![]() [Praça de Espanha, Roma] Vincent Scully abre a sua história do movimento moderno com a Praça de Espanha, em Roma. O último instante histórico em que verifica ausência de qualquer elemento moderno. Uma epopeia de optimismo e crença na razão e democracia que se desmorona na adenda de 1974, que termina com a Casa de Nantucket, de Robert Venturi. Sendo uma incursão por uma arquitectura da democracia, da emancipação do indivíduo, do precário balanço entre a continuidade - do desejo do indivíduo pelo espaço contínuo - e a fragmentação, que desordena essa continuidade - e no imprevisto que esse desejo do sujeito, atomizado, suscita. O que no barroco era uma liberdade ilusória e fabricada pela arquitectura, com apoteose no lugar do poder, na solidão da casa de Venturi encerra-se, de certa forma, naquilo a que estamos condenados, depois de todos os ismos: somos ainda modernos. Somos, cada vez mais, sozinhos. Não por acaso, de Nantucket larga Ahab, com ira, à caça da baleia branca. ![]() [Nantucket House, Robert Venturi, 1972] para O Ouriquense. |
somos condenados a ser modernos?
a natureza das cidades
![]() [Parque do Flamengo, Burle Marx, 1965] Qualquer coisa de determinista nesta palavra, de utilitarista, de dialéctica que restringe a complexidade do mundo a um punhado de conceitos objectivos, que me inibe de utilizá-la, à palavra produção, para nomear a capacidade humana de intervenção no espaço, sendo esse espaço o território, pela humanização e pela arquitectura, tornado paisagem. O espaço não é redutível à objectificação, não é uma coisa de fabricação e manipulação mais ou menos virtuosa, mas mais uma experiência. Mesmo que Lefebvre a produção do espaço seja a espacialização, é uma espacialização social, insuficiente à complexidade e integridade da experiência do espaço. Não crendo já em paraísos perdidos, o fulgor com que o parque de Burle Marx nos diz que isto é uma cidade, que cidade é que é, que lugar é este no mundo, na orla da Guanabara, é uma coincidência entre um Éden perdido e a construção humana, naturalmente imperfeita. E atravessada por uma auto-estrada. |
103
![]() [Brasília, René Burri] Depois de subir ao monumento, o homem regressa à terra mais homem. É também isso que devemos a Niemeyer. |
temas & debates
![]() [THX1138, George Lucas, 1971] Para ser mais preciso: evanescência. Onde tudo tende à invisibilidade: a estrutura escondida; a parede reduzida à epiderme; os vãos falhos na qualidade – ontológica – de instituição consciente de um interior com um exterior; a força da matéria cede perante a ilusão de contrariar a gravidade; a diversidade dos sítios subsumida nas superfícies infinitamente pintadas à cor branca; a proporção subjugada a uma afectada composição – outro equívoco, a composição - subordinada à primazia do visual com a erosão dos restantes sentidos; um corpo, ou partes de um corpo, sem juntas, que oblitera inconscientemente o corpo humano; o tráfico da integridade – integração das relações com os lugares e com o corpo e daí se permitirem deduzir e instituir as relações da arquitectura com o mundo, a apreensão da forma, íntegra, desse mundo interior/exterior, pelo homem - por simples ou complexas representações desse mundo que se propõe; a frívola e esquizofrénica tentativa de instalar estabilidade num entorno instável, (paredes, tectos, pavimentos, todos iguais, indiferenciados, inarticulados, em superfícies uniformes sem princípio nem fim nem as juntas mecânicas que a matéria e a tecnologia impõem). Onde tudo tende à invisibilidade, o ápice da abstracção, é a indefinição, inconsciente, da arquitectura. A recusa em tomar partido num mundo, todos os dias, um pouco menos conhecido. |
ar condicionado
![]() [Vitra, Daniel Libeskind, São Paulo, 2010/...] Uma síntese tecnológica – via sustentabilidade – será sempre um olhar redutor sobre a arquitectura. Para mais em tempo em que essa sustentabilidade se apõe, com grande força, como a grande narrativa, no medo do presente, de redenção no futuro. De certa forma a sustentabilidade é aquilo que Heidegger enunciava como o pensamento que calcula. O pensamento que administra a tecnologia. Um pensamento necessário, mas longe do alcance do pensamento que medita, que Heidegger acreditava em perda pelo homem contemporâneo. Com um paralelismo pedestre posso dizer destes tipos de pensamento como uma diferença entre as engenharias e a arquitectura. Não é reclamada a presença do engenheiro no estaleiro. Há hoje teconologias que permitem essa ausência sem comprometer o rigor da obra. Ao arquitecto pede-se que abandone o projecto, no exacto momento do início da execução da obra, quando o projecto é posto em obra. A presença em obra. A sustentabilidade é a eficácia desse pensamento que calcula. Mas o risco é permanecermos reféns deste pensamento, de certa forma um pensamento da necessidade e não das causas e essências. Como que um recurso alarmista, uma tecnologia do pensamento que calcula, o mesmo pensamento que descobriu as tecnologias que hoje põem em risco a sobrevivência da espécie. A sustentabilidade é essa via da urgência. De certa forma é uma perda. A perda que Heidegger assinalava como a nossa cada vez maior incapacidade de pensar. Ainda que pertinentes, este tipo de críticas, encerram em si o perigo de conduzir a arquitectura ao beco sem saída; um método de cálculo da eficiência ambiental, julgando-a, à arquitectura, não pelo que de conhecimento e humanidade acrescenta à própria humanidade, mas apenas pela eficiência tecnológica. A forma de Libeskind não ajuda nada. E a grande falha nem será a dos recursos que uma obra destas consumirá. Mas mais a irrelevância do paralelepípedo de vidro torcido debaixo do sol dos trópicos. Sem invenção para além da patrocinada por muitos dólares emergentes. Sem qualquer imposição crítica ao mundo que esse paralelepípedo inventa. Apenas a repetição da repetição da repetição da repetição de coisas tantas vezes vistas. Uma distopia das imagens. Um dos valores das sociedades que a elas anseiam aceder como padrão da contemporaneidade. |
opinião pública
![]() [Sforzinda, Filarete, 1464] Não que o escrutínio da opinião pública seja essencial ou decisivo, mas é relevantíssimo para qualquer prática artística, científica ou política. Quer por da sociedade decorrer alguma da legitimidade moral que sustenta essas práticas, quer pelos efeitos dessas práticas no seio da comunidade. Se tudo correr bem, do acordar ao deitar, somos rodeados por arquitectura. Porque também uma prática social, por ocupar cada vez mais indivíduos no seu cada vez mais complexo processo de produção, por consumir recursos cada vez mais vastos, muitos deles património comum, a sua acção é sensível a qualquer indivíduo. A arquitectura adquire maior visibilidade, literalmente, por ser inescapável. Ainda para mais numa época em que a arquitectura se torna refém de sistemas (pouco) éticos, (ainda menos) estéticos, que se representam na aparência da democracia mediática, é de todo o interesse dos arquitectos ouvirem não apenas os pares e/ou privilegiados clientes, mas uma, ainda que frágil e esparsa, opinião pública. Foi assim que li O elogio de um arquitecto, de Carlos do Carmo Carapinha. Por não provir de alguém da corporação, por apresentar argumentos eruditos e ilustrados no conhecimento genérico da História recente da disciplina e, sobretudo, por o texto encerrar os paradoxos com que a disciplina se debate ao tentar-se explicar à sociedade. E não me refiro ao erro inicial de atribuir à arte (pintura, escultura) o estatuto supérfluo [luxos?] que faria as delícias da, também ela muito discutível, tese freudiana que deduz a produção artística de uma pueril sublimação do indivíduo sob efeitos do mal-estar na civilização. Convém assinalar que em estopa de fundo do texto está uma clara confusão entre o que é arquitectura e construção. É que se a arquitectura é, também, construção, o contrário nem sempre é verdade. Muito poucas vezes, até. São palavras do autor que o confirma quando invoca o percurso por Telheiras (ou Massamá); ou quando observa, ao longe, a arquitectura de certos dormitórios das zonas metropolitanas de