moradas

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Pedi e dar-se-vos-á, procurai e encontrareis, batei à porta e abrir-se-vos-á. 
Porque todo aquele que pede recebe, quem procura encontra e a quem bate à porta abrir-se-á. 
Qual de vós dará uma pedra a um filho que lhe pede pão, 
ou uma serpente se lhe pedir peixe? 
Ora, se vós que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está nos Céus as dará àqueles que Lhas pedem! 
Portanto, o que quiserdes que os homens vos façam fazei-lho vós também: esta é a Lei e os Profetas». 

Mateus 7,7-12









































Naqueles dias, a rainha Ester, tomada de angústia mortal, procurou refúgio no Senhor 
e fez esta súplica ao Senhor, Deus de Israel: 
«Meu Senhor, nosso único Rei, vinde socorrer-me, porque estou só e não tenho outro auxílio senão Vós 
e corre perigo a minha vida. 
Desde criança, ouvi dizer na minha tribo paterna que Vós, Senhor, escolhestes Israel entre todos os povos e os nossos pais entre os seus antepassados, para serem a vossa herança perpétua, e cumpristes tudo o que lhes tínheis prometido. 
Lembrai-Vos de nós, Senhor, e manifestai-Vos no dia da nossa tribulação. Fortalecei-me, Rei dos deuses e Senhor dos poderosos. 
Ponde em meus lábios palavras harmoniosas, quando estiver na presença do leão, e mudai o seu coração, para que deteste o nosso inimigo e o arruíne com todos os seus cúmplices. 
Livrai-nos com a vossa mão; vinde socorrer-me no meu abandono, porque não tenho ninguém senão Vós, Senhor». 

Livro de Ester 4,17n



Esforça-te por agradar ao Senhor, espera-O interiormente sem lassidão, procura-O por meio dos teus pensamentos, violenta a tua vontade e as tuas decisões, obriga-as a tender continuamente para Ele. E verás como Ele Se aproxima de ti e em ti estabelece a sua morada (cf Jo 14,23). […] Lá está Ele, observando o teu raciocínio, os teus pensamentos, as tuas reflexões, analisando como O procuras, se é com toda a tua alma, se com moleza e negligência. E quando Ele vir que O procuras com ardor, manifestar-Se-á a ti e aparecer-te-á, virá em teu socorro, dar-te-á a vitória e livrar-te-á dos teus inimigos. Com efeito, quando vir a maneira como O procuras, como colocas continuamente toda a tua esperança nele, instruir-te-á, ensinar-te-á a verdadeira oração, dar-te-á a caridade verdadeira que é Ele mesmo. Então, Ele tornar-Se-á tudo para ti: paraíso, árvore de vida, pérola preciosa, coroa, arquitecto, agricultor, um ser submetido ao sofrimento mas que não é atingido pelo sofrimento, homem, Deus, vinho, água viva, cordeiro, esposo, combatente, armadura, Cristo «tudo em todos» (1Cor 15,28).


Tal como uma criança não se pode alimentar a si própria nem cuidar de si mesma, e pode somente olhar para sua mãe, chorando, até que ela seja tocada pela compaixão e trate dela, assim as almas crentes esperam sempre em Cristo e atribuem-Lhe toda a justiça. Como o sarmento seca se for separado da vinha (cf Jo 15,6), assim acontece a quem quer ser justo sem Cristo. E tal como «quem não entra pela porta do redil das ovelhas, mas sobe por outro lado, é ladrão e salteador» (Jo 10,1), assim é quem quer ser justo sem Aquele que justifica.

Homilia atribuída a São Macário (?-390), monge do Egipto




moradas



































Não esqueçais a hospitalidade, porque, graças a ela, alguns, sem o saberem, hospedaram Anjos.

Hebreus 13,1-8



moradas


«Quando orardes, não digais muitas palavras, como os pagãos, porque pensam que serão atendidos por falarem muito.
Não sejais como eles, porque o vosso Pai bem sabe do que precisais, antes de vós Lho pedirdes.
Orai assim: ‘Pai nosso, que estais nos Céus, santificado seja o vosso nome;
venha a nós o vosso reino; seja feita a vossa vontade assim na terra como no Céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje;
perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido;
e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal’.
Porque se perdoardes aos homens as suas faltas, também o vosso Pai celeste vos perdoará.
Mas se não perdoardes aos homens, também o vosso Pai não vos perdoará as vossas faltas»

