A discussão em volta de 00:30 Hora Negra (Zero Dark Thirty), de Kathryn Bigelow, tem mais de político que cinematográfico. Talvez não pudesse ser de outro modo. O filme trata da perseguição desencadeada a Bin Laden após o 11 de Setembro de 2001. E, de certa forma, 00:30 Hora Negra sugere a captura e assassinato de Bin Laden como encerramento de um tempo histórico iniciado nesse trágico 11 de Setembro. A ambiguidade de que é acusado 00:30 Hora Negra, na incapacidade em produzir um juízo definitivo sobre o uso da tortura como prática legítima em tempo de guerra – debate que tem sobrelevado o filme – é sustentada, por parte de Kathryn Bigelow, na veracidade dos factos e dos depoimentos recolhidos para a construção de um argumento, na exposição jornalística dos acontecimentos e na filmagem documental. Como alguém disse, vivemos na era da razão cínica e, não esqueçamos, antes de ser uma “fábrica da fantasia” Hollywood é a maior e mais eficaz máquina de propaganda ideológica alguma vez montada por um poder. Seria impossível a Kathryn Bigelow escapar a esta teia - complacência e colaboração da CIA na elaboração do filme, a produção por um grande estúdio – nem tal se afigura como central em 00:30 Hora Negra. Mas decorre daqui a necessária reflexão sobre os limites do cinema, ou da verdade no cinema, da possibilidade ou impossibilidade da adesão ao real e à verdade a partir de um olhar cinematográfico. 00:30 Hora Negra é o percurso e a vertigem da última década americana. A incapacidade em compreender o que sucedeu em 2001 e o desnorte que se seguiu. De Maya, a personagem central do filme, construída a partir da agente da CIA que terá sido uma das principais responsáveis pela localização de Bin Laden, não será descabido dizer que incorpora os medos e os fantasmas e a ansiedade da história recente da América. E o desenvolvimento quase documental do filme, numa vertigem que tem paralelo na obsessão de Maya em capturar Bin Laden, tem incrustado e vai desvelando as questões que se levantam, justamente, nessa História recente da América: o lugar da América no Mundo pós-11 de Setembro, a face moral dessa América em razão do uso de infames práticas de guerra e o respectivo enquadramento ideológico dessas práticas de tortura. Maya transcende em muito a agente obstinada na perseguição a Bin Laden e obcecada com a vingança. Nos 10 anos que decorrem entre o 11 de Setembro e a morte de Bin Laden, em Maio de 2011, não é apenas Maya que percorre os becos sem saída das pistas falsas, dos equívocos e dasvperplexidades de um Mundo que se abate violentamente sobre ela, do labirinto do terror de uma guerra sem guerra. É também a América que se perde se se reencontra na esperança de que uma vingança sobre Bin Laden exorcize todos os fantasmas e demónios que a assolam desde do dia 11 de Setembro de 2011. 00:30 Hora Negra abre com as vozes do 11 de Setembro e fecha com a angústia no rosto de Maya: e agora, para onde vamos? |
no coração das trevas
[Zero Dark Thirty, Kathryn Bigelow, 2012]
Deixarias que te lavassem os pés?#8
Quando terminei, todos se retiraram para os seus quartos,
ficando só nós os três. A senhora trouxe-me uma camisa branca de dormir e umas
meias. Fiz uma vénia e disse:
- Não quero as meias, mãezinha. Nunca usei meias. Estamos habituados
a andar de onutcha.
Então ela foi buscar um velho kafkan de seda fina, e
rasgou-o em duas onutchas. O marido disse:
- Os sapatos deste pobre estão a desfazer-se. Traz as tuas
galochas, as grandes, para ele calçar por cima. Depois virou-se para mim,
dizendo:
- Vai para aquele quarto, não está ali ninguém e muda a
roupa.
Fui, vesti-me e vim de novo para junto deles. Sentei-me na cadeira
e começaram a calçar-me. O senhor enrolou-me as onutchas à volta dos pés e das
pernas e a senhora calçou-me os sapatos. Eu não queria, mas eles insistiram,
fizeram-me sentar e disseram-me:
- Senta-te e cala-te. Cristo lavou os pés aos seus
discípulos.
Não havia nada a fazer e comecei a chorar. Também eles
choraram.
