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4. Deterioração da qualidade de vida humana e degradação social
43. Tendo em conta que o ser humano também é uma criatura deste mundo, que tem direito a viver e ser feliz e, além disso, possui uma dignidade especial, não podemos deixar de considerar os efeitos da degradação ambiental, do modelo actual de desenvolvimento e da cultura do descarte sobre a vida das pessoas.
44. Nota-se hoje, por exemplo, o crescimento desmedido e descontrolado de muitas cidades que se tornaram pouco saudáveis para viver, devido não só à poluição proveniente de emissões tóxicas mas também ao caos urbano, aos problemas de transporte e à poluição visiva e acústica. Muitas cidades são grandes estruturas que não funcionam, gastando energia e água em excesso. Há bairros que, embora construídos recentemente, apresentam-se congestionados e desordenados, sem espaços verdes suficientes. Não é conveniente para os habitantes deste planeta viver cada vez mais submersos de cimento, asfalto, vidro e metais, privados do contacto físico com a natureza.
45. Nalguns lugares, rurais e urbanos, a privatização dos espaços tornou difícil o acesso dos cidadãos a áreas de especial beleza; noutros, criaram-se áreas residenciais «ecológicas» postas à disposição só de poucos, procurando-se evitar que outros entrem a perturbar uma tranquilidade artificial. Muitas vezes encontra-se uma cidade bela e cheia de espaços verdes e bem cuidados nalgumas áreas «seguras», mas não em áreas menos visíveis, onde vivem os descartados da sociedade.
46. Entre os componentes sociais da mudança global, incluem-se os efeitos laborais dalgumas inovações tecnológicas, a exclusão social, a desigualdade no fornecimento e consumo da energia e doutros serviços, a fragmentação social, o aumento da violência e o aparecimento de novas formas de agressividade social, o narcotráfico e o consumo crescente de drogas entre os mais jovens, a perda de identidade. São alguns sinais, entre outros, que mostram como o crescimento nos últimos dois séculos não significou, em todos os seus aspectos, um verdadeiro progresso integral e uma melhoria da qualidade de vida. Alguns destes sinais são ao mesmo tempo sintomas duma verdadeira degradação social, duma silenciosa ruptura dos vínculos de integração e comunhão social.
47. A isto vêm juntar-se as dinâmicas dos mass-media e do mundo digital, que, quando se tornam omnipresentes, não favorecem o desenvolvimento duma capacidade de viver com sabedoria, pensar em profundidade, amar com generosidade. Neste contexto, os grandes sábios do passado correriam o risco de ver sufocada a sua sabedoria no meio do ruído dispersivo da informação. Isto exige de nós um esforço para que esses meios se traduzam num novo desenvolvimento cultural da humanidade, e não numa deterioração da sua riqueza mais profunda. A verdadeira sabedoria, fruto da reflexão, do diálogo e do encontro generoso entre as pessoas, não se adquire com uma mera acumulação de dados, que, numa espécie de poluição mental, acabam por saturar e confundir. Ao mesmo tempo tendem a substituir as relações reais com os outros, com todos os desafios que implicam, por um tipo de comunicação mediada pela internet. Isto permite seleccionar ou eliminar a nosso arbítrio as relações e, deste modo, frequentemente gera-se um novo tipo de emoções artificiais, que têm a ver mais com dispositivos e monitores do que com as pessoas e a natureza. Os meios actuais permitem-nos comunicar e partilhar conhecimentos e afectos. Mas, às vezes, também nos impedem de tomar contacto directo com a angústia, a trepidação, a alegria do outro e com a complexidade da sua experiência pessoal. Por isso, não deveria surpreender-nos o facto de, a par da oferta sufocante destes produtos, ir crescendo uma profunda e melancólica insatisfação nas relações interpessoais ou um nocivo isolamento.
Louvado Sejas, Carta Encíclica Sobre o Cuidado da Casa Comum | Francisco / 2015
Estúpida paisagem
Lisboa acorda sitiada por dentro: turismo
de massas; reabilitação hostelizante;
golden-visação do parque
habitacional; airbnbização das redes
de vizinhança e de bairros inteiros. Soterrados nos escombros da crise
económica, legitimamente procuramos pontos de fuga e possibilidades de
sobrevivência.
1. Empreendedorismo hipster: Lisboa, cidade de serviços
1. Empreendedorismo hipster: Lisboa, cidade de serviços
O discurso vazio do empreendedorismo,
num primeiro momento, emitido pela instância política (central) e a adesão a
este discurso – ainda que epidérmica e ambígua, como é sempre, de resto, culturalmente
a adesão dos portugueses a tudo o que vem «lá de fora» - por parte de exércitos
de jovens qualificados desempregados, são o rosto mais visível e glamouroso da terceirização de Lisboa. A
pretensão é a de uma cidade asséptica, clean,
onde todos sejamos energicamente jovens pró-activos intervenientes das
indústrias criativas e/ou I.T’s em detrimento das actividades tradicionais e
industriais. A Câmara Municipal patrocina startups,
ninhos de empresas, meros escritórios
de sonhos destinados à frustração – perdoe-se o pessimismo.
A cidade das startups é uma cidade desvinculada do real. Será uma Lisboa construída para e por um desígnio social inexequível – aqui e em qualquer parte do mundo – de uma monocultura laboral (indústrias criativas/finança/I.T’s), que por muita sedução que se nos ofereça é, diremos, absurda e irreal.
Esta é uma Lisboa que se pretende rever nas duas ou três páginas que a Monocle ou a Wallpaper lhe oferece de quando em quando e que disso faz acontecimento cultural e social de uma relevância que não tem.
2. Airbnbização do quotidiano: Lisboa, cidade de turistas.
A cidade das startups é uma cidade desvinculada do real. Será uma Lisboa construída para e por um desígnio social inexequível – aqui e em qualquer parte do mundo – de uma monocultura laboral (indústrias criativas/finança/I.T’s), que por muita sedução que se nos ofereça é, diremos, absurda e irreal.
Esta é uma Lisboa que se pretende rever nas duas ou três páginas que a Monocle ou a Wallpaper lhe oferece de quando em quando e que disso faz acontecimento cultural e social de uma relevância que não tem.
2. Airbnbização do quotidiano: Lisboa, cidade de turistas.
No entanto, a realidade, essa besta, é bem mais divertida,
complexa e contraditória, que as visões do progresso dos nossos gurus do
empreendedorismo. Verificamos que as actividades que mais têm sido sujeitas ao
ímpeto modernizador são as actividades tradicionais do pequeno comércio e,
sobretudo, da restauração. Surpreendentemente, ou talvez não, os nossos jovens
qualificados e abandonados ao desemprego foram ao baú dos avós e descobriram as
receitas tradicionais, os petiscos de outrora, os objectos da vida portuguesa carregados, até há pouco
tempo, do lastro de um Portugal arcaico do qual, até com o discurso da adesão à
Europa, se fugia a todo o custo. As imagens ainda vivas da pobreza das gerações
anteriores, da sardinha que se dividia por cinco, foram resgatadass,
embrulhadas e transfiguradas em objectos de sedução que se afirmam agora como
genuinamente portugueses. Uma cidade de cadeias de hamburgarias e bifanarias do bairro, como tentativa espúria da
recuperação/construção de uma memória do que nunca existiu. Uma cidade atada ao
deslumbramento parolo da marca Portugal,
que redescobre a sardinha de conserva e as pataniscas de bacalhau, outrora
representações do atavismo lisboeta, hoje guindados a símbolo de uma
pós-modernidade timidamente afirmativa dos nossos valores dentro do contexto da
globalização.
Mas apesar de tudo, as arcaicas & pós-modernas latas de conservas não servem para nós, lisboetas, habitantes de lisboa, os que cá trabalham e vivem. A marca Portugal é mais um isco very-typical e de sedução às classes-médias europeias que aqui chegam pelas companhias de aviação low-cost.
Se a fuga à crise, embrulhada no discurso do empreendedorismo, uniformizou o pequeno comércio e a restauração a partir de imagens que resultam num postiço de tradição e modernidade – começa a ser difícil almoçar um bitoque que não esteja mergulhado num molho conceptual – a cidade disneylandiza-se. Lisboa transforma-se lentamente em parque temático onde todas as opções da política urbana são direccionadas para o acolhimento às massas do turismo.
O turismo é visto pelos poderes públicos como hipótese redentora do país que, num assomo de modernidade induzida pelas directivas de Bruxelas, pacata e provincianamente abateu e desmantelou todas as actividades económicas que tradicionalmente o alimentavam.
Lisboa tranquilamente abandona os lisboetas e estes esvaziam os seus apartamentos para short-rental aos turistas acidentais. A pouco e pouco revertemos o parque habitacional para o aluguer temporário às aves migratórias da globalização. Um imóvel é agora apenas e só uma oportunidade de investimento. Uma casa já não é uma casa, é uma aplicação.
A vida nos bairros «históricos» torna-se um inferno. Ridículos e excessivos tuck-tucks – a fazer lembrar imagens de riquexós e de subserviência -; sôfregos agentes imobiliários – sector que tem acolhido milhares de desempregados e os explora com o regime de comissões – que depois dos chineses, (em migração para Espanha devido às tribulações dos golden-visa), se dedicam agora a incitar franceses e outras nacionalidades em fuga às brutais cargas fiscais impostas pelas gloriosas e decadentes sociais-democracias do norte, ao investimento seguro e de alta rentabilidade na charmosa Lisboa; hotéis de charme e boutiques hosteis que impregnam a cidade e arrasam com o pouco que resta do viver habitual da cidade.
