psicoTRÓPICOS*
[Estética da ginga - A arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica, Paola Berenstein Jacques, 2007]
Pode até ser romântica, sentimental, esta proposta de pensar a favela, a arquitectura da favela e a sua relação com a cidade de baixo, a partir dos movimentos do samba e da dança, no movimento contorcionado que ocorre quando se percorre a favela. A aproximação à obra de Hélio Oiticica como construção de uma teoria arquitectónica, a partir dos acontecimentos [cf. Deleuze/Guatari e o acontecimento como o que faz actuar o pensamento] do abrigo fragmento, favela labirinto, cidade rizoma, e como construção de um pensamento e de um conceito da cidade que escapa aos códigos binários do que é ou não é arquitectura, do que é ou não é cidade, sugere, antes de tudo a riqueza do mundo que foge do cânone erudito das arquitecturas e das formas cultas com que se pensa a arquitectura e as cidades. (Ou o cânone da especulação.) A ordem é pensar e procurar pensável o imprevisto, o rasgo da necessidade e da urgência, a recolha dos materiais incoerentes, a precariedade, a heterotopia do arquitecto, o objecto anti-projecto. |
[Arquitetura kitsch: suburbana e rural, Dinah Guimaraens, Lauro Cavalcanti, 1979] Ocorreu-me o trabalho de Manuel Graça Dias à volta da casa do emigrante, o encontro com Arquitetura Kitsh. Há pelo menos a coincidência de trazer ao domínio da arte e da arquitectura o papel que a cultura de massas joga na construção do real. Que, sabemos, é mais vasto que a teoria e o desenho do arquitecto: o desejo. |
*Rio de Janeiro, 19.10.2010
Câmara Clara, RTP2, 30.09.2012
[Tropicália, Caetano Veloso, 1967]
desconstrução, desconstrução, desconstrução
[Walt Disney Concert Hall, Frank O. Gehry, Los Angeles, 2003]
Descubra as diferenças.
a alegoria do património*
[Loja Valentim de Carvalho, Tomás Taveira, Sá Nogueira, Herberto Helder, Cascais, 1968]
*Françoise Choay
estrada nacional
[...]
é um país, não há que errar, talhado
para a aventura de queimar
papéis e gente,
tão desigual como os outros.
os primeiros autocarros passam,
a manhã levanta devagar a cabeça,
os pássaros, não esqueçamos os pássaros,
passam, de viagem.
[Segundas Moradas, 5, António Franco Alexandre]
a revolução foi televisionada
![]() [Complexo comercial e residencial das Amoreiras, Tomás Taveira, 1985] |
Ao passar dos anos nem por isso a intelligentsia - que podemos designar formalmente como a Ordem dos Arquitectos – deixa de persistir no esquecimento de uma obra que, em parte e nos seus momentos mais relevantes, (Chelas, Olaias, Valentim de Carvalho Cascais, etc. etc.), é essencial para a compreensão da história recente da arquitectura portuguesa. Arrogância?, elitismo? – essoutra forma de provincianismo alimentado a croquete e envolto em roupas pretas sobre paredes brancas e máximo design minimal – pedantismo?, o que seja, parece que a História e a realidade, essa besta, não têm assento à mesa dos comensais bon chic bon genre que a escrevem, à história, nas dependências dos seus patéticos interesses. Passaram trinta anos. Já digerimos Tomás Taveira e as Amoreiras? Evidente. Até porque se o capitalismo tornou o modernismo o seu estilo soit-disant, ainda que ideologicamente antagónicos, muito mais fácil seria a apropriação de um sistema de signos que faz da comunicação a sua gramática essencial. A ideal para a velocidade do tardo-capitalismo. Que a História, em Portugal, não seja, mais uma vez, escrita pelos ‘vencedores’. |
i am a monument
![]() [Learning From Las Vegas, Robert Venturi,Steven Izenou), Denise Scott Brown, 1977] City’s mayor announces £490m plans backed by Qatari investment A theme park recreating the wonders of ancient Rome could be built a few miles outside the city according to mayor Gianna Alemanno. The announcement follows a visit to the city by the emir of Qatar Sheikh Hamad bin Khalifa al-Thani to discuss investment opportunities. Alemanno told the Italian media: “We showed the emir several plans. The one that most caught his attention is the idea of a theme park on ancient Rome.” Up to £490 million could be spent on the 300ha project, which it is hoped could attract up to 8 million visitors a year. The park would allow tourists to watch battle re-enactments, spectate at a replica Colosseum and visit the thermal baths. “We intend to find a location for it in the next few weeks,” said Alemmano. bdonline.co.uk |
