μελαγχολία


[Filz TV, Joseph Beuys, 1970]







i.


[Angelus, Jean-François Millet, 1857]



Quando eu estudava História nos anos de 1960 e 1970, a Reacção não vinha nos livros que eu lia: era um movimento político e cultural anacrónico que representava o passado clerical e aristocrático que a burguesia e o capitalismo tinham varrido da Europa.


Curiosamente foi por via da minha especialização em história da arte que a Reacção começou a interessar-me. Apesar da implacável censura da ortodoxia modernista que dominava a academia no campo da história da arte e apagava toda a informação que não fosse conforme à ideia do progresso das artes, fui percebendo que afinal as vanguardas não eram o único movimento artístico existente nos tempos contemporâneos. Recordo um trabalho académico que me levou a descobrir, muito surpreendido, que existiram em Portugal dezenas de artistas que, pintando paisagem, assuntos sacros ou retrato, não respeitavam o cânone da vanguarda inaugurada pelos impressionistas e Cézanne. Todos estes artistas tinham desaparecido da história - e continuam ainda hoje em parte incerta.


Cruzei-me nessa altura com o famoso quadro Angelus (1857) do pintor francês Jean-François Millet, uma das pinturas com maior influência sobre o gosto popular em toda a história da arte contemporânea. Envolvidos pela luz dourada do pôr do sol nos campos planos e tristes do Norte, um homem e uma mulher interrompem o trabalho agrícola e recolhem-se em oração quando toca o Angelus que adivinhamos porvir dos sinos de uma igreja que se vê ao longe. Recordei aquilo que já tinha esquecido: três vezes por dia, ao nascer do sol, ao meio-dia e ao entardecer, os sinos das igrejas levavam as pessoas a deter-se para rezar uma Avé-Maria, a outra designação que se dá à prece do Angelus. No preciso momento em que escrevo isto, ouço ao longe o sino da igreja da aldeia: são seis da tarde.


Ao princípio, achei o quadro num pouco kitsch, não me surpreendendo portanto o seu sucesso popular. Mas pouco a pouco, ao longo dos anos e das leituras, percebi-lhe o contexto: a Europa do século XIX e do início do século XX não foi apenas a Europa da burguesia, do capitalismo, do proletariado. Foi também a Europa reaccionária, na qual ocorreu um poderoso movimento de reafirmação religiosa dirigido por cristãos de várias denominações e expresso em várias escolas de Arte e Arquitectura sacra (que só hoje começam a merecer alguma atenção académica). O quadro de Millet integra-se nesse ambiente, representando a vida ritmada pelo tempo antigo ligado ao movimento do dia e às estações do ano, um tempo ecológico que o cristianismo implantou na Europa, e que estava então a ser substituído aceleradamente pelo tempo "dos mercadores", como escrevia Jacques le Goff no seguimento de Marx, o tempo fabril e comercial do relógio e do capitalismo.


Millet pintou o seu Angelus num gosto e com uma cultura que desaparecem da nossa memória, à medida que deixamos de ouvir o som antigo dos sinos, que só aos velhos faz hoje semicerrar os olhos, baixar a fronte e suspender por um instante o vazio do tempo.


[Angelus, Paulo Varela Gomes, Público, 26.11.2011]





[Angelus, Salvador Dalí, 1935]

















No sphere of high culture is implicated in the fall of the affluent society in the same way art is. Yesterday I commented on the resistance to melancholy, the flight from reality, that enabled art in our time to promote the fantasy of an unlimited market. Some have called the system that has now fallen "offshore capitalism"; perhaps another description is "post-modern capitalism". In post-modern capitalism, secondary markets created a counter-reality that was unfettered by production. The economy was run like a theme park. It's obvious how deeply involved in that daydream was the art of the last 20 years, which so gleefully rejected anything that might tie it to the slow, patient, tedious stuff of real creativity.


Drama, the novel, even cinema have all kept a safer distance from the booming monster of modern capitalism than artists did. What I want to ask now is – why? What happened? How did art become the mirror of fraud? It is not a story that starts with Damien Hirst's diamond skull but one that goes back to the very origins of the consumer society.


After the second world war artists were steeped in history and introspection. Art has never been more serious in its view of life than it was in the era of Mark Rothko and Francis Bacon. But even as modern painting reached such heights and depths, western society was going through an epochal transformation. The power of the capitalist economies in the postwar era was unprecedented in world history. An entirely new lifestyle, that of "consumerism", was born.


Consumerism instantly inspired artists. Pop art in America and Britain took the surfaces of objects, the instant appearances of the new bright world, as its subject matter. Everywhere, emotional depth in art was censored. Abstract Expressionism had to die. Art could teach people to look at the world in a new way: to embrace the cool. Pop art taught everyone to enjoy money and the mass media and 1980s post-modernism taught the same lesson again.


These emotional styles have long since been so popularised that even intelligent people accept that reality television is a form of culture and celebrities fit receptacles for our ephemeral floods of feeling. All the shallowness of modern mass culture began in avant-garde art 40 years ago. We're Warhol's ugly brood. Art has even fed the unsustainable appetites that are destroying the planet by constantly telling everyone cities are better than the countryside, culture more real than nature. It has become the enemy of truth, the murderer of decency.


The modern world has screwed itself and art led the way.


[How art killed our culture, Jonhatan Jones, The Guardian, 6.3.2009]



[Piss Christ, Andres Serrano, 1987]



ii.

Imersos nesta tecnologia opinativa, não temos tempo para nos confrontarmos connosco mesmos. Do alto da auto-indulgente e presuntiva coerência – esse valor monolítico – vamos derramando pelas redes sociais em geral e pelo mundo em particular as nossas visões. Se a crise é, etimologicamente, transição, é a melhor ocasião para que redobremos a atenção sobre nós mesmos. Não nos tomemos muito a sério. Vigilância sobre nós e deixar o mundo passar um pouco mais ao largo.
Podemos começar por ler e rememorar tudo o que dissémos, escrevemos e pensámos, sobre o estado das coisas ao longo dos últimos meses. Três ou quatro bastam. O suficiente para conseguirmos, com necessária auto-ironia, soltar uma sonora gargalhada sobre a nossa presunção. E para ter a exacta consciência da nossa ignorância e perplexidade sobre o que se está a passar. O ego não sofrerá pela via do riso.
Falo por mim.


iii.






[Paris, Texas, Wim Wenders, 1984]

Global Business




















Toda a narrativa da cidade global é mais sobre consumo que sobre a polis. Aristóteles recorda na Política que o fim da cidade é viver segundo o bem. Não, apenas, viver bem: Este é o fim supremo seja em comum para todos os homens, seja para cada um separadamente. Estes, porém, unem-se e mantêm a comunidade política até mesmo tendo em vista o simples viver, porque existe provavelmente uma certa porção de bem até mesmo no facto de viver; se não há um excesso de dificuldades quanto ao modo de viver, é evidente que a maior parte dos homens suporta muitos sofrimentos e se apega à vida como se nela houvesse uma espécie de serenidade e uma doçura natural. Há, então, um princípio moral na cidade, embora a política não seja a administração de princípios morais.
A falsa, mas prevalecente e dominante, ideia de que tudo é político, traz ao domínio da política elementos que lhe são estranhos [Carl Schmitt], faz resvalar a política e a acção política para a neutralidade, quando não para a confusão deliberada de esferas antiéticas.
Recorrendo ainda a Schmitt – um perigo, reconheço – se o princípio da moral é determinado pelas noções de bem e mal, o da economia da de lucro, o da estética das de belo e feio, o da política decorre da distinção amigo/inimigo. O limite da política será, por conseguinte, a guerra, que se inscreve na política não como fim, naturalmente, mas como possibilidade. E é na guerra que se contempla a realidade que a normalidade do quotidiano veda.





