We attain to dwelling, so it seems, only by means of building. Sigamos Heidegger e detenhamo-nos, depois, nessas efabulações humanas, militarizadas primeiro, domesticadas e abandonadas agora, tão ao alcance dos nocturnos ‘terrores repentinos’:
Em Wenders povoam Berlim, a cidade ferida pelo contraditório muro que a atravessa. Um muro de questões ridículas semeadas por homens a que assistem os anjos, excluídos de lhes alterarem o destino – o rapaz não espera para se suicidar. Ilusões de aparência humana, reflexos da solidão de Deus e testemunhas da queda humana - também eles desejam com estrondo cair. A fadiga da imortalidade trocada pelo corpo perecível: o corpo lugar transitivo. As Asas do Desejo | Wim Wenders / 1987 Distinguimo-nos deles pelos elementos: observam ainda no seu tempo, que se conjuga sempre no presente, os glaciares a derreterem, as primeiras cidades, sorriem ao verificarem o esforço do homem na Lua; nós, carne corruptível, esforçámo-nos por abrir na rocha o primeiro abrigo, amontoámos pedras, organizámos o espaço, erguemos a memória dos mortos – a única possibilidade de arquitectura para Hegel -, necessitamos de recato para o sexo e de um canto para o fogo. Mãe e Filho | Aleksandr Sokurov / 1997 Dividimos e organizamos o espaço pela linha do Sol. À hierarquia dos negócios diurnos substitui-se a necessidade de apenas uma minúscula parcela desse espaço onde depositemos o corpo. Adolf Loos |
lugar transitivo
moradas
Sempre te tornaste então aquilo que nunca em ti conheci: por toda a parte bate o meu coração numa terra de fontes, onde nenhuma boca bebe e nenhum corpo as sombras debrua, onde a água brota a fingir e o fingido como água espuma. Irrompes em todas as frontes, pairas em tudo o que é fingido. Inventaste um jogo que quer ser esquecido. Corona | Paul Celan / Trad. Gilda Lopes Encarnaçã |
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Rosa Rilke Raimundo Correia
Uma pálpebra, Mais uma, mais outras, Enfim, dezenas De pálpebras sobre pálpebras Tentando fazer Das minhas trevas Alguma coisa a mais Que lágrimas Rosa Rilke Raimundo Correia | Paulo Leminski |
moradas

Estou só, coloco a flor-cinza
na jarra de negrume amadurecido. Boca gémea,
dizes uma palavra que se perpetua diante das janelas,
e mudo trepa meu sonho por mim acima.
Sou a floração do tempo sem viço
e guardo resina para uma ave tardia:
ela traz o floco de neve na pena vermelho-vida;
de grãozito de gelo no bico, sobrevive ao Verão.
[Corona | Paul Celan / Trad. Gilda Lopes Encarnação + Edifício Jardim das Amoreiras, Arqtº Carrilho da Graça, 2010]
Corona
À minha mão vem o Outono comer as suas folhas: somos amigos.
Descansamos o tempo das nozes e ensinamo-lo a partir:
o tempo retorna à casa.
No espelho é domingo,
no sonho dorme-se,
a boca diz a verdade.
O meu olho desce até ao sexo da amada:
olhamo-nos,
dizemo-nos algo sombrio,
amamo-nos como papoila e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o mar no jorro-sangue da Lua.
Estamos abraçados à janela, vêem-nos da rua:
chegou a altura de se saber!
Chegou a altura de a pedra se dignar em florir,
de o coração do desassossego começar a bater.
Chegou a altura de ser altura.
Chegou a altura.
[Corona | Paul Celan / Trad. Gilda Lopes Encarnação + Sede EDP, Aires Mateus & Associados, Lda., 2014]
Elogio da Lonjura
| Na fonte de teus olhos vivem os fios dos pescadores do mar-errância. Na fonte dos teus olhos cumpre o mar a sua promessa. Coração entretido entre os homens, aqui arremesso minhas vestes e o fulgor de um juramento: Mais negro no negro, estou mais nu. Só sendo traidor sou fiel. Eu sou tu quando sou eu. Na fonte de teus olhos vogo e sonho a pilhagem. Um fio prendeu um fio: separamo-nos enlaçados. Na fonte de teus um enforcado estrangula a corda. [Elogio da Lonjura | Paul Celan / Trad. Gilda Lopes Encarnação + Sede EDP, Aires Mateus & Associados, Lda., 2014] |
A Casa
Se por acaso buscas
o verde exacto das folhas
a perfeição da linha que as atravessa e conta quantos dias faltam até à queda no chão
Digo-te que não traces medidas nem planos
Pois o céu mudará de cor e a terra ficará mais húmida
e da janela verás
como o vento sacode as copas amarelas e assobia à nossa porta.
E ainda assim
todos os dias são de primavera.
Jardim das Amoreiras, R.
Fossa Séptica Cultural
Mapas para as Estrelas é a evidência de que a doença que padecem os nossos dias é tão só cultural. Hollywood é uma casa de putas e o ego é a substância mais tóxica que cada um (de nós), viciado, consome: pestilento é o ar que respiramos.