|
|
|
Deixarias que te lavassem os pés?#7
![]() |
28
b) O amor — caritas — será sempre necessário, mesmo na sociedade mais justa. Não há qualquer ordenamento estatal justo que possa tornar supérfluo o serviço do amor. Quem quer desfazer-se do amor, prepara-se para se desfazer do homem enquanto homem. Sempre haverá sofrimento que necessita de consolação e ajuda. Haverá sempre solidão. Existirão sempre também situações de necessidade material, para as quais é indispensável uma ajuda na linha de um amor concreto ao próximo. [20] Um Estado, que queira prover a tudo e tudo açambarque, torna-se no fim de contas uma instância burocrática, que não pode assegurar o essencial de que o homem sofredor — todo o homem — tem necessidade: a amorosa dedicação pessoal. Não precisamos de um Estado que regule e domine tudo, mas de um Estado que generosamente reconheça e apoie, segundo o princípio de subsidiariedade, as iniciativas que nascem das diversas forças sociais e conjugam espontaneidade e proximidade aos homens carecidos de ajuda. A Igreja é uma destas forças vivas: nela pulsa a dinâmica do amor suscitado pelo Espírito de Cristo. Este amor não oferece aos homens apenas uma ajuda material, mas também refrigério e cuidado para a alma — ajuda esta muitas vezes mais necessária que o apoio material. A afirmação de que as estruturas justas tornariam supérfluas as obras de caridade esconde, de facto, uma concepção materialista do homem: o preconceito segundo o qual o homem viveria « só de pão » (Mt 4, 4; cf. Dt 8, 3) — convicção que humilha o homem e ignora precisamente aquilo que é mais especificamente humano. 32 b) A actividade caritativa cristã deve ser independente de partidos e ideologias. Não é um meio para mudar o mundo de maneira ideológica, nem está ao serviço de estratégias mundanas, mas é actualização aqui e agora daquele amor de que o homem sempre tem necessidade. O tempo moderno, sobretudo a partir do Oitocentos, aparece dominado por diversas variantes duma filosofia do progresso, cuja forma mais radical é o marxismo. Uma parte da estratégia marxista é a teoria do empobrecimento: esta defende que, numa situação de poder injusto, quem ajuda o homem com iniciativas de caridade, coloca-se de facto ao serviço daquele sistema de injustiça, fazendo-o resultar, pelo menos até certo ponto, suportável. Deste modo fica refreado o potencial revolucionário e, consequentemente, bloqueada a reviravolta para um mundo melhor. Por isso, se contesta e ataca a caridade como sistema de conservação do status quo. Na realidade, esta é uma filosofia desumana. O homem que vive no presente é sacrificado ao moloch do futuro — um futuro cuja efectiva realização permanece pelo menos duvidosa. Na verdade, a humanização do mundo não pode ser promovida renunciando, de momento, a comportar-se de modo humano. Só se contribui para um mundo melhor, fazendo o bem agora e pessoalmente, com paixão e em todo o lado onde for possível, independentemente de estratégias e programas de partido. O programa do cristão — o programa do bom Samaritano, o programa de Jesus — é « um coração que vê ». Este coração vê onde há necessidade de amor, e actua em consequência. Obviamente, quando a actividade caritativa è assumida pela Igreja como iniciativa comunitária, à espontaneidade do indivíduo há que acrescentar também a programação, a previdência, a colaboração com outras instituições idênticas. Bento XVI, Deus Caritas Est |
aprender a rezar na era da técnica#2
[Holy Motors, Leos Carax, 2012]
Cinema sobre cinema. Um filme sobre filmes. Imagens sobre imagens.
Representação sobre representações. Aprender a rezar na era da técnica: Holy Motors é exactamente a tecnologia da(s) imagen(s). A máquina do olho, o grande olho que nos olha, a luz permanente que só acende obscuridade. Labirinto de imagens de imagens sobre imagens, soterrada, sobra uma única questão: quem sou eu? – a ruína sobre a qual se construirá a nova casa.
O paradoxo do actor: atravessamos o dia e o outro – o próximo – numa sucessão de papéis e construções e auto-construções que nos são incompreensíveis. E o labirinto das imagens transforma-se no nosso próprio labirinto. Quem sou eu? A tecnologia da imagem é, agora, a tecnologia do ser.
Onde mora a verdade? O que é a verdade? Que verdade é a minha? Sou eu este ou é esta a minha representação? Qual é o meu rosto? E o teu?
O real estende-se pelo ecran. Paris só a vemos pela televisão. A lareira é flatscreen. O real estende-se sem redenção possível, de representação em representação, sem sentido nem explicação. O real extingue-se no ecran.
Grotesco ou belo, que vemos quando olhamos? Que máquina, que motor, produz o belo?
Agora, o realismo é surrealista. Nada existe sem prova de vida: uma imagem. A tua? |
construir, habitar, pensar - aprender a rezar na era da técnica
|
|