Lisboa e Porto, certamente inspirados na arquitectura do Leste Europeu (triste, deprimente, monocórdica, condenada a uma decadência indigente), por sua vez filha (bastarda?) do modernismo do Sr. Corbusier ou do Sr. Gropius; ou quando observa os blocos habitacionais em Brasília, inspirados pela «ideologia» do planeamento urbano, forjada na Carta de Atenas de 1933. Não que não paire o espectro destes arquitectos sobre as paisagens que o texto descreve: ecos distantes e distorcidos; adaptações incultas; citações equivocadas; imagens deslumbradas; mas sobretudo o ‘espírito do tempo’, o científico, que decide a maioria das opções culturais do último século, espírito do qual a arquitectura foi, em determinada circunstância, a modernista, uma poderosa força propagandista - mas ainda que muitos os deméritos, insuficiências e inadequações dos modernos, pelo menos propôs-se devolver, pela arquitectura, e pela primeira vez na História, a felicidade a todos os indivíduos. Provavelmente estas paisagens terão pouco do contributo dos arquitectos e quando isso suceda, não esqueçamos, é um contributo escrutinado pelo poder político, via autarquias, por exemplo, logo, e pelo menos desde 1974, em Portugal, para me reportar directamente à realidade que o texto reclama, legitimado pelo regime democrático. Correndo o riso de apresentar um argumento que possa se lido à luz de um mero e egoísta interesse corporativo, e desconhecendo o rigor dos números, creio andar à roda dos 10% o volume de construção, em Portugal, que tenha, de facto, feito uso de arquitectos. Não será, portanto, essencialmente da culpa dos arquitectos ou da arquitectura o caos em que se encontra as nossas cidades. Nesta atmosfera, justificável, de desconfiança em que foi lavrado o texto, mais desconfiança me levanta o exemplo de boa prática de que o Carlos do Carmo Carapinha se socorre para nos apresentar uma possível redenção dos arquitectos e da arquitectura. Não porque seja João Maria Trindade, ou a arquitectura de João Maria Trindade, mas porque é esta uma prática que recusa a divergência [cito o Pedro Machado Costa] de uma genealogia que tem trazido, em muito, a arquitectura aos impasses indiciados no texto. Grosseiramente, o que distinguirá o trabalho de João Maria Trindade do de Falcão Campos, do dos Aires Mateus, do de Inês Lobo, do de Bak Gordon, do de Gonçalo Byrne, do de Carrilho da Graça, (e das réplicas, ressonâncias, ecos, distorções, citações, espalhadas pelo território em temerosas paredes brancas clean), apenas para irmos directamente à realidade, a produção portuguesa hediorna, que o post induz? Não que estes não sejam nomes que não tragam novas luzes, ou indícios, ao problema da arquitectura. Não que não sejam arquitectos que reflictam ponderada e sofisticadamente sobre os temas que, livre e legitimamente, escolhem. A dúvida é se esses temas serão, ao fim de contas, os mais relevantes para responderem com mais precisão e força às questões que Carlos do Carmo Carapinha sugere. Não discuto as afinidades electivas, legítimas, repito, dos arquitectos acima referidos. O que discuto é a capacidade dessas arquitecturas apresentarem e representarem outro mundo que o do design autoritário e asséptico, desligado de significados e articulações à realidade, numa autoreferência infinita à cada vez mais ensimesmada arquitectura que reverencia indulgentemente os nomes modernos que o texto fustiga. Eis o paradoxo. Desconheço a obra de Auberon Waugh, tão pouco de que pressupostos se lança para lançar essa boutade. Arrisco até que se inscreva numa tradição que Scruton e o mais mediático e superficial de Botton reivindicam: a de uma nostalgia que recusa, por medo ou insegurança ou cautela ou parcimónia, enfrentar a galáxia de problemas que se levantam sobre as cidades e as arquitecturas, para lá do refúgio acolhedor e melancólico do country side. Em todo o caso, não se recusa, tanto aos nostálgicos, como aos arquitectos aqui ditos, pelo menos, a tentação da beleza. Ainda que insuficiente e consequente de valores tíbios. |
foreign legion

Jardim de Alá, Rio de Janeiro
Atender à toponímia é achar uma síntese de um lugar. História, Geografia, crenças, mitos, uma realidade mais ou menos opaca, lenta, de acordo com a linguagem, usos e desusos, de uma comunidade. Como arqueologia, desocultar significados em ruas e travessas e passos que muitos outros antes gastaram.
Eventualmente a História, dos testemunhos escritos, não bastará. Nem a Geografia –recorrente prefixo dos caminhos - dos acidentes naturais e humanos. Ainda menos a Filologia e a interpretação objectiva dos étimos. Talvez isso tudo isso e o entendimento do nome de uma rua ou praça como transmissão do valores inerentes a uma comunidade. Uma memória, claro. Ao atravessar de Ipanema ao Leblon, passar pelo Jardim de Alá, sobre o canal, um europeu treinado em pedras antigas e muitas já gastas e sem significado reconhecível, pensará em exílios e comunidades expatriadas, libaneses e sírios vindos para o Novo Mundo em fuga ou em demanda, e a demarcação simbólica e identitária das diferenças e das crenças. Mas talvez a História seja matéria mais prosaica. Saber que o Jardim de Alá é a memória de uma outra deusa - de carne -, Marlene Dietrich que, no deserto berbere, recolhia segredos do amante, depois dos espanto inicial, é o reconhecimento de uma outra liberdade. Da que se constrói onde antes, há pouco mais de oitenta anos, não existia o elemento humano (urbano). Uma maneira da liberdade, a deste nomear, que ainda custa a entender. |
história contra-factual#2
![]() [Bombardeamento e incêndio na Catedral de Reims, 19 Setembro 1914] Dizer que se não tivesse ocorrido o Renascimento, o preciso instante em que o arquitecto passou a ser um cavalheiro ao deixar talhar a pedra com as mãos, pode querer dizer que não passaríamos aqui. A abstracção aguda, absurda, que começou ao deixar, o arquitecto, de estar na/em obra. Tão absurda como querer conduzir a arquitectura à invisibilidade: o reflexo do tudo que pode ser tudo e, no fim, é o nada. |
novo mundo#2
![]() Enquanto aqui embaixo a indefinição é o regime E dançamos com uma graça cujo segredo Nem eu mesmo sei Entre a delícia e a desgraça Entre o monstruoso e o sublime [Americanos, Caetano Veloso, 1992] Uma das hipóteses que coloco após a semana de «guerra» que o Rio de Janeiro viveu, é a da ineficácia da arquitectura em instruir respostas às formas de espaço e território e paisagem e sociedade que se ergueram fora do alcance da disciplina. Estas, obliteradas pelo cânone escolar, académico, científico, teórico e prático, (que adquiriu contornos de esquizofreniacom a actualização ao segundo via web), quero dizer, a falta de adesão da arquitectura à realidade. E a esta questão, algures uma académica me respondeu com Koolhaas, o espaço fluído por ele teorizado, fora do alcance do que os modernistas poderiam ter pensado, e a cidade espontânea e genérica, por exemplo. Naturalmente que esta resposta não satisfaz. Talvez estes modelos sirvam ao desiderato contemporâneo da originalidade e novidade. E a citação a Koolhaas fará até sentido a partir do ponto de vista de quem afere o mundo pela capacidade de consumo de cada indivíduo, et pour cause, uma resposta conhecedora da mecânica da sociedade hiper-mediatizada e que daí extrai as vantagens à sua própria divulgação. Mas as dúvidas maiores sugerem-me se tais respostas sirvam, de facto, à avassaladora condição urbana planetária. Como se a arquitectura, por medo ou arrogância, entrincheirada na academia e em premissas obsoletas, se esquecesse do seu original propósito: construir um belo abrigo para o Homem. E nesta hipótese de demissão da arquitectura, a partir da experiência do Rio de Janeiro em semana de «guerra», repito (e o termo é equívoco, claro), reconhece-se uma ténue luz que decorre directamente da política. Aquilo que a disciplina se recusa a pensar, a política, via Beltrame, tenta propor: respostas integradas, ainda que frágeis, a uma cidade livre, em que todo o cidadão o é por direito democrático e com todos os direitos de dignidade consequentes. Talvez fosse uma ideia a arquitectura desaprender para voltar a aprender, citando Clarice. Esquecer os padrões do bom gosto que originam casas iguais na 5ª Av., no Boulevard de Saint Germain, em Belgravia, no Leblon ou na Quinta Patiño. Erradicar o preconceito escolástico que reduz à indigência o que é inventado pelo vigor e vontade de quem é excluído das baias do bom gosto educado e que conduz a arquitectura ao ensimesmamento e que reduz à condição, pobre, de objecto aquilo que vai, esquizofrenicamente, produzindo. |