Mas apesar de tudo, as arcaicas & pós-modernas latas de conservas não servem para nós, lisboetas, habitantes de lisboa, os que cá trabalham e vivem. A marca Portugal é mais um isco very-typical e de sedução às classes-médias europeias que aqui chegam pelas companhias de aviação low-cost.
Se a fuga à crise, embrulhada no discurso do empreendedorismo, uniformizou o pequeno comércio e a restauração a partir de imagens que resultam num postiço de tradição e modernidade – começa a ser difícil almoçar um bitoque que não esteja mergulhado num molho conceptual – a cidade disneylandiza-se. Lisboa transforma-se lentamente em parque temático onde todas as opções da política urbana são direccionadas para o acolhimento às massas do turismo.
O turismo é visto pelos poderes públicos como hipótese redentora do país que, num assomo de modernidade induzida pelas directivas de Bruxelas, pacata e provincianamente abateu e desmantelou todas as actividades económicas que tradicionalmente o alimentavam.
Lisboa tranquilamente abandona os lisboetas e estes esvaziam os seus apartamentos para short-rental aos turistas acidentais. A pouco e pouco revertemos o parque habitacional para o aluguer temporário às aves migratórias da globalização. Um imóvel é agora apenas e só uma oportunidade de investimento. Uma casa já não é uma casa, é uma aplicação.
A vida nos bairros «históricos» torna-se um inferno. Ridículos e excessivos tuck-tucks – a fazer lembrar imagens de riquexós e de subserviência -; sôfregos agentes imobiliários – sector que tem acolhido milhares de desempregados e os explora com o regime de comissões – que depois dos chineses, (em migração para Espanha devido às tribulações dos golden-visa), se dedicam agora a incitar franceses e outras nacionalidades em fuga às brutais cargas fiscais impostas pelas gloriosas e decadentes sociais-democracias do norte, ao investimento seguro e de alta rentabilidade na charmosa Lisboa; hotéis de charme e boutiques hosteis que impregnam a cidade e arrasam com o pouco que resta do viver habitual da cidade.
3. Golden-visação da propriedade: saudades da ética do
pato-bravo.
Dizimados pela crise, os tradicionais actores da construção
civil e do imobiliário, os pequenos empreiteiros, os patos-bravos que tanta gente empregavam, desapareceram de vez. Os
que sobraram estão agora ao serviço dos poucos a quem sobrou algum dinheiro e,
oportunistas, vêm as óbvias oportunidades de uma cidade que se supõe a
reconfigurar a partir do seu centro.
Os até há poucos anos promotores imobiliários, agora a braços com falências e execuções e o desamparo do desaparecimento do BES, são substituídos por indivíduos que, como cogumelos, aparecem do nada, trazendo na mala muito dinheiro e ilusões de multiplicação deste.
O imobiliário acolhe quem foge da instabilidade da bolsa e, assim, financeiriza-se: um imóvel é comprado, pintado e vendido, num espaço de poucas semanas e com rentabilidades, no mínimo, intrigantes – a mão invisível e a teleologia de mercado não explicam tudo. Mas diversamente do outrora tão vituperado pato-bravo, qualquer traço de ética, ainda que mínimo, esfumou-se na voracidade e velocidade da circulação do capital investido.
O pato-bravo aparecia, fazia a obra, comercializava-a e, talvez por isso mesmo, era obrigado a um critério mínimo de ética e de qualidade construtiva. Os que hoje acorrem com ganância ao sector imobiliário, soltos das amarras garantistas construtivas e éticas que a venda do imóvel para habitação impunha, operam pequenas obras à superfície de imóveis que, na maior parte dos casos, se encontravam há longo tempo devolutos e, consequentemente, sem quaisquer condições habitabilidade e segurança. Caricaturando, um mero balde de tinta pode tornar-se um investimento que resultará num retorno de milhares de euros.
Os até há poucos anos promotores imobiliários, agora a braços com falências e execuções e o desamparo do desaparecimento do BES, são substituídos por indivíduos que, como cogumelos, aparecem do nada, trazendo na mala muito dinheiro e ilusões de multiplicação deste.
O imobiliário acolhe quem foge da instabilidade da bolsa e, assim, financeiriza-se: um imóvel é comprado, pintado e vendido, num espaço de poucas semanas e com rentabilidades, no mínimo, intrigantes – a mão invisível e a teleologia de mercado não explicam tudo. Mas diversamente do outrora tão vituperado pato-bravo, qualquer traço de ética, ainda que mínimo, esfumou-se na voracidade e velocidade da circulação do capital investido.
O pato-bravo aparecia, fazia a obra, comercializava-a e, talvez por isso mesmo, era obrigado a um critério mínimo de ética e de qualidade construtiva. Os que hoje acorrem com ganância ao sector imobiliário, soltos das amarras garantistas construtivas e éticas que a venda do imóvel para habitação impunha, operam pequenas obras à superfície de imóveis que, na maior parte dos casos, se encontravam há longo tempo devolutos e, consequentemente, sem quaisquer condições habitabilidade e segurança. Caricaturando, um mero balde de tinta pode tornar-se um investimento que resultará num retorno de milhares de euros.
4. O evento e o quotidiano: excrescências do inferno.
Por último, um outro fenómeno que atravessa Lisboa é a loucura
dos eventos. Mais do que urbanístico
ou arquitectónico, este será, talvez, um fenómeno para verificação
psicanalítica e antropológica.
Tudo é que é «espaço verde» ou jardim, a partir da Primavera é ocupado com eventos. Eventos que celebram um multiculturalismo politicamente-correcto, festivais que comemoram a vida, o cão, o gato e o canário, eventos de causas e lutas patrocinadas por cervejeiras. De repente, toda a vida se transforma e transtorna num eterno evento - naturalmente para disseminação viral nas redes sociais. Provavelmente, tal como estes eventos ocupam os vazios da cidade, serão, primeiramente, para ocupar os vazios existenciais do cidadão. Ocupado e cada vez mais esmagado pelo peso do trabalho, que organiza todo o quotidiano da vida e da cidade, quando sozinho, confrontado consigo mesmo e em tempos desocupados do serviço, o pobre do cidadão deixa de ter direito ao silêncio para ter de suportar uma plêiade de acontecimentos e eventos e festivais que cobrem todos os fins-de-semana soalheiros. O silêncio e a tranquilidade dos bairros torna-se um luxo. O acontecimento para massas ao ar livre perpetua a alienação do consumo – aliás, o próprio evento é, por um lado, fenómeno para ser consumido e, por outro, constituído a partir da própria lógica da mercantilização capitalista da realidade que tudo coisifica. O tempo é coisificado, o silêncio é objectificado. Tudo é medido e mensurável: o descanso e o silêncio têm um preço alto.
Tudo é que é «espaço verde» ou jardim, a partir da Primavera é ocupado com eventos. Eventos que celebram um multiculturalismo politicamente-correcto, festivais que comemoram a vida, o cão, o gato e o canário, eventos de causas e lutas patrocinadas por cervejeiras. De repente, toda a vida se transforma e transtorna num eterno evento - naturalmente para disseminação viral nas redes sociais. Provavelmente, tal como estes eventos ocupam os vazios da cidade, serão, primeiramente, para ocupar os vazios existenciais do cidadão. Ocupado e cada vez mais esmagado pelo peso do trabalho, que organiza todo o quotidiano da vida e da cidade, quando sozinho, confrontado consigo mesmo e em tempos desocupados do serviço, o pobre do cidadão deixa de ter direito ao silêncio para ter de suportar uma plêiade de acontecimentos e eventos e festivais que cobrem todos os fins-de-semana soalheiros. O silêncio e a tranquilidade dos bairros torna-se um luxo. O acontecimento para massas ao ar livre perpetua a alienação do consumo – aliás, o próprio evento é, por um lado, fenómeno para ser consumido e, por outro, constituído a partir da própria lógica da mercantilização capitalista da realidade que tudo coisifica. O tempo é coisificado, o silêncio é objectificado. Tudo é medido e mensurável: o descanso e o silêncio têm um preço alto.
Pode uma cidade sobreviver assim?
Esta é uma Lisboa que troca uma estação de combóio por um jardim. Em que a obsessão do turismo se concretiza como uma avalanche que destrói a ecologia urbana. Em que o embasbacamento empreendedor uniformiza os restaurantes, cafés, as tascas e a vida, ela própria já devidamente vigiada pela ASAE. É uma cidade onde o espaço público é paulatinamente capturado pelo interesse particular, seja o do pequeno café que com umas três ou quatro mesas ocupa dois terços do passeio em calçada, seja o das grandes empresas que alugam praças e avenidas inteiras – para a realização de eventos, evidentemente.
Os lisboetas prosseguem o seu percurso de fuga para as periferias. Lisboa transforma-se apenas em local de trabalho onde artificialmente se presume reconstruir, em plástico, uma memória daquilo que nunca foi.
E aos lugares é estranha a avalanche da turistificação do olhar, outra forma de esteticização da realidade a partir das categorias do consumo. A crítica de Benjamin à reprodutibilidade da obra de arte na era da técnica enuncia claramente a capacidade da fotofgrafia (por exemplo) tornar a miséria humana objecto de consumo. Também a arquitectura. Também as cidades
Tudo hostelizar, golden-visar, airbnbizar, é levar por diante, pela arquitectura, pelo urbanismo, a
espectacularização do vazio e do plástico, tornando-a, à cidade, mero objecto
de consumo sem qualquer relação com a vida vivida da polis.