The technology slowdown threatens not just our financial markets, but the entire modern political order, which is predicated on easy and relentless growth. O abandono da causa científica e a consequente impotência da tecnologia, a despeito do ímpeto da tecnologia comunicacional e da informação, com profundas implicações no ordenamento político contemporâneo, desvela o que tem sido o dogma que sustenta o Ocidente desde o séc. XVIII: o crescimento irrestrito e infinito. Hoje sabemos que tal é uma impossibilidade material. O planeta exaurido de recursos é só uma imagem dessa percepção, mesmo que apocalíptica. Mas é este o dogma de fé, positivista e materialista, que domina o pensamento ocidental de há 300 anos.



Tudo ser política reduz a política à sua sujeição aos poderes fácticos que, por sua natureza, escapam ao escrutínio público. Por consequência, a falência do político sugere-se dissimulada de paz perpétua, sob a direcção não explícita dos mercados, (mercados dominadores dos dispositivos da comuniação): The story of youngpeople, full of ambition, energy, skill and talent, moving to enticing citiesthat call to them like a siren’s song is as old as modern civilization. And in a world where national bordersare easier to traverse, where more countries are joining the prosperous globalmiddle class and where the cost of a one-way plane ticket is more affordable,young professionals probably have more cities to choose from than ever before.



Robert Moses, the greatbuilder of New York City in the 1950s and 1960s, or Oscar Niemeyer, the greatarchitect of Brasilia, belong to a past when people still had concrete ideasabout the future. Voters today prefer Victorian houses. Science fiction hascollapsed as a literary genre. Men reached the moon in July 1969, and Woodstockbegan three weeks later. With the benefit of hindsight, we can see that thiswas when the hippies took over the country, and when the true cultural war overProgress was lost.Não nos permitimos já a uma imagem do futuro e desesperamos no presente.




O espaço, tratado como plano pelo mainstream ideológico – de esquerda ou direita – resulta como ironia objectiva (reverso nas consequências das boas intenções dos princípios), mas tão pouco irónica, porque narrativa deliberadamente construída para a exclusão da política na decisão sobre a polis.
Depois do consenso keynesiano, da época dos gestos de planeamento no pós-Grande Depressão dos anos 30 – e de muitas das perversas certezas do modernismo -, o Consensode Washington consagra a reversão do antagonismo dos agentes do planeamento urbano: urbanista confunde-se com o empreendedor. O promotor é agora quem produz o espaço. E este, legitimamente, rege-se pelo princípio económico e não pelo do bem comum. O mesmo promotor que adquire ascendente sobre a decisão política por esta estar refém das receitas que decorrem do imobiliário (coda).
Resulta daqui uma lógica de territórios e micro-territórios de exclusão, cada vez mais excluídos, passe a tautologia. Territórios que não cabem no contexto modernista do planeamento, muito menos no da atmosfera da construção de imaginários já prontos a habitar – consumir- espaços de exclusão que constroem a realidade como sobras do quadro ideológico do consumo.
A cidade real é ocultada sobre a paisagem mediática, mas o real é subversivo a qualquer photoshop.











O amor é cego/Ray Charles é cego/Stevie Wonder é cego/E o albino Hermeto não encherga mesmo muito bem


E eu menos a conhecera mais a amara?

[O Estrangeiro, Caetano Veloso, 1990]

hubris


[Rua Frederico Eyer, Rio de Janeiro, 2011]


xi
O Rio resiste à metaforização por uma decisão de essência. A literalidade do seu apelo torna-a quase cidade obscena, mas salva-se porque a hibridez é a sua raison d’être, e legitima-se a presença luxuriante porque outra Lei Natural seria um extermínio. As raízes das árvores irrompem pelos passeios do Leblon, alastrando como a Daphne barroca até aos nossos pés, prontas a enlaçá-los, mãos e braços inimagináveis à consciência existencialmente impressionada, ad nauseam, de um Roquentin, pelo excesso de presença das raízes de um castanheiro. Ou a floresta da Tijuca, floresta urbana, plantada às ordens do império, mas que agora destrepa pelos morros abaixo, enleando-se nas grades que afastam os olhares muito ricos dos muito pobres, atravessando, num salto, as ruas por que micos andarilham, acima das nossas cabeças, em cabos de telefone hibridados com liames. Brotam a humidade e o verdor muito além dos jardins autorizados das universidades, pátios adentro, insolentes com os bustos das eminências, como, logo à entrada da Pontifícia, o do Padre António Vieira. Dizia ele: "Há homens que são como as velas; sacrificam-se, queimando-se para dar luz aos outros." Como o sacrificado turista que cai do bondinho, enquanto fazia a travessia do aqueduto da Lapa, da altura de algumas dezenas de metros. Lá em baixo agora, em estertor, as crianças aparecem e rodeiam-no, como a um estranho mais estranho que os “vira-lata” que aguardam pela sua vez. Então tomam a máquina fotográfica, introduzem suas mãos pequenas nos bolsos do moribundo, livram-nos da carteira, do maço, do isqueiro e das moedas, uma a uma. E vão em seguida. Ele morre mais leve. Esta é a capital do império europeu que se arrojou pelo hemisfério sul.










xii
É condição do híbrido que os seus elementos compitam em equilíbrio instável, nunca se permitindo um a submissão ao outro. A cidade afloresta-se duas vezes, como o dia e a noite, mãe e filho um do outro. De cima abaixo, tomada pelo ímpeto da mata atlântica, como um viço selvagem que, descendo do Alto ao Baixo Gávea, contorna a Lagoa, Jardim Botânico ao lado, até às avenidas ricas, em linha com passeios amplos virgulados por Art Déco, alcançando a larga Praça Antero de Quental, antecâmara da derradeira linha moderna dos hotéis de luxo e da silhueta recortada dos postais turísticos. O vigor derrete-se finalmente no areal contínuo de Ipanema e do Leblon, como gelo em caipirinha. De longe, o menor esforço da vista descobre o morro dos dois irmãos, ou a simetria protuberante de dois seios apontados ao céu, e por detrás, cimeiro, a imensa pedra da gávea, a pique sobre o oceano, plana como um catre, à altura de deus. E, novamente, com vigor idêntico a cidade afloresta-se também de baixo acima, da abundância à gratuitidade, iluminando-se pelas encostas dos morros, Rocinha de um lado, Vidigal do outro, construções empoleiradas, pátio que é telha, telha que é chão, encarrapitados na mesma lógica de domínio e submissão que comanda a floresta tropical, mas sob outros tons, cor de tijolo sobre cores da natureza, como banco de corais empolados pelo tempero solar no declínio dos dias.