novo mundo
![]() [Hotel Marina Leblon, Rio de Janeiro] Sendo essencialmente moderno, ainda que pré-moderno, o nascimento das cidades do Novo Mundo, pergunto-me se o catecismo modernista, que ainda é matriz do espírito do arquitecto e do urbanista, não terá guiado as sociedades mais à infelicidade que à felicidade. Hoje, sei-o, é possível ser-se feliz numa favela. Não discuto se essa felicidade é muro erguido de medo e prisão, sê-lo-á certamente aos olhos do sujeito de pressupostos burgueses da sociedade do bem-estar. Mas depois questiono a verdade e autenticidade dessa liberdade caucionada pelo consumo. É que, no fundo, essa liberdade está a construir as cidades todas iguais pelo denominador comum da disneylandização turística da cidade global. Lado a lado com a outra parte, excluída, os novos sans-coulottes do capitalismo global. Do capitalismo fora da euforia nineties que o supunha apenas possível dentro de um quadro liberal-democrático. |
a boa vida#2
![]() Quando os homens da lei tomaram os morros do Complexo do Alemão, no Rio, e expuseram aos olhos da multidão cá embaixo como os bandidos vivem lá em cima, algumas coisas chamaram a atenção: a falta de resistência, a Bandeira Nacional tremulando como símbolo de conquista e, principalmente, a morada dos traficantes. Polegar se amoitava em três andares, com sancas de gesso iluminadas, piso ladrilhado, TVs de plasma e até piscina na cobertura (ali, mais conhecida como laje). Pezão tinha ar-condicionado e mandara pintar na parede um retrato do astro teen Justin Bieber. Gão possuía área de churrasco e chafariz em forma de golfinho esguichando água para dentro da piscina com um "G" desenhado no azulejo. Não demorou um nada para batizarem os mocós do crime de "mansões" e "imóveis de luxo" com "vista privilegiada". Um erro, senão um preconceito que já nem nos damos conta, avalia a antropóloga Mariana Cavalcanti, professora do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas. "Não há motivo para tanta surpresa. Os traficantes são socializados na cultura do consumo, como todos nós", diz Mariana, que é doutora pela Universidade de Chicago e se dedica a pesquisar espaço urbano e moradia, em particular na história e no cotidiano das favelas cariocas. Suas palavras a seguir mostram que, morro acima, termos como "tragédia" e "ofensa" vão muito além de sua mera ligação com "pobreza" e "tráfico". Nome aos bois "Mansão e imóvel de luxo não são termos adequados para descrever as casas dos traficantes. O que define uma mansão? É o espaço? A localização? O valor de mercado? Sob nenhum desses critérios aquelas casas podem ser consideradas 'de luxo'. Não entendo a surpresa das pessoas com as banheiras de hidromassagem, as piscinas, as TVs, o quadro do artista pop juvenil na parede encontrados ali. Ora, são os valores da nossa sociedade, do capitalismo, que os tornam objetos de desejo. Os traficantes são socializados nessa cultura do consumo, como todos nós. A opção pelo tráfico também se dá pelo status (ser temido, reconhecido e assim por diante), mas se dá primordialmente pela possibilidade de ter bens de consumo. Então por que a surpresa? As pessoas, em particular a classe média da zona sul e da Barra, ficam incomodadas com a pouca nitidez da diferença entre 'nós' e 'eles', com o compartilhamento do imaginário de consumo. Entrar no mundo opaco da favela e encontrar um espelho das suas aspirações parece desestabilizar a certeza tão consolidada e cultivada de que os traficantes em particular e os moradores de favelas em geral são 'os outros'. Nem tudo é barraco "Achar que morador de favela vive em barraco é uma ideia datada. Historicamente, os migrantes chegavam aos morros e, de fato, alugavam um barraco de madeira, de um cômodo, que era melhorado ao longo dos anos. Como disse um morador uma vez, casa na favela nunca fica pronta. Mas, hoje, há muitas casas acabadas por dentro e por fora, decoradas com capricho, com uma série de preocupações estéticas e afetivas que refletem investimentos materiais e subjetivos. Ainda há os blocos aparentes e a falta de reboco, mas, na última década, vi pouco chão batido. A maioria tem piso. Claro que os pobres ainda vivem em condições precárias, há toda sorte de problemas arquitetônicos, a circulação de ar, a entrada de luz e outros aspectos básicos ainda deixam a desejar. Contudo, a tendência é que essas casas se tornem cada vez mais parecidas, em termos de acabamento, com as da cidade dita formal. A metamorfose de um barraco em uma casa não apenas transforma a forma e a qualidade da moradia. É uma transformação que abre a promessa de um futuro melhor - em parte, devido à própria experiência de acúmulo de capital na forma de uma casa que participa de um mercado imobiliário dinâmico, ainda que limitado pelos traficantes e pelos estereótipos relacionados à favela. Disfarce "A mídia noticiou que é possível que alguns traficantes tenham fugido ‘disfarçados de moradores’. Isso é uma ofensa inenarrável aos moradores e reafirma estereótipos terríveis relacionados a raça, classe e lugar de moradia. No asfalto nós sabemos diferenciar o cidadão que paga imposto do que sonega? O honesto do corrupto, ou do que pratica violência doméstica? Então, por que no morro os traficantes, moradores locais que são, seriam identificados tão facilmente? Além disso, essa ideia tende a reforçar outra, essa sim mais perversa, que é a velha ladainha de que os moradores de favela são coniventes com o tráfico. A quantidade de ligações ao disque-denúncia faz esse estereótipo cair por terra. E é bom que o faça, pois, assim como classificar os acontecimentos recentes de ‘guerra’, a ideia de que os moradores são coniventes tende a legitimar incursões policiais truculentas e a sedimentar os preconceitos de quem associa pobre a bandido. Nos anos 80 e 90 o tráfico era uma atividade muito mais lucrativa do que é hoje. E menos institucionalizada, também. Os chefes eram crias da favela e mantinham relações de respeito com os moradores - coisa que os jovens que os sucederam já não mantêm. Os moradores tinham menos oportunidades de ascensão social naquela época, ou seja, a desigualdade entre o traficante e o morador comum diminuiu, seja porque o tráfico se tornou menos lucrativo, seja porque os moradores passaram a ter mais poder aquisitivo e mais oportunidades de formação e qualificação profissional. Notais fiscais "O episódio da moradora que voltou para casa e soube que a sua TV LCD, ganha num sorteio, tinha sido metralhada por um policial, mesmo ela tendo deixado à vista a nota fiscal do aparelho, é simplesmente trágico. Porém, não surpreende. Perdi a conta de quantas vezes, nas minhas pesquisas, entrei na casa das pessoas e elas faziam questão de me mostrar as notas fiscais dos eletrodomésticos que tinham a sua volta. Os recibos ficavam sempre à mão, para que fossem facilmente localizáveis na hora em que a polícia chegasse. Esse fato é sintomático da relação difícil e recheada de desconfianças que, infelizmente, não são infundadas. Claro que nem todo policial é ladrão de eletrodoméstico de trabalhador, mas também não podemos afirmar que não há precedentes para esses cuidados dos moradores. Mágico de Oz "Já as crianças se banhando na piscina dos traficantes é a imagem mais comovente de todo o evento. Nela, sim, há uma vitalidade que poderia ser descrita em termos de uma possível libertação - ainda que por uma tarde na piscina. Lembra quando a bruxa morre em O Mágico de Oz? Todos cantam e dançam alegremente? Está um calor absurdo no Rio, e não existem clubes para esses meninos no Complexo do Alemão. Mas me incomoda que essa imagem bonita seja usada para cantar a vitória da ocupação. Os desafios ainda são muitos, as denúncias de violações de direitos humanos aumentam a cada dia, ainda há muitos traficantes soltos, outras facções, as milícias... A vitória cantada antecipadamente e a metáfora da guerra são nocivas. Tiram a atenção dos inúmeros desafios que são urgentes ali e no resto da cidade." [Um espelho no morro, Christian Carvalho Cruz, in O Estado de São Paulo, 5.12.2010] |
