água rasa























[Pinturas e Platibandas, Anna Mariani, 2010]



O que dizem essas casas? Sob o sol-a-todo-sol do Nordeste Brasileiro, em meio à dura vida humana, o que insinua sua lírica geometria?


De frente para a câmera de Anna Mariani, elas parecem esboçar um sorriso silencioso. A câmera não pretende interpretar os seus signos, mas entrar numa espécie de estado amoroso com a delicadeza de sua poesia. As fotografias são como monalisas pintadas por Volpi.


Para mim, são coisas íntimas. Casas que conheço por dentro. Em Santo Amaro, onde nasci, no Recôncavo baiano, as pessoas pintam suas casas a cada fevereiro para as festas da padroeira: é como comprar um vestido novo. A cidade fica endomingada, como se fosse um cenário de teatro ingênuo, com todas as casas recém-pintadas. É simples: é a alegria de viver, a vontade de ser mais bonito. Aos olhos do próximo, aos olhos de Deus.


É complicado: vendo essas casas reduzidas à sua "essência" formal, em retratos frontais, sobretudo aquelas que Anna foi encontrar longe da minha microrregião, no sertão, onde exibem mais inspiração e rigor, eu me pergunto qual o caráter do ensinamento que elas trazem. O impacto estético que produzem em nós sem dúvida confirma e ultrapassa o sentido de superação da miséria. Os homens que desenvolveram esse estilo visual numa região tão pobre do Brasil nos fazem ver que há muitos níveis insondados, muitos estágios misteriosos nas relações entre as massas e o que se convencionou chamar de modernidade.


[Caetano Veloso, para o catálogo da exposição Des maisons comme des tableaux, Centre Georges Pompidou, 1988]








Regresso a Pinturas e Platibandas, agora com o livro nas mãos, de cuidadíssima edição do Instituto Moreira Salles. E regresso à sensibilidade e amor com que Ana Mariani fotografou e recolheu, entre 1976 e 1995, imagens de habitações populares do Nordeste Brasileiro. O levantamento é conduzido por uma sensibilidade que transforma as pequenas habitações das duras condições de vida nordestina em pedaços de poesia, em minuciosas peças de câmara, no meio do desconcerto sinfónico do Sertão.
Uma plástica elementar: erguida em base de cal; a profusão cromática sobre a geometria simples das casas e das platibandas; o conhecimento e sageza dos métodos construtivos tradicionais; a sabedoria e inteligência ancestrais e arcaicas no modo de apropriação e transformação do que o mundo nos vai dando.
A tecnologia das mãos sobre o barro escasso: pintar uma casa, uma cidade, a vida.


E a porta da casa dela
Nem parecia uma porta
Tinha uma luz azulada
Que vinha de nenhum lugar


[Retirante, Vinícius Cantuária & Laurie Anderson, 1999]



(this is not a miracle)


[Corcovado, Rio de Janeiro]


For this could be the biggest sky
And I could have the faintest idea


[This Is Not America, David Bowie + Pat Metheny, 1984]

sociedade sem classes#2





















































































Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa.*






















































































































*Dom Casmurro, Machado de Assis





brevíssima dissertação em antropologia da religião, antropologia política e antropologia do espaço, comparadas


[Nossa Senhora da Nazaré]






















[Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, Sítio da Nazaré, Nazaré, Portugal, c.1377, mandado edificar por D. Fernando, onde Vasco da Gama rezou a última missa antes de partir na viagem marítima para a Índia, abrindo os caminhos da globalização moderna.]




[Nossa Senhora de Copacabana]





























[Igreja de Nossa Senhora de Copacabana, Copacabana*, Rio de Janeiro, c.1746, demolida em 1918 para dar lugar ao Forte de Copacanana, onde a 5 de Julho de 1922 eclode a Revolta dos 18 e o Rio de Janeiro entra na modernidade política.]










*
Copacabana é uma palavra boliviana, trazida para o Rio de Janeiro no séc. XVII. Foi
encontrada, onde hoje é o Forte de Copacabana, uma imagem de Nuestra Señora de Copacabana, em 1746. O poder agregador da religião e os pequenos ‘milagres’ operados na vida concreta dos indivíduos era razão suficiente, à época, para a edificação de uma igreja e consequente urbanização do entorno. Anterior à venerada na Nossa Senhora boliviana, Copacabana deriva da divindade Cópac Awana, de origem quíchua, que o sincretismo transformou numa santa católica das margens do lago Titicaca.






sobre o chão de Lisboa


[Terreiro do Paço/Praça do Comércio, Lisboa, Fevereiro 2009]


Mas os modelos mais imediatos para cidades planejadas vieram, curiosamente, dos assentamentos coloniais espanhóis e portugueses na América Latina, onde a norma era um esquema rigoroso de ruas e praças perpendiculares.

