ultimamente e com mais estridência de dentro da Igreja - sim, a semântica também molda a realidade.
Como disse o Cardeal Dolan, em resposta a Kasper (por acaso, ou não, autor de infelicíssimas e lamentáveis acusações às igrejas africanas), não é a Igreja que tem que ser transformada pelo mundo, é o mundo que necessita de ser transformado pela Igreja. E isso, a Igreja só o poderá fazer se proclamar com alegria a Verdade de Cristo; se permanentemente se converter a essa Verdade, ciente das suas misérias e pecados. A Igreja e todos nós.

Tudo isto deixar-nos-ia perplexos e desorientados, como se de Roma ainda erradiasse a grande recusa do Papa Bento XVI e a sede vacante fosse o estado actual da cadeira de Pedro. Não fosse a fé de que o Espírito Santo conduz a Igreja ao altar onde, santificada, seja a verdadeira esposa de Cristo.



REALITY TV

Gone Girl | David Fincher / 2014










O que a televisão esconde quando mostra tudo. Um único plano salva um filme?

quotidiana


todos os dias
são dias do juízo final
todos os dias
menos este










Denúncia










Democracia, alfa e ómega dos clérigos laicos contemporâneos, vive disto: de «denúncias».
Para além da óbvia fealdade da palavra e da obscenidade do acto, é esclarecedor que o «debate público» - outra ficção do país dos póneis democráticos - se faça sobre e a partir de «denúncias» e da ruína moral de todos.



SubSolo












Coisas que acontecem em Lisboa quando vêm as chuvas e necessitamos, necessitamos sempre, de um milagre: "O céu devia estar cheio de rezas e choros, porque nessa tarde condensou a água de repente e choveu tudo duma vez. Fez-se escuro como a pele dum rato e, minutos depois, largou o peso na terra."



coisas que passam e ressuscitam no tempo duplo da exumação*












Café Chave d'Ouro, Lisboa | Arqtº Norte Júnior, 1936

*Carlos Drummond de Andrade

arquitectura & poder


Power is a lot like real estate. It's all about location, location, location. The closer you are to the source, the higher your property value.












Such a waste of talent. He chose money over power. In this town, a mistake nearly everyone makes. Money is the Mc-mansion in Sarasota that starts falling apart after 10 years. Power is the old stone building that stands for centuries. I cannot respect someone who doesn't see the difference.


Francis Underwood, House of Cards

A Educação Pela Pedra

Aprenderei a amar as casas
quando entender que as casas
são feitas de gente
que foi feita por gente
e que contém em si a possibilidade
de fazer gente.


[Two-Lane Blacktop, Matilde Campilho, in Jóquei]














Cada geração tem a Copa que a define





Selecção Portuguesa, Saltillo, 1986




Há algo de bonito em ser um país que usa as Copas para recordar de si mesmo.

Perceba: não há uma conversa sobre o Mundial em que nossas memórias não sejam convocadas. Parece um caminho que facilmente nos explica, balizando o tempo em meio a nossas histórias e ainda define nossas gerações, como as guerras definem as gerações americanas e os golpes, as tailandesas. Pelas Copas, sabemos o que ouvíamos, o que sorríamos, o que chorávamos, com mais facilidade e precisão do que, por exemplo, pelos Carnavais.

Eu? Eu sou da geração que viu o mundo encaretar antes de ter idade para aloprar. Fechei os anos 80 com 11 anos, na zona oeste do Rio. Não cheirei na Hippopotamus, não tive blazer com ombreiras, perdi a virgindade com camisinha – algo impensável para os meus tios.

Quando virei adolescente – 12 anos em 1990 -, meu mundo tinha medo da Aids, da hiperinflação, dos excessos de cores e de 4-3-3 com um único cabeça de área. Era um ensaio do pós-Apocalipse: ganhávamos pouco, tudo perdia valor rapidamente, só nos restava abrir mão do prazer em nome da sobrevivência.

Camisinha. Compras do mês. Dois volantes. Três zagueiros. A Copa de 1990, de lazarônica lembrança, foi a epítome futebolística de um mundo que morria de medo de gozar.

A Itália registrou a pior média de gols dos Mundiais – 2,21 por partida – num festival de empates surdos selado por uma final controversa e a sensação de que talvez o futebol trouxesse ansiedades demais. O zen-budismo surgia como possibilidade de remédio contra essas angústias.

Acabaríamos, por caminhos tortos, chegando ao Nirvana no ano seguinte, e o Nirvana acabaria em 1994. Todo niilismo tem fim, e não vestiríamos flanela no verão americano. A economia ensaiava uma reação, e Parreira parecia um economista da PUC-Rio no comando de medidas impopulares: Dunga e Mauro Silva, com vistas a Bebeto e… Müller. Não, isso foi até 1993, quando Romário voltou à camiseta canarinho nos brados do povo. Mesmo assim, até as mulheres reclamavam, já que os shortinhos tinham se encompridado em bermudas de surfista.

Em múltiplos sentidos, 1994 foi o ano que marcou minha geração. Aos 16 anos, eu continuava virgem, mas já era campeão do mundo e a latinha de coca era R$ 1. Trocávamos Senna por Romário, e muito embora zero a zero e pênaltis fossem um final meio mais ou menos, ser tetra era um barato, e nossas adolescências estavam salvas.

Se me dissessem que, vinte anos depois, a Copa seria num Brasil de tanto prazer represado, de medos renovados e ranço, eu jamais acreditaria. Carregamos esta Copa como um fardo, envergonhados por não sermos o que nunca fomos.

Por outro lado, vimos um país no divã, desconstruindo a si mesmo, em busca de seu verdadeiro eu, evitando ao máximo o transe do futebol como se fosse não apenas um vício, mas uma crendice que deveríamos abandonar em nome do desenvolvimento, do próximo passo, da quebra de padrão.

O melhor legado desta Copa 2014 foi reunir tanta gente em torno de um debate de país. Talvez esta Copa tenha sido fundamental para o alvorecer de uma nação diferente, catalisando almas, frustrações e sonhos, mais do que obras, mais do que investimentos.

Só ficou chato quando começamos a negar a nós mesmos, minimalizando nossa vocação de festa. Como se, depois da encaretada da culpa sexual, fosse a vez da encaretada da utopia, enquadrando o prazer e revistando a consciência nacional.

Fechados para balanço, entendemos que o futebol muito nos deu como nação e orgulho, mas muito nos tira também. Que não é direito básico nem religião, embora nos inspire e nos una em torno de algo que se sente ao longo de 8 milhões e meio de quilômetros quadrados. Que é um dos fios que seguram essa trama, como a língua portuguesa e a herança cristã que também respiramos sem ver. Que nos situa no tempo e ainda nos define cada geração, melhor do que qualquer guerra, revolução ou golpe.

E daí que você não vê muitas ruas pintadas de verde e amarelo, se todas as conversas e olhares já estão enfeitados com lembranças e fervor? Vamos reconhecer nosso habitat, sim, nos olhos dos turistas, dos jornalistas, dos jogadores e das crianças, que se explicarão a partir de nós, daqui a 20 anos – ou apenas cinco Copas.


Márvio dos Anjos / Globo Esporte














Mitteleuropa













É reconfortante que a viagem tenha uma arquitectura e que seja possível contribuir com algumas pedras para esta última, embora o viajante pareça ser não tanto alguém que constrói paisagens – tarefa do sedentário – como alguém que as desmonta e desfaz, à semelhança do barão von R. descrito por Hoffman, que corria mundo coleccionando panoramas e, quando o considerava necessário para gozar ou criar uma bela perspectiva, mandava cortar árvores, desbastar ramos, aplanar as irregularidades do solo, abater florestas inteiras ou demolir fábricas que tolhessem o olhar. Mas também a destruição é uma arquitectura, uma desconstrução que segue regras e cálculos, uma arte de decompor e recompor, ou seja, de criar uma outra ordem: quando um muro de folhagens caía de súbito, abrindo a imagem das ruínas de um castelo longínquo na luz do crepúsculo, o barão von R. detinha-se alguns minutos a contemplar o espectáculo que ele próprio encenara e depois voltava a partir à pressa, para não mais ali regressar.