Sobre os Tempos 1 - Saída de emergência "Deves é mudar de alma, não de clima. (...) Andares de um lado para o outro não te ajuda em nada, porque andas sempre na tua própria companhia." Séneca Sempre que, antes da descolagem de um avião, se escuta: Preste atenção que a saída de emergência pode estar nas suas costas, sentimos que se está a falar não das medidas de segurança no caso de um acidente, mas da existência no geral. Existência individual e da sociedade. A Europa embarcou há muitos anos e, em 2013, continuarão a ouvir-se os conselhos de segurança: Preste atenção que a saída de emergência pode estar nas suas costas. E há quem aponte outras saídas. Numa variação de célebres paradoxos, poderemos dizer que um continente ou um homem que estejam equidistantes de duas saídas de emergência, em caso de acidente correm o risco de morrer, imóveis, na hesitação. E com dezenas de saídas de emergência a igual distância, um homem ou um continente - além de não se salvarem - ficarão loucos. 2 - Versos Os versos de Hölderlin: "Dificilmente abandona / o seu lugar aquele que mora perto da origem." E o comentário de Heidegger a estes versos: "De modo inverso, quem facilmente abandona o lugar comprova que não tem origem e se limita a estar presente como que por acaso." 3 - Velocidade A síntese do homem contemporâneo, do europeu que pode decidir e agir - é a do Homem com Pressa Dentro de um Elevador. A angústia de ter pressa e músculos e energia capazes de acelerar, mas estar dentro de um Recipiente que tem uma velocidade predeterminada e que não altera a sua velocidade. A sensação é a de que entre a sociedade e cada um dos elementos que a constituem se começa a cimentar uma dessincronização essencial das velocidades. O Recipiente com motor onde nos colocaram nunca tem a velocidade de que precisamos. Mas já não somos nós que fazemos juízos sobre o Recipiente, é o Elevador que nos julga. É o mecanismo do ascensor que diz ao Homem com Pressa Dentro de um Elevador: estás com pressa a mais, acalma-te. Estamos sempre ou demasiado rápidos ou demasiado lentos. A nossa velocidade torna-se culpada. A sociedade parece exigir sempre, em qualquer circunstância, uma outra velocidade. És culpado porque não acertaste na velocidade. 4 - Fundamentalismos Gosto particularmente do que diz uma personagem de Hans Christian Andersen: "Pediram-lhe para rezar, mas ele só se lembrava da tabuada". Dois tipos de fundamentalistas: 1. O fundamentalista da lógica pura: pediram-me bondade, mas eu só me lembrava da tabuada; pediram-me sabedoria, mas eu só me lembrava da tabuada, etc. 2. O fundamentalista religioso: Pediram-lhe a tabuada, mas ele só se lembrava de rezar. Há muito que a Europa se instalou na tabuada. Por cima do mapa do Continente poderíamos escrever simbolicamente 2x3=6 ou a tabuada inteira, mas cometeríamos um sacrilégio se escrevêssemos uma oração, por exemplo, o Pai nosso que estais no Céu, Santificado seja o Vosso nome. O sacrilégio mudou de objecto. Na Europa, em 2013, o discurso religioso que conteste uma adição ou uma multiplicação será apedrejado. O cineasta Herzog lembra que, num dos seus filmes rodado em África, elementos da tribo massai não quiseram entrar num posto médico móvel porque este estava elevado em relação ao chão. "Por razões misteriosas, não se atrevem a subir os degraus. Tentam entrar, hesitam e recuam. Só no final é que alguns massais conseguem ultrapassar esse obstáculo invisível e subir os três degraus que conduzem ao seu interior." A Europa, de uma forma geral, está assim. Não sobe os degraus; tem medo das alturas, da pequena altitude que esses pequenos degraus inauguram. Com os pés no chão ou em queda (sem chão por baixo): eis como se sente segura a Europa. "O rapaz não ousa olhar-se no escuro, / mas sabe bem que deve afogar-se no sol / e habituar-se aos olhares do céu, para se fazer um homem." Cesare Pavese 5 - 5 não é 5 não é 5 não é 5 A objectividade pura tem uma potência violenta. 5 é 5 é 5, eis o indiscutível. Dizer que 6 não é maior do que 5, em 2013, na Europa, seria o mesmo que dizer - na Europa medieval - que Deus não existia. Quando alguém diz: isto é objectivo, o que está na verdade a dizer é que isto não tem discussão, isto é verdade, tu não tens nenhum contra-argumento contra isto. Alguém que se opõe ao que é objectivo só pode ter, assim, uma cabeça débil. Quando se diz isto é objectivo termina-se a conversa, o outro não pode contestar. Quando se diz isto é subjectivo, afirma-se apenas que isto é um ponto de vista; permite-se, pois, que o outro dê um passo em frente, contra-argumente. Numa entrevista a um jornal francês, Godard disse uma vez esta frase terrível: "A objectividade? É cinco minutos para Hitler e cinco minutos para os Judeus." 6 - Moral da máquina - ou o oitavo pecado "E as crianças que poderiam ter mudado tudo / jogam entre pedras e ruínas. / E não querem mudar nada." Yehuda Amijai A moral europeia é, em parte, a moral da máquina. É bom aquilo que funciona. É bom, não apenas em termos de eficácia, mas em termos morais. A noção de pecado socializou-se e entrou na esfera da tecnologia. Alguém que não saiba calcular ou que não domine a última versão do Windows comete um pecado. O pecado maior é a ineficácia. Alguém que não funcione bem torna-se um pecador. Os pecados capitais são agora oito: gula, avareza, luxúria, ira, inveja, preguiça, vaidade e incompetência. O incompetente não entrará no reino da Terra. 