()
Nymphomaniac, Vol. I, Vol. II | Lars von Trier / 2014
Por uma geometria narrativa confessional, (ou psicanalítica), Joe vai contando a Seligman a vertigem sexual ao redor da qual toda a sua existência toma sentido. Nem por um momento se sugere um moralismo barato, antes o confronto do espectador com imagens explícitas e palavras - palavras que aqui adquirem presença preponderante pela sua crueza desapiedada
Ninfomaníaca estilhaça o relativismo ético e moral das nossas sociedades. Uma história contada por alguém doente, alguém que distingue com meridiana clareza o bem e o mal, por contraponto a quem a ouve e que não mais é que a auto-complacência cheia de si da actual sociedade hipnotizada por psicoterapias (que mais não são que dispositivos totalitários de controlo), e embriagada pelo materialismo. E tão importante quanto a voracidade sexual doentia de Joe – que a leva à total dessensibilização ao prazer – é a assexualidade de Seligman, que vive uma existência que recusa a sua própria sexualidade.
Como que inversão do dispositivo cinematográfico, como procura de imagens para contar o que se vai dizendo, importa aqui o que se vai contando. E o que se vai contando é uma história em que rebenta com o espartilho do politicamente correcto com que hoje as nossas sociedades se auto-reprimem e vigiam. E assim talvez faça sentido ser uma pessoa doente a dizê-lo, por contraponto à suposta saúde e civilidade do velho ouvinte. E depois no fim Joe dá-lhe um tiro, na afirmação radical da sua liberdade.
E von Trier diz-nos que afinal a pior patologia é mesmo a vida asséptica e assexuada, a linguagem policiada de que o velho Seligman é representação.
Não tanto a cinematografia mas mais como o conto moral, contado com irrisão por alguém que olha o humanismozinho de classe média e o sentimentalismo garandiloquente pequeno-burguês que domina hoje a paisagem cultural do Ocidente, faça de Ninfomaníaca um objecto também político - naturalmente que a crítica do Guardian ou do NYTimes ou do Público jamais aprovaria um filme como este.
Por uma geometria narrativa confessional, (ou psicanalítica), Joe vai contando a Seligman a vertigem sexual ao redor da qual toda a sua existência toma sentido. Nem por um momento se sugere um moralismo barato, antes o confronto do espectador com imagens explícitas e palavras - palavras que aqui adquirem presença preponderante pela sua crueza desapiedada
Ninfomaníaca estilhaça o relativismo ético e moral das nossas sociedades. Uma história contada por alguém doente, alguém que distingue com meridiana clareza o bem e o mal, por contraponto a quem a ouve e que não mais é que a auto-complacência cheia de si da actual sociedade hipnotizada por psicoterapias (que mais não são que dispositivos totalitários de controlo), e embriagada pelo materialismo. E tão importante quanto a voracidade sexual doentia de Joe – que a leva à total dessensibilização ao prazer – é a assexualidade de Seligman, que vive uma existência que recusa a sua própria sexualidade.
Como que inversão do dispositivo cinematográfico, como procura de imagens para contar o que se vai dizendo, importa aqui o que se vai contando. E o que se vai contando é uma história em que rebenta com o espartilho do politicamente correcto com que hoje as nossas sociedades se auto-reprimem e vigiam. E assim talvez faça sentido ser uma pessoa doente a dizê-lo, por contraponto à suposta saúde e civilidade do velho ouvinte. E depois no fim Joe dá-lhe um tiro, na afirmação radical da sua liberdade.
E von Trier diz-nos que afinal a pior patologia é mesmo a vida asséptica e assexuada, a linguagem policiada de que o velho Seligman é representação.
Não tanto a cinematografia mas mais como o conto moral, contado com irrisão por alguém que olha o humanismozinho de classe média e o sentimentalismo garandiloquente pequeno-burguês que domina hoje a paisagem cultural do Ocidente, faça de Ninfomaníaca um objecto também político - naturalmente que a crítica do Guardian ou do NYTimes ou do Público jamais aprovaria um filme como este.
breve história do lugar estético do arquitecto na cadeia de produção pós-industrial
Les Mercuriales, Bagnolet, Paris, Serge Lana + Alfred H. Milh, 1975
- As andorinhas nunca usam os ninhos construídos pela mão do
homem – disse Jed muito depressa – é impossível. E se um homem lhe tocou no
ninho, até o abandonam e vão construir outro novo.
- Como é que sabes isso?
- Li isto há alguns anos num livro sobre o comportamento animal, estava a documentar-me para um quadro.
Era falso, nunca lera nada daquilo, mas o pai pareceu instantaneamente aliviado e logo se acalmou. Quem diria, pensou Jed, que ele andava há mais de sessenta anos com aquele peso no coração!... Peso que provavelmente o acompanhara ao longo de toda a sua carreira de arquitecto!...
- Depois do bac inscrevi-me nas Belas-Artes de Paris. O que inquietava um pouco a minha mãe, que preferia que eu fizesse um curso de engenharia; mas fui muito apoiado pelo teu avô. Penso que ele tinha uma ambição artística, como fotógrafo, mas nunca teve a possibilidade de fotografar mais que casamentos e primeiras comunhões…
Jed nunca vira o pai ocupado com outra coisa que não fossem problemas técnicos e, para o fim, a maioria das vezes, problemas financeiros; a ideia de que o pai também fizera Belas-Artes, de que a arquitectura fazia parte das disciplinas artísticas, era surpreendente, desconfortável.
- Sim, eu também queria ser um artista… - disse o pai com acrimónia, quase com maldade. – Mas não consegui. A corrente dominante quando eu era novo era o funcionalismo, a bem dizer dominava já desde há várias décadas, em arquitectura nada se tinha passado depois de Le Corbusier e de Van der Rohe. Todas as cidades novas, todas as cidades que se construíam nos subúrbios nos anos 50 e 60 foram marcadas pela sua influência. Eu e alguns outros nas Belas-Artes tínhamos a ambição de fazer coisa diferente. Não rejeitávamos propriamente o primado da função, nem a noção de «máquina de habitar»; mas o que púnhamos em questão era o que implicava o facto de se habitar em determinado lugar. Como os marxistas, como os liberais, Le Corbusier era um produtivista. O que ele imaginava para o homem eram edifícios de escritórios, quadrados utilitários, sem decoração de qualquer espécie; e edifícios de habitação mais ou menos idênticos, com algumas funções suplementares – jardim de infância, ginásio, piscina; e vias rápidas entre os dois. Na sua célula de habitação o homem devia beneficiar de ar puro e de luz, muito importante a seus olhos; e entre as estruturas de trabalho e as estruturas de habitação o espaço livre era reservado à natureza selvagem: florestas, rios – imagino que no espírito dele as famílias humanas deviam poder passear por lá aos domingos; de qualquer modo ele queria reservar esse espaço, era uma espécie de ecologista antecipado, para ele a Humanidade devia limitar-se a módulos de habitação circunscritos no meio da Natureza, mas sem em caso algum a modificarem. Quando pensamos nisto vemos que é pavorosamente primitivo, é uma regressão terrível relativamente a qualquer paisagem rural – mistura subtil, complexa, evolutiva, de prados, campos, florestas, aldeias. É a visão de um espírito brutal, totalitário. Le Corbusier parecia-nos um espírito totalitário e brutal, imbuído de um gosto intenso pela fealdade; mas foi a sua visão que prevaleceu ao longo de todo o século XX. Quanto a nós, éramos antes influenciados por Charles Fourrier… - Sorriu ao ver a expressão de surpresa do filho. – escolhemos sobretudo as teorias sexuais de Fourrier, e é certo que são bastante burlescas. É difícil ler o Fourrier imediato. Com as suas histórias de turbilhões, de faquires fêmeas e de fadas do exército do Reno, até nos espanta que tenha tido discípulos, gente que o levava a sério, que pretendia realmente construir um novo modelo de sociedade com base nos seus livros. É incompreensível se tentarmos ver nele um pensador, porque não se percebe absolutamente nada do seu pensamento, mas, no fundo, Fourrier não é um pensador, é um guru, o primeiro da sua espécie, e, como acontece com todos os gurus, o êxito veio-lhe, não da adesão intelectual a uma teoria, mas, pelo contrário, da incompreensão geral, associada a um inalterável optimismo, em especial no plano sexual. Porém, o verdadeiro tema de Fourrier, o que em primeiro lugar lhe interessa, não é o sexo, mas a organização da produção. A grande questão que se lhe põe é esta: porque é que o homem trabalha? Porque é que ele ocupa um determinado lugar na organização social, aceita lá estar e cumprir a sua tarefa? A esta questão os liberais respondiam que era pura e simplesmente o engodo do lucro; nós achávamos que era uma resposta insuficiente. Quanto aos marxistas, esses não respondiam a nada, nem sequer se interessavam pelo assunto, e aliás foi por isso que o comunismo fracassou: mal se suprimiu o aguilhão financeiro as pessoas deixaram de trabalhar, sabotaram a sua tarefa, o absentismo aumentou em proporções enormes; nunca o comunismo foi capaz de assegurar a produção e a distribuição dos bens mais elementares. Fourrier conhecera o Ancien Régime, e estava consciente de que muito antes do aparecimento do capitalismo haviam tido lugar pesquisas científicas, progressos técnicos, e que havia pessoas que trabalhavam duramente, por vezes muito duramente, sem serem impelidas pelo engodo do ganho mas por alguma coisa muito mais vaga aos olhos de um homem moderno: o amor a Deus, no caso dos monges, ou mais simplesmente a honra da função.
O pai de Jed calou-se, percebeu que o filho o escutava agora com muita atenção.