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A minha Pátria é o meu iPhone
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DESH | Akram Khan Company / 2014 |
'Não faço a mínima ideia onde estou', replica Khan, em Londres, ao miúdo do call center, no Bangladesh. Uma metáfora mas também, depois uma viagem literal: 'Já sei onde estou'.
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advenire
Caiu a chuva, vieram as torrentes e sopraram os ventos contra aquela casa; mas ela não caiu, porque estava fundada sobre a rocha.
Can you feel my heart beat?
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20,000 Days on Earth | Iain Forsyth, Jane Pollard + Nick Cave / 2014 |
A memória é edição do que se vai amontoando ao canto sem razão. Pelos corredores dos arquivos mortos do que somos, fomos, queríamos ter sido, o passado é permanente reconstrução que vem.
Nick Cave é a sageza que ele próprio teve ao inventar o Nick Cave. Visceralmente idolatrado pelas multidões que reconhecem a cada 3 minutos de qualquer canção sua pedaços da Verdade, Nick Cave foi tecendo a persona Nick Cave para lhes poder dizer: são apenas canções. O Nick Cave, obcecado com a canção, tem que ser Nick Cave para prosseguir a vidinha habitualmente. |
O tempo passa? Não passa / no abismo do coração.
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Boyhood | Richard Linklater / 2014 |
Passa o tempo e as coisas nunca encontram os nomes. As coisas que colidem, que se desencontram, que se desacertam, as coisas que se acertam, eventualmente, as coisas que se perdem, as coisas que se desaprendem. As coisas banais, as autênticas, as reais. E talvez seja essa a forma em Boyhood e nos nossos dias banais, em acerto desacertado com a substância da vida.
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Whormhole
Interstellar | Christopher Nolan / 2014 |
No fundo, o rigor físico que (dizem) Nolan usou em Interstellar cavou um pouco mais o buraco negro da nossa ignorância científica sobre a causa primeira do Universo, da existência, do sentido de tudo isto. Sobra talvez um detalhe, um pequeno diálogo perdido no meio do filme e do Espaço. Uma hipótese que, tanto quando se sabe, não está em cima da mesa de qualquer laboratório de astrofísica, nem sequer no do Vaticano (por falar nisso, o que pensar da politicamente correcta ausência da hipótese de ter sido Deus o Criador?). Um ensaio que não possa ser, com a tecnologia disponível, exactamente verificada pelo método experimental. A hipótese do Amor ser uma outra dimensão, a juntar às já conhecidas, e de ser essa dimensão a que transcende o reino do tangível e verificável que, apesar de toda a maravilha, nos prende ao meramente sensível.
Se o 'Amor liberta', como se canta desde o nascimento da Humanidade, talvez seja boa ideia dar uma chance a Brand de encontrar algures por aí o que procura desde o dia em que nasceu. |
o avesso do avesso do avesso
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Nightcrawler | Dan Gilroy / 2014 |
Pode ser uma alegoria do 'capitalismo selvagem'. Pode ser uma alegoria da fabricação das imagens que consumimos em prime-time. Pode ser uma previsão da distopia onde estaremos todos online mas desvinculados do próximo. Pode ser a visibilidade do não tão subtil processo de dessensibilização ao outro e à violência a que todos os dias somos sujeitos. Pode ser uma desmontagem do valor que se atribui às imagens e de como é quem atribui esse valor. Pode ser a desocultação do valor das imagens como mera mercadoria que se consome, descarta e gera lucro.
Nightcrawler é uma grande ideia, maior que o filme. |
Teologia Política
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O poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente yada yada yada, a lenga-lenga dos petizes moralistas, sem entender que o poder obedece, por definição, à lógica da decisão, da escolha, da separação, da desunião, logo, da violência, da corrupção. Assim é desde que Caim matou Abel, assim será até à segunda vinda de Cristo.
House of Cards é obsceno. No sentido literal do étimo porque traz à cena aquilo a que não deveríamos ter acesso. Não é a pequena política da West Wing. É o Poder. E o Poder, a lógica do poder - inversa da da Caridade (Amor) - sugere o Homem como Deus. A Francis Underwood, a figura semi-divina, o paradoxal servil-king-maker, não interessa tanto chegar à Sala Oval, apesar de o parecer, a Francis Underwood interessa mais mandar sobre quem ocupa a Sala Oval. E é essa condição, auto-legitimada, que não deve justificação a nada nem a ninguém (so long checks & balances), amoral porque centrada em si mesmo e na Vontade de Poder, que dispõe da vida e da morte de acordo com esse desígnio total e totalitário. E é esta ideia e esta praxis do Poder que constrói os estados contemporâneos, onde cada um de nós é apenas sujeito da grande máquina que escapa ao entendimento da vida quotidiana, da (nossa) vida narcotizada em consumo e desperdício que gera mais consumo e mais desperdício, a caminho, um pouco mais todos os dias, da servidão. House of Cards é uma Teologia Política de um Mundo sem Deus e Francis Underwood o seu Sumo-Sacerdote. |
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