achado na tradução


[Av. República do Paraguai, Lapa, Rio de Janeiro]




Cariocas e paulistas, blasées e excitados, patricinhas e mauricinhos, lisboetas e cariocas. Outra maneira de pensar a reinvenção do espaço a que o indivíduo procede, na voragem da(s) mobilidade(s). Lugares, sociais, geográficos, territoriais, afectivos, diversos, em que cada sujeito, cada vez mais, se movimenta. O recuo das fronteiras e limites e o corte, radical, das raízes. O paradoxo da mobilidade, em que a radicalidade, do mesmo étimo de raiz, é o golpe numa das âncoras do sujeito ao(s) lugar(es). E se a cedência das fronteiras, do desconhecido, é uma possibilidade de conhecimento, essa conquista da luz é levada em frente pela tibieza das raízes cada vez mais remotas. Um homem sem âncora é um naufrágio; um homem subjugado a fronteiras é um recluso. Mas há um outra hipótese.
A reinvenção do sujeito num espaço outro. A reinvenção dos lugares a partir da multiplicidade de fronteiras que se cruzam, de múltiplos outros com quem se chegou ao entendimento. Para um viajante é fácil: a última cidade é sempre o passado, sempre atrás da próxima curva que está em frente. Para um habitante, o passado é sempre o presente e o futuro uma construção sempre actual e reactualizada a partir de todos os homens e de todas as cidades atravessadas.
A mobilidade, que tende à rarefacção do sujeito quando instrumento da obrigação do ir, pode, no entanto, ser o espaço, o lugar, da construção de outro caminho, de outras fronteiras. Um viajante é, porventura, ao fim das cidades e do caminho, um ser híbrido. Um habitante, ao contrário, é todas as cidades e todos os caminhos e todos os homens, conhecidos e por conhecer. O reconhecimento da abertura e da autenticidade do ser, em todos os modos de se dizer e se desdizer.
Tradução exige recolhimento e conflito, representação e abertura da origem, das diferenças, ligando-as umas às outras na geração do ainda irreconhecível. Um lugar por desvelar.

A fronteira não se desfaz, refaz-se permanentemente. O conhecimento, o amor e a memória, presente permanente, são o caminho. Sempre inacabado.


[Rua Riachuelo, Lapa, Rio de Janeiro]







esplendor da glória

















[Igreja da Glória do Outeiro, José Cardoso Ramalho, Rio de Janeiro, c.1739]



A petite histoire é que Le Corbusier, no regresso ao Rio de Janeiro, tenha pedido a Lúcio Costa que voltassem à Igreja da Glória - o único lugar do Rio em que reincidiu - tenha levado o punho cerrado à pedra e tenha dito “O homem que fez isto era feito da mesma matéria que eu: arquitecto”.
Não há certezas sobre a autoria de José Cardoso Ramalho, um militar. Pouco importa. A história grande é que a pequena Igreja da Glória do Outeiro permanece serena sobre a Baía da Guanabara.
Não custa acreditar que Ronchamp também tenha começado aqui.



exilium#2


© MC
[Lote 3, S. Mateus, Terceira, Açores, 2003/2006]



À condição do exilado, exige-se a passagem do lugar da cidadania para outro onde ela é negada. A condição de perda do eu em que o eu se torna o outro. A condição, o lugar, onde seja possível o conhecimento do eu porque aí eu é já radicalmente outro.
Não por qualquer moral da virtude, não por qualquer orgulhosa dispensa do mundo. Ao contrário: por desejo.

Nada em lugar em algum, nada no seu lugar. O que é o exílio?




