flatland

O processo de abstracção do real segue cada vez mais agudo e silencioso.
A indústria financeira (o mais alto grau de abstração do real), comanda a marcha, com benepácito e colaboração da política e da arquitectura, que desesperadamente necessitam da ‘abertura dos mercados’ – pela manutenção de uma ideia de progresso que tranquilize eleitorados dos 'mercados tradicionais' e a manutenção do statu quo, a primeira; por nada mais haver a construir nos lugares destes eleitorados, para além de umas vagas e demagógicas ideias e casas ‘sustentáveis’ e ‘ecológicas’que prolongam a fantasia de uma ideia de progresso, a última.
Sob o diáfano manto da democracia expropria-se o espaço privado e de subsistência através de mecanismos que na aparência o torna público e democrático mas que, objectivo último, o concentra na mão do império do dinheiro. Que monopoliza o espaço (público e privado) e a vida.



Lagos, Nigéria



Lagos, capitale économique du Nigeria. Ici, le pétrole est roi, les dollars sont brassés par millions. Le pays est le 11e exportateur mondial d’or noir. Shell, Exxon, Chevron, Total, Agip se pressent en contrebas, dans le delta du Niger, où il affleure la terre. Les dégâts de cette surexploitation sont multiples : détournement de pétrole, corruption des fonctionnaires locaux, pollution des sols, rébellion des populations dans des mouvements armés.

À Lagos, il est une catégorie de victimes dont on ne parle jamais : les expulsés, les délogés, les sans-toits. Ceux qui ont été poussés dehors par l’explosion du prix des terrains. Poussés dehors, en somme, par les expatriés, les nouveaux riches et leur niveau de vie.




Les délogés de Lagos, 6Mois







Vila Autódromo, Rio de Janeiro, Brasil



It was supposed to be a triumphant moment for Brazil.
Gearing up for the 2016 Olympic Games to be held here, officials celebrated plans for a futuristic “Olympic Park,” replete with a waterside park and athlete villages, promoting it as “a new piece of the city.”


There was just one problem: the 4,000 people who already live in that part of Rio de Janeiro, in a decades-old squatter settlement that the city wants to tear down. Refusing to go quietly and taking their fight to the courts and the streets, they have been a thorn in the side of the government for months.


“The authorities think progress is demolishing our community just so they can host the Olympics for a few weeks,” said Cenira dos Santos, 44, who owns a home in the settlement, which is known as Vila Autódromo. “But we’ve shocked them by resisting.”



Slum Dwellers Are Defying Brazil’s Grand Design for Olympics, New York Times

preferia não o fazer





A proposta do André Barata pode muito bem ser tida com proveito para pensar o que foi, é, a prática dos arquitectos sobre o território, as cidades, e a paisagem. E a própria acção dos orgãos e associações corporativos que, parecem, são dissociados da realidade dessa prática. Ou, no mínimo, silenciados.

É evidente a relevância da propriedade fundiária e imobiliária para a estruturação da economia geral do país e da paisagem em que essa economia se exerce, no contexto de uma economia de mercado, num sector, paradoxalmente, hiper-legislado mas absolutamente desregulado - antes, regulado pelos interesses fácticos dos construtores, nas teias das leis do financiamento partidário e das finanças locais, que abrem brechas ao convívio pouco saudável, funesto mesmo, entre agentes económicos privados com (legítimos) interesses de lucro e agentes da causa pública com (ilegítima) ignorância, desleixo e incúria, sobre o bem comum. E, em movimento contrário, deveria ser ela própria, a paisagem, centro de um pensamento de uma política económica que ultrapassasse os lúdicos e provincianíssimos – e pouco democráticos, diga-se – PIN’s do ex-ministo Manuel Pinho, ou a megalomania rodo-ferroviária que acomete todo o nosso impulso desenvolvimentista e estraçalha e segrega ainda mais algumas regiões deste «país profundamente desigual».

Aparte a lógica cultural fundada na observação de que a galinha do município (ou região) do vizinho é sempre mais fogosa – e modernaça – que a minha, que lobrigou a políticas territoriais e ambientais, com pesadíssimos encargos sobre o quotidiano dos cidadãos, e que hoje se confirmam catastróficas. O resultado destas políticas, ou de ausência delas - que pouco ou nada se debatem em público, soterradas pela avalanche da macroeconomia do ‘ajustamento’- o que tem sido, enfim, a produção do espaço, se assim se possa dizer, adquire contornos de paradoxo entre a visibilidade crua e cruel das suas consequências e a invisibilidade ruidosamente silenciosa das causas. Ou, no mínimo, estas não são tidas em conta no debate que não se está a fazer – salvo parcas luminosas e singulares excepções nas quais o próprio André é interveniente – sobre o que queremos nós de nós e dos lugares que construimos e habitamos.
Aquilo que no pensamento do André é fixado como o princípio «Não uso e não pago», traduzo-o para a produção arquitectónica, urbanística e territorial, como princípio Bartleby. Talvez a única posição arquitectónica e política consequentes a tomar hoje pelos arquitectos seja a do não-fazer.
Em bom rigor, está tudo construído (feito): país é dotado de parque habitacional suficiente para todos os seus habitantes e ainda sobrarão uns quantos condomínios à beira-mar plantados para o canalizador de Brighton trazer a prole a sazonais retemperadores banhos; as comunidades locais estão essencialmente providas de equipamentos socias e culturais – não é aqui lugar para percorrer o ‘alegado’ cadastro criminal da Parque Escolar e perversão daquilo que seria uma boa ideia, a despeito de socialista; existem ‘acessibilidades’ e ‘vias’ para o progresso marchar do Minho à Madeira. Carece-se sim de vigor na imposição de políticas justas relativamente à habitação – talvez a nova lei das rendas -, de recuperação dos centros das cidades – sem o fausto e o glamour socrático dos programas Polis e em articulação com a política habitacional – impedindo a gentrificação e a consequente segregação das classes mais modestas do centro das cidades e, no pano de fundo de tudo, a percepção do território e da paisagem como organismo sensível a todas estas incidências e práticas, o que só se concretizará pela via holística do planeamento regional e territorial – começar pela implantação de redes regionais, sector a sector, da educação à saúde, da justiça às indústrias, seria um bom princípio dessa política económica e territorial.
Nesta história recente, a acção da prática corrente da arquitectura balançou, grosso modo e com excepções que são sempre lugares de beleza e respiração, entre a ensandecida euforia dos anos noventa e a desistência resignada (ou emigrada) hediorna. Pelo meio, os ‘fundos’ europeus, os estádios de futebol mortos, as auto-estradas froteiras e maneiras de o interior mais depressa se esvaziar para o litoral, e muitos equívocos, para não dizer mais, que polarizaram e incentivaram, quer disciplinarmente, que culturalmente, esta acção. E qualquer destas atitudes decorre do olhar acrítico sobre a realidade e a cultura que serve essa realidade.
Seria precisamente aqui que os arquitectos (et pour cause, engenheiros e todos quantos trabalham e pensam o território), deveriam ter tido algumas palavras, mesmo que não ouvidas. E se não as ouvimos é porque elas jamais foram pronunciadas ou foram-no tibiamente e eivadas de sentido corporativo. Uma espécie de «abstenção violenta» avant la lettre.
Falamos de omissão, portanto. Mas, regressando ao princípio, ao princípio Bartleby (Não uso, não pago), esta omissão a ser praticada pelos arquitectos seria assertiva, afirmativa e, por uma vez, política, inversa da mesquinha, corporativa e egoísta (perdoai o pleonasmo), acção acrítica do passado recente que também cavou parte do buraco onde nos encontramos.

