Não tinha lama, não tinha fracasso, duvide quem não viu. Aquilo foi amor.









1. Amor não tem fracasso. Se foi fracasso, não tinha amor. Sábado à noite, Caetano Veloso subiu ao palco no Complexo do Alemão e então ficou na cara. A nossa cara a olhar a cara dele a olhar a nossa cara: 68 anos, já nem os caracóis grisalhos, já nem caracóis, um ancião - e quando sorri, um menino.


2. Um a um, tínhamo-nos juntado cinco no Cosme Velho, cariocas-a-prazo e quem-sabe-um-dia-cariocas, por acaso todos portugueses. Chovia como aqui chove no Verão, embora seja Outono, daqui a nada Inverno. Cinco da tarde já quase era escuro.


O anúncio do Favela Festival, inédito no género, dizia que a grande final começava com o desfile dos dez finalistas às três e terminava com Caetano Veloso às sete. Tudo isso acontecendo no Campo do Sargento, Complexo do Alemão, lá nos confins da Linha Vermelha, e depois da Linha Amarela, as vias rápidas do subúrbio.


Dias antes, um de nós, o João, ouvira uns rumores sobre umas carrinhas que iam partir da Zona Sul, género Expresso Caetano. Mas como não havia notícia delas, sábado de manhã liguei ao Otávio, livreiro-militante do Alemão, com quem eu passara uma tarde no morro. É agulha no palheiro, taxista da Zona Sul que aceite ir ao Complexo do Alemão, para mais de noite, e a chover. O Otávio devia ter algum vizinho da favela que aceitasse levar-nos aos cinco.


Tinha:


- Você vai ligar ao Anderson.


Liguei. Uma gentileza.


- "Tou com o carro na oficina, só vai estar pronto às quatro, mas o meu irmão vai ligar para você.


Portanto às cinco, hora marcada, o irmão do Anderson ainda não tinha ligado, o Anderson não atendia, o Otávio ia para a caixa de mensagens e nós cinco víamos a noite e a chuva pela minha janela.


O João e o André estavam como em casa, mas o Daniel e a Catarina tinham avião de volta no dia seguinte. Houve votos para uma picanha no Baixo Gávea, em vez de Caetano no Alemão. A aventura tremia.


Seria o fim?


Não, era o Rio de Janeiro.


Perto das seis o Otávio ressuscitou com notícias. Recém-saído da oficina, o Anderson, ele mesmo, vinha a caminho.


3. Cá vamos então no táxi do Anderson, que tem um boné e será pai dentro de dias. Um à frente, quatro atrás, tentem lá isto em Lisboa. Felizmente é sábado e o carro voa. Rua das Laranjeiras, Túnel Santa Bárbara, Catumbi, Sambódromo, um ápice. Linha Vermelha, Linha Amarela, a antiga fábrica onde se concentrou a tropa que invadiu o Alemão em Novembro. Foi o poder oficial a querer mostrar que afinal mandava no poder paralelo. O mundo viu.


Anderson só pára naquela barreira de metal como costuma haver nos concertos. Os faróis iluminam camuflados, os olhos habituam-se ao escuro. Dezenas de soldados nas esquinas, fuzil em riste. A barreira do Favela Festival afinal é um checkpoint. Não fosse tanto mulato a chinelar e seria Israel num campo de refugiados.


Avançamos a pé. Barraquinhas e churrasquinhos de um lado e do outro; o presépio da favela encosta acima; ao fundo da rua o festival, achamos nós.


4. Sete da tarde ao fundo da rua e o festival é um lamaçal deserto com um palco no lugar da baliza. Há carros da TV Globo e cartazes com os patrocínios da Petrobrás, do governo do Rio, da Cufa, a Central Única de Favelas, que organiza. Mas a galera da favela está na beiradinha do campo, braço cruzado, cara fechada, e escassa.


E à volta, centenas de soldados armados, mais um camião com reforços, mais um blindado ligeiro, como se fôssemos prisioneiros em dia de folga, vigiados de perto.


Um garoto distribui o programa: o tal desfile dos dez finalistas que era para começar às três e ainda não começou. Vamos a caminho das oito.