O último dia do mundo: Fúria, ruína e razão no grande terremoto de Lisboa de 1755, Nicholas Shrady, 2011



Tome-se o devido distanciamento à distância que toma um inglês ao escrever sobre Portugal: sempre com alguma condescendência, que a todo o momento torna implícita a razão da simples existência e improvável sobrevivência de Portugal mercê de especiais favores ingleses. Aparte isto, note-se em Fúria, Ruína e Razão o detalhe e vivacidade das muitas pequenas estórias que teceram a grande História. Do drama da tragédia às intrigas da corte; da guerra aberta Carvalho e Melo vs. Jesuítas, sobre o domínio da razão da destruição e construção, ao vigor de um Manuel da Maia aos 78 anos a lançar Lisboa moderna cumprindo o projecto político de Pombal; das repercussões nas cortes, salões e círculos iluministas europeus às insidiosas manobras pela configuração de uma coroa absoluta. E o centro do texto: mal natural vs mal moral.
Embora o panorama genérico da sociedade e cultura portuguesas seja equivocado, porque lido numa grelha anglo-saxónica impossibilitada de compreensão do pessoalismo ibérico (cf. Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda), o pormenor é vívido e esclarecedor. Mas entre Voltaire e Malagrida, contudo, não é necessário mais, hoje, tomar partido. Muito menos o do fastidioso politicamente correcto.








paisagem sem fundo






Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.


Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.


Devagar... as janelas olham.


Eta vida besta, meu Deus.





por Tom Zé

[Cidadezinha Qualquer, Carlos Drummond de Andrade, in Alguma Poesia, 1930]






Alguma Poesia, recolha de poemas de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1930, é também um livro de cidades e espaço. Desde logo o espaço da irrupção do modernismo brasileiro – segunda geração – e, dentro desse espaço, o da singular voz de CDA.
Os poemas cantam as paisagens da Minas Gerais natal de CDA, as cidades desse estado interior, as paisagens quotidianas através das quais o poeta se lançava a definir-se a si mesmo. Da viagem à França, Rússia, Inglaterra, há o regresso ao Brasil trazendo o desprezo pelo brasileiro que suspira pela europeização acabando na americanização. A machina, o cinema dos heróis da Paramount, o automóvel, todo o projecto optimista do modernismo na afirmação de um cântico que adquiria sentido no espaço e nas cidades brasileiras. Depois da primeira geração ter debatido regionalismos e internaconalismos, enquanto o Palácio Capanema se encontrava em execução, CDA abre-nos à nova paisagem sem fundo do Brasil.






[Ipanema, Rio de Janeiro]


Foi no Rio.
Eu passava na Avenida quase meia-noite.
Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis.
Havia a promessa do mar
e bondes tilintavam,
abafando o calor
que soprava no vento
e o vento vinha de Minas.


Meus paralíticos sonhos desgosto de viver
(a vida para mim é vontade de morrer)
faziam de mim homem-realejo imperturbavelmente
na Galeria Cruzeiro quente quente
e como não conhecia ninguém a não ser o doce vento mineiro,
nenhuma vontade de beber, eu disse: Acabemos com isso.


Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas
autos abertos correndo caminho do mar
voluptosidade errante do calor
mil presentes da vida aos homens indiferentes,
que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram.


O mar batia em meu peito, já não sabia no cais.
A rua acabou, quede árvores? a cidade sou eu
a cidade sou eu
sou eu a cidade
meu amor.


[Coração Numeroso, Carlos Drummond de Andrade, in Alguma Poesia, 1930]








[Av. Rio Branco, Rio de Janeiro]


Fios nervos riscos faíscas.
As cores nascem e morrem
com impudor violento.
Onde meu vermelho? Virou cinza.
Passou boa! Peço a palavra!
Meus amigos estão todos satisfeitos
com a vida dos outros.
Fútil nas sorveterias.
Pedante nas livrarias...
Nas praias nu nu nu nu nu nu.
Tu tu tu tu tu no meu coração.