Hoje encontramos no mercado numerosos produtos dos quais foram extirpadas as suas propriedades malignas: café sem cafeína, natas sem matéria gorda, cerveja sem álcool… E a lista continua: porque não uma cena de sexo virtual, uma sexualidade sem sexo, uma guerra sem guerra, como Colin Powell propôs na sua doutrina de guerra sem vítimas (do nosso lado, como é óbvio…), uma política sem política, tal como ela é redefinida actualmente, uma vez reduzida a uma arte da administração elaborada por especialistas, ou ainda – tal como a concebe hoje o multiculturalismo liberal e tolerante - a experiência do Outro, mas privado da sua Alteridade (esse Outro idealizado que dança de modo fascinante e propõe uma abordagem holista e vagamente ecológica da realidade, enquanto, nos factos, fenómenos como o das mulheres maltratadas permanecem invisíveis…)? A realidade virtual não faz mais do que generalizar este processo que consiste em oferecer um produto privado da sua substância, privado do seu núcleo real, de resistência material – tal como o café descafeinado com sabor e aroma de café mas que não é verdadeiro café, a realidade virtual é vivida como uma realidade sem o ser verdadeiramente. [Bem-Vindo ao Deserto do Real, Slavoj Zizek, 2002] ![]() [Robert Venturi, 1977] |
Pontes sobre o Tejo
![]() [Lisboa em vésperas do Terceiro Milénio, Luís Pavão, Assírio & Alvim, 2002] Mas para que este tempo em declínio não nos escape, Como aos que se julgam sábios, já vou ao teu encontro, Até aos limites dos campos, onde as águas azuis Circundam a minha amada terra natal e a ilha do rio. Friedrich Holderlin, Elegias |
Todas as cidades crescem de modo diverso e singular. Os acidentes e acasos da história e a vontade humana sobrepõem-se, nos tempos e nos lugares, e são a matéria ligante da edificação das cidades.
A explosão demográfica urbana no norte da Europa, no séc. XIX, não foi acompanhada pela contigência histórica portuguesa. Ainda hoje em Lisboa são visíveis os sinais, a um tempo, a necessidade de coincidir o passo histórico com as demais capitais europeias e dessa mesma distância que, de tempos a tempos, o poder político se propõe suprir. Assim, Lisboa teve um crescimento diverso das grandes capitais europeias. A revolução industrial, por tardia e lenta em Portugal, não teve as consequências dramáticas como na Londres ou Paris de oitocentos. Daí, e ao contrário de Paris, não exiba as marcas monumentais do progresso em equipamentos urbanos nem em grandes boulevards, ou, distinta de Londres, no tecido urbano surjam as grandes extensões de construções de carácter social e de rendimento destinadas a atender à rápida transformação social e cultural por que atravessava. O séc. XX do urbanismo lisboeta testemunha com rigor estes movimentos de desfasamento e aproximação aos modelos europeus de desenvolvimento urbano, quase sempre suportadas pelo esforço público e estatal, o único, aliás, capaz de produzir importantes operações de transformação no tecido urbano. A paisagem urbana lisboeta é a evidência dessas cesuras históricas que pretendiam orientar e planear o crescimento da cidade:das Avenidadas Novas de Ressano Garcia, no virar do século, ao plano de Alvalade de Duarte Pacheco; do Restelo das habitações para a burguesia adjacentes à Exposição do Mundo Português de 1940, sob autoridade do mesmo Duarte Pacheco – e a florestação de Monsanto, da mesma época – aos planos de Olivais Norte e Sul em tempos de incertezas e rápidas transformações sociais e políticas. Ainda que pareçam manifestamente exageradas as notícias da obsolescência e morte da cidade tradicional, assente num sistema de relações de ruas, praças e quarteirões, de espaços abertos e fechados, públicos e privados, e da escala da necessidade do corpo humano, hoje, numa propalada e, de certa forma equívoca, condição