uma questão de método*


[Jerusalem, Anselm Kiefer, 1986]


A ideia, tão reiterada, de que há leis, procedimentos, decisões, práticas que constituem “retrocessos civilizacionais” baseia-se numa ideologia do progresso que se manifesta, na sua versão mais comum, em declinações deste tipo: “Como é que em pleno século XXI isto pode acontecer?” O espanto perante aquilo que é visto como um recuo da civilização nasce da conceção de que esta segue uma marcha imparável em direção a um ponto onde se atinge a perfeição absoluta. Mas o próprio conceito de civilização é bastante impreciso, e percebemos que ele é suscetível das maiores confusões quando nos lembramos que, no século XIX, na Alemanha, se forma a oposição — o “antagonismo abissal”, dizia Nietzsche — entre cultura e civilização. De certo modo, reivindicar a “Kultur”, contra a “Zivilisation”, como o faz Thomas Mann nas suas “Considerações de Um Impolítico”, significa defender a unidade, a forma, o estilo, o gosto, aquilo a que na época se chamava ainda ‘organização espiritual’, contra o domínio da civilização material.


Civilização era essencialmente uma invenção francesa, com a qual a nação revolucionária tinha tentado atribuir um valor universal ao que se passava, no campo das ideias e dos acontecimentos políticos, no hexágono. Contra a civilização que se alimenta de cosmopolitismo e de progresso tecnológico, de iluminismo e de ceticismo, a Alemanha reivindicou a “Kultur”, o enraizamento cultural. De tal modo que a “Kultur” alemã acabou por se tornar suspeita de conduzir ao nazismo, como se houvesse uma lógica que segue em linha reta do romantismo alemão ao Terceiro Reich, do hino ao Reno de Hölderlin à Solução Final. Seja como for, suspeitar da cultura e manter algumas reservas em relação às promessas progressistas da civilização deveria ser uma questão de método e de exigência crítica.


[António Guerreiro, Ao pé da letra, Expresso-Atual, Portugal, 9.7.2011, via André Dias]


*O Sacrifício, Andrei Tarkovsky, 1986





situação Drummond


[Centro, Rio de Janeiro, 2010]


Homens que são como lugares mal situados, coisas situadas pelos lugares que nos situam.
Entro todas as manhãs na enseada como um dia entrei no mundo; o clarão azul da tua fotografia. A Avenida Atlântica situa essas
coisas numa palidez de galáxias.





cotidiano#11


[Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro, 5.07.2011]


Foi quando a luz
voltou e vimos
o rosto da jovem
que se picava junto
à mureta do Aterro,
a camiseta salpicada,
a seringa suja.
“Nenhum poema
é mais difícil
do que sua época”,
você disse
em meu ouvido
sem que eu soubesse
se era a ela que se
referia ou se ao livro
que passava das mãos
para o bolso
da jaqueta.
Distinguimos
lá longe
a Ilha Rasa,
calçamos
os tênis
e seguimos
sem atropelo
sentido enseada.




[Parte I: Paraíso, Tubo, in Monodrama, Carlito Azevedo, 2009]







cotidiano#10





[Enseada do Botafogo, Rio de Janeiro, 2010]


O corpo quase que morava ali, equilibrado nas curvas da enseada
Ao lado dos carros vermelhos que transportavam os donos da vida para seus escritórios
Ao lado dos emigrantes subjugados ao infinito
E crianças reclinadas sobre as ondas azuis.
Tantas vezes o corpo sobre as curvas, tantas
Que ficou como certas casinhas tortas, que jamais podem ser evocadas fora da paisagem.



[Enseada do Botafogo in Face Imóvel, Manoel de Barros, 1942]






Como estou só: Afago casas tortas,
Falo com o mar na rua suja…
Nu e liberto levo o vento
No ombro de losangos amarelos.

Ser menino aos trinta anos, que desgraça
Nesta borda de mar de Botafogo!
Que vontade de chorar pelos mendigos!
Que vontade de voltar para a fazenda!

Porque deixam um menino que é do mato
Amar o mar com tanta violência?



