[Mosteiro Santa Maria da Vitória, Batalha]
o Cão
Há uma imagem que me dá pesadelos e que me assusta tanto que me custa olhar para ela: é o Perro Semihundido, de Goya. Evite vê-lo, se puder. O medo é uma coisa fácil de mostrar mas difícil de fixar. O cão semiafogado de Goya, à beira de morrer afogado, tem os olhos abertos a olhar para a massa de água que o vai matar. Os cães têm medo muitas vezes. Mas este sabe que vai morrer. É este o último momento de vida: a vida suficiente para saber ter medo do que lhe vai acontecer. Na noite das bruxas brinca-se com os sustos. Os sustos não dão tempo para ter medo. Para ter medo é preciso tempo. É preciso um momento parado, como aquele durante um acidente violento de automóvel, em que o tempo, por crueldade, se alenta, para que possamos contemplar o horror que aí vem, que já não pode ser evitado, que parece fazer render o já ser tarde de mais para fazer qualquer coisa. Quando se tem mesmo medo, não se consegue fechar os olhos. O cão de Goya tem os olhos bem abertos. É o único ser vivo. O resto são coisas brutas que não sabem o que fazem, que nem o prazer de matar têm. Há muitas interpretações do mural de Goya mas nem sequer interessa se o cão está à beira da morte, seja por afogamento, seja por outra razão. O que importa é a aflição de quem olha para a cabeça daquele cão e imediatamente a reconhece. É por isso que faz medo: não ameaça nem assusta. Declara uma condição que um dia será a nossa, mas de que já temos medo desde que nascemos. [O medo da Verdade, Miguel Esteves Cardoso, Público 31/10/2012] |
Deus mora onde o deixamos entrar
Dicotomias do espaço interior
A nossa casa é uma construção descontínua do espaço. Por isso, nos causa tanta estranheza o chamado open-space, que muitas empresas hoje adotaram. Nós precisamos de espaços diferenciados: uma coisa é a sala, o quarto, outra a cozinha. Muitos escritores, por exemplo, exploraram as dicotomias que se podem estabelecer entre a sala de jantar e a cozinha. A sala de jantar como o lugar da convivialidade, da ordem, dos códigos de etiqueta, de um aprimoramento sem falhas, ornamental e perfeito, à maneira de um palco. E a cozinha como o outro lado, os bastidores, talvez mais próximo da realidade, mas também mais imperfeito, desordenado, com nódoas, panos espalhados ao acaso, sem aquele cuidado pelo bonito. A sala de jantar como o lugar do desfrutamento, à maneira de um doce intervalo para fruir, uma suspensão, e a cozinha como símbolo do trabalho servil, esforçado, não reconhecido. Fomos habituados a pensar a nossa vida espiritual como uma representação, um enredo que se passa na sala, onde aparecemos vestidos para ver a Deus, por dentro e por fora. A vida quotidiana, ínfima, rotineira, achamos que não é para Deus, não a consideramos ao nível do sagrado. Contudo, diz-nos Santa Teresa: «Deus move-se entre os púcaros.»
É interessante constatar xomo Jesus estava atento a este dualismo representação/realidade. No capítulo 6 do Evangelho de Mateus, diz: «Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar de pé nas sinagogas e nos cantos das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo ao teu Pai.» Temos a fuga e a relativização de toda a representação. Claro que é bom rezar na sinagoga: Jesus também rezou. Mas a realidade da oração não pode ficar limitada a esse contexto e deixar desabitado o nosso «quarto mais secreto». As expressões espirituais podem tornar-se perigosas se fixarem apenas uma aparência e forem vazia da nossa singularidade e da real transcendência de Deus. Entrar no recanto mais secreto da nossa casa é a garantia de que a representação é relativizada e que no escondimento, no lugar onde somos mais nós próprios, buscamos uma relação pessoal, humilde e verdadeira com Deus. Vivemos a sua amizade.
[Nenhum Caminho será Longo – Para uma Teologia da Amizade, José Tolentino Mendonça, 2012]
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era vulgaris
[Anunciação, Fra Angélico, 1438/1445]
Não tanto a vulgaridade – não surpreendente num dos pais da pop – mas o abundante anacronismo. A citação vale para que possamos dizer o que sozinhos não conseguiríamos nomear. Convocamos mestres, apelamos ao passado, ao outro, pedimos que nos ensinem, que nos ofereçam algum apoio e suporte, que alumiem o que não alcançamos deslumbrar. A citação possibilita a abertura ao inesperado, ao heterogéneo, a uma verdade outra para além da contingência existencial. A sombra, a obscuridade, a meia-luz, é a própria estrutura da realidade, a condição primeira da existência. E por isso é necessária a solidariedade. Com o passado, com o futuro, com o mundo, com o outro. A abertura como desinstalação das pífias certezas que nos tolhem – no tempo em que a arte tende a tudo instalar. A interpelação e a incerteza como princípio da construção – no tempo em que o pensamento tende a tudo desconstruir. Mas remissão permanente ao outro e a solicitação incessante do passado podem significar o fechamento do olhar. O encerramento do homem sobre si mesmo. Se a incerteza pode ser princípio e a dúvida caminho, a tibieza e a insegurança não serão mais que manifestações da trajectória aleatória e eventual com que hoje colidimos uns com os outros, com que desprezamos o passado, com que chocamos com o futuro. Manifestação do medo e do carácter vazio e desprovido de sentido – sentido que a contingência não pode assegurar – de todas as certezas (desfeitas) a que o homem (moderno) se abandonou. Abertura também à transcendência: abolindo a transcendência abole-se uma possibilidade maior de abertura. Remetemo-nos à solidão, ao orgulho do mandar, à vontade de poder. A um pouco menos de claridade e a mais de treva. |
Trincamos tudo: o pão que nos pertence o pão alheio e o mais que os nossos dentes encontrem à disposição
Quem nos dirá a nós que lá no mar as ondas não venham ainda a precisar de serem vistas para continuar a nascer e a rebentar?