Viajantes híbridos, André Barata

sorria, você não está na Barra


[Avenida das Américas, Rio de Janeiro, 2011]

ou o granito branco & vidro verde:


Weather `round here choppin` and changin`
Surgery in the air
Print shirts and southern accents
Cigars and big hair
We got the wheels and petrol is cheap
Only went there for a week
Git the sun got the sand
Got the batteries in the handy cam
Her eyes all swimming pool blue
Dumb bells on a diving board
Baby`s always attracted to the things she`s afraid of
Big girl with the sweet tooth
Watches the skinny girl in the photo shoot
Freshmen squeaky clean
She tastes of chlorine


Miami
My mammy


Love the movies
Love to walk those movie sets
Get to shoot someone in the foot
Get to smoke some cigarettes
No big deal we know the score
Just back from the video store
Got the car and the car chase
What`s he got inside the case
I want a close up of that face
Here comes the car chase


Miami
My mammy
Miami


I bought two new suits
Miami
Pink and blue
Miami
I took a picture of you
My mammy
Getting hot in a photo booth
Miami
I said you looked like a madonna
You said maybe
Said I want to have your baby
Baby
Baby
We could make something beautiful
Something that wouldn`t be a problem
At least not in
Miami
Some places are like your auntie
But there`s no place like


Miami
My mammy


Miami


Miami

[Miami, U2, 1997]




sem disparar um tiro





[Última página do jornal O Globo, 15.11.2011. A Cyrela é uma das mais importantas promotoras imobiliárias da cidade do Rio de Janeiro.]





É este o mantra da pós-operação da Rocinha. Uma reviravolta na narrativa mediátia que, na madrugada de sábado para domingo, progamava o céu a abater-se sobre a cidade.
Repetida à exaustão, a frase ergue-se como fronteira entre o bem e o mal e inventa uma história blindada à realidade. Uma narrativa para ser ela mesma quem a constrói a nova realidade.
Não por acaso, a narrativa que melhor serve, de facto, as partes interessadas no poder sobre a cidade: media, política, imobiliário. 





panis et circensis


[O Globo, 25.11.2010]




Talvez o poder esteja hoje menos na acção que na comunicação, subvertendo a operatividade dos conceitos e, em primeira análise, o próprio étimo das palavras. Se a acção sobre a polis se submete, agora, à acção comunicadora,  subverte-se o principado da política que possui uma legitimação, nas sociedades ocidentais, que emana do processo da democracia representativa.
Os acontecimentos são programados não pela política, em vista à prossecução de um projecto comunitário, escrutinado pelo voto universal, mas pelos media, que servem interesses que nãos os do bem comum, ainda que legítimos. O acontecimento tende a ganhar estatuto de realidade passando a realidade a ser construída a partir da programação do acontecimento e da sucessão destes. E aqui abre-se a porta à completa desvirtuação e desmontagem de um sentido do real porque, a partir daqui, o sentido do real é transmitido – em directo, ao vivo – pela narrativa mediática. Assim foi a última madrugada no Rio de Janeiro:
- A encenação de uma guerra, com termos, retórica e todos os instrumentos adoptados pela comunicação do estado de excepção ou emergência.
- A utilização, encenada também, do dispositivo militar. O objectivo parece claro, em vista à manipulação do medo das classes médias – as de poder aquisitivo, evidentemente – para garantia de obtenção de votos e audiências.
- A estratégia da comunicação, essa da manipulação do medo e dos fantasmas mais profundos de cada indivíduo, recusa qualquer cedência ao logos, não exibindo qualquer argumentação lógica. Naturalmente o recuo da lógica e da racionalidade é ocupado pelo pathos, a-racional, e pela estratégica manipulação das emoções da audiência – e somo todos espectadores.
- A partir do discurso bélico ergue-se uma estrutura comunicacional maniqueísta, como cortina de fumo sobre a realidade. Panis et circensis que desvia o olhar de problemas tão fundos como o conluio polícia-crime. A exibição do ridículo luxo das casas do Nem ou de outro qualquer miserável bandido é o epítome do mal. O signo do criminoso que oprime os pobres bons que são agora resgatados pelo Estado.



Um outro aspecto é o uso da metáfora bélica para demonstração inequívoca de uma acção sobre o território. A narrativa prevalecente, dos heróis do lado do bem contra os bandidos do mal começou a tomar forma quando o Rio de Janeiro assegurou a realização da Copa 2014 e das Olimpíadas 2016. São, portanto, globais, os interesses que se movem em direcção à cidade do Rio de Janeiro e são esses que estão em confronto, muito para além da ingenuidade bem intencionada de muitos.
A ocupação dos morros pelas UPP’s será, quando muito, um golpe para o pequeno traficante, o desgraçado que vende a maconha a retalho à elite da Zona Sul, mas não atingirá o grande tráfico que prosseguirá tranquilamente a sua actividade, devidamente respaldado em ramificações na política e nas forças policiais.  Mas a ocupação terá influência forte sobre a valorização imobiliária nas zonas circundantes – como aconteceu com a valorização de cerca de 100% do valor imobiliário no Botafogo, após a ocupação do morro da Dona Marta – e mesmo no interior das favelas.
Pode-se compreender reprodução vertiginosa da insegurança e do medo, a narrativa oficial, como subjacente à construção de shoppings e condomínios fechados, espaço para onde se auto-segregam os de maior poder aquisitivo. Como se pode compreender, à luz dessa mesma narrativa, os interesses que se escondem por debaixo dela neste Rio de Janeiro pré-Copa e pré-Olimpiadas. Provavelmente os interesses que segregarão ainda mais, para mais longe (das câmaras da TV), quem agora, nesta narrativa épica, está a ser resgatado pelo Estado.

Acabou a guerra que nunca houve. Apenas media e a política. Por esta perversa ordem.







homem em queda







[Rua Marquês de S. Vicente, Rio de Janeiro, 11.11.2011]




São 23h37 no Rio de Janeiro. A Marquês de S. Vicente está tranquila depois ao princípio da noite a Gávea e todos os bairros limítrofes à Rocinha terem sido sobrevoados por helicópteros e de, pela janela, entrar o ruído dos tambores da guerra e do trânsito pesado, presumivelmente, militar. 
O rapaz que me trouxe o jantar trouxe também notícia dos restaurantes e bares vazios do Baixo-Gávea e do deserto de gente da Marquês de S. Vicente. A bonança antes da tempestade anunciada. Uma calma de morte.


Estou preso. Impossibilitado de livremente e em segurança circular. Uma primeira experiência de cárcere em meio o teatro das operações de uma guerra que tem o princípio agendado para as 05h00 desta madrugada. 
notícias do dispositivo militar já em movimento pelas ruas. O Leblon, onde o solo e o imobiliário é transaccionado ao mais elevado valor da América do Sul, serve de entreposto aos tanques da guerra. A Rocinha, a poucos quilómetros, aguarda.


Os media - ou perverso monopólio imperial da Globo - exibem uma exaltação quase libidinal com as imagens e palavras de batalha. Guerra pela Paz, anunciam o absurdo paradoxo, enquanto convocam o espectador para um universo maniqueísta, de bons e maus, de heróis e bandidos.