[Na enseada do Botafogo in Poesias, Manoel de Barros, 1956]





exilium#3


[Ipanema, Rio de Janeiro]



Uma das evidências dos lugares é a arquitectura. O homem constrói porque habita. O espaço construído no lugar que resulta do refluxo minucioso do trabalho telúrico, oculto, dos lugares com as pedras que juntamos. É pelo desejo que as mãos fazem coincidir e revelar a geografia com o que transportamos: montanhas e vales; mitologias pessoais e colectivas; experiências do passado que não recordamos; o corpo; a superfície fria da solidão necessária à mais proveitosa reunião gregária. Depois, a topologia: a invenção dos nomes e tentativa de dizer o mundo; o combate à resistência do mundo que persiste em ocultar-se e em dizer-se. Talvez menos subtil e volátil que a poesia, é também este o trabalho da arquitectura.

Michel Onfray ensaia dizer os lugares através da(s) viagem(s). O viajante, nómada que se cumpre no desenraizamento e na afirmação dionisíaca da descoberta de si na diversidade do mundo. É a este viajante que cabe contrariar a supressão da História que as cidades globais pretendem contar. É este o Marco Pólo exaltado que conta ao Kahn, de si para si, a beleza que encontra no mundo e nas cidades. O viajante que celebra o avião 'que troça do ar', ri da gravidade e, ao fazer a volta ao mundo, é com o prazer infantil se comove com distância que nos une a todos ao ‘fogo furioso incandescente’ do centro da Terra. O viajante, máquina desejante de Deleuze, ligação e interpenetração dos ‘fluxos contínuos’ que nos re-ligam aos confins do Universo.

A alternância entre partidas e chegadas, que pode ser uma possibilidade para uma definição do habitar heideggeriano, é, em Augé, o palimpsesto onde se reinscreve, incessante, o jogo da identidade e das relações com o mundo a partir dos quais ela se constrói: como extremidades inalcançáveis, o lugar que nunca se apaga verdadeiramente e o não-lugar que resiste a realizar-se. Uma escrita, débil, precária, da permanente incompletude, ou da inatingível completude.

O reencontro.
O Judeu Errante, o condenado ao qual não é permitido fixar-se – habitar - é o que nunca chega a casa, o que nunca acha o sentido da viagem. E do mundo. A viagem - o mundo - só se reconhece na sua plenitude no reencontro com a morada. Na casa. No habitar. 'Na arte do habitar concentram-se práticas de arquivo quotidianos, é verdade, mas também se articulam hábitos, rituais sem os quais a angústia não pode ser conjurada, permanecendo e consumindo o corpo e a alma.' É necessária a demora e a ritualização dos dias. Permanecer – ser - junto ao fogo familiar e determo-nos nas leis da hospitalidade que exigem tecto sedentário. O lugar que se reencontra e torna inteligível no habitar.

Eis a perturbação do viajante que é também política: contra a ponderosas razões (e i-razões), de Estado, sangue, de solo, o viajante é o que procura o mundo, dizê-lo de novo, singular, único; é quem perturba e desorganiza a disposição social estabelecida. É o que ama a liberdade, conduz o seu destino pelo Sol e contraria a paz aparente do quotidiano. O estrangeiro que nos outros lugares (do outro) se descobre a si mesmo. ‘Nós próprios, eis a grande questão da viagem.’

O mundo constituído e dito por todos os lugares e manhãs do mundo, em somos peregrinos, onde a peregrinação é o modo do habitar.


interiores#2





[Barcelona Lit, Mies van der Rohe]



CAPÍTULO LXXXII / O canapé


Deles, só o canapé pareceu haver compreendido a nossa situação moral, visto que nos ofereceu os serviços da sua palhinha, com tal insistência que os aceitamos e nos sentamos. Data daí a opinião particular que tenho do canapé. Ele faz aliar a intimidade e o decoro, e mostra a casa toda sem sair da sala. Dous homens sentados nele podem debater o destino de um império, e duas mulheres a graça de um vestido- mas, um homem e uma mulher só por aberração das leis naturais dirão outra cousa que não seja de si mesmos. Foi o que fizemos, Capitu e eu. Vagamente lembra-me que lhe perguntei se a demora ali seria grande...

- Não sei- a febre parece que cede... mas...

Também me lembra, vagamente, que lhe expliquei a minha visita à Rua dos Inválidos, com a pura verdade, isto é, a conselho de minha mãe.