Everything, everything, everything, everything
In its right place
In its right place
In its right place
Right place

What was that you tried to say?
Tried to say, tried to say

Everything in its right place


[Everything in its right place, Radiohead, 2000]


Para o meu Pai.






exilium




Rua das Palmeiras, Botafogo, Rio de Janeiro



Exilium, do direito romano, a pena do banimento mais pesada que a da morte. A exclusão da cidadania e do império da lei comum. Ao exilado não lhe era permitido o uso do fogo na preparação dos alimentos, era-lhe impedida a habitação da moradia que não fosse construída pelas próprias mãos, sob a obrigação do silêncio que o impedia da comunicação com o outro.
Imagino uma cidade de exilados: uma política do exílio é uma política da morada, uma política de cidades, uma política da diferenciação dos lugares à medida de cada expulso. Uma comunidade dos proscritos organizados em volta de uma política da amizade.
Uma cidade de casas feitas à mão, um exército de voluntários da solidão, em obediência às leis da solidariedade.






bem vindos ao deserto do real*





CityCenter, Las Vegas



Eventualmente a história é a história dos vencedores, sobretudo se os vencedores são construtores. E são-no sempre. E constroem cidades. E as cidades que hoje se constroem são as cidades da vitória do complexo políticio e ideológico que faz do consumo o alfa e o ómega do progresso social, o impulso e a finalidade da actividade humana. Todos consumimos. Todos compramos e vendemos, todos damos alguma coisa a ganhar a alguém, todos ganhamos, todos perdemos. Não discuto as vantagens e desvantagens psíquicas e espirituais deste processo que terá os seus méritos materiais, com tanta gente a ser arrancada à pobreza todos os anos. Naturalmente que nada disto é racional, sendo apenas racional a inteligência financeira que se desloca à velocidade da especulação de lucro. Mas às margens e ao que não passa em prime-time nas televisões restam o rápido esgotamento dos recursos do planeta, as cada vez maiores e pesadas catástrofes naturais, consequência da poluição, a cada vez mais aguda segregação entre grupos, comunidades, classes, consumidores e não-consumidores, a realidade e violência com que irrompem consequências de acontecimentos distantes na vida concreta de cada um. A cidade é global. O globo é sitiado. O território, refém.

O mundo não é chato embora o que estamos a construir tenda a isso. Indiferentes aos lugares, como a vingança de Descartes a confirmar a universalidade da razão (cínica), as cidades da América Latina serão iguais às de Abu-Dhabi, que serão iguais às do Extremo Oriente, que serão erguidas a partir da supremacia cultural de imagens produzidas pela máquina ideológica. A teleologia imagética escorre pelas redes sociais, financeiras, que excluem o corpo e os lugares e alimentam a ilusão da participação.
O desconforto da arquitectura é a sua demissão crítica. Nem todos as esquinas da cidade global merecerão o ângulo agudo de Daniel Liebskind? Mas todas o desejam. Do parque temático CityCenter de arquitectura, dessa cidade que é um parque temático do desejo que é Las Vegas, da replicação planetária, retórica, do modelo Barcelona como um sucesso da cidade. A cidade que se vende a ela própria, que se consome a ela própria, agora, nessa retórica que tudo remete para a religião da ecologia e da narrativa hipócrita da sustentabilidade.
A crítica marxista acusará, no seu cinismo moral, a responsabilidade do poder, ilibando, no determinismo do devir mecânico que enuncia, cada indivíduo à responsabilidade que lhe cabe. A evidência é clara, somos, claro, todos responsáveis, pelo simples facto de sermos humanos, de pensarmos e habitarmos. E todos termos idade para fazer filhos.

 O que é Christian de Portzamparc no Rio de Janeiro ou Norman Foster em Masdar ou Zaha Hadid em Roma, o que são visões quando o futuro é , já aqui?
O neo-colonialismo é a produção ideológica de imagens sobre o outro que o outro aceita como as dele, constituindo e construindo a sua identidade sobre essas imagens em que eu digo ao outro o que ele é.

O mundo não é chato embora as cidades se aproximem pela monotonia do marketing urbano, os lugares se distanciem pelos muros que se levantam à volta dos condomínios fechados disseminados por esse marketing que levanta também o(s) desejo(s). Tudo igual em todos os lugares.
Nada em lugar em algum, nada no seu lugar. O que é o exílio?