- Sim… - comentou ele -, existe sem dúvida uma relação com o que tu tentaste fazer nos teus quadros. há muitos galimatias em Fourrier, na sua totalidade quase ilegíveis; e talvez haja ainda, apesar de tudo, algo a retirar de lá. Enfim, era o que nós pensávamos naquela altura…
Calou-se, pareceu mergulhar de novo nas suas recordações. As borrascas tinham acalmado, dando lugar a uma noite estrelada, silenciosa; uma espessa camada de neve cobria os telhados.
- Como é que sabes isso?
- Li isto há alguns anos num livro sobre o comportamento animal, estava a documentar-me para um quadro.
Era falso, nunca lera nada daquilo, mas o pai pareceu instantaneamente aliviado e logo se acalmou. Quem diria, pensou Jed, que ele andava há mais de sessenta anos com aquele peso no coração!... Peso que provavelmente o acompanhara ao longo de toda a sua carreira de arquitecto!...
- Depois do bac inscrevi-me nas Belas-Artes de Paris. O que inquietava um pouco a minha mãe, que preferia que eu fizesse um curso de engenharia; mas fui muito apoiado pelo teu avô. Penso que ele tinha uma ambição artística, como fotógrafo, mas nunca teve a possibilidade de fotografar mais que casamentos e primeiras comunhões…
Jed nunca vira o pai ocupado com outra coisa que não fossem problemas técnicos e, para o fim, a maioria das vezes, problemas financeiros; a ideia de que o pai também fizera Belas-Artes, de que a arquitectura fazia parte das disciplinas artísticas, era surpreendente, desconfortável.
- Sim, eu também queria ser um artista… - disse o pai com acrimónia, quase com maldade. – Mas não consegui. A corrente dominante quando eu era novo era o funcionalismo, a bem dizer dominava já desde há várias décadas, em arquitectura nada se tinha passado depois de Le Corbusier e de Van der Rohe. Todas as cidades novas, todas as cidades que se construíam nos subúrbios nos anos 50 e 60 foram marcadas pela sua influência. Eu e alguns outros nas Belas-Artes tínhamos a ambição de fazer coisa diferente. Não rejeitávamos propriamente o primado da função, nem a noção de «máquina de habitar»; mas o que púnhamos em questão era o que implicava o facto de se habitar em determinado lugar. Como os marxistas, como os liberais, Le Corbusier era um produtivista. O que ele imaginava para o homem eram edifícios de escritórios, quadrados utilitários, sem decoração de qualquer espécie; e edifícios de habitação mais ou menos idênticos, com algumas funções suplementares – jardim de infância, ginásio, piscina; e vias rápidas entre os dois. Na sua célula de habitação o homem devia beneficiar de ar puro e de luz, muito importante a seus olhos; e entre as estruturas de trabalho e as estruturas de habitação o espaço livre era reservado à natureza selvagem: florestas, rios – imagino que no espírito dele as famílias humanas deviam poder passear por lá aos domingos; de qualquer modo ele queria reservar esse espaço, era uma espécie de ecologista antecipado, para ele a Humanidade devia limitar-se a módulos de habitação circunscritos no meio da Natureza, mas sem em caso algum a modificarem. Quando pensamos nisto vemos que é pavorosamente primitivo, é uma regressão terrível relativamente a qualquer paisagem rural – mistura subtil, complexa, evolutiva, de prados, campos, florestas, aldeias. É a visão de um espírito brutal, totalitário. Le Corbusier parecia-nos um espírito totalitário e brutal, imbuído de um gosto intenso pela fealdade; mas foi a sua visão que prevaleceu ao longo de todo o século XX. Quanto a nós, éramos antes influenciados por Charles Fourrier… - Sorriu ao ver a expressão de surpresa do filho. – escolhemos sobretudo as teorias sexuais de Fourrier, e é certo que são bastante burlescas. É difícil ler o Fourrier imediato. Com as suas histórias de turbilhões, de faquires fêmeas e de fadas do exército do Reno, até nos espanta que tenha tido discípulos, gente que o levava a sério, que pretendia realmente construir um novo modelo de sociedade com base nos seus livros. É incompreensível se tentarmos ver nele um pensador, porque não se percebe absolutamente nada do seu pensamento, mas, no fundo, Fourrier não é um pensador, é um guru, o primeiro da sua espécie, e, como acontece com todos os gurus, o êxito veio-lhe, não da adesão intelectual a uma teoria, mas, pelo contrário, da incompreensão geral, associada a um inalterável optimismo, em especial no plano sexual. Porém, o verdadeiro tema de Fourrier, o que em primeiro lugar lhe interessa, não é o sexo, mas a organização da produção. A grande questão que se lhe põe é esta: porque é que o homem trabalha? Porque é que ele ocupa um determinado lugar na organização social, aceita lá estar e cumprir a sua tarefa? A esta questão os liberais respondiam que era pura e simplesmente o engodo do lucro; nós achávamos que era uma resposta insuficiente. Quanto aos marxistas, esses não respondiam a nada, nem sequer se interessavam pelo assunto, e aliás foi por isso que o comunismo fracassou: mal se suprimiu o aguilhão financeiro as pessoas deixaram de trabalhar, sabotaram a sua tarefa, o absentismo aumentou em proporções enormes; nunca o comunismo foi capaz de assegurar a produção e a distribuição dos bens mais elementares. Fourrier conhecera o Ancien Régime, e estava consciente de que muito antes do aparecimento do capitalismo haviam tido lugar pesquisas científicas, progressos técnicos, e que havia pessoas que trabalhavam duramente, por vezes muito duramente, sem serem impelidas pelo engodo do ganho mas por alguma coisa muito mais vaga aos olhos de um homem moderno: o amor a Deus, no caso dos monges, ou mais simplesmente a honra da função.
O pai de Jed calou-se, percebeu que o filho o escutava agora com muita atenção.
- Sim… - comentou ele -, existe sem dúvida uma relação com o que tu tentaste fazer nos teus quadros. há muitos galimatias em Fourrier, na sua totalidade quase ilegíveis; e talvez haja ainda, apesar de tudo, algo a retirar de lá. Enfim, era o que nós pensávamos naquela altura…
Calou-se, pareceu mergulhar de novo nas suas recordações. As borrascas tinham acalmado, dando lugar a uma noite estrelada, silenciosa; uma espessa camada de neve cobria os telhados.
- Eu era jovem… - disse ele por fim com uma espécie de
incredulidade suavizada. – Tu talvez não possas dar por isso inteiramente,
porque nasceste numa família que já era rica. Mas eu era jovem e preparava-me
para me tornar arquitecto, e estava em Paris; tudo me parecia possível. E eu
não era o único, Paris era alegre naquela altura, tinha-se a impressão de que
se podia reconstruir o mundo. Foi então que conheci a tua mãe, estudava no
Conservatório, tocava violino. Éramos na verdade uma espécie de bando de
artistas. Enfim, não fomos além de escrever quatro ou cinco artigos numa
revista de arquitectura, com várias assinaturas. Em grande parte eram textos
políticos. Neles defendíamos a ideia de que uma sociedade complexa, ramificada,
com níveis de organização múltiplos, como a que Fourrier propunha, exige uma
arquitectura complexa, ramificada, múltipla, com margem para a criatividade individual.
Atacávamos violentamente Van der Rohe – que fornecia estruturas vazias,
moduláveis, as mesmas que serviam de modelo aos open space das empresas – e sobretudo Le Corbusier, que construía
incansavelmente espaços concentracionários, divididos em células idênticas,
boas exactamente, dizíamos, para uma prisão modelo. Esses artigos tiveram uma
certa repercussão, acho que Deleuze falou deles; mas eu tinha que trabalhar, e
ou outros também; entrámos em grandes gabinetes de arquitectos, e a vida
tornou-se de repente muito menos divertida. A minha situação financeira bem
depressa melhorou, nessa época havia muito trabalho, a França estava a
reconstruir-se a grande velocidade. Comprei a casa do Raincy, achei boa ideia,
naquele tempo era uma cidade agradável. E além disso consegui-a por um óptimo
preço, foi um cliente que me proporcionou o negócio, um promotor imobiliário. O
proprietário era um velhote, visivelmente um intelectual, sempre de fato
cinzento de três peças e de flor na botoeira, uma flor diferente de cada vez
que o via. Parecia ter saído da Belle
Époque, quando muito dos anos 30, não conseguia associá-lo ao que o
rodeava. Poderíamos imaginar encontrá-lo, sei lá, no quai Voltaire… enfim, no Raincy de certeza que não. Era um antigo
universitário, especializado em esoterismo e História das Religiões, lembro-me
de que sabia muito da Cabala e da gnose, mas interessava-se por essas coisas de
um modo muito especial, por exemplo, por René Guénon só tinha desprezo. «Aquele
imbecil do Guénon», era assim que ele dizia, acho que tinha escrito várias
críticas virulentas aos livros dele. Nunca fora casado, enfim, tinha vivido para os seus trabalhos,
como se costuma dizer. Li um longo artigo escrito por ele numa revista de
ciências humanas onde desenvolvia umas considerações bastante curiosas sobre o
Destino, sobre a possibilidade de desenvolver uma nova religião baseada no
princípio da sincronicidade. Só a biblioteca valia o preço da casa, acho eu –
tinha mais de cinco mil volumes, em francês, em inglês e em alemão. Foi lá que
descobri as obras de William Morris.
Deteve-se a notar uma mudança de expressão na cara de Jed.
- Conheces William Morris?
- Não, papá. Mas eu também vivi naquela casa, e lembro-me da biblioteca… - Suspirou, hesitou. – Não percebo porque é que esperaste tantos anos para me falares de tudo isso.