Mas tantos assassinatos, meu Deus.
E tantos adultérios também.
E tantos tantíssimos contos-do-vigário...
(Este povo quer me passar a perna.)


Meu coração vai molemente dentro do táxi.


[Rio de Janeiro, Carlos Drummond de Andrade, in Alguma Poesia, 1930]


pour épater la bourgeoisie


[THX1138, George Lucas, 1971]



Caro Pedro,
O meu comentário ao seu post assenta numa divergência e numa perturbação.
Será irrelevante para o caso o cansaço que advém a uma pobre alma conservadora-liberal essa propaganda do terror que toda a intelligentsia espalhou por estes dias. O famoso ‘medo do que aí vem’. Também porque não tiveram ‘medo do que aí foi’, durante seis anos de delinquência política (e outras),também  porque a complacência, quando não conluio, com os desmandos de um governo de esquerda foi olímpica. Uma perturbação que se confirma ao percorrer o debate público, a blogosfera, ao verificar o cinismo em que todos, mas todos, estamos mergulhados. Por isso celebrei, celebro, celebrarei, a queda de um primeiro-ministro que escandalosa e vertiginosamente se dedicou a corroer as formas da democracia liberal e representativa.  Uma perturbação, apenas.

Serei ignorante, muito ignorante, mas divergência não será necessariamente desconhecimento e insensibilidade. Muito menos emprenhar pelos ouvidos dos que fazem o ‘jornalismo’ dos Públicos, dos Expressos, das RTPs e dos DNs que se calhar consumo, ou, quiçá, académicos, legitimados pela universidade liberal, pagos e alimentados por ela, mas sempre prontos ao maior e alucinante foguetório conceptual, que deslumbra os mais inermes, mas sem qualquer adesão à realidade, que se calhar também consumo.


Vamos, então, ao que importa. A realidade com horizonte no real e não na utopia. Com o desejo de transformação do real com os materiais, contraditórios e caóticos que esse real nos fornece, e não com qualquer devaneio sentimental.
E o que importa começará pela divergência que aludo acima: para o Pedro, presumo, a democracia liberal e representativa será um obstáculo a remover em direcção ao paraíso terrestre. Muito embora creia em paraísos - eles são de outra substância que não deste mundo – as experiências trágicas do passado recente da civilização levam-me a recusar qualquer utopia. A utopia não é mais que o desprezo profundo pelo homem e a sua condição. É a incapacidade de aceitar o homem e a sua falibilidade, o erro e o acerto a que sempre e em toda a nossa actividade estamos sujeitos. E se hoje a utopia dominante é a do capital, há poucos anos foi a da igualdade a ferro e fogo. As duas com consequências, naturalmente, sobre a paisagem, porque ambas configuram um projecto totalitário com domínio de tudo o que diga respeito ao humano.

Mas a paisagem do capital.
Apenas um cego surdo mudo, ou um cínico, poderá passar impávido sobre tudo o que estamos a passar. Todas as transformações que organizam e desorganizam o mundo em que vivemos.
O mundo não é flat – o chato na tradução brasileira parece-me muito mais interessante que o geométrico plano da tradução portuguesa – apenas o é nos cálculos dos especuladores, como o foi em todo o projecto racionalista e progressista. E estaremos de acordo. O mundo é muito mais interessante que o plano sem fim. Muito mais imprevisível e surpreendente.
A expansão planetária do capital é isso mesmo, planetária. E se há dez ou vinte anos poderíamos voltar os olhos ao Ocidente – como dois aviões se voltaram para duas torres na paisagem de Manhattan -  hoje os olhos permanecem  ansiosos, instáveis, alvoraçados porque porque, sabemos, o planeta é esférico e os nossos olhos não alcançam o outro lado que sabemos existir.  O capital não escolhe territórios nem regiões, ocupa-se a ocupar o espaço que lhe permitem. Que a política lhe permite. A falência da política.
O poder legitimado pela fonte popular, sitiado pelos poderes fácticos.  O actual enquadramento económico global não é escrutinado por nenhuma organização supra-nacional, quando os estados se mostram incapazes de contrariar o anonimato e a velocidade do capital pouco interessado no bem comum.
A pequena agricultura da África, a subsistência de centenas de comunidades, estará esvaída. E pense-se na PAC. O conforto europeu, por exemplo, e a prosperidade dos sindicalistas franceses e as folclóricas peregrinações de Boaventura Sousa Santos aos Fórum Internacional de Porto Alegre em gongóricos ditirambos alter-mundistas, e o preço em sangue, doença, morte, pago no continente africano. Pense-se nas patricinhas & mauricinhos do Leblon, escandalizados com a violência do Rio mas nem por isso menos viciados na maconha que alimenta os circuitos do tráfico e da violência no morro. Pense-se no agro-business que leva korn-flakes ao pequeno-almoço de cada vez mais quantidades de gente em todo o planeta, mas também dizima milhares de hectares em todo o mundo com monoculturas intensivas. Talvez falte em tudo isto globalização e não o seu contrário. E globalização pressupõe, pressuporá, regras iguais a todos. Mas a falência da política. Como conciliar a melhor distribuição da riqueza proporcionada pelo mercado livre com a justiça e equidade sociais? Como conciliar a vontade individual, cada vez mais avessa a grilhões com a vontade colectiva com a qual muitas vezes violentamente choca. Como, afinal, fortalecer a democracia liberal? (A minha ignorância e incertezas não me dão respostas a isto.)