In the name of progress
And democracy
The concepts represented in name only

[World Citizen (I won't be disappointed) , David Sylvian/Ryuichi Sakamoto, 2004]



*Slavoj Žižek




Para a Aninha.

cotidiano#8


Posto 9, Ipanema, Rio de Janeiro




Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.

Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade
- essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.



[A Lucidez Perigosa, Clarice Lispector]

Paris no Rio


[Theatro Municipal, Francisco Passos, Albert Guilbert, Cinelândia, Rio de Janeiro, 1909]

sociedade sem classes









































































[Ipanema, Rio de Janeiro]





Poder-se-ia estender a democracia da praia à sociedade. E o Rio, ainda que na vertigem do alto contraste cartão postal, é a cidade da democracia do corpo. A praia, o lugar do encontro e do trabalho, do namoro e do negócio, do início e do fim. Toda a sociabilidade da cidade, todas as relações, de todo o tipo, começam, passam, terminam, na praia, por ela são contaminadas, por ela são dirigidas. Amar e trabalhar, pronunciava Freud sobre a imbecilidade da normalidade, amar e trabalhar, a normalidade, exige uma cidade ao mar. E o governo do sol, segundo a razão do desejo.



haja fé (e dinheiros públicos para mãos privadas)


Rua Ataulfo de Paiva, Rio de Janeiro




No final da entrevista, o prefeito comentou o seu desejo de ter na cidade um equipamento projetado por Norman Foster:
- O Rio tem que ter projetos de grandes arquitetos aqui. Já temos o Calatrava com um trabalho no Porto e, quem sabe, não traremos o Foster para o Rio também - disse, referindo-se inicialmente ao arquiteto espanhol Santiago Calatrava, responsável pelo projeto do Museu do Amanhã.





E depois do Museu do Amanhã – ???? – assistiremos, na condição passiva que nos cabe de espectadores/consumidores, à produção, assinada por um nome, de um objecto icónico para uso de um possível Museu da Vida depois da Morte. Da política e da polis.




Estive em Lisboa e lembrei de você.*


Rua Ataulfo de Paiva, Rio de Janeiro


*Estive em Lisboa e lembrei de você, Luiz Ruffato, 2009

Não tinha lama, não tinha fracasso, duvide quem não viu. Aquilo foi amor.









1. Amor não tem fracasso. Se foi fracasso, não tinha amor. Sábado à noite, Caetano Veloso subiu ao palco no Complexo do Alemão e então ficou na cara. A nossa cara a olhar a cara dele a olhar a nossa cara: 68 anos, já nem os caracóis grisalhos, já nem caracóis, um ancião - e quando sorri, um menino.


2. Um a um, tínhamo-nos juntado cinco no Cosme Velho, cariocas-a-prazo e quem-sabe-um-dia-cariocas, por acaso todos portugueses. Chovia como aqui chove no Verão, embora seja Outono, daqui a nada Inverno. Cinco da tarde já quase era escuro.


O anúncio do Favela Festival, inédito no género, dizia que a grande final começava com o desfile dos dez finalistas às três e terminava com Caetano Veloso às sete. Tudo isso acontecendo no Campo do Sargento, Complexo do Alemão, lá nos confins da Linha Vermelha, e depois da Linha Amarela, as vias rápidas do subúrbio.


Dias antes, um de nós, o João, ouvira uns rumores sobre umas carrinhas que iam partir da Zona Sul, género Expresso Caetano. Mas como não havia notícia delas, sábado de manhã liguei ao Otávio, livreiro-militante do Alemão, com quem eu passara uma tarde no morro. É agulha no palheiro, taxista da Zona Sul que aceite ir ao Complexo do Alemão, para mais de noite, e a chover. O Otávio devia ter algum vizinho da favela que aceitasse levar-nos aos cinco.


Tinha:


- Você vai ligar ao Anderson.


Liguei. Uma gentileza.


- "Tou com o carro na oficina, só vai estar pronto às quatro, mas o meu irmão vai ligar para você.