- É porque vou morrer em breve, penso eu – disse simplesmente o pai. – Enfim, não já, não depois de amanhã, mas não estou cá muito tempo, é uma evidência… - Olhou em volta e sorriu quase jovialmente.
- Podes servir-me mais conhaque?
Jed tornou a servi-lo imediatamente. Acendeu um Gitanes e aspirou o fumo, deliciado.
- E depois a tua mão ficou grávida de ti. O fim da gravidez correu mal, tiveram de lhe fazer uma cesariana. O médico anunciou-lhe que não poderia ter mais filhos, e além disso ficou com cicatrizes, bastante feias. Isto para ela era duro; porque, sabes, era uma bela mulher… Não éramos infelizes os dois, nunca houve entre nós uma discussão séria, mas a verdade é que eu não falava muito com ela. Há também o violino, acho que ela nunca devia ter parado com ele. Lembro-me de uma noite, na porte Bagnolet, vinha eu do trabalho no meu Mercedes. Já eram nove horas mas ainda havia engarrafamentos; não sei o que desencadeou a coisa, talvez os prédios das Mercuriales porque eu trabalhava num projecto muito semelhante que achava sem interesse e feio, mas vi-me dentro do meu carro no meio dos desvios de ligação de acesso rápido, diante daqueles edifícios imundos, e de repente disse para mim mesmo que não podia continuar. Tinha quase quarenta anos, a minha vida profissional era um sucesso, mas não podia continuar. Em poucos minutos decidi fundar a minha própria empresa, para tentar fazer arquitectura tal como a entendia. Sabia que ia ser difícil, mas não queria morrer sem ao menos ter tentado. Apelei aos antigos companheiros das Belas-Artes, mas estavam todos instalados na vida – também eles tinham triunfado, e já não lhes apetecia muito correr riscos. Lancei-me então sozinho. Retomei o contacto com o Bernard Lamarche-Vadel: tínhamo-nos conhecido alguns anos antes, tínhamos simpatizado um com o outro, e ele apresentou-me a gente da figuração livre: Combas, Di Rosa… Não sei se já te falei de William Morris…
- Já, sim, papá, acabaste há cinco minutos de me falar dele.
- Ah… - Interrompeu-se, e atravessou-lhe o rosto uma expressão alucinada. – Vou experimentar um Dunhill… - Puxou algumas fumaças. – Também é bom; é diferente dos Gitanes, mas é bom. Não percebo porque é que toda a gente deixou de fumar de repente.
Calou-se, saboreou o seu cigarro até ao fim. Jed esperava. Lá fora, muitoa o longe, uma buzina solitária tentava interpretar «Nasceu-nos um menino»; falhava notas e repetia; e depois voltou ao silêncio: não houve concerto de buzinas. Nos telhados de Paris, a camada de neve era agora espessa, estabilizada: havia qualquer coisa de definitivo naquele silêncio, pensou Jed.
- William Morris era próximo dos pré-rafaelitas – continuou o pai -, de Gabriel Dante Rossetti ao princípio, e de Burne-Jones até ao fim. A ideia fundamental dos pré-rafaelitas é que a arte começou a degenera logo após a Idade Média, que desde o início do Renascimento se separou de toda a espiritualidade, de toda a autenticidade, e se tornou uma actividade puramente industrial e comercial, e que os assim chamados grandes mestres do Renascimento – quer sejam Botticelli, Rembrandt ou Leonardo da Vinci – na realidade se comportavam pura e simplesmente como chefes de empresas comerciais; exactamente como hoje em dia Jeff Koons ou Damien Hirst, os grandes mestres do Renascimento dirigiam com pulso de ferro oficinas de cinquenta, ou até cem assistentes, que produziam em cadeia quadros, esculturas, frescos. Eles, pessoalmente, limitavam-se a fornecer a orientação geral, a assinar a obra acabada, e sobretudo dedicavam-se às relações públicas junto dos mecenas do momento – príncipes ou papas. Para os pré-rafaelitas, tal como para William Morris, a distinção entre a arte e o artesanato, entre a concepção e a execução, devia ser abolida: todo o homem, à sua escala, podia ser um produtor de beleza – seja na produção de um quadro, de uma peça de vestuário ou de um móvel; e igualmente todo o homem tinha o direito de, na sua vida quotidiana, estar rodeado de objectos belos. Ele aliava esra convicção a um activismo socialista que o levou, cada vez mais, a empenhar-se nos movimentos de emancipação do proletariado; pretendia pura e simplesmente pôr fim ao sistema de produção industrial.
«O que é curioso é que Gropius, quando fundou a Bauhaus, estava exactamente na mesma linha – talvez um pouco menos política, com mais preocupações espirituais, embora na realidade também ele tenha sido socialista. Na Proclamação da Bauhaus de 1919 declara pretender ultrapassar a oposição entre arte e artesanato, proclama o direito à beleza para todos: exactamente o programa de William Morris. Mas a pouco e pouco, à medida que a Bauhaus se aproximou da indústria, tornou-se cada vez mais funcionalista e produtivista; Kandinsky e Klee foram marginalizados dentro do corpo docente e, no momento em que o instituto foi fechado por Goering, a verdade é que ele se passara para o serviço da produção capitalista.
«E nós, nós não estávamos verdadeiramente politizados; mas o pensamento de William Morris ajudou-nos a libertar-nos do interdito que Le Corbusier lançara sobre qualquer forma de ornamentação. Lembro-me de que Combas era inicialmente bastante reservado – aquele não era verdadeiramente o universo dos pintores pré-rafaelitas; mas tinha que concordar que os motivos de papel pintado desenhados por William Morris eram belíssimos, e quando compreendeu de verdade do que se tratava tornou-se um total entusiasta. Nada poderia dar-lhe maior prazer que desenhar motivos para tecidos de decoração, papéis pintados ou frisos exteriores, repetidos em todo um conjunto de edifícios. No entanto os da figuração livre estavam bastante sozinhos na época, pois a corrente minimalista continuava a ser dominante e o graf ainda não existia – pelo menos não se falava nele. Então montaram-se processos para todos os projectos mais ou menos interessantes que eram objecto de concurso, e ficou-se à espera…
Deteve-se a notar uma mudança de expressão na cara de Jed.
- Conheces William Morris?
- Não, papá. Mas eu também vivi naquela casa, e lembro-me da biblioteca… - Suspirou, hesitou. – Não percebo porque é que esperaste tantos anos para me falares de tudo isso.
- É porque vou morrer em breve, penso eu – disse simplesmente o pai. – Enfim, não já, não depois de amanhã, mas não estou cá muito tempo, é uma evidência… - Olhou em volta e sorriu quase jovialmente.
- Podes servir-me mais conhaque?
Jed tornou a servi-lo imediatamente. Acendeu um Gitanes e aspirou o fumo, deliciado.
- E depois a tua mão ficou grávida de ti. O fim da gravidez correu mal, tiveram de lhe fazer uma cesariana. O médico anunciou-lhe que não poderia ter mais filhos, e além disso ficou com cicatrizes, bastante feias. Isto para ela era duro; porque, sabes, era uma bela mulher… Não éramos infelizes os dois, nunca houve entre nós uma discussão séria, mas a verdade é que eu não falava muito com ela. Há também o violino, acho que ela nunca devia ter parado com ele. Lembro-me de uma noite, na porte Bagnolet, vinha eu do trabalho no meu Mercedes. Já eram nove horas mas ainda havia engarrafamentos; não sei o que desencadeou a coisa, talvez os prédios das Mercuriales porque eu trabalhava num projecto muito semelhante que achava sem interesse e feio, mas vi-me dentro do meu carro no meio dos desvios de ligação de acesso rápido, diante daqueles edifícios imundos, e de repente disse para mim mesmo que não podia continuar. Tinha quase quarenta anos, a minha vida profissional era um sucesso, mas não podia continuar. Em poucos minutos decidi fundar a minha própria empresa, para tentar fazer arquitectura tal como a entendia. Sabia que ia ser difícil, mas não queria morrer sem ao menos ter tentado. Apelei aos antigos companheiros das Belas-Artes, mas estavam todos instalados na vida – também eles tinham triunfado, e já não lhes apetecia muito correr riscos. Lancei-me então sozinho. Retomei o contacto com o Bernard Lamarche-Vadel: tínhamo-nos conhecido alguns anos antes, tínhamos simpatizado um com o outro, e ele apresentou-me a gente da figuração livre: Combas, Di Rosa… Não sei se já te falei de William Morris…
- Já, sim, papá, acabaste há cinco minutos de me falar dele.
- Ah… - Interrompeu-se, e atravessou-lhe o rosto uma expressão alucinada. – Vou experimentar um Dunhill… - Puxou algumas fumaças. – Também é bom; é diferente dos Gitanes, mas é bom. Não percebo porque é que toda a gente deixou de fumar de repente.
Calou-se, saboreou o seu cigarro até ao fim. Jed esperava. Lá fora, muitoa o longe, uma buzina solitária tentava interpretar «Nasceu-nos um menino»; falhava notas e repetia; e depois voltou ao silêncio: não houve concerto de buzinas. Nos telhados de Paris, a camada de neve era agora espessa, estabilizada: havia qualquer coisa de definitivo naquele silêncio, pensou Jed.