Recuso é a visão do mundo de Tordesilhas: de um lado socialistas, plenos de boas intenções e dignidades para todos, do outro, capitalistas, venais senhores dos mais tenebrosos desígnios. Recuso o monopólio do coração e da sensibilidade a que, implicitamente, no seu texto o Pedro se alcandora.
Nestes termos, estaríamos a debater a realidade com categorias oitocentistas
épater la bourgeoisie revolucionária. Seria demasiado fácil e manso. E o mundo é muito maior e complexo e contraditório.




de ouro e fogo no findar do dia*





[Estudo para Copacabana, Nadir Afonso]










[Copacabana, Nadir Afonso]










[Rio de Janeiro, Nadir Afonso]










[Rio de JaneiroNadir Afonso]










[Rio de Janeiro, Estação de Metro dos Restauradores, Lisboa, Nadir Afonso]





*Meu Rio, Caetano Veloso, 2000

mapas da real


A primeira vez que eu vi este mapa, que tem os tamanhos reais dos países e não os tamanhos do projeto colonial europeu, eu entendi tudo. De vez em quando revejo para lembrar por que as coisas estão como estão. Nenhuma mentira dura para sempre.

Nayse Lopez, Facebook




Obrigado, Nayse, por postares este mapa. Não o conhecia, nunca o tinha visto, e parei uns minutos a olhar para ele. Voltei várias outras vezes. Sempre sem saber bem o que pensar. Talvez não exactamente pelas mesmas razões que te levaram a publicá-lo, mesmo não sabendo eu exactamente as razões por que o publicaste. Talvez contaminado por algum ressentimento que o teu comentário ecoa.
Por mim, já dei para o peditório do complexo do homem branco. Aliás, o mesmo complexo, (no limite do politicamente correcto), que deixa muitas vezes a Europa paralisada. E a Europa está envelhecida, enfraquecida, paralisada. Muito, também, por não saber olhar para este mapa. Sobre os crimes e desmandos da história, do meu país não os assumo como meus, como disse, o complexo do homem branco não é o meu. Tal como acho inaceitável culpar os alemães contemporâneos pela insanidade que varreu a Alemanha na primeira metade do séc. xx. Sobre os crimes da história os que me doem mais, os que me implicam, são os da igreja a que pertenço – e na maior parte das vezes é até muito difícil destrinçar na história quais os da política e os da religião: viva a modernidade e a separação, é melhor para todos.
Mas é bom olhar para este mapa. Quem sabe um ideal? Todas as comunidades, todos os homens, iguais perante a ‘realidade’, iguais no mundo.
O problema são as formas, dissimuladas, do neo-colonialismo. Se o mundo colonial se deslocava lento, com consequências remotas para muitas das vidas da(s) época(s), hoje, qualquer movimento, qualquer acção, norte sul este oeste, é imediatamente sentida nos milhões de vidas dos iguais a nós que habitamos o planeta. Como a teoria do caos.
Como escrevi no meu blog, a propósito de arquitectura(s), o neo-colonialismo é a produção ideológica de imagens sobre o outro que o outro aceita como as dele, constituindo e construindo a sua identidade sobre essas imagens em que eu, que produzo essas imagens, digo ao outro, que as deseja e aceita acriticamente, o que ele é. É o que temos visto na arquitectura, quando a falência da Europa manda os arquitectos – falo das starchitects, não de um pobre diabo como eu que não aceita esta lógica e sobre quem esta lógica o obriga à ‘mobilidade’ – ao resto do mundo, ao resto do mundo onde se concentram as maiores reservas de capital. Mas, a par disso, temos visto essas zonas do mundo, sedentas de protagonismo, desejosas de viver (pensar e habitar) segundo os padrões que são, sejamos honestos, devedores da tradição, usos e costumes, europeus. Ou talvez não, mais norte-americanos, mais televisivos, mais espectaculares, aliás, meramente espectaculares. E o que vemos é a produção de ícones urbanos, despidos de arquitectura e vestidos dessa espectacularidade que nos deslumbra a todos, que nos engana a todos, mas só até ao momento em que o próximo ícone-evento seja erguido na cidade ao lado – porque todas as cidades, na lógica do mundo chato, são todas iguais e ao lado umas das outras. Portanto, a responsabilidade, no momento, está nas nossas mãos. Norte sul este oeste: contrariar, não aceitar esta lógica que padroniza comportamentos e atitudes, gostos e, sobretudo, consumos. Ser, apenas, consumidor, é aceitar passivamente este caos muito bem organizado pela racionalidade financeira. (Já nem sequer económica.)
O colonialismo foi-se, o pós-colonialismo foi um ar que deu aos académicos – optimista, é certo – o neo-colonialismo está aí: organiza, desorganiza, todas as vidas de todos os habitantes do planeta. Somos todos responsáveis.
Obrigado, mais uma vez, por me mostrares este mapa. Voltarei a ele.



