
Príncipe Real Design District
![]() [Le Havre, Aki Kaurismäki, 2011] E, tal como outros espaços dos seus filmes, recusa-se a dizer "hoje"? A arquitectura moderna desagrada-me intensamente... É sempre uma luta contra o tempo quando filmo. Os "caterpillars" estão invariavelmente atrás de mim. Estão sempre a querer demolir a área que estou a filmas. Temos sempre que lhes pagar para nos darem uma semana mais de rodagem antes da demolição total. Tem sido sempre assim na minha vida. Deve ser por alguma coisa de que gosto. Como filmar em cubos modernos, que é o que se chama hoje arquitectura? E é um erro pedir a arquitectos que façam cubos nos sítios em que há chuva. Deviam fazer um telhado. Deve haver problemas aqui [Fundação de Serralves] com a água. Mas não tive tempo ainda de investigar, isto não parece assim tão mau... Quando as pessoas têm algum dinheiro fazem as suas casas como cubos, cheias de pormenores, mas acabam por não se enquadrar na área... e não parecem muito funcionais. [Aki Kaurismäki, Público, 17.02.2012] |

Entendo a generosidade e o prazer do outro que recordo de uma entrevista ao Arqtº. Manuel Graça Dias – não recordo quando, não recordo onde – enquanto percorria cidades do mundo, com amor grande e devoção à mais importante e complexa realização da humanidade. Entende-se o amor, pela casualidade do mundo, pelo caos que nas cidades organizamos, pelos significados que se recolhem nas ruas e aumentam o mundo, a devoção ao mundo e às coisas dos homens que decidem o seu destino comum. Às cidades, que obedecem à necessidade de resistência, a exceder os limites da mortalidade humana. À vida prtática e à beleza. A beleza da duração, para as prolongar. Pelo encontro.
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[Admitindo ainda que seja, neste discurso, a manutenção do módico de pudor sobre a vida íntima do outro - que, de facto, em nada importa ao espaço público - lembro também nessa entrevista alguma recusa do território doméstico. Um excessivo pensamento da praticabilidade do que é íntimo, e sobre o espaço do íntimo, um certo funcionalismo do dormir, comer, foder, como estritas necessidades biológicas – não por acaso as estritas funções que permitem manter saudável indivíduo que age sobre o espaço público da cidade. Talvez não tenha recordado Manuel Graça Dias da possibilidade de dar a volta ao mundo sem se sair do quarto, quem nem só de milhas andadas se erguem toneladas de literatura de viagens, de lautas refeições, ou, maior pecado, a Manuel Graça Dias não tenha ocorrido a sequência de abertura de Le Mépris. Aventura maior? A partir do encontro na polis produz-se o sentido colectivo da existência que, necessariamente, terá que ser reflectido nos instantes de recolhimento ao abrigo interior para, a partir deste, se regressar ao passeio público e ao outro.] |
Mas falava também de densidade, necessariamente de deslocações, de mobilidade. E da monotonia das viagens de metro. Enfadonhas, provavelmente. Monótonas como, à superfície pública, serão todas as vidas privadas com que nos cruzamos na cidade. Em percursos pré-definidos, debaixo do chão, a contrariar essa cidade aberta e livre que Manuel Graça Dias ama – às quais aqui devotamos também grande amor – em túneis escuros, connosco atados a Pod’s, Phone’s, Pads, jornais, livros– outra maneira do espaço privado. Vejamos, o terror escondido ao cruzar os olhos da garota do banco da frente, uma viagem à possível vida do rapaz do skate encostado à porta da carruagem repetitiva, da velha elegante de outra Av. de Roma, de outra velha mais velha mais à frente na puída Almirante Reis – ocorre-me uma outra sequência, na Berlim dividida pelos homens e dos anjos do desejo nos compreendem nessas minúsculas viagens, e nos amam tanto que connosco, homens, desejam viajar. Aventuras. Liberdade. Como o encontro com o outro só é possível depois do encontro connosco mesmos, a realidade da superfície, a vida vivida da cidade, em alegria e liberdade, só será possível se nos for possível o recolhimento ao território interior. Onde nos possamos privar do outro e da cidade. Onde nos é dada a possibilidade de, imaginemos, sermos monótonos. Mesmo num buraco abaixo da superfície das coisas. |