Mateus 6,7-15













«A chuva e a neve que descem do céu não voltam para lá sem terem regado a terra, sem a haverem fecundado e feito produzir, para que dê a semente ao semeador e o pão para comer
. Assim a palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão»

Isaías 55,10-11






La Grande Bellezza

La Grande Bellezza

Palazzo della Civiltà Italiana | EUR | Giovanni Guerrini, Ernesto Bruno La Padula, Mario Romano / 1938-1943

varandas



Três Rios





Jerusalém - A Biografia | Simon Sebag Montefiore / 2011





Sobressalto


Heartleap | Vashti Bunyan / 2014

A grande beleza

O último plano, um derradeiro sorriso - o primeiro - que salva o filme, salva Cabíria e nos salva a nós. Maria Ceccarelli prova, finalmente, a verdadeira liberdade: a que reside dentro dela (em cada um de nós).
E não nos preocuparemos mais com Cabíria.









A cidade é uma miragem ao fundo, uma ressonância de sonhos que descem de futuro. A vida é na margem uma margem entre despojos abandonados da civilização industrial e o espólio gasto e puído da moribunda sociedade rural.


As Noites de Cabíria | Federico Fellini / 1957



poetry don’t work on whores




Se o western já não é um género e mais um tema a paisagem já não é aberta e redentora (Ford) mas claustrofóbica e pedaço inapelável da própria narrativa.
É a narrativa agora território onde se espalham os estilhaços das personagens. Uma declaração dos contornos psicológicos de quem percorre a paisagem.

A Fronteira não é a promessa: a Fronteira é uma paisagem psicológica onde se coreografa a morte permanentemente anunciada. O Great Wide Open é a assombrada errância de Jesse James e da lenda em que ele próprio se converteu. A encenação na beleza da paisagem de um destino que transcende já no aqui e no agora.











O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford | Andrew Dominik / 2007

Que buscais?

















































Irmãos: O corpo não é para a imoralidade, mas para o Senhor, e o Senhor é para o corpo.
Deus, que ressuscitou o Senhor, também nos ressuscitará a nós pelo seu poder.
Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo?
Aquele que se une ao Senhor constitui com Ele um só Espírito.
Fugi da imoralidade. Qualquer outro pecado que o homem cometa é exterior ao seu corpo; mas o que pratica a imoralidade peca contra o próprio corpo.
Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós e vos foi dado por Deus? Não pertenceis a vós mesmos,
porque fostes resgatados por grande preço: glorificai a Deus no vosso corpo.

Paulo | 1ª Carta aos Coríntios 6,13c-15a.17-20.










Naquele tempo, estava João Baptista com dois dos seus discípulos
e, vendo Jesus que passava, disse: "Eis o Cordeiro de Deus".
Os dois discípulos ouviram-no dizer aquelas palavras e seguiram Jesus.
Entretanto, Jesus voltou-Se; e, ao ver que O seguiam, disse-lhes: "Que procurais?". Eles responderam: "Rabi - que quer dizer 'Mestre' - onde moras?".
Disse-lhes Jesus: "Vinde ver". Eles foram ver onde morava e ficaram com Ele nesse dia. Era por volta das quatro horas da tarde.
André, irmão de Simão Pedro, foi um dos que ouviram João e seguiram Jesus.
Foi procurar primeiro seu irmão Simão e disse-lhe: "Encontrámos o Messias" - que quer dizer 'Cristo' -;
e levou-o a Jesus. Fitando os olhos nele, Jesus disse-lhe: "Tu és Simão, filho de João. Chamar-te-ás Cefas" - que quer dizer 'Pedro'.


João | 1,35-42.



moradas















































Casca da árvore nocturna, facas filhas da ferrugem
segredam-te os nomes, o tempo e os corações.
Uma palavra, adormecida quando a ouvimos,
deslizou para debaixo da folhagem:
eloquente há-de o Outono ser,
mais eloquente a mão que o recolhe,
fresca como a papoila do esquecimento a boca que a beija.


A Eternidade | Paul Celan / Trad. Gilda Lopes Encarnação

lugar transitivo




We attain to dwelling, so it seems, only by means of building. Sigamos Heidegger e detenhamo-nos, depois, nessas efabulações humanas, militarizadas primeiro, domesticadas e abandonadas agora, tão ao alcance dos nocturnos ‘terrores repentinos’:

Em Wenders povoam Berlim, a cidade ferida pelo contraditório muro que a atravessa. Um muro de questões ridículas semeadas por homens a que assistem os anjos, excluídos de lhes alterarem o destino – o rapaz não espera para se suicidar. Ilusões de aparência humana, reflexos da solidão de Deus e testemunhas da queda humana - também eles desejam com estrondo cair. A fadiga da imortalidade trocada pelo corpo perecível: o corpo lugar transitivo.