- William Morris era próximo dos pré-rafaelitas – continuou o pai -, de Gabriel Dante Rossetti ao princípio, e de Burne-Jones até ao fim. A ideia fundamental dos pré-rafaelitas é que a arte começou a degenera logo após a Idade Média, que desde o início do Renascimento se separou de toda a espiritualidade, de toda a autenticidade, e se tornou uma actividade puramente industrial e comercial, e que os assim chamados grandes mestres do Renascimento – quer sejam Botticelli, Rembrandt ou Leonardo da Vinci – na realidade se comportavam pura e simplesmente como chefes de empresas comerciais; exactamente como hoje em dia Jeff Koons ou Damien Hirst, os grandes mestres do Renascimento dirigiam com pulso de ferro oficinas de cinquenta, ou até cem assistentes, que produziam em cadeia quadros, esculturas, frescos. Eles, pessoalmente, limitavam-se a fornecer a orientação geral, a assinar a obra acabada, e sobretudo dedicavam-se às relações públicas junto dos mecenas do momento – príncipes ou papas. Para os pré-rafaelitas, tal como para William Morris, a distinção entre a arte e o artesanato, entre a concepção e a execução, devia ser abolida: todo o homem, à sua escala, podia ser um produtor de beleza – seja na produção de um quadro, de uma peça de vestuário ou de um móvel; e igualmente todo o homem tinha o direito de, na sua vida quotidiana, estar rodeado de objectos belos. Ele aliava esra convicção a um activismo socialista que o levou, cada vez mais, a empenhar-se nos movimentos de emancipação do proletariado; pretendia pura e simplesmente pôr fim ao sistema de produção industrial.
«O que é curioso é que Gropius, quando fundou a Bauhaus, estava exactamente na mesma linha – talvez um pouco menos política, com mais preocupações espirituais, embora na realidade também ele tenha sido socialista. Na Proclamação da Bauhaus de 1919 declara pretender ultrapassar a oposição entre arte e artesanato, proclama o direito à beleza para todos: exactamente o programa de William Morris. Mas a pouco e pouco, à medida que a Bauhaus se aproximou da indústria, tornou-se cada vez mais funcionalista e produtivista; Kandinsky e Klee foram marginalizados dentro do corpo docente e, no momento em que o instituto foi fechado por Goering, a verdade é que ele se passara para o serviço da produção capitalista.
«E nós, nós não estávamos verdadeiramente politizados; mas o pensamento de William Morris ajudou-nos a libertar-nos do interdito que Le Corbusier lançara sobre qualquer forma de ornamentação. Lembro-me de que Combas era inicialmente bastante reservado – aquele não era verdadeiramente o universo dos pintores pré-rafaelitas; mas tinha que concordar que os motivos de papel pintado desenhados por William Morris eram belíssimos, e quando compreendeu de verdade do que se tratava tornou-se um total entusiasta. Nada poderia dar-lhe maior prazer que desenhar motivos para tecidos de decoração, papéis pintados ou frisos exteriores, repetidos em todo um conjunto de edifícios. No entanto os da figuração livre estavam bastante sozinhos na época, pois a corrente minimalista continuava a ser dominante e o graf ainda não existia – pelo menos não se falava nele. Então montaram-se processos para todos os projectos mais ou menos interessantes que eram objecto de concurso, e ficou-se à espera…
O pai calou-se de novo, ficou como que suspenso nas suas
recordações, e depois encolheu-se, pareceu tornar-se mais pequeno,
adelgaçar-se, e Jed tomou então consciência do arrebatamento, do entusiasmo
como que ele estivera a falar naqueles últimos minutos. Nunca desde criança o
ouvira falar assim – e pensou imediatamente que nunca mais tornaria a ouvi-lo
falar assim; ele acabava de reviver pela última vez a esperança e o fracasso
que constituíam a história da sua vida. Em geral, uma vida humana pouca coisa
é, pode resumir-se a um restrito número de acontecimentos, e desta vez Jed
compreendera de verdade a amargura e os anos perdidos, o cancro e o stress, e
também o suicídio da mãe.
- Os funcionalistas estavam numa posição dominante em todos os júris… - concluiu o pai suavemente. – Eu esbarrei num vidro; todos nós esbarrámos num vidro. Combas e Di Rosa não recuaram imediatamente, telefonaram-me durante anos para saber se alguma coisa se desbloqueava… Depois, vendo que nada acontecia, concentraram-se no seu trabalho de pintores. E eu tive mesmo que acabar por aceitar uma encomenda normal. A primeira foi Port-Ambarès – e depois acumulou-se tudo, sobretudo arranjos de estâncias balneares. Arrumei os meus projectos em pastas de cartão, que continuam num armário do meu escritório, no Raincy, poderás ir lá vê-los…
Reteve-se quando ia a dizer «depois de eu morrer», mas Jed compreendera perfeitamente.
- Os funcionalistas estavam numa posição dominante em todos os júris… - concluiu o pai suavemente. – Eu esbarrei num vidro; todos nós esbarrámos num vidro. Combas e Di Rosa não recuaram imediatamente, telefonaram-me durante anos para saber se alguma coisa se desbloqueava… Depois, vendo que nada acontecia, concentraram-se no seu trabalho de pintores. E eu tive mesmo que acabar por aceitar uma encomenda normal. A primeira foi Port-Ambarès – e depois acumulou-se tudo, sobretudo arranjos de estâncias balneares. Arrumei os meus projectos em pastas de cartão, que continuam num armário do meu escritório, no Raincy, poderás ir lá vê-los…
Reteve-se quando ia a dizer «depois de eu morrer», mas Jed compreendera perfeitamente.
O Mapa e o Território | Michel Houellebecq / 2010
Felizes os que morreram por cidades carnais,/Porque elas são o corpo da cidade de Deus
Desde o início da minha estadia que me habituara a ir todos os dias à capela Notre-Dame e a sentar-me uns minutos diante da Virgem Negra - a mesma que há mais de mil anos inspirava tantas peregrinações e perante a qual se tinham ajoelhado tantos santos e tantos reis. Era uma imagem estranha, que testemunhava um universo inteiramente desaparecido. A Virgem estava sentada, muito direita; o seu rosto de olhos fechados, tão distante que parecia extraterrestre, estava coroada com um diadema. O Menino Jesus - que em boa verdade não tinha feições de criança, mas é adulto, e até de velho - estava sentado, também ele muito direito, nos joelhos da Virgem; também ele tinha olhos fechados, e o seu rosto penetrante, sábio e poderoso estava igualmente encimado por uma coroa. Não havia qualquer ternura, qualquer carência maternal quer na atitude dos olhos, quer na do rosto. Não era o Menino Jesus que ali estava representado; era já o rei do mundo. A sua serenidade, a sensação de poder espiritual, de força intangível que dele emanavam eram quase assustadoras.
Matthias Grünewald, A Crucificação (detalhe), 1523–1525
Esta representação sobre-humana estava nos antípodas do Cristo torturado, sofredor, que fora representado por Matthias Grünewald e que tanto impressionara Huysmans. A Idade Média de Huysmans era a idade gótica e até mesmo do gótico tardio: patética, realista, moral, estava já próxima do Renascimento, mais do que da era romana. Eu lembrava-me de uma conversa que tivera, uns anos antes, com um professor de história da Sorbonne. No início da Idade Média, explicará-me ele, a questão do julgamento individual quase não se colocava; foi muito mais tarde, com Hiëronymus Bosh, por exemplo, que surgiram as representações assustadoras em que Cristo separa a corte dos eleitos da legião dos condenados; em que há diabos a arrastar para os suplícios do Inferno os pecadores não arrependidos. A visão romana era diferente, muito mais unanimista: ao morrer, o crente entrava num estado de sono profundo e recolhia-se na terra. Após o cumprimento de todas as profecias, na hora do segundo advento de Cristo, era o povo cristão inteiro, unido e solidário, que se erguia do túmulo, ressuscitado no seu corpo glorioso, e que se punha e, marcha para o Paraíso.
O julgamento moral, o julgamento individual, a individualidade em si mesma não eram noções compreendidas pelos homens da idade romana, e também eu sentia a minha individualidade a dissolver-se, ao longo dos meus sonhos cada vez mais prolongados diante da Virgem de Rocamadour.
o ninho da serpente é entre nós
Submissão | Michel Houellebecq / 2015
A cultura da morte, conceito forjado pelo Papa Ratzinger para compreendermos o tempo que o Ocidente descristianizado atravessa, é, em Submissão, o dispositivo operativo usado por Houellebeq para percorrer o entorpecimento social e moral.
A França da república impante é o pasto para a hipótese de um islamismo (aparentemente) light no Eliseu. A neurose, a depressão, a anestesia pequeno-burguesa, são o território por onde desliza o invasor interno de uma cultura que não admite a sua própria degenerescência.
Pancada seca e impiedosa nos vates do multiculturalismo, nos profetas gender studies, nos respigadores de um humanismo mórbido que exala dos salões politicamente-correctos desta Europa moribunda. Um murro no estômago da inerme social-democracia europeia tão sordidamente ciente do ‘outro’ na mesma medida em que se recalca a si mesma.
A condição da mulher é o primeiro indicador do grau de civilização de uma sociedade
Mad Max: Fury Road | George Miller / 2015
Não por acaso o mundo de Mad Max é um mundo agonizante. O instinto único da sobrevivência que erradica qualquer outro tipo de lógica reduz drasticamente a gramática do humano à mera manutenção da vida. Objectificados pelo poder, mulheres e homens, separados e isolados, são uma variação da distopia que dia-a-dia vamos construindo.
Os bárbaros estão à porta da cidade:
A maternidade mercantilizada em favor de uma elite de homens que asseguram a descendência (e propriedade) apenas com outros homens (Immortan Joe e os War Boys).