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câmara corporativa

Da série "Ajustes Directos e Honorários que impõem respeito"

democracia portuguesa




[EN1, Batalha, Portugal]


derrubar árvores - uma irritação*





[Torre do Castelo, Campinas, 1940]


Importaria, antes de tudo, verificar o significado do conceito de democracia, do seu uso no discurso corrente e público, sobre a cidade. Um duplo sentido, para já, o da constituição de um sistema de organização política de uma comunidade, e o de um dispositivo económico e administrativo. A legitimação de uma forma de poder quanto o seu exercício.
Nada garante que o uso actualmente mais disseminado da palavra (e do conceito) seja este último, enquanto técnica de governação – administração, burocracia – através do uso de uma linguagem de aparência moral que, num jogo de enganos, equívocos e manipulação, cobre a corrosão da essência jurídico-política da democracia da cidade.



[Torre do Castelo, Campinas]







*
É lamentável o que aconteceu a Maria Zaal com a venda dos terrenos auersbergerianos, pensei eu na poltrona de orelhas. Onde havia, ainda há vinte anos, os mais belos prados e pastagens, elevam-se agora dezenas de vivendas, cada uma mais feia que a outra, em grande parte aquilo a que se chamam casas pré-fabricadas, que os seu compradores podem encomendar directamente nos armazéns das imediações, cubos de betão horríveis, com telhados baratos de eternite ondulada, pregados por desleixados mestres do seu ofício. Onde havia um pequeno bosque, onde, na Primavera, florescia um jardim, que exibia as suas mais belas cores ao emurchecer outonal, pululam agora os tumores de betão do nosso tempo, que já não tem qualquer respeito pela paisagem nem pela natureza em geral e que é apenas dominado pela avidez do dinheiro politicamente motivada, pela histeria proletária do betão, pensei eu na poltrona de orelhas. Todos os anos, um ou vários desses terrenos do casa Auersberger em Maria Zaal são vendidos a essas pessoas da região de Maria Zaal, que, com as suas ideias primitivamente ignóbeis sobre a construção, pouco a pouco vão arruinando essa Maria Zaal e que já arruinaram mesmo Maria Zaal, pois eu estive uma vez, há dois ou três anos, em Maria Zaal, por assim dizer incógnito, no caminho de Itália para Viena, e não acreditava nos meus olhos, pensei eu na poltrona de orelhas, ao verificar quão grande é já a destruição de Maria Zaal só em razão da perversa venda de terrenos do casas Auersberger. Cada venda de um terreno dos Auersbergerianos, que não ganham dinheiro nenhum, porque não precisam, como decerto eles pensam, destrói um bocado da natureza de Maria Zaal, e já destruiu mesmo Maria Zaal, como eu vi com os meus próprio olhos; pois se Maria Zaal era efectivamente, ainda há vinte anos, uma das mais belas povoações da Estíria, agora, devido à falta de escrúpulos dos Auersbergerianos, é uma das mais feias, esta é que é a verdade, pensei eu na poltrona de orelhas; os Auersbergerianos são responsáveis pelo que aconteceu a essa jóia da Estíria, pensei eu na poltrona de orelhas, e de repente pensei que não foi essa gente simples da região de Maria Zaal, impelida por estes tempos horrorosos para a histeria da construção, que destruiu a paisagem de Maria Zaal, mas sim o casal Auersberger, não foram aqueles a quem se censura que as suas casa horríveis já desfiguraram e arruinaram quase toda a região de