Nunca é tarde para nada. Tão pouco para acudir ao território e à paisagem, aos lugares que habitamos. Estes poderão gerar as ‘mais-valias’ que o ministro Santos Pereira ansiosamente persegue e que lhe deixará certamente tempo para um delicioso pastel de Belém que lhe sobre do afã exportador, num lugar mais belo. Ou o legado do regime será uma rede auto-estradas secas ao sol e betão apodrecido pelo abandono.


inter homines esse


[Cais da Rocha do Conde de Óbidos, Lisboa]





O espaço público é o que nos junta e mantém separados.










geometria descritiva


[ISCTE, Raúl Hestnes Ferreira, 2000]




[...]
Assim como o espaço rodeado por quatro paredes tem um valor específico, provocado não tanto pelo facto de ser espaço mas pelo de estar rodeado por paredes.


[...]
- dizia-lhe ela de repente -, você já pensou que um ponto, um único ponto sem dimensões, é o máximo de solidão? Um ponto não pode contar nem consigo mesmo, foi-não-foi está fora de si.


[Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector, 1944]

céu de Lisboa/gosto tanto dela assim*


[ISCTE, Raúl Hestnes Ferreira, 2000]


*Apropriado.

paisagens in extremis#2


[Anachrony, Nermine Hammam, 2010]


A paisagem, coreografada, fotografada, como maneira de explicação da realidade do exílio. O problema que se põe não é o da representação – ainda que a paisagem seja a evidência das representações – mas mais o do resgate do eu pelo exacto lugar onde somos






[Koyaanisqatsi: Life Out of Balance, Godfrey Reggio, 1982]


E é esta a exacta questão que se lenvanta quando reconhecemos a capacidade avassaladora da destruição total de todas as paisagens que nos são possíveis. Esta competência letal assombra – e maravilha – pelos múltiplos territórios a que todos os dias vamos chegando.  Se a natureza é uma invenção da cultura, intervir no território é, obviamente, o empreendimento de reflectir a possibilidade de destruição, manutenção, transformação das representações – e memória(s) – e de nós mesmos. Como comunidade e como indivíduos.
Chamar-se pós-História à capacidade de aniquilamento da História é ironia académica. Resta-nos o consolo do Universo incomensuravelmente mais vasto e minucioso. E esta alegria não é ironia.






[Roden Crater, James Turrell]


Escavar montanhas, reabrir crateras: faz-se tanto por um raio de luz.







paisagens in extremis


[Fata Morgana, Werner Herzog, 1969]







Da Base Aérea de Wendover, centro de treino dos homens que largaram a bomba atómica sobre Hiroshima, restam hoje ruínas. E memórias.
Lugar central da história do séc. XX, no meio do deserto do Utah, restam os destroços da ciência e da geopolítica. Devastação que ninguém esquece, abandonada do meio de nada, que cobre, ainda, todo a históia do planeta e a toda a forma de vida conhecida na Terra. Lugar esquecido impossível de esquecer, por entre aço torcido, terra estéril e loucura.





[Brasília]



A loucura das utopias, tanto quanto o desprezo pelo homem, é o desprezo pela sua contigência. O ódio ao real, projectado noutros futuros, arrancados com violência às possibilidades do hoje.
A utopia brasiliense soçobra agora às forças que a própria utopia pôs em andamento: mercados imobiliários vorazes que sitiam a política; o consumo como categoria única de construção individual e social, a exclusão e o ressentimento. E a óbvia impossibilidade de se erguer uma cidade, uma comunidade e uma sociedade a partir destes valores.
No coração do Brasil, a democracia equivocamente transparente das superfícies de vidro de Niemeyer sob o sol tropical, a impossibilidade de vizinhança nas superquadras de Lúcio Costa sobre a terra deserta, a cidade sitiada por si própria.
As ideologias, todas, não são mais que a maneira de querer transformar o real pela lei da força e pelo terror – e a realidade portuguesa do presente confirma-o à saciedade -; dispositivos intelectuais do interesse de uns poucos, sem adesão à realidade, sem percepção da integralidade dos lugares e dos homens e da sua acção neles – que justamente só através dessa acção devêm lugares.
A política exilou-se no Palácio do Planalto e exilou a cidade e os cidadãos. É impossível a liberdade nesta ruína de cidade nova.
O planeta favela não nos afecta a uns poucos, é o coração do que estamos hoje a construir.





[Pousada Favelinha, Rio de Janeiro]



E aos lugares é estranha a avalanche da turistificação do olhar, outra forma de esteticização da realidade a partir das categorias do consumo. A crítica de Benjamin à reprodutibilidade da obra de arte na era da técnica enuncia claramente a capacidade da fotofgrafia (por exemplo) tornar a miséria humana objecto de consumo. Também a arquitectura.
Transformar uma laje (casa na favela) em pousada é levar por diante, pela arquitectura, a espectacularização da miséria, tornando-a objecto de consumo – ainda que distanciado da experiência real do quotidiano – sem qualquer relação com a vida vivida das favelas. O baile funk por cima da laje para patricinha da Zona Sul do Rio experimentar a dureza do morro ao sábado à noite ou para gringo sedento da carne das neguinhas é apenas uma forma perversa da democracia e um muito violento uso do poder (de compra). Passivos, somos todos espectadores das nossas próprias vidas. Alguém lucrará.





[Hearst Castle, Califórnia]



Steve Hearst, bisneto do magnata William Randolph Hearst, proprietário dessoutra ruína nova que inspirou a Xanadu de Orson Welles, lucrará com certeza com a abertura desse delírio monstruoso ao público. E, como no Rio de Janeiro, é a mediatização e a espectacularização das feridas de narciso abertas em cada um pela volúpia das imagens que espoleta o interesse e que renderá fartos proventos.


Loucura, delírio e violência, semântica da mesma utopia, é um bom negócio. Mas mortal.

imitação da vida


[Sangue do meu sangue, João Canijo, 2011]



Por hipótese, se o genérico final de Sangue do meu sangue fosse o da abertura do filme – embora parecesse mais adequado à possibilidade urbana lisboeta que o filme representa o uso da música de Toni Carreira do que um sucedâneo português do gangsta rap -, talvez se cingissem, por contaminação, as múltiplas leituras que o filme oferece a uma ligeira sociologia de pacotilha. A que nos diz, por métodos irrepreensivelmente pós-estruturalistas, que da má cidade procedem, inexoravelmente, maus cidadãos e infames seres humanos. Porque não é, apesar de tudo, o problema da cidade que está aqui em causa, mas mais o da possibilidade de em qualquer que seja a condição urbana, habitacional, ou familiar, a vida prosseguir com toda a dignidade que cada cidadão tem direito (e dever).
Telmo, o traficante cobarde, por acaso ocupa uma das habitações socias do Bairro Padre Cruz – não por acaso, cenário do mais monstruoso momento da narrativa, a fazer lembrar o mais cruel dos Pasolinis, mais que Ettore Scola -, enquanto que na casa da família Fialho, precária e construida pela possibilidade, existem as sequências de maior ternura e amor. Nada disto refuta o que acima se cita sobre o determinismo sociológico, mas o inverso é também verdade. E se os escassos minutos do genérico final apavoram pela catástrofe urbana dos últimos 37 anos, todos os anteriores 135’ nos dizem ser isso o que menos importa.

Há, então, muitas Lisboas. E a confirmação do truísmo de que existem tantas Lisboas como lisboetas: a extemporânea incursão de Márcia, que mora e trabalha no Bairro Padre Cruz, ao café trendy do centro da cidade – onde se apresentam os “estilos de vida alternativos”, “plurais”, numa algo demagógica sequência de duas mulheres a beijarem-se –; a da moradia de Beto, vindo do Bairro e hoje médico “com posição” – exemplo de mobilidade social, e de hipocrisia(?) -, curiosamente quase sempre filmada pela janela horizontal corbusiana, aqui revista à luz do asséptico cânone Wallpaper; o labiríntico bairro africano, de luz e sombra, de interdito, do rígidos códigos de acesso, de esconderijos. Mas é sempre a fragilidade do que nos une uns ao outros o que aqui está em jogo.

