E é da produção do lixo que
Michel Serres nos desperta para uma reflexão sobre a sociedade ocidental contemporânea. Da sua situação pela acção no território, pelo que torna visível e invisível. A poluição como assinatura.
A poluição – palavra que decorre da poluição nocturna, a ejaculação com que o macho marca o seu território vital – hoje o lixo e a destruição com que, à escala do globo, assinamos a nossa presença e acção.
Como os animais que mijam no território para o delimitarem, nós sujamos o território para o possuirmos. Assim nascem os limites, a arquitectura da casa, a construção das cidades, as nações. À volta dos mortos enterrados e em decomposição fixam-se as cidades dos vivos. Onde jaz um homem morto é onde se faz erguer uma cidade; erguemos uma cidade onde enterramos os nossos mortos. A sujidade como sinal de posse e, em movimento inverso, a expansão do dejecto como alargamento da propriedade.
Da vagina à casa, à cidade, à nação. E a religião.
É esta distinção fundamental, a do Ocidente, a quem foi revelado um Deus que não deixa lugar. O universalismo de um corpo que deixa intacto o útero da mãe à nascença e o túmulo vazio à morte. A abolição do sangue e das secreções como lei da paisagem. Uma cultura fundada no espaço vital sem desejo da propriedade além da que o corpo exige.
A propriedade é um roubo, proclamam os modernos, sem perceberem que a propriedade é uma decorrência do espaço vital. Só nos apropriamos do que necessitamos. A necessidade é a ordem do espaço.
A propriedade é um roubo, proclamam os modernos quando o processo moderno da propriedade alastra e vai excluindo cada vez mais indivíduos.
Serres não escapa ao impasse. Proclama, também ele, um fim da propriedade, já não sob reacção à imoralidade desta, mas como necessidade imperiosa para evitar o apocalipse numa paisagem que afirma global.
Marcas globais, publicidade globais que poluem o espaço de percepção (e poluir a alma não é o propósito da “indústria do
marketing”?) – a
poluição suave - , ruídos, devastações, catástrofes, provocados por acção humana, que rasgam qualquer fronteira e limite –
poluição dura - que destroem a despeito dos mapas e das nações. Sendo um espaço global, de circulação global, uma única comunidade global sujeita à acção de si própria, não necessitará mais de fronteiras ou limites, de propriedade.
Optimista radical, com fé no processo do futuro da
hominização do homem, o caminho, (utopia?) de Serres esquece a contingência. E a contingência exige-nos um leito para descanso à noite, um buraco para defecar, um claustro para a intimidade do amor. O espaço onde nos refugiarmos da poluição com que sujamos o próximo, a Terra; espaço reservado onde nos limpemos da poeira dos dias. Pelo menos enquanto a lei não for a do amor. A nós, ao próximo, à Terra.