Portanto às cinco, hora marcada, o irmão do Anderson ainda não tinha ligado, o Anderson não atendia, o Otávio ia para a caixa de mensagens e nós cinco víamos a noite e a chuva pela minha janela.


O João e o André estavam como em casa, mas o Daniel e a Catarina tinham avião de volta no dia seguinte. Houve votos para uma picanha no Baixo Gávea, em vez de Caetano no Alemão. A aventura tremia.


Seria o fim?


Não, era o Rio de Janeiro.


Perto das seis o Otávio ressuscitou com notícias. Recém-saído da oficina, o Anderson, ele mesmo, vinha a caminho.


3. Cá vamos então no táxi do Anderson, que tem um boné e será pai dentro de dias. Um à frente, quatro atrás, tentem lá isto em Lisboa. Felizmente é sábado e o carro voa. Rua das Laranjeiras, Túnel Santa Bárbara, Catumbi, Sambódromo, um ápice. Linha Vermelha, Linha Amarela, a antiga fábrica onde se concentrou a tropa que invadiu o Alemão em Novembro. Foi o poder oficial a querer mostrar que afinal mandava no poder paralelo. O mundo viu.


Anderson só pára naquela barreira de metal como costuma haver nos concertos. Os faróis iluminam camuflados, os olhos habituam-se ao escuro. Dezenas de soldados nas esquinas, fuzil em riste. A barreira do Favela Festival afinal é um checkpoint. Não fosse tanto mulato a chinelar e seria Israel num campo de refugiados.


Avançamos a pé. Barraquinhas e churrasquinhos de um lado e do outro; o presépio da favela encosta acima; ao fundo da rua o festival, achamos nós.


4. Sete da tarde ao fundo da rua e o festival é um lamaçal deserto com um palco no lugar da baliza. Há carros da TV Globo e cartazes com os patrocínios da Petrobrás, do governo do Rio, da Cufa, a Central Única de Favelas, que organiza. Mas a galera da favela está na beiradinha do campo, braço cruzado, cara fechada, e escassa.


E à volta, centenas de soldados armados, mais um camião com reforços, mais um blindado ligeiro, como se fôssemos prisioneiros em dia de folga, vigiados de perto.


Um garoto distribui o programa: o tal desfile dos dez finalistas que era para começar às três e ainda não começou. Vamos a caminho das oito.


Podemos pensar que vai ser o maior fracasso da carreira de Caetano, mas isso de fracasso será para quem tem carreira. Caetano é deus e o diabo na terra do sol, terra em transe como nos filmes de Glauber Rocha a quem ainda na semana passada ele dedicou uma crónica. Não há como o Rio para deitar abaixo Caetano, porque ele fala do que não sabe, mete o pau em tudo, hoje direitos de autor, amanhã não sei o quê, o que eu tenho ouvido.


Mas eu não quero ouvir. Eu quero ouvir Caetano. E leio-o todo o domingo na página dois do Segundo Caderno do Globo e a questão não é se ele tem razão. Caetano é uma razão maior.


5. Dois litros de Antártica a dividir por cinco, mais linguiça na brasa, mais maçaroca quente, mais queijo no espeto, e Deus parou a chuva para quem acredita.


Às oito e meia estamos de pé na lama, encostados ao palco. O veterano DJ Marlboro, mestre de cerimónias do funk carioca, chama a dançar. Sobem ao palco três menorzinhos, gingam o baixo-ventre como quem já tem sexo. Depois uma negrona com a Nossa Senhora estampada nas pernas toma o micro e apela à galera da beiradinha: é botar o pé na lama mesmo.


Começa o desfile. Inclui um galã chamado Mar com a claque toda de t-shirt. Uma menina colorida do Sertão e um idoso metido a James Brown. Uma banda de Realengo a homenagear os estudantes assassinados em Realengo. Todos os finalistas vêm das favelas do Rio, cada um canta uma canção, entre cada há música de pacote, e a galera da beiradinha só dança essa música mesmo.


