choro e ranger de dentes

Será também como um homem que, ao partir para fora, chamou os servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu.
Aquele que recebeu cinco talentos negociou com eles e ganhou outros cinco. Da mesma forma, aquele que recebeu dois ganhou outros dois. Mas aquele que apenas recebeu um foi fazer um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.
Passado muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e pediu-lhes contas. Aquele que tinha recebido cinco talentos aproximou-se e entregou-lhe outros cinco, dizendo: ‘Senhor, confiaste-me cinco talentos; aqui estão outros cinco que eu ganhei.’ O senhor disse-lhe: ‘Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.’
Veio, em seguida, o que tinha recebido dois talentos: ‘Senhor, disse ele, confiaste-me dois talentos; aqui estão outros dois que eu ganhei.’ O senhor disse-lhe: ‘Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.’
Veio, finalmente, o que tinha recebido um só talento: ‘Senhor, disse ele, sempre te conheci como homem duro, que ceifas onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, com medo, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence.’ O senhor respondeu-lhe: ‘Servo mau e preguiçoso! Sabias que eu ceifo onde não semeei e recolho onde não espalhei. Pois bem, devias ter levado o meu dinheiro aos banqueiros e, no meu regresso, teria levantado o meu dinheiro com juros.’ ‘Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos. Porque ao que tem será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.’

Mateus | 25, 14-30


E tu, que rumo levas? Perguntou Holme.
Não tenho rumo, respondeu o homem. Não tenho rumo nem vínculos. Ergueu o rosto para Holme. 
(...)
Sim, disse o cego. Eu cruzo-me com elas todos os dias. Gente que anda para trás e para diante por esse mundo fora que nem cães. Como se não tivessem um lar a quem chamem seu em parte nenhuma.

Nas Trevas Exteriores | Cormac McCarthy / 1968




Gementes et flentes in hac lacrimarum valle onde há muito recusámos a redenção. 


A balada de um homem gordo


Vargas: This isn't the real Mexico. You know that. All border towns bring out the worst in a country.










A Sede do Mal | Orson Welles / 1958




A noção de fronteira é «boa para pensar»: na vastidão da fronteira não deve existir maior abandono que na cidade por onde os homens a atravessam.
Coisas que fogem à jurisdição dos homens: na histeria identitária como classificar quem voluntariamente escolhe esse lugar sem eu e sem nome, sem centro nem periferia?

Ida





Da ferida nazi à máquina totalitária comunista viajamos com Ana (Ida) à procura do seu passado pelo passado da Polónia. E em cada frame recebemos um postal ilustrado desse passado recente da Polónia. Em road movie de câmara, permanece em aberto a dúvida e a fé e a contingência da dúvida e da fé.



Ida | Paweł Pawlikowski | Polónia / 2014

inútil paisagem
















A paisagem é o resultado de uma economia que se estabelece num lugar e da cultura que lhe é subjacente. É uma construção, uma forma de arquitectura, que surge com uma base económica fortíssima.

João Gomes da Silva | Público / 19.07.2015



Leitura talvez demasiado lata do sentido da economia, colocaria antes a cultura como a fonte donde procede a paisagem. E a paisagem, a teia de relações metafísicas entre o mundo sensível e o ideal, a a technê de domínio da natureza natural, onde primeiro se inscreve a nossa relação com o Mundo.

esterilidade

Deixarmos como legado a ruína. E também o asfalto betuminoso.
Talvez o programa - «vias de comunicação» - paradigmático do modernismo: o pragmatismo da máquina automóvel e da performance da velocidade, a celebração da técnica como progresso social. O esplendor do funcionalismo.
Se recorrermos a épocas anteriores verificamos a «polissemia» dos espaços. Como se um convento pudesse ser outra coisa que cada tempo assim o ditasse. Ou um palacete de outrora se dispusesse a servir agora de sede de uma qualquer instituição ou empresa. Uma auto-estrada será sempre uma auto-estrada. Sem possibilidade de reapropriação pela necessidade de cada geração.

