Traziam o sal, os construtores



nome profuso entre as paisagens inclinadas.


Falemos de casas. É verão, outono,


múltiplas, as caras ardendo nas velozes / iluminações


onde os próprios arquitectos se desfazem com suas mãos


da terra


vergando a demorada cabeça para os rios misteriosos



se esgotará cada casa, esbulhada de um fogo,


no seu casamento solar, assim


Como um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente


- Estas casas serão destruídas.


Alguém lera livros, poemas, profecias, mandamentos, inspirações.


Alguém chegara do estrangeiro, coberto de pó.


Alguém viera do mar.


Alguém trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.


uma beleza contra a força divina?


para que se faça uma ordem, uma duração


dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra


pelos muitos sentidos dos meses


- Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam


rápidos.


ou um sinal da eternidade espalhado nos corações


das rosas, ou das águas permanentes,


que não viram as torrentes infindáveis


espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos


Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos


e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.


e absorvente melancolia


tenebrosas, e temos memória


um pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores


Digamos que dormimos nas casas, e vemos as musas


como fogo exemplar


pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste


admirável das fontes -


Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silência


do gosto, o entusiasmo do mundo


Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta


a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras


as casas encontram seu inocente jeito de durar contra


- Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,


De doces mãos irreprimíveis.


de um alto segredo que os restituiu à lama.


sorrindo com ironia e doçura no fundo


Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer


no tempo mais antigo


tão firme e silencioso como só houve


Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder


ninharias




Architecture is a very good test of the true strength of a society, for the most valuable things in a human state are the irrevocable things—marriage, for instance. And architecture approaches nearer than any other art to being irrevocable, because it is so difficult to get rid of. You can turn a picture with its face to the wall; it would be a nuisance to turn that Roman cathedral with its face to the wall. You can tear a poem to pieces; it is only in moments of very sincere emotion that you tear a town-hall to pieces. A building is akin to dogma; it is insolent, like a dogma. Whether or no it is permanent, it claims permanence like a dogma. People ask why we have no typical architecture of the modern world, like impressionism in painting. Surely it is obviously because we have not enough dogmas; we cannot bear to see anything in the sky that is solid and enduring, anything in the sky that does not change like the clouds of the sky.


Tremendous Trifles, G.K. Chesterton








quarto escuro


[Tour sins Fins, Jean Nouvel, 1989, still extraído de Until the End of the World, Wim Wenders, 1991]










Vinha a pensar como é estranho ter sido na era da interpretação dos sonhos que se tenha deixado de construir casas que abrigassem segredos. Mas e daí -  que sei eu?, agora eles, os segredos, são televisionados - , possa essa ser a exacta razão: a tentativa – tentação – de desvelar e desocultar o interior mais de dentro que transportamos. Tentativa, ainda não chegámos lá. Talvez que só lá se chegue no exacto momento que se conseguir entender o momento zero do Universo inteiro – dói-me a cabeça, dói-me o Universo? Tentação, caímos por causa de uma árvore dava o fruto do conhecimento, e cairemos até à última hora. E agora Adão é Jobs e a maçã trincada é uma brand da industriosa inteligência humana. Eva?, visitem sites pornográficos, há por lá muitas, e todas televisionadas no verso reverso da maçã trincada.
O império da razão impede-nos da irrazoabilidade. O real tornado lógico como casas sem muros. A religião ateia incinerou o mistério. Não haverá nada debaixo do Sol, ou acima deste, ou nos abismos, que se furte ao nosso olhar. Tudo está ao alcance do conhecimento e das lentes, objectivas, com que olhamos. Tudo compreensível, irrepreensivelmente reconhecível. Condenados ao olhar permanentebig brother’s watchin’ you – nem pedras podemos atirar às paredes de vidro alheias.
Ou podemos?

Mas, outra vez, a realidade é uma besta, os homens também, e o mistério mais denso que a lógica, a sombra mais extensa que a luz. Recolhamos à meia-luz dos nossos quartos secretos. É lá que sucedem os milagres que transcendem a lógica.





befindlichkeit






































[RDP, Tomás Taveira, Lisboa, 1983]