Meia-noite e meia e o maior sucesso do Favela Festival foram os intervalos.


6. É agora. Uma pequena multidão avança para o palco. Negras da favela talvez avós, gatos louros talvez da Zona Sul, amigos talvez namorados, olhos fixos no palco, no mesmo lugar. Então Caetano entra, de preto e vermelho e violão, e a noite muda.


Ao primeiro verso, tudo a cantar na lama, mas não se ouve o palco. Problema de som logo agora???


- Melhorou? - sorri Caetano.


Mãos no ar cá em baixo, acenando que mais ou menos.


Não vai melhorar muito, não. Ouvimos Caetano, porque estamos colados ao palco e somos poucos. Ouvimos Caetano, porque estamos a cantar com ele. Ouvimo-nos uns aos outros a cantar Caetano, e de vez em quando aquele vibrato que vem dele e paira, antes mesmo de ele sorrir.


Então Caetano Veloso está a cantar à uma da manhã nos subúrbios do Rio de Janeiro, para um campo cheio de lama semivazio, com um som abaixo de festa de liceu, e olhem lá as caras, a negra avó, o gato louro, os amigos talvez namorados, a galera da favela e a galera da Zona Sul, tudo de boca aberta e lágrima no olho, cantando de cor, pedindo mais.


- Estão pedindo Tieta ou Tigreza? - sorri Caetano, tranquilo e infalível como Bruce Lee.


- As duas! As duas!


Não tinha lama, não tinha fracasso, duvide quem não viu. Aquilo foi amor.





Caetano no Complexo do Alemão
, Alexandra Lucas Coelho, Público, 21.05.2011

o projecto incompleto da modernidade*


[Ministério da Educação e Cultura, Palácio Capanema, Le Corbusier, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Rio de Janeiro, 1929]


Porventura democratizado pelo moderno, o vazio. O seu horror e a sua beleza.



*Jürgen Habermas

uma reflexão imoral


Travessa do Ouvidor, Rio de Janeiro

XVI

Uma Reflexão Imoral

Ocorre-me uma reflexão imoral, que é ao mesmo tempo uma correção de estilo. Cuido haver dito, no capítulo XIV, que Marcela morria de amores pelo Xavier. Não morria, vivia. Viver não é a mesma cousa que morrer; assim o afirmam todos os joalheiros desse mundo, gente muito vista na gramática. Bons joalheiros, que seria do amor se não fossem os vossos dixes e fiados? Um terço ou um quinto do universal comércio dos corações. Esta é a reflexão imoral que eu pretendia fazer, a qual é ainda mais obscura do que imoral, porque não se entende bem o que eu quero dizer. O que eu quero dizer é que a mais bela testa do mundo não fica menos bela, se a cingir um diadema de pedras finas; nem menos bela, nem menos amada. Marcela, por exemplo, que era bem bonita, Marcela amou-me...


[Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis]

buildings in america*

























































a voz humana


Campo do Sargento, Complexo do Alemão, Rio de Janeiro



É, provavelmente, a área mais segura do Rio de Janeiro. Ou a isso leva a concluir o aparato securitário propositadamente visível. Entra-se tenso, ingenuamente e no desconhecimento que o conhecimento pelos media oferece. Entra-se e confrontam-se imagens de uma zona de guerra, imagens de Bagdade ou Gaza ou um qualquer serviço informativo: fuzis displicentemente apontados à cabeça dos transeuntes pelas brigadas de soldados que patrulham as ruas em camiões; regimentos inteiros da polícia, de todas as polícias, armados para uma guerra total; esquadrões de guerra urbana. A visibilidade de uma guerra que não é guerra, mas que em tudo parece à guerra, é, sobretudo, a evidência – e a violência – do estado a entrar pela primeira vez em territórios há muito abandonados e deixados à sorte da ausência de lei e de todos os interesses menos os do bem comum. Como fossem guardiões de uma paz imposta e que flanqueia as ruas, mas a vida corre habitualmente, sem medo, por entre as armas.