A representação cinematográfica do espaço é prodigiosa. Se a maior parte da acção decorre no interior da casa onde Márcia habita com os filhos e a irmã, onde a câmara não tem espaço de recuo, onde todos os planos são apertados, onde o som da gritaria da velha da casa ao lado se sobrepõe à televisão ligada, alto volume, na novela ou na bola, onde estas se sobrepõem às conversas entre os membros da família, onde as conversas se cruzam em absurda cacofonia que impede a intimidade e o imprenscindível espaço ao segredo e à respiração de cada um, (e a bonança sonora só ocorre quando Toni Carreira canta e ampara suavemente todas as angústias da casa); a casa moderna, generosa nas dimensões, mas que isola e aparta cada um dos seus habitantes; o apartamento providenciado pelos serviços sociais do Estado, obscurecido pelos estores de plástico corridos, sede da remediada rede de tráfico de droga.

É, com certeza, um filme moralista. E só o consegue ser porque reconhece dignidade em todas as formas de vida, das possíveis às resignadas, das reflectidas às que vão inconscientes ao sabor dos tempos, das voluntárias e voluntaristas, às criminosas, sem fazer uso dos clichets dos pós-modernos departamentos de ciências socias entre a Av. de Berna e a Cidade Universitária.
A defesa intransigente de quem se ama e da família – mas arrisco que o realizador não tenha arriscado esta palavra. Mais que as arquitecturas, o que dentro delas fazemos. Formas possíveis do habitar que são, sempre, as formas possíveis de ser.



Ao acaso, imediatamente antes, Life during wartime (2009), de Todd Solondz, sequela de Happiness (1998), num contexto radicalmente diferente do sul da Florida, dos prósperos reformados, da classe média americana em fuga, dos condomínios de palmeiras implantadas e estacionementos assegurados, das donas de casa desesperadas, do ressentimento, da auto-segregação - de que temos também sucedâneos na periferia de Lisboa - debatia exactamente essa possilidade de que nem só de casas e lugares se fazem os homens. Muito pelo contrário.

a sétima colina#5



Príncipe Real Design District

cidade de deus#2


[Palazzo Ramirez de Montalvo, Giorgio Vasari, 1568]



Suponhamos que somos confrontados com uma realidade desesperante – com Pimlico, por exemplo. Se meditarmos no que é realmente melhor para Pimlico, chegaremos à conclusão de que o fio do raciocínio nos conduz ao trono, ou ao misticismo e à arbitrariedade. Não basta uma pessoa ter uma visão negativa de Pimlico, porque, nesse caso, limitar-se-á a dar um tiro na cabeça, ou a mudar de casa e ir viver para Chelsea. Também não basta, evidentemente, uma pessoa ter uma visão positiva de Pimlico, porque, nesse caso, Pimlico continuará a ser o que é, o que seria péssimo. A única maneira de sair disto parece ser amar Pimlico, amar este bairro com uma ligação transcendental e sem qualquer motivação de ordem mundana. Se aparecesse um homem que amasse Pimlico, aí se construiriam torres de marfim e pináculos de ouro; Pimlico ataviar-se-ia como se ataviam as mulheres apaixonadas. Porque a decoração não serve para esconder coisas horríveis, mas para decorar coisas que já são adoráveis. Uma mãe não põe uma fita azul ao filho porque ele fica feiíssimo sem ela. E um namorado não oferece um colar à namorada para ela esconder o pescoço. Se as pessoas amassem Pimlico como as mães amam os seus filhos – de forma arbitrária, porque são os filhos delas -, dentro de um ou dois anos Pimlico seria mais belo do que Florença. Alguns leitores dirão que estou simplesmente a fantasiar. E eu respondo que não, que isto é a história da humanidade. Foi assim que as cidades se tornaram grandiosas. Recuemos às mais obscuras raízes da civilização e verificaremos que elas se encontram enroscadas em redor de uma pedra sagrada ou de um poço sagrado. As pessoas começaram a prestar homenagem a um local e, a seguir, conquistaram glórias em sua honra. Os romanos não amavam Roma pelo facto de ser uma grande cidade; foi porque a amavam que Roma se tornou uma grande cidade.


[Ortodoxia, G.K. Chesterton, 1908]





[2001: Odisseia no Espaço, Stanley Kubrick, 1968]

a sétima colina#4



Príncipe Real Design District

manual do prestidigitador


[Chirologia: Or The Natvrall Langvage Of The Hand, John Bulwer, 1644]



O ofício da mão é mais rico do que comummente imaginamos (…). A mão alcança e se estira, recebe e dá as boas vindas, e não apenas às coisas: a mão estende-se ela mesma e acolhe as suas próprias boas vindas nas mãos dos outros (…). Os gestos das mãos discorrem por todas as partes através da linguagem na sua pureza mais perfeita, precisamente quando se fala estando em silêncio (…). Todo o movimento da mão em cada uma das suas acções conduz ao pensamento; todo o peso da mão se transporta a si mesmo. Toda a acção da mão está enraizada no pensamento.


[O que é uma coisa, Martin Heidegger, 1952]



Diz-se Revolução
o Movimento de um corpo que
Descrevendo uma curva fechada
passa sucessivamente pelos
mesmos lugares
.


[Turn On, Tune In, Drop Out, Timothy Leary, 1967, in Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde, Manuel António Pina]

biografia: lugares & casas


[Londres, 2007]


Os lugares são
a geografia da solidão.
São lugares comuns a casa a cama.


[Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde, Manuel António Pina, 1974]



[Ed Ruscha, 1992]


Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraidíssimo percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde no café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes eu faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.


[Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde, Manuel António Pina, 1974]

a sétima colina#3



Príncipe Real Design District

1962


[Le Havre, Aki Kaurismäki, 2011]



E, tal como outros espaços dos seus filmes, recusa-se a dizer "hoje"?


A arquitectura moderna desagrada-me intensamente...
É sempre uma luta contra o tempo quando filmo. Os "caterpillars" estão invariavelmente atrás de mim. Estão sempre a querer demolir a área que estou a filmas. Temos sempre que lhes pagar para nos darem uma semana mais de rodagem antes da demolição total. Tem sido sempre assim na minha vida. Deve ser por alguma coisa de que gosto.
Como filmar em cubos modernos, que é o que se chama hoje arquitectura? E é um erro pedir a arquitectos que façam cubos nos sítios em que há chuva. Deviam fazer um telhado. Deve haver problemas aqui [Fundação de Serralves] com a água. Mas não tive tempo ainda de investigar, isto não parece assim tão mau...
Quando as pessoas têm algum dinheiro fazem as suas casas como cubos, cheias de pormenores, mas acabam por não se enquadrar na área... e não parecem muito funcionais.


[Aki Kaurismäki, Público, 17.02.2012]



métro, boulot, dodo


[Estação do Metro do Marquês de Pombal, José Santa Rita + João Santa Rita, 1999]






Entendo a generosidade e o prazer do outro que recordo de uma entrevista ao Arqtº. Manuel Graça Dias – não recordo quando, não recordo onde – enquanto percorria cidades do mundo, com amor grande e devoção à mais importante e complexa realização da humanidade. Entende-se o amor, pela casualidade do mundo, pelo caos que nas cidades organizamos, pelos significados que se recolhem nas ruas e aumentam o mundo, a devoção ao mundo e às coisas dos homens que decidem o seu destino comum. Às cidades, que obedecem à necessidade de resistência, a exceder os limites da mortalidade humana. À vida prtática e à beleza. A beleza da duração, para as prolongar. Pelo encontro.