7 - Salvação A discussão é sempre esta: prefere ser operado pelo médico competente ou pelo médico de "bom coração"? Se escolher a pessoa que mais o ama para o operar cometerá provavelmente um erro. A salvação já não vem com a entrada do padre na casa do doente, mas com a do médico - e esta transição radical do século XX, analisada por muitos, ainda está em movimento. A salvação que classicamente teve uma abordagem religiosa ou moral tem desde há muito, na Europa, um entendimento clínico. "Aqui, onde as ruínas querem voltar a ser / uma casa (...)" Yehuda Amijai 8 - Coragem e bondade A bondade salva cada vez menos, e isso assusta. No mundo de paisagem técnica em que os elementos naturais estão escondidos - quase já não há montanha, nem terra - cada vez mais, salva quem sabe onde ligar ou desligar a electricidade; aquele que sabe mexer nos comandos da casa das máquinas. E nesse aspecto seria interessante fazer a análise do homem europeu que salva outro em 2012. Se, em séculos passados, a coragem, acima do resto, seria uma das qualidades essenciais de quem salva, hoje tal qualidade é quase dispensável. Que poderá fazer o homem mais corajoso do mundo diante de alguém que corre perigo no meio de uma cidade moderna? A coragem perdeu eficácia - os seus efeitos eram bem mais evidentes quando o que estava diante de si para vencer era uma força natural - animal, água, fogo, outros homens, etc. Hoje a coragem tem, primeiro, de tirar um curso de especialização técnica. Se não o fizer será coragem, sim, sempre, mas inconsequente. Diante de um conjunto de pessoas fechadas num elevador parado por avaria, o homem mais corajoso do mundo irá telefonar à assistência técnica - eis o sem-saída em que nos colocámos. 9 - Valores morais - e o que está no meio Se pensarmos nos diversos valores morais e éticos - bem, bondade, lealdade, altruísmo, honestidade, solidariedade, liberdade, verdade, justiça, sabedoria, coragem, etc. verificaremos que, se no meio deles estiver o funcionamento de uma máquina, estes valores tornam-se pouco consequentes. É esta a anulação moral por parte das máquinas. A tecnologia, no seu conjunto, funciona como uma máquina de terraplenagem moral. Estes valores morais clássicos, há que insistir, foram pensados na relação de um homem com outro homem ou conjunto de homens, uma relação imediata. O que temos em 2013 nas cidades europeias é um outro mundo. São raras as relações imediatas, directas, corpo a corpo e entre homens. No meio, mesmo que muitas vezes não nos apercebamos disso, estão máquinas. A lealdade entre dois homens só se poderá manifestar na cidade europeia do século XXI se, pelo menos num deles, existir um conjunto de habilitações técnicas mínimas. Não te posso salvar porque não sei mexer na máquina - eis a frase que, em 2013, será muitas vezes escutada. "Há muitos metros entre um animal que voa / E a escada que desço para me sentar no chão" Daniel Faria 10 - Palavras más Sem nos apercebermos, de uma forma subtil, o vocabulário que utilizamos de forma comum vai instalando este novo mundo. Peguemos num exemplo: a palavra funcionário. Esta palavra tem uma violência contida de que não nos apercebemos. Funcionário é aquele que exerce um conjunto de funções - e função sempre foi uma parte que está contida em algo mais amplo e importante. Reduzir uma pessoa a um conjunto de funções é violentá-la. Pensemos, por exemplo, na inócua pergunta: ele funciona bem? De facto, podemos perguntar se o João, a Maria ou o elevador funcionam bem. E quando podemos fazer a mesma pergunta acerca de um homem ou de uma máquina é porque algo, de facto, lá atrás, se desarranjou. E é também por isso que muitas pessoas, aqui e ali, começam a ter avarias. 11 - A apatia O que me parece muito claro é que a máquina é o ser apático por excelência. (A apatia, esse modo de uma coisa se colocar sempre à mesma distância de todas as outras coisas, de não ter julgamentos estéticos, éticos, etc.) Uma fotocopiadora tira fotocópias de um documento neutro e a seguir de uma sentença de morte, com a mesma maquinal indiferença - à mesma velocidade e qualidade de impressão. Nunca pára o seu movimento por questões morais, só por avaria. A avaria, aliás, é muitas vezes a origem de uma tragédia, mas cada vez mais, também, uma das últimas vias de salvação. (A cada dia, a cada ano, a frase - Felizmente, avariou - ou a estranha e herética frase - Graças a Deus, avariou - se tornarão menos absurdas.) 12 - As perguntas humanas Não podemos fazer perguntas sobre julgamentos estéticos ou filosóficos a um animal ou a uma máquina e é também por isso que as artes, a cultura e a filosofia, apesar de tudo - apesar de tudo - são importantes. Também não podemos fazer perguntas éticas ou sobre "estados de espírito" senão a humanos: não perguntamos a uma máquina fotográfica se ela ficou entusiasmada quando fotografou aquela paisagem. Seria interessante pensar que continuamos humanos precisamente porque há ainda perguntas que se fazem às pessoas que não podem ser feitas aos animais ou às máquinas. Por exemplo, as simples perguntas: gostas? Era bonito? Outro exemplo de uma pergunta naturalmente humana, a de Brodski: "Mas porque está ausente da Constituição a palavra "chuva"?" 