- Conselho dela? murmurou Capitu.

E acrescentou com os olhos, que brilhavam extraordinariamente -- Seremos felizes!

Repeti estas palavras, com os simples dedos, apertando os dela. O canapé, quer visse ou não, continuou a prestar os seus serviço às nossas mãos presas e às nossas cabeças juntas ou quase juntas.



[Dom Casmurro, Machado de Assis]




[Naquele Tempo, Pinxinguinha]

abismos#3


[Storm King' Wall, Andy Goldsworthy, 1998]


A contingência pura do meu lugar


Não se pode dar o caso de eu não ter um lugar, pois estaria então, relativamente ao mundo, em estado de sobrevoo, e o mundo já não se manifestaria de nenhuma maneira (...). Por outro lado, embora este lugar actual possa ter-me sido atribuído pela minha liberdade («vim» para aqui), só pude ocupá-lo em função do que ocupava anteriormente e seguindo caminhos traçados pelos próprios objectos. E este lugar anterior reenvia-me a um outro, este a outro ainda, e assim sucessivamente até à contingência pura do meu lugar, ou seja, até aquele dos meus lugares que já não reenvia a nada de mim: o lugar que o nascimento me atribui. Realmente, de nada serviria explicar este último lugar por aquele que a minha mãe ocupava quando me deu à luz: a cadeia quebrou-se, os lugares escolhidos pelos meus pais não poderiam valer de forma alguma como explicação dos meus lugares (...) Nascer é, entre outras características, tomar o seu lugar, ou melhor, de acordo com o que acabamos de dizer, recebê-lo.


[O Ser e o Nada, Jean-Paul Sartre, 487]


via André Barata





Mas poder-se-á pensar esse lugar, em razão da nossa não-escolha, como um lugar que nos ocupa ainda antes de a ele chegarmos via essa sucessão de lugares que vamos ocupando? Nascer, portanto, a dádiva maior, o lugar que nos é gratuitamente dado, que existia antes de nós, e do qual somos precisa e permanentemente reenviados?





abismos#2





[Hefei, China, 21.05.2011, in The Economist]



Os optimistas chamavam de visionários aos starchitects. Resgatadores do futuro, que promoveriam, pelas suas intervenções, vertiginosas performances económicas, sociais, culturais, nas cidades. Antecipando o futuro, uma espécie de mercado de futuros das cidades. Não por acaso foi o rebentamento do mercado de futuros, em que se transformou o mercado imobiliário, a origem da crise económica do Ocidente. Não por acaso, assistimos hoje à migração desses starchitects para latitudes emergentes, com tudo o que daí importa, desde a produção das imagens aceites como globais, à hegemonia de um pensamento sem qualquer contrapartida crítica. E neste mundo todos queremos construir ícones.
O ícone, o objecto de culto diante do qual se baixa os olhos, limite da correspondência da a imagem com o objecto, da representação com a presença (Régis Debray), ergue-se como arquitectura encerrada sobre si, desvinculada de qualquer lugar. Um erguer, mais que um constuir, também ele refém do aparato performativo tecnológico. Se de momento o dogma é o da sustentabilidade, equivocada, sem dúvida, e martelada pelos classificados e desdobráveis da promoção imobiliária, já foi o do progresso infindável. E se este é optimista, radicalmente optimista, o outro, é o do medo: do fim dos recursos, do fim do nosso padrão de vida, quando temos já a consciência quer da finitude dos recursos, quer da nossa capacidade de aniquilação da vida no planeta. Mas foi nesse projecto optimista, nesse projecto moderno, que era também o projecto de uma democracia universal, que a ruptura sucedeu. A imposição do projecto moderno é, em última análise, a universalização dos mitos românticos da originalidade, do génio, da novidade, da vontade. Talvez por isso seja a arquitectura “estrela” um campeonado de pilinhas tornitroantes.

A reacção pública à música contemporânea tem paralelos com a reacção do mesmo público à produção arquitectónica comtemporânea. A vox populi consagra o mamarracho. E à mesma vox populi, que consome e se consome em pastiches nostálgicos de uma civilização rural que nunca foi o paraíso que perdemos, respondem os arquitectos com a infundada e ignorante incompreensão das massas à evidência das arquitectura que constroem. O paradoxo da democracia, voltando aos parágrafos acima, é convocar, então, essas arquitectura incompreendidas para a sua auto-representação. O poder, presumivelmente representativo dos cidadãos, decide legar-se e celebrar-se na polis justamente pelas arquitecturas que estas, quotidianamente, rejeitam.