[O encontro, a beleza, são possíveis numa esquina vazia da estação do Marquês.] |
![]() [S. Mateus da Calheta, Terceira, 2006] O artista ama as sua limitações, porque elas constituem aquilo que ele está a fazer. O pintor gosta de que a tela seja plana. O escultor gosta de que o barro bão tenha cor. [Ortodoxia, G.K. Chesterton, 1908] |
![]() [Porto Santo, 2007] Aprendemos a invenção das casas submissas e a habitação das nuvens fixas onde é necessário criar o silêncio preciso do teu lugar. |
![]() [Abrigo de Ludwig Wittgenstein, Noruega] Mundi fugit, Também Ludwig Wittgenstein recolheu a um penhasco. Isolado. Depois da forma pura em pura observância aos limites do homem na sua razão, um salto ao alto da montanha que nos deixa perplexos. Na Floresta Negra, em Cap Martin sobre o Mediterrâneo, a um fiorde também recolheu o austríaco. Recolher para aumentar os limites do mundo? |
| Mundi fugit, o refúgio da glória do mundo, a necessidade da verdade, algum recolhimento, um penhasco ao relento, pouca coisa quase nada, punhado de pedras organizadas ao acaso da dádiva dos lugares, algumas tábuas dispostas segundo a ordem da rigorosa necessidade do corpo. A contemplação da verdade, algum recolhimento para que a verdade seja possibilidade, sempre um penhasco, sobre pedras elevadas diante da água, ermo solitário. Homens incapazes de outra circunstância que a da minúcia do coração, da grandeza desconhecida das edificações das casas, com outro barro que o do sofrimento patético com que cá em baixo organizamos as horas. Outra coisa que não a desocultação das pedras que se soltam do alto por vontade que desconhecemos. Do alto eles sabem que naufragamos cá em baixo no mar sem margem. |
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Mais que representar o sagrado, é «dar corpo ao sagrado». O corpo, o lugar do amor e da dor, da alegria e da tristeza, o lugar onde mais somos o que somos, e que desse lugar tão humano possamos aceder ao sagrado. Pelo corpo como via de acesso ao sagrado, o belo como sedução daquilo que nos ultrapassa e ultrapassa o que se inscreve no próprio corpo.
Representativas de um período central da formação dos povos ibéricos – no qual a religião era elemento indentitário crucial – as esculturas da mostra Cuerpos de Dolor, da coleção do Museo Nacional de Escultura (Valhadolid, Espanha), sugerem-nos os caráter exuberante, quase, teatral, do Barroco ibérico e da profundidade com que a dimensão espiritual impregnava a arte e as representações do mundo, então. Mais que essa referida teatralidade, é o drama humano que, pelo corpo e inscrito no corpo, vai ao encontro do que nos transcende, e que, pelo belo, procuramos entendimento. Publicado no sítio do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura. |
![]() [Villa Lysø, Bergen, c. 1872] Fantasia mourisca no fiorde. Encontrar abrigo numa fantasia da distância quando o quotidiano é a necessidade (e vontade), do encontro com o próximo. A apropriação do outro pelo homem que procura a sua própria identidade. |
E noutro fiorde:
SOLNESS A única coisa em que a felicidade humana se pode alojar – isso é o que eu quero construir agora. ![]() [Villa Lysø, Bergen, c. 1872] |

«La canzone vive della parola e dei ritmi quotidiani, della profondità della vita dell’uomo comune. È questa la forza e il criterio valutativo della "musica leggera"», cita Antonio Spadaro, o Padre jesuíta editor da revista La Civiltà Cattolica, no seu blogue CyberTeologia, e é desta força do quotidiano que respira "Lysoen: Hommage a Ole Bull", de Nils Okland e Sigbjorn Apeland, (ECM, 2011). Lysoen é o lugar na Noruega que Ole Bull (1810-1880) escolheu para construir a sua casa de verão, após mais de 50 anos em tournée por toda a Europa como violinista, e recolher com a sua família. Foi em Lysoen que Ole Bull sedimentou um sentido de identidade nacional norueguesa – país, forçado à época, à união com a coroa sueca – através de recolhas e do levantamento do repertório tradicional e popular. Foi em Lysoen que Nils Okland (violino) e Sigbjorn Apeland (piano e harmónio), também eles provenientes da tradição da música popular norueguesa. E talvez por isto mesmo, esta música nos surja com uma mais forte impressão emocional. As composições, ou originais de Ole Bull, nelas inspiradas, tecem um programa – ainda que em bom rigor esta não seja música programática – onde podemos mergulhar com profundidade na paisagem e na cultura norueguesa contemporânea. Para lá das categorias de introspeção ou extroversão, das surpreendentes colorações minimalistas (nas composições de Nils Okland e Sigbjorn Apeland, decorrentes das vanguardas norte-americanas da segunda parte do séc.XX), "Lysoen: Hommage a Ole Bull" propõe-nos uma maneira serena mas rica de articularmos as paisagens que vamos construindo com as que herdámos do passado. Mais que um tributo a Ole Bull, uma maneira de aprendermos estar atentos ao que nos rodeia. Publicado no sítio do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura. |

| Lusitannia Suite, de Pierre Gonnord, (França, 1963), propõe-nos um olhar paradoxal sobre o próximo. Numa espantosa galeria de retratos em suporte fotográfico, ampliados a uma escala maior que a do próprio rosto humano – dos múltiplos rostos humanos – interpelam-nos os rostos e toda a história individual inscrita nesses rostos, ao mesmo tempo que, afastados de qualquer referência social, cultural, política ou biográfica – sobre fundo escuro – nos confrontamos com os indivíduos em si mesmos, únicos, atemporais, a-históricos, no que de mais singular e irrepetível cada um deles transporta. Retratos que são cada um de nós, únicos na nossa história irrepetível, excluídos de qualquer possível classificação, porque fora de qualquer tempo e de qualquer lugar que não o da nossa própria face. Lusitannia Suite, Pierre Gonnord, Galeria BesPhoto Publicado no sítio do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura. |
My generation's for sale,
Beats a steady job. How much have you got? My generation don't trust no one, Its hard to blame, Not even ourselves. The thing that's real for us is: fortune and fame, All the rest seems like work. Its just like Diamonds In shit. I'm high class I'm a whore, Actually both, Basically I'm a pro, We've all got our own style (of baggage), Why hump it yourself, You've made me an offer that I can refuse, (course either way I get screwed) Counter proposal: I go home & Jerk off. It's truly a lie. I'm counterfeit myself, It's truly a lie. I'm counterfeit myself, You don't own, you don't own, you don't own, You don't own what none can buy, You don't own, neither do I. High and mighty you say selling out is a sham, Is that the name of your book? Push a silver spoon in your ass, No more holding us down, (dog. down mutt. Nice mutt) You're insulted, You can't be bought or sold. Translation: offer too low. You don't know what you're worth, (It isn't much.) My piano is for sale. How many times must I sell myself before my pieces are gone? I'm one of a kind, I'm designer. Never again will I repeat myself, Enough is never enough, Never again will I repeat myself. It used to be the plan was: screwing the man Now its have sex with a man, (After he buys you ".com" for sale at a low, low price) It's truly a lie, I'm counterfeit myself, It's truly a lie, I'm counterfeit myself, You don't own, you don't own, you don't own me, You don't own what none can buy, You don't own Neither do I [I'm a Designer, Queens of The Stone Age, 2007] |

| Foi para o ar, há instantes, no jornal da noite da TVI, uma reportagem sobre o Príncipe Real. Ou sobre um Príncipe Real: o «que mantém o cariz histórico e que está na moda», o que quer que isto seja. O Príncipe Real é, em si, uma amostra de Lisboa – que de si já é uma amostra abrangente da diversidade portuguesa. Tudo o que há em Lisboa, econtrar-se-á, com certeza, no Príncipe Real. A diversidade social, cultural, económica, religiosa, sexual, de género, étnica, encontra-se nesta pequena sociedade. O convívio com o diferente é, aqui, permanente. O outro, aqui, torna-se próximo. Das omissões da reportagem, muito preocupada com os cafés design, as lojas de e da moda, ou o preço do