apenas uma breve consideração sobre a natureza dos objectos
![]() [Terminal de Cruzeiros de Lisboa, João Luís Carrilho da Graça, 2010/...] Se uma das funções da arquitectura é tornar visível (o que sem ela não seria possível ver-se), ela fá-lo pelo vagar, ente cena e obscena, através das subtilezas das luz e da obscuridade. Não exactamente como num teatro, ainda que com o drama partilhe alguns dos materiais e a urgência do tornar-se visível para dar a ver. Alguém hoje, depois de uma furtiva viagem a Lisboa, propunha, lado-a-lado, o Carrilho da Graça que trazia na bagagem e Isay Weinfeld. Pode ser. Não apontar para nenhuma direcção é uma legítima opção, no mar-rede de direcções possíveis. Como também o é, obscenamente, querer deixar de dar a ver para, com alguma ansiedade e/ou vaidade, desejar apenas ser-se visto. Mas aí talvez já não estejamos a falar de arquitectura. Talvez de objectos. Apenas. |
4’33’’ à espera de godot, não mais que isso
![]() [Casa Dogon, Mali] Responde-se a si mesma, essa longa marcha lenga-lenga que prossegues - e estás bem acompanhado por toda a tradição moderna e pós-moderna, diga-se: a auto-proclamada vitória final da razão e da mecânica funcionalista, genericamente, o pensamento que guia ainda a produção arquitectónica, e a tábua rasa. E é nessa exacta linha, do confronto com os limites da razão e com o método positivista, onde se levantam as maiores perplexidades dessa vontade revolucionária. Até porque a História que nos é contada diverge dos factos, valendo-se da percepção induzida às massas por aquilo que alguém chamou da semicultura destas amplas democracias. Bem entendido, recusa-se aqui um regresso ao passado trágico das multidões ignaras a trabalhar de sol a sol para senhores ou pela escassa sobrevivência. Mas andaremos assim tão distantes da indigência quanto a hiper-modernidade nos faz crer? E é o outro passado, o edénico, obstinado em surgir em todas as reflexões de todos os que se propõem desocultar um sentido para a prática da construção mais que construção. Tome a forma de especulação erudita ou de devaneio ensandecido, de Vitrúvio a Le Corbusier, averiguar a natureza da cabana primitiva ocupou os espíritos mais agudos do ofício, e nem todos com a fineza de um Proust. E não é inocente a travagem repentina desta marcha em Le Corbusier, a acreditar que a História é uma marcha imparável. A razão que nos governa com determinação desde Newton tem proporcionado à espécie magníficos avanços técnicos e materiais mas não tem caucionado respostas satisfatórias a ansiedades mais profundas. E não é lirismo nem superstição dizer-se que as questões que se levantarão a Koolhaas ao adormecer serão, provavelmente, as mesmas pelas quais Vitrúvio terá passado noites em claro. Exactamente as mesmas que deram origem ao mito, à religião, à filosofia, à arte. E aqui ainda andamos perplexos. As mesmas por que se queimam tantos cigarros. Esqueça-se o ambiente sócio-histórico de cada um dos estilos, esqueçam-se as disputas e as querelles, se vem primeiro a ideia se primeiro a forma, se a madeira se a pedra, se a pirâmide se a caverna e as belas prosas que nos chegaram, sabemos que um estilo é uma paciente elaboração da teia de relações que articula o homem com o que o rodeia. Sim, o cosmos, e não apenas o contextualismo (crítico), que permite ao Homem situar-se num Universo desconhecido. A ciência tem-nos trazido notícias, quase diárias, do recuo do desconhecimento, mas ela própria sente-se incapaz de verificar as causas primeiras, mesmo com todo o dispositivo tecnológico à disposição. Recorro à noção de abrigo, ou antes, a um possível significado de abrigo, que poderá, por hipótese transcender cada um de nós para se situar no plano simbólico e de facto, da manutenção da espécie: no abrigo descansamos, preparamos o alimento, procriamos. E tendo a achar que o significado do abrigo e da arquitectura se atravessa neste plano, do símbolo e do mistério existencial, mais largo que a boutade da máquina de habitar. E ainda que a máquina de habitar tenha produzido belas obras, e ainda que possamos, num esforço hermenêutico que contrarie o cerne do aforisma e da intenção do autor, atribuir uma função simbólica que se evidencie também no form follows function, a realidade é que o abrigo produzido sob a estrita prescrição do funcionalismo pura e simplesmente foi recusado pela ansiedade com que se estende a vida perante outras realidades mais largas que o trivial quotidiano. O exemplos são muitos e um deles é a própria Ville Savoye, logo abandonada pelos donos aos animais e transformada em estábulo para ressuscitar, após a II Guerra como casa-museu. Não valerá a pena aprofundar muito sobre a Casa Farnsworth e o penoso processo que opôs a cliente (e amiga) de Mies ao arquitecto de uma casa que o não chegou a ser. Serão experiências radicais e necessárias. Assinalam uma época, qualquer que seja, mas trazem mais de provocação que de conclusão, evidentemente. O abrigo, e a arquitectura como primeiro abrigo, (certo, somos pós-freudianos, sabemos do líquido amniótico), convoca o arquitecto à exigência de pensar, em projecto, em todas as relações que transcendem o indivíduo e a praticabilidade quotidiana da arquitectura. São essas relações que, mais ou menos evidentes, mais ou menos mensuráveis (intuição?), apelam incessantemente à procura da origem (do princípio e da causa). Relações que o racionalismo não poderia responder. (Mas mais, o racionalismo, ao eliminá-lo, ainda levanta o problema estético.) Mas concordo que visto dessa maneira apresentes um panorama retroactivo do fim da História. Temo que ela ainda não tenha terminado. Esta arrogância da razão são 4’33’’ à espera de Godot. Não mais que isso. adenda: Qualquer coisa como isso. |
causas primeiras
![]() [Templo Primitivo, Le Corbusier in Vers Une Architecture, 1923] Curioso que sigas a linearidade dessa arqueologia. Poderia acrescentar Serlio, Laugier, Blondel, filho, John Soane, Piranesi, Viollet-le-Duc, e os outros, quase todos. A pirâmide como arquétipo (um dos), das origens da arquitectura, tratada por todas essas famílias da teoria e da crítica. E à excepção de Le Corbusier e Frank Lloyd Wright, mas este sem o fulgor propagandista do primeiro, nenhum dos arquitectos do séc. XX que referes constrói uma narrativa no trilho das origens da arquitectura. Inevitavelmente uma empresa desta importância passará pelos arquétipos arrolados em toda a História da Teoria e, hoje, também pela luz de Jung, (ainda que esta passagem careça de muita cautela). O que pergunto é por que deixaram os arquitectos de se preocupar com a origem (como princípio e como causa) da arquitectura? É que, presumo, será na relação do Homem com a realidade - na conhecida e na misteriosa - esse o empreendimento válido da razão e da imaginação e o modo de pela razão e pela imaginação se chegar a um sentido do ofício que nos ocupa. Ou talvez que o racionalismo nos não permita reivindicar a imaginação? |
lucrécia neves
![]() O subúrbio de S. Geraldo, no ano de 192..., já misturava ao cheiro de estrebaria algum progresso. Quanto mais fábricas se abriam nos arredores, mais o subúrdio se erguia em vida própria sem que os habitantes pudessem dizer que transformação os atingia. Os movimentos já se haviam congestionado e não se poderia atravessar uma rua sem desviar-se de uma carroça que os cavalos vagarosos puxavam, enquanto um automóvel impaciente buzinava atrás lançando fumaça. Mesmo os crepúsculos eram agora enfumaçados e sanguinolentos. De manhã, entre os caminhões que pediam passagem para a nova usina, transportando madeira e ferro, as cestas de peixe se espalhavam pela calçada, vindas através da noite de centros maiores. Dos sobrados desciam mulheres despenteadas com panelas, os peixes eram pesados quase na mão, enquanto vendedores em manga de camisa gritavam os preços. E quando sobre o algre movimento da manhã soprava o vento fresco e perturbador, dir-se-ia que a população inteira se preparava para um embarque. Ao pôr do sol galos invisíveis ainda cocoricavam. E misturando-se ainda à poeira metálica das fábricas o cheiro das vacas nutria o entardecer. Mas de noite, com as ruas subitamente desertas, já se respirava o silêncio com desassossego, como numa cidade; e nos andares piscando de luz todos pareciam estar sentados. As noites cheiravam a estrume e eram frescas. Às vezes chovia. A Cidade Sitiada, Clarice Lispector, 1949 |