13 - O que aí vem - pés, olhos "Bem-aventurado o que pressentiu / quando a manhã começou: / não vai ser diferente da noite." Adélia Prado Podemos ter os pés num terreno feio e os olhos virados para algo belo. Ou podemos, situação inversa: ter os pés num terreno belo e os olhos fixados em algo feio. Na primeira situação, teremos a sensação de que estamos num sítio belo. E na segunda situação teremos a sensação de estar num sítio feio. O que vemos, lá à frente, torna-se sempre o mais relevante. Se estamos com os pés num sítio feio e os olhos fixos num sítio feio, mas temos uma bela imagem na cabeça, estamos num sítio belo - eis o que dirá, em contraponto a tudo isto, o bom e perigoso, o perigoso e bom velho utópico. "Depois encontrei meu pai, que me fez festa / e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria (...)" Adélia Prado Gonçalo M. Tavares, in Público, 03.01.2013 |
da Liberdade
[A Laranja Mecânica, Stanley Kubrick, 1971]
(...) A liberdade de escolha é assim tão importante, afinal de contas? E, já agora, o homem é ao menos capaz de a exercer? Além disso, será que o termo "liberdade" possui em si mesmo algum significado? Eis perguntas que eu me sinto obrigado a formular e cuja resposta procuro obstinadamente. Para já, devo dizer que tenho sido ridicularizado e alvo de censuras por exprimir os meus receios de que o poder do Estado moderno - seja na Rússia, na China, ou naquilo a que poderemos chamar a Anglo-América - venha a coarctar a liberdade do indivíduo. A literatura já nos avisou dos perigos deste poder, em obras como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell, mas as pessoas "sensatas", a quem a escrita imaginativa não impressiona muito, estão sempre a dizer-nos que temos poucas razões de preocupação. Aliás, a obra de B. F. Skinner Para Além da Liberdade e da Dignidade foi dada à estampa precisamente quando A Laranja Mecânica se estreou nos cinemas, pronta a demonstrar as vantagens daquilo a que podemos designar por lavagem ao cérebro benéfica. O nosso mundo está pelas ruas da amargura, diz Skinner, assolado pelos problemas da guerra, da poluição do meio ambiente, da violência na sociedade civil, da explosão demográfica. O comportamento humano tem de mudar - isto, afirma ele, é tão evidente que poucos discordarão -, e precisamos de uma tecnologia capaz de alterar o comportamento humano. Podemos pôr de parte o homem interior, o homem que se nos depara ao travarmos discussões com a nossa consciência, o ser oculto preocupado com Deus e com a alma e com a suprema realidade. Temos de encarar o homem pelo lado de fora, analisando, em particular, o que leva a que um dado tipo de comportamento humano dê origem a um outro. A abordagem behaviorista do homem, de que o professor Skinner é o expoente máximo, considera que são os estímulos, aversivos ou não-aversivos, que incitam o ser humano a executar os diversos géneros de acções. O medo do chicote fazia o escravo trabalhar; o medo do despedimento ainda hoje faz trabalhar o escravo assalariado. São reforços negativos como estes, usados para nos espicaçar, que o professor Skinner reprova; ele deseja, isso sim, um uso mais frequente de reforços positivos. Não se ensinam acrobacias a um animal de circo com métodos cruéis, mas sim com brandura (Skinner lá deve saber: grande parte do seu trabalho experimental foi levado a cabo com animais; algumas das suas proezas no domínio do condicionamento de animais alcançaram um elevado grau de profissionalismo circense). Caso recebamos os estímulos positivos certos - a que não reagimos racionalmente, mas através dos nossos reflexos condicionados -, todos nos havemos de tornar cidadãos melhores, submissos face a um Estado que preza, acima de tudo, o bem da comunidade. Não devemos, conclui esta argumentação, recear o condicionamento. É necessário sofrermos um certo condicionamento, caso desejemos salvar o meio ambiente e a nossa raça. Porém, terá de ser um condicionamento em moldes certos. Segundo este raciocínio skinneriano, é o condicionamento em moldes errados que leva o herói de A Laranja Mecânica a converter-se num modelo da não-agressão (ainda que dilacerado por vómitos). O facto de eu próprio condenar qualquer género de condicionamento dever-se-á certamente, deduzo, à força da tradição religiosa em que fui criado. É verdade que fui, por assim dizer, condicionado por ela, mas a minha razão veio corroborar as convicções que sinto em mim de forma instintiva. A minha família provém do Lancashire, esse condado setentrional que outrora constituía um bastião da fé católica. A Reforma protestante, que converteu a Inglaterra naquilo que ela hoje é, nunca chegou a penetrar no Lancashire, ou, se o fez, fê-lo de modo suave e moderado, por meio das infiltrações pacíficas dos períodos mais tolerantes que se seguiram às imposições sangrentas dos Tudors. O género de protestantismo que floresceu na época de Cromwell e gerou uma nova raça de mercadores burgueses era calvinista. O seu âmago doutrinal era a predestinação. O homem não podia alcançar a salvação graças aos seus esforços; o seu estado futuro fora predeterminado por Deus. O catolicismo rejeita uma doutrina que parece mandar certos homens arbitrariamente para o Céu e outros - de modo igualmente arbitrário - para o Inferno. O nosso destino