m2, que acreditamos inocentes e, pior, ingénuas, que não explica o porquê da qualidade de vida no bairro, resta aquilo que de pior poderá acontecer ao Príncipe Real: a padronização. A padronização de gostos, de escolhas, de culturas, de vida. E, se percorrermos o roteiro da reportagem, chegaremos à conclusão que pouco distinguirá o Príncipe Real de um qualquer bairro de comércio da moda. Transformar o mundo em design poderia até ser boa ideia, se o design não fosse, hoje, refém da estandardização cultural das ideologias hegemónicas, retirado de qualquer intervenção crítica dentro dessas ideologias – as mesmas ideologias que elevam o custo do m2 aos valores obscenos referidos na reportagem, o quais, dentro do mesmo discurso, servem para legitimar o que será a qualidade de vida no Príncipe Real. (E, mais perverso ainda, ter-se o consumo design transformado em construtor de identidades.) O Príncipe Real é o lugar de tudo. Da deliciosa Senhora Joaquina da mercearia, do Oliveira do gin bem medido a 2€ acompanhado da dádiva do Sol no jardim, do Sr. Francisco dos jornais e do «nosso Benfica», do café na Cister com os que passam – e da Cister foram removidas as belíssimas mesas de tampo de lioz vincado pelo tempo e por muitos que passaram, substituídas por mesas mdf vagamente retro e feias – dos viadinhos que depois do Trumps snifam a sua cocaína de fim-de-semana aqui debaixo das escadas, da puta e do deputado na Pç. Das Flores, do homem do talho que ameaçou suicídio com uma caçadeira, só detido pela intervenção do agente da PSP que se viu na contingência de correr com a barriga e o bigode pela íngreme Marcos Portugal, dos africanos, indianos, brasileiros, lisboetas, que à noite se encontram na fonte, dos restaurantes sem comida fusão, das melhores companhias de teatro da cidade - Cornucópia e Artistas Unidos - galerias de arte, das lojas de ferragens e das mercearias, da arquitectura à escala do nosso corpo e bela, e simples e complexa das habitações populares ao gosto da humildade e da necessidade e do palácios da burguesia import/export n'importe do séc. XIX e dos exotismos para status erguer, das escolinhas e da faculdade, das garotas mais elegantes, da liberdade, da realidade, essa subversiva, que escapa ao rolo compressor da moda e do pornográfico preço do m2. Sede então bem vindos ao Príncipe Real. Todos. p.s. A gentrificação mata. |

Fotografar é apropriar-se da coisa fotografada. Significa pôr a si mesmo em determinada relação com o mundo, semelhante ao conhecimento – e, portanto, ao poder. Supõe-se que uma queda primordial – e malvista, hoje em dia – na alienação, a saber, acostumar as pessoas a resumir o mundo na forma de palavras impressas, tenha engendrado aquele excedente de energia fáustica e de dano psíquico necessário para construir as modernas sociedades inorgânicas. Mas a imprensa parece uma forma menos traiçoeira de dissolver o mundo, de transformá-lo em objecto mental, do que as imagens fotográficas, que fornecem a maior parte do conhecimento que se possui acerca do aspecto do passado e do alcance do presente. O que está escrito sobre uma pessoa ou um facto é, declaradamente, uma interpretação, do mesmo modo que as manifestações visuais feitas à mão, como pinturas e desenhos. Imagens fotografadas não parecem manifestações a respeito do mundo, mas sim pedaços dele, miniaturas da realidade que qualquer um pode fazer ou adquirir.
As fotos, que brincam com a escala do mundo, são também reduzidas, recortadas, adaptadas, adulteradas. Elas envelhecem, afectadas pelas mazelas habituais dos objectos de papel; desaparecem; tornam-se valiosas e são vendidas e compradas; são reproduzidas. Fotos, que enfeixam o mundo, parecem solicitar que as enfeixemos também. São fixadas em álbuns, emolduradas e expostas em mesas, pregadas em paredes, projectadas como diapositivos. Jornais e revistas as publicam; a polícia as dispõe em ordem alfabética; os museus as expõem; os editores as compilam. Fotos nos fornecem um testemunho. Algo de que ouvimos falar mas de que duvidamos parece comprovado quando nos mostram uma foto. [Sobre Fotografia, Susan Sontag, 1974] |