felicidade clandestina*
![]() Vila Cruzeiro, Rio de Janeiro, 26.11.2010 A transformação da realidade operada a partir das palavras é um exercício que encerra perigos e obriga-nos à desconfiança. A partir da instauração do mundo, que é em todo o esplendor, o poder e acção da palavra, a realidade constrói-se também pelos desvios a que submetemos a palavra. O perigo é a cegueira ao real provocada por uma vontade ideológica; e a desconfiança de incorrer-se em equívocos num trabalho sobre a realidade. Chamou-me de início a atenção a substituição, no discurso oficial e oficioso, da palavra favela pela de comunidade. Intrigante mudança de nome que, desconfiado – ou cínico –, me remetia para a imposição semântica do politicamente correcto. Se favela transporta o óbvio estigma produzido e reproduzido e difundido de pobreza, miséria, violência, doença e morte, comunidade pretendia, como que por ordem superior, transformar esse estigma, evidentemente uma generalização equivocada, numa realidade que deturpasse as duras condições de vida da favela. E também, que remetesse para as sombras, essa realidade de pobreza, miséria, violência, doença e morte que também existe na favela. Percepção e preconceito são inseparáveis, mas, só por medo, despudor ideológico, ou ignorância, alguém, depois de um ou dois segundos de reflexão sobre a condição da favela, poderá consentir que os quase 20% de habitantes cariocas que moram em favelas serão todos portadores do estigma que se associa ao lugar de onde provêm. Mais interessante é a classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de aglomerados normais, a cidade formal, e aglomerados subnormais, a favela. Esta caracterização, ela sim, preconceituosa e ditada por uma ideia de cidade obediente ao desenho autoritário de arquitectos e urbanistas e cientistas e políticos, é feita a partir de noções de desorganização, ausência de estruturas e infra-estruturas básicas (escolas, centros comunitários, redes de água, saneamento e internet, etc.) que, pura e simplesmente, não coincidem com a realidade da favela. A originalidade da favela, contraposta à cidade do asfalto, constitui-se no uso criativo dos materiais encontrados na cidade do asfalto – a cidade formal na construção da qual trabalhavam os primeiros favelizados e das sobras da qual extraíam os materiais para a construção das suas próprias casas nos morros baldios – a ocupação densa e aparentemente desorganizada do território, e o projecto como processo sem final determinado, (nem relação de poder e hierarquia decorrente de uma vaga legitimidade académica ou científica), mas antes sustentado nas necessidades elementares do habitar e nas possibilidades e contingências da vida quotidiana. As relações sociais tecidas nestes territórios alcançam, evidentemente, um grau de comunitarismo que a cidade formal, genericamente ainda decorrente dos princípios da Carta de Atenas, não estimula e muito menos permite. Evidentemente que uma favela é uma comunidade. O comunitarismo da favela, com as suas frágeis redes de solidariedade e de vizinhança, serve aos moradores da favela como contraponto à precariedade das suas condições existenciais e debilidade das suas casas. É a resposta espontânea de um grupo à adversidade e exclusão imposta por inúmeras e complexas razões. Ainda que o território labiríntico da favela, não concebido pelas leis da vigilância e do higienismo modernista, construído sobre uma dramática geografia, permita esconderijo fácil aos bandos do narcotráfico e a irrelevância da Lei do Estado de Direito democrático, não chega como motivo para a demolição das casas e das condições que aqueles indivíduos ergueram na contingência das suas vidas. Arrasar cegamente e a eito as favelas, a sua substituição por tipologias urbanísticas que satisfazem o olhar eruditamente treinado do arquitecto é, também, uma forma de violência contra a vida e os laços relacionais dos habitantes das favelas. Ao isolamento do indivíduo, costumizado e fantasiado de si mesmo, embriagado no shopping mall contemporâneo e global, habitante efémero e nómada de torres tecno-ecológicas do Dubai e de células em Tóquio, ou encerrado em «novos paradigmas do habitar» dos mais mediáticos nomes da arquitectura e da especulação, a favela oferece uma visão do território e da vida radicalmente diferentes e provavelmente incompreensíveis a quem reduz o mundo e o outro a imagens. Aos habitantes da cidade do asfalto global, para quem a favela é uma excrescência na paisagem, cabe perceber que o preconceito e o julgamento moral a que estão sujeitos os favelizados é alimentado pela cada vez mais poderosa máquina criminosa que envolve o narcotráfico, políticos inescrupulosos, magistrados corruptos e polícias vendidos que mantém reféns os moradores da favela. Ao alcance de todos está o entendimento de que comportamentos criminosos e acções violentas de uma ínfima minoria - poderosa e pelo terror dominadora - não justificam a demolição homogeneizadora do que o favelizado ergue com suor e dor e amor. Aos arquitectos pede-se uma intervenção sobre o real. A denominação de comunidade pode transportar a boa vontade das intenções dos políticos e cientistas que trabalham para tornar a condição de favelizado mais próxima da dignidade, mas elide todo um mundo de relações, humanas, urbanísticas e arquitectónicas, de realidade construida e em construção. Um bom princípio para não se derramar todo o preconceito apreendido nos bancos da escola (moderna) sobre a vida e realidade de quem constrói e habita a favela é o entendimento do que ela significa. É esse o sentido e o mistério da palavra e das cidades. *Clarice Lispector |
cidade de deus
![]() [Favela Vila Cruzeiro, Rio de Janeiro, 23.11.2010] Tudo o que foi posto no mundo foi-o por Deus. Também o Mal. Assim crê um católico romano, como este vosso escriba, mas não necessita o preclaro leitor de partilhar esta confissão para aceitar que daqui, desta fé, brota um insaciável optimismo. Ainda que as distracções sejam muitas, a época se incline para as sombras e aceitar isto soe a monstruosidade. No meio do terror e do pânico espalhados pelas ruas da cidade o que é espantoso é assistir ao nascimento da esperança a partir do medo. Rua a rua, porta a porta, cada milímetro conquistado nesta guerra no interior dos muros da cidade (bem sei que este nosso mundo extinguiu as categorias de centro e periferia, perdoe-se-me o anacronismo), é celebrado em alegria e adesão ao futuro por todos os cariocas. O cansaço, com certeza, mas sobretudo o vislumbre e o desejo de um amanhã numa cidade livre. Confirmo que do medo pode nascer a esperança e da ruína cidades abertas ao amanhã. para o Tolentino p.s. Para acompanhar, aqui. |
reconfiguração das fronteiras
![]() [Fendas, José Bechara, MAM Rio de Janeiro] A noção de fronteira é «boa para pensar»*, se o limite do conhecimento é, permanentemente, a tentativa da ciência para fazer recuar o desconhecimento, e uma razão da adesão da arte ao pensamento espacial e à arquitectura. *Por uma Antropologia da Mobilidade, Marc Augé, 2009 |
Seoul (adenda à entrada anterior)
No paralelo 38 ainda é a fronteira, a mesma linha por onde deslizam espectros do séc. XX e chocam as placas tectónicas do séc. XXI, entre passado, futuro, no presente sempre presente, ondas do distúrbio caótico, a geometria rugosa sobre a extinção do mundo cartesiano. Outro espaço crítico de que não compreendemos ainda a forma, apenas ainda indícios do conflito.