A noite era de excepção no Complexo do Alemão. Caetano Veloso encerrava um festival de música e tocaria as canções votadas pelos habitantes do Complexo. A festa, portanto, a oportunidade dos moradores se juntarem, a oportunidade de reafirmarem a pertença e a existência, a oportunidade de se verem e serem vistos na televisão, a oportunidade da cidade e do país os reconhecer, a oportunidade do estado brasileiro assegurar ao mundo que está a trabalhar na segurança (das vagas de estrangeiros que invadirão o Rio até 2016, passe o cinismo), a oportunidade de nada correr mal numa imagem de cartão postal, oportunidade para o comércio do bairro apressar umas barracas na rua e exercer a sua quota na lei da oferta e da procura.

Crianças imitam com ingenuidade os gestos e movimentos libidinosos da Beyoncé ou do hip-hop mtv, moleques jogam à bola e saltam na lama, os brotinhos vestem o melhor vestido comprado no pobre comércio local rondadas pelos garotos musculados do funk carioca, as mulheres trabalham como trabalham todas as mulheres em todo o mundo e em todas as condições, os homens sentam-se nos botecos improvisados à volta da cerveja e do churrasco e do futebol.
Fusão de hiper-moderno e de muito arcaico. Confundem-se imagens, desejos e apetências culturais da globalização (norte-americana) com as formas antigas das relações (de parentesco, de solidariedade, de vizinhança). O desejo mistura-se com a necessidade numa promiscuidade que não é moral mas antes estética e cultural.
Os padrões urbanísticos e arquitectónicos multiplicam-se no improviso e no inesperado, numa margem nunca planeada nem racionalizada. Falta razão a estas arquitecturas, mas explodem em liberdade e invenção. Não há a ciência do custo/benefício, da produtividade e da performatividade, mas a genuína sageza ancestral da sobrevivência e viabilidade do que se constrói e de quem constrói. Não há planos de saúde nem PPR’s, mas uma estratégia social e individual tão antiga como a história do Homem em sobrevir à inexistência.

É tudo em estado bruto, do amor ao terror, da alegria ao medo, da partilha à violência, da geografia à arquitectura, da natureza das coisas que confunde o bem e o mal.

Havia festa na aldeia e, como em todas as festas de todas as aldeias de todo o mundo, dançava-se, cantava-se, partilhava-se. Caetano Veloso abrilhantava o bailarico. Os fuzis vigiavam a alegria.




Então, e como sempre, era só depois de desistir das coisas desejadas que elas aconteciam.*


Rio de Janeiro, Largo da Carioca

Três degraus inamovíveis de granítico puído esplendor em Copacabana, eram penhasco ermo silencioso, interior cansado da cidade que passa.
Interrogava-me o porteiro (o Rio é uma cidade de guardas erguidas, muralhas de alumínio tosco atravessadas, ferro pesado sobre as portas que se fecham à rua) se esperaria alguém.
Não espero ninguém, talvez que a chuva passe (talvez que alguém me chame;
e a morte poderá acontecer sem que nunca tenhamos ouvido o nosso nome ou podemos morrer no ruído branco com que o mundo nos chama).





O que é de difícil explicação é que tipo de loucura levou um punhado de homens a erguer uma cidade no meio de uma geografia hostil, ocupada por uma natureza adversa que, com cinco séculos de ocupação humana, resultou num caos surpreendente. Ruas que se espalham por entre os morros, morros que conduzem as ruas à cadência da topografia imprevisível e que guia a mão humana.
É discutível a beleza do que foi feito no séc. XX. Copacabana, Ipanema, Leblon, compõem-se em pedaços de arquitectura pobres, feias e gastas, com algumas excepções de algum cliente mais ilustrado. Mas o melting pot não é Nova Iorque, é Ipanema: a promiscuidade ao contrário do guehto da América rica; a mistura de todas as feições humanas à razão irrazoável do desejo e do amor; um escândalo democrático.