Outra exaltação e exultação, em Itália celebra-se a queda de Berlusconi. Depois de Papandreou na Grécia, Berlusconi é o segundo primeiro-ministro de uma país europeu a cair por força dos mercados. Ambos devidamente substituídos por técnicos, os quais, com responsabilidades recentes no edifício financeiro europeu. O edifício que agora colapsa e arrasta economias, sociedades, e ilusões. E vidas.
Já antes o primeiro-ministro de Portugal, tal como o da Irlanda, fora substituído no dealbar da crise das dívidas, mas estes, apesar de tudo, legitimamente eleitos pelos respectivos concidadãos. A vez da Espanha, no próximo domingo.
Sopremos sobre a poeira veloz que assenta sobre a realidade à velocidade da informação: ainda teremos saudades de Il Cavalieri. Agente de uma perversa forma de exercício do poder, exercia-o legitimamente, escrutinado pelos eleitores italianos.
A queda do último citizen Kane foi o salto no abismo da Europa. A admissão de que está entregue a poderes difusos e dissimulados que escapam ao contrato democrático e ao escrutínio público. A política ruiu logo onde a humanidade a inventou. A democracia estilhaçou-se no território onde, com muito sangue, foi inventada. A república agora mera abstracção dos mercados.

















Enquanto se anima o Jornal das 10 da Globo News com implacável sorriso, interrompem-se os directos da Rocinha com os do festival SWU  - Começa com você | Conscientização pela sustentabilidade, convém de cedo industriar as almas na neo-religião verde, para alimentar o neo-mercado verde, com consumos verdes - onde, no palco, Snoop Dogg verte mais uma performance da sua arte, impregnada dos valores amesquinhastes de que se alimenta a própria indústria: machismo, sexismo, consumismo, alienação, verdes e sustentáveis, evidentemente. A seguir, a leveza e a pop deliciosa, nas palavras do repórter, dos Black Eyed Peas. A juventude em marcha para a grande sociedade do consumo. Compra compra e sarei felice, na próxima notícia constam as medidas do governo da presidenta Dilma para contraria a contracção, que se prevê acentuada, da economia global e evitar o regresso do Brasil a níveis de crescimento, sic, medíocres. Juros e facilidades de consumo amplamente democratizados. O mundo todo alinhado pelo dogma materialista do crescimento. E do crescimento sustentado no consumo. Haverá um enfarte, de tanto o mundo consumir. Até lá, a alienação. E a felicidade ostentada por um honesto cidadão, em frente à câmara, ao tomar conhecimento desse incentivo petista ao consumo, quando inquirido pela televisão numa loja de automóveis onde se preparava para adquirir a sua desejável viatura.





Zapping à Sic Internacional e a uma minguante e desajeitada manifestação em Aveiro contra o encerramento de serviços de saúde. Portugal envelhecido. Este país não é para velhos. Este país não é para novos. Este país está em lenta agonia.


Silenciosamente, lentamente, imperceptivelmente, ao longo das últimas décadas construímos um país que agora reconhecemos e nomeamos como ruína. 
Na ruína coincide a natureza com a cultura. Nesta ruína do Portugal contemporâneo experimentamos a coincidência da paisagem abandonada, desertificada, arruinada, com a sociedade que se não reconhece mais a si mesma, que se desvinculou da sua história, da sua cultura e do seu futuro. A ruína da paisagem é o preço a pagar pela alienação em ar-condicionado do shopping mall e do glamour da(s) moda(s) ansiosa(s) que a televisão dita. É uma paisagem e uma casa portuguesa, com certeza.
Depois do fim do império, do desfazer dos sonhos europeus, no regresso às fronteiras do séc. XIII, o regresso a índices e à realidade como catálogo da pobreza (material).Depois do lead dos jornais que noticiavam que metade dos portugueses ainda não tinham adquirido – consumido – uma peça de roupa desde o início de 2011, a reinvenção da profissão do engraxador, agora abrilhantada e actualizada pelo design dos alunos do IADE. O design lobo que fetichiza o objecto e a mercadoria e que, com pele de cordeiro, sensibiliza e se sensibiliza com a crise económica. Viver habitualmente sim, mas embalado por design consumível.

















Falta ainda percorrer algumas horas até à invasão da Rocinha. A roça que até há poucos anos produzia alimentos para a Zona Sul do Rio. A roça onde se foram fixando, a partir das décadas de 40 e 50 os migrantes maioritariamente nordestinos, e que encontraram alguma oportunidade nos trabalhos da construção dos novos bairros da cidade, Ipanema, Leblon.
100.000 pessoas obrigadas à pobreza e à marginalização em busca de um módico de dignidade numa sociedade herdeira directa da escravocracia. 
A guerra, o estado de excepção, o Homo Sacer, destituído de direitos mas ainda assim obrigado a um vínculo social que o prende à própria opressão. O abandonado necessita de alguém que o abandone e nesse exílio dentro de si mesmo jamais se desvinculará desse que o abandona. Jamais terá a condição da liberdade.



[Daqui]


O estado de excepção, expressão cada dia mais recorrente nos media portugueses e europeus. Estado de excepção, estado de possibilidade de instalação de todo o tipo de arbítrio e discrição acima da lei. A impossibilidade de pensar o real além da saída única e última que o pensamento único apresenta. A moralidade é frágil, a excepção a força das coisas.




60% da área ocupada pela Rocinha está acima da cota 100, cota a partir da qual não é permitida qualquer construção, na cidade do Rio de Janeiro. A Rocinha ocupa um território muito apetecível: excelente localização, ente a Zona Sul e a Barra, com vista sobre a espectacular paisagem e o mar. Acima da cota 100, a excepção à lei que e necessidade construiu na Rocinha facilmente o mercado imobiliário reverterá em regra.
Não são necessários dotes de vidente para perceber que serão as disposições do mercado a agir imediatamente após a performance do dispositivo de guerra. Depois da violência ostensiva do aparato mediático e militar seguirá a violência silenciosa, mas não menos assassina, do mercado imobiliário.
Mais sucintamente, o mercado inflacionará exponencialmente o valor fundiário, assim se dê a pacificação. Pode ser que este seja o novo nome, politicamente correcto, do que eram as remoções.
O cartão postal mostrar-se-á ainda mais brilhante e luminoso: o poder político, inefável, cúmplice – alguém que não um incauto espectador do império Globo acreditará que o miserável Nem é a cabeça, o signo, de todos os fantasmas que povoam a polis carioca?, que é na desterritorialização do traficante de maconha e cocaína, que serve os mauricinhos da Zona Sul, ainda que tenha proventos de 8.000.000 de reais por mês que, segundo o próprio, metade dos quais iriam para bolsos de forças policiais corruptas, que se resolverá o problema da pobreza e das feridas sociais que ocupam democraticamente o território da cidade com excepção do bairro do Leblon?-, o poder político serve-se da cidade e das feridas que a rasgam para se servir dela. Comunica uma cidade pós-moderna, global e limpa e pacificada erguida sobre a violência, o sofrimento e a morte. Purificada de tudo o que possa machucar a imagem da televisão de efeitos globais com devida ressonância na economia que tem interesses no território da cidade.
O Homo Sacer permanecerá exluído e preso, mas agora longe das câmaras, do afã da copa e das olimpíadas, e da força das coisas do mercado imobiliário.




Hoje, agora, no Rio de Janeiro, há homens com hora marcada para morrer. Não há muito a fazer. Apenas acompanhar a emissão em directo da Globo News.




Há homens com hora marcada para morrer
As minhas orações estarão com eles.







Para a Matilde.