Danúbio | Claudio Magris, 1986














elogio do fracasso















I
No se engañe: los libros de autoayuda sólo ayudan al autor. Por eso se llaman de “auto” –uno mismo- “ayuda”: me ayudo a mí mismo a ganar dinero con los incautos que lo comprarán.
Y no se engañe: la vida tiende al fracaso. De hecho, fracasa siempre porque se termina. Todo el mundo muere, incluso los autores de libros de autoyuda. Es más: se muere todo tarde o temprano. Una rosa, normalmente, muere antes que usted. Un perro también puede morirse antes que usted. Un trozo de mármol dura más, pero acaba convirtiéndose en polvo al cabo de unos cuantos milenios. Mueren las galaxias, imagínese. O sea que no se haga ilusiones, se lo repito: todo el mundo muere –y digo mundo en el sentido más amplio, más cósmico- y los autores de libros de autoayuda y los anuncios pretenden convencerle de lo contrario.
Aceptar el fracaso es aceptar no una, sino LA –con mayúscula- ley de esta vida que nos ha tocado vivir.
Nos ha tocado, sí. Ni a usted ni a mi nos pidieron permiso para nacer. Nos nacieron. Tampoco nos pedirán permiso a la hora de la muerte. Ésta llegará inexorable cuando tenga que llegar. Acéptelo también. Acéptelo de una vez. Todo el impresionante mecanismo económico-político-militar que nos envuelve –que nos exprime- se fundamente en la curiosa idea de hacernos creer que somos eternos y que viviremos aquí en este planeta para siempre y seremos felices y comeremos perdices.
No. Rotundamente no. Usted como yo –léalo en voz alta- VAMOS A MORIR. (Sí, como en las malas películas de terror cuando se acerca el asesino con una motosierra y es obvio que quiere cargarse a todo el mundo).
Cuanto antes acepte usted con cierta paz –con mucha ni lo intente: fracasará- que va a morir, antes alcanzará un grado razonable de felicidad.
Bien. Pero analicemos el párrafo que está dos más arriba que éste. Decía que a usted y a mí nos nacieron sin pedirnos permiso. Usted se da cuenta de que esto es absoluta y completamente cierto. Por lo tanto, la frase más típica de los libros de autoayuda –no sólo la frase, sino el alma entera de todo libro de autoayuda que se precie- que es aquella de “soy un hombre hecho a mi mismo” –self made man, en inglés- es falsa. Es una mentira. Los autores de libros de autoayuda y todo el sistema que nos envuelve pretenden hacernos creer que nos podemos construir a nosotros mismos en plan “bricolaje”, como si fuéramos piezas de un juego de niños (de hecho, pintan tan fácil tener éxito en la vida como un juego de niños). Han logrado convencer a muchos millones de señoras y señoritas en todo el mundo del hecho absurdo de que pueden construirse a ellas mismas eternamente a base de operaciones de cirugía estética y de cremas milagrosas. Lamento tener que ser crudo: las operaciones de cirugía estética y las cremas servirán de sabrosa comida a la enorme variedad de gusanos y gérmenes que habitan felices –ellos sí- en un cadáver que se descompone. Están exportando el invento a los hombres con notable éxito para las cremas y los gimnasios y un éxito apoteósico para pastillitas que ayudan a tener erecciones, o incluso priapismo, a señores que o bien ya no deberían tenerlas, o bien deberían tenerlas pero no con la frenética frecuencia con que las tiene un chaval de 17 años. ¿Qué hay de malo en que un abuelo tenga erecciones y, lógicamente, relaciones sexuales a los 98 años? En principio, nada, si su sistema cardiovascular se lo permite. El problema es que el abuelo en cuestión puede llegar a creer que las erecciones le durarán hasta los 349 años, y esa edad –estaremos de acuerdo- es muy difícil que llegue a cumplirla.
A las señoras de 84 años con pechos de jovencita de 23 les sucede lo mismo. No entienden que los pétalos de las rosas se marchitan y se caen y que un seno artificial es lo más parecido a una rosa de plástico. Entre otras cosas peores, huele a plástico.
Permítame una digresión. Mi mujer acaba de leer lo que llevo escrito.
-Qué triste, qué pesimista, qué mal –dice.
-Ya, cariño. Pero es la verdad –digo.
-Vale, pero no hace ilusión leerlo –dice.
-Perfecto. Entonces este libro será un fracaso, que es lo que pretendo –digo.
Y prosigo. Naturalmente, me enciendo otro cigarrillo. Fume usted en paz. O no fume, haga lo que quiera. Si es de los que intentan dejar de fumar y no pueden, no se agobie. Como todos los fracasos de la fuerza de voluntad, es normal. El hombre o la mujer de la calle, la mayoría de nosotros, tenemos muy poca fuerza de voluntad. Es más, tenemos muy poca fuerza para hacer cualquier cosa por pequeña que sea. Usted intenta no enfadarse con sus hijos y no lo consigue. Intenta sonreír más a menudo a su mujer y no lo consigue. Intenta poner buena cara con aquel pesado de la oficina y no lo consigue. Intenta no tomarse el tercer whisky y no lo consigue, por el contrario, se toma otro y se abraza a sus amigos de mesa; y luego otro y, ya sabe, comienzan los insultos a la autoridad y al clero. Y a la mañana siguiente tiene usted que recurrir al ibuprofeno para presentarse en el trabajo con un aspecto que recuerde, aunque sea vagamente, al de un ser humano. Normal. Son pequeños fracasos. La vida está llena de pequeños fracasos. No se agobie.


II
No se agobie y piense. Hubo un hombre nefasto, que vivió hacia finales del siglo XVIII y que se llamaba Juan Jacobo Rousseau, que tuvo la ocurrencia de decir que el hombre es bueno por naturaleza y que es la sociedad la causa de todos los males. Si usted se mira al espejo, antes o después de tomarse el ibuprofeno, se dará cuenta de que la sociedad no pinta nada en su decisión de tomarse seis whiskys; y que la sociedad no pinta nada en su mente: cuando decidió, antes de esa cena, que iba a tomarse sólo un digestivo y se iría a casita para no disgustar a su santa. Usted se lo propuso con muy buena intención, pero fracasó –de nuevo- en el intento. ¿Qué gaitas tiene que ver la sociedad en todo esto? A media mañana, cuando el ibuprofeno ha hecho su efecto y usted ya lleva cuatro cafés, lee un poquito el diario en el bar. Las noticias dan miedo. Cómo está el mundo, qué desastre. Y usted, persona con una cierta cultura, se da cuenta de que el mundo ha estado así siempre y que no va a mejorar por mucho que la ciencia moderna y el estado moderno se empeñen en hacernos creer lo contrario.

El hombre de Galilea dijo que siempre habría pobres entre nosotros y habló de guerras y otros desastres. Usted se lo puede creer o no, pero es evidente que acertó. Y es que el hombre, usted y yo, no es, no somos, buenos por naturaleza. Más bien somos malos, incluso podemos ser muy malos. Mírese otra vez al espejo. ¿Recuerda aquella vez que…? Sí, aquella vez. Bien. Podemos ser muy malos. Por lo tanto, bueno, sea comprensivo con la maldad ajena –vuelva a recordar aquella vez que... antes de decirme que jamás será comprensivo con quién usted ya sabe-. Y por lo tanto, no se desespere y acepte en paz que estamos estropeados desde el principio por alguna causa misteriosa. Tampoco se empeñe en desvelar todos los misterios: es algo que no está a nuestro alcance; de hecho, está tan lejos de nuestro alcance como sonreír al vecino pesado de la oficina.

No se haga ilusiones sobre usted mismo. Si no se las hace, será más feliz, se lo garantizo. Dicho con otras palabras: acéptese como es y acepte las circunstancias de su vida, sean las que sean; entre otras razones, porque no hay más que su circunstancia presente: el pasado ya no existe y el futuro tampoco existe, dado que aún no ha llegado. Por mala que sea su vida, ¿preferiría estar muerto o no haber nacido? Si la respuesta es sí, deje de leer inmediatamente, coja una pistola y péguese un tiro o láncese al vacío desde un décimo piso –para asegurar que se convertirá en una papilla con tropezones bastante desagradable-, o haga lo que quiera, pero mátese. En el caso, más habitual, de que decida seguir viviendo su miserable vida, no tiene sentido andar lamentándose en exceso. Quiero decir que puede usted lamentarse cuanto quiera, pero le servirá de muy poco, o le servirá de momentáneo desahogo, como acordarse de la madre del árbitro que no puede oírle porque usted está en el palco y él, en el punto de penalti.

No crea usted que exagero cuando digo lo de pegarse un tiro. Ayer mismo un niño de la clase de mi nieto se encontró a su padre muerto de un certero disparo de escopeta en la cabeza. El niño también encontró una nota: “No entres en el cuarto de baño y llama a la policía”.

Un hecho brutal, sí. Pero si usted no tiene intención de hacer algo semejante y quiere seguir vivo, le daré algunos consejos absolutamente contrarios a todos los que pueda leer en los libros de auto-ayuda.



III
¿Se ha fijado usted en un hormiguero? Es una comunidad pequeña, muy pequeña realmente. Un charco en el suelo, a los ojos de una hormiga, es el lago Michigan. El estanque de un jardín urbano es el mar Mediterráneo. Las montañitas de arena que hacen los niños pueden parecerle a la hormiga las cumbres de Navacerrada y, desde luego, un cerro tiene las proporciones del Everest. Imagine que hay hormigas buenas y malas. Imagine que las malas conspiran, secuestran y matan para alcanzar el poder en el hormiguero. Imagine que hay hormigas avariciosas que acumulan reservas de comida o de otras cosas –son las hormigas millonarias-. Imagine que hay hormigas que desean conquistar hormigueros vecinos, hormigas imperialistas. Imagine a las hormigas intelectuales tratando de imponer a sus congéneres sus ideas y su modelo de sociedad en el hormiguero y en todos los hormigueros del planeta. Imagine cuánto afán para ser…¿Los reyes de un hormiguero o de muchos hormigueros? ¿Los más ricos de un hormiguero? ¿Los más listos de un hormiguero?
Bien. Considere que el planeta Tierra es casi infinitamente más pequeño que un hormiguero en comparación con la casi infinita extensión del universo conocido. Si añadimos lo que nos queda por descubrir del cosmos, la proporción se reduce a la de una partícula subatómica. El planeta es como un protón en un mar inmenso de galaxias. El planeta, además, es un bola de magma incandescente que viaja a gran velocidad alrededor de una especie de bomba atómica múltiple y gigantesca que llamamos sol. El planeta dispone, sí, de una corteza fina pero muy agradable a la vista en su mayor parte, que posibilita la existencia de vida.
Sin embargo, a nadie parece importarle un comino lo que acabo de contarle. Encuentran normal viajar en una bola de fuego en medio del espacio sideral y encuentran normal romperse los cuernos por ser los reyes del hormiguero. Nadie se ha molestado en coger una enciclopedia y ver quiénes eran los tipos importantes de, pongamos por caso, la Argentina en 1867. Si están en la enciclopedia, nadie se acuerda de ellos. Como nadie se acuerda del gobernador de una provincia del imperio persa del año 359 de nuestra era. Como nadie recuerda quién era el Bill Gates de los hititas o de los asirios. Nada queda de la gran Babilonia salvo un montón de polvo y piedras. Nada queda de Nínive. Poquita cosa de Cartago. Y del antiguo Egipto, 6.000 años de historia, nadie recuerda el nombre de algún rico empresario de la época o de algún comerciante, a menos que se citen en papiros con relación al faraón de turno. Generaciones y generaciones de hormigas constructoras de hormigueros con forma de pirámide que viven en el anonimato milenario de las arenas del desierto, gentes que van y vienen y desaparecen de la orilla como las olas del mar. Nada. O casi nada.
Y entonces aparece el autor de libros de auto-ayuda a decirle que dedique su vida a perseguir el éxito y a triunfar. Y se permite la desfachatez de decirle cómo se hace.



