capelas imperfeitas




















































[Capela das Aparições, José Carlos Loureiro, 1982]

o Cão



[O Cão, Francisco Goya, 1819/1823]






Há uma imagem que me dá pesadelos e que me assusta tanto que me custa olhar para ela: é o Perro Semihundido, de Goya. Evite vê-lo, se puder. 

O medo é uma coisa fácil de mostrar mas difícil de fixar. O cão semiafogado de Goya, à beira de morrer afogado, tem os olhos abertos a olhar para a massa de água que o vai matar.

Os cães têm medo muitas vezes. Mas este sabe que vai morrer. É este o último momento de vida: a vida suficiente para saber ter medo do que lhe vai acontecer.

Na noite das bruxas brinca-se com os sustos. Os sustos não dão tempo para ter medo. Para ter medo é preciso tempo. É preciso um momento parado, como aquele durante um acidente violento de automóvel, em que o tempo, por crueldade, se alenta, para que possamos contemplar o horror que aí vem, que já não pode ser evitado, que parece fazer render o já ser tarde de mais para fazer qualquer coisa. 

Quando se tem mesmo medo, não se consegue fechar os olhos. O cão de Goya tem os olhos bem abertos. É o único ser vivo. O resto são coisas brutas que não sabem o que fazem, que nem o prazer de matar têm.

Há muitas interpretações do mural de Goya mas nem sequer interessa se o cão está à beira da morte, seja por afogamento, seja por outra razão. O que importa é a aflição de quem olha para a cabeça daquele cão e imediatamente a reconhece. É por isso que faz medo: não ameaça nem assusta. Declara uma condição que um dia será a nossa, mas de que já temos medo desde que nascemos.

[O medo da Verdade, Miguel Esteves Cardoso, Público 31/10/2012]





a casa do emigrante




























































































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de corpos excessivos para algumas pás de terra e que lugar no coração lhes dar?


Precisámos que alguém nos ensinasse onde olhar as mulheres


e de saudarmos à passagem os homens e o tempo



Deus mora onde o deixamos entrar











Dicotomias do espaço interior


A nossa casa é uma construção descontínua do espaço. Por isso, nos causa tanta estranheza o chamado open-space, que muitas empresas hoje adotaram. Nós precisamos de espaços diferenciados: uma coisa é a sala, o quarto, outra a cozinha. Muitos escritores, por exemplo, exploraram as dicotomias que se podem estabelecer entre a sala de jantar e a cozinha. A sala de jantar como o lugar da convivialidade, da ordem, dos códigos de etiqueta, de um aprimoramento sem falhas, ornamental e perfeito, à maneira de um palco. E a cozinha como o outro lado, os bastidores, talvez mais próximo da realidade, mas também mais imperfeito, desordenado, com nódoas, panos espalhados ao acaso, sem aquele cuidado pelo bonito. A sala de jantar como o lugar do desfrutamento, à maneira de um doce intervalo para fruir, uma suspensão, e a cozinha como símbolo do trabalho servil, esforçado, não reconhecido. Fomos habituados a pensar a nossa vida espiritual como uma representação, um enredo que se passa na sala, onde aparecemos vestidos para ver a Deus, por dentro e por fora. A vida quotidiana, ínfima, rotineira, achamos que não é para Deus, não a consideramos ao nível do sagrado. Contudo, diz-nos Santa Teresa: «Deus move-se entre os púcaros.»
É interessante constatar xomo Jesus estava atento a este dualismo representação/realidade. No capítulo 6 do Evangelho de Mateus, diz: «Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar de pé nas sinagogas e nos cantos das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo ao teu Pai.» Temos a fuga e a relativização de toda a representação. Claro que é bom rezar na sinagoga: Jesus também rezou. Mas a realidade da oração não pode ficar limitada a esse contexto e deixar desabitado o nosso «quarto mais secreto». As expressões espirituais podem tornar-se perigosas se fixarem apenas uma aparência e forem vazia da nossa singularidade e da real transcendência de Deus. Entrar no recanto mais secreto da nossa casa é a garantia de que a representação é relativizada e que no escondimento, no lugar onde somos mais nós próprios, buscamos uma relação pessoal, humilde e verdadeira com Deus. Vivemos a sua amizade.