Podemos pensar que vai ser o maior fracasso da carreira de Caetano, mas isso de fracasso será para quem tem carreira. Caetano é deus e o diabo na terra do sol, terra em transe como nos filmes de Glauber Rocha a quem ainda na semana passada ele dedicou uma crónica. Não há como o Rio para deitar abaixo Caetano, porque ele fala do que não sabe, mete o pau em tudo, hoje direitos de autor, amanhã não sei o quê, o que eu tenho ouvido.


Mas eu não quero ouvir. Eu quero ouvir Caetano. E leio-o todo o domingo na página dois do Segundo Caderno do Globo e a questão não é se ele tem razão. Caetano é uma razão maior.


5. Dois litros de Antártica a dividir por cinco, mais linguiça na brasa, mais maçaroca quente, mais queijo no espeto, e Deus parou a chuva para quem acredita.


Às oito e meia estamos de pé na lama, encostados ao palco. O veterano DJ Marlboro, mestre de cerimónias do funk carioca, chama a dançar. Sobem ao palco três menorzinhos, gingam o baixo-ventre como quem já tem sexo. Depois uma negrona com a Nossa Senhora estampada nas pernas toma o micro e apela à galera da beiradinha: é botar o pé na lama mesmo.


Começa o desfile. Inclui um galã chamado Mar com a claque toda de t-shirt. Uma menina colorida do Sertão e um idoso metido a James Brown. Uma banda de Realengo a homenagear os estudantes assassinados em Realengo. Todos os finalistas vêm das favelas do Rio, cada um canta uma canção, entre cada há música de pacote, e a galera da beiradinha só dança essa música mesmo.


Meia-noite e meia e o maior sucesso do Favela Festival foram os intervalos.


6. É agora. Uma pequena multidão avança para o palco. Negras da favela talvez avós, gatos louros talvez da Zona Sul, amigos talvez namorados, olhos fixos no palco, no mesmo lugar. Então Caetano entra, de preto e vermelho e violão, e a noite muda.


Ao primeiro verso, tudo a cantar na lama, mas não se ouve o palco. Problema de som logo agora???


- Melhorou? - sorri Caetano.


Mãos no ar cá em baixo, acenando que mais ou menos.


Não vai melhorar muito, não. Ouvimos Caetano, porque estamos colados ao palco e somos poucos. Ouvimos Caetano, porque estamos a cantar com ele. Ouvimo-nos uns aos outros a cantar Caetano, e de vez em quando aquele vibrato que vem dele e paira, antes mesmo de ele sorrir.


Então Caetano Veloso está a cantar à uma da manhã nos subúrbios do Rio de Janeiro, para um campo cheio de lama semivazio, com um som abaixo de festa de liceu, e olhem lá as caras, a negra avó, o gato louro, os amigos talvez namorados, a galera da favela e a galera da Zona Sul, tudo de boca aberta e lágrima no olho, cantando de cor, pedindo mais.


- Estão pedindo Tieta ou Tigreza? - sorri Caetano, tranquilo e infalível como Bruce Lee.


- As duas! As duas!


Não tinha lama, não tinha fracasso, duvide quem não viu. Aquilo foi amor.





Caetano no Complexo do Alemão
, Alexandra Lucas Coelho, Público, 21.05.2011

o projecto incompleto da modernidade*


[Ministério da Educação e Cultura, Palácio Capanema, Le Corbusier, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Rio de Janeiro, 1929]


Porventura democratizado pelo moderno, o vazio. O seu horror e a sua beleza.



*Jürgen Habermas

uma reflexão imoral


Travessa do Ouvidor, Rio de Janeiro

XVI

Uma Reflexão Imoral

Ocorre-me uma reflexão imoral, que é ao mesmo tempo uma correção de estilo. Cuido haver dito, no capítulo XIV, que Marcela morria de amores pelo Xavier. Não morria, vivia. Viver não é a mesma cousa que morrer; assim o afirmam todos os joalheiros desse mundo, gente muito vista na gramática. Bons joalheiros, que seria do amor se não fossem os vossos dixes e fiados? Um terço ou um quinto do universal comércio dos corações. Esta é a reflexão imoral que eu pretendia fazer, a qual é ainda mais obscura do que imoral, porque não se entende bem o que eu quero dizer. O que eu quero dizer é que a mais bela testa do mundo não fica menos bela, se a cingir um diadema de pedras finas; nem menos bela, nem menos amada. Marcela, por exemplo, que era bem bonita, Marcela amou-me...


[Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis]

buildings in america*

























































a voz humana


Campo do Sargento, Complexo do Alemão, Rio de Janeiro



É, provavelmente, a área mais segura do Rio de Janeiro. Ou a isso leva a concluir o aparato securitário propositadamente visível. Entra-se tenso, ingenuamente e no desconhecimento que o conhecimento pelos media oferece. Entra-se e confrontam-se imagens de uma zona de guerra, imagens de Bagdade ou Gaza ou um qualquer serviço informativo: fuzis displicentemente apontados à cabeça dos transeuntes pelas brigadas de soldados que patrulham as ruas em camiões; regimentos inteiros da polícia, de todas as polícias, armados para uma guerra total; esquadrões de guerra urbana. A visibilidade de uma guerra que não é guerra, mas que em tudo parece à guerra, é, sobretudo, a evidência – e a violência – do estado a entrar pela primeira vez em territórios há muito abandonados e deixados à sorte da ausência de lei e de todos os interesses menos os do bem comum. Como fossem guardiões de uma paz imposta e que flanqueia as ruas, mas a vida corre habitualmente, sem medo, por entre as armas.

A noite era de excepção no Complexo do Alemão. Caetano Veloso encerrava um festival de música e tocaria as canções votadas pelos habitantes do Complexo. A festa, portanto, a oportunidade dos moradores se juntarem, a oportunidade de reafirmarem a pertença e a existência, a oportunidade de se verem e serem vistos na televisão, a oportunidade da cidade e do país os reconhecer, a oportunidade do estado brasileiro assegurar ao mundo que está a trabalhar na segurança (das vagas de estrangeiros que invadirão o Rio até 2016, passe o cinismo), a oportunidade de nada correr mal numa imagem de cartão postal, oportunidade para o comércio do bairro apressar umas barracas na rua e exercer a sua quota na lei da oferta e da procura.

Crianças imitam com ingenuidade os gestos e movimentos libidinosos da Beyoncé ou do hip-hop mtv, moleques jogam à bola e saltam na lama, os brotinhos vestem o melhor vestido comprado no pobre comércio local rondadas pelos garotos musculados do funk carioca, as mulheres trabalham como trabalham todas as mulheres em todo o mundo e em todas as condições, os homens sentam-se nos botecos improvisados à volta da cerveja e do churrasco e do futebol.
Fusão de hiper-moderno e de muito arcaico. Confundem-se imagens, desejos e apetências culturais da globalização (norte-americana) com as formas antigas das relações (de parentesco, de solidariedade, de vizinhança). O desejo mistura-se com a necessidade numa promiscuidade que não é moral mas antes estética e cultural.
Os padrões urbanísticos e arquitectónicos multiplicam-se no improviso e no inesperado, numa margem nunca planeada nem racionalizada. Falta razão a estas arquitecturas, mas explodem em liberdade e invenção. Não há a ciência do custo/benefício, da produtividade e da performatividade, mas a genuína sageza ancestral da sobrevivência e viabilidade do que se constrói e de quem constrói. Não há planos de saúde nem PPR’s, mas uma estratégia social e individual tão antiga como a história do Homem em sobrevir à inexistência.

É tudo em estado bruto, do amor ao terror, da alegria ao medo, da partilha à violência, da geografia à arquitectura, da natureza das coisas que confunde o bem e o mal.

Havia festa na aldeia e, como em todas as festas de todas as aldeias de todo o mundo, dançava-se, cantava-se, partilhava-se. Caetano Veloso abrilhantava o bailarico. Os fuzis vigiavam a alegria.




Então, e como sempre, era só depois de desistir das coisas desejadas que elas aconteciam.*


Rio de Janeiro, Largo da Carioca

Três degraus inamovíveis de granítico puído esplendor em Copacabana, eram penhasco ermo silencioso, interior cansado da cidade que passa.
Interrogava-me o porteiro (o Rio é uma cidade de guardas erguidas, muralhas de alumínio tosco atravessadas, ferro pesado sobre as portas que se fecham à rua) se esperaria alguém.
Não espero ninguém, talvez que a chuva passe (talvez que alguém me chame;
e a morte poderá acontecer sem que nunca tenhamos ouvido o nosso nome ou podemos morrer no ruído branco com que o mundo nos chama).