IV
No se gana mucho dinero honradamente. Olvídese.
Conozco personas que han ganado dinero trabajando honradamente. Pero no han ganado mucho, muchísimo dinero. Muchísimo dinero es muchísimo dinero, usted ya sabe lo que quiero decir. Sin embargo, incluso esas personas que han ganado dinero, o mucho dinero, con su trabajo honrado, alguna vez han tenido que hacer cosas que, digamos, bordeaban los límites de aquello que es moralmente correcto. O han dejado hacer a otras personas cosas que estaban claramente fuera de los límites de lo que llamaríamos honestidad profesional. No se puede andar demasiado cerca del dinero sin que este dios avaro y orgulloso te manche de algún modo imperceptible. Lo que sí puedo asegurarle es que toda cantidad indecente de dinero está manchada de sangre humana. No es necesario que se cometan asesinatos: bastan unos despidos para mejorar la cuenta de resultados de la empresa; basta una triquiñuela para deshacerse de un par de socios; basta con apretar hasta la asfixia a aquel proveedor; basta con poner el dinero por encima de cualquier otro principio para que el dinero se cobre, con despiadada puntualidad, su precio en sangre humana.
De modo que trabaje usted con tranquilidad para ganarse el pan, el suyo y el de sus hijos, si los tiene. El empresario tiene la obligación de pagarle. Si no lo hace, lárguese y denúncielo y busque otro trabajo. O monte cualquier negocio que le permita ganarse la vida. Volver al campo y cultivar un pedazo de tierra y cuidar unas gallinas, siempre ha sido una buena opción.
Si usted cree que tiene una buena idea, intente concretarla. Las buenas ideas, como las buenas intenciones, si no se concretan no sirven para nada. Ya sabe que el infierno está lleno de buenas intenciones y de buenas ideas sin concretar. Si no tiene una buena idea, no pasa nada: la mayoría no tenemos buenas ideas, o no tenemos ideas en absoluto. Los que tienen ideas todo el rato viven en mundos paralelos y suelen perderse los perfumes de las rosas y las puestas de sol y las sonrisas de sus hijos. Si tiene una buena idea y no la lleva a la práctica, tampoco pasa nada: quede con unos amigos para cenar y tomarse algo y les cuenta su idea; lo pasarán muy bien y no harán daño a nadie.
Trabaje si puede en aquello que le gusta, aunque no le extrañe que no le guste nada especialmente. Hay muy pocos afortunados que saben lo que les gusta y tienen la suerte de ganarse la vida con su afición. Procure, eso sí, que le acabe gustando aquello que hace: aunque le parezca aburrido y monótono ningún día es igual a otro, ningún momento es igual a otro. Y, sobre todo, ningún momento vuelve. Lo que ha vivido ya lo ha vivido, no hay marcha atrás ni repetición de la jugada. Por lo tanto viva cada momento con toda la intensidad y con toda la calma de que sea capaz. Yo mismo, ahora, estoy tecleando en este ordenador demasiado deprisa. Si lo hiciera más despacio, me daría cuenta de la maravilla que tengo ante mis ojos: le doy a unas teclas y, como por arte de magia, aparecen unas letras sobre una pantalla en blanco que se va llenando de palabras. Si tecleara más despacio es muy probable que escribiese mejor, pero no quiero ganar el premio Nobel –ni siquiera sé si quiero publicar este librito-, usted ya me entiende. Lo único que quiero es decirle que viva tranquilo porque, en realidad, hay muy pocas cosas que deban preocuparnos.
Se fomenta la preocupación. Y ésta es la base del negocio de las aseguradoras. Juegan con el “por si pasa algo” con un descaro que produce vergüenza ajena. Juegan a hacerle creer que usted puede controlar su vida y sus circunstancias, lo cual, lo repito, es una enorme falsedad. Que usted y yo sigamos vivos no depende de nosotros. Que nos pongamos enfermos o que permanezcamos sanos no depende de nosotros. Y cuando caigamos enfermos, la aseguradora, si la cosa es grave, se deshará de nosotros a las primeras de cambio, después de subirnos la cuota a niveles estratosféricos.
Y ya que hablamos de salud: viva feliz y olvídese del colesterol, del azúcar y de la tensión arterial. Las farmacéuticas y los médicos suben cada poco los niveles que consideran razonables para que usted crea que está enfermo y necesita una pastillita. El negocio de las pastillitas es uno de los que hace ricos a los avariciosos del hormiguero.
No haga deporte. No. No haga deporte. Es malo para su salud y para su mente. El hombre está hecho para caminar. Si estuviera hecho para correr sería un guepardo. Pero incluso los guepardos duermen o descansan más tiempo del que pasan corriendo. Los animales sestean mucho y, en general, sólo se mueven para conseguir comida. Ninguno de nosotros conseguirá la bella musculatura de un león por más horas que pase en el gimnasio. Otra cosa es que a usted le guste correr o jugar a la petanca. Hágalo en paz, por supuesto. A mí lo que me da mucha pena es ver a tipos embutidos en chándales y camisetas “técnicas” de dudoso gusto, galopando como posesos, en un estado de cuasi crisis cardiorrespiratoria, por las calles de nuestras ciudades. Cualquier hormiga en su sano juicio diría que eso es una animalada. Se trata, lo ha adivinado, del lavado de cerebro al que nos han sometido los fabricantes de material deportivo: si la gente no corriese, ellos no venderían nada. Nos hacen creer que les importa nuestra salud y nuestra felicidad, lo cual es una manera muy ingeniosa –lo reconozco- de llamar a los beneficios antes de impuestos de una empresa.
Por lo tanto, no se crea la publicidad, ni la publicidad de los bancos, y no gaste más allá de lo que puede permitirse. Le están creando falsas necesidades. No hace falta tener un coche tan potente como uno de competición para ir a trabajar o para ir a la playa. En realidad, no hace falta tener coche. Camine usted o use la bicicleta o coja el autobús. O, simplemente, quédese en casita tan ricamente.



V
ESTÉSE QUIETO, HAGA EL FAVOR
Una de las pestes de los tiempos modernos es el turismo. Masas de gente aborregada que invaden lugares más o menos bonitos y los llenan de desperdicios y de miradas muy parecidas a las de los rumiantes cuando rumian. Grupos que transitan de un lugar a otro del planeta para terminar comiendo y bebiendo en los mismos sitios que tienen a dos manzanas de su domicilio habitual. Seres humanos que pagan un buen dinero por zambullirse en mares que nada tienen que envidiar a los que bañan nuestras costas. Personas a las que encierran en campos de concentración de lujo hortera, a 10.000 kilómetros de distancia, para hacer las mismas cosas que podrían hacer a la vuelta de la esquina.
La mayor parte de los problemas de esta humanidad desquiciada tienen su raíz en el hecho de que el hombre no sabe quedarse tranquilamente en su casa. ¿Usted se ha fijado en el árbol que tiene en su calle? Admírelo. Pasarán mil años y no habrá sido capaz de apreciar todos los matices de ese árbol: es distinto según las estaciones del año; es otro árbol si llueve o nieva o luce el sol; su color cambia, cada mañana, cada tarde, cada noche; suben o bajan hormigas por el tronco y, algunas veces, hay excrementos de perro en la tierra junto a las raíces y, otras, no. Luego están las hojas, distintas todas ellas, el universo entero contenido en una sola hoja. ¿No me cree? Coja una de esas hojas y contémplela… Es una maravilla. Tómese el tiempo necesario. Vuelva a mirar la hoja. Ni siquiera el mejor diseñador de coches de competición del mundo –suelen ser italianos- puede lograr una forma semejante. Al cabo de unos días la hoja amarilleará en sus manos y, como el excremento de los perros al pie del árbol, le hablará del fracaso de la vida. Es lo que toca. Lo que pasa es lo que toca. Y una hoja separada del árbol muere antes que las hojas que permanecen en él. Voy a hacer una comparación poética para que usted me entienda mejor: el árbol es su vida presente, su momento presente, su ahora; si usted se va del ahora, morirá: estará en el pasado o en el futuro, en los dos casos, ya se lo he dicho, habitará mundos que no existen más que en su imaginación. ¿Recuerda a Don Quijote? Es una novela muy divertida que nos habla precisamente de esto.
Entonces, si una simple hoja, es inabarcable, imagine el parque que tiene al lado de casa, con unos cuantos árboles y unas cuantas flores. La naturaleza es un exceso de belleza que no sabemos apreciar porque nos movemos demasiado. No se mueva, hombre. Hay tanto que admirar. ¿Se ha fijado usted bien en el cálido amarillo de una tortilla de patatas? ¿En el rojo cambiante de un buen vino? –los vinos malos también son rojos si son tintos, y, en general, los de ahora son mejores que los que bebían los reyes en el siglo XVIII-. Vamos muy deprisa y damos por supuestas muchas cosas. Esa tortilla de patatas hay mucha gente en el planeta que no puede disfrutarla y usted la tiene en casa o en el bar de la esquina. ¿Cuántas veces ha desaprovechado usted la ocasión de disfrutar de la tortilla de patatas porque estaba pensando, mientras la comía sin prestar atención, en el hijo de su madre del árbitro, en el pesado de la oficina o en la aseguradora que le ha subido la cuota? Por no hablar de los remordimientos que ha tenido después recordando la dieta que no es capaz de hacer o los índices de colesterol que le han dicho que debe mantener a raya.