urbana global, a cidade genérica, os instrumentos tradicionais do planeamento – e podemos já considerar também tradicionais as próprias categorias urbanas de Le Corbusier: habitação, trabalho, lazer, circulação – são necessariamente motivo de reflexão por parte dos intervenientes na construção das cidades. Para evitar quer a evidente ditadura do mercado, quer as múltiplas e contraditórias opções individualistas, que possam aproveitar as brechas no edifício do bem comum da polis, importa, com abrangência e apoio em múltiplos saberes, pensar a condição urbana como uma das circunstâncias da contemporaneidade. Por esta razão, importa revisitar Lisboa em vésperas do Terceiro Milénio (Assírio & Alvim, 2002) do fotógrafo Luís Pavão. O último grande momento da planificação da cidade de Lisboa remonta à preparação da Expo98 em que se pretendeu, e com algum sucesso, recuperar e juntar à cidade, um território ocupado por estruturas industriais desactivadas ou desfasadas quer do tempo, quer do lugar. A época era de alguma euforia económica e social sob uma atmosfera de optimismo irrestrito no futuro, emanado na percepção da, finalmente, integração do país e da sociedade portuguesa no concerto das nações mais desenvolvidas da Europa. Não exclusivamente focado nesse bocado da cidade de Lisboa, a colecção de fotografias de Luís Pavão evoca uma Lisboa modernizada segundo o compasso do desenvolvimento e progresso europeus. Uma Lisboa dotada de equipamentos e estruturas sociais, urbanas e culturais – escolas, universidades, novas redes viárias, parques e jardins, conjuntos habitacionais renovados - numa cidade que se afirma decididamente cosmopolita e aberta sem as feridas necessariamente abertas num processo de veloz transição para uma sociedade pós-industrial. Não assumindo uma expressão crítica mas nem por isso meramente ilustrativa, importa neste conjunto de fotografias a visão da cidade onde se acumulam significados e paisagens numa época que, à distância de pouco mais de dez anos, nos parece já remota ou mesmo antagónica à experiência do contexto que atravessamos. Mas importa mais, agora neste tempo difamado pelo medo e pela angústia da(s) crise(s), convocar o passado e a História, tanto pessoais como colectivos, reactivá-los no interior da construção de uma memória, não como refúgio nostálgico em tempos turbulentos, mas que nos permita uma experiência das cidades e dos lugares despojadas quer do optimismo artificioso com que muitas vezes a sociedade de consumo nos conduz, quer do pessimismo que deturpa qualquer possibilidade de um viver completo, individual e comunitário, do presente e do futuro. Evocando G.K. Chesterton, «o optimista achava que todas as coisas eram boas, excepto o pessimista, e que o pessimista achava que tudo era mau, excepto ele próprio», «a única maneira de sair disto parece amar» incondicionalmente o real, os lugares e as cidades para que possamos viver, transformar e construir as cidades e o real. ![]() |
Publicado no sítio do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura. Com devido agradecimento ao David e S. E a R, pela colaboração.. |
o deserto do real
[Slavoj Žižek, 10.06.2010]
O preço da imperfeição é a margem da erótica em arquitectura. Pode ser. E, na economia da produção, desejar, alcançar a imperfeição, o rasto e o traço da acção humana é, por paradoxo, mais honeroso que pretender uma artificiosa - minimalista, kitsch - perfeição. Verdade. Os tempos são da dissimulação, quando não supressão, do humano: as casas, ‘caixas’, ‘pele’, ‘corpo’, a metáfora carnal e animal da arquitectura, a ‘house within a house’, a contradição e recuo do espaço público inundado pela domesticidade e banalização da vida privada e quotidiana tornada ‘acontecimento’ espectacularizável, matéria da ‘desterritorialização’, a mercantilização de tudo, do corpo, da alma, da arquitectura, na engenharia da globalização e da comunicação. São os tempos da ‘política da climatização’, da padronização e uniformização (e erradicação) da(s) cultura(s), a sanitarização da vida, como via do ‘alargamento dos mercados’. Com cooperação