O que é de difícil explicação é que tipo de loucura levou um punhado de homens a erguer uma cidade no meio de uma geografia hostil, ocupada por uma natureza adversa que, com cinco séculos de ocupação humana, resultou num caos surpreendente. Ruas que se espalham por entre os morros, morros que conduzem as ruas à cadência da topografia imprevisível e que guia a mão humana.
É discutível a beleza do que foi feito no séc. XX. Copacabana, Ipanema, Leblon, compõem-se em pedaços de arquitectura pobres, feias e gastas, com algumas excepções de algum cliente mais ilustrado. Mas o melting pot não é Nova Iorque, é Ipanema: a promiscuidade ao contrário do guehto da América rica; a mistura de todas as feições humanas à razão irrazoável do desejo e do amor; um escândalo democrático.

A promiscuidade é também arquitectura. As favelas dos morros que descem ao asfalto sem princípio nem fim, a natureza livre e indomável por toda parte, a liberdade de poder não ser coerente e construir um paralelepípedo de vidro esverdeado sobre uma frente de rua do tempo colonial. A incoerência e a ordem do possível são as possibilidades de uma liberdade essencial: aqui ainda é possível. Por pouco tempo.

É tudo tão feio, é tudo tão bonito.




*Clarice Lispector

E era tranquilamente nada.*


Rio de Janeiro, Baía da Guanabara



Sou agora a distância entre o meu nome e eu. E tão mais é significativo entender isto agora porque nunca, até hoje, o tinha entendido.
Sou o caminho sempre inacabado. Irrepetível. A medida do que esqueço. A memória, a superfície real do corpo, que cobre todo o esquecimento.
Estou em casa e o meu caminho é a minha morada.



Aos 14 anos, num entardecer, Lúcio Costa entra na Guanabara à cadência da sucessão Pão de Açúcar, Corcovado, Pedra da Gávea. Imagino que a um adolescente, habituado à placidez da campagne francesa ou ao cosmopolitismo de Londres, tenha sido impressiva a visão das três desmedidas e singulares pedras que se erguem na paisagem da baía. Era quase de noite. Só à luz dia seguinte o jovem Lúcio Costa pôde viver a cidade.
Mas antes, a experiência inicial foi a do granito negro ao crepúsculo. E que impacto terá tido dessa experiência? Uma madrugada em que se poderia ter fundado no jovenzinho Lúcio a possibilidade de o novo não colidir com o antigo mas o novo ser uma maneira de permanentemente o reactualizar; que o novo apenas surge onde já exista o tempo antigo. (O moderno não ser tão só uma pobre (e estéril) quebra do arcaico e, a respeito disso, a ideia de que ao purismo da forma – uma pureza assente num pressuposto de verdade - necessariamente não terá de corresponder uma quebra com os vínculos da tradição e do vernáculo.) Um terceiro continente.



Zona Sul

Atravessar a Vieira Souto ao fim da tarde, como quem suspende os negócios do Centro, o comércio agitado do Saara (numa estranha e inesperada aproximação do acrónimo às formas relacionais e comerciais quase árabes), a vizinhança ruidosa do Botafogo, a fogosidade limite da Lapa, as patricinhas arranjadas para a balada do Leblon, a Copacabana venal e a Copacabana da classe média idosa e orgulhosa, a jovem guarda artística do Arpoador, o túnel entupido e Miami Vice no silicone e arquitecturas malhadas pelos EUA da Barra, a elegância inacabada de outro século parisiense do Flamengo, a solidão apinhada das vans na enseada a caminho da Zona Norte, o racismo mais amplamente democrático do corpo e do desejo da loira da morena da branca da preta da mulata, e tu, do outro lado, Lisboa.



*Clarice Lispector

rio de janeiro




“Rio 40 graus, cidade maravilha purgatório da beleza e do caos”, canta Fernanda Abreu, a musa carioca branca e sofisticada mas com a ginga de mulata que requer a uma perfeita carioca. Rio é uma cidade naturalmente anti-gueto, pois a favela cruza zonas ricas e chega às ruas com a mesma disposição com que galga os lindos morros da cidade. A cidade serpenteia entre o mar e a montanha, esquiva-se de estar partida socialmente, quando pobres e ricos na praia, desnudos, têm o mesmo valor. O Rio além de belezas naturais é feito de gente que cruza as geografias a eliminar as diferenças sociais que possam existir. O Rio é Ernesto Neto, o mais notório artista brasileiro no exterior, com seu atelier plantado em meio ao caos da baixa da cidade; é Adriana Varejão e Beatriz Mihazes no elegante Jardim Botânico; é Cildo Meireles no tradicional Botafogo, bairro preferido dos lusitanos; é Tunga e Adriana Calcanhotto em meio à “selva” da Floresta da Tijuca; é Paulinho da viola, o elegante príncipe do samba, na deselegante Barra da Tijuca. Eis o espírito do Rio: a implosão dos clichés.