Maria Zaal, antigamente tão invulgar, e que, como por toda a parte na Áustria, cagaram simplesmente as suas casas na paisagem, porque ninguém lhes disse como é que as deviam construir, mas sim o casal Auersberger, que, escondido por detrás deles, todos os anos impele o tio advogado a vender ainda os seus últimos terrenos, e esses últimos terrenos ele decerto os irá vender, para que eles, os Auersberger, sem mexerem sequer um dedo, possam prosseguir a sua mais ou menos inútil vida social, pensei eu na poltrona de orelhas. Pérfidos onanistas da sociedade, pensei eu sentado na poltrona de orelhas, que designação tão verdadeira, que o tapeceiro Fritz uma vez lhes lançou em rosto, como eu me recordei na poltrona de orelhas.


[Derrubar Árvores, uma irritação, Thomas Bernhard]






a democracia e a cidade


[Plano Agache, Rio de Janeiro, c.1930]




A maior e mais danosa imperfeição da democracia é o bloqueio. De solicitações, de interesses, de pressões, de poderes fácticos, por todos as instâncias, as decisões políticas são estão sujeitas ao escrutínio sectário. A vontade democrática que formalmente nos rege, uma democracia, o estado de direito, o rule of law, soçobra no labirinto dessa formalidade – e a democracia é essencialmente o respeito das formas – e traz-nos a muitos dos impasses que as sociedades em que vivemos se encontram.
Em 1903 o prefeito Pereira Passos lança o Plano de Melhoramentos do Rio de Janeiro, que teve rápida elaboração, o acolhimento dos estratos dominantes, e rápida execução. Em 2011 Eduardo Paes, actual prefeito, diante de uma plateia de arquitectos, após uma conversa de Norman Foster, lança a possibilidade, e o desejo, de ver no Rio, no Parque Olímpico, a execução de uma proposta do arquitecto inglês. O concurso para o Parque Olímpico tinha sido lançado há poucos dias, e esta comunicação de Eduardo Paes, entre o desajeitado, o deslumbrado e o provinciano, provocou a estupefacção à assembleia presente.
De uma forma ou de outra, em 1903 ou em 2011, é a legitimidade democrática das decisões que está em causa. Se em 1903 a sociedade seria mais segregada, com domínio de uns poucos que facilmente coincidiriam em consensos de modo a manter o statu quo, ao contrário, em 2011, supõe-se uma sociedade aberta, regulada por mecanismos de escolhas democráticas e legitimadas pelos processos – formas - da democracia.
Em ambas as decisões há falhas de democracia mas, em 2011, as causas e consequências serão bastante mais perniciosas. E funestas, mais uma vez, para a polis.







cotidiano#9







Meu Rio
Perto da favela do Muquiço
Eu menino já entendia isso
Um gosto de Susticau
Balé no Municipal
Quintino:
Um coreto
Entrevisto do passar do trem
Nós nos lembramos bem
Baianos, paraenses e pernambucanos:
Ar morno pardo parado
Mar pérola
Verde onda de cetim frio
Meu Rio
Longe da favela do Muquiço
Tudo no meu coração
Esperava o bom do som: João
Tom Jobim
Traçou por fim
Por sobre mim
Teu monte-céu
Teu próprio deus
Cidade
Vista do outro lado da baía
De ouro e fogo no findar do dia
Nas tardes daquele então
Te amei no meu coração
Te amo
Em silêncio
Daqui do Saco de São Francisco
Eu cobiçava o risco
Da vida
Nesses prédios todos, nessas ruas
Rapazes maus, moças nuas
O teu carnaval
É um vapor luzidio
E eu rio
Dentro da favela do Muquiço
Mangueira no coração
Guadalupe em mim é Fundação
Solidão
Maracanã
Samba-canção
Sem pai nem mãe
Sem nada meu
Meu Rio