activa da arquitectura. P.S. O terceiro espaço, Homi Bhabba: Poderá ser uma questão de visibilidade. Ou uma questão de espaço. Ou é tudo isto uma questão cultural. Mas uma espécie de pânico invade esta Europa, adormecida pelos anos da prosperidade pós-guerra e que agora acorda, do sonho da paz perpétua para um pesadelo em que se vê incapaz de lidar com a diferença que foi acolhendo. Ou poderá ser a ilusão do mundo binário. Da distinção radical do nós e do outro. Da incapacidade do relativismo em assimilar diversos contextos ao negar a necessidade de conflito, ou dos limites do universalismo para ler o mundo a partir de outros contextos. De certa forma, falhámos porque fugimos ao conflito. Esquecemo-nos detraduzir, como requer W. Benjamin nas Illuminations. A tradução, que convoca a representação e a reprodução, dado que toda a cultura é actividade significante e simbólica, logo, ligando-se, de alguma maneira, todas as culturas umas às outras. Uma forma de imitação algo equívoca, mas operativa na fabricação de um outro modo cultural. A origem é sempre aberta a tradução, que é sempre incapaz de albergar a essência do original. Mas isto não é uma perda: é a origem de um outro novo. De hibridismo, fala-nos Homi Bhabba. Da hipótese de um terceiro espaço. Não de um modo de reconhecimento de duas origens díspares, mas de um território onde o diferente poderá emergir. E o diferente é diferente do diverso – e é o entendimento desta diferença a fissura do nosso liberalismo dogmaticamente relativista. A identificação - como analogia psicanalítica ao processo de identificação com o outro sujeito – é ela própria ambivalente, justamente pela intervenção desse outro. É aqui que se reconhece na proposta do hibridismo o potencial gerador do novo, do diferente, do irreconhecível, de um novo modo de representação. |
delirious New York
[Manhatta, Paul Strand, 1921]
| Si analizamos el desarrollo del cine y el vídeo inmediatamente vemos lo profundamente diferentes que son: el cine ha evolucionado básicamente de la fotografía, es esencialmente una sucesión de fotografías, mientras que el vídeo procede de la tecnología del audio; una cámara de vídeo está mucho más cerca de un micrófono abierto que de una cámara de cine. Bill Viola This is the city and I am one of the citizens, Whatever interests the rest interests me, politics, wars, markets, newspapers, schools, The mayor and councils, banks, tariffs, steamships, factories, stocks, stores, real estate and personal estate. Song of Myself, Walt Whitman |
flatland
O processo de abstracção do real segue cada vez mais agudo e silencioso.
A indústria financeira (o mais alto grau de abstração do real), comanda a marcha, com benepácito e colaboração da política e da arquitectura, que desesperadamente necessitam da ‘abertura dos mercados’ – pela manutenção de uma ideia de progresso que tranquilize eleitorados dos 'mercados tradicionais' e a manutenção do statu quo, a primeira; por nada mais haver a construir nos lugares destes eleitorados, para além de umas vagas e demagógicas ideias e casas ‘sustentáveis’ e ‘ecológicas’que prolongam a fantasia de uma ideia de progresso, a última. Sob o diáfano manto da democracia expropria-se o espaço privado e de subsistência através de mecanismos que na aparência o torna público e democrático mas que, objectivo último, o concentra na mão do império do dinheiro. Que monopoliza o espaço (público e privado) e a vida. |
![]() Lagos, Nigéria Lagos, capitale économique du Nigeria. Ici, le pétrole est roi, les dollars sont brassés par millions. Le pays est le 11e exportateur mondial d’or noir. Shell, Exxon, Chevron, Total, Agip se pressent en contrebas, dans le delta du Niger, où il affleure la terre. Les dégâts de cette surexploitation sont multiples : détournement de pétrole, corruption des fonctionnaires locaux, pollution des sols, rébellion des populations dans des mouvements armés. À Lagos, il est une catégorie de victimes dont on ne parle jamais : les expulsés, les délogés, les sans-toits. Ceux qui ont été poussés dehors par l’explosion du prix des terrains. Poussés dehors, en