Torna-se evidente que a resposta reside nos lugares, por maior que seja o apelo e o desejo de um mundo encolhido e próximo. Globalização ou mundialização é apossibilidade de o mundo se tornar menos plano, mais aberto, de nos tornarmos mais recíprocos. Se a condição da arquitectura no lugar é a incessante relação destes, o nosso lugar hoje é maior porque o mundo encolheu. Admitindo que é das sensações que releva a experiência, é esta, paradoxal, e caótica, a nossa contemporânea.
The past is never dead. It's not even past. O tema faulkenriano torna precisa a necessidade de ter que lidar com o presente. E se algum do presente pode ser acusado com esta veemência reaccionária, admitindo que possamos fundir o conceito de presente com o de contemporaneidade, é porque a produção desse presente, de que todos somos responsáveis, é sem memória do que foi e sem desejo do que será.



abismos





[Lighthouse Tower, Rio de Janeiro, Mikou Design Studio]



Na verdade gostaria de pensar o que quer que fosse sobre isto. Mas isto explica-se a si mesmo. Uma coisa. Espúria, inconsequente, vaga, vazia, destituída de qualquer sentido do que quer que seja. Ou, pelo contrário, a afirmação – narcísica – do zeitgeist, que convoca, numa imagem, todas as patologias de que enferma a arquitectura mainstream ou publicável. Enventualmente, este exemplo seja tão eloquente como qualquer outro extraído de um qualquer sítio da rede.
A exemplaridade deste farol anuncia-nos o espírito do tempo, tanto como a condição cultural genérica em que quotidianamente submergimos, como o totalitarismo com que esta estética, dirigida e dirigista para a circulação e consumo instantâneos, opera. E há, claro, a questão narcísica, inevitável na prática contemporânea da arquitectura.
O totalitarismo deste tipo de imagens, destituídas de significado mas revestidas de lancinantes apelos à percepção e à consciência domesticada, que exluí do real a faculdade deste ser o território em que se constroem, inventam, abrem possibilidades. Em que o real é apenas o observável - consumível -  a partir de uma perspectiva unívoca e, presumivelmente, global, de que este tipo de produção de imaginário é o braço armado.

A fantasia, como apelo, é sempre de marketing apuradíssimo: This tower is for us the poetic embodiment of its natural and urban surroundings. It summarizes the tropical experience associated with lush South American vegetation, the deep skies of Brazil and the sensorial urban landscape. We have thought up a truly Brazilian tower which symbolizes the imagination, beliefs, myths and memories of Brazilians. One made of sensitive perceptions of light, sound, atmosphere and sensual experiences related to its geographical and urban location. An abstraction of the female form, our tower is rooted on the island of Cotunduba and offers itself to the sea via a large jetty. It is designed as an arch at the entrance to the city, a figure that frames the Brazilian landscape by a window cut into the organic shell. (???)

Não recuso o elogio da superfície. Pelo contrário, a obsessão pelo interior tenderá a elidir a superfície das coisas como o nosso primeiro contacto com o real, relegando-a, à superfície, ao que é carecido de valor. A perda dá-se quando a erosão aniquiladora da superfície desoculta uma realidade inefável, antes de qualquer possibilidade de completude no real. E a completude, a incessante e dinâmica relação entre uma construção e o seu entorno, é aquilo a que um ícone, encarcerado nos seus significados, está vedado.
À gramática da arquitectura sobrepõe-se um discurso de imagens: a frivolidade obstinada na construção de abismos vazios.




i vitelloni#2


[Av. Delfim Moreira, Rio de Janeiro]



Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
trouxe imigrantes?
trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.