A mulher, rebaixada na sua dignidade, serve exclusivamente para o suprimento de leite para os gestantes e nem já como objecto de desejo serve aos senhores da guerra.
Toda a energia dos machos é destinada à companhia de musculados semelhantes com quem partilham os exercícios da guerra - é daqui e da promessa de ascensão ao mítico Valhalla por troca com a lealdade canina de onde brotam todos os seus êxtases.
Homem e mulher são classes objectificadas e separadas na estrutura social da Cidadela: o corpo masculino é reduzido à sua masculinidade e força; o corpo feminino aos seios e à geração de vida.
A estrutura espacial e arquitectónica da Cidadela, no seu interior labiríntica e devedora de uma estética da prisão e no seu exterior uma fortaleza inexpugnável escavada num maciço rochoso, acentua a divisão social em favor da elite masculina do poder.
O mambo-jambo pseudo-religioso, onde Immortam Joe se arroga à figura de redentor, serve de dispositivo de perpetução desse poder.
O centro da acção é a fuga inesperada de Furiosa, uma guerreira ao serviço da distopia que se insurge contra a ordem estabelecida e transporta na sua máquina de guerra as escravas sexuais de Immortan Joe. O destino seria o paraíso perdido de Many Mothers. Mas o paraíso é agora também um inferno de areia e esterilidade.
Os bárbaros estão às portas da cidade e têm nela sorrateiramente entrado sob um diáfano manto de ideologia igualitária e libertária. Mas, é da História, a utopia termina sempre em distopia.
Não por acaso o mundo de Mad Max é um mundo agonizante. O instinto único da sobrevivência que erradica qualquer outro tipo de lógica reduz drasticamente a gramática do humano à mera manutenção da vida. Objectificados pelo poder, mulheres e homens, separados e isolados, são uma variação da distopia que dia-a-dia vamos construindo.
Os bárbaros estão à porta da cidade:
A maternidade mercantilizada em favor de uma elite de homens que asseguram a descendência (e propriedade) apenas com outros homens (Immortan Joe e os War Boys).
A mulher, rebaixada na sua dignidade, serve exclusivamente para o suprimento de leite para os gestantes e nem já como objecto de desejo serve aos senhores da guerra.
Toda a energia dos machos é destinada à companhia de musculados semelhantes com quem partilham os exercícios da guerra - é daqui e da promessa de ascensão ao mítico Valhalla por troca com a lealdade canina de onde brotam todos os seus êxtases.
Homem e mulher são classes objectificadas e separadas na estrutura social da Cidadela: o corpo masculino é reduzido à sua masculinidade e força; o corpo feminino aos seios e à geração de vida.
A estrutura espacial e arquitectónica da Cidadela, no seu interior labiríntica e devedora de uma estética da prisão e no seu exterior uma fortaleza inexpugnável escavada num maciço rochoso, acentua a divisão social em favor da elite masculina do poder.
O mambo-jambo pseudo-religioso, onde Immortam Joe se arroga à figura de redentor, serve de dispositivo de perpetução desse poder.
O centro da acção é a fuga inesperada de Furiosa, uma guerreira ao serviço da distopia que se insurge contra a ordem estabelecida e transporta na sua máquina de guerra as escravas sexuais de Immortan Joe. O destino seria o paraíso perdido de Many Mothers. Mas o paraíso é agora também um inferno de areia e esterilidade.
Os bárbaros estão às portas da cidade e têm nela sorrateiramente entrado sob um diáfano manto de ideologia igualitária e libertária. Mas, é da História, a utopia termina sempre em distopia.
Grexit: as lições dos antigos
Le monde est fait pour aboutir à un beau livre.
Stéphane Mallarmé
Não interessa a cosmogonia deste aforismo: universo como um livro perante os nossos olhos impacientes; interessa mais a fina deslocação ética: o amor (necessidade?) à fixação da passagem infinita da história pelos homens circunstanciais. O recolhimento subtil das coisas e nomes que se juntam em folhas.
Como arquitectura. Que recolhe, hábil, violenta, delicada, as circunstâncias dos homens, dos lugares, do tempo, das formas. Que re-significa o que já é. Que muda o que é – transforma – noutro ser. Que trabalha o devir-ser do que ainda é potência. Que abre em si outro(s) mundo(s) através da incisão severa que opera no mundo. Ela própria representação do(s) mundo(s) desejados e realizados.
sweet little sixteen
Um dia tocou o telefone. Do outro lado era a simpática voz do Charles Correa a perguntar: esqueceu-se de mim? Vem alguém buscar-me? Asneirada. Tinha chegado nesse dia a Lisboa. Sem tempo para mais nada saí do escritório a correr em direção ao aeroporto e peguei no carro que tinha mais à mão: um VW Lupo. Nas chegadas lá estava um dos mais extraordinários arquitectos do nosso tempo, a inseparável mulher e malas correspondentes a oito meses de viagens sem passar em casa. Muitas malas, portanto. Entre os pedidos de desculpa e a atrapalhação só quando chegámos ao carro é que percebi que não iamos caber todos. Chamava um taxi? Pedia reforços? Há protocolo para uma situação destas? Suspirei e confessei "I guess we have a problem". Ele sorriu e respondeu-me "Rodrigo, I´m from India. And in my country this car is a bus". Segui as orientações de quem percebia da coisa. Malas para a direita, pernas para a esquerda e outra por cima do tejadilho do Lupo agarrada com o braço de fora. Tipo Mumbai em Lisboa. Literalmente Mumbai em Lisboa. E lá fomos a rir compulsivamente pela cidade em direção ao hotel. Quando chegámos, ainda a rir, lá me agradeceu "I felt sixteen again on my the way to school". "Glad to be of service", respondi.
Rodrigo Moita de Deus | 31 da Armada
Rodrigo Moita de Deus | 31 da Armada
De teus anos colhendo doce fruito
Há que admitir que, se o coração tem razões que a razão desconhece, é porque a razão é menos razoável do que o coração. Somos todos narcisos, sem dúvida, amando e detestando a própria imagem, mas para quem tudo o resto é indiferente. É esse instinto de semelhança que nos guia na vida, gritando-nos «alto!», perante uma paisagem, uma mulher, um poema. Podemos até admirar outras pessoas, mas sem sentirmos a mesma emoção. O instinto de semelhança é a única linha de conduta que não é artificial. Mas, na sociedade, só os espíritos vulgares darão a impressão de nunca pecar contra a moral, perseguindo sempre o mesmo tipo de pessoas. É assim que certos homens se tornam obstinados por «louras», ignorando que normalmente as semelhanças mais profundas são as mais secretas.
O Diabo no Corpo | Raymond Radiguet / 1923
O Diabo no Corpo | Raymond Radiguet / 1923
Ainda que soubesse que o mundo terminaria esta madrugada às 4h44
i.
4:44 Last Day on Earth | Abel Ferrara / 2011
O desígnio de Deus é imperscrutável. Não há sinais no céu ou entranhas de aves ou linhas na mão que digam o silêncio de Deus.
Ainda assim, a sua Vontade - revelada - é que o amemos, nos amemos, e amemos toda a Criação. Até ao fim.
O mundo pode acabar mais logo às 4h44 que ainda é tempo, é sempre tempo, para agora sairmos a semear.
ii.
Birdman: Or (The Unexpected Virtue of Ignorance) | Alejandro G. Iñárritu / 2014
It's what you always do. You mistake love for admiration. É natural. Num mundo reduzido aos escombros do nihilismo, onde só a egolatria pode resgatar do imenso nada, é natural que se confunda amor com admiração.
Mas a vida é mais um exercício de montagem que um (falso) longo plano-sequência.
4:44 Last Day on Earth | Abel Ferrara / 2011
O desígnio de Deus é imperscrutável. Não há sinais no céu ou entranhas de aves ou linhas na mão que digam o silêncio de Deus.
Ainda assim, a sua Vontade - revelada - é que o amemos, nos amemos, e amemos toda a Criação. Até ao fim.
O mundo pode acabar mais logo às 4h44 que ainda é tempo, é sempre tempo, para agora sairmos a semear.
ii.
Birdman: Or (The Unexpected Virtue of Ignorance) | Alejandro G. Iñárritu / 2014
It's what you always do. You mistake love for admiration. É natural. Num mundo reduzido aos escombros do nihilismo, onde só a egolatria pode resgatar do imenso nada, é natural que se confunda amor com admiração.
Mas a vida é mais um exercício de montagem que um (falso) longo plano-sequência.