futuro, diz-nos a teologia católica, está nas nossas mãos. Nada há que nos impeça de pecar, caso o desejemos; ao mesmo tempo, nada há que nos impeça de ir ao encontro das fontes da graça divina que nos proporcionam a salvação. O facto de duas doutrinas opostas - a do livre arbítrio e a da predestinação - conseguirem subsistir no seio da mesma fé religiosa requer uma explicação. Para começar, é preciso ter em conta o postulado da omnisciência divina. Se Deus sabe tudo, sabe também se eu irei alcançar a salvação ou se irei ser condenado às penas eternas: desde o início dos tempos, tenho já um lugar reservado na minha morada final, qualquer que esta seja. Porém, se Deus concede ao homem o poder de escolher livremente, podemos considerar que Ele oculta deliberadamente aos Seus próprios olhos a percepção daquilo que o homem irá fazer com esse poder. Um Deus omnisciente e omnipotente, num gesto de amor pelo homem, limita a um tempo o Seu próprio poder e o Seu próprio conhecimento. Na sua autobiografia, Sean O"Faolain dá conta da incapacidade que sentia para conciliar o livre arbítrio humano com o conhecimento total de Deus, dificuldade esta que ele acabou por superar certo dia - num súbito relâmpago de clarividência mágica ou miraculosa -, antes de uma viagem de táxi por Manhattan. O"Faolain formulou a ideia nestes termos: qualquer acção do homem permanecia no domínio da livre escolha até o homem a executar. Uma vez executada, convertia-se em algo que a vontade de Deus ordenara. Ele e o taxista, eufóricos com esta descoberta, acabaram os dois nos copos. Os calvinistas, porém, sempre dispuseram de uma peça de artilharia pesada para utilizar na sua guerra em defesa da predestinação. Quando entram em campanha, apontam ao exército do livre arbítrio o canhão da Queda. A queda de Adão deveu-se ao pecado original da desobediência, e ele transmitiu a todos os seus descendentes a culpa desse pecado; os homens possuem uma predisposição inata para o pecado, não são criaturas livres. A resposta ortodoxa a este argumento é, obviamente, que Cristo morreu para tornar os homens livres, mas, por estranho que pareça, este facto parece não impressionar muito os calvinistas. As teocracias por eles construídas, cidades-estados ou comunidades inteiras governadas por homens piedosos arvorados em líderes, sempre se caracterizaram por uma atmosfera soturna, uma espécie de morrinha do espírito. Veja-se o Massachusetts de Cotton Mather, a Genebra do próprio João Calvino. Para eles, era um sinal de depravação católica deixar que fossem os homens a traçar o seu próprio destino. Daí o fecho dos bordéis (que os países católicos não encerram), a proibição de frivolidades como as peças teatrais ou a literatura para entreter, a pena de morte para o adultério. Os homens são pecadores, recusam-se a evitar o pecado (e porque haveriam de o evitar, já que estão predestinados a acabar no Inferno ou no Céu, façam o que fizerem?), é preciso obrigá-los a serem bons. E, mais ainda, as mulheres, filhas da traiçoeira Eva. O calvinismo está repleto de reforços negativos. Não pretendo fazer deste texto uma prelecção sobre teologia elementar, e não é minha intenção, seguramente, encarar o mundo contemporâneo segundo o prisma da fé que herdamos dos nossos progenitores. Quero apenas mostrar que certos termos que pedimos de empréstimo à teologia são válidos numa abordagem secular dos nossos problemas. Sendo eu uma pessoa cuja fé religiosa tem vindo a vacilar há já 40 anos, seria hipocrisia da minha parte afirmar que, para pôr termo à guerra e purificar os rios poluídos, os homens deveriam voltar-se de novo para Deus. Estou apenas a sugerir que a religião, por um lado, e, por outro, as disciplinas seculares ou antropocêntricas como a filosofia, a psicologia e a sociologia têm algo em comum, a saber, a consciência do facto perene da infelicidade humana. E parece-me que não somos obrigados a pôr de parte certas palavras de proveniência arcaica - como "bem", "mal", "livre arbítrio", mesmo "pecado original" -, substituindo-as por uma terminologia pseudocientífica, só porque derivam de uma abordagem do homem centrada em Deus. "Dissemos branco o tabuleiro de xadrez, agora negro", declara o bispo Blougram no poema de Robert Browning.(2) Por outras palavras, uma visão optimista da vida humana é tão válida como uma perspectiva pessimista. Mas a que vida nos estamos a referir - à da raça inteira ou à do fragmento insignificante desse todo a que cada um de nós chama "eu próprio"? Considero-me um optimista em relação ao homem: penso que a raça humana irá sobreviver, penso que o homem irá solucionar os seus grandes problemas - de forma lenta e dolorosa, quiçá - pelo simples facto de ter consciência deles. Quanto a mim próprio, posso apenas dizer que estou a ficar velho, tenho a vista cansada, os dentes causam-me imensos incómodos, não posso comer nem beber tanto como em novo, aborreço-me com frequência cada vez maior. Esqueço-me dos nomes, o meu cérebro trabalha devagar, sinto frémitos de inveja diante dos jovens e de raiva contra o meu próprio declínio cada vez mais inevitável. Caso tivesse uma fé ardente na sobrevivência da alma, ser-me-ia fácil mitigar