[Admitindo ainda que seja, neste discurso, a manutenção do módico de pudor sobre a vida íntima do outro - que, de facto, em nada importa ao espaço público - lembro também nessa entrevista alguma recusa do território doméstico. Um excessivo pensamento da praticabilidade do que é íntimo, e sobre o espaço do íntimo, um certo funcionalismo do dormir, comer, foder, como estritas necessidades biológicas – não por acaso as estritas funções que permitem manter saudável indivíduo que age sobre o espaço público da cidade.
Talvez não tenha recordado Manuel Graça Dias da possibilidade de dar a volta ao mundo sem se sair do quarto, quem nem só de milhas andadas se erguem toneladas de literatura de viagens, de lautas refeições, ou, maior pecado, a Manuel Graça Dias não tenha ocorrido a sequência de abertura de Le Mépris. Aventura maior?

A partir do encontro na polis produz-se o sentido colectivo da existência que, necessariamente, terá que ser reflectido nos instantes de recolhimento ao abrigo interior para, a partir deste, se regressar ao passeio público e ao outro.]


Mas falava também de densidade, necessariamente de deslocações, de mobilidade. E da monotonia das viagens de metro. Enfadonhas, provavelmente.
Monótonas como, à superfície pública, serão todas as vidas privadas com que nos cruzamos na cidade. Em percursos pré-definidos, debaixo do chão, a contrariar essa cidade aberta e livre que Manuel Graça Dias ama – às quais aqui devotamos também grande amor – em túneis escuros, connosco atados a Pod’s, Phone’s, Pads, jornais, livros– outra maneira do espaço privado.
Vejamos, o terror escondido ao cruzar os olhos da garota do banco da frente, uma viagem à possível vida do rapaz do skate encostado à porta da carruagem repetitiva, da velha elegante de outra Av. de Roma, de outra velha mais velha mais à frente na puída Almirante Reis – ocorre-me uma outra sequência, na Berlim dividida pelos homens e dos anjos do desejo nos compreendem nessas minúsculas viagens, e nos amam tanto que connosco, homens, desejam viajar. Aventuras. Liberdade.

Como o encontro com o outro só é possível depois do encontro connosco mesmos, a realidade da superfície, a vida vivida da cidade, em alegria e liberdade, só será possível se nos for possível o recolhimento ao território interior. Onde nos possamos privar do outro e da cidade. Onde nos é dada a possibilidade de, imaginemos, sermos monótonos. Mesmo num buraco abaixo da superfície das coisas.




[O encontro, a beleza, são possíveis numa esquina vazia da estação do Marquês.]

terceira margem


[S. Mateus da Calheta, Terceira, 2006]


O artista ama as sua limitações, porque elas constituem aquilo que ele está a fazer. O pintor gosta de que a tela seja plana. O escultor gosta de que o barro bão tenha cor.


[Ortodoxia, G.K. Chesterton, 1908]

migrações


[Porto Santo, 2007]


Aprendemos a invenção das casas submissas e a habitação das
nuvens fixas onde é necessário criar o silêncio
preciso do teu lugar.

cabinet de curiosités: uma pedra fechada por dentro


[Abrigo de Ludwig Wittgenstein, Noruega]


Mundi fugit,
Também Ludwig Wittgenstein recolheu a um penhasco. Isolado.
Depois da forma pura em pura observância aos limites do homem na sua razão, um salto ao alto da montanha que nos deixa perplexos.
Na Floresta Negra, em Cap Martin sobre o Mediterrâneo, a um fiorde também recolheu o austríaco.

Recolher para aumentar os limites do mundo?




Mundi fugit,
o refúgio da glória do mundo, a necessidade da verdade, algum recolhimento, um penhasco ao relento, pouca coisa quase nada, punhado de pedras organizadas ao acaso da dádiva dos lugares, algumas tábuas dispostas segundo a ordem da rigorosa necessidade do corpo.
A contemplação da verdade, algum recolhimento para que a verdade seja possibilidade, sempre um penhasco, sobre pedras elevadas diante da água, ermo solitário. Homens incapazes de outra circunstância que a da minúcia do coração, da grandeza desconhecida das edificações das casas, com outro barro que o do sofrimento patético com que cá em baixo organizamos as horas.
Outra coisa que não a desocultação das pedras que se soltam do alto por vontade que desconhecemos.

Do alto eles sabem que naufragamos cá em baixo no mar sem margem.

interlúdio: no meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho

[in Alguma Poesia, Carlos Drummond de Andrade, 1930]

Cuerpos de Dolor




[Santa Maria Egipcíaca, Luis Salvador Carmona, (1708-1767)]

Mais que representar o sagrado, é «dar corpo ao sagrado». O corpo, o lugar do amor e da dor, da alegria e da tristeza, o lugar onde mais somos o que somos, e que desse lugar tão humano possamos aceder ao sagrado. Pelo corpo como via de acesso ao sagrado, o belo como sedução daquilo que nos ultrapassa e ultrapassa o que se inscreve no próprio corpo.

Representativas de um período central da formação dos povos ibéricos – no qual a religião era elemento indentitário crucial – as esculturas da mostra Cuerpos de Dolor, da coleção do Museo Nacional de Escultura (Valhadolid, Espanha), sugerem-nos os caráter exuberante, quase, teatral, do Barroco ibérico e da profundidade com que a dimensão espiritual impregnava a arte e as representações do mundo, então.

Mais que essa referida teatralidade, é o drama humano que, pelo corpo e inscrito no corpo, vai ao encontro do que nos transcende, e que, pelo belo, procuramos entendimento.





Publicado no sítio do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

cabinet de curiosités



[Villa Lysø, Bergen, c. 1872]


Fantasia mourisca no fiorde. Encontrar abrigo numa fantasia da distância quando o quotidiano é a necessidade (e vontade), do encontro com o próximo.
A apropriação do outro pelo homem que procura a sua própria identidade.

Lysoen: Hommage a Ole Bull





[ Lysoen: Hommage a Ole Bull ,  Nils Okland e Sigbjorn Apeland, ECM, 2011]









«La canzone vive della parola e dei ritmi quotidiani, della profondità della vita dell’uomo comune. È questa la forza e il criterio valutativo della "musica leggera"», cita Antonio Spadaro, o Padre jesuíta editor da revista La Civiltà Cattolica, no seu blogue CyberTeologia, e é desta força do quotidiano que respira "Lysoen: Hommage a Ole Bull", de Nils Okland e Sigbjorn Apeland, (ECM, 2011).
Lysoen é o lugar na Noruega que Ole Bull (1810-1880) escolheu para construir a sua casa de verão, após mais de 50 anos em tournée por toda a Europa como violinista, e recolher com a sua família. Foi em Lysoen que Ole Bull sedimentou um sentido de identidade nacional norueguesa – país, forçado à época, à união com a coroa sueca – através de recolhas e do levantamento do repertório tradicional e popular. Foi em Lysoen que Nils Okland (violino) e Sigbjorn Apeland (piano e harmónio), também eles provenientes da tradição da música popular norueguesa. E talvez por isto mesmo, esta música nos surja com uma mais forte impressão emocional.
As composições, ou originais de Ole Bull, nelas inspiradas, tecem um programa – ainda que em bom rigor esta não seja música programática – onde podemos mergulhar com profundidade na paisagem e na cultura norueguesa contemporânea.
Para lá das categorias de introspeção ou extroversão, das surpreendentes colorações minimalistas (nas composições de Nils Okland e Sigbjorn Apeland, decorrentes das vanguardas norte-americanas da segunda parte do séc.XX), "Lysoen: Hommage a Ole Bull" propõe-nos uma maneira serena mas rica de articularmos as paisagens que vamos construindo com as que herdámos do passado.
Mais que um tributo a Ole Bull, uma maneira de aprendermos estar atentos ao que nos rodeia.