Bartleby, o Arquitecto#2


[R. Barata Ribeiro, Coapacana, Rio de Janeiro, 2011]










A promessa democrática cobriu-nos com o diáfano manto da ilusão do progresso sem fim. Ou antes, que a arquitectura seria a visibilidade construída do projecto político democrático, sustentado na crença profunda do progresso ilimitado. Progresso material, apenas, ao arrepio do alarde utópico e idealista das vanguardas de início do séc.XX.
A arquitectura ergueu ‘máquinas de habitar’, ainda que pouco habitadas e habitáveis, mas manifestas da estética industrial e de engenharia social.
Nefelibatas, arquitectos, acreditámos: as nossas escolas são, ainda hoje, a caixa de ressonância do mecaniscismo estéril, do racionalismo infecundo e do materialismo perverso, que serve tanto o desígnio capitalista voraz, quanto o equívoco igualitário socialista. Capitalismo e socialismo, os dois quadros políticos sem os quais, aparentemente, não nos é permitido pensar, hoje, a realidade; capitalismo e socialismo, os dois lados do mesmo totalitário pensamento materialista, e, ainda que se combatam mortalmente, ou talvez por isso, não são mais que o monopólio do pensamento único que se exprime por estas duas vias violentas. Assinale-se, este é o monopólio da razão utilitarista.

Se a construção da arquitectura é pôr-em-obra, necessariamente, a relação de realidades estritamente mensuráveis, a arquitectura é a construção de princípios impossíveis de aferir pela objectividade precisa.
Ainda que essencial, o quadro de áreas reveste-se hoje a forma do princípio instaurador e constituinte da arquitectura. Sendo a exposição objectiva do valor material da realidade, sendo a realidade, evidentemente, bastante mais larga que o seu resumo monetário, o dogma financeiro – o racionalismo em todo o seu esplendor – é o regime totalitário da construção (arquitectura?), o seu princípio, meio e fim e a sua redução à condição de techné omitindo a poiética.
Mesmo ao mais radical optimista será tarefa de complexidade elevada extrair beleza de um quadro excell.




Bartleby, o Arquitecto

sejamos imperialistas, cadê?*



Império global


É raro o mês em que não leio um livro ou vejo um filme que não me dê vontade de declarar guerra aos ingleses (aqueles que conheço pessoalmente são excelentes pessoas; poupá-los-ia na guerra a travar). O casus belli que recentemente me encheu de fúria assassina tem que ver com a minha profissão de professor de História da Arquitectura: é um calhamaço de 900 páginas intitulado A Global History of Architecture. Foi publicado pela primeira vez há uns anos, mas saiu agora uma edição nova muito remodelada. O editor é norte-americano e os três autores são professores nos EUA: um sino-havaiano-americano, um suíço-americano e um indiano-indiano. Não sendo ingleses, os autores servem a glória do defunto império britânico com um descaramento que não dá para acreditar. 

É pena, porque o livro assenta numa ideia interessante: está organizado em "fatias" temporais começando em 3500 a.C. e comparando todas as arquitecturas dentro de cada período (agora já não se escreve a.C. ou d.C.; escreve-se BCE, "before the current era", ou CE, "current era"; trata-se da estupidez política em todo o seu esplendor: como se o modo de contar o tempo histórico que todos usamos tivesse sido inventado por um senhor chamado Corrente). 

Apesar de a ideia-base do livro ser boa, a sacanagem começa logo no princípio: nas 20 páginas dedicadas às "Primeiras Culturas", anda-se pelo Crescente Fértil, a China, o rio Indo, e chega-se por fim à Europa, que então era um sítio primitivo e não vale mais que uma página e meia. Todavia, desta página e meia, quase dois terços do texto e todas as ilustrações são dedicadas à Inglaterra. O resto afina pelo mesmo tom: a "fatia" correspondente ao ano 1000 tem 50 páginas, 13 para a Europa, das quais duas para a França, três para a Itália e três para a Inglaterra. Das 30 páginas dedicadas ao Renascimento europeu, a inglaterrinha tem direito a 10% (três páginas), enquanto à arquitectura dos espanhóis na Europa e no resto do mundo se concedem cinco (os portugueses só aparecem em meia página a propósito das fortalezas africanas). Perto da actualidade o desequilíbrio entra em vertigem: nos séculos XVII e XVIII, a arquitectura inglesa tem o mesmo número de páginas que toda a gente na Europa, com excepção da Itália, e o século XIX é praticamente apenas inglês (a escolha em matéria de cidades coloniais é simples: houve três: Calcutá, Bombaim e Deli). Finalmente, a primeira metade do século XX tem 60 páginas e mais de 30 vão para as arquitecturas inglesa, colonial inglesa e norte-americana. 

A culpa é nossa, os da Europa do Sul (incluindo os franceses), que não conseguimos "vender" a nossa História? Não. O livro é uma manifestação do poder imperial: foi feito para que toda a gente pense em inglês e para que toda a História passe obrigatoriamente pela Inglaterra e os EUA. É também para isso que recrutam professores de todo o mundo: o poder anglo-saxónico é mais digestível, se for engolido com caril.

Espero ansiosamente por uma história global da arquitectura escrita por brasileiros.



[Paulo Varela Gomes, Público, 5.11.2011]
    

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó 
O que quer 
O que pode esta língua?  [Língua, Caetano Veloso, 1981]

lavoura arcaica#2

lavoura arcaica


[Newcastle, 2009]



Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objectos que o quarto consagra estão primeiro os objectos do corpo; […]


[Lavoura Arcaica, Raduan Nassar, 1975]

Melhor do que isso só mesmo o silêncio. E melhor do que o silêncio só João.* E Siza.

 [Fundação Iberê Camargo, Álvaro Siza, Porto Alegre, © Alexandra Lucas Coelho]


l. Eu não sabia como começar a falar de Porto Alegre para falar dessa iluminação que é a obra de Álvaro Siza em Porto Alegre.

Então João Gilberto veio em meu auxílio.

Quando dois assuntos esbarram um com o outro na nossa cabeça, é porque já têm algo em comum, independente de qualquer cabeça. No caso de Siza e João, uma iluminação em Porto Alegre.

2. João esbarrou com Siza estava eu mergulhada na leitura de Chega de Saudade, um dos livros de Ruy Castro sobre a bossa nova. Parei de o ler agora, na página 215, porque esta crónica sai antes do que tenho de escrever sobre João.

Que contava Ruy Castro? Pois que no começo de 1955 João chegara ao fundo do seu poço no Rio de Janeiro. Esgotara a paciência e os sofás dos amigos. Se o virassem de cabeça para baixo, não cairia um tostão. Vagueava como um indigente, sem dinheiro mesmo para o bonde, cabelo pelos ombros, roupa de quem dormiu com ela uma semana. E a haver plata seria para um fino na Lapa, que na gíria da altura (e até hoje) não quer dizer cerveja e sim marijuana, na sua versão mais barata. Ele vinha da Bahia, viera para o Rio ser tudo o que sabia que era, mas o Rio teimava em não ver. Até que um gaúcho chamado Luís Telles o resgatou, levando-o para a capital dos gaúchos, lá no Sul. Porto Alegre seria o descanso de Joãozinho, com direito a Hotel Majestic na Rua da Praia. E Joãozinho seduziu Porto Alegre, desde o cozinheiro aos boémios gaúchos que passaram a ir dormir de manhã e a falar lento como João, encantados com a voz e o violão do baiano. Em Porto Alegre, conta Ruy Castro, é que João Gilberto começou a sua ascensão até à tona, de onde emergiu com a batida da bossa nova. Ainda teria de passar por Diamantina, Juazeiro e Salvador antes de voltar ao Rio, mas Porto Alegre deu o impulso para cima. Sete meses de raro bem-estar, incluindo uma inédita festa-surpresa a 10 de Junho de 1955, o dia em que João Gilberto fez 24 anos.