esta tristeza ocasionada pela velhice. Mas perdi esta fé, e é pouco provável que a recupere. Às vezes, sinto desejo de uma aniquilação imediata, mas o impulso de permanecer vivo vem sempre à tona. Há consolações - o amor, a literatura, a música, a vida colorida da cidade meridional onde passo a maior parte do meu tempo -, mas são muito incertas. Há uma consolação ainda maior e mais duradoura, que é o facto de eu ser livre de escrever o que muito bem entendo, de não ter de cumprir horários rígidos, de não ser obrigado a tratar nenhum homem por "meu senhor" nem ter de obedecer a ninguém com medo das consequências. Mas uma liberdade assim gera os seus próprios constrangimentos: sinto-me culpado quando não trabalho, sou o meu próprio tirano. As coisas que agora possuo faziam-me mais falta quando era jovem. Lembro-me sempre do aforismo de Goethe: "Presta bem atenção ao que desejas na juventude, pois ser-te-á dado na meia-idade." (...) [A condição mecânica, Anthony Burgess, 1973, in Ípsilon, 14.12.2012] |
Brazil builds
Mas pouco importam as palavras. Muito menos o estalisnismo igualitarista de Niemeyer. Nem o utopismo que serve ao poder, ou de que o poder se serve. De pouco importam as palavras. Ficam as obras. O afã democratizador pós-moderno rebaixou o poder - como rebaixa tudo - à tábua rasa da vulgaridade. Compare-se qualquer um dos edifícios erguidos para esta insana e autocrática União Europeia - vidro, plástico, politicamente (totalitariamente) correctos na sua inserção no mundo. Ainda que a gramática modernista de Niemeyer seja reduzida, usou-a a serviço dos propósitos do poder de Estado, entendido ao tempo como curva de atalho para a Utopia. Ergueu o modernismo à condição de linguagem de poder e, não é coisa de somenos, inventou a imagem de um país que se afirmava na modernidade e no progresso. E, num mundo em que apenas conta a imagem, as do concreto de Niemeyer erguer-se-ão por séculos. Nesse sentido terá sido, de facto, o último arquitecto modernista. E sendo a arte e a arquitectura, a grande arte e a grande arquitectura, sempre, totais, absurdas, loucas, psicóticas, violentamente atractivas – e por esse motivo muito atractivas ao poder para sua auto-celebração e representação - a loucura brasiliense lá está, e cresce, fora do plano, à medida do pão-nosso-de-cada-dia, no cerrado. Platão, Moore, Marx, Brasília, a voragem sempre nova da velha utopia da perfeição humana e do resgate, aqui e agora, do paraíso perdido; a subversão do espírito que é eliminar a subversão humana, banir o desejo, asfixiar o humano numa sociedade perfeita, planeada, centralizada, controlada. Brasília sim, e a identificação de um país que se queria identificar fora do peso da História para nela, na História, se inscrever. Brasília que se repete, à exaustão, nos pilotis de apropriação popular, pós-modernizada na publicidade e nas arquitecturas construídas pelo Brasil, kitsch do que foi inventado – Brasília, cidade inventada? – para ser grave e sólido e sério. Brasília que povoa, lá do planalto, o imaginário de todo um país, de todo um povo. Brasília da vontade de poder do homem comum. Brasília, uma cidade no deserto. E o seu arquitecto, mito e símbolo de um país. |
[Brasília, René Burri]
requiescat in pace
As notícias da morte de Oscar Niemeyer são manifestamente exageradas.
[MAC NIterói, Niterói, 1996]
[MAC NIterói, Niterói, 1996]
| E agora? Terá sido Niemeyer o eucalipto que secou a prática mais recente da arquitectura brasileira, enclausurada entre uma pobre reflexão disciplinar e a experiência, cada dia mais voraz, do capitalismo predatório em territórios emergentes? Foi Niemeyer o responsável pela posição central que ocupou no sistema mediático que o endeusou e eclipsou a visibilidade de outras práticas, porventura mais profícuas, e outras gramáticas, porventura menos simplistas e mais subtis e complexas, na arquitectura brasileira? O seu a seu dono, e se o contributo do velho comunista é inegável e a visibilidade que este adquiriu no contexto internacional (já ninguém diz internacional?) é de justíssimo mérito, não será menos equívoco o abundante espaço com que a figura de Niemeyer ofuscou outras hipóteses brasileiras - numa sociedade onde ser visto se constitui como se ser, o resto é invisível. [ Mas recorde-se, sobretudo, Brazil Builds, a exposição e o catálogo do MoMA, de 1943, através dos quais a arquitectura portuguesa contactou com a produção do modernismo tropical(ista), num movimento que nos leva à arquitectura tradicional portuguesa, a Raul Lino, a Lúcio Costa (este sim, quanto a mim, decisivo), à História. ] MAC Niterói Cataguases Óscar Niemeyer, Ruy Belo fodido não tem vez reconciliação história contra-factual Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo. lagoa lagoa#2 Brasília, Clarice Lispector 103 e a grandeza épica de um povo em formação/nos atrai, nos deslumbra e estimula o projecto incompleto da modernidade |
através das barricadas
|
|
Um livrinho que nos possa ser muito útil, nos dias que passam, é o de Job. Bem longe de se constituir metáfora da desventura humana, da impotência e fragilidade de cada um diante do poder do Criador, poderemos mesmo tomá-lo na literalidade do texto.