O Rio é erudita e popular em sua natureza cosmopolita e cool. Do Leblon a Lapa, da Tijuca ao Centro, tudo é possível. Ruas apinhadas de gente, sons atravessam o eixo da cidade zona norte – zona sul interligada pelo Centro, umbigo do mundo. Lá a Biblioteca Nacional, o Teatro Municipal, o Museu Nacional de Belas Artes, o CCBB, o Centro de Artes Helio Oiticica, ao lado do maravilhoso Gabinete Real Português, são orgulhos da cidade. Os bailes “charm” do Clube Bola Preta disputam frequentadores da Cinelândia que vão aos concertos no Theatro Muncipal. Rio é a cidade onde Vila-Lobos, patrono da música moderna brasileira, misturou Bach e o choro. Nada mais carioca que a implosão da alta e da baixa cultura. Rio é a glória do “chope” e do bolinho de bacalhau – uma das melhores heranças portuguesas que os brasileiros melhoraram, pois come-se um pastel no Bracarense e não se sente nenhuma saudade dos daqui. O bate papo de fim do dia nos botequins, a algazarra dos transportes públicos que transforma o centro do Rio num misto de Nápoles e uma cidade africana, voluntária desordem e alegria dos ambulantes.

Os cariocas são orgulhosos do seu sotaque (usam o xis para todos os esses das palavras, muito próximo ao lisboeta), da sua aparência descontraída, de ser nada pontual e nem se dar por isso. Quem melhor expressou o way of life do carioca foi a gaúcha Calcanhotto, uma “carioca da gema” como todos que vem de fora: “Cariocas são bonitos / Cariocas são bacanas / Cariocas são sacanas / Cariocas são dourados / Cariocas são modernos / Cariocas são espertos / Cariocas são diretos / Cariocas não gostam de dias nublados / Cariocas nascem bambas / Cariocas nascem craques / Cariocas têm sotaque / Cariocas são alegres / Cariocas são atentos / Cariocas são tão sexys / Cariocas são tão claros”. O que se mais pode dizer? Nada, seja carioca, é um estado de espírito e não de geografia!


Paulo Reis

PS: este texto foi-me pedido pelo mais carioca dos portugueses, António Pinto Ribeiro, e é justamente a ele dedicado juntamente com a “brasileira” São Caleiro, dois intelectuais que admiro.




in memorian Paulo Reis, 1961/2011

Para além de uma orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.*


Daniel Blaufuks, Hoje é sempre ontem



*Clarice Lispector

a fuga:


Segundo Caderno, O Globo, 03.05.2011






Ameaçado por Napoleão, D. João abandona Portugal e foge para o Brasil.


Na manhã de 29 de novembro de 1807 os portugueses acordaram com a informação de que a rainha, D. Maria I (também conhecida como “A Rainha Louca”), seu filho, o príncipe regente D. João, e toda a Corte estavam fugindo para o Brasil sob a proteção da Marinha Britânica.


D. João fora colocado contra a parede e obrigado a tomar a decisão mais grave da sua vida. Seu adversário era ninguém menos do que Napoleão Bonaparte. O imperador francês estava em guerra com a Inglaterra, aliada de Portugal, e havia decretado o Bloqueio Continental, ou seja, fechado os portos europeus ao comércio de produtos britânicos.


Assim, em novembro de 1807, as tropas francesas marcharam em direção a Lisboa, prontas para varrer Portugal e chutar seu príncipe regente do trono. Sem exército para se defender, D. João preferiu fugir para o Brasil, protegido pelos navios de guerra britânicos, levando junto a família real, a maior parte da nobreza, seus tesouros e todo o aparato do Estado.


[1808, Laurentino Gomes, 2010]

o problema da habitação*


Morro do Cantagalo, Copacabana, Rio de Janeiro


[...] A favela que iremos buscar