Publicado no sítio do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

Lusitannia Suite




[Íris, Pierre Gonnord]








Lusitannia Suite, de Pierre Gonnord, (França, 1963), propõe-nos um olhar paradoxal sobre o próximo. Numa espantosa galeria de retratos em suporte fotográfico, ampliados a uma escala maior que a do próprio rosto humano – dos múltiplos rostos humanos – interpelam-nos os rostos e toda a história individual inscrita nesses rostos, ao mesmo tempo que, afastados de qualquer referência social, cultural, política ou biográfica – sobre fundo escuro – nos confrontamos com os indivíduos em si mesmos, únicos, atemporais, a-históricos, no que de mais singular e irrepetível cada um deles transporta.

Retratos que são cada um de nós, únicos na nossa história irrepetível, excluídos de qualquer possível classificação, porque fora de qualquer tempo e de qualquer lugar que não o da nossa própria face.


Lusitannia Suite, Pierre Gonnord, Galeria BesPhoto



Publicado no sítio do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

a sétima colina#2

My generation's for sale,
Beats a steady job.
How much have you got?
My generation don't trust no one,
Its hard to blame,
Not even ourselves.
The thing that's real for us is: fortune and fame,
All the rest seems like work.
Its just like Diamonds
In shit.


I'm high class I'm a whore,
Actually both,
Basically I'm a pro,
We've all got our own style
(of baggage),
Why hump it yourself,
You've made me an offer that I can refuse,
(course either way I get screwed)
Counter proposal:
I go home & Jerk off.


It's truly a lie. I'm counterfeit myself,
It's truly a lie. I'm counterfeit myself,


You don't own, you don't own, you don't own,
You don't own what none can buy,
You don't own, neither do I.


High and mighty you say selling out is a sham,
Is that the name of your book?
Push a silver spoon in your ass,
No more holding us down,
(dog. down mutt. Nice mutt)
You're insulted, You can't be bought or sold.
Translation: offer too low.
You don't know what you're worth,
(It isn't much.)
My piano is for sale.
How many times must I sell myself before my pieces are gone?
I'm one of a kind,
I'm designer.


Never again will I repeat myself,
Enough is never enough,
Never again will I repeat myself.


It used to be the plan was: screwing the man
Now its have sex with a man,
(After he buys you ".com" for sale at a low, low price)


It's truly a lie, I'm counterfeit myself,
It's truly a lie, I'm counterfeit myself,
You don't own, you don't own, you don't own me,
You don't own what none can buy,
You don't own
Neither do I

[I'm a Designer, Queens of The Stone Age, 2007]




a sétima colina











Foi para o ar, há instantes, no jornal da noite da TVI, uma reportagem sobre o Príncipe Real. Ou sobre um Príncipe Real: o «que mantém o cariz histórico e que está na moda», o que quer que isto seja.
O Príncipe Real é, em si, uma amostra de Lisboa – que de si já é uma amostra abrangente da diversidade portuguesa. Tudo o que há em Lisboa, econtrar-se-á, com certeza, no Príncipe Real. A diversidade social, cultural, económica, religiosa, sexual, de género, étnica, encontra-se nesta pequena sociedade. O convívio com o diferente é, aqui, permanente. O outro, aqui, torna-se próximo.
Das omissões da reportagem, muito preocupada com os cafés design, as lojas de e da moda, ou o preço do m2, que acreditamos inocentes e, pior, ingénuas, que não explica o porquê da qualidade de vida no bairro, resta aquilo que de pior poderá acontecer ao Príncipe Real: a padronização.
A padronização de gostos, de escolhas, de culturas, de vida. E, se percorrermos o roteiro da reportagem, chegaremos à conclusão que pouco distinguirá o Príncipe Real de um qualquer bairro de comércio da moda. Transformar o mundo em design poderia até ser boa ideia, se o design não fosse, hoje, refém da estandardização cultural das ideologias hegemónicas, retirado de qualquer intervenção crítica dentro dessas ideologias – as mesmas ideologias que elevam o custo do m2 aos valores obscenos referidos na reportagem, o quais, dentro do mesmo discurso, servem para legitimar o que será a qualidade de vida no Príncipe Real. (E, mais perverso ainda, ter-se o consumo design transformado em construtor de identidades.)

O Príncipe Real é o lugar de tudo. Da deliciosa Senhora Joaquina da mercearia, do Oliveira do gin bem medido a 2€ acompanhado da dádiva do Sol no jardim, do Sr. Francisco dos jornais e do «nosso Benfica», do café na Cister com os que passam – e da Cister foram removidas as belíssimas mesas de tampo de lioz vincado pelo tempo e por muitos que passaram, substituídas por mesas mdf vagamente retro e feias – dos viadinhos que depois do Trumps snifam a sua cocaína de fim-de-semana aqui debaixo das escadas, da puta e do deputado na Pç. Das Flores, do homem do talho que ameaçou suicídio com uma caçadeira, só detido pela intervenção do agente da PSP que se viu na contingência de correr com a barriga e o bigode pela íngreme Marcos Portugal, dos africanos, indianos, brasileiros, lisboetas, que à noite se encontram na fonte, dos restaurantes sem comida fusão, das melhores companhias de teatro da cidade - Cornucópia e Artistas Unidos - galerias de arte, das lojas de ferragens e das mercearias, da arquitectura à escala do nosso corpo e bela, e simples e complexa das habitações populares ao gosto da humildade e da necessidade e do palácios da burguesia import/export n'importe do séc. XIX e dos exotismos para status erguer, das escolinhas e da faculdade, das garotas mais elegantes, da liberdade, da realidade, essa subversiva, que escapa ao rolo compressor da moda e do pornográfico preço do m2.

Sede então bem vindos ao Príncipe Real. Todos.


p.s. A gentrificação mata.



exteriores: Lisboa

mas a cidade é maravilhosa


[Márvio dos Anjos, Destak, 25.01.2012]

domingo


[Capela do Rato, Manuel Joaquim de Sousa, 1839]

uma cerveja no inverno


[Iluminações, Jean-Artur Rimbaud]

uma história da arquitectura europeia



[O Cubo e a Catedral - A Europa e a América e a Política sem Deus, George Weigel, 2005]

como se desenha uma casa


[Como se desenha uma casa, Manuel António Pina, 2011]

Americanos não são americanos. São velhos homens humanos. Chegando, passando, atravessando.


[Corcovado, Rio de Janeiro, 5.12.2011]








Fotografar é apropriar-se da coisa fotografada. Significa pôr a si mesmo em determinada relação com o mundo, semelhante ao conhecimento – e, portanto, ao poder. Supõe-se que uma queda primordial – e malvista, hoje em dia – na alienação, a saber, acostumar as pessoas a resumir o mundo na forma de palavras impressas, tenha engendrado aquele excedente de energia fáustica e de dano psíquico necessário para construir as modernas sociedades inorgânicas. Mas a imprensa parece uma forma menos traiçoeira de dissolver o mundo, de transformá-lo em objecto mental, do que as imagens fotográficas, que fornecem a maior parte do conhecimento que se possui acerca do aspecto do passado e do alcance do presente. O que está escrito sobre uma pessoa ou um facto é, declaradamente, uma interpretação, do mesmo modo que as manifestações visuais feitas à mão, como pinturas e desenhos. Imagens fotografadas não parecem manifestações a respeito do mundo, mas sim pedaços dele, miniaturas da realidade que qualquer um pode fazer ou adquirir.
As fotos, que brincam com a escala do mundo, são também reduzidas, recortadas, adaptadas, adulteradas. Elas envelhecem, afectadas pelas mazelas habituais dos objectos de papel; desaparecem; tornam-se valiosas e são vendidas e compradas; são reproduzidas. Fotos, que enfeixam o mundo, parecem solicitar que as enfeixemos também. São fixadas em álbuns, emolduradas e expostas em mesas, pregadas em paredes, projectadas como diapositivos. Jornais e revistas as publicam; a polícia as dispõe em ordem alfabética; os museus as expõem; os editores as compilam.