Recorrendo a Tafuri e à topologia como declaração social, as auto-estradas revelam a esterilidade modernista.







IC19 | Portugal

notas sobre o deserto: o garrote

O dinheiro é o deus.
Os mercados a sua religião.
Os milhões de desempregados as vítimas sacrificiais sobre o seu altar.


Pode um sistema social representar-se pela arquitectura? Sabemos que os regimes de todos os tipos e de todos os tempos se quiseram perenes pela inscrição na pedra. E é evidência histórica que a arquitectura pode ser posta ao serviço da auto-celebração destes.
O que é novo no actual quadro cultural, político e ideológico, (cocktail ambíguo e pouco evidente de liberalismo financeiro radical e depravado marxismo cultural), é o zelo com que induz a sua própria dissimulação. A pretensão em naturalizar-se por forma a tornar-se auto-evidente. Esta atmosfera cultural é induzida nas sociedades apresentando-se como o modo natural de relacionamento humano e fonte natural de todas formas sociais e, nesse sentido, explicação única do mundo.
Por via do enfraquecimento e erradicação de qualquer vínculo afectivo e simbólico do indivíduo, diluído na massa alienada e narcotizada pelo consumo - tudo se reduz ao seu valor utilitário, mensurável e contabilizável, num infernal deve-e-haver que, no fim de contas, literalmente, transforma toda a realidade em dinheiro – geram-se as condições ideais para a atomização social e para a intensificação do caracter totalitário do poder. Sem termos dado conta disso a única liberdade de que hoje verdadeiramente dispomos é a de consumir (aquilo que nos dizem para consumirmos).

Estas ruínas da Grécia contemporânea, para além de todo o sentimentalismo e/ou humanismo vazio com que nos são apresentadas – também ideologicamente (e não há meio de se exterminarem todas as ideologias e este palavrão do jargão marxista?) – apresentam-nos com meridiana clareza o poder destrutivo do actual regime, enfim, ideológico. A asfixia que abre caminho por entre as ruínas que ela própria ergueu.

O que antes do terramoto da Troika era projectado como lugar de ostentação de status dos mais afluentes atenienses é hoje um escombro dessa proposta social que era já em si o ninho da serpente da fractura social. O dinheiro como divisor social único, o consumo como única via para a construção pessoal e de relação do indivíduo com o mundo. A arquitectura reduzida a pobre palco desta representação do mundo, num perverso trade off acrítico e auto-idulgente. Os recursos materiais duplamente elididos como um processo de reciclagem invertido e cada vez mais oneroso ambiental e economicamente. A perpetuação do fortuito, do supérfluo, do excesso, da arrogante e putatitva super-abundância das sociedades europeias numa paisagem ferida e agonizante.
A miséria não reside na escassez material mas antes na degradação com que paulatinamente fomos sujeitando a realidade às nossas representações e olhar cada vez mais narcísicos e desafectados dos próximo e do mundo.

Seja pelo inesperado ausente ao tempo do projecto, seja pela melancolia da representação da ruína como experiência da ausência e da perda em relação à história, as ruínas são lugares de beleza. O paradoxo destas contemporâneas ruínas gregas é a radical antecipação histórica dessa perda e a manifestação imediata do estado de falência cultural com que hoje projectamos o mundo. E a ruína-nova como representação arquitectónica deste tempo.

















Abandoned Nest |  Panayis Chrysovergis / 2015

egolatria

Ia dizer que a perda da arquitectura, dos arquitectos, reside numa pobre visão cultural do mundo. Mas talvez não seja exactamente assim.
Provavelmente a arquitectura, os arquitectos, têm-na. E corresponde rigorosamente à estação da História que atravessamos. Ao tempo em que a categoria do Belo é preterida pelo grotesco, pela megalomania, pela avidez, pela ganância, pela estupidez, pelo ridículo, pelo narcisismo radical e egomaníaco, pelo exaurir de recursos humanos, materiais e naturais, pelo irrisório. Pela indiferença. Pelo supérfluo. Pelo nihilismo.
Não errarei se pensar que categoria central do pensamento arquitectónico contemporâneo é a abjecção. No que não diferirá do das artes plásticas.