Nem nos perturba essa pesada dignidade de recebermos de pé em plena face as estações


era vulgaris

[Anunciação, Fra Angélico, 1438/1445]






 [The Passage of the Angel to the Virgin, Richard Hamilton, 2012]






Não tanto a vulgaridade – não surpreendente num dos pais da pop – mas o abundante anacronismo. A citação vale para que possamos dizer o que sozinhos não conseguiríamos nomear. Convocamos mestres, apelamos ao passado, ao outro, pedimos que nos ensinem, que nos ofereçam algum apoio e suporte, que alumiem o que não alcançamos deslumbrar. A citação possibilita a abertura ao inesperado, ao heterogéneo, a uma verdade outra para além da contingência existencial.
A sombra, a obscuridade, a meia-luz, é a própria estrutura da realidade, a condição primeira da existência. E por isso é necessária a solidariedade. Com o passado, com o futuro, com o mundo, com o outro. A abertura como desinstalação das pífias certezas que nos tolhem – no tempo em que a arte tende a tudo instalar. A interpelação e a incerteza como princípio da construção – no tempo em que o pensamento tende a tudo desconstruir.
Mas remissão permanente ao outro e a solicitação incessante do passado podem significar o fechamento do olhar. O encerramento do homem sobre si mesmo.
Se a incerteza pode ser princípio e a dúvida caminho, a tibieza e a insegurança não serão mais que manifestações da trajectória aleatória e eventual com que hoje colidimos uns com os outros, com que desprezamos o passado, com que chocamos com o futuro. Manifestação do medo e do carácter vazio e desprovido de sentido – sentido que a contingência não pode assegurar – de todas as certezas (desfeitas) a que o homem (moderno) se abandonou.

Abertura também à transcendência: abolindo a transcendência abole-se uma possibilidade maior de abertura. Remetemo-nos à solidão, ao orgulho do mandar, à vontade de poder. A um pouco menos de claridade e a mais de treva.









Trincamos tudo: o pão que nos pertence o pão alheio e o mais que os nossos dentes encontrem à disposição


Não queiras levantar agora a capa da terra só para os veres dormir seu vasto sono horizontal


Algum de nós era digno de saber o que resta do seu grande segredo?


Escondemos-lhes os ossos.


o que afinal a gente vê todos os dias


como se os mortos não pudessem voltar a morrer


Vamos ao ponto de dar nomes de mortos às ruas


Quem nos dirá a nós que lá no mar as ondas não venham ainda a precisar de serem vistas para continuar a nascer e a rebentar?


lembranças nossas em alguém vazios os lugares onde estivemos


Longe de nós — que fará ele aqui? — o pensamento de um dia deixarmos atrás de nós um corpo



Somos verdadeiramente pessoas seguras de si


sem-abrigo

[Manhattan, Nova Iorque, 29.10.2012]






Continuamos tão despreparados para enfrentar o terror que nos assalta. E pouca diferença fazem os dispositivos tecnológicos de que dispomos e em que nos barricamos. Às fontes do sofrimento - o declínio do corpo; a ira dos elementos; a dor causada pelos outros – de nenhuma delas nos abriga a arquitectura.


No sossego desses lagos sei o que faço e, sabendo o que faço, fico a saber quem sou.


É também peculiar o sentimento da duração em face de certas coisas pequenas, quanto mais simples mais impressionantes


zona de conforto


[Stalker, Andrei Tarkovsky, 1979]


É verdade que cada Estado tem o direito de regular os fluxos migratórios e implementar políticas ditadas pelas exigências gerais do bem comum, mas assegurando sempre o respeito pela dignidade de cada pess
oa. O direito que a pessoa tem de emigrar – como recorda o número 65 da Constituição conciliar Gaudium et spes – conta-se entre os direitos humanos fundamentais, com faculdade de cada um se estabelecer onde crê mais oportuno para uma melhor realização das suas capacidades e aspirações e dos seus projetos. No contexto sociopolítico atual, porém, ainda antes do direito a emigrar há que reafirmar o direito a não emigrar, isto é, a ter condições para permanecer na própria terra, podendo repetir, com o Beato João Paulo II, que «o direito primeiro do homem é viver na própria pátria.»