A promiscuidade é também arquitectura. As favelas dos morros que descem ao asfalto sem princípio nem fim, a natureza livre e indomável por toda parte, a liberdade de poder não ser coerente e construir um paralelepípedo de vidro esverdeado sobre uma frente de rua do tempo colonial. A incoerência e a ordem do possível são as possibilidades de uma liberdade essencial: aqui ainda é possível. Por pouco tempo.

É tudo tão feio, é tudo tão bonito.




*Clarice Lispector

E era tranquilamente nada.*


Rio de Janeiro, Baía da Guanabara



Sou agora a distância entre o meu nome e eu. E tão mais é significativo entender isto agora porque nunca, até hoje, o tinha entendido.
Sou o caminho sempre inacabado. Irrepetível. A medida do que esqueço. A memória, a superfície real do corpo, que cobre todo o esquecimento.
Estou em casa e o meu caminho é a minha morada.



Aos 14 anos, num entardecer, Lúcio Costa entra na Guanabara à cadência da sucessão Pão de Açúcar, Corcovado, Pedra da Gávea. Imagino que a um adolescente, habituado à placidez da campagne francesa ou ao cosmopolitismo de Londres, tenha sido impressiva a visão das três desmedidas e singulares pedras que se erguem na paisagem da baía. Era quase de noite. Só à luz dia seguinte o jovem Lúcio Costa pôde viver a cidade.
Mas antes, a experiência inicial foi a do granito negro ao crepúsculo. E que impacto terá tido dessa experiência? Uma madrugada em que se poderia ter fundado no jovenzinho Lúcio a possibilidade de o novo não colidir com o antigo mas o novo ser uma maneira de permanentemente o reactualizar; que o novo apenas surge onde já exista o tempo antigo. (O moderno não ser tão só uma pobre (e estéril) quebra do arcaico e, a respeito disso, a ideia de que ao purismo da forma – uma pureza assente num pressuposto de verdade - necessariamente não terá de corresponder uma quebra com os vínculos da tradição e do vernáculo.) Um terceiro continente.



Zona Sul

Atravessar a Vieira Souto ao fim da tarde, como quem suspende os negócios do Centro, o comércio agitado do Saara (numa estranha e inesperada aproximação do acrónimo às formas relacionais e comerciais quase árabes), a vizinhança ruidosa do Botafogo, a fogosidade limite da Lapa, as patricinhas arranjadas para a balada do Leblon, a Copacabana venal e a Copacabana da classe média idosa e orgulhosa, a jovem guarda artística do Arpoador, o túnel entupido e Miami Vice no silicone e arquitecturas malhadas pelos EUA da Barra, a elegância inacabada de outro século parisiense do Flamengo, a solidão apinhada das vans na enseada a caminho da Zona Norte, o racismo mais amplamente democrático do corpo e do desejo da loira da morena da branca da preta da mulata, e tu, do outro lado, Lisboa.



*Clarice Lispector

rio de janeiro




“Rio 40 graus, cidade maravilha purgatório da beleza e do caos”, canta Fernanda Abreu, a musa carioca branca e sofisticada mas com a ginga de mulata que requer a uma perfeita carioca. Rio é uma cidade naturalmente anti-gueto, pois a favela cruza zonas ricas e chega às ruas com a mesma disposição com que galga os lindos morros da cidade. A cidade serpenteia entre o mar e a montanha, esquiva-se de estar partida socialmente, quando pobres e ricos na praia, desnudos, têm o mesmo valor. O Rio além de belezas naturais é feito de gente que cruza as geografias a eliminar as diferenças sociais que possam existir. O Rio é Ernesto Neto, o mais notório artista brasileiro no exterior, com seu atelier plantado em meio ao caos da baixa da cidade; é Adriana Varejão e Beatriz Mihazes no elegante Jardim Botânico; é Cildo Meireles no tradicional Botafogo, bairro preferido dos lusitanos; é Tunga e Adriana Calcanhotto em meio à “selva” da Floresta da Tijuca; é Paulinho da viola, o elegante príncipe do samba, na deselegante Barra da Tijuca. Eis o espírito do Rio: a implosão dos clichés.