Fotos nos fornecem um testemunho. Algo de que ouvimos falar mas de que duvidamos parece comprovado quando nos mostram uma foto.




[Sobre Fotografia, Susan Sontag, 1974]



terra devastada


[Jardim Gramacho, Andrew Lenz, 2007]


Abarcamos tudo, mas só pegamos vento.


Três deles, ignorando o que custaria um dia a seu repouso e felicidade o conhecimento das corrupções de cá, e que esse contato geraria sua ruína, que suponho já avançada (pobres deles que se deixaram levar pelo gosto da novidade e deixaram a brandura de seu céu para vir ver o nosso), estiveram em Rouen, quando ali estava o finado rei Carlos IX: o rei falou longamente com eles, foram-lhes mostrados nossos modos, nossa pompa, a forma de uma bela cidade e, depois disso, alguém lhes pediu sua opinião, querendo saber deles o que haviam nisso considerado mais admirável. Eles responderam três coisas.


[Dos Canibais, Michel Montagne, 1580]




O lixo é a parte da nossa história que não queremos no álbum de fotografia.

[Vik Muniz, Pessoal e Transmissível, Tsf, 28.09.2011]





É mais sobre o ego de Vik Muniz e algumas boas intenções - ainda que uma boa intenção, uma só, apagaria o fogo do inferno - (ou algumas boas intenções nascidas da ferida narcísica do autor?), não tanto um filme sobre os dejectos da sociedade.
Jardim Gramacho, o maior aterro sanitário da América Latina, é o território – paisagem – onde Lucy Walker filma Vik Muniz no processo de produção de fotografias de imagens construídas com o lixo catado na lixeira. A proposta de Muniz é a de envolver os catadores na criação dessas imagens, processo que, uma vez finalizado, contemplaria o retorno à comunidade dos catadores do valor com que as fotografias fossem transaccionadas em leilão.
Interessa-me menos a intenção e mais o território e o porquê da escolha do Jardim Gramacho.
Sobre isso o filme é omisso. Apenas umas parcas elaborações do artista sobre a sua vocação e filiação pop – será sempre a conlusão óbvia de qualquer pop, o esgravatar o lixo – sobre a matéria como fim único da arte e do homem, a evidência de que o lixo é a matéria do que rejeitamos ver, cheirar, sentir, no nosso espaço. A ausência, portanto, de qualquer pensamento sobre a paisagem, a sociedade, a cidade, a arte, e a relação destas todas.
Para lá das boas intenções, Wasteland é uma belíssima jogada do marketing, com todos os ingredientes demagógicos – outro fim da pop? – para brincar com o pathos da audiência e levá-la ao preciso ponto a que Vik Muniz pretende: a anestesia e a indiferença ao real. Mas só após este ter (sido) consumido aquela.
April is the cruelest month, diz Eliot, o mês do recomeço do ciclo das estações e do inferno da História, do regresso ao cultivo da terra dura nos campos devastados da Europa pós-I Guerra Mundial. Inexplicavelmente o mesmo título do poema de Eliot e o do filme à volta de Vik Muniz no lixo.


[Wasteland, Lucy Walker, 2010]












E é da produção do lixo que Michel Serres nos desperta para uma reflexão sobre a sociedade ocidental contemporânea. Da sua situação pela acção no território, pelo que torna visível e invisível. A poluição como assinatura.
A poluição – palavra que decorre da poluição nocturna, a ejaculação com que o macho marca o seu território vital – hoje o lixo e a destruição com que, à escala do globo, assinamos a nossa presença e acção.
Como os animais que mijam no território para o delimitarem, nós sujamos o território para o possuirmos. Assim nascem os limites, a arquitectura da casa, a construção das cidades, as nações. À volta dos mortos enterrados e em decomposição fixam-se as cidades dos vivos. Onde jaz um homem morto é onde se faz erguer uma cidade; erguemos uma cidade onde enterramos os nossos mortos. A sujidade como sinal de posse e, em movimento inverso, a expansão do dejecto como alargamento da propriedade.

Da vagina à casa, à cidade, à nação. E a religião.
É esta distinção fundamental, a do Ocidente, a quem foi revelado um Deus que não deixa lugar. O universalismo de um corpo que deixa intacto o útero da mãe à nascença e o túmulo vazio à morte. A abolição do sangue e das secreções como lei da paisagem. Uma cultura fundada no espaço vital sem desejo da propriedade além da que o corpo exige.

A propriedade é um roubo, proclamam os modernos, sem perceberem que a propriedade é uma decorrência do espaço vital. Só nos apropriamos do que necessitamos. A necessidade é a ordem do espaço.
A propriedade é um roubo, proclamam os modernos quando o processo moderno da propriedade alastra e vai excluindo cada vez mais indivíduos.


Serres não escapa ao impasse. Proclama, também ele, um fim da propriedade, já não sob reacção à imoralidade desta, mas como necessidade imperiosa para evitar o apocalipse numa paisagem que afirma global.
Marcas globais, publicidade globais que poluem o espaço de percepção (e poluir a alma não é o propósito da “indústria do marketing”?) – a poluição suave - , ruídos, devastações, catástrofes, provocados por acção humana, que rasgam qualquer fronteira e limite – poluição dura - que destroem a despeito dos mapas e das nações. Sendo um espaço global, de circulação global, uma única comunidade global sujeita à acção de si própria, não necessitará mais de fronteiras ou limites, de propriedade.
Optimista radical, com fé no processo do futuro da hominização do homem, o caminho, (utopia?) de Serres esquece a contingência. E a contingência exige-nos um leito para descanso à noite, um buraco para defecar, um claustro para a intimidade do amor. O espaço onde nos refugiarmos da poluição com que sujamos o próximo, a Terra; espaço reservado onde nos limpemos da poeira dos dias. Pelo menos enquanto a lei não for a do amor. A nós, ao próximo, à Terra.



A lei ainda é a da dureza. E por enquanto, esse espaço global escapa ao império da poluição e do dinheiro – dinheiro, esssa epécie de excremento que desejamos e repulsamos. A propriedade não é um roubo, tanto quanto é a única defesa legal para as remoções que estão em curso para que o império do dinheiro siga a sua marcha.
A marcha que desaloja milhares para a construção de “infra-esturutas”, chamam, para a Copa2014 e as Olimpíadas2016, a mesma marcha com que Vik Muniz canibaliza o catador que leva a Londres ao leilão das suas falhas narcísicas.






da merda e outros excrementos





[O Mal Limpo, Michel Serres, 2008]



O nosso lugar é onde cagamos.E amamos. 

μελαγχολία


[Filz TV, Joseph Beuys, 1970]







i.


[Angelus, Jean-François Millet, 1857]



Quando eu estudava História nos anos de 1960 e 1970, a Reacção não vinha nos livros que eu lia: era um movimento político e cultural anacrónico que representava o passado clerical e aristocrático que a burguesia e o capitalismo tinham varrido da Europa.


Curiosamente foi por via da minha especialização em história da arte que a Reacção começou a interessar-me. Apesar da implacável censura da ortodoxia modernista que dominava a academia no campo da história da arte e apagava toda a informação que não fosse conforme à ideia do progresso das artes, fui percebendo que afinal as vanguardas não eram o único movimento artístico existente nos tempos contemporâneos. Recordo um trabalho académico que me levou a descobrir, muito surpreendido, que existiram em Portugal dezenas de artistas que, pintando paisagem, assuntos sacros ou retrato, não respeitavam o cânone da vanguarda inaugurada pelos impressionistas e Cézanne. Todos estes artistas tinham desaparecido da história - e continuam ainda hoje em parte incerta.