OLVÍDESE DE SU SALUD Y VIVIRÁ MEJOR
Otro engaño de esta sociedad es que nos hace creer que viviremos eternamente. No. Se lo repito: no. Viva usted 120 años. Tal vez 800, como los patriarcas bíblicos. ¿Y qué? ¿Sabe usted la de cientos de miles de millones de años que este universo anda por ahí soltando bolas de fuego que dan vueltas alrededor de otras bolas de fuego que van y que vienen? El cosmos entero, si pudiera ser visto a cámara rapidísima, sería como un castillo de fuegos artificiales. Uno de esos puntitos brillantes que han durado unos segundos es el planeta Tierra. Pues eso es todo.
¿Y quiere usted venderme un seguro de vida? Permita que me ría, señor vendedor, y que le invite a una cerveza.
Disfrute de una buena cerveza en la taberna y contemple el árbol de la calle a través del ventanal. Sonría. Y cuando le hablen de fracaso, dígales que, en este preciso instante, millones de masas galácticas han fracasado como planetas o como estrellas, han implosionado o han sido engullidas por un misterioso agujero negro, del que no escapa ni la fuerza gravitatoria, ni nada de nada. ¿Fracaso? Invite a otra cerveza al que le hable de fracaso.



VI
FRACASE Y CONOCERÁ A SUS AMIGOS DE VERDAD
Pongamos por caso que usted es una de esas hormigas listas que consigue destacar en el hormiguero. Almacena usted grandes cantidades de comida, la vende bien, gana dinero, exporta su comida a otros hormigueros, compra los negocios de sus competidores y crea un imperio –en el hormiguero, no pierda la perspectiva-. A sus fiestas acuden los personajes más importantes y los menos importantes le hacen la pelota. Hormigas menos afortunadas le piden trabajo o dinero y usted, generosamente, les da trabajo y dinero. Incluso aquella hormiga que se peleó con usted la semana pasada, cuando eran jóvenes, –el tiempo también es distinto en los hormigueros-, vuelve para pedirle un préstamo y usted le dice que pelillos a la mar, todo olvidado, venga esas cinco patas, y se lo concede. En fin, todo es felicidad a su alrededor. Es usted uno de los reyezuelos del hormiguero.
Y, de repente, shit happens. Ésta es una expresión anglosajona de muy difícil traducción: viene a decir que surgen problemas como caídos del cielo; sin comerlo ni beberlo pasa una de aquellas cosas que hacen exclamar a los humanos: ¿por qué a mí? (Uno de los mejores relatos de las consecuencias de un shit happens se encuentra en la Biblia, en el libro de Job).
En el caso que nos ocupa, la situación puede, realmente, caer del cielo. Aquel niño se ha bajado de la bicicleta y ha puesto los pies justo encima del hormiguero. Para ser más exactos, ha puesto uno de los pies encima de la sede de su empresa y el otro, sobre su casa, que estaba al lado. Usted se ha salvado porque se encontraba de viaje en el hormiguero vecino, medio metro a la derecha de la rueda delantera de la bicicleta del niño. Le llevará a usted todo el día regresar a su domicilio. Lo hará deprisa porque está seguro de que, como temían los galos, el cielo ha caído sobre su cabeza –las hormigas científicas se encargarán de determinar qué clase de monstruoso OVNI metálico es ese que ven brillar sobre el horizonte; en cuanto al niño, lo catalogarán como uno de los nefilim que menciona, misteriosamente, el Viejo Libro-.
Al llegar a su casa, usted se tropezará con el desolador espectáculo de la destrucción de todo lo que constituía su vida. Ya no tiene casa, ni familia, ni empresa, ni comida. No tiene nada. Vagará como alma en pena por el hormiguero rogando un poco de ayuda y nadie se la dará. Sus amigos le volverán la espalda. Aquellos a los que favoreció con dinero y con trabajo le exigirán que cumpla los contratos.
-Todo ha desaparecido. Uno de esos nefilim lo destruyó todo –gemirá usted.
Pero nadie tendrá piedad. Es más, la reina del hormiguero le expulsará, acusándole de falta de previsión y de negligencia.
Es posible que alguna hormiga de los barrios bajos le permita dormir en su chabola de las afueras y un gusano le hablará sobre el sentido de la vida de los gusanos.
-Usted, querida hormiga, lo ha perdido todo, es cierto. Incluso los amigos. No sé por qué digo “incluso” –le dirá el gusano- cuando los amigos son lo primero que uno pierde si van mal dadas. A mí me sucedió algo parecido. Al final, sólo una mosca, que había sido mi principal competidor en el negocio de la fruta podrida, me acogió en su casa y me dio trabajo. Los humanos se han empeñado en hacerse eternos a base de conservantes y los cadáveres no hay manera de que se descompongan. Esto es un problema para las moscas. Los gusanos somos más tenaces y al final conseguimos convertir en comida incluso esos pechos de silicona de las abuelas de 94 años. Digamos que yo le facilito el trabajo a mi amiga, la mosca, y ella me paga. No tenemos más relación que esa, ¿sabe? Es una mosca que está de buen ver, pero uno tiene sus principios. Estos humanos ignoran que ya alteraron el orden cósmico hace millones de años, cuando esos nefilim se juntaron con las hijas de los hombres.Alguien se enfadó, no sé si me entiende, y por poco se va todo el universo a hacer puñetas. Ahora vuelven con lo mismo y me temo lo peor. Usted, como hormiga, es posible que aprenda de todo lo que le ha ocurrido. Los humanos no aprenden nunca. Se creen algo, ¿comprende? Nosotros los gusanos estamos aquí precisamente para recordarles lo que son, pero no hay manera de que comprendan. Nos ven y dicen: “mira, un gusano”. Eso es todo. “Mira, un gusano”. Es para responderles: “Sois unos idiotas. Acabaréis todos en mi estómago cualquier día. Es mejor que nos llevemos bien.” Pero no, prefieren pisarnos. Como si pisando a un par de los nuestros, todos desapareciésemos de su vida. Apareceremos en su muerte. Yo pienso que por eso nos pisan, ¿no cree?
-No sé. Ya no sé nada… –se lamenta la hormiga.
-Nadie sabe nada, no se apure. A los gusanos sólo nos ha valorado un humano: el hombre de Galilea. ¿Ha oído hablar de él?
-No.
-Un tipo muy especial. En nuestros viejos libros se dice que llegó a compararse con uno de nosotros. Realmente, él sí tenía el sentido de la proporción y de la medida. Pero parece que la cosa acabó mal. Uno no puede decir que es un gusano y esperar que no lo pisen.
-¿Le pisaron?
-Bien, se cree que fue algo peor que eso. En cualquier caso, digamos que sí, que le pisaron.
-¿Y qué pasó después?
-Es un misterio. En nuestros archivos no consta que ninguno de nuestros antepasados se lo comiese. Un caso muy especial, como ve.
-Yo ya no veo nada. He fracasado.
-Lo comprendo perfectamente porque yo vivo del fracaso ajeno. Vivo del fracaso de la vida. De lo que los humanos llaman el fracaso de la vida. Porque, deje que me ría un poco, nosotros seguimos vivos.
-Es que se creen algo. Es una gran tentación creerse algo. Tal vez yo llegué a creerme algotambién. Y no soy más que una hormiga.
-Querido amigo, empieza usted a recordarme al hombre de Galilea. Él era alguien, eso es muy distinto. Y vino a explicarles a los humanos que eran alguien.
-¿Yo también soy alguien?
-Si usted reconoce que es sólo una hormiga, es alguien, sí. Mejor dicho, si me permite el consejo: empezará a ser usted alguien.
Fin del cuento.
Las cosas más reales sólo se pueden explicar a través de los cuentos y de la poesía. Los niños, los poetas y los borrachos son los únicos que ven lo que hay al otro lado de los espejos y por eso nadie les hace caso.
El fracaso es un camino que conduce al otro lado del espejo. Es un camino estrecho, pequeño y áspero, pero no hay otro. Si usted se queda a este lado del espejo lo único que verá es una imagen de la realidad que se hará añicos en cuanto un niño tire una piedra o aparque su bicicleta encima del hormiguero. No tengo que decirle nada más a este respecto porque usted es un hombre culto y ya sabe a lo que me refiero. Si le dijese que aparte de su vida los espejos que le impiden ver la realidad, usted no me haría caso. Nadie rompe los espejos porque todo el mundo prefiere ver una imagen de si mismo antes que ver cualquier cosa que le recuerde que aquello que ve es una mentira. ¿Quiere que le diga cuál es uno de los nombres del espejo? Lo ha adivinado: éxito. El segundo es: poder. Y el tercero se llama yo.