Por exemplo,
Cancer Centre | David Adjaye / Ruanda



Estádio Olímpico de Tóquio | Zaha Hadid / Japão



Centro de Artes - Fundação EDP | Amanda Levete / Lisboa



Triangle - Mairie de Paris | Herzog & de Meuron / Paris


coincidentemente, (ou não), quase sempre inciciativas de instituições do estado ou de poderosíssimas multinacionais que escapam ao escrutínio das comunidades onde pretendem intervir. As mais das vezes, os mesmos arquitectos que quando não estão a exaltar o seu ego se ocupam em leccionar sobre o progresso moral das nossas sociedades e o papel que nelas tem o poder transformador da arquitectura.
Enfim, é nosso o tempo da indigência cultural.

Fillhos de Deus








Acha que as pessoas eram mais ruins nessa época do que são agora? indagou o auxiliar.
O velho contemplava a cidade inundada. Não, respondeu. Não me parece. Acho que as pessoas são iguais desde o dia em que Deus criou a primeira.


Filho de Deus | Cormac McCarthy / 1973



As personagens de Cormac McCarthy aproximam-nos de Deus.
O Mal existe e existe em cada um de nós. O mistério de cada ser humano é em McCarthy reduzido à cinza da impossível redenção. Vagantes, em deambulação incessante e louca, como indivíduos postos à margem da família humana, entregues a si mesmos e de si mesmos à sua própria loucura.
E talvez seja esta a palavra de Deus revelada por McCarthy: o silêncio brutal com que Deus confronta a ainda maior brutalidade de que cada um de nós é capaz. O silêncio de Deus diante do Mal.
Lester Ballard, por exemplo, patético assassino e necrófilo, que faz do sexo com os cadáveres que amontoa nas cavernas por onde pernoita o troféu de uma existência condenada à omissão da sua própria humanidade e que, exactamente do lado de lá da sua humanidade, se revela ele próprio humano.
O critério de McCarthy é a assunção da realidade do Mal que habita em nós e por nós no mundo. As suas personagens, em toda a sua sordidez, depravação e monstruosidade, não são o incomum, o excepcional, da gramática do ser. Pelo contrário, são a linguagem comum com que dizemos a nossa própria humanidade. Por isso as encontremos em permanente digressão, em incessante nomadismo à procura dessa humanidade.
Como a besta que é parte do humano, só desse reduto humano se pode aceder a uma possível salvação. Talvez seja essa humanidade que Deus permite que se revele no silêncio com que nos abandona.

da ironia

AT&T Building | Philip Johnson | Nova Iorque / 1984



O Pós-Modernismo é uma puta velha e tonta que ninguém visita e não morre.

maison perversion

Admitir a Glass House como manifesto queer avant-la-lettre poderia não passar de uma blague drole não fossem os tempos de chumbo do revolucionário processo de inversão em curso que vivemos. E não se afiguraria mais sério se o caso não fosse o da hegemonia académica, mediática e política, da alucinada proposta revolucionária, ainda que edulcorada em doses massivas de sentimentalismo e consumismo aparentemente emancipador mas, em rigor, absolutamente alienantes.
A perversão de fundamentar uma tese numa visão particular do mundo em vez de a abrir, justamente, à surpresa do mundo e da realidade é, de facto, a perigosíssima doença que varre toda a comunidade científica, sobretudo nas humanidades. Enfim, o camp não nega o seu grotesco.