Senão, vejamos: Job, homem justo e bom, confiante e temente a Deus, passa por infindáveis e dramáticas tribulações. O tema tão antigo da correlação do modo como se vive com o modo como «a vida corre», nas palavras dos três amigos de Job que, diante dos horrores e das dores por que passa Job, lhe encontram, com certeza, alguma culpa para que Deus faça descer sobre ele as penas mais dolorosas que sobre um homem se possam acometer. Mas de entre os equívocos em que os homens vão representando Deus ressoa a falta de humildade. O orgulho como resposta óbvia à injustiça e à humilhação, para depois, no fim, vir Deus – vem sempre - reclamar, apenas, que o homem olhe com um pouco de atenção às maravilhas e à beleza da criação. E se submeta, humilde, a essa beleza e maravilha. Ocorre-me o desgraçado do Job a propósito da vagabundança diária por jornais, blogs, facebooks, esplanadas, jantares, por todos os lugares onde a opinião se verta livre e destemperadamente. A presunção da democracia (liberal) é a discussão. De que da discussão entre argumentos díspares e mesmo antagónicos surja uma resposta de Verdade. Mas esta mitologia, e todos temos que as ter, decorre de uma outra que, creio, ser bem mais perversa. Penso ser, aliás, essoutro pressuposto intelectual e cultural a grande perversão da modernidade: a luta de classes. No dizer de Raymon Aaron o marxismo é a doença infantil dos intelectuais. Como todo o vírus que se espalha pelo corpo de forma velada e dele se alimenta para crescer, também o marxismo (cultural) alcançou o corpo académico, político e social, enfermando-o, hegemonicamente. Ainda que os amanhãs não cantem mais, ou que deles apenas ouçamos requiems, a atmosfera cultural que nos cobre é, sem dúvida, a do marxismo. É evidente que de um postulado da que convoca as «massas» à luta - massa, coisa informe, homogénea, amorfa, pronta a ser enforma, moldada, claro doutrinada – não poderá senão prenunciar um devir de disrupção e violência. Por alguma razão fazem os historiadores iniciar a era que habitamos nas barricadas parisiennes de 1789. Mas o devir já não é longínquo. Parece que, segundo essa leitura determinada e determinista, as contradições do capitalismo são tantas e tais que este se encontra de momento no se estertor. Antes assim o fosse. Mas a irrazoabilidade marxista sustenta-se em equívocos e mentiras das quais não pode, necessariamente, decorrer a Verdade. Nem como grelha de sobrevoo ao real o marxismo nos serve. A História não se constitui a partir da história da economia – embora também a contemple – e o real não se resume ao visível – embora este seja parte do outro. Mas sem dúvida que a excrescência anacrónica marxista domina e nos domina hoje: das redações dos jornais às cabeças simples que nos representam na instância política; das activistas consciências de sofá à derrocada europeia organizada e comandanda por velhos militantes soixante-huitards e saudosistas de Mao tranquilamente sentados às mesas bruxelenses e apressadamente convertidos às virtualidades do mercado (nb. não são os sacerdotes e ideólogos neocons / neoliberais americanos, advogados da intervenção americana no Iraque, da exportação à bomba do bravo mundo novo da democracia, eminentes ex-trotskytas das universidades Ivy-League de costa este?, mais espertos e lavadinhos que Chomsky & Klein?) A pugna igualitarista – que distorce o real, tratando o que é diferente como igual; que elide a distinção e a individualidade e mergulha a diferença e a heterogeneidade no mar da «massa» homogénea (consumidora, afinal) indiferente. A aberração racionalista que planifica, no mais amplo sentido do plano, o real e o mundo, presumindo-o flat (chato) como uma folha de Excel. O ódio profundo ao real, aos homens que constroem o real, na tentativa de, por decreto, mudar o mundo a partir daquilo que cada um tem de mais íntimo, intransmissível, pessoal: a consciência, o coração. O desprezo pelo Homem e pela sua circunstância, projectando milenaristas amanhãs que cantam, paradoxalmente aqui e agora, apodados de utopia e, um pouco mais pateticamente, sonho. Este movimento, associado à hiper-interpretação (protestante? Justiça seja feita a Lutero e sequazes, venceram o combate cultural), as mais das vezes, acrítica e acéfala, de todos os sinais, palavras, gestos, imagens, torna qualquer movimento do pensamento refém do medo que se esconde atrás de cada barricada e cada convicção, tornada dogma ateu de consumo doméstico, a única bóia de salvação num naufrágio generalizado em que nos afogamos. A torção e distorção das palavras e dos conceitos, segundo a, lá está, interpretação subjectiva, que denuncia – outro vício marxista, a bufaria – qualquer hipótese de intersubjectividade, sem a qual o indivíduo não se poderá constituir em comunidade. E sem comunidade, hélas, o indivíduo definha, no meio do orgulhoso credo da auto-suficiência e emancipação. A doença, que coloca as ideias antes da pessoa, a convicção antes da vida, o eu antes do outro, não permite mais que, à noite, se dobre o joelho sobre a terra e nos conformemos com a meia-luz que nos cobre. Confunde-se justiça com orgulho e soberba, saber e sabedoria com esperteza, e conceitos, caridade (amor, nunca é demais repeti-lo) com vínculos de solidariedade estatais, impessoais, que despessoalizam, que nos despessoalizam, que nos desligam do próximo, do outro, do mundo. O espaço público, de onde se afasta Deus e o Homem, é construído agora por berros e gritos e surdez e ódio que nos divide, e dividirá cada vez mais, apresentando-se como a vitória final da perversão marxista: pôr-nos uns contra os outros, desestruturando comunidades, famílias, amigos. Fazendo uma leitura cínica (marxista) dos dias que correm, o histrionismo solipsista – ah, a emancipação do sujeito – que, paradoxalmente, numa sociedade mediática, se propaga com cada vez mais clangor, veemência e soberba, constitui a vitória última dos ‘interesses’ a quem melhor serve a atomização da(s) sociedade(s). E a esses, lamentavelmente, não chegam, nunca chegaram nem chegarão, as pedras revolvidas da calçada. Talvez fosse bom pensarmos em desmantelar as barricadas. Talvez fosse útil enterrar as trincheiras em que todos apenas nos defendemos (quando pensamos que atacamos). Talvez seja de maior urgência o regresso ao deserto. Como e com Job. |
Subscribe to:
Posts (Atom)

















