Bento XVI, Migrações: peregrinação de fé e de esperança


Em todos os domínios e sob todos os aspectos, é preciso desconfiar do emprego irreflectido, e mais ainda, do emprego deliberado das palavras em voga: elas contribuem frequentemente para criar as realidades que pretendem designar ou descrever.

Marc Augé, Para uma Antropologia da Mobilidade












A realidade é o que é: uma besta. É-o porque nos desfaz todo e qualquer sistema filosófico ou de pensamento, por mais sólido, fechado, monolítico que seja, sobre o qual se erguem todas as nossas mais profundas crenças. E as ideologias políticas do ocidente. E fá-lo com alguma violência.
Só um optimista avoado, para quem tudo é bom excepto o pessimista, ou um pessimista cavernícola, para quem tudo é mau excepto ele mesmo, podem aderir sem censura à realidade ou repulsá-la como se dela não nos chegassem também o que parecem milagres da natureza humana. Se a realidade é palco e fonte de violência, dor, sofrimento, também o é de beleza, alegria e consolo.
Uma virtude da crise – krisis – é colocar em questão o(s) olhar(es) sobre o real. Possibilidade para desinstalarmos e nos desinstalarmo-nos as certezas que até aqui nos trouxeram. E antes do deflagrar da crise todos nós, ocidente, éramos certeza. E optimismo. A História tinha terminado. O amanhã cantaria liberdade para todos.
Liberdade condicionada pela televisão. O preço a pagar seria esse: enxurradas de informação sempre envolvida por imagens sedutoras e reprodutíveis ao infinito. Imagens que evocavam uma realidade real mas não passavam de fabricações, efabulações, manipulações, simulações (Baudrillard) do real. Imagens desprovidas da espessura das coisas que, no concreto, acontecem e sucedem. Imagens de imagens que abriam o desejo de mais imagens. A sedução é sempre um jogo terrível. Esquivo. Equívoco. Aisthesis, estética, anastesia. Adormecemos debaixo da nuvem da estetização generalizada da vida. Uma estetização kitsch, como todo o kitsch, desprovida de profundidade ética, onde a beleza significa a mera aparência das coisas, a superfície das coisas. E ainda que seja na pele, pela pele, que primeiro tocamos o mundo e ele nos toca, pele sem músculo é só um tecido de células mortas. Agora não há cirurgia nem glossy que amacie a pele morta. Nem apague as sombras da luz glamourosa das imagens de outrora. Recordemos as metáforas dos discursos, teorias e crítica, arquitectónicas que bebiam dos manuais de medicina cirúrgica.
Multiculturalismos, transculturalismos, velocidade, comunicação global, abolição de fronteiras, fim de limites. A algaravia pós-moderna, académica e mediática, os sacerdotes da razão determinista e do insano optimismo antropológico ruíram. A realidade não deixou de ser realidade e o homem não deixou de ser homem. E surge aqui a possibilidade de contrabalanço proveniente das sombras da razão. Ou por outra, de matrizes estéticas e ideológicas fundadas na matéria irracional do homem. E, por consequência, o encerrar do homem e de sociedades em exercícios de recuperação de mitos e elaborações sobre um momento original, primeiro e limpo (fantasiosos e imaginários e perigosos), tanto de comunidades como de indivíduos. O cosmopolita só o poderá ser a partir de uma raiz. O cosmopolitismo só o poderá ser como abertura ao outro real. Ao outro e a toda a toda a sua (humana, demasiado humana) fragilidade, bem e mal. Em toda a sua realidade, sem a fantasia multicultural da bondade intrínseca no outro.


O problema que daqui decorre para uma pensamento espacial e arquitectónico é, exactamente, o do permanente desenho, redesenho, dos limites e das fronteiras. As fronteiras não se fazem e desfazem: redesenham-se. Eventualmente, o único problema intrínseca e verdadeiramente arquitectónico. Uma parede é uma parede é uma parede. Como e onde a abrir? Por onde deixar entrar o ar a luz e o vento? E o mundo.







Quando a criança era criança, Arremessou um bastão como se fosse uma lança contra uma árvore, E ela ainda está lá, chacoalhando, até hoje.


Quando uma criança era criança, Esperava a primeira neve, Como ainda espera até agora.


Quando uma criança era criança, tinha uma timidez na frente de estranhos, como ainda tem.