VII
Hemos hablado del poder y del éxito y hemos visto que el ser humano más poderoso tiene el mismo poder que una hormiga. Seguramente, mucho menos desde un punto de vista galáctico. Desde un punto de vista cósmico –incluyamos, pues, todas las galaxias conocidas y desconocidas- el hombre más poderoso del planeta se parece bastante a un neutrino de segunda, ya sabe, una de las muchas partículas subatómicas.
El éxito es un bonito espejismo. Los hombres, sedientos de algún tipo de trascendencia –a nadie le apetece morir-, corren como desesperados hacia el oasis del éxito y, cuando llegan, se encuentran con un lugar tan vacío como el propio desierto en que han convertido su miserable vida.
La causa de todos estos males es sólo una y se llama “usted”. Bueno, o yo. “Yo” quiere decir yo mismo, el que esto escribe; y también quiere decir el “yo”, eso que los autores de libros de auto-ayuda se empeñan en agigantar, convenciéndole de que usted, o yo, seremos capaces de no se sabe cuántas proezas, y de que alcanzaremos el espejismo del éxito en dos tardes.
Pues no. Lo que uno tiene que hacer con su “yo” es destruirlo a toda velocidad. Ese “yo”, en la inmensa mayoría de los casos, es una construcción ficticia, un ídolo lleno de las mentiras que usted se ha creído sobre usted mismo; vacío de los defectos que no se atreve a aceptar; y repleto de los tejemanejes que se monta para no admitir que usted es como es y no como le gustaría ser. Su “yo” no es usted. Su “yo” es un muñeco fabricado por usted mismo con elementos del pasado y del futuro. Su “yo” no existe, pero usted lo protege y lo defiende con uñas y dientes porque se cree que sin ese “yo” usted sería como un caracol sin concha o como un cojo sin muletas.
-Oiga, ¿y cómo destruyo el “yo”?
Usted solito no va a poder. Es decir, podrá hasta el punto en que le duela. Hasta el punto en que se vea desnudo. Usted nunca querrá verse desnudo y correrá a ocultarse, como se dice que hicieron Adán y Eva. (Un relato que puede usted creer o no, pero que ofrece muchas claves sobre el comportamiento de los hombres y de las mujeres. Recuerde que el cobarde de Adán escurre el bulto y culpa a la mujer. Pero esta es otra historia y no nos gustaría perder el hilo argumental).
Usted no podrá deshacerse de su “yo”. Tendrán que arrancarle esa coraza a base de fracasos. Tendrán que destruir ese ídolo a golpes de humillación. Tendrán que recordarle, con dolor, que es usted una hormiga. Es decir, tendrá usted que familiarizarse con un concepto que no cita ningún autor de libros de auto-ayuda y que los autores de manuales de espiritualidad tergiversan como demonios.
Estamos hablando de la humildad.
Le resulta desagradable, ¿no es cierto? Lee usted la palabra “humildad” y crece en su interior, de repente, el rechazo hacia estas pobres líneas y la antipatía más profunda hacia el autor, que soy yo.
Humildad.
Humildad, sí, mi querida hormiga. Puede dejar de leer ahora mismo. Lo comprenderé. Sea usted quien sea, no es agradable leer palabras como “hormiga” o “humildad”. Si usted es político, actor, periodista, escritor, banquero o cualquier otra cosa que las hormigas consideran importante, estoy seguro de que ya ha dejado la lectura de estas líneas.
Humildad.
Noto, sin asomo de duda, cómo huyen despavoridos muchos de los lectores. No les voy a pedir que vuelvan. Es muy duro enfrentarse a solas con uno mismo y bucear en el interior de la conciencia –sí, esa vocecita familiar que usted tantas y tantas veces ha acallado, incluso con violencia-.



VIII
El fracaso es el mejor y más eficaz destructor del “yo” que se ha descubierto. Sobre todo porque uno se obstina en no reconocer que ha fracasado y lucha hasta la locura –literalmente, en muchos casos- para salvaguardar el ídolo del “yo”. Y cuanto más pelea, más se destruye. No se da cuenta de que el ídolo acorazado ha caído hecho pedazos, de que uno está desnudo ante el mundo y de que la gente le ignora, se ríe o le insulta. Un tipo muy interesante que se llamaba Francisco y era natural de Asís, Italia, se desnudó él mismo delante de los de su ciudad y dijo así soy y todos se lo tomaron a risa y él dijo que estaba muy bien que se riesen de él y se largó paseando, tranquilo y libre. Sabía que no era más que una hormiga. Por eso, dicen que llamó hermanas a las hormigas y a las cabras y a las gallinas; y hermanos, a los lobos y a los buitres y a todos los hombres; y lo llevó todo tan lejos –tan cerca de la verdad- que llamó hermano al sol y hermana a la muerte.
Muerte.
Los pocos lectores que permanecían por aquí han salido corriendo.
Esta sociedad tiene tanto miedo a la muerte que ha aparcado a los enfermos y a los viejos en hospitales y en residencias y ha retirado los cementerios de las ciudades y de los pueblos. Han puesto los cementerios lejos, para no verlos. Es un invento de la terrible Revolución Francesa. Alejar la muerte de la vida de los hombres supone alejarles de la única certeza posible y, por tanto, alejarles definitivamente de la realidad. Una vez alejados de la realidad, la manipulación de las mentes es mucho más sencilla.
También han desterrado el luto. Vestir de negro durante un par de años a causa del fallecimiento de un ser querido era una sana costumbre y una terapia para el dolor. Vestir de negro en público ofrecía la posibilidad de llorar en público sin que pasase nada –era lógico llorar la muerte del marido o del hijo-; vestir de negro en público permitía ser consolado en público; permitía digerir la tragedia en compañía; permitía asimilar la pérdida poco a poco y tomar conciencia de nuestra finitud; era un saludable aviso a navegantes. La gente lloraba y gemía y estaba triste porque lo natural cuando ronda la muerte es estar triste. Hoy, no. Hoy tiene uno que huir de la tristeza y del dolor y del llanto y hacer ver que todo es normal, no le de un vahído a mi amiga Puri o al pijo de mi hermano o al pesado del vecino.
-¿Qué tal todo?
-Murió mi padre.
-Y yo perdí el bolígrafo.
Así viene a ser la cosa. Como el ídolo del “yo” no resiste los embates del dolor y de la muerte, pobrecito, hay que ocultárselos. De modo que llevamos unas cuantas generaciones de hombres que ya no son hombres y de mujeres que ya no son mujeres. Son juguetes que se rompen en cuanto aparece la más mínima contrariedad. Vestir de luto se ha convertido en un pecado social, como han convertido el fumar en un pecado social. Fumar puede matar -¿lo ven? La muerte, otra vez-. Claro.
Vivir también puede matar. Y, efectivamente, vivir mata.



Elogio del Fracaso | Paco Segarra



O Libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor*

























Distingue-se esta era de outras passadas no ídolo que erguemos para o lugar de Deus. Outrora de barro ou ferro ou bronze ou pedra, é hoje o homem que pretende subir ao altar. Ídolo com pés de carne. Idolatria do que passa e perece e apodrece.
Súbditos subjugados ao mais infame de todos os deuses: o eu.





*Luiz Pacheco

estado crítico#2












E é claro para todos que, depois da crise financeira de 2008, a agenda mundial mudou. Esse ano é um marco de uma quebra de paradigma, onde a farra neoliberal, o grande desperdício de capital, se encerrou. Esse desperdício ficou também associado àquela arquitectura mais perdulária e formalista, como a do Frank Gehry, da Zaha Hadid ou do Santiago Calatrava. Depois disso, ficou claro que era preciso voltar a colocar outro tipo de produção. Porque o compromisso social da arquitectura é fundamental. Defendo a aproximação entre a arquitectura e as artes plásticas. Mas não entendo essa proximidade do ponto de vista formalista. Um arquitecto não é um grande artista porque é um criador de formas. A arquitectura depende muito fortemente de uma relação social, de ser um serviço para a sociedade e não uma actividade desgarrada, de figuras iluminadas.


Seria maravilhoso se tivéssemos no Mundial um estádio do Souto de Moura ou do Álvaro Siza | Guilherme Wisnik | Público, 31.03.2014



























O problema com este discurso é que prossegue, ao mesmo tempo e de modo inverso, a saga (épica) da representação do arquitecto (e da arquitectura) como "figura iluminada", que detém o conhecimento, o poder, de prever, no projecto, aquilo que é e será a sociedade. o vício modernista, ainda em vigor, mas agora sem dinheiro e com má-consciência.




moradas#9












Vivemos na profusão das palavras, perdidos em florestas de textos imagens números equívocos. Aprendemos menos do que aquilo que conhecemos e não sabemos dizer.