somme, par les expatriés, les nouveaux riches et leur niveau de vie. Les délogés de Lagos, 6Mois ![]() Vila Autódromo, Rio de Janeiro, Brasil It was supposed to be a triumphant moment for Brazil. Gearing up for the 2016 Olympic Games to be held here, officials celebrated plans for a futuristic “Olympic Park,” replete with a waterside park and athlete villages, promoting it as “a new piece of the city.” There was just one problem: the 4,000 people who already live in that part of Rio de Janeiro, in a decades-old squatter settlement that the city wants to tear down. Refusing to go quietly and taking their fight to the courts and the streets, they have been a thorn in the side of the government for months. “The authorities think progress is demolishing our community just so they can host the Olympics for a few weeks,” said Cenira dos Santos, 44, who owns a home in the settlement, which is known as Vila Autódromo. “But we’ve shocked them by resisting.” Slum Dwellers Are Defying Brazil’s Grand Design for Olympics, New York Times |
preferia não o fazer
![]() A proposta do André Barata pode muito bem ser tida com proveito para pensar o que foi, é, a prática dos arquitectos sobre o território, as cidades, e a paisagem. E a própria acção dos orgãos e associações corporativos que, parecem, são dissociados da realidade dessa prática. Ou, no mínimo, silenciados. É evidente a relevância da propriedade fundiária e imobiliária para a estruturação da economia geral do país e da paisagem em que essa economia se exerce, no contexto de uma economia de mercado, num sector, paradoxalmente, hiper-legislado mas absolutamente desregulado - antes, regulado pelos interesses fácticos dos construtores, nas teias das leis do financiamento partidário e das finanças locais, que abrem brechas ao convívio pouco saudável, funesto mesmo, entre agentes económicos privados com (legítimos) interesses de lucro e agentes da causa pública com (ilegítima) ignorância, desleixo e incúria, sobre o bem comum. E, em movimento contrário, deveria ser ela própria, a paisagem, centro de um pensamento de uma política económica que ultrapassasse os lúdicos e provincianíssimos – e pouco democráticos, diga-se – PIN’s do ex-ministo Manuel Pinho, ou a megalomania rodo-ferroviária que acomete todo o nosso impulso desenvolvimentista e estraçalha e segrega ainda mais algumas regiões deste «país profundamente desigual». Aparte a lógica cultural fundada na observação de que a galinha do município (ou região) do vizinho é sempre mais fogosa – e modernaça – que a minha, que lobrigou a políticas territoriais e ambientais, com pesadíssimos encargos sobre o quotidiano dos cidadãos, e que hoje se confirmam catastróficas. O resultado destas políticas, ou de ausência delas - que pouco ou nada se debatem em público, soterradas pela avalanche da macroeconomia do ‘ajustamento’- o que tem sido, enfim, a produção do espaço, se assim se possa dizer, adquire contornos de paradoxo entre a visibilidade crua e cruel das suas consequências e a invisibilidade ruidosamente silenciosa das causas. Ou, no mínimo, estas não são tidas em conta no debate que não se está a fazer – salvo parcas luminosas e singulares excepções nas quais o próprio André é interveniente – sobre o que queremos nós de nós e dos lugares que construimos e habitamos. Aquilo que no pensamento do André é fixado como o princípio «Não uso e não pago», traduzo-o para a produção arquitectónica, urbanística e territorial, como princípio Bartleby. Talvez a única posição arquitectónica e política consequentes a tomar hoje pelos arquitectos seja a do não-fazer. Em bom rigor, está tudo construído (feito): país é dotado de parque habitacional suficiente para todos os seus habitantes e ainda sobrarão uns quantos condomínios à beira-mar plantados para o canalizador de Brighton trazer a prole a sazonais retemperadores banhos; as comunidades locais estão essencialmente providas de equipamentos socias e culturais – não é aqui lugar para percorrer o ‘alegado’ cadastro criminal da Parque Escolar e perversão daquilo que seria uma boa ideia, a despeito de