Quando uma criança era uma criança, alcançava cerejas nos galhos mais altos das árvores como, com algum orgulho, ainda consegue fazer hoje,



Quando uma criança era criança, inha, em cada cume de montanha, a busca por uma montanha ainda mais alta,e em cada cidade, a busca por uma cidade ainda maior, e ainda é assim,


Quando uma criança era criança, Avelãs frescas machucavam sua língua, parecido com o que fazem agora,


Quando uma criança era criança, amoras enchiam sua mão como somente as amoras conseguem, e também fazem agora,


Quando uma criança era uma criança, Era suficiente comer uma maçã, uma laranja, pão, E agora é a mesma coisa.


Quando uma criança era uma criança, brincava com entusiasmo, e agora tem tanta excitação como tinha, porém só quando pensa em trabalho.


Quando uma criança era uma criança, Visualizava uma clara imagem do Paraíso, e agora no máximo consegue só imaginá-lo, não podia conceber o vazio absoluto, que hoje estremece no seu pensamento.


És um jardim fechado, minha irmã e minha esposa, um jardim fechado, uma fonte selada.*

O jardim não é, pois, a pequena forma de paisagem, ele tem o seu esquema simbólico próprio. Na perspectiva do otium, ele não é a redução, à escala humana, da generosa Natureza, não mais do que uma metábole ou sinédoque pela qual ela se apresentaria. Muito pelo contrário, é através de uma separação dela que ele se constitui – e quase em sentido oposto.

Anne Cauquelin, A Invenção da Paisagem




Admitamos a tese de Cauquelin – a paisagem como equivalente construído, cultural, da natureza, e esta compreensível apenas através da primeira; a paisagem como acúmulo de construções e formas, a cada passo mais ancestrais** - para, de certa forma, admitirmos os elementos construídos da paisagem como mimese dos elementos naturais. E para o que segue importa apenas esta relação de reciprocidade que nos permite, pela paisagem, aceder à essência, à cultura, à antropologia, da acção humana sobre a Terra.

Nos claustros dos mosteiros medievais os jardins, hortus conclusos, como representação simbólica da fonte da vida, dos quatro caminhos e quatro quadrantes, da perpétua virgindade de Maria, interpretavam também a natureza e tornando-a sensível ao longo do limite dos muros dos mosteiros - tanto que o próprio S. Bento institui o jardim conventual na sua regra. Um modo também de resguardo do homem diante da natureza. Ainda desprovido de meios tecnológicos para a dominar com o poder e força como vem a suceder em hoje.

A natureza construída, mimetizada, projectada, diríamos hoje, como protecção e refúgio da assustadora e incompreensível poder dos elementos. Um ícone que transcende a relação sensível do medo da natureza terrível e indomável, expressão do amor pelo Mistério, respeito pela Criação e por todas as obras do Criador, visíveis e invisíveis, além das realidades sensíveis e inteligíveis, a transfiguração da visão do mundo. O facto concreto do medo da natureza obrigaria à delimitação do seu poder dentro dos limites dos muros, dentro dos quais o homem seria então soberano. Ou servo da gleba em permanente tributo e respeito ao suserano seu Criador. Depois dos muros, o desconhecido, o medo, a paisagem natural intacta, dominariam a superfície da Terra e tudo o que ela sustenta.

O desenvolvimento técnico e da tecnologia a partir da modernidade, acelerado na Revolução Industrial, a industrialização, a vertigem contemporânea das sociedades de consumo, associados aos factores demográficos exercem pressão cada vez mais intensa sobre a Terra e os recursos que esta oferece. A natureza é paulatinamente dominada. A natureza recua progressivamente diante conhecimento(?) e poder tecnológico adquirido pelo homem. O homem durante toda a História dominado, ergue-se orgulhosamente em dono e senhor do mundo natural. O progresso(?) material da humanidade com correspondente imediato na depredação dos bens naturais. (E de nada serve esta História quando no debate público e político hodierno prevalecem hegemonicamente as modernas concepções de «crescimento», «bem-estar», «progresso», etc., sustentadas em empobrecedoras noções materiais e de acumulação material.)

