Der Alte Mercedes*






Há um espectro que paira sobre a Estrada Nacional 1. Uma agonia interrompida esporadicamente pela actividade que se vai mantendo em lugares precisos.
A EN1 é uma viagem pelos “modelos de crescimento” da nossa economia, democracia. É uma viagem pelos cafés abandonados outrora paragem de camionistas, pelos anúncios caóticos de actividades que prosperaram e hoje muitas definham à beira da antiga principal via do país, pela luz néon que já brilhou em jornadas nocturnas e agora se funde irremediavelmente, pelos armazéns toscos que evoluíram como comboios à medida das necessidades, chapas de zinco provisórias que se foram sobrepondo umas às outras na expectativa de dias que as tornassem definitivas, exposições ao ar livre dos apliques ornamentais em gesso que decoravam as casas de gosto e que e que agora nos ofendem no nosso prazenteiro passeio burguês, parques a industriais de materiais de construção e decoração que vão sobrevivendo num gerúndio inadequado às importações das novelas TVI e à formatação do desejo monte-você-mesmo made in Sweden. O roteiro do gosto e do desgosto desviados do olhar que agora corre fugaz pelas A1 e A8 que competem pelos flancos.
O esvaziamento da EN1 é uma digressão pelas opções erráticas de um país que se densifica ao litoral, que é servido pelas auto-estradas e vias rápidas que seguem paralelas e que distam entre si pouco mais que 20km e que servem todos os lugarejos que distam menos de 50km da linha de costa. O abandono da EN1 é a escolha numa paisagem negligenciada, desfeada, que a aceleração nos perfis de auto-estrada esconde. O vazio da EN1 é o desabitar do interior do país numa directa proporção à fixação da população ao longo das vias acelerador de partículas que se vão chocar algures entre Setúbal e Braga. É a rota do progresso que torna anacrónicos os dálmatas em porcelana estilhaçados pela velocidade com que se acede à grande superfície mais próxima, e ela é cada vez mais próxima e a cada dia maior.
A geografia da EN1 é o compêndio do nosso desprezo pela paisagem num comércio demagógico pelo progresso.




*Der Alte Mercedes, Wings of Desire OST, Jurgen Knieper, 1987














capelas imperfeitas#2





















































[Mosteiro Santa Maria da Vitória, Batalha]



capelas imperfeitas




















































[Capela das Aparições, José Carlos Loureiro, 1982]

o Cão



[O Cão, Francisco Goya, 1819/1823]






Há uma imagem que me dá pesadelos e que me assusta tanto que me custa olhar para ela: é o Perro Semihundido, de Goya. Evite vê-lo, se puder. 

O medo é uma coisa fácil de mostrar mas difícil de fixar. O cão semiafogado de Goya, à beira de morrer afogado, tem os olhos abertos a olhar para a massa de água que o vai matar.

Os cães têm medo muitas vezes. Mas este sabe que vai morrer. É este o último momento de vida: a vida suficiente para saber ter medo do que lhe vai acontecer.

Na noite das bruxas brinca-se com os sustos. Os sustos não dão tempo para ter medo. Para ter medo é preciso tempo. É preciso um momento parado, como aquele durante um acidente violento de automóvel, em que o tempo, por crueldade, se alenta, para que possamos contemplar o horror que aí vem, que já não pode ser evitado, que parece fazer render o já ser tarde de mais para fazer qualquer coisa. 

Quando se tem mesmo medo, não se consegue fechar os olhos. O cão de Goya tem os olhos bem abertos. É o único ser vivo. O resto são coisas brutas que não sabem o que fazem, que nem o prazer de matar têm.

Há muitas interpretações do mural de Goya mas nem sequer interessa se o cão está à beira da morte, seja por afogamento, seja por outra razão. O que importa é a aflição de quem olha para a cabeça daquele cão e imediatamente a reconhece. É por isso que faz medo: não ameaça nem assusta. Declara uma condição que um dia será a nossa, mas de que já temos medo desde que nascemos.

[O medo da Verdade, Miguel Esteves Cardoso, Público 31/10/2012]





a casa do emigrante




























































































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de corpos excessivos para algumas pás de terra e que lugar no coração lhes dar?


Precisámos que alguém nos ensinasse onde olhar as mulheres


e de saudarmos à passagem os homens e o tempo



Deus mora onde o deixamos entrar











Dicotomias do espaço interior


A nossa casa é uma construção descontínua do espaço. Por isso, nos causa tanta estranheza o chamado open-space, que muitas empresas hoje adotaram. Nós precisamos de espaços diferenciados: uma coisa é a sala, o quarto, outra a cozinha. Muitos escritores, por exemplo, exploraram as dicotomias que se podem estabelecer entre a sala de jantar e a cozinha. A sala de jantar como o lugar da convivialidade, da ordem, dos códigos de etiqueta, de um aprimoramento sem falhas, ornamental e perfeito, à maneira de um palco. E a cozinha como o outro lado, os bastidores, talvez mais próximo da realidade, mas também mais imperfeito, desordenado, com nódoas, panos espalhados ao acaso, sem aquele cuidado pelo bonito. A sala de jantar como o lugar do desfrutamento, à maneira de um doce intervalo para fruir, uma suspensão, e a cozinha como símbolo do trabalho servil, esforçado, não reconhecido. Fomos habituados a pensar a nossa vida espiritual como uma representação, um enredo que se passa na sala, onde aparecemos vestidos para ver a Deus, por dentro e por fora. A vida quotidiana, ínfima, rotineira, achamos que não é para Deus, não a consideramos ao nível do sagrado. Contudo, diz-nos Santa Teresa: «Deus move-se entre os púcaros.»
É interessante constatar xomo Jesus estava atento a este dualismo representação/realidade. No capítulo 6 do Evangelho de Mateus, diz: «Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar de pé nas sinagogas e nos cantos das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo ao teu Pai.» Temos a fuga e a relativização de toda a representação. Claro que é bom rezar na sinagoga: Jesus também rezou. Mas a realidade da oração não pode ficar limitada a esse contexto e deixar desabitado o nosso «quarto mais secreto». As expressões espirituais podem tornar-se perigosas se fixarem apenas uma aparência e forem vazia da nossa singularidade e da real transcendência de Deus. Entrar no recanto mais secreto da nossa casa é a garantia de que a representação é relativizada e que no escondimento, no lugar onde somos mais nós próprios, buscamos uma relação pessoal, humilde e verdadeira com Deus. Vivemos a sua amizade.







Nem nos perturba essa pesada dignidade de recebermos de pé em plena face as estações