socialista; existem ‘acessibilidades’ e ‘vias’ para o progresso marchar do Minho à Madeira. Carece-se sim de vigor na imposição de políticas justas relativamente à habitação – talvez a nova lei das rendas -, de recuperação dos centros das cidades – sem o fausto e o glamour socrático dos programas Polis e em articulação com a política habitacional – impedindo a gentrificação e a consequente segregação das classes mais modestas do centro das cidades e, no pano de fundo de tudo, a percepção do território e da paisagem como organismo sensível a todas estas incidências e práticas, o que só se concretizará pela via holística do planeamento regional e territorial – começar pela implantação de redes regionais, sector a sector, da educação à saúde, da justiça às indústrias, seria um bom princípio dessa política económica e territorial. Nesta história recente, a acção da prática corrente da arquitectura balançou, grosso modo e com excepções que são sempre lugares de beleza e respiração, entre a ensandecida euforia dos anos noventa e a desistência resignada (ou emigrada) hediorna. Pelo meio, os ‘fundos’ europeus, os estádios de futebol mortos, as auto-estradas froteiras e maneiras de o interior mais depressa se esvaziar para o litoral, e muitos equívocos, para não dizer mais, que polarizaram e incentivaram, quer disciplinarmente, que culturalmente, esta acção. E qualquer destas atitudes decorre do olhar acrítico sobre a realidade e a cultura que serve essa realidade. Seria precisamente aqui que os arquitectos (et pour cause, engenheiros e todos quantos trabalham e pensam o território), deveriam ter tido algumas palavras, mesmo que não ouvidas. E se não as ouvimos é porque elas jamais foram pronunciadas ou foram-no tibiamente e eivadas de sentido corporativo. Uma espécie de «abstenção violenta» avant la lettre. Falamos de omissão, portanto. Mas, regressando ao princípio, ao princípio Bartleby (Não uso, não pago), esta omissão a ser praticada pelos arquitectos seria assertiva, afirmativa e, por uma vez, política, inversa da mesquinha, corporativa e egoísta (perdoai o pleonasmo), acção acrítica do passado recente que também cavou parte do buraco onde nos encontramos. Nunca é tarde para nada. Tão pouco para acudir ao território e à paisagem, aos lugares que habitamos. Estes poderão gerar as ‘mais-valias’ que o ministro Santos Pereira ansiosamente persegue e que lhe deixará certamente tempo para um delicioso pastel de Belém que lhe sobre do afã exportador, num lugar mais belo. Ou o legado do regime será uma rede auto-estradas secas ao sol e betão apodrecido pelo abandono. |
inter homines esse

[Cais da Rocha do Conde de Óbidos, Lisboa]
geometria descritiva
![]() [ISCTE, Raúl Hestnes Ferreira, 2000] |
[...]
Assim como o espaço rodeado por quatro paredes tem um valor específico, provocado não tanto pelo facto de ser espaço mas pelo de estar rodeado por paredes. [...] - dizia-lhe ela de repente -, você já pensou que um ponto, um único ponto sem dimensões, é o máximo de solidão? Um ponto não pode contar nem consigo mesmo, foi-não-foi está fora de si. [Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector, 1944] |
paisagens in extremis#2

[Anachrony, Nermine Hammam, 2010]
A paisagem, coreografada, fotografada, como maneira de explicação da realidade do exílio. O problema que se põe não é o da representação – ainda que a paisagem seja a evidência das representações – mas mais o do resgate do eu pelo exacto lugar onde somos
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[Koyaanisqatsi: Life Out of Balance, Godfrey Reggio, 1982]
E é esta a exacta questão que se lenvanta quando reconhecemos a capacidade avassaladora da destruição total de todas as paisagens que nos são possíveis. Esta competência letal assombra – e maravilha – pelos múltiplos territórios a que todos os dias vamos chegando. Se a natureza é uma invenção da cultura, intervir no território é, obviamente, o empreendimento de reflectir a possibilidade de destruição, manutenção, transformação das representações – e memória(s) – e de nós mesmos. Como comunidade e como indivíduos.