[Inocentes do Leblon, Carlos Drummond de Andrade in Sentimento do Mundo, 1940]




Drogas, tou fora
Tá foda
Agora vambora
Nem vinho tomei
Me sinto muito sozinho
E ela é a lei


[Falso Leblon, Caetano Veloso, 2009]






i vitelloni


[Av. Graça Aranha, Rio de Janeiro]




Primeiro a praia, depois uma estréia,
depois o Baixo, e finalmente a festa
de madrugada, numa cobertura:
e eis que as nuvens a cobrir a lua
e o Corcovado já se dispersavam,
auspiciando uma manhã de praia
para um rapaz que àquela altura era
o derradeiro barco pra Citera.



[Antigo Verão, António Cícero]






onde estás?


[Praia do Botafogo, Rio de Janeiro]



Parado no ônibus no último semáforo da São Clemente. Abre o sinal e abre-se a Baía da Guanabara. Todas as manhãs, atrás entre o inferno do trânsito do Botafogo - passagem ente Norte e Sul, garganta da geografia absurda – e o display luminoso do iPod. À frente a luz luminosa o céu de um azul celeste celestial. A Coca-Cola no alto do prédio mais alto da Praia do Botafogo, sinal do tráfego nocturno da baía, luz néon artificial vermelho de Atlanta, igual a Tóquio, a mesma de Times Square: todos somos iguais, universalmente unidos no consumo. Um hambúrguer ou a possibilidade de escolher uma iguaria vietnamita ao lado do boteco nordestino. Somos um, somos todos, todos atravessamos o mesmo sinal. Já há novo governo em Lisboa?, reload a página do Público.
Troco o random dos dedos sobre o iPod, ou Mozart ou Einsturzende Neubauten entre uma chamada de Lisboa, onde estás?, uma mensagem para Londres, onde estás?, uma imagem de Buenos Aires, venha à Copa América. Propaganda dos lugares, economia das cidades. Onde estás? São Paulo Fashion Week, na propaganda seguinte, nos corpos padronizados das imagens glam de griffes globais. No ecrãn do ônibus a Rede Globo twitta em menos de 140 caracteres e uma imagem um novo governo em Portugal e um restaurante texano que serve bife de leão, separados pelos augúrios do dia para os sagatarianos. Português falado com acento alemão espanhol francês pernambucano babélia lusófona trans-oceânica.
Será que ela está no Pão de Açúcar? Onde estás? Estar-aí, ser-aí.
As manifestações tecnológicas do lugar, a privacidade dentro do espaço público e a extensão do lugar aberto e comum dentro da intimidade. Abre o sinal. Onde estás? Sábado encontramo-nos em Paraty. Virás a Belo Horizonte?, seguimos depois para Inhotim.
Lisboa, Rio de Janeiro, Londres, São Paulo, Buenos Aires, Paraty,  Belo Horizonte.
Onde estou?





ruínas





[Paris, Texas, Wim Wenders, 1984]



A modernidade inaugural de Piranesi é tanto na edificação de arquitecturas imaginárias, edificando sobre territórios mentais o que seria impossibilitado de construir – e a representação da ruína como experiência da ausência e da perda em relação à história; e uma imagem é já uma ruína, arrisco – como na produção e comércio dessas imagens. Como consequência imediata sobre o agora consumidor-espectador a alteração do imaginário e das maneiras da percepção do real.
Reduzidos ao hoje Photoshop, incautos arquitectos redizemos incessantemente o realismo como mantra das imagens sobre as quais trabalhamos.
A realidade deixou de ser o território operativo e especulativo do arquitecto – com o fim na transformação dessa realidade – mas antes a abdicação a forças poderosas, activas e, eventualmente, dissimuladas, que desconhecemos ou preferimos esquecer. Onde antes a arquitectura era emancipação, é hoje resignação.
E uma imagem é já uma ruína, arrisco.





água rasa























[Pinturas e Platibandas, Anna Mariani, 2010]



O que dizem essas casas? Sob o sol-a-todo-sol do Nordeste Brasileiro, em meio à dura vida humana, o que insinua sua lírica geometria?


De frente para a câmera de Anna Mariani, elas parecem esboçar um sorriso silencioso. A câmera não pretende interpretar os seus signos, mas entrar numa espécie de estado amoroso com a delicadeza de sua poesia. As fotografias são como monalisas pintadas por Volpi.