Fundamentar no desenho arquitectónico uma possibilidade redentora é sortilégio da mesma extracção com que Platão ergueu Kallipolis na sua República: uma cidade dirigida pelo filósofo-legislador o qual, arbitrariamente, define o que é o Bem, logo a justiça.
Excluindo a ideia de Bem da sua fonte transcendental abrem-se as portas a todas as arbitrariedades. A pretensão revolucionária produz, ao fim de contas, a redução do homem a si mesmo, através da hostilização e anulação das instituições naturais intermédias, abandonando-o, só, perante a máquina totalitária do Estado.
Em parecendo descabido, o recurso à Atenas do Séc. V a.C. para se chegar a New Canaan, Connecticut faz todo o sentido se nos ativermos à visão moderna do arquitecto e da própria arquitectura. A ilusão heróica e redentora, o vício pedagógico e transformador, que perseguirá o homem sempre que se esqueça da sua inexorável natureza servil. Já em Platão se exibia a visão totalitária que os sacerdotes impostores do progressismo e do experimentalismo social, com o seu cortejo de santos, pecadores e horrores, nos apresentam como libertadora.



Oikema, Maison du Plaisir | Claude-Nicolas Ledoux /1789


Nem Ledoux, por exemplo, chegou tão longe na engenharia social.

Uma latrina irrespirável

Salò ou Os 120 Dias de Sodoma | Pier Paolo Pasolini | Itália / 1975


*

Habitamos sociedades doentes.
Por um lado, o impulso libertador e emancipador que percorremos na modernidade, tantas das vezes mais que legítimo, justo, aportou em sociedades denominadas de democráticas; por outro o irracionalismo bárbaro e regressivo a que nos vai conduzindo o aprofundar das reivindicações emancipatórias. Alguma coisa mudou pelo caminho. Provavelmente o Homem e a visão que este tem de si, do mundo e de si no mundo.
A matança de Deus, ao invés do que se supunha, não deixou o espaço aberto a uma humanidade livre de imposições morais ou, sequer, emancipada da servidão. Sem Deus, é o Homem que pretende ocupar esse vazio. Sem Deus, é o Homem que pressupõe dominar toda a realidade, inclusivamente a que o transcende, seja pela indiferença, negação o aberta hostilidade.
Talvez o maior pecado – a própria linguagem se des-teologizou  e pecado é hoje uma palavra ou interdita ou motivo de troça – da modernidade seja a soberba. O Homem orgulhoso, revoltado, decaído do Éden divino, alcandorado ao paraíso do aqui e do agora, ocupa-se agora em fazer da sua fantasia a lei moral.
Bem entendido, serve a moral a que haja o mínimo de possibilidade de convivialidade e, mais, de civilização. Logo, se a moral deixa de ser comum e dirigida para o Bem Comum e se resume a espasmos individuais e subjectivos – espasmos esses, recorrentemente procedentes do baixo-ventre – temos aqui pasto para a barbárie lavrar dentro do nosso próprio coração. O orgulho, insubmissão funesta a Deus, à única fonte experimentada pela Humanidade de verdadeira liberdade erige cada um de nós em senhor absoluto do mundo. Por conseguinte, a sociedade pouco mais é quem um desconcerto ruidoso e dissonante onde deveria ser lugar de polifonia.
Deus morreu e o Estado usurpou-lhe  o lugar. Daí ser imperioso o controlo do aparelho de estado para fins de supremacia de uma, parcial e sempre pobre, qualquer visão do mundo e do Homem. Daí ser do aparelho de estado a suposição de única e suprema fonte legislativa, para além do bem e do mal e do Direito Natural. Emanada de cima para baixo, de uma casta iluminada – os novos gnósticos – depositante fiel da moral que, autoritariamente, pretende e muitas vezes adquire o controlo social – os media e a Academia há já décadas que estão reféns destes neo-gnósticos, seguindo rigorosamente, aliás, o guião marxista de Gramsci e da Escola de Frankfut.