![]() via Cláudia Pestana, no Extremo Oriente |
Médio Ocidente
![]() [Rio de Janeiro, 24.11.2010, Sérgio Moraes / Reuters] Sabemos agora, depois do séc.XX, que as fronteiras não se abolem. E sabemos agora, no séc. XXI, que as fronteiras podem estar diluídas ou difusas ou ténues. Mas não cessam, apenas sofrem processos de reconfiguração e de re-desenho. Talvez a novidade da época de reconfiguração dos limites e fronteiras seja, por um lado, a percepção desse processo pelo indivíduo na sua vida quotidiana e, por outro, a consciência que essa reconfiguração assume uma escala global de causas e efeitos instantâneos e que todos os homens, em todos os lugares do mundo, são parte dessas transformações. Se o gótico demorou cem ou duzentos anos a baixar a Portugal, por exemplo, ou as vanguardas modernistas necessitaram de trinta anos, duas guerras mundiais e muita propaganda, para se imporem como arquitectura e ideologia dominantes, o carácter dos acontecimentos destes dias será a instantaneidade. Futuro, passado, diluídos num aparente sempre presente. A linearidade como ideia, optimista, de progresso histórico e emancipação humana cede è evidência que os acontecimentos de que hoje somos parte são efeitos de causas díspares no tempo e no espaço. Como uma evidência, na carne e no quotidiano, da teoria do caos ou da teoria das catástrofes. Se a matemática explica as condições de disseminação e propagação dos elementos a politica demonstra toda a impotência e incapacidade em entender a realidade (instável). No século anterior manifestaram-se tragicamente os limites das ideologias que compreendiam a realidade como totalidades acabadas e o seu caminho foi uma procissão de morte; os escassos anos que nos distanciam da queda do muro de Berlim explicam-nos também a impossibilidade da compreensão do real à luz das teorias que pretendem emular a natureza como orientação social, aparentemente livre, e paradigma da condução (aparentemente sem regras) dos assuntos humanos. Há quem diga que Hegel morreu, que Adam Smith tenha sucumbido, mas ainda não há confirmações oficiais por parte da classe política. Esta ainda se mantém submissa a velharias ideológicas sem alcance nem horizonte para os dias que correm. Justamente a política (europeia) que ainda não compreendeu o recuo do eurocentrismo e da mudança do centro económico global do Atlântico para o Pacífico, a política (dos BRIC’s) que, na especificidade de cada um deles, acede e deseja maior protagonismo num mercado global em que os símbolos dominantes são ainda e serão os (arcos dourados) produzidos pela indústria ideológica norte-americana (de matriz, evidentemente, europeia). Como uma conversa em linhas trocadas talvez a política não tenha ainda entendido que as fronteiras do velho mundo, realidades outrora acabadas, perderam eficácia e que é momento de entender os limites (do conhecimento), tentar explorá-los ou ultrapassá-los. Em Lisboa, altos representantes políticos e militares reúnem-se para repensar a estratégia de intervenção global das instituições que representam. No Rio de Janeiro estala a guerra quando o estado, finalmente, pretende impor a lei e o estado de direito (formal, pelo menos, discutível, certamente), sobre territórios onde ela está ausente. Em Lisboa o velho mundo, atordoado, exibe-se no esplendor da sua fraqueza num acordo de escudo de protecção anti-míssil, sem que tal aparato militar tenha adesão às novas formas de guerra e terror. No Rio de Janeiro antecipa-se o futuro, Olímpicos e Copa, como possibilidade final da concretização da utopia da Cidade Maravilhosa e a “limpeza da cidade”, sustentada num discurso e linguagem bélicos, de uso corrente, e numa realidade de terror e pânico. Aparentemente diversos e distantes, são eventos como asas da mesma borboleta caótica. A condição urbana global (não condição genérica), é a estrutura física onde estes acontecimentos ocorrem. E se no Rio de Janeiro o artefacto e o discurso militar são parte do quotidiano e da linguagem de uso quotidiano, na tentativa de aceder a modelos urbanos europeus e norte-americanos, vistos e pensados como os únicos possíveis, em Lisboa adquirem-se, com incompetência e estupidez habituais, artefactos militares para uma «guerra de bairros» inexistente e que apenas demonstra a falência e a ignorância dos políticos que dirigem a polis. A falência, porque mais um momento de depredação do dinheiro dos contribuintes sem qualquer carácter de serviço público e de aumento da liberdade, a ignorância, porque a recusa do poder político em pensar a condição urbana portuguesa à luz das características sociais, do vazio de qualquer política territorial e de cidades que foram os últimos 36 anos e apenas a importação de modelos de manutenção da paz, segurança e liberdade urbanas que nada têm a ver com a realidade portuguesa. Curiosamente não houve conhecimento de que alguma voz, algum arquitecto ou urbanista, se tivesse pronunciado sobre tal monstruosidade. |
lucky strike
![]() Não são tanto as respostas, até porque é uma entrevista de escassíssimo interesse arquitectónico, mas mais as perguntas. Não é a arquitectura, é a sociologia [de pacotilha] e são as condições em que se pratica a arquitectura em Portugal. Talvez mesmo mais longe que Lisboa e a comezinha burguesia de extracção Frágil-anos-oitenta, a caixa de comentários da entrevista exiba as condições e a precariedade com que, um a um, caem os jovens iludidos da arquitectura. Existirão razões mais fundas para o que sucede. Razões endógenas à prática moderna da disciplina e ao ensino da arquitectura: a erosão do conceito do belo e da estrutura estética da arquitectura, contrariamente ao que as mundanas e poderosas imagens nos fazem crer; o credo num funcionalismo e mecanicismo absoluto, ainda que dirimido nessas mesmas imagens de atracção libidinosa; a obrigatoriedade imposta ao arquitecto da invenção do novo e do deslumbramento do original que nada terá a ver com as origens. E admita-se que, depois de cinco anos de mergulho na ilusão niilista, um jovem-arquitecto, (a recibos verdes e subsídio do IEFP, concertado pela entidade empreadora), resulte num indivíduo em que a frustração e o ego ferido sejam as características mais evidentes. Ressentidos de todo o mundo, uni-vos pelas caixas de comentários públicas. As falácias em que foram instruídos tombam, uma a uma, com a «crise». Claro que Aires Mateus não é Aires Mateus. É Carrilho da Graça (perdoem-me a maldade, o Darth Vader do eixo socio-arquitectónico Lisboa-Cascais?), é Koolhaas, é Zaha Hadid, são as centenas de ateliers, como gostam de nomear os compartimentos de trabalho onde espalham os novos amanuenses da arquitectura, que propagam a monotonia, o tédio, o horror arquitectónico e a tragédia urbana. É mais uma condição do que chamam globalização e que a nossa impante realidade ridícula também chama de Estado Social e, às vezes, em arrogância comprometida, arte. O deslumbramento, a construção e o culto do arquitecto como figura do sucesso (de ressonância, perdão, cavaquista), eleva-se no coreto da nossa paróquia. E esquecemo-nos da arquitectura. De nós mesmos. E do outro. [Pede-se perdão pelas falhas técnicas de comunicação: uma greve geral aí, algumas, poucas, caipirinhas aqui, demasiado sangue derramado no chão da cidade em barbárie do narcotráfico, a vida como ela é, caros arquitectos de blog.] Para o Daniel e para o Pedro. este samba vai para Dorival Cayme, João Gilberto e Caetano Veloso e para todos os grevistas anti-socialistas, |
prelo

[Brasil: Arquiteturas Após 1950, Maria Alice Junqueira Bastos, Ruth Verde Zein, São Paulo, 2010]
breves inquietações de um sujeito-arquitecto
Acredito quando afirmas a possibilidade de inscrever na parte de trás de um bilhete de autocarro o que distingue uma construção de uma obra de arquitectura. É admirável essa capacidade de síntese. Confesso a minha incapacidade para tal sintética descrição, até porque os bilhetes de autocarros são cada vez mais reduzidos e com a parte de trás estampada por estereotipadas turísticas imagens (passe o pleonasmo) da cidade que o autocarro sirva. Além de que existem, ao que se conhece, dois milénios e meio, pesada literatura, muita polémica, sobre o assunto.
Antes de perguntar o como, tem-me ocupado mais o porquê. O porquê da arquitectura. O porquê da vontade, individual, do sujeito-arquitecto, colectiva, da comunidade humana, de juntar umas pedras, elevá-las ao céu, cobri-las com tecto - partindo do princípio que a arquitectura arranca a História na pedra e não na madeira, outra antiquíssima disputa. É que quando penso nisso recuso o tipo de trivialismo com que, por exemplo, Graça Dias aqui despreza a casa. A Casa e o Mundo. Porque nem só de Cidade se faz o Mundo e, tão pouco a cidade é metáfora da vida como ela é. E talvez a casa seja mais mundo do que hoje, encadedeados, possamos admitir. Porquê. | ![]() |
causas inconscientes
É latente o desconforto experimentado perante a palavra estética, dita num contexto arquitectónico. Usada como manifestação de alguns vulgares factos que sugiram não mais que um vago prazer visual, ou quando muito de uns outros sentidos difusos, é sempre dita como subterfúgio, defesa ou afirmação de uma resoluta vontade do arquitecto.