[Meu Rio, Caetano Veloso, 2000]



perpetuum mobile


[Rua Evaristo da Veiga, Cinelândia, Rio de Janeiro]






O hibridismo é simplesmente um meio de experiência, que desfamiliariza, e que, assim, se aproxima da experiência do viajante. É só uma simulacro que tenta comunicar a experiência. Mas atenção, só faz sentido alguém reconhecer-se como viajante pressupondo-se habitante de outro lugar, nesse sentido justificando-se a imagem de uma ancoragem que é algum lugar de afecto. O viajante experimenta habitabilidades - foi assim que entendi a tua ideia de "reinvenção do sujeito num espaço outro". Acho que é apenas uma reinvençao provisória, consciente do seu regresso, no caso do viajante.

André Barata Nascimento, Facebook



A tentativa, falhada porventura – prosápia, cunho desta casa – era distinguir entre o viajante e o habitante, fazendo essa distinção dentro da condição que, faço da minha experiência as minhas palavras, se está a declarar a experiência decisiva desta época: a mobilidade.
Pensar, dentro da mibilidade, o que distingue um viajante – outrora um turista – de um habitante, dentro das possibilidades que os meios de descolação e comunicação hediornos nos oferecem. É, então, uma questão de identidade, de lugar e, depois, de política.
Um pensamento sobre a identidade jamais ocorrerá sem um pensamento do lugar. Esse era, e é, o tema do exílio e do exilado. Um lugar fora do lugar, um lugar do passado para onde toda a realidade do presente se remete. Mas e viagem e exílio assumirão hoje diferentes contornos. A necessidade do ir, voluntária ou involuntária, dependente ou não das contingências das economias globais – ainda no plural – só se configurará num lugar se esse deslocamento se revelar numa decisão de participação e inclusão na realidade do presente sem a remissão a fronteiras antigas. O habitar contemporâneo exige a abertura aos lugares remotos atravessados pelo habitante. Exige a legitimação do presente, sem nostalgia, através desse gesto singular e subjectivo do atravessar. Do redesenhar da fronteira e do limite.
A ansiedade que me impõe o hibridismo decorre tão só dessa significação da desfamiliarização. O que se impõe ao habitante é o desejo de habitar os lugares que cruza e esse cruzamento ser constitutivo daquilo que é. Como reactualização permanente do ser diante do espectáculo do mundo. Ao invés, podemos tornar-nos híbridos mesmo permanecendo estáticos diante da tela da televisão.
Ao habitar exige-se o corpo e o movimento deste sobre o planeta, no cruzamento, no choque, com todos os limites e todos os corpos. Ao viajante bastar-lhe-á uma ligação de banda larga.
Ou a identidade que se constrói na experiência, no desejo de experiência, de todos os lugares do mundo, no mundo tornado o lugar do habitar porque agora o corpo se movimenta sobre todo o globo, ou aquele que caminha sobre as infinitas passadeiras rolantes dos aeroportos das cidades todas iguais, em atmosfera controlada.






Ich bin unterwegs
mit meiner unsichtbaren Eismaschine
mit meinem unsichtbaren offenen Kamin
Sie sitzen neben mir im Flugzeug
Sie liegen neben mir in meinem "King-Size" Hotel Bett
Sie zaehlen nicht als "Excess luggage"
Sie brauchen keinen "Wake-up-call"
Von A nach B der Liebe wegen
Von A nach B der Liebe wegen
Von A nach B der Liebe wegen
Von A nach B der Liebe wegen
wegen der Liebe!


[I'm on the way
with my invisible ice machine
with my invisible open fireplace
they sit next to me in the airplane
they lie beside me in my king-sized hotel
bed
they don't count as excess luggage
they don't need a wake-up call
From A to B because of love
From A to B because of love
From A to B because of love
From A to B because of love
Because of love!]

[Perpetuum Mobile, Einstürzende Neubauten, 2004]