Cruzei-me nessa altura com o famoso quadro Angelus (1857) do pintor francês Jean-François Millet, uma das pinturas com maior influência sobre o gosto popular em toda a história da arte contemporânea. Envolvidos pela luz dourada do pôr do sol nos campos planos e tristes do Norte, um homem e uma mulher interrompem o trabalho agrícola e recolhem-se em oração quando toca o Angelus que adivinhamos porvir dos sinos de uma igreja que se vê ao longe. Recordei aquilo que já tinha esquecido: três vezes por dia, ao nascer do sol, ao meio-dia e ao entardecer, os sinos das igrejas levavam as pessoas a deter-se para rezar uma Avé-Maria, a outra designação que se dá à prece do Angelus. No preciso momento em que escrevo isto, ouço ao longe o sino da igreja da aldeia: são seis da tarde.


Ao princípio, achei o quadro num pouco kitsch, não me surpreendendo portanto o seu sucesso popular. Mas pouco a pouco, ao longo dos anos e das leituras, percebi-lhe o contexto: a Europa do século XIX e do início do século XX não foi apenas a Europa da burguesia, do capitalismo, do proletariado. Foi também a Europa reaccionária, na qual ocorreu um poderoso movimento de reafirmação religiosa dirigido por cristãos de várias denominações e expresso em várias escolas de Arte e Arquitectura sacra (que só hoje começam a merecer alguma atenção académica). O quadro de Millet integra-se nesse ambiente, representando a vida ritmada pelo tempo antigo ligado ao movimento do dia e às estações do ano, um tempo ecológico que o cristianismo implantou na Europa, e que estava então a ser substituído aceleradamente pelo tempo "dos mercadores", como escrevia Jacques le Goff no seguimento de Marx, o tempo fabril e comercial do relógio e do capitalismo.


Millet pintou o seu Angelus num gosto e com uma cultura que desaparecem da nossa memória, à medida que deixamos de ouvir o som antigo dos sinos, que só aos velhos faz hoje semicerrar os olhos, baixar a fronte e suspender por um instante o vazio do tempo.


[Angelus, Paulo Varela Gomes, Público, 26.11.2011]





[Angelus, Salvador Dalí, 1935]

















No sphere of high culture is implicated in the fall of the affluent society in the same way art is. Yesterday I commented on the resistance to melancholy, the flight from reality, that enabled art in our time to promote the fantasy of an unlimited market. Some have called the system that has now fallen "offshore capitalism"; perhaps another description is "post-modern capitalism". In post-modern capitalism, secondary markets created a counter-reality that was unfettered by production. The economy was run like a theme park. It's obvious how deeply involved in that daydream was the art of the last 20 years, which so gleefully rejected anything that might tie it to the slow, patient, tedious stuff of real creativity.


Drama, the novel, even cinema have all kept a safer distance from the booming monster of modern capitalism than artists did. What I want to ask now is – why? What happened? How did art become the mirror of fraud? It is not a story that starts with Damien Hirst's diamond skull but one that goes back to the very origins of the consumer society.


After the second world war artists were steeped in history and introspection. Art has never been more serious in its view of life than it was in the era of Mark Rothko and Francis Bacon. But even as modern painting reached such heights and depths, western society was going through an epochal transformation. The power of the capitalist economies in the postwar era was unprecedented in world history. An entirely new lifestyle, that of "consumerism", was born.


Consumerism instantly inspired artists. Pop art in America and Britain took the surfaces of objects, the instant appearances of the new bright world, as its subject matter. Everywhere, emotional depth in art was censored. Abstract Expressionism had to die. Art could teach people to look at the world in a new way: to embrace the cool. Pop art taught everyone to enjoy money and the mass media and 1980s post-modernism taught the same lesson again.


These emotional styles have long since been so popularised that even intelligent people accept that reality television is a form of culture and celebrities fit receptacles for our ephemeral floods of feeling. All the shallowness of modern mass culture began in avant-garde art 40 years ago. We're Warhol's ugly brood. Art has even fed the unsustainable appetites that are destroying the planet by constantly telling everyone cities are better than the countryside, culture more real than nature. It has become the enemy of truth, the murderer of decency.


The modern world has screwed itself and art led the way.


[How art killed our culture, Jonhatan Jones, The Guardian, 6.3.2009]



[Piss Christ, Andres Serrano, 1987]



ii.

Imersos nesta tecnologia opinativa, não temos tempo para nos confrontarmos connosco mesmos. Do alto da auto-indulgente e presuntiva coerência – esse valor monolítico – vamos derramando pelas redes sociais em geral e pelo mundo em particular as nossas visões. Se a crise é, etimologicamente, transição, é a melhor ocasião para que redobremos a atenção sobre nós mesmos. Não nos tomemos muito a sério. Vigilância sobre nós e deixar o mundo passar um pouco mais ao largo.
Podemos começar por ler e rememorar tudo o que dissémos, escrevemos e pensámos, sobre o estado das coisas ao longo dos últimos meses. Três ou quatro bastam. O suficiente para conseguirmos, com necessária auto-ironia, soltar uma sonora gargalhada sobre a nossa presunção. E para ter a exacta consciência da nossa ignorância e perplexidade sobre o que se está a passar. O ego não sofrerá pela via do riso.
Falo por mim.


iii.






[Paris, Texas, Wim Wenders, 1984]

Global Business




















Toda a narrativa da cidade global é mais sobre consumo que sobre a polis. Aristóteles recorda na Política que o fim da cidade é viver segundo o bem. Não, apenas, viver bem: Este é o fim supremo seja em comum para todos os homens, seja para cada um separadamente. Estes, porém, unem-se e mantêm a comunidade política até mesmo tendo em vista o simples viver, porque existe provavelmente uma certa porção de bem até mesmo no facto de viver; se não há um excesso de dificuldades quanto ao modo de viver, é evidente que a maior parte dos homens suporta muitos sofrimentos e se apega à vida como se nela houvesse uma espécie de serenidade e uma doçura natural. Há, então, um princípio moral na cidade, embora a política não seja a administração de princípios morais.
A falsa, mas prevalecente e dominante, ideia de que tudo é político, traz ao domínio da política elementos que lhe são estranhos [Carl Schmitt], faz resvalar a política e a acção política para a neutralidade, quando não para a confusão deliberada de esferas antiéticas.
Recorrendo ainda a Schmitt – um perigo, reconheço – se o princípio da moral é determinado pelas noções de bem e mal, o da economia da de lucro, o da estética das de belo e feio, o da política decorre da distinção amigo/inimigo. O limite da política será, por conseguinte, a guerra, que se inscreve na política não como fim, naturalmente, mas como possibilidade. E é na guerra que se contempla a realidade que a normalidade do quotidiano veda.





The technology slowdown threatens not just our financial markets, but the entire modern political order, which is predicated on easy and relentless growth. O abandono da causa científica e a consequente impotência da tecnologia, a despeito do ímpeto da tecnologia comunicacional e da informação, com profundas implicações no ordenamento político contemporâneo, desvela o que tem sido o dogma que sustenta o Ocidente desde o séc. XVIII: o crescimento irrestrito e infinito. Hoje sabemos que tal é uma impossibilidade material. O planeta exaurido de recursos é só uma imagem dessa percepção, mesmo que apocalíptica. Mas é este o dogma de fé, positivista e materialista, que domina o pensamento ocidental de há 300 anos.