Uma disciplina nascida da revolução e vigor iluminista, que se propõe adquirir um pensamento sobre o belo, naturalmente, num contexto de escrupulosa veneração à matéria, à ciência, à tecnologia, resultaria num paradoxo evidente: como pensar e tornar pensável, racional, o que é da ordem da mais subjectiva relação do indivíduo com o mundo? De certa forma The End of the Classical: The End of the Beginning, the End of the End aflora a sucessão de ficções a que recorreu a arquitectura depois do período iluminista, ainda que, em rigor, a tese de Eisenman assinale o corte com o clássico a partir do Renascimento, é, o uso pós-kantiano da expressão estética que é o motivo de algumas poucas disputas ou melancólicos silêncio. Se na era clássica a estética era resultado de uma técnica, um conjunto de leis que mediavam o homem e o universo, a partir de um cânone que é isso mesmo, uma ressonância da ordem e do mistério cósmico talhado à escala humana, a morte de Deus e o eclipsar de qualquer ordem transcendental tornam inútil esta disciplina. Porque a verificação, a legitimidade, da arquitectura decorre da ciência, reduzindo-a a pouco mais que a fabricação técnica de espaços sem qualquer relacionamento com outras realidade (espirituais?) que não as sociológicas ou tecnológicas. Do séc. XVII, restrospectivamente, apenas se poderiam alimentar disputas contra uma arquitectura que não fosse fundada no conhecimento racional do mundo. Com argumentos pretensamente universais que cedo amputariam quaisquer tentativas, sempre vistas como reaccionárias, de uma arquitectura outra que recorresse a leis que não as da razão e da matéria. O pós-I Guerra Mundial foi o momento propício para, a partir da destruição da Europa, se erguer uma arquitectura higienicamente extirpada de elementos decorativos, convenientemente calculada para a produção industrial. O modernismo, no seu impulso totalitáro, materialista e científico, envidentemente que só se poderia impor, pela negação da História e, desse modo, precipitando a morte do estilo – como o são o estilo jónico ou dórico, como vislumbre, na pedra, de uma ordem transcendental. Venturi ainda recuperou a história, mas demitiu-se de ir mais adiante que a invenção da figura do arquitecto não mais que um manipulador de símbolos para enfeitar os pavilhões de critério científico, a maior parte dos quais desenhados por engenheiros. Rapidamente tudo se repete e propaga, imagens de imagens de imagens de arquitecturas deslumbrantes, hiper-modernas, hiper-cosmopolitas, (que, por um processo autofágico são elas próprias sancionadas pelas próprias imagens do que por outra ciência), contíguas a arquitecturas construídas com as sobras do hiper-capitalismo, deslocadas para a invisibilidade e apagadas no photoshop dos roteiros turísticos que reforçam a nossa condição de espectadores. A paisagem arquitectónica global segue o ritmo da monotonia interrompida por espasmos e orgasmos de imagens que apresentem a cada momento o absolutamente novo, belo ou horrível, já não para deleite dos sentidos mas reduzido às primícias e exigências dos egos feridos da profissão. Qualquer coisa de psicanalítico, que os arquitectos agora insistem em chamar de estética. [Museu da Imagem e do Som, Diller Scofidio, Copacabana, Rio de Janeiro] |
utilitarismo da paisagem: baía da guanabara
O projecto da bossa-nova, democrático social racial, como utopia da modernidade-cool, optimismo estético, ético e político, um país novo, uma música nova, o futuro e a História em frente ao mar, a paisagem ainda ao ritmo da contemplação do abandono.
[Inútil Paisagem, Tom Jobim, 1964] Logo depois, quando as botas cardadas da ditadura militar esmagavam as avenidas rasgadas por Lúcio Costa, por entre as árvores novas plantadas por Burle Marx, que não haviam crescido, sem escala, sombra ou proporção, paisagem concreta, útil, da modernidade possível, da possibilidade sincretista do tropicalismo. [Útil Paisagem, Caetano Veloso, 1968] | Hoje, tudo por um fio, é o mundo que anda hostil. [De Onde Vem A Calma, Los Hermanos, 2003] |
inocentes do Leblon

Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
trouxe imigrantes?
trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.
[Inocentes do Leblon, Carlos Drummond de Andrade in Sentimento do Mundo, 1940]





rua do Rio

O Rio parecia inesgotável
à quele adolescente que era eu.
Sozinho entrar no ônibus Castelo,
saltar no fim da linha, andar sem medo
no centro da cidade proibida,
em meio à multidão que nem notava
que eu não lhe pertencia - e de repente,
anônimo entre anônimos, notar
eufórico que sim, que pertencia
a ela, e ela a mim - , entrar em becos,
travessas, avenidas, galerias,
cinemas, livrarias: Leonardo
da Vinci Larga Rex Central Colombo
Marrecas Íris Meio-Dia Cosmos
Alfândega Cruzeiro Carioca
Marrocos Passos Civilização
Cavé Saara São José Rosário
Passeio Público Ouvidor Padrão
Vitória Lavradio Cinelândia:
lugares que antes eu nem conhecia
abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis.
[António Cícero in A Cidade e os Livros, Rio de Janeiro, 2002]
the birth of a nation
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Com efeito, uma cidade nova, que do séc.XIX se obrigou a ser capital, haveria de ser um modo de colar ideias. De ideal de um reino, depois de um império, depois de uma república, depois de uma república nova, depois da modernidade, duzentos anos a emular Lisboa, que emulava Paris - que era a capital do séx. XIX - que depois, no início do século XX era estimulada ainda por Paris, a Paris higiénica e anti-revolucionária de Houssmann, e depois, corta cola corta pastiche e ecletismos ainda francófonos, haveria de acolher, corte, Le Corbusier.
Com a capitalidade transferida e o poder do capital a acelerar São Paulo, a rua do Rio é a que nos diz da indecisão da invenção de um país. | ![]() |
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olhos
via Posto 12
Ou condenados ou excluídos ou fugitivos ou radicais em busca de um lugar para a construção de uma utopia, o caldo cultural da América do Norte, a todos a tarefa incumbida era a da fronteira. O limite sempre novo, o horizonte cada vez mais largo, a possibilidade do paraíso possível no aqui e no agora, em espaço aberto.
E é por essa via, a do espaço, a da solidão que se estende pelo território, que mais depressa se chega John Ford do que à montagem da cena final de Á Bout de Souffle, pese embora a fuga empreendida e, obviamente, ou por isso mesmo, Jean-Paul Belmondo acossado. Duas visões do mundo incoincidentes, coincidem, Ford e Godard, na mesma transformação pelo olhar que terá acontecido a Le Corbusier após sobrevoar pela primeira vez o espaço infinito do continente americano, em 1929: Je n'existe dans la vie qu'à condition de voir. Donde, daqui em diante, um projecto arquitectónico, urbano, ou territorial, corbusiano integrado pelo ver. O mesmo território, o mesmo vínculo de conhecimento do mundo, no fundo, de John Ford. |
il n'y a pas de hors-texte?


[Centro Cultural Judaico Midrash, Isay Weinfeld, Rua General Venâncio Flores, Rio de Janeiro, 2009]
A decisiva influência cultural cristã, no Ocidente, resultou na invenção da imagem e na imposição do problema da representação.
Ao contrário da tradição judaica, iconoclasta e sustentada na leitura (infinita) do texto sagrado, a tradição cristã levanta, consequentemente o problema da forma. Hollywood terá nascido em 787, quando o concílio de Bizâncio permite a veneração dos ícones, provocação de Régis Debray, que assinala este o momento o início da idade da imagem. A supremacia do visual sobre os outros sentidos, permanente polémica da filosofia contemporânea, encontra na tecnologia da web o ambiente propício à sua propagação intensificação. E a experiência do olhar, que evidentemente contamina o universo da produção arquitectónica, quando não a domina. E esta, se sustentada apenas nesta experiência, poderá apresentar uma aparência sedutora mas sem conteúdo ou significado. A pele como reveladora da profundidade do ser, esvazia-se, deixa de ser carne, resta como superfície. |
De algum modo é essa superficialidade, frívola e inconsequente, que daqui extraio. Poderá ser a celebração da polifonia de interpretações do texto sagrado mas, tão mais paradoxal quanto se trata de um edifício da comunidade judaica que, querendo celebrar o texto sagrado, o esvazia de sentido e de vida quando tornado em imagem. Mais uma. Entre milhões. E, pela informação que é possível recolher no site, sem qualquer relevância no interior do edifício. Sem qualquer vestígio da carne do corpo.
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epokhē

Av. Mem de Sá, Rio de Janeiro
Numa suspensão da realidade até se poderia concordar com Koolhaas, apunhalar a História, matar a rua, crer na arbitrariedade como método da construção das cidades e na evanescência como qualidade produtora do espaço público.