As formas artificiais da paisagem depositadas e amontoadas ao correr dos séculos – paisagem palimpsesto? – são, evidentemente, obras e formas de cultura. Subjazem-lhes grupos e comunidades e sociedades que agem e são coagidos pelas diversas culturas que tanto estão nas suas origens quanto nas tradições que os mantêm vivos e unidos. Tradição (com maiúscula) como expressão inteligível dessa ocupação e dominância sensível da natureza natural. A vizinhança, a conflitualidade, a violência, a solidariedade, a construção, a destruição, são evidências das relações que cada comunidade e sociedade estabelece tanto entre si e os indivíduos que a compõem como comunidades e sociedades estrangeiras. E claro, esta é uma questão do espaço. E de lugares.




[Le diable probablement, Robert Bresson, 1977]

A dominância do homem sobre a Terra e as consequências da extracção cada vez mais violenta e voraz dos recursos naturais, a má-consciência dessa acção humana e o alívio politicamente correcto dessa má-consciência, fez recuar a natureza natural para reservas ecológicas e paisagens protegidas(?). Inverte-se a situação de há poucos séculos atrás e é agora a paisagem natural que necessita de protecção à acção humana. Limita-se o elemento natural da paisagem mas não a incapacidade do homem moderno se limitar a si mesmo. E o elemento natural da paisagem é, na contemporânea sociedade de consumo, um parque temático. Mais um, ao qual se pode aceder pela via do consumo.


Todas estas questões se expõem no conflito e martírio por que passam os Guarani-Kaiowás. Um genocídio lento – e este é apenas o exemplo mais mediático e do momento de um holocausto silencioso por que passam centenas de comunidades indígenas – que é uma guerra de recursos e um conflito de territórios.
Para estancar a mortandade, governos sucessivos, imbuídos com certeza do espírito humanista da civilização das luzes e do progresso, legislaram a criação de reservas onde estas comunidades mais frágeis (civilizacionalmente? tecnologicamente?) pudessem prosseguir os seus viveres nos seus lugares. Atira-se homens e culturas - aqui tratados como mais um elemento selvagem e primitivo do estado natural a preservar – para territórios cada vez mais exíguos e estanques, para lugares que impossibilitam a existência e subsistência, e tão pouco a dignidade, destes homens e destas culturas.









[Índio Awa-Guaja]

Se o horror mais evidente é o do sangue que ensopa a mata, a obediência a uma perversa hierarquia que coloca estes homens ao mesmo nível dos animais não é menos revelador das sombras desta civilização da razão. Como se estes homens fossem mais um e de igual valor elemento lado a lado à fauna e à flora. Como se o Homem (com maiúscula) fosse coisificável como mero elemento natural – que também é mas não só.
Delimita-se a paisagem natural e a paisagem artificial - vale uma oca menos que o Burj Khalifa? – e o Homem que lhe dá origem, nuns acanhados hectares sobrantes que limpam a consciência civilizada. Lança-se humanidade para os restos do território civilizado pela soberba. Despojos cada vez mais diminutos da cultura do consumo. Parques temáticos onde um dia pagaremos para nos vermos a nós mesmos.






*Cântico dos Cânticos, 4,12


**Desprezemos o radicalismo moderno de Cauquelin que admite a invenção da paisagem apenas a partir da invenção da perspectiva e das estruturas de percepção que a tornaram possível: a paisagem antiga seria não mais que um pedaço da natureza provisora de bens e sujeita à economia. A possibilidade da paisagem ter-se-ia então aberto pelo desdém bizantino da representação artística dos elementos naturais da paisagem. Se para os latinos a paisagem (e o jardim) seria um mero rasgo na natureza, da mesma essência, sem originar outra espécie de paisagem, em Bizâncio, a invenção do ícone por oposição à estreiteza daquilo que a imagem represente (eidolon), a teia de relações metafísicas entre o sensível e o ideal consequente, o renovado estatuto da imagem, possibilitam, enfim, a paisagem. Ela própria ícone de Natureza. É a perspectiva que cumpre a função retórica da paisagem artificial e torna os objectos visíveis no espaço. A fundação da paisagem na realidade sensível exige então um enquadramento: a janela/quadro; os elementos naturais (chão, céu, água fogo).