Não fosse a arquitectura a construção de um pensamento e, nesse sentido, também uma visão de um tempo no tempo, seria inexplicável que ela se furtasse ao zeitgeist. Até naquilo que este tem de mais patético, histérico e caricatural. E é exactamente no campo da linguagem e da cultura onde a demência hodierna alcança maior poder destrutivo.
Também como caricatura do métier, a arquitectura como prática cultural, está sujeita ao labor pernicioso deste progressismo de olhos postos na barbárie – ou não fosse a arquitectura o território predilecto das realizações da «desconstrução»:
Está aqui tudo: obsessão racionalista/modernista/estatista/totalitária da legislação e normativização – o Estado totalitário como fonte única da legitimidade da moral; nominalismo – a flatus vocis, já velha do séc. XI, que recusa qualquer juízo universal e faz tudo vaguear ao sabor do ‘acto da mente’; psicose, desafectação do real e das realidades que transcendem o Homem – o capricho soberano que não admite a contradição nem frustração; inversão da linguagem por forma a forçar a inversão da realidade (oh soberba) - género como radical afirmação da subjectividade e de domínio do sujeito oprimido sobre as condições naturais com que o sexo o surpreendeu desde o dia em que nasceu; liberdade como paupérrima expressão de uma birra; dissolução que qualquer possibilidade de lógica e racionalidade expostas à efémera vontade do baixo-ventre.
Se o lugar concreto no corpo da reivindicação LGBT(junte a inicial que lhe aprouver) é o ânus, por extensão, a sua realização arquitectónica é a retrete. Uma latrina irrespirável.

shoreline

Projecto de licenciamento para Castelo de Areia | Renzo Piano



É apenas uma questão de escala. Uma questão da natureza do tempo. É esta a condenação da arquitectura: erguer ilusões.
Go home and don’t look back.

O fim de uma era

Os filmes são também lugares de respiração. Sobretudo numa época em que um filme já não é apenas um filme mas um arrazoado de efeitos digitais ou um fogo de artifício virtual, encontram-se, ainda assim, lugares de sensibilidade. E os melhores são, desde logo, aqueles onde não se passa nada.
Como na vida habitual das pessoas normais.

*

Montado a partir do dispositivo road movie, o que é facto é que, além das breves horas que Kurt e Mark passam juntos, nada nos faz crer que esta seja uma viagem rumo a uma epifania da liberdade. E daí, talvez a liberdade maior e a mais autêntica, seja essas pequenas horas no meio da floresta, onde Kurt e Mark, que são também da paisagem, ensaiam uma verdade qualquer no que comunicam. E de regresso à cidade, a vida segue. Mark apreensivo quanto à iminente paternidade – e a voz da rádio lança ainda mais preocupação sobre o futuro -; Kurt, muito provavelmente enredado no seu próprio labirinto vedado à idade adulta.

*

Como diz Mark a Kurt, a propósito do fecho da loja de discos em segunda-mão – são evidentes os sinais do fim: a decadente paisagem industrial americana, o abandono e a nostalgia que permanentemente nos interpelam, (tanto na relação dos dois amigos, como no mundo que os rodeia).
Um filme apenas possível à beira da crise, que eclodiu pouco tempo depois, em 2008. Que, de certo modo, antecipa, como a calmaria anterior à tempestade, o fim de uma era.


Old Joy | Kelly Reichardt | EUA / 2006

Verão de 1939

Le Corbusier pintando um fresco na  Villa E-1027  de Eileen Gray, Verão de 1939


Provavelmente nem será uma questão de ideologia. Pragmatismo, talvez. Oportunismo, certamente.
Mais que tudo, talvez até mais que arquitecto, Le Corbusier é um publicista. O maior da história da arquitectura. E realizou com tanta pertinência e eficácia o métier que os pressupostos da sua arquitectura se tornaram hegemónicos e, como não dizer, totalitários.
E não nos preocupemos, a linha de sucessão foi excelentemente ocupada.