As Asas do Desejo | Wim Wenders / 1987

Distinguimo-nos deles pelos elementos: observam ainda no seu tempo, que se conjuga sempre no presente, os glaciares a derreterem, as primeiras cidades, sorriem ao verificarem o esforço do homem na Lua; nós, carne corruptível, esforçámo-nos por abrir na rocha o primeiro abrigo, amontoámos pedras, organizámos o espaço, erguemos a memória dos mortos – a única possibilidade de arquitectura para Hegel -, necessitamos de recato para o sexo e de um canto para o fogo.





Mãe e Filho | Aleksandr Sokurov / 1997

Dividimos e organizamos o espaço pela linha do Sol. À hierarquia dos negócios diurnos substitui-se a necessidade de apenas uma minúscula parcela desse espaço onde depositemos o corpo.





Adolf Loos



moradas

Sempre te tornaste então
aquilo que nunca em ti conheci:
por toda a parte bate o meu coração
numa terra de fontes,

onde nenhuma boca bebe e nenhum
corpo as sombras debrua,
onde a água brota a fingir
e o fingido como água espuma.

Irrompes em todas as frontes,
pairas em tudo o que é fingido.
Inventaste um jogo
que quer ser esquecido.


Corona | Paul Celan / Trad. Gilda Lopes Encarnaçã











Rosa Rilke Raimundo Correia






































Uma pálpebra,
Mais uma, mais outras,
Enfim, dezenas
De pálpebras sobre pálpebras
Tentando fazer
Das minhas trevas
Alguma coisa a mais
Que lágrimas


Rosa Rilke Raimundo Correia | Paulo Leminski



moradas


Estou só, coloco a flor-cinza
na jarra de negrume amadurecido. Boca gémea,
dizes uma palavra que se perpetua diante das janelas,
e mudo trepa meu sonho por mim acima.

Sou a floração do tempo sem viço
e guardo resina para uma ave tardia:
ela traz o floco de neve na pena vermelho-vida;
de grãozito de gelo no bico, sobrevive ao Verão.


[Corona | Paul Celan / Trad. Gilda Lopes Encarnação + Edifício Jardim das Amoreiras, Arqtº Carrilho da Graça, 2010]

Corona


À minha mão vem o Outono comer as suas folhas: somos amigos.
Descansamos o tempo das nozes e ensinamo-lo a partir:
o tempo retorna à casa.

No espelho é domingo,
no sonho dorme-se,
a boca diz a verdade.

O meu olho desce até ao sexo da amada:
olhamo-nos,
dizemo-nos algo sombrio,
amamo-nos como papoila e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o mar no jorro-sangue da Lua.

Estamos abraçados à janela, vêem-nos da rua:
chegou a altura de se saber!
Chegou a altura de a pedra se dignar em florir,
de o coração do desassossego começar a bater.
Chegou a altura de ser altura.

Chegou a altura.


[Corona | Paul Celan / Trad. Gilda Lopes Encarnação + Sede EDP, Aires Mateus & Associados, Lda., 2014]

Elogio da Lonjura










Na fonte de teus olhos
vivem os fios dos pescadores do mar-errância.
Na fonte dos teus olhos
cumpre o mar a sua promessa.

Coração
entretido entre os homens, aqui arremesso
minhas vestes e o fulgor de um juramento:

Mais negro no negro, estou mais nu.
Só sendo traidor sou fiel.
Eu sou tu quando sou eu.

Na fonte de teus olhos
vogo e sonho a pilhagem.

Um fio prendeu um fio:
separamo-nos enlaçados.

Na fonte de teus
um enforcado estrangula a corda.


[Elogio da Lonjura | Paul Celan / Trad. Gilda Lopes Encarnação + Sede EDP, Aires Mateus & Associados, Lda., 2014]



A Casa



Se por acaso buscas
o verde exacto das folhas
a perfeição da linha que as atravessa e conta quantos dias faltam até à queda no chão
Digo-te que não traces medidas nem planos
Pois o céu mudará de cor e a terra ficará mais húmida
e da janela verás
como o vento sacode as copas amarelas e assobia à nossa porta.

E ainda assim
todos os dias são de primavera.

Jardim das Amoreiras, R.

Moradias