Chamar-se pós-História à capacidade de aniquilamento da História é ironia académica. Resta-nos o consolo do Universo incomensuravelmente mais vasto e minucioso. E esta alegria não é ironia. |
[Roden Crater, James Turrell]
Escavar montanhas, reabrir crateras: faz-se tanto por um raio de luz.
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paisagens in extremis
[Fata Morgana, Werner Herzog, 1969]
Da Base Aérea de Wendover, centro de treino dos homens que largaram a bomba atómica sobre Hiroshima, restam hoje ruínas. E memórias.
Lugar central da história do séc. XX, no meio do deserto do Utah, restam os destroços da ciência e da geopolítica. Devastação que ninguém esquece, abandonada do meio de nada, que cobre, ainda, todo a históia do planeta e a toda a forma de vida conhecida na Terra. Lugar esquecido impossível de esquecer, por entre aço torcido, terra estéril e loucura. |
![]() [Brasília] |
A loucura das utopias, tanto quanto o desprezo pelo homem, é o desprezo pela sua contigência. O ódio ao real, projectado noutros futuros, arrancados com violência às possibilidades do hoje. A utopia brasiliense soçobra agora às forças que a própria utopia pôs em andamento: mercados imobiliários vorazes que sitiam a política; o consumo como categoria única de construção individual e social, a exclusão e o ressentimento. E a óbvia impossibilidade de se erguer uma cidade, uma comunidade e uma sociedade a partir destes valores. No coração do Brasil, a democracia equivocamente transparente das superfícies de vidro de Niemeyer sob o sol tropical, a impossibilidade de vizinhança nas superquadras de Lúcio Costa sobre a terra deserta, a cidade sitiada por si própria. As ideologias, todas, não são mais que a maneira de querer transformar o real pela lei da força e pelo terror – e a realidade portuguesa do presente confirma-o à saciedade -; dispositivos intelectuais do interesse de uns poucos, sem adesão à realidade, sem percepção da integralidade dos lugares e dos homens e da sua acção neles – que justamente só através dessa acção devêm lugares. A política exilou-se no Palácio do Planalto e exilou a cidade e os cidadãos. É impossível a liberdade nesta ruína de cidade nova. O planeta favela não nos afecta a uns poucos, é o coração do que estamos hoje a construir. |
E aos lugares é estranha a avalanche da turistificação do olhar, outra forma de esteticização da realidade a partir das categorias do consumo. A crítica de Benjamin à reprodutibilidade da obra de arte na era da técnica enuncia claramente a capacidade da fotofgrafia (por exemplo) tornar a miséria humana objecto de consumo. Também a arquitectura. Transformar uma laje (casa na favela) em pousada é levar por diante, pela arquitectura, a espectacularização da miséria, tornando-a objecto de consumo – ainda que distanciado da experiência real do quotidiano – sem qualquer relação com a vida vivida das favelas. O baile funk por cima da laje para patricinha da Zona Sul do Rio experimentar a dureza do morro ao sábado à noite ou para gringo sedento da carne das neguinhas é apenas uma forma perversa da democracia e um muito violento uso do poder (de compra). Passivos, somos todos espectadores das nossas próprias vidas. Alguém lucrará. |
Steve Hearst, bisneto do magnata William Randolph Hearst, proprietário dessoutra ruína nova que inspirou a Xanadu de Orson Welles, lucrará com certeza com a abertura desse delírio monstruoso ao público. E, como no Rio de Janeiro, é a mediatização e a espectacularização das feridas de narciso abertas em cada um pela volúpia das imagens que espoleta o interesse e que renderá fartos proventos. |
Loucura, delírio e violência, semântica da mesma utopia, é um bom negócio. Mas mortal.