Parecerão, contudo, inquietantes estas eventuais patéticas tentativas de desvendar em pormenor o homem por de trás da obra. Repare-se: o seu pensamento, totalitário, é evidentemente, tirânico; consequentemente a obra é megalómana e, ela própria, tirânica. Mas ainda assim capaz da beleza perene e do milagre do belo que consola.
É bem provável que em todos os desertos do mundo nasçam flores. E "perdoa-se tanta coisa em nome da beleza". Quanto ao mais, deixe-se os mortos aos mortos, os fantasmas aos fantasmas, que o belo é para todos.

notas sobre o deserto#2

Mleeta Resistance Tourist Landmark, Líbano | Ambroise Tézenas


Secreção do tempo. Desta estação da nossa História.
Mais que a esteticização do mal – moral ou natural – é a transformação e espectacularização da miséria. De caminho, tudo transformado em experiência, logo, transaccionável. O mundo, a história, o sofrimento, a capacidade de tudo se colocar no mercado. O humano, luminoso e sombrio, no que de mais íntimo tem, sujeito à lei da oferta e da procura. E sabemos como se regula essa lei: des lieux de mort devenus des destinations touristiques
.


Uma série, por exemplo, I Was There. Como de alguém proveniente das classes-médias ocidentais a quem as low-cost e o indolente estado social proporcionam uma semana de álcool e alienação em Ibiza. e profusamente a regista em selfies propagadas pelas redes sociais. Perfis que amontoam experiências atrás de experiências, consumo sobre consumo. Espectadores passivos do mundo e da vida que consumimos olhamo-los/nos com o olhar entorpecido, narcotizado, distorcido, degradado, pelo valor meramente utilitário com que as coisas são trocadas.

badlands


Receptionist: Does he have Alzheimer's?
David Grant: No, he just believes what people tell him.
Receptionist: That's too bad.

Nebraska | Alexander Payne | EUA / 2014


Tal como em Sideways Alexander Payne faz-se à estrada. Também na estrada para Lincoln, Nebraska, se encena um ritual: em Sideways uma atribulada «despedida de solteiro», em Nebraska um ritual de despedida.
Redivivo: o ressentimento ou a saudade de um exilado em Billings, Montana, inadvertidamente e/ou por uma ilusão encerrados no derradeiro esforço de vida; também a viagem por uma América que lentamente se desfaz, uma América porventura mais autêntica que a do glamour in colour de Hollywood.
Uma viagem amarga e doce pelas contradições de um homem, de uma família, de um país - um país sequer com nome. Contradições que, afinal, talvez não sejam assim tão díspares.

*

Impossível não recorrer ao mais austero e provavelmente mais belo disco de Bruce Springsteen. Nebraska (1982) foi também a viagem do ‘Boss’, encerrado num quarto e no seu íntimo labirinto.

Quando as Catedrais eram brancas



“Great temples were not the work of one architect,” Gaudí observed, but as the CCNY exhibition and catalog indicate, those in charge at the Sagrada Família today have drawn on his work to the exclusion of all other possibilities. To be sure, a highly skilled, deeply dedicated group of architectural, engineering, and decorative arts professionals has been directed since 2012 by the Barcelona architect Jordi Faulí (who spent the preceding two decades as an associate on the project). The team is hewing as faithfully as possible to the letter of Gaudí’s vision, but one wonders about the spirit.

notas sobre o deserto


*
O dinheiro é o deus.
Os mercados a sua religião.
Os milhões de desempregados as vítimas sacrificiais sobre o seu altar.

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Vivemos no ruído e na confusão.
Se a linguagem servia de território estável à convivialidade, à civilização, de há décadas que os progressistas têm vindo sistematicamente a «desconstruir» esse terreno comum. Não se negam as possibilidades criativas desta «desconstrução». Tanto estéticas quanto éticas. Mas a «desconstrução» da civilização é sistemática exactamente porque pretende, politicamente, a dissolução de uma sociedade e de uma civilização que, nos corredores da academia, da política, da intelligentsia, é vista como mãe de todas as opressões, discricionariedades e violências. É no íntimo da tolerância onde a serpente deposita os seus nefastos ovos.