Tudo ser política reduz a política à sua sujeição aos poderes fácticos que, por sua natureza, escapam ao escrutínio público. Por consequência, a falência do político sugere-se dissimulada de paz perpétua, sob a direcção não explícita dos mercados, (mercados dominadores dos dispositivos da comuniação): The story of youngpeople, full of ambition, energy, skill and talent, moving to enticing citiesthat call to them like a siren’s song is as old as modern civilization. And in a world where national bordersare easier to traverse, where more countries are joining the prosperous globalmiddle class and where the cost of a one-way plane ticket is more affordable,young professionals probably have more cities to choose from than ever before.



Robert Moses, the greatbuilder of New York City in the 1950s and 1960s, or Oscar Niemeyer, the greatarchitect of Brasilia, belong to a past when people still had concrete ideasabout the future. Voters today prefer Victorian houses. Science fiction hascollapsed as a literary genre. Men reached the moon in July 1969, and Woodstockbegan three weeks later. With the benefit of hindsight, we can see that thiswas when the hippies took over the country, and when the true cultural war overProgress was lost.Não nos permitimos já a uma imagem do futuro e desesperamos no presente.




O espaço, tratado como plano pelo mainstream ideológico – de esquerda ou direita – resulta como ironia objectiva (reverso nas consequências das boas intenções dos princípios), mas tão pouco irónica, porque narrativa deliberadamente construída para a exclusão da política na decisão sobre a polis.
Depois do consenso keynesiano, da época dos gestos de planeamento no pós-Grande Depressão dos anos 30 – e de muitas das perversas certezas do modernismo -, o Consensode Washington consagra a reversão do antagonismo dos agentes do planeamento urbano: urbanista confunde-se com o empreendedor. O promotor é agora quem produz o espaço. E este, legitimamente, rege-se pelo princípio económico e não pelo do bem comum. O mesmo promotor que adquire ascendente sobre a decisão política por esta estar refém das receitas que decorrem do imobiliário (coda).
Resulta daqui uma lógica de territórios e micro-territórios de exclusão, cada vez mais excluídos, passe a tautologia. Territórios que não cabem no contexto modernista do planeamento, muito menos no da atmosfera da construção de imaginários já prontos a habitar – consumir- espaços de exclusão que constroem a realidade como sobras do quadro ideológico do consumo.
A cidade real é ocultada sobre a paisagem mediática, mas o real é subversivo a qualquer photoshop.











O amor é cego/Ray Charles é cego/Stevie Wonder é cego/E o albino Hermeto não encherga mesmo muito bem


E eu menos a conhecera mais a amara?

[O Estrangeiro, Caetano Veloso, 1990]

hubris


[Rua Frederico Eyer, Rio de Janeiro, 2011]


xi
O Rio resiste à metaforização por uma decisão de essência. A literalidade do seu apelo torna-a quase cidade obscena, mas salva-se porque a hibridez é a sua raison d’être, e legitima-se a presença luxuriante porque outra Lei Natural seria um extermínio. As raízes das árvores irrompem pelos passeios do Leblon, alastrando como a Daphne barroca até aos nossos pés, prontas a enlaçá-los, mãos e braços inimagináveis à consciência existencialmente impressionada, ad nauseam, de um Roquentin, pelo excesso de presença das raízes de um castanheiro. Ou a floresta da Tijuca, floresta urbana, plantada às ordens do império, mas que agora destrepa pelos morros abaixo, enleando-se nas grades que afastam os olhares muito ricos dos muito pobres, atravessando, num salto, as ruas por que micos andarilham, acima das nossas cabeças, em cabos de telefone hibridados com liames. Brotam a humidade e o verdor muito além dos jardins autorizados das universidades, pátios adentro, insolentes com os bustos das eminências, como, logo à entrada da Pontifícia, o do Padre António Vieira. Dizia ele: "Há homens que são como as velas; sacrificam-se, queimando-se para dar luz aos outros." Como o sacrificado turista que cai do bondinho, enquanto fazia a travessia do aqueduto da Lapa, da altura de algumas dezenas de metros. Lá em baixo agora, em estertor, as crianças aparecem e rodeiam-no, como a um estranho mais estranho que os “vira-lata” que aguardam pela sua vez. Então tomam a máquina fotográfica, introduzem suas mãos pequenas nos bolsos do moribundo, livram-nos da carteira, do maço, do isqueiro e das moedas, uma a uma. E vão em seguida. Ele morre mais leve. Esta é a capital do império europeu que se arrojou pelo hemisfério sul.










xii
É condição do híbrido que os seus elementos compitam em equilíbrio instável, nunca se permitindo um a submissão ao outro. A cidade afloresta-se duas vezes, como o dia e a noite, mãe e filho um do outro. De cima abaixo, tomada pelo ímpeto da mata atlântica, como um viço selvagem que, descendo do Alto ao Baixo Gávea, contorna a Lagoa, Jardim Botânico ao lado, até às avenidas ricas, em linha com passeios amplos virgulados por Art Déco, alcançando a larga Praça Antero de Quental, antecâmara da derradeira linha moderna dos hotéis de luxo e da silhueta recortada dos postais turísticos. O vigor derrete-se finalmente no areal contínuo de Ipanema e do Leblon, como gelo em caipirinha. De longe, o menor esforço da vista descobre o morro dos dois irmãos, ou a simetria protuberante de dois seios apontados ao céu, e por detrás, cimeiro, a imensa pedra da gávea, a pique sobre o oceano, plana como um catre, à altura de deus. E, novamente, com vigor idêntico a cidade afloresta-se também de baixo acima, da abundância à gratuitidade, iluminando-se pelas encostas dos morros, Rocinha de um lado, Vidigal do outro, construções empoleiradas, pátio que é telha, telha que é chão, encarrapitados na mesma lógica de domínio e submissão que comanda a floresta tropical, mas sob outros tons, cor de tijolo sobre cores da natureza, como banco de corais empolados pelo tempero solar no declínio dos dias.






Viajantes híbridos, André Barata

sorria, você não está na Barra


[Avenida das Américas, Rio de Janeiro, 2011]

ou o granito branco & vidro verde:


Weather `round here choppin` and changin`
Surgery in the air
Print shirts and southern accents
Cigars and big hair
We got the wheels and petrol is cheap
Only went there for a week
Git the sun got the sand
Got the batteries in the handy cam
Her eyes all swimming pool blue
Dumb bells on a diving board
Baby`s always attracted to the things she`s afraid of
Big girl with the sweet tooth
Watches the skinny girl in the photo shoot
Freshmen squeaky clean
She tastes of chlorine


Miami
My mammy


Love the movies
Love to walk those movie sets
Get to shoot someone in the foot
Get to smoke some cigarettes
No big deal we know the score
Just back from the video store
Got the car and the car chase
What`s he got inside the case
I want a close up of that face
Here comes the car chase


Miami
My mammy
Miami


I bought two new suits
Miami
Pink and blue
Miami
I took a picture of you
My mammy
Getting hot in a photo booth
Miami
I said you looked like a madonna
You said maybe
Said I want to have your baby
Baby
Baby
We could make something beautiful
Something that wouldn`t be a problem
At least not in
Miami
Some places are like your auntie
But there`s no place like


Miami
My mammy


Miami


Miami

[Miami, U2, 1997]




sem disparar um tiro





[Última página do jornal O Globo, 15.11.2011. A Cyrela é uma das mais importantas promotoras imobiliárias da cidade do Rio de Janeiro.]





É este o mantra da pós-operação da Rocinha. Uma reviravolta na narrativa mediátia que, na madrugada de sábado para domingo, progamava o céu a abater-se sobre a cidade.
Repetida à exaustão, a frase ergue-se como fronteira entre o bem e o mal e inventa uma história blindada à realidade. Uma narrativa para ser ela mesma quem a constrói a nova realidade.
Não por acaso, a narrativa que melhor serve, de facto, as partes interessadas no poder sobre a cidade: media, política, imobiliário.