Ain't No Grave (Gonna Hold This Body Down)
A seguir à honra, é o amor que desempenha um papel predominante na arte romântica. Hegel, Lições de Estética | Hegel concede à arquitectura o primado entre as artes liberais. Não por acaso atribui à imediata função da arquitectura simbolizar-se a si mesma – pirâmide, túmulo -, como que designasse a ordem, a proporção, a harmonia clássicas, a essência da própria arquitectura, em que as formas seriam modeladas pelas essências fixas da sua função. Para tal seria necessária a ponderação e a cautela pelo uso da razão e das suas regras na especulação arquitectónica como, de resto, em toda a elaboração humana. Mas a especulação é já um excesso da razão. Porque não é fixa, nem estável, como o pressuposto clássico, a arquitectura romântica explode em simbolismo, o uso exacerbado do decorativismo e do detalhe. O controlo do excesso, a teleologia da própria arquitectura segundo Hegel, torna-se antes uma teleologia da auto-aparência, numa expressão das contingências do próprio projecto, da realidade. Auto-referente, a arquitectura tornar-se estéril quando refém da dominância da função; em lugar de abertura, há encerramento. E violência. |
A Voz do Deserto
Old John the baptist, old John divine
Leather harness round his line
His meat was locust and honey
Wild honey lord, wild honey
John saw that number
Way in the middle of the air
Cryin' holy, holy to the Lord
Old John the baptist, old John divine
Frogs and snakes are gonna get John this time
God told the angel "go see about John"
So he flew from the pit with the moon round his waist
Gathered wind in his fists so the stars round his wrists
Cryin' holy, holy to the lord
Read the revelations, you'll find him there
Third chapter, fourth verse where he said unto me
"There's a beast that rose out of the sea"
Ten crowns, ten crowns
On his horns write "blasphemy"
John couldn't read it (John couldn't read it)
Get on repeat it
John couldn't read it
Holy, holy to the Lord
There was a man, a pharisee
Who came by night to meet him
Said "I know thy teacher came from God cause no man can do such miracles
Without the lord to entreat him"
God told the angel "go see about John"
So he flew from the pit with the moon round his waist
Gathered wind in his fists and the stars round his wrists
Cryin' holy, holy to the Lord
Holy, holy to the Lord
Holy, holy to the Lord
John Saw That Number | Neko Case / 2006
Ugly Duck: Decorated Shed
As categorias críticas de Venturi [Learning form Las Vegas, 1972], Duck e Decorated Shed - only in America -, poderão não nos transportar para qualquer beco da moral. Estas categorias servem-nos apenas como observações do real sem qualquer intenção judiciosa. Mas se o Duck é o símbolo ele-mesmo da construção que não é outra coisa que não si própria que se revela em perfeita integridade e completude - da forma à função; do programa à interpretação deste como manifestação das condições económicas, sociais, culturais, políticas do seu contexto –, a Decorated Shed é uma estrutura, genérica, com propósito apenas identificável e tornado apreensível pela sinalização: sem estes ser-nos-ia impossível entendermos de que edifício se trata ou o que contém no seu interior. Se no Duck o ornamento não é um crime mas um facto inerente ao pensamento que sustenta a arquitectura - what you see is what you get -, a Decorated Shed não subsiste sem ornamentação aplicada que esconde a verdadeira estrutura. É isto uma questão iminentemente política? Moral? O que é a Verdade? Sem lavar as mãos de um debate destes Evo Morales, presidente da Bolívia desde 2006, leva a cabo uma campanha de valorização das culturas indígenas. Não importa se a troco de doses intoxicantes de demagogia e pura estupidez ‘progressista’, importa as consequências culturais desta ‘valorização’. Assim, o prolífico arquitecto Freddy Mamani Silvestre interpreta virtuosamente esse esforço de aggiornamento de uma mítica cultura andina, esmagada, obviamente, pelos cinco séculos de devastadora colonização do monstruoso homem branco heteressexual europeu. Mas a verdade é que o resultado, para além de um fulgurante circo de significantes mítico-andinos, é o significado de um mundo cada vez mais exíguo na possibilidade de afirmação de identidades, um mundo onde essa afirmação é em si mesma refém dos mecanismos do ‘capitalismo global’ que tudo uniformiza e padroniza, onde tudo se submete a um único modelo de visibilidade/comunicação/consumo. Uma casa em La Paz, igual a tantas outras de um subúrbio americano ou de um mandarim neo-tradicionalista em Xangai. Um caixote forrado a pagode chinês ou uns motivos andinos: é tudo igual. Talvez Evo Morales ou o próprio Freddy Mamani Silvestre se apercebam desta (in)diferença e do paradoxo político e, para o que nos interessa, estético e cultural. E talvez o usem para fins manifestamente (política e moralmente) condenáveis. Ainda assim, a esperança assume a forma de uma dança feliz e celebrativa dentro de uma qualquer Decorated Shed em qualquer lugar deste mundo cada vez mais indiferente. |
Avisos importantes para a vida espiritual:
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Praça de São Pedro | Bernini / 1675 |
A "Imitação de Cristo" causou e ainda causa nervosismo em não-cristãos e cristãos. Muitos não-cristãos lamentaram a maneira ríspida como Tomás de Kempis trata os nossos desejos, as nossas sensações e a nossa ciência. O livro seria um bom exemplo daquilo a que Friedrich Nietzsche famosamente chamou o ideal ascético, e que acusou de arruinar a nossa saúde. Muitos teólogos cristãos só conseguem hoje admirar relutantemente o livro que, no entanto, muitos milhares de outros cristãos quase imediatamente leram e admiraram. Queixaram-se da versão minimal do cristianismo que ele apresenta: um cristianismo que desconfia das relações humanas («caridade, não familiaridade», I, VIII, 2), de onde estão quase ausentes as outras pessoas, mas a que Tomás chamou o cristianismo de um «espírito livre que não está preso a nenhuma desordenada afeição das criaturas» (III, XXVI, 1); e em qualquer caso um cristianismo de onde parece ter sido erradicada a filosofia, que brilhantemente e laboriosamente se tinha pouco a pouco tornado a aliada mais importante do Cristianismo ocidental durante a Idade Média.
Estas queixas sugerem uma versão da "Imitação de Cristo" que é ela própria uma versão empobrecida. Com efeito, a "Imitação de Cristo"está saturada de filosofia; não tanto de teorias filosóficas sobre o conhecimento, a mente, ou a ação humana, mas de uma teoria sobre aquilo que a filosofia não pode ou não consegue fazer, e nomeadamente de uma teoria sobre os limites da linguagem filosófica. Essa teoria será pessimista, mas não é menos filosófica por isso. Tomás de Kempis chama repetidamente a atenção para o problema do uso da filosofia na reflexão teológica; nisso se aproxima surpreendentemente de Nietzsche. Aconselha-nos a moderar o «excessivo desejo de saber» (I, II, 2); observa que «vale bem mais sentir arrependimento do que saber a sua definição» (I, I, 2); o seu propósito metodológico, como também diz, é o de «evitar as palavras a mais» (I, X). O grande historiador holandês Johan Huizinga falou, a este respeito, de Tomás como alguém «calado, introvertido, cheio de ternura pelo milagre da Missa e com uma perceção muito limitada da ajuda divina». Enquanto muitos dos seus contemporâneos, igualmente ou menos notáveis, tentaram corrigir diretamente «a administração da Igreja e a vida secular», Tomás nunca manifestou grande interesse por esses assuntos. É o lado taciturno de Tomás, daquilo a que também Huizinga chamou «o ritmo monótono das frases que torna a "Imitação"parecida com o mar numa tarde de chuva», que nos permite perceber mais exatamente o que quer, para ele, dizer «imitação de Cristo». Aristóteles acreditava que as pessoas aprendem a agir corretamente por imitação. Muitos cristãos, porventura a maioria, entendem nesse espírito que a imitação de Cristo deve ser imitação das ações de Cristo, por exemplo, como descritas nos Evangelhos. Não é o caso de Tomás. A ideia de imitar as ações de Cristo parece-lhe suspeita, e a possibilidade de o fazer irrazoável. Em vez disso, a imagem que dá de imitação de Cristo é a de uma atividade silenciosa, conduzida a sós, numa espécie de colóquio mental com o próprio Cristo. De tal colóquio são exemplo principal os dois últimos livros da "Imitação". Nesse colóquio mental com Cristo, no entanto, as perguntas que se fazem não servem para saber coisas. «Filho», observa Cristo secamente, «não sejas curioso» (III, XXIV, 1). Os objetivos da imitação não são imediatos e não proporcionam conhecimento: «Tu pedirás e nada obterás» (III, XLIX, 4). Ao contrário de outras tradições de exercícios espirituais em que é possível verificar os progressos, por exemplo os progressos cognitivos, que fizemos, muito pouco, para Tomás, depende daquilo que fizermos; e em qualquer caso tudo depende de Cristo. Este modelo de instrução, de consolação e de exercício está profundamente ligado a uma invenção quase contemporânea deste livro. Trata-se da invenção da tipografia. A "Imitação de Cristo"terá sido escrita na segunda ou na terceira década do século XV, e terá primeiro circulado em cópias manuscritas; porém, a partir de 1471, sucederam-se as versões impressas. Antes do fim do século tinha sido traduzida para quatro línguas e tinha tido mais de cem edições. Hoje tem mais de duas mil. O seu êxito esteve sempre, por isso, ligado à tipografia e à possibilidade de um grande número de pessoas poderem comprar e ler livros. O facto está longe de ser trivial. Com efeito, existe uma relação profunda entre aquilo que para Tomás de Kempis é a imitação de Cristo – uma atividade silenciosa conduzida a sós – e a possibilidade e a ideia de leitura que tornou necessária a invenção da tipografia. Os espíritos livres de fins do século XV eram também espíritos taciturnos e solitários. Na Europa, as pessoas habituaram-se gradualmente a falar a sós com os livros; e habituaram-se a ver essa atividade solitária como uma aprendizagem que afetava outros hábitos que tivessem. «O hábito», como disse Tomás, «vence-se pelo hábito» (I, XXI, 2); esse é, para ele, o princípio fundamental da imitação. Devemos a Tomás a ideia de que a possibilidade da leitura generalizada, mais que um modo de instrução, e mais que um modo de acesso direto à verdade da letra, é uma atividade que, na maneira como se desenrola, retrata a possibilidade de uma imitação de Cristo: em silêncio, em paz, e sem esperar respostas. Ao ler este livro, cada leitor vai assim, independentemente da sua vontade, encontrar-se na posição de que Tomás tanto fala, e na posição em que Tomás o quis colocar. Miguel Tamen | In "Imitação de Cristo" (prefácio) |
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