Para mim, são coisas íntimas. Casas que conheço por dentro. Em Santo Amaro, onde nasci, no Recôncavo baiano, as pessoas pintam suas casas a cada fevereiro para as festas da padroeira: é como comprar um vestido novo. A cidade fica endomingada, como se fosse um cenário de teatro ingênuo, com todas as casas recém-pintadas. É simples: é a alegria de viver, a vontade de ser mais bonito. Aos olhos do próximo, aos olhos de Deus.


É complicado: vendo essas casas reduzidas à sua "essência" formal, em retratos frontais, sobretudo aquelas que Anna foi encontrar longe da minha microrregião, no sertão, onde exibem mais inspiração e rigor, eu me pergunto qual o caráter do ensinamento que elas trazem. O impacto estético que produzem em nós sem dúvida confirma e ultrapassa o sentido de superação da miséria. Os homens que desenvolveram esse estilo visual numa região tão pobre do Brasil nos fazem ver que há muitos níveis insondados, muitos estágios misteriosos nas relações entre as massas e o que se convencionou chamar de modernidade.


[Caetano Veloso, para o catálogo da exposição Des maisons comme des tableaux, Centre Georges Pompidou, 1988]








Regresso a Pinturas e Platibandas, agora com o livro nas mãos, de cuidadíssima edição do Instituto Moreira Salles. E regresso à sensibilidade e amor com que Ana Mariani fotografou e recolheu, entre 1976 e 1995, imagens de habitações populares do Nordeste Brasileiro. O levantamento é conduzido por uma sensibilidade que transforma as pequenas habitações das duras condições de vida nordestina em pedaços de poesia, em minuciosas peças de câmara, no meio do desconcerto sinfónico do Sertão.
Uma plástica elementar: erguida em base de cal; a profusão cromática sobre a geometria simples das casas e das platibandas; o conhecimento e sageza dos métodos construtivos tradicionais; a sabedoria e inteligência ancestrais e arcaicas no modo de apropriação e transformação do que o mundo nos vai dando.
A tecnologia das mãos sobre o barro escasso: pintar uma casa, uma cidade, a vida.


E a porta da casa dela
Nem parecia uma porta
Tinha uma luz azulada
Que vinha de nenhum lugar


[Retirante, Vinícius Cantuária & Laurie Anderson, 1999]



(this is not a miracle)


[Corcovado, Rio de Janeiro]


For this could be the biggest sky
And I could have the faintest idea


[This Is Not America, David Bowie + Pat Metheny, 1984]

sociedade sem classes#2





















































































Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa.*






















































































































*Dom Casmurro, Machado de Assis





brevíssima dissertação em antropologia da religião, antropologia política e antropologia do espaço, comparadas


[Nossa Senhora da Nazaré]






















[Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, Sítio da Nazaré, Nazaré, Portugal, c.1377, mandado edificar por D. Fernando, onde Vasco da Gama rezou a última missa antes de partir na viagem marítima para a Índia, abrindo os caminhos da globalização moderna.]




[Nossa Senhora de Copacabana]





























[Igreja de Nossa Senhora de Copacabana, Copacabana*, Rio de Janeiro, c.1746, demolida em 1918 para dar lugar ao Forte de Copacanana, onde a 5 de Julho de 1922 eclode a Revolta dos 18 e o Rio de Janeiro entra na modernidade política.]










*
Copacabana é uma palavra boliviana, trazida para o Rio de Janeiro no séc. XVII. Foi
encontrada, onde hoje é o Forte de Copacabana, uma imagem de Nuestra Señora de Copacabana, em 1746. O poder agregador da religião e os pequenos ‘milagres’ operados na vida concreta dos indivíduos era razão suficiente, à época, para a edificação de uma igreja e consequente urbanização do entorno. Anterior à venerada na Nossa Senhora boliviana, Copacabana deriva da divindade Cópac Awana, de origem quíchua, que o sincretismo transformou numa santa católica das margens do lago Titicaca.






sobre o chão de Lisboa


[Terreiro do Paço/Praça do Comércio, Lisboa, Fevereiro 2009]


Mas os modelos mais imediatos para cidades planejadas vieram, curiosamente, dos assentamentos coloniais espanhóis e portugueses na América Latina, onde a norma era um esquema rigoroso de ruas e praças perpendiculares.