3. A primeira vez que fui a Porto Alegre, há um ano, andei pela Rua da Praia com um velho combatente contra a ditadura, passámos pela casa do poeta Mário Quintana e as águas do Guaíba estavam invernosas.

À beira destas águas acamparam uns 250 casais açorianos no meio do século XVIII. A coroa portuguesa tinha enviado mil pares desde os Açores para povoarem as terras do Sul. Parte deles estacionou ali, julgando provavelmente estar diante de um rio - e só há muito pouco tempo os cientistas decidiram que o Guaíba era afinal um lago.

Assim nasceu Porto Alegre, tetraneta de açorianos que depois no século XIX se cruzaram com espanhóis, alemães, italianos, africanos, polacos.

Aqui estudou o gaúcho do interior Getúlio Vargas antes de ser ditador, aqui trabalhou Dilma Rousseff antes de ser Presidente, e aqui falou Mario Vargas Llosa depois de ser Nobel. Por ele vim, há um ano, em reportagem. Mais valia ter ido à beira do Guaíba ver o que Siza viu, e fez.

4. Mas eis que agora, de raspão, volto a Porto Alegre a convite de uma universidade nos arredores. E peço um par de horas para ir à Fundação Iberê Camargo antes de apanhar o avião da noite.

Criada depois da morte do pintor gaúcho Iberê Camargo (1914-1994), esta fundação esteve alojada na casa que fora dele até que o apoio de mecenas permitiu convidar Álvaro Siza para conceber uma sede. O projecto ganhou o Leão de Ouro da Bienal de Veneza em 2002, começou a ser construído logo a seguir num terreno oferecido pela câmara e ficou pronto em 2008.

O arquitecto chama-lhe uma "quase escultura". Sim, e talvez pelas fotografias se possa entender porquê. Mas nenhuma obra de Siza me pareceu tanto uma experiência extra-sensorial.

5. A matéria, betão branco, aparece de repente, indo nós pela marginal, com a montanha à esquerda e o lago à direita. Há uma espécie de buraco na montanha e o museu incrusta-se aí, como se preenchesse uma ausência. É um espaço estreitíssimo, o que obrigou o estacionamento a ficar debaixo da própria estrada. O projecto teria de ser mais em altura que em largura, e assim sobe por três andares, com uns braços exteriores que se desprendem da estrutura e ficam parcialmente suspensos.

Betão branco, uma marginal, uma árvore, um lago que é a ilusão de um rio - eis os materiais, soprados pelo vento e pelo fluxo constante dos automóveis.

Então entramos por uma porta de vidro, pisamos madeira. Átrio com pé-direito a toda a altura do edifício, superfícies brancas temperadas apenas pelo mel da madeira indígena, perobinha. E do lado direito, rampas, uma por cima da outra, curvilíneas.

A tentação inicial é pensar nas curvas e rampas de Oscar Niemeyer, por exemplo o interior da Bienal de São Paulo. Como lá fora podemos pensar nos braços de betão em bruto que ligam as duas torres do SESC Pompeia, projecto de Lina Bo Bardi, também em São Paulo.

Mas então começamos a subir a primeira rampa, e vem o impacto da luz, do claro-escuro, do ponto de fuga. Porque estas rampas de Siza só inicialmente contornam o grande vão central. Na parte que lá fora está suspensa são corredores entre a escuridão e a luz em que nos achamos sós. Levantamos o queixo para as clarabóias, círculos de luz natural ao lado de rectângulos de luz artificial, a parede cresce e afunila consoante nos conduz, e ao fundo sempre aquela luz difusa, cega, como nos sonhos em que imaginamos o depois da morte.

Siza é aquele não-crente que fez uma igreja única em Marco de Canaveses. Lembro-me de lá estar sentada, o rasgão de luz do lado direito, a porta altíssima atrás. Eu já tinha estado em Jerusalém, aquilo não tinha nada a ver com o Santo Sepulcro, mas tinha tudo a ver com a fé dos antigos. E agora, ao longo destes braços suspensos no ar, esqueço-me que estou em Porto Alegre, avanço como num lugar transcendente. De cada vez que a rampa sai para o vão central, volta à forma e à matéria, depuradas como uma síntese de todo o Siza, linhas curvas e rectas entrelaçadas em feixes de luz branca, com janelas flutuando sobre a água e a cidade, muito além. Depois a rampa seguinte puxa de novo para dentro, para o que houver além da morte. A luz é um íman.

Passos, respiração, silêncio. Que ouviria João?



[Siza em Porto Alegre passando por João, Alexandra Lucas Coelho, Público, 22.10.2011]





*Pra Ninguém, Caetano Veloso, 1997

carioca brevis anthropologiae

  [StudioRJ, Rio de Janeiro, 2011]



 Só a um paulistano ocorreria interpor entre a pista de dança e a brisa do mar de Ipanema e a vista para o Morro dos Dois Irmãos, um bar. E vidro baço, despois.

urgências

 [Via Verde, Grimshaw Architects, Dattner Architects, Nova Iorque] 


 O New York Times tem novo crítico de arquitectura. E Michael Kimmelman anuncia ao que vem:

[...]
The profession, or in any case much talk about it, has been fixated for too long on brand-name luxury objects and buildings as sculptures instead of attending to the richer, broader, more urgent vein of public policy and community engagement, in which aesthetics play a part. 
[...] 
Green design, when it hasn’t been turned into a gimmick and marketing device, has mostly been pushed publicly for its environmental benefits and lower energy costs. But the promotion of health is green’s other, less trumpeted side. What is a healthy building?
[...] 
The greenest and most economical architecture is ultimately the architecture that is preserved because it’s cherished. Bad designs, demolished after 20 years, as so many ill-conceived housing projects have been, are the costliest propositions in the end. 
[...]
Of course a building consists of more than its skin and the claims of its makers. Its aesthetics remain inseparable from its function. It has to work, for the people who use it and live with it, not just see it. The real test for Via Verde — watch this space — will be once its residents have settled in, to see how green and healthy and gracious they actually find it. 


 Todo um programa, como se usa dizer.

migrações

 [Mis pajaros #2, Claire de Santa Coloma, 2010]



 fico aguardando telegramas, 
os azuis recados. 

[A Pequena Face, António Franco Alexandre]

geopolítica do caos#2


[Back2Black, Os Gêmeos, Rio de Janeiro, 2011]




Dany le Rouge no Rio


1. Estou sentada em cima de um saco de arroz do Uruguai e Daniel Cohn-Bendit está sentado numa pilha de sacos de arroz do Uruguai, e estamos os dois dentro de uma estação de comboios desactivada no centro do Rio de Janeiro.
Em volta, cariocas de purpurina na cara ou cerveja na mão, flutuantes, etéreos. Ao fundo, música, Oumou Sangaré.
“E a música parava pra pensar”, cantaria Caetano. “Aí o anjo nasceu, veio o bandido meterorango
/ Hitler terceiro mundo”.
Velho e Novo Mundo, somos nós.