O Rio é erudita e popular em sua natureza cosmopolita e cool. Do Leblon a Lapa, da Tijuca ao Centro, tudo é possível. Ruas apinhadas de gente, sons atravessam o eixo da cidade zona norte – zona sul interligada pelo Centro, umbigo do mundo. Lá a Biblioteca Nacional, o Teatro Municipal, o Museu Nacional de Belas Artes, o CCBB, o Centro de Artes Helio Oiticica, ao lado do maravilhoso Gabinete Real Português, são orgulhos da cidade. Os bailes “charm” do Clube Bola Preta disputam frequentadores da Cinelândia que vão aos concertos no Theatro Muncipal. Rio é a cidade onde Vila-Lobos, patrono da música moderna brasileira, misturou Bach e o choro. Nada mais carioca que a implosão da alta e da baixa cultura. Rio é a glória do “chope” e do bolinho de bacalhau – uma das melhores heranças portuguesas que os brasileiros melhoraram, pois come-se um pastel no Bracarense e não se sente nenhuma saudade dos daqui. O bate papo de fim do dia nos botequins, a algazarra dos transportes públicos que transforma o centro do Rio num misto de Nápoles e uma cidade africana, voluntária desordem e alegria dos ambulantes.

Os cariocas são orgulhosos do seu sotaque (usam o xis para todos os esses das palavras, muito próximo ao lisboeta), da sua aparência descontraída, de ser nada pontual e nem se dar por isso. Quem melhor expressou o way of life do carioca foi a gaúcha Calcanhotto, uma “carioca da gema” como todos que vem de fora: “Cariocas são bonitos / Cariocas são bacanas / Cariocas são sacanas / Cariocas são dourados / Cariocas são modernos / Cariocas são espertos / Cariocas são diretos / Cariocas não gostam de dias nublados / Cariocas nascem bambas / Cariocas nascem craques / Cariocas têm sotaque / Cariocas são alegres / Cariocas são atentos / Cariocas são tão sexys / Cariocas são tão claros”. O que se mais pode dizer? Nada, seja carioca, é um estado de espírito e não de geografia!


Paulo Reis

PS: este texto foi-me pedido pelo mais carioca dos portugueses, António Pinto Ribeiro, e é justamente a ele dedicado juntamente com a “brasileira” São Caleiro, dois intelectuais que admiro.




in memorian Paulo Reis, 1961/2011

Para além de uma orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.*


Daniel Blaufuks, Hoje é sempre ontem



*Clarice Lispector

a fuga:


Segundo Caderno, O Globo, 03.05.2011






Ameaçado por Napoleão, D. João abandona Portugal e foge para o Brasil.


Na manhã de 29 de novembro de 1807 os portugueses acordaram com a informação de que a rainha, D. Maria I (também conhecida como “A Rainha Louca”), seu filho, o príncipe regente D. João, e toda a Corte estavam fugindo para o Brasil sob a proteção da Marinha Britânica.


D. João fora colocado contra a parede e obrigado a tomar a decisão mais grave da sua vida. Seu adversário era ninguém menos do que Napoleão Bonaparte. O imperador francês estava em guerra com a Inglaterra, aliada de Portugal, e havia decretado o Bloqueio Continental, ou seja, fechado os portos europeus ao comércio de produtos britânicos.


Assim, em novembro de 1807, as tropas francesas marcharam em direção a Lisboa, prontas para varrer Portugal e chutar seu príncipe regente do trono. Sem exército para se defender, D. João preferiu fugir para o Brasil, protegido pelos navios de guerra britânicos, levando junto a família real, a maior parte da nobreza, seus tesouros e todo o aparato do Estado.


[1808, Laurentino Gomes, 2010]