capelas imperfeitas#2





















































[Mosteiro Santa Maria da Vitória, Batalha]



capelas imperfeitas




















































[Capela das Aparições, José Carlos Loureiro, 1982]

o Cão



[O Cão, Francisco Goya, 1819/1823]






Há uma imagem que me dá pesadelos e que me assusta tanto que me custa olhar para ela: é o Perro Semihundido, de Goya. Evite vê-lo, se puder. 

O medo é uma coisa fácil de mostrar mas difícil de fixar. O cão semiafogado de Goya, à beira de morrer afogado, tem os olhos abertos a olhar para a massa de água que o vai matar.

Os cães têm medo muitas vezes. Mas este sabe que vai morrer. É este o último momento de vida: a vida suficiente para saber ter medo do que lhe vai acontecer.

Na noite das bruxas brinca-se com os sustos. Os sustos não dão tempo para ter medo. Para ter medo é preciso tempo. É preciso um momento parado, como aquele durante um acidente violento de automóvel, em que o tempo, por crueldade, se alenta, para que possamos contemplar o horror que aí vem, que já não pode ser evitado, que parece fazer render o já ser tarde de mais para fazer qualquer coisa. 

Quando se tem mesmo medo, não se consegue fechar os olhos. O cão de Goya tem os olhos bem abertos. É o único ser vivo. O resto são coisas brutas que não sabem o que fazem, que nem o prazer de matar têm.

Há muitas interpretações do mural de Goya mas nem sequer interessa se o cão está à beira da morte, seja por afogamento, seja por outra razão. O que importa é a aflição de quem olha para a cabeça daquele cão e imediatamente a reconhece. É por isso que faz medo: não ameaça nem assusta. Declara uma condição que um dia será a nossa, mas de que já temos medo desde que nascemos.

[O medo da Verdade, Miguel Esteves Cardoso, Público 31/10/2012]





a casa do emigrante




























































































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de corpos excessivos para algumas pás de terra e que lugar no coração lhes dar?


Precisámos que alguém nos ensinasse onde olhar as mulheres


e de saudarmos à passagem os homens e o tempo



Deus mora onde o deixamos entrar











Dicotomias do espaço interior


A nossa casa é uma construção descontínua do espaço. Por isso, nos causa tanta estranheza o chamado open-space, que muitas empresas hoje adotaram. Nós precisamos de espaços diferenciados: uma coisa é a sala, o quarto, outra a cozinha. Muitos escritores, por exemplo, exploraram as dicotomias que se podem estabelecer entre a sala de jantar e a cozinha. A sala de jantar como o lugar da convivialidade, da ordem, dos códigos de etiqueta, de um aprimoramento sem falhas, ornamental e perfeito, à maneira de um palco. E a cozinha como o outro lado, os bastidores, talvez mais próximo da realidade, mas também mais imperfeito, desordenado, com nódoas, panos espalhados ao acaso, sem aquele cuidado pelo bonito. A sala de jantar como o lugar do desfrutamento, à maneira de um doce intervalo para fruir, uma suspensão, e a cozinha como símbolo do trabalho servil, esforçado, não reconhecido. Fomos habituados a pensar a nossa vida espiritual como uma representação, um enredo que se passa na sala, onde aparecemos vestidos para ver a Deus, por dentro e por fora. A vida quotidiana, ínfima, rotineira, achamos que não é para Deus, não a consideramos ao nível do sagrado. Contudo, diz-nos Santa Teresa: «Deus move-se entre os púcaros.»
É interessante constatar xomo Jesus estava atento a este dualismo representação/realidade. No capítulo 6 do Evangelho de Mateus, diz: «Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar de pé nas sinagogas e nos cantos das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo ao teu Pai.» Temos a fuga e a relativização de toda a representação. Claro que é bom rezar na sinagoga: Jesus também rezou. Mas a realidade da oração não pode ficar limitada a esse contexto e deixar desabitado o nosso «quarto mais secreto». As expressões espirituais podem tornar-se perigosas se fixarem apenas uma aparência e forem vazia da nossa singularidade e da real transcendência de Deus. Entrar no recanto mais secreto da nossa casa é a garantia de que a representação é relativizada e que no escondimento, no lugar onde somos mais nós próprios, buscamos uma relação pessoal, humilde e verdadeira com Deus. Vivemos a sua amizade.







Nem nos perturba essa pesada dignidade de recebermos de pé em plena face as estações


era vulgaris

[Anunciação, Fra Angélico, 1438/1445]






 [The Passage of the Angel to the Virgin, Richard Hamilton, 2012]






Não tanto a vulgaridade – não surpreendente num dos pais da pop – mas o abundante anacronismo. A citação vale para que possamos dizer o que sozinhos não conseguiríamos nomear. Convocamos mestres, apelamos ao passado, ao outro, pedimos que nos ensinem, que nos ofereçam algum apoio e suporte, que alumiem o que não alcançamos deslumbrar. A citação possibilita a abertura ao inesperado, ao heterogéneo, a uma verdade outra para além da contingência existencial.
A sombra, a obscuridade, a meia-luz, é a própria estrutura da realidade, a condição primeira da existência. E por isso é necessária a solidariedade. Com o passado, com o futuro, com o mundo, com o outro. A abertura como desinstalação das pífias certezas que nos tolhem – no tempo em que a arte tende a tudo instalar. A interpelação e a incerteza como princípio da construção – no tempo em que o pensamento tende a tudo desconstruir.
Mas remissão permanente ao outro e a solicitação incessante do passado podem significar o fechamento do olhar. O encerramento do homem sobre si mesmo.
Se a incerteza pode ser princípio e a dúvida caminho, a tibieza e a insegurança não serão mais que manifestações da trajectória aleatória e eventual com que hoje colidimos uns com os outros, com que desprezamos o passado, com que chocamos com o futuro. Manifestação do medo e do carácter vazio e desprovido de sentido – sentido que a contingência não pode assegurar – de todas as certezas (desfeitas) a que o homem (moderno) se abandonou.

Abertura também à transcendência: abolindo a transcendência abole-se uma possibilidade maior de abertura. Remetemo-nos à solidão, ao orgulho do mandar, à vontade de poder. A um pouco menos de claridade e a mais de treva.









Trincamos tudo: o pão que nos pertence o pão alheio e o mais que os nossos dentes encontrem à disposição


Não queiras levantar agora a capa da terra só para os veres dormir seu vasto sono horizontal


Algum de nós era digno de saber o que resta do seu grande segredo?


Escondemos-lhes os ossos.


o que afinal a gente vê todos os dias


como se os mortos não pudessem voltar a morrer


Vamos ao ponto de dar nomes de mortos às ruas


Quem nos dirá a nós que lá no mar as ondas não venham ainda a precisar de serem vistas para continuar a nascer e a rebentar?


lembranças nossas em alguém vazios os lugares onde estivemos


Longe de nós — que fará ele aqui? — o pensamento de um dia deixarmos atrás de nós um corpo



Somos verdadeiramente pessoas seguras de si


sem-abrigo

[Manhattan, Nova Iorque, 29.10.2012]






Continuamos tão despreparados para enfrentar o terror que nos assalta. E pouca diferença fazem os dispositivos tecnológicos de que dispomos e em que nos barricamos. Às fontes do sofrimento - o declínio do corpo; a ira dos elementos; a dor causada pelos outros – de nenhuma delas nos abriga a arquitectura.


No sossego desses lagos sei o que faço e, sabendo o que faço, fico a saber quem sou.


É também peculiar o sentimento da duração em face de certas coisas pequenas, quanto mais simples mais impressionantes