2. Declaração de interesses: os bilhetes eram caros e eu não pagara para entrar. Na véspera tinha moderado um debate com Wael Ghonim, o ícone da revolução egípcia via satélite, lá do Dubai. O debate inaugurara o festival, depois levaram as cadeiras, veio a geral de pé. A sala dos convidados ficava um andar acima. Havia bebidas e um batalhão de recepcionistas de preto, tentando verificar a pulseirinha no pulso dos convidados. Os convidados iam e vinham entre a varanda e o bar. Quem estava comigo disse:
— Aquele não é o Cohn-Bendit?
Um homem sozinho, encostado, copo na mão, óculos e blaser, cabelo pálido, mas sim, antigamente ruivo. A juventude é o mais cruel dos meses. Ri para sempre da polícia em Maio de 1968 e no mês seguinte já foi. Era ele, Dany le Rouge.

3. À falta de mezcal, teremos sempre a cachaça, mesmo a da vulgata, e portanto na cena seguinte já somos uma roda, incluindo metade dos habitantes da minha ladeira, um português católico que se declara de direita e uma brasileira judia que nunca ouviu falar naquele judeu francês — aliás, alemão, como disse De Gaulle, antes de o expulsar.
E, claro, falamos de futebol.
Dany le Rouge está na sua pele de Dany le Vert, veio debater ecologia, mas com um olho em 2014. Quer fazer um filme sobre jogadores em favelas antes do Mundial. Além disso, amanhã vai ver o Flamengo-Vasco. Comprou bilhete.

4. Foi-se a roda. João, o católico, acha-se na varanda entre dois ateus. Dançamos as canções tuaregues dos Tinariwen, que revoluteiam pelo palco, com as suas asas azuis. Eu e João teremos sempre a cachaça, Dany dança de mãos livres.

5. No dia seguinte, o palco é dele e de Marina Silva. Ao ouvir Marina, ele dirá que agora percebe porque é que ela teve 20 por cento dos votos nas presidenciais, forçando uma segunda volta. Marina deixa a plateia a um passo de dizer “Aleluia!”, difícil arrebatar depois de uma iluminada, mas ainda estamos a falar de Dany le Rouge. Aos 66 anos, agarra o microfone e transforma-se no rapaz ruivo que dizia: “Eu sou um megafone.”
Então conta como os pais, ele alemão, ela francesa, ambos judeus, fugiram da Alemanha para França durante a ascensão nazi; como seria louco alguém dizer então que um dia não haveria fronteiras dentro da Europa; como foi desse caldo que ele nasceu para em 1968 querer mudar o mundo; e como agora os danys não são rouges nem querem mudar o mundo, só querem que haja mundo amanhã.
Não sei o que resta de vermelho no verde, mas ao longo dos anos Daniel Cohn-Bendit tem apanhado pancada da direita e da esquerda, o que pelo menos quer dizer que não está parado, e certamente não está parado em Maio de 1968.
Há mal nos bons, bom nos maus, o mundo é confuso, nunca foi tão confuso, diz ele. E ao ouvi-lo, neste palco do Rio de Janeiro, em 2011, ouço um europeu, e não um europeu morto, abençoado seja.

6. Depois do debate verde, Oumou Sangaré toma o palco, e enquanto não arranca o turbante vamos ter muito concerto pela frente. Nas traseiras da velha Estação Lepoldina, há uma espécie de “chill out” com pilhas de sacos de arroz para deitar ou sentar. Assim de noite, ao ar livre, tem algo de trincheira, de cais de comboio da II Guerra Mundial, mas talvez só a velhos europeus como nós ocorra semelhante ideia. Nenhum carioca vai perguntar que sinos dobram por aqueles que morrem como gado, pelo menos não aqui, não agora, quando aqui e agora está bom.
Sentado na sua pilha de sacos, Cohn-Bendit conta como Hannah Arendt lhe escreveu uma carta que nunca chegou. Ela guardava cópia das cartas e foi assim que ele acabou por a ler. Um dia abriu uma biografia dela e lá estava, reproduzida, uma carta para o pequeno Daniel Cohn-Bendit. Porque o círculo berlinense dos pais incluía Walter Benjamin e Hannah Arendt.
Nascido em Montauban, filho de dois refugiados, Dany le Rouge cresceu sem nacionalidade, só escolheu ser alemão para escapar à tropa e entrou na história como francês, liderando o Maio de 68.
Agora Ben Ali caiu, Mubarak caiu, Kadhafi caiu, tudo isto são revoluções continuando a revolução, acha ele. E acabado de voltar de Israel, viu os israelitas na rua, cansados do dinheiro que a ocupação gasta. Ele acredita que a ocupação vai acabar por razões económicas. Porque sai cara.
Portanto, eu estou sentada num saco de arroz do Uruguai e Daniel Cohn-Bendit está sentado numa pilha de sacos de arroz do Uruguai, e estamos os dois dentro de uma estação de comboios desactivada no centro do Rio de Janeiro e falamos de Israel, onde ele trabalhou num “kibbutz” mas nunca pensou morar porque tem demasiados judeus, e ele gosta da ideia dos judeus espalhados por toda a parte.
Sim, o mundo acabou, mas entretanto é nosso.
Levantamos o rabo, vamos ouvir Oumou Sangaré.




[Alexandra Lucas Coelho, Público, 3-9-2011]






geopolítica do caos





[Earth Lights, Nasa]




Em um mundo pós-americano, pode não haver centro ao qual se integrar. O secretário de Estado James Baker sugeriu em 1991 que o mundo estava avançando para um sistema hub-and-spoke [centro e raios], em que cada país teria de passar pelos Estados Unidos para chegar ao seu destino. O mundo do século XXI talvez seja mais bem descrito como um mundo de rotas ponto a ponto, com novos padrões de voos sendo mapeados todos os dias. (Isso é verdade até no sentido físico: em apenas dez anos, o número de visitantes russos à China aumentou mais de quatro vezes, de 489 mil em 1995 para 2,2 milhões em 2005.) O foco mudou. Os países estão cada vez mais interessados neles mesmos – a história de sua ascensão – e dão menos atenção ao Ocidente e aos Estados Unidos. Em consequência, as discussões obrigatórias da campanha presidencial americana ao longo de 2007 sobre a necessidade de se diminuir o antiamericanismo erraram um pouco o alvo. O mundo está mudando da raiva para a indiferença, do antiamericanismo para o pós-americanismo.


[O Mundo Pós-Americano, Fareed Zakaria]





[ still de Over Your Cities Grass Will Grow, Sophie Fiennes, Anselm Kiefer]




A Fénix é, na verdade, o símbolo da pretensão narcísica da criação ex-nihilo, das cinzas da destruição de tudo aquilo que nos precedeu; porque, se os fenómenos naturais, como os terramotos, ou os eventos históricos, como as destruições de cidades, deixam atrás de si as ruínas, e das ruínas é sempre possível reconstruir o passado, das cinzas não pode nas outra coisa senão o mito da Fénix.