imitação da vida
[Sangue do meu sangue, João Canijo, 2011]
Por hipótese, se o genérico final de Sangue do meu sangue fosse o da abertura do filme – embora parecesse mais adequado à possibilidade urbana lisboeta que o filme representa o uso da música de Toni Carreira do que um sucedâneo português do gangsta rap -, talvez se cingissem, por contaminação, as múltiplas leituras que o filme oferece a uma ligeira sociologia de pacotilha. A que nos diz, por métodos irrepreensivelmente pós-estruturalistas, que da má cidade procedem, inexoravelmente, maus cidadãos e infames seres humanos. Porque não é, apesar de tudo, o problema da cidade que está aqui em causa, mas mais o da possibilidade de em qualquer que seja a condição urbana, habitacional, ou familiar, a vida prosseguir com toda a dignidade que cada cidadão tem direito (e dever). Telmo, o traficante cobarde, por acaso ocupa uma das habitações socias do Bairro Padre Cruz – não por acaso, cenário do mais monstruoso momento da narrativa, a fazer lembrar o mais cruel dos Pasolinis, mais que Ettore Scola -, enquanto que na casa da família Fialho, precária e construida pela possibilidade, existem as sequências de maior ternura e amor. Nada disto refuta o que acima se cita sobre o determinismo sociológico, mas o inverso é também verdade. E se os escassos minutos do genérico final apavoram pela catástrofe urbana dos últimos 37 anos, todos os anteriores 135’ nos dizem ser isso o que menos importa. Há, então, muitas Lisboas. E a confirmação do truísmo de que existem tantas Lisboas como lisboetas: a extemporânea incursão de Márcia, que mora e trabalha no Bairro Padre Cruz, ao café trendy do centro da cidade – onde se apresentam os “estilos de vida alternativos”, “plurais”, numa algo demagógica sequência de duas mulheres a beijarem-se –; a da moradia de Beto, vindo do Bairro e hoje médico “com posição” – exemplo de mobilidade social, e de hipocrisia(?) -, curiosamente quase sempre filmada pela janela horizontal corbusiana, aqui revista à luz do asséptico cânone Wallpaper; o labiríntico bairro africano, de luz e sombra, de interdito, do rígidos códigos de acesso, de esconderijos. Mas é sempre a fragilidade do que nos une uns ao outros o que aqui está em jogo. A representação cinematográfica do espaço é prodigiosa. Se a maior parte da acção decorre no interior da casa onde Márcia habita com os filhos e a irmã, onde a câmara não tem espaço de recuo, onde todos os planos são apertados, onde o som da gritaria da velha da casa ao lado se sobrepõe à televisão ligada, alto volume, na novela ou na bola, onde estas se sobrepõem às conversas entre os membros da família, onde as conversas se cruzam em absurda cacofonia que impede a intimidade e o imprenscindível espaço ao segredo e à respiração de cada um, (e a bonança sonora só ocorre quando Toni Carreira canta e ampara suavemente todas as angústias da casa); a casa moderna, generosa nas dimensões, mas que isola e aparta cada um dos seus habitantes; o apartamento providenciado pelos serviços sociais do Estado, obscurecido pelos estores de plástico corridos, sede da remediada rede de tráfico de droga. É, com certeza, um filme moralista. E só o consegue ser porque reconhece dignidade em todas as formas de vida, das possíveis às resignadas, das reflectidas às que vão inconscientes ao sabor dos tempos, das voluntárias e voluntaristas, às criminosas, sem fazer uso dos clichets dos pós-modernos departamentos de ciências socias entre a Av. de Berna e a Cidade Universitária. A defesa intransigente de quem se ama e da família – mas arrisco que o realizador não tenha arriscado esta palavra. Mais que as arquitecturas, o que dentro delas fazemos. Formas possíveis do habitar que são, sempre, as formas possíveis de ser. Ao acaso, imediatamente antes, Life during wartime (2009), de Todd Solondz, sequela de Happiness (1998), num contexto radicalmente diferente do sul da Florida, dos prósperos reformados, da classe média americana em fuga, dos condomínios de palmeiras implantadas e estacionementos assegurados, das donas de casa desesperadas, do ressentimento, da auto-segregação - de que temos também sucedâneos na periferia de Lisboa - debatia exactamente essa possilidade de que nem só de casas e lugares se fazem os homens. Muito pelo contrário. |
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