Não estivesse a Lapa atrás e, ao contrário de Koolhaas, não fosse cínico. Perdoe-se a arrogância da comparação. |
back to the future

[Desconstrução e Arquitetura - Uma Abordagem a Partir de Jacques Derrida, Dirce Eleonora Nigro Solis, Rio de Janeiro, 2009]
Ainda que se apresente um tentativa de (des)construir uma vaga teoria da arquitectura, ainda que surjam no (ob)escuro palavreado labiríntico certas labaredas críticas, ainda que o domínio seja o do texto filosófico, torna-se inquieta a espera pela manifestação da arquitectura. Paciência. Pelo menos até à página 84 onde é citado Bernard Tschumi.
Depois de dois quartos à roda do quando é que não acontece a desconstrução, um quarto à volta do que é que não é o objecto arquitectónico e o quarto remanescente a tentar perceber onde é que não acontece a arquitectura, continuámos sem perceber onde é que acontece a arquitectura. |
Entende-se o deslumbramento de muitos arquitectos e críticos pela construção teórica e crítica de Derrida e demais filiados na desconstrução – palavra de que o mesmo nega a autoria. Apresentava-se uma eficaz e flexível proposta como saída aos impasses pós-Pruitt Igoe: dentro do âmbito institucional, que, mesmo em 68 Derrida recusaria desmantelar; estofo cultural que abriria a arquitectura a outra lógica que não a racional e estritamente disciplinar; escopo teórico capaz de incluir, dentro do sistema, o que aparentemente o pretenderia criticar. O ovo e a galinha de uma penada, e a arquitectura na vanguarda da produção de imagens de um admirável mundo novo: uma promessa pós-humanista para uma sociedade radicalmente individualista, sem qualquer necessidade de vínculo social, histórico ou cultural que não o da frivolidade auto-referencial.
Agora, é como aceder ao youtube e permanecer em melancolia obscena durante horas a olhar para vídeos dos anos oitenta. |
estado crítico
Em conversa com um artista e uma curadora, conversa rodeada de chopps, diz o artista que um outro artista ao retirar-se de Lisboa para a província perdeu o lastro de possibilidade de visibilidade que o tornaria a figura relevante que à época era na comunidade artística lisboeta e, por extensão, portuguesa. Esta afirmação provocou o meu espanto e, ainda que em ambiente tropicalizado, não deixei de questionar o relevante artista português e a eminente curadora sobre a pertinência e/ou validade deste tipo de afirmações que validam o tipo de teorias institucionalistas permeáveis ao exercício discricionário da publicação artística. A confirmação viria, na resposta, com o desaparecimento de cena desse artista apartado de Lisboa desde o momento em que decidiu abandonar a cidade.
Quando Danto parte para a reflexão do que é ou não arte da Brillo Box conclui que a arte é o que se inclui no “mundo da arte”. Desta noção de “mundo da arte” infere-se o estatuto da obra de arte a partir de um código de regras sociais mais do que propriamente artísticas. Nelson Goodman substitui esta questão - o que é a arte? – por uma outra de resolução menos polémica: quando é arte? Só dentro de uma linguagem comum, num sistema de signos lógicos e racionais e sem dissonâncias, se poderá pensar o objecto artístico. Uma outra forma de dizer outra vez, dentro do “art world”. A concepção de Danto adquire a maior pertinência quando propõe a impossibilidade da arte fora de uma atmosfera teórica: não pode haver arte sem uma teoria. Partindo da evidência de que uma teoria artística ou filosófica difere de uma científica pela impossibilidade da sua verificação empírica, torna-se então mais urgente o exercício crítico nestes domínios. Sobretudo em momento de profusão de meios e suportes em que a divulgação de arquitectura e imagens de arquitecturas é vertiginosa e a própria vontade crítica transpira pela web fora. E aqui estamos já a discutir, um segundo momento, o da validade da própria crítica e de como ela se poderá legitimar. E é por aqui que Nuno Grande, julgo, quererá ir: da necessidade de legitimação da própria crítica. Para que da crítica irradie a legitimidade do próprio objecto criticado. |
A miríade de meios de que hoje dispomos para fazer circular informação encerra o já muito falado perigo de não permitir a transformação dessa informação em conhecimento. A imagem e o texto de reprodução infinita como alçapão que nos prenderia para sempre num o quê impeditivo de nos fazer chegar ao como e ao porquê. Daí a pertinência de proposição de Nuno Grande: os blogs como plataforma de lançamento de opiniões, mera opiniões, infundadas ou, na maioria dos casos, fundadas em ressentimento, inveja, enfim, os blogs como uma ventoinha de lama. Mas pode ser esta afirmação uma defesa.
Tal como a blogosfera é excluída de qualquer escrutínio, as publicações, as revistas, os livros, ao passarem pelo crivo da edição, da selecção, do mercado, estão sujeitos a interesses vários. Se um blog ou um tweet pode ser um exercício narcísico, vago e vazio, quando não ressabiado, também se poderá dizer que as circunstâncias que rodeiam o meio editorial decorrem de interesses vários que respondem à voz do dono. À liberdade e autonomia que a web oferece pode-se contrapor as agendas que orientam as publicações em formatos tradicionais. Claro que este é um exercício especulativo que permite verificar as armadilhas que cada formato encerra. E tanto na web como nos meios tradicionais sobressai o mesmo problema: porquê a escolha deste objecto e não outro? – o que na paroquial realidade portuguesa nos conduz inevitavelmente aos mesmos nomes e objectos, repetidos à exaustão. Da necessidade e urgência da crítica, podemos distinguir diversos níveis. Cada instância terá o seu tempo, não se confundido com as possibilidades críticas dos outros meios contíguos. Se a academia é um exercício de adentramento em profundidade e prolongado no tempo sobre um objecto, a pertinência dos blogs, do facebook ou do tweet releva da capacidade de apontar pistas, pequenos rastos, que possam conduzir a uma outra profundidade. E há também a crítica em jornais generalistas, que, ao contrário da web e dos exercícios emanados da academia, não se restringirão a um público especializado ou iniciado. |

[Estado Crítico - À Deriva nas Cidades, Guilherme Wisnik, 2010]
Foi o acaso que me fez chegar Estado Crítico – À Deriva nas Cidades de Guilherme Wisnik, crítico da Folha de S. Paulo. A colectânea de ensaios que o autor foi publicando no jornal entre 2006 e 2007 e que abrange um conjunto alargado de temas, todos conduzidos por uma reflexão séria sobre a arquitectura e as cidades, entre experiência urbana brasileira e os temas que mais urgentes e pregnantes das discussões internacionais.
Se, por motivos óbvios, se destaca a crítica à condição das cidades brasileiras, sobretudo São Paulo, em ensaios que variam de tamanho e de forma, Guilherme Wisnik mostra atenção a todas as incidências culturais que tenham influenciado ou possam influenciar decisivamente a arquitectura e as cidades. Do teatro ao design, da música à literatura, numa linguagem facilmente entendível por não iniciados, num discurso informado e culto, inclusivo e sem categorias de alta e baixa cultura como obstáculos ou enclausuramentos, vocacionado para um público alargado, o autor oferece-nos um conjunto de textos exemplares que pela acuidade e pertinência críticas, por, necessariamente, alargar o horizonte do que é pensável no domínio das estruturas arquitectónicas e urbanas, os tornam pertinentes e necessários. |
Nenhum momento da experiência nos diz nada sobre o conhecimento do mundo que se possa extrair dessa experiência. A filosofia e a arte deixam o mundo como está, admitindo que a experiência é apenas experiência e não fonte de conhecimento da realidade. E daí talvez este sobressalto subitamente pessimista e melancólico do Verão passado.
Terminar pelo óbvio: a crítica só se dá no espaço público. Basta esta afirmação para legitimar a web, compreendida como espaço público, para legitimar a possibilidade de crítica no suporte digital. Esta ideia poderá contribuir também para a dissolução de uma outra que faz do texto o único suporte que permite elaborar a crítica. |
para uma crítica ao regionalismo crítico
Se não podes mudar o lugar, muda a arquitectura.
Architecture & Design Film Festival
Buildings on the Big Screen, Martin Filler
jungle fever
[Fitzcarraldo, Werner Herzog, 1982]
The jungle is obscene. Everything about it is sinful, for which reason the sin does not stand out as sin.
The Jungle is Obscene, Werner Herzog
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