E nem no silêncio, cada dia mais rarefeito, somos obliterados da psicose das palavras que adquirem significados aleatórios. Dizer, dizermos, dizermo-nos, deixou de ser território comum; o mundo é reduzido à pestilência do eu.








Per Obedientiam ad Libertatem













P. – A Igreja tem uma grande preocupação em definir os campos permitidos à cultura, ao afirmar que determinadas expressões culturais são anti-cultura. Não há uma relação muito fácil entre a hierarquia católica e a produção cultural que, em algumas das suas expressões, é apontada pela Igreja como anti-cultura...

D. José Policarpo – Penso que é próprio de um juízo cultural — talvez mais do que em relação a qualquer outro sector humano — a dimensão ética e moral, que também faz parte da cultura. A cultura supõe discernimentos. Um ser humano que não sabe discernir e seleccionar os horizontes do aprofundamento cultural acaba por se perder no mare magnum das hipóteses. É próprio que cada grupo faça o discernimento cultural com aquilo que pensa da pessoa humana. Quando não estou de acordo, no discernimento cultural que faço, com a maneira como o Homem é concebido e proposto em certos autores ou em certos horizontes culturais, não significa que não os reconheça como cultura. Significa que é uma cultura com a qual estou em diálogo dialéctico, porventura em confronto, na medida em que a cultura é inevitavelmente dialéctica.
O conceito de anti-cultura entrou na linguagem contemporânea recentemente e é difícil de definir. Mas, em última análise, significa a proposta e a defesa de dimensões e de caminhos práticos para o Homem que nós sabemos, pela experiência histórica (e nós, os cristãos, também pela convicção da nossa fé) que se acabarão por revoltar contra o Homem. A uma corrente de interpretação da vida e da sociedade que, por exemplo, não respeite a vida humana, que relativize o valor supremo da vida humana, posso chamar-lhe anti-cultura.

A atitude da Igreja não é hoje a de afirmar que há áreas de produção cultural com a qual nem o contacto é positivo ao conhecimento. Mas por vezes temos a sensação de que quase há uma certa oposição...

A Igreja, no seu discernimento cultural tem uma proposta, que é a da dignidade da pessoa humana na sua relação com Deus e na relação fraterna com os irmãos. Essa proposta que é o Homem na sua inspiração evangélica (que não significa necessariamente o praticante, estamos diante da compreensão profunda do que é o mistério do Homem), leva a Igreja inevitavelmente a fazer discernimento. Mas a Igreja também é muito plural: pode haver quem se irrite com o que o vizinho do lado defende e quem não se irrite.

Fazendo uma comparação histórica, verificamos que já houve épocas em que a relação da Igreja com o fenómeno cultural era uma relação mecenática, de apoio ao desenvolvimento das artes, e hoje essa relação quase não existe.

E porque é que isso aconteceu? Aconteceu porque a Igreja foi, durante muito tempo, nas sociedades ocidentais, a principal, senão a única expressão comunitária. É muito difícil que, fora de um contexto comunitário, as pessoas, os indivíduos encontrem o lugar para a sua produção e o seu desenvolvimento cultural. A Igreja foi foco e mecenas de cultura porque era, na maior parte dos casos, a única expressão comunitária.
Também nunca foi completamente a única. Houve sempre expressões culturais, mesmo no universo do Ocidente, que aconteceram fora do horizonte específico da Igreja. Tão pouco hoje é a única, há outros enquadramentos e outros dinamismos de valorização comunitária. E quando hoje se diz que a Europa é um continente cuja cultura é de inspiração cristã, podemos dizer que o cristianismo foi a componente principal, mas não exclusiva, do caldear da cultura europeia. O judaísmo teve sempre um papel importante e a presença dos árabes foi também uma grande componente no caldear dessa cultura.

Essa cultura é uma cultura da igualdade, contudo há novas e crescentes desigualdades. Qual é a base para poder definir em que é que as pessoas são iguais: Porque ocupam o mesmo espaço geográfico? Pela sua raça? Pela sua língua?

É um dos conceitos difíceis de exprimir desde a Revolução Francesa para cá, que fez da trilogia Igualdade, Liberdade, Fraternidade, o princípio da nova ordem. Desde a igualdade no conceito dos enciclopedistas que fizeram a Revolução Francesa até à igualdade filosófica — eu diria também a noção religiosa, cristã, que é fundamentalmente a afirmação da igualdade da dignidade de todos os seres.
A Declaração Universal dos Direitos do Homem, quando diz que todos os seres são iguais, refere-se à dignidade fundamental do ser humano. À dignidade da sua vida, da pessoa humana como projecto, da pessoa humana como qualquer coisa de sagrado. Significa que qualquer discriminação da pessoa, venha ela por fonte política, ideológica ou étnica, se se consagra no campo dos princípios, é injusta. Todos os seres humanos são iguais.
Nas sociedades contemporâneas voltámos, curiosamente, à intuição da Revolução Francesa, indo um pouco mais longe que esta declaração de princípios de igualdade, ao olhar para a igualdade realizada, ao modo como a igualdade acontece nos contextos sociais em que estamos. Na nossa cultura, neste momento, sublinha-se muito uma coisa com que estou completamente de acordo, que é a igualdade de oportunidades. Uma sociedade justa tem de garantir, o mais possível, que todos os seres humanos, exactamente porque eles têm essa igualdade fundamental, têm o direito de ser pessoas, de construir a sua própria história.
Não há igualdades feitas à partida. As igualdades sociais que sejam produzidas por uma força exterior à pessoa acabarão por ser opressoras. A pessoa humana tem de ter uma margem de auto-realização, de construção do seu projecto e, para isso, a igualdade de oportunidades parece-me uma boa definição do que é uma aplicação da igualdade já em sentido prático.
Há também as diversas igualdades que se vão discutindo. Hoje fala-se muito da igualdade entre homens e mulheres, na medida em que seja a afirmação da igualdade da dignidade como ser humano, a afirmação da igualdade de oportunidades e a exclusão de discriminações concretas na vida social pelo facto de se ser homem ou de ser mulher — como também de ser preto ou de ser branco, de ser isto ou ser aquilo. Tudo isso são concretizações pelas quais devemos lutar.
O conceito fundamental de igualdade e de igualdade de oportunidades inclui, no entanto, e necessariamente, o conceito do direito à diferença. Igualdades que sejam homogeneidades deixam de ser realizações positivas da igualdade. Às vezes esquecemos que a luta pelas igualdades não se traduz necessariamente por sermos a cópia uns dos outros ou termos os mesmos direitos ou a mesma realização. A diferença homem/mulher, por exemplo, é a grande divisão que a natureza nos proporcionou, mas que revela também uma enorme complementaridade.
As diferenças culturais têm a ver com o conceito de tolerância, de que já falámos. Uma tolerância que não seja apenas o não me importar que o vizinho do lado exista, mas que seja uma abertura e um reconhecimento dos valores que ele tem e que eu não tenho e que posso, pelo menos, apreciar e, porventura, partilhar.
Fala-se muito de interculturalidade, de diálogo intercultural. Não há diálogo intercultural fecundo se não há atenção à diferença, se não há esta consciência de que o outro é diferente de mim e que eu posso, no mínimo dos mínimos, ter a alegria de contemplar essa diferença. Mas que até posso partilhá-la.


Ninguém quer homogeneizar os sexos, mas a igualdade de oportunidades para ambos os sexos, em Portugal, está ainda muito longe de ser uma realidade, não lhe parece?

Penso que sim. Parece que historicamente é inelutável — na dialéctica de Marx, uma das formas históricas da revolução era a dialéctica entre os homens e as mulheres —, mas tenho pena que tenham que ser as mulheres sozinhas a reivindicar. A luta por um lugar dignificante da mulher na sociedade deve ser uma luta de homens e mulheres. Penso que é uma pena e um empobrecimento quando essa luta é só das mulheres. Claro que elas são as primeiras visadas e têm certamente, do seu universo, uma compreensão mais plena. Mas é isso que é interessante: por mais avançadas que sejam as sociedades, há aqui um mistério insondável do ser humano, pois dificilmente um homem penetra no universo feminino e vice-versa.
O único caminho onde isso ainda é possível é o amor e muitas vezes, nas sociedades, reage-se pragmaticamente a estes grandes fenómenos, a estes grandes movimentos. Pessoalmente não tenho uma simpatia congénita por movimentos feministas, mas tenho uma simpatia muito grande por todos os movimentos que sejam de defesa daquilo que há de mais precioso (que até nós, homens, temos), que é a complementaridade das nossas irmãs mulheres. Descobri uma coisa muito simples: é que dignificar a mulher é dignificar a sociedade, é dignificar a cultura, é dignificar o próprio homem.

Como é que encara nesse contexto o debate sobre as quotas de mulheres para os lugares políticos?

É uma questão menor num problema grande. Acho uma tentativa um pouco coxa, justificável numa dialéctica momentânea dos partidos. Eu diria que, do mal, o menos. Mas parece coxo porque fica por resolver a questão fundamental, de uma sociedade de verdadeira igualdade de oportunidades, onde ninguém é excluído da responsabilidade política mas onde não se chega à política por se ser isto ou aquilo. É evidente que isto só é possível com uma grande mudança de mentalidade e com uma sociedade que proteja a mulher nas tarefas em que ela é insubstituível.

É um sintoma mais grave o que se passa ao nível da violência sobre as mulheres?