O último dia do mundo: Fúria, ruína e razão no grande terremoto de Lisboa de 1755, Nicholas Shrady, 2011



Tome-se o devido distanciamento à distância que toma um inglês ao escrever sobre Portugal: sempre com alguma condescendência, que a todo o momento torna implícita a razão da simples existência e improvável sobrevivência de Portugal mercê de especiais favores ingleses. Aparte isto, note-se em Fúria, Ruína e Razão o detalhe e vivacidade das muitas pequenas estórias que teceram a grande História. Do drama da tragédia às intrigas da corte; da guerra aberta Carvalho e Melo vs. Jesuítas, sobre o domínio da razão da destruição e construção, ao vigor de um Manuel da Maia aos 78 anos a lançar Lisboa moderna cumprindo o projecto político de Pombal; das repercussões nas cortes, salões e círculos iluministas europeus às insidiosas manobras pela configuração de uma coroa absoluta. E o centro do texto: mal natural vs mal moral.
Embora o panorama genérico da sociedade e cultura portuguesas seja equivocado, porque lido numa grelha anglo-saxónica impossibilitada de compreensão do pessoalismo ibérico (cf. Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda), o pormenor é vívido e esclarecedor. Mas entre Voltaire e Malagrida, contudo, não é necessário mais, hoje, tomar partido. Muito menos o do fastidioso politicamente correcto.








paisagem sem fundo






Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.


Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.


Devagar... as janelas olham.


Eta vida besta, meu Deus.





por Tom Zé

[Cidadezinha Qualquer, Carlos Drummond de Andrade, in Alguma Poesia, 1930]






Alguma Poesia, recolha de poemas de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1930, é também um livro de cidades e espaço. Desde logo o espaço da irrupção do modernismo brasileiro – segunda geração – e, dentro desse espaço, o da singular voz de CDA.
Os poemas cantam as paisagens da Minas Gerais natal de CDA, as cidades desse estado interior, as paisagens quotidianas através das quais o poeta se lançava a definir-se a si mesmo. Da viagem à França, Rússia, Inglaterra, há o regresso ao Brasil trazendo o desprezo pelo brasileiro que suspira pela europeização acabando na americanização. A machina, o cinema dos heróis da Paramount, o automóvel, todo o projecto optimista do modernismo na afirmação de um cântico que adquiria sentido no espaço e nas cidades brasileiras. Depois da primeira geração ter debatido regionalismos e internaconalismos, enquanto o Palácio Capanema se encontrava em execução, CDA abre-nos à nova paisagem sem fundo do Brasil.






[Ipanema, Rio de Janeiro]


Foi no Rio.
Eu passava na Avenida quase meia-noite.
Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis.
Havia a promessa do mar
e bondes tilintavam,
abafando o calor
que soprava no vento
e o vento vinha de Minas.


Meus paralíticos sonhos desgosto de viver
(a vida para mim é vontade de morrer)
faziam de mim homem-realejo imperturbavelmente
na Galeria Cruzeiro quente quente
e como não conhecia ninguém a não ser o doce vento mineiro,
nenhuma vontade de beber, eu disse: Acabemos com isso.


Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas
autos abertos correndo caminho do mar
voluptosidade errante do calor
mil presentes da vida aos homens indiferentes,
que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram.


O mar batia em meu peito, já não sabia no cais.
A rua acabou, quede árvores? a cidade sou eu
a cidade sou eu
sou eu a cidade
meu amor.


[Coração Numeroso, Carlos Drummond de Andrade, in Alguma Poesia, 1930]








[Av. Rio Branco, Rio de Janeiro]


Fios nervos riscos faíscas.
As cores nascem e morrem
com impudor violento.
Onde meu vermelho? Virou cinza.
Passou boa! Peço a palavra!
Meus amigos estão todos satisfeitos
com a vida dos outros.
Fútil nas sorveterias.
Pedante nas livrarias...
Nas praias nu nu nu nu nu nu.
Tu tu tu tu tu no meu coração.


Mas tantos assassinatos, meu Deus.
E tantos adultérios também.
E tantos tantíssimos contos-do-vigário...
(Este povo quer me passar a perna.)


Meu coração vai molemente dentro do táxi.


[Rio de Janeiro, Carlos Drummond de Andrade, in Alguma Poesia, 1930]