[Ambiguidade, Simona Argentieri]






a comunidade que é





[Theatro Municipal, Francisco Passos, Albert Guilbert, Cinelândia, Rio de Janeiro, 1909]



Como jogo de espelhos, vemo-nos a nós próprios. Cada vez no teatro, é um pouco mais de avanço da luz e da sombra do que somos, sobretudo, enquanto comunidade.
É deles o lugar privilegiado das cidades. O lugar onde a cidade se reconhece.
O teatro é, com certeza, o lugar mais civilizado das cidades.


uma casa para Bartleby#2


[Normandia, Agosto 2011, Pedro Neves]


Hegel concede à arquitectura o primado entre as artes liberais. Não por acaso atribui à imediata função da arquitectura simbolizar-se a si mesma – pirâmide, túmulo -, como que designasse a ordem, a proporção, a harmonia clássicas, a essência da própria arquitectura, em que as formas seriam modeladas pelas essências fixas da sua função. Para tal seria necessária a ponderação e a cautela pelo uso da razão e das suas regras na especulação arquitectónica como, de resto, em toda a elaboração humana.
Mas a especulação é já um excesso da razão. Porque não é fixa, nem estável, como o pressuposto clássico, a arquitectura romântica explode em simbolismo, o uso exacerbado do decorativismo e do detalhe. O controlo do excesso, a teleologia da própria arquitectura segundo Hegel, torna-se antes uma teleologia da auto-aparência, numa expressão das contingências do próprio projecto, da realidade. Auto-referente, a arquitectura tornar-se estéril quando refém da dominância da função; em lugar de abertura, há encerramento. E violência.











[Normandia, Agosto 2011, Pedro Neves]



Inacção que não se confunde com inércia.
As palavras sobre palavras sem qualquer vestígio do real que não a realidade do marketing urbano – vago, vazio, irreal e absurdamente concreto – que exigem à arquitectura recuo e defesa. A inacção pode ser a recusa civilizada em alimentar a cadeia humana da conquista agressiva dos limites do outro. Ou talvez uma desesperada última tentativa em defesa de um limite, de um corpo, de uma casa, de um território, de uma cultura.
É quando a linguagem é encarcerada na mais pobre das suas funções, a comunicação, que ela se torna violência. E tem início a destruição do real e, por extensão, da arquitectura.
Ah Bartleby! Ah Humanity!


cotidiano#13


[Lagoa, Rio de Janeiro, 2010]




Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens agitados sem bússola onde repousem


Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados
Por todos os destinos
Desempregados das suas vidas


Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas


Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar




Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas varandas voltadas para a velhice
Muito danificados pelas intempéries
Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para o diálogo interior




Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber


Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginando relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior




Não levantemos os homens que se sentam à saída
Porque se movem em seus carreiros interiores
Equilibram com dificuldade uma ideia
Qualquer coisa muito nítida, semelhante
A uma folha vazia
E põem ninhos nas árvores para se libertarem
Da gaiola terrível, invisível muitas vezes
De tão dura
Não nos aproximemos dos homens que põem as mãos nas grades
Que encostam a cabeça aos ferros
Sem outras mãos onde agarrar as mãos
Sem outra cabeça onde encostar o coração
Não lhes toquemos senão com os materiais secretos
Do amor.
Não lhes peçamos para entrar
Porque a sua força é para fora e a sua espera
É a fé inabalável no mistério que inclina
Os homens por dentro
Não os levantemos
Nem nos sentemos ao lado deles.
Sentemo-nos
No lado oposto, onde eles podem vir para erguer-nos
A qualquer instante


[Homens que são como lugares mal situados, Daniel Faria, 1998]

lume brando

i

O problema número um para mudar: não se pode continuar a fazer projectos com os prazos que os clientes nos impõem. Não é que não se consiga, o que se faz é mau.
[...]
Por exemplo, um projecto importante, num sítio importante, onde todos vão ver durante anos, que vai afectar muita gente, que custa muito dinheiro, e cá dão-nos um prazo de três ou quatro meses? Tudo atabalhoado. Depois diz-se: a obra resvalou. Uma mentira. O Estado e os clientes gostam de mentir a eles próprios. O português gosta de ser o 'chico esperto'. A arquitectura é uma arte social que desenha espaços, mas a coisa mais importante para desenhar espaços é o tempo.
[...]
Este é o problema principal, porque isto degrada. Porque as pessoas gostam de fazer arquitectura, submetem-se a condições incríveis, e como não são super-homens nem super-mulheres, os projectos sofrem e nem sempre são bem feitos.
[...]
Os arquitectos andam entusiasmados com as formas e pensam pouco nisto, mas acho que é fundamental arrumar a casa. O cliente, os bancos, as pessoas que têm dinheiro, os construtores, os projectistas, estabelecem as regras do jogo. Com um baralho de cartas posso jogar à sueca, bisca ou canasta, mas tenho de saber o que vou jogar. E eles também. O importante são os projectos serem mais bem pagos, até já me contento com a tabela existente, mas que seja aquela, e a seguir tem 10 a 20 páginas a dizer: pagando este tanto, o projectista terá de fazer isto, isto, etc, e de certeza que os projectos ficam melhor. Os projectos são divididos em quatro fases: programa base, estudo prévio, anteprojecto e projecto de execução. Obriga a revê-los quatro vezes, a fazer maquetas quatro vezes e, nas últimas duas fases, a entregar orçamentos e saber na fase final se o projecto fica muito caro ou barato e rectificar para melhorar. Ontem pediram-me para fazer um projecto num mês. Não merecemos isto. A questão do tempo dos projectos é o principal. E há outras coisas que se arrastam, como por exemplo ter-se uma tabela e ser-se melhor remunerado. Porque, no fundo, os arquitectos não falam muito nos honorários, mas eu falo muito. Porque como me reduzem o tempo, e como é pouco tempo, mesmo que o pagamento seja mau, dá ela por ela. Mas não pode ser.


[Eduardo Souto Moura, Expresso, 10.09.2008]













ii.

[Horta, Ilha do Faial, 1999 / Biscoitos, Ilha Terceira, 2005]

A duração é o que de nós e em nós produz a significação da realidade. É a organização da vida. Não no tempo dos relógios, não na narrativa linear das coisas que se sucedem nos rumores do jornalismo. A sucessão é aleatória, subordinada ao regime da consciência. É a sucessão das imagens que nos habitam - que habitamos - e não dos conceitos que erguemos e reduzem a realidade ao catálogo ambíguo das palavras. Uma espécie de complacência onde o que importa é a aguda consciência do eu no mundo. A suspensão, a epoché, a nova ordem que emerge da supressão da realidade, para o real se tornar mais intenso, o caminho de regresso a nós mesmos. O regresso ao eu como registo e fixação e inscrição do eu-no-Mundo. Duração como recuperação e regresso da experiência do real.
A experiência contínua, não sucessiva, irrepetível, dos lugares e das coisas. A experiência e o desejo do consolo do mundo: o belo é a transcendência do mortal ressumado, na sua “inteligência” – racionalidade – à sua condição passageira – animal.
O elogio do tempo, da efemeridade das coisas que permanecem, que nos conduz à união. Ser vivo com as coisas do mundo. O lugar é chíasma, o salto, o abismo e o regresso.

E finalmente:
feliz todo aquele que tem os seus locais de duração;
porque, mesmo que para sempre seja forçado a partir para uma terra estranha,
sem esperança de regressar ao seu próprio ambiente, não será jamais um expatriado.

E os locais da duração também nada têm de notável,
muitas vezes nem estão assinalados em nenhum mapa
ou não têm no mapa qualquer nome.


Um modelo perfeito do mundo inteiro.
[...] a festa de agradecimento da presença no lugar.

Impulso temporal da duração, tu rodeias-me
de um espaço descritível
e a descrição cria o espaço que se lhe segue.


[...] acabo por não ser simplesmente só eu.
A duração é o meu desprendimento,
ele deix
a-me sair e ser.



[Poema à Duração, Peter Handke]