É com certeza mais grave. Porque a violência sobre as mulheres oprime-as a elas, mas é o sintoma mais grave e mais triste do aviltamento do homem. Um homem que violenta uma mulher é um homem que desce o mais baixo que pode descer. A violência sobre a mulher não é um sintoma grave só para as mulheres, é um sintoma grave da sociedade, é um sintoma grave do próprio homem como ser masculino.

Como é que um país como o nosso, tradicionalmente católico, com um fundo religioso, chegou a este fenómeno de violência?

Como é que chegou ou como é que ainda não saiu dele?

Ou como não saiu dele?... A mensagem cristã não penetrou na cultura das pessoas?

Tenho uma visão muito mais simplista. O fenómeno é velho. A violência entre homens e mulheres não se pode isolar da violência da sociedade. Talvez ela hoje se exprima mais. E infelizmente, como se tem visto nas notícias e nos estudos que têm sido feitos, tem sido trazido ao de cima o rosto silencioso e sofrido da violência no seio familiar, que era menos conhecido. Hoje, as ciências de análise revelam-nos coisas que se passavam muitas vezes no silêncio e na intimidade do lar. Certamente, esse é um contexto onde as coisas podem acontecer, mas não se pode desligar da violência no seu todo. Um ser humano que não venceu a etapa da violência, reage com violência na relação pai-filho, homem-mulher, patrão-empregado. O que há a vencer é a etapa da violência. Isso é uma luta que a humanidade há-de travar até ao fim porque não creio que alguma vez, neste mundo, ela se ultrapasse completamente.
Quando digo que tenho sobre isto uma análise muito mais simplista é porque penso que, na nossa sociedade, o que isso denuncia é a tremenda fragilidade na educação. É pura e simplesmente uma fragilidade educacional. Um ser humano que tenha uma educação sã, sadia e que foi educado no respeito pelo outro e pela sociedade, há certas coisas que não faz: não rouba carteiras na rua, não bate nas mulheres... (...)

Falando ainda da igualdade de dignidade entre os sexos: não faz falta à hierarquia católica a presença também de um modo feminino de ser pastor?

Essa é uma questão hoje muito disputada. Ao nível da consciência colectiva e dos mass media, foi levantada nos últimos anos.
Há na Igreja Católica, para já, uma posição quase dirimente do acesso das mulheres ao ministério ordenado. Respondo a isso contando uma história. Durante alguns anos, representei os bispos portugueses na Comissão dos Episcopados da Comunidade Europeia. Um dia, perguntei ao representante da Dinamarca como é que, naquele país, tinha corrido a experiência das mulheres-presbíteros na Igreja Luterana. Ele deu-me uma resposta curiosa: quando a novidade surgiu, criou uma certa polémica social, pois a sociedade dinamarquesa não estava preparada para ver a mulher num lugar cimeiro da comunidade eclesial, na confissão maioritária que é a luterana; mas, ultrapassado esse primeiro momento de impacto social, elas são muito bem aceites em certas tarefas, como a de capelães hospitalares. São menos aceites na condução litúrgica da comunidade. De qualquer maneira, o juízo deste senhor era positivo, no que dizia respeito à experiência da Igreja Luterana na Dinamarca.
É difícil responder a essa questão na Igreja Católica, que deu sempre um lugar muito importante à mulher, mas noutras tarefas e noutros sectores. Se alguma vez isso viesse a acontecer, teríamos inevitavelmente um período de adaptação das comunidades e das pessoas à presença das mulheres nesse ministério. Que elas eram capazes — as que tivessem vocação para isso —, não tenho dúvidas. Há mulheres capazes de exercer esse ministério.
As razões pelas quais a Igreja Católica não se abriu ainda a essa hipótese são sobretudo as da tradição apostólica, que foi sempre de homens. Não creio que as coisas estejam ainda amadurecidas e não é por via da reivindicação que se lá chega. Terão que ser as comunidades e a Igreja, como um todo, a amadurecer o assunto. É um facto que hoje, mesmo dentro da Igreja Católica, se aceitam mulheres em papéis que há trinta anos eram impensáveis. Eu responderia assim à pergunta, num sentido mais amplo...

Mas, num sentido amplo, reconhece que, olhando para a História, é pena que a Igreja Católica não tenha esse modo feminino de ser pastor como tradição? Podia ser um enriquecimento.

Esta questão tem muito a ver com uma outra, de que nós estamos agora a começar a sair e a fazer a síntese: a de uma Igreja demasiadamente clericalizada, feita a partir da hierarquia. Na medida em que a Igreja seja mais Povo de Deus e que este ministério seja estritamente para o essencial do que é o ministério ordenado, penso que ganhará mais realce a Igreja-comunidade, a Igreja-Povo de Deus. E ressaltará muito mais a dimensão pastoral da presença feminina do que neste esquema de Igreja clericalizada.
Nessa hipótese, não tenho dúvidas nenhumas em dizer que a Igreja, como comunidade, não só precisa mas ganha com isso, e tem já uma presença feminina muito forte, mesmo ao nível pastoral. Há mulheres que exercem responsabilidades pastorais em sectores importantes da vida da comunidade e já não sei imaginar a Igreja sem a força dessa presença feminina.



Reconhecermo-nos cidadãos de uma mesma democracia envolve não só a afirmação da igualdade, mas alguma identificação entre as pessoas. Em sociedades abertas, a imigração e as desigualdades colocam o problema de saber a quem se reconhece a cidadania. Não estamos a caminhar no sentido de uma definição demasiado restritiva de quem é cidadão e pode ter todos os direitos?

A questão é muito complexa, porque a Humanidade está num ponto de viragem. A cidadania é uma das categorias que dão fundamento à organização humana. Durante séculos, ela foi constituída por pólos de unidade: a mesma cultura, a mesma raça (embora a pluralidade étnica desde há muito se tenha introduzido nas sociedades), a mesma língua (dificilmente se pode imaginar a cidadania sem uma mesma língua). O fenómeno da transmutação de populações, as emigrações e as migrações internas, sejam por que motivos forem (económicos, políticos, de segurança), nunca como hoje se verificaram na história da Humanidade.
Do conceito de emigração faz parte o da comunidade que acolhe e daqueles que são acolhidos. No caso concreto de Portugal, pode haver pessoas ou grupos que desembarcam aqui por serem refugiados políticos ou por virem à procura de um mercado de trabalho mais amplo e de uma melhor situação económica. Eles estão na situação de serem acolhidos — logo, tem que haver uma comunidade que acolhe. Não seria bom que esses imigrantes chegassem e se confundissem com toda a gente. Isso levaria a comunidade que acolhe a correr o risco de perder a alma e a identidade. Quando, numa casa, já não se sabe quem é visita e quem é da família que recebe, as coisas não correm bem.
Dentro deste conceito, muito simples, de uma comunidade acolhedora e da pessoa que é acolhida, há uma fronteira de cidadania política. Quem chega é um hóspede e quem acolhe é capaz de o fazer, mas não se identifica, à partida e imediatamente, com os acolhidos.
Hoje, as comunidades de acolhimento estão sob grandes pressões, que levam ao fenómeno de se fecharem as portas, como estamos a verificar nas sociedades ocidentais. São tantos os que batem à porta que esse facto acaba por criar uma atitude de defesa: “Não temos lugar para todos, tenham paciência, já acolhemos vinte, não podemos acolher vinte e cinco.”
A restrição ao acolhimento é um problema sério, que nos vai certamente obrigar a pensar a humanidade em que queremos viver. É preocupante o que se passa, neste momento, na União Europeia. Com acordos como o de Schengen, corre-se o risco — embora tal não esteja na intenção moral de nenhum líder europeu actual — de, na prática, acabarmos por construir uma espécie de fortaleza protegida contra os povos do mundo e os forasteiros que olham para o Ocidente mais rico e desenvolvido como uma pátria de acolhimento.
Há também o problema da integração, a médio e a longo prazo, das pessoas que chegam, facto que leva as sociedades a criar mecanismos legais. Essas leis têm que ser feitas com abertura, mas, ao mesmo tempo, com prudência e sabedoria. São esses mecanismos legais os únicos que permitem que, sem rupturas — ou seja, sem deixar de saber quem acolhe e quem é acolhido — se realize a inserção, em plena cidadania, das pessoas que estão cá há bastante tempo, que têm laços. Hoje relativizou-se muito a dimensão étnica...

Ainda que haja guerra na Europa...

Mas, na consciência internacional, essa dimensão está relativizada. A China ainda valoriza muito a dimensão étnica no acolhimento da cidadania, mas no resto do Mundo esse não é hoje o critério mais importante. Conhecer e falar a língua ou identificar-se com uma história são motivações mais importantes. Curiosamente, um país como os Estados Unidos, que foi um dos países de acolhimento mais abertos dos últimos dois séculos, um país que acolhe toda a gente desde que se consiga lá entrar, mantém-se restritivo em relação à assunção da cidadania. Mas, os que a obtêm é porque mostraram ser capazes de viver naquela sociedade como americanos, identificando-se com a história do país e com um conhecimento da língua. São dados mínimos... (...)

Há um fenómeno que toca franjas das populações imigrantes, mas não só, que é o das pessoas que estão à margem do sistema, sem direitos. Preocupa-o esta situação?