sem-abrigo
| [Manhattan, Nova Iorque, 29.10.2012] |
| Continuamos tão despreparados para enfrentar o terror que nos assalta. E pouca diferença fazem os dispositivos tecnológicos de que dispomos e em que nos barricamos. Às fontes do sofrimento - o declínio do corpo; a ira dos elementos; a dor causada pelos outros – de nenhuma delas nos abriga a arquitectura. |
É também peculiar o sentimento da duração em face de certas coisas pequenas, quanto mais simples mais impressionantes
zona de conforto
[Stalker, Andrei Tarkovsky, 1979] É verdade que cada Estado tem o direito de regular os fluxos migratórios e implementar políticas ditadas pelas exigências gerais do bem comum, mas assegurando sempre o respeito pela dignidade de cada pess oa. O direito que a pessoa tem de emigrar – como recorda o número 65 da Constituição conciliar Gaudium et spes – conta-se entre os direitos humanos fundamentais, com faculdade de cada um se estabelecer onde crê mais oportuno para uma melhor realização das suas capacidades e aspirações e dos seus projetos. No contexto sociopolítico atual, porém, ainda antes do direito a emigrar há que reafirmar o direito a não emigrar, isto é, a ter condições para permanecer na própria terra, podendo repetir, com o Beato João Paulo II, que «o direito primeiro do homem é viver na própria pátria.» Bento XVI, Migrações: peregrinação de fé e de esperança Em todos os domínios e sob todos os aspectos, é preciso desconfiar do emprego irreflectido, e mais ainda, do emprego deliberado das palavras em voga: elas contribuem frequentemente para criar as realidades que pretendem designar ou descrever. Marc Augé, Para uma Antropologia da Mobilidade |
A realidade é o que é: uma besta. É-o porque nos desfaz todo e qualquer sistema filosófico ou de pensamento, por mais sólido, fechado, monolítico que seja, sobre o qual se erguem todas as nossas mais profundas crenças. E as ideologias políticas do ocidente. E fá-lo com alguma violência.
Só um optimista avoado, para quem tudo é bom excepto o pessimista, ou um pessimista cavernícola, para quem tudo é mau excepto ele mesmo, podem aderir sem censura à realidade ou repulsá-la como se dela não nos chegassem também o que parecem milagres da natureza humana. Se a realidade é palco e fonte de violência, dor, sofrimento, também o é de beleza, alegria e consolo.
Uma virtude da crise – krisis – é colocar em questão o(s) olhar(es) sobre o real. Possibilidade para desinstalarmos e nos desinstalarmo-nos as certezas que até aqui nos trouxeram. E antes do deflagrar da crise todos nós, ocidente, éramos certeza. E optimismo. A História tinha terminado. O amanhã cantaria liberdade para todos.
Liberdade condicionada pela televisão. O preço a pagar seria esse: enxurradas de informação sempre envolvida por imagens sedutoras e reprodutíveis ao infinito. Imagens que evocavam uma realidade real mas não passavam de fabricações, efabulações, manipulações, simulações (Baudrillard) do real. Imagens desprovidas da espessura das coisas que, no concreto, acontecem e sucedem. Imagens de imagens que abriam o desejo de mais imagens. A sedução é sempre um jogo terrível. Esquivo. Equívoco. Aisthesis, estética, anastesia. Adormecemos debaixo da nuvem da estetização generalizada da vida. Uma estetização kitsch, como todo o kitsch, desprovida de profundidade ética, onde a beleza significa a mera aparência das coisas, a superfície das coisas. E ainda que seja na pele, pela pele, que primeiro tocamos o mundo e ele nos toca, pele sem músculo é só um tecido de células mortas. Agora não há cirurgia nem glossy que amacie a pele morta. Nem apague as sombras da luz glamourosa das imagens de outrora. Recordemos as metáforas dos discursos, teorias e crítica, arquitectónicas que bebiam dos manuais de medicina cirúrgica.
Multiculturalismos, transculturalismos, velocidade, comunicação global, abolição de fronteiras, fim de limites. A algaravia pós-moderna, académica e mediática, os sacerdotes da razão determinista e do insano optimismo antropológico ruíram. A realidade não deixou de ser realidade e o homem não deixou de ser homem. E surge aqui a possibilidade de contrabalanço proveniente das sombras da razão. Ou por outra, de matrizes estéticas e ideológicas fundadas na matéria irracional do homem. E, por consequência, o encerrar do homem e de sociedades em exercícios de recuperação de mitos e elaborações sobre um momento original, primeiro e limpo (fantasiosos e imaginários e perigosos), tanto de comunidades como de indivíduos. O cosmopolita só o poderá ser a partir de uma raiz. O cosmopolitismo só o poderá ser como abertura ao outro real. Ao outro e a toda a toda a sua (humana, demasiado humana) fragilidade, bem e mal. Em toda a sua realidade, sem a fantasia multicultural da bondade intrínseca no outro.
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O problema que daqui decorre para uma pensamento espacial e arquitectónico é, exactamente, o do permanente desenho, redesenho, dos limites e das fronteiras. As fronteiras não se fazem e desfazem: redesenham-se. Eventualmente, o único problema intrínseca e verdadeiramente arquitectónico. Uma parede é uma parede é uma parede. Como e onde a abrir? Por onde deixar entrar o ar a luz e o vento? E o mundo.
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Quando a criança era criança, Arremessou um bastão como se fosse uma lança contra uma árvore, E ela ainda está lá, chacoalhando, até hoje.
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