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Temos que o político pretende a tudo sobrepor-se.
Vivemos o tempo de uma fundamental inversão. A política pós-antropológica pretende que o político a tudo se sobreponha. Ao reino da estética e ao da ética quando, na melhor das hipóteses, o político é justamente decorrência da estética e da ética. Mais que tudo ser relativo – que o não é – pior é tudo ser invertido. A começar pela linguagem em permanente redefinição - por exemplo: casamento já não é mais a união estável de um macho com uma fêmea com fim à procriação e à manutenção da espécie, mas uma união ilimitada onde cabe tudo o que o capricho ditar; género sobrepõe-se a sexo como psicótica ditadura do eu sobre as realidades imutáveis que o transcendem.
Desentendemo-nos agora na novilíngua que nos é implantada através de sucessivas vagas ideológicas: da esquerda adolescentóide e pseudo-emancipadora à direita liberal responsável pela financeirização da realidade. Resulta daqui o desentendimento cada vez mais ruidoso entre os sujeitos e a dissolução de qualquer vínculo humano, mais forte que a contingência dos dias, entre eles.

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A hipótese moderna da emancipação é cada vez mais soterrada nos abismos de servidões a que
voluntariamente ou impensadamente aderimos. Dos hábitos de consumo dementes à narcotização da consciência a tudo servimos mas sobretudo do eu somos escravos.
Tudo isto é servido num discurso de alteridade, de atenção ao outro, que decorre mais da insaciável voracidade do eu do que verdadeira possibilidade de relação.
Se já nem a mesma língua falamos como nos compreenderemos?

Europa Caffe


A festa de Babette | Gabriel Axel | Dinamarca / 1987


Wherever the Catholic sun doth shine,
There’s always laughter and good red wine.
At least I’ve always found it so.
Benedicamus Domino!

Hilaire Belloc



Quis o destino que surgisse, por uma última vez, a oportunidade para Babette realizar-se na cozinha. Como artesã dedicada, era pelo seu ofício que a sua vida adquiria sentido. A cozinha como arte, síntese de uma cultura, de uma visão do mundo.
E é nesse último jantar que se revela, curiosamente, uma das fronteiras entre o Norte e o Sul.
O Norte, austero, puritano, pietista, kierkgaardiano, que separa o corpo da alma, esse Norte que representa o corpo como o Mal que arrastamos, condenados, na peregrinação até ao Paraíso; o corpo reprimido e reeducado para negação de todos os seus prazeres que mais não são que traços dessa perversidade original que fez o Homem desabar do Éden. O Norte, obcecado com o mal e com o que faz mal.
O Sul, papista, hedonista, que compreende o Homem como inteiro, sem fractura possível entre corpo e alma. Este Sul do Sol e do sal, do excesso e da imprudência, do corpo que se inscreve no espírito e do espírito que pelo corpo acede ao Mundo. O Sul, aberto à experiência radical e integral dos dons gretuitos que Deus põe no Mundo à disposição do Homem.

Talvez na cozinha de Babette possamos compreender um pouco melhor o que na Europa nos separa.

Sabe quem eu sou?

Welcome to New York | Abel Ferrara / 2014


É Depardieu e a história de um corpo que Abel Ferrara filma.
É a história de um corpo, vago pela solidão, sitiado pela ambição, encarcerado pelo vício. Um corpo brutal, porcino, em estrondoso contraste com os corpos esculturais das prostitutas contratadas para satisfação impossível da voragem animal de “Devereaux”. Um corpo que se constitui a partir do instinto animal. Que rosna, que grunhe, que respira ofegante.
Esqueça-se DSK, a alta finança, a grande política. Porque este pode ser também um filme político: não há diferença entre um príncipe do mundo e um anónimo assalariado quando expostos e soterrados pelo abismo interior que (nos) habita cada um de nós.
Um corpo doente que recusa a salvação: Para mim não há redenção.