Aconteceu. O fogo, mais uma vez, penetrou na Terra. Não caiu ruidosamente sobre os cimos como o raio em seu fragor. Sem abalo, sem trovão, a chama iluminou tudo por dentro.*


[Fall I, Bas Jan Ader, 1970]


[Fall II, Bas Jan Ader, 1970]


[I'm Too Sad to Tell You, Bas Jan Ader, 1971]


[Broken fall (organic), Bas Jan Ader, 1971]


[Nightfall, Bas Jan Ader, 1971]


[Broken fall (geometric), Bas Jan Ader, 1971]


Bas Jan Ader, 1942.1975




*A Missa Sobre o Mundo, Pierre Teilhard de Chardin, 1923


Muitas pessoas, então, pareciam lindas e agora só algumas parecem, com alguma sorte.


Quando uma criança era uma criança, Uma vez acordou numa cama estranha, e agora faz isso de novo e de novo.



Quando uma criança era uma criança, Mastigava espinafre, ervilhas, bolinhos de arroz, e couve-flor cozida, e comia tudo isto não somente porque precisava comer.


Como pode ser que eu, que sou eu, antes de ser eu mesmo não era eu, e que algum dia, eu, que sou eu, não serei mais quem eu sou?


Quando a criança era uma criança era a época destas perguntas: Existe de fato o Mal e as pessoas que são realmente más?


da dificuldade em Humpty Dumpty se manter sobre o muro

[Sky Mirror, Anish Kapoor, 2006]






Assustai-vos. Assustai-vos, preclaro leitor, sempre que ouvirdes de um homem que não obedece a dogmas. A verdade, a Verdade, é bem capaz de ser de outra ordem que não a das palavras. Subjaz atrás delas, antes delas, como húmus que lhes dá alimento. Imperceptível. Quase invisível. E o discurso anti-dogma, à superfície de um livre-pensamento, aponta directamente ao coração de uma cultura que se ergue(u) sólida do maciço do dogma. Um discurso de diálise. Moderno, et pour cause, supostamente emancipador do indivíduo, orgulhoso, que durante toda a história da humanidade terá sido agrilhoado à opressão do céu, da terra, do próximo, do outro, da cultura e, provavelmente, do canário. Uma longa noite escura de ignorância redimida a 14 de Julho de 1789. E de então para cá, sim, o progresso. Radioso. Tanto quanto hoje o experimentamos.

O espectáculo abre-se em cascata. Espectáculos dentro de espectáculos. Já avisara Deleuze - anti-dogmático instituído agora em dogma? – tudo se dobra, desdobra, redobra, e quem sabe tenhamos recuado ao barroco. A crise são crises. Crises dentro da crise. Septicémia do corpo social que evidentemente infecta o emancipado sujeito. A inteligência – e perversidade - do capitalismo é precisamente o movimento de absorção para o seu interior aquilo que aparentemente se afirma como margem, (cf. naquilo que se conhece como arte contemporânea).

Pedir a um crítico profissional que esboce um horizonte tem a mesma pertinência que pedir ao Jorge Coelho que tutele o ordenamento do território português. É esse o espectáculo que dá da classe Paul Goldberger: o problema não é afinal starsystem a mais, sê-lo-á, porventura, a menos; os ícones dos feitos da modernidade e da pós-modernidade não são apenas ícones, são agora altares diante dos quais todos nós dos devemos prostrar contritos; a criatividade é difícil, a objecção à livre-insanidade do arquitecto ora pela acusação de inconsistência, no caso de diferença, ora pela de auto-paródia, no caso de repetição. Foi a especulação, não foram os arquitectos, não foi a boa vontade dos construtores, foi o dinheiro que tudo suja. Somos todos bons selvagens.
E tudo se resume ao sistema mediático. É aqui que tudo se legitima. Onde tudo nasce e tudo morre. Alfa e ómega do que se foi construindo nas últimas décadas, atmosfera cultural inescapável, sortilégio mais ou menos frívolo de imagens sem espessura nem gravidade, jogo de espelhos e de enganos, distorção do real, fabricação da realidade a duas dimensões, sem cheiro nem cor – hoje em dia é tudo branco psicótico – nem dor.
Arquitectura? Claro, no necesitamos más. A emancipação deixou-nos sós. Sem nada que construir.




Quando a criança era uma criança era a época destas perguntas: Aquilo que eu vejo e ouço e cheiro não é só a aparência de um mundo diante de um mundo?


Quando a criança era uma criança era a época destas perguntas: Um lugar na vida sob o sol não é apenas um sonho?