Preocupa. Neste problema, a grande questão não é política, é social. A fronteira acaba sempre por ser entre os pobres e os ricos e, nesse caso, a situação complica-se e ganha outros horizontes. No fenómeno da migração económica, passámos de pequenos grupos que era fácil acolher para multidões vindas dos países pobres em busca de trabalho em sociedades que, por sua vez, podem entrar em crise interna, com o desencadeamento de fenómenos de egoísmo e auto-defesa. Há reacções que são já fruto da auto-defesa interna dos grupos que construíram, durante um período de tempo, uma história e uma situação social de bem-estar e que não estão dispostos, de maneira nenhuma, a vê-los postos em questão pela quantidade de gente que vem de fora e exige esse acolhimento.
Mais uma vez, este é um problema de prudência e de sabedoria: os nossos irmãos que vêm das antigas colónias por vezes nem sequer facilitam a integração mínima que é a legalização como emigrantes. São um alvo fácil para todo o tipo de exploração porque infelizmente, na sociedade, há sempre alguém que está disposto a explorar alguém.
O governo português tem tido uma política, cujas últimas manifestações foram generosas, de facilitação da legalização das pessoas que estavam sem documentos. Mas muitas não querem e outras nem sequer deram por isso, o que faz com que o conjunto de pessoas na clandestinidade ainda seja muito grande. O que não é bom. As sociedades contemporâneas, super-organizadas como as ocidentais, não podem ter uma percentagem de coabitantes sem saberem que eles cá estão: o mínimo que precisamos de saber é quem cá está. Até para sabermos como havemos de os acolher...
Voltamos à ideia do acolhimento. Este fenómeno da clandestinidade acontece hoje em todas as sociedades. Nós, portugueses, temos nisso uma longa e dolorosa experiência. É uma das componentes maiores da mobilidade entre os povos. E as sociedades, nos últimos trinta anos, deram passos significativos para acabar com essa marginalidade social.


D. José Policarpo (1936-2014): cultura, mulheres, migrações e diálogo intercultural

Príncipe Real Design District

Lisboa, 12.03.2014

dos trabalhos do mundo corrompida/que servidões carrega a minha vida*








Lamentam-se os arquitectos
lamentam-se os promotores
lamentam-se os construtores
lamentam-se os políticos e os inspectores do fisco.

A cidade, crise e a sustentabilidade
o golden-visa e a expansão dos mercados
e toda esta gente, com nome e apelido, posição, e até opinião, sobre o deserto onde agora colhemos
a paisagem que em todos estes anos semeamos.








*Servidões | Herberto Hélder

no mais carnal das nádegas/as marcas/das frescas cuecas*

Lumiar | Lisboa









A lei, o corpo normativo que se preocupa com o que se pode ou não pode fazer, é omisso no como fazer. A fealdade é o preço, às vezes, da liberdade.






*Servidões | Herberto Hélder

se isto é um Homem














I collect evidence of man’s inhumanity against God. The pain we cause Him. We have poisoned His atmosphere. We have slaughtered His creatures of the wild, polluted His rivers. We have even taken God’s noblest creation, man, and brainwashed him into becoming our product, packed, stalked and
canned.

The Night of the Iguana | Tennessee Williams 


'Não podia fazer outra coisa’. Eu compreendo, Siza.













1 Por mais voltas que lhe demos, a nossa cultura nunca deixará de ser platónica no sentido em que, para nós, conhecer significa recordar-se. E, portanto, toda a vida é um processo de reconstrução. Siza gosta de dizer que, em arquitectura, ninguém inventa nada. É uma outra forma de dizer o mesmo.

2 Não sei muito sobre História mas suspeito que nunca, como hoje, se falou tanto na diferença e nunca tudo foi tão igual. Até na arquitectura. Querer obsessivamente ‘marcar a diferença’ representa, em geral, o caminho mais curto para a repetição.

3 A diferença entre a boa arquitectura e a má ou assim-assim é que a boa arquitectura copia sem repetir e a ‘outra’ repete ao copiar.

4 Tudo começa nos olhos. Siza costuma falar na necessidade de aprender a olhar. E na importância de viajar. A arquitectura educa o olhar e educa-se no olhar. Só quando se olha muito e bem se começa a vislumbrar o essencial. Sempre Platão…

5 Recordo-me das visitas de Siza à igreja do Marco durante a construção. Mal chegava, olhava. Percorria a obra, sozinho, e olhava. Às vezes media com as mãos. Depois de olhar, pausadamente, e de medir com as mãos, reunia a equipa: colaboradores do gabinete, técnicos das especialidades, encarregado geral, fornecedores, dono da obra.

6 Ao longo do processo, Siza foi-se descosendo: ‘Fui visitar La Tourette’, ‘fui visitar o convento de Barragán’, ‘fui visitar a capela de Vence’, ‘fui visitar uma igreja no sul de Itália’. E quantas outras não terá visitado ao longo do processo e da vida!

7 ‘Numa delas – disse-me, mas já não me recordo em qual. Ou se não me disse, sonhei – entrei e ajoelhei-me. Não podia fazer outra coisa’. Eu compreendo, Siza.

8 Nunca me apercebi se alguma vez, ao entrar na ‘sua’ igreja, caiu de joelhos, por não poder fazer outra coisa. Estou convencido que se o fez, fê-lo discretamente. E se não o fez, foi por modéstia.

9 Poucos dias depois da inauguração (ou sagração, como preferem dizer os peso-pesados do sagrado) Siza entrou e começou a percorrer o espaço, como sempre fazia. Acendeu um cigarro. Com o primeiro fumo atravessado na garganta, saiu na direcção da porta e deitou o cigarro fora. ‘Esqueci-me que agora já não se pode fumar aqui!’

10 Eu sorri. Não faço ideia do que lhe respondi, se é que respondi alguma coisa. Hoje, ao recordar o episódio, ocorre-me o poema ‘Irene entrando no céu’, de Manuel Bandeira: ‘Entra, Irene, você não precisa pedir licença’.

11 Siza nunca explicava tudo, o que, não raras vezes, era um grande incómodo porque obrigava a pensar. E não era por não saber. Ou seria. Eu julgo que ele não explicava tudo por respeitar a inteligência das pessoas.

12 A virtude do mestre é ditar o silêncio. Ditá-lo como se dita um texto a quem está a aprender a escrever. Com todas as pausas necessárias.



Nuno Higino


O estranho mundo de Theodore

























É inevitável a empatia imediata com o mundo solitário de Theodore Twombly (Joaquin Phoenix). Na volubilidade de um processo de divórcio, ensimesmado, voltado para si e para o seu mundo que rui, Theodore vagueia entre o trabalho como escritor, que providencia aos seus clientes eloquentes cartas que exprimem o amor e o afecto que eles mesmos são incapazes de pôr em palavras, durante o dia, e as noites ocupadas entre jogos de vídeo, redes socias e as memórias dolorosas da separação.
Reduzido aos escombros de memórias e do vazio quotidiano, incapaz de estabelecer e aprofundar relações com com o ‘outro’, inevitavelmente Theodore sucumbe em indiferença a tudo o que o rodeia, com excepção de uma amiga de longa data e vizinha e a fugazes vislumbres aos que o rodeiam. E todos eles, iguais a si e entre si, em desencontro, desconhecimento e reclusão, reduzidos a peripatéticas digressões quotidianas de solidão e indiferença, não diferentes da sua.
Onde o outro é ausente é também ausente o corpo e a carnalidade. Num mundo rarefeito de humanidade e sem corpo(s), onde um novo sistema operativo, que adquire emoção e intuição – uma impossibilidade técnica e tecnológica mas negligenciável para efeitos de narrativa – devagar toma conta e conduz os estados emocionais de Theodore. Sem surpresa, Samantha (o sistema operativo, na voz de Scarlett Johansson), é o estímulo ao prazer solitário, onde o sexo é um voraz placebo do vazio e da solidão, de gratificação imediata e sem qualquer vínculo humano.
A questão coloca-se no significado do amor. Os gregos usavam quatro palavras para o dizer: storge (afecto natural, familiar); eros (desejo e amor romântico); phileo (amizade); ágape (dádiva completa ao outro). Her (Uma História de Amor) explora a hipótese do eros entre um homem e um dispositivo de inteligência artificial. O eros, a vertigem sentimental e emocional, que aqui não é mais do que apenas do que aquilo Theodore (e Samantha) narcisicamente sente(m), sem possibilidade de evoluir para a agape, esse amor incondicional e radical abertura ao outro, em toda a largueza humana. A impossibilidade do outro (e do amor), radicará na antropologia e na cultura deste mundo proposto por Spike Jonze.
Do egoísmo e narcisismo subterrâneos, resultado dessa sociedade atomizada, em que qualquer vínculo ao outro é tão mais frágil quanto a lógica do prazer imediato se impõe. A sucessão híper-hedonista recusa a dificuldade do real e a complexidade inerente a qualquer relação humana. O prazer como estímulo de preenchimento do vazio existencial que, ao invés de, justamente, o preencher, cava ainda e cada vez mais esse vazio.
Não é um filme sobre a solidão, mas propõe um mundo onde cada um de nós é desencontro, desconhecimento e reclusão. Her não configura, na aparência de uma fotografia de cores quentes e quase tácteis, a distopia de um mundo desumanizado e sob regulação totalitária, mas margulha-nos num universo onde cada indivíduo é um átomo isolado, à mercê do isolamento emocional, afectivo e humano.

[Her (Uma História de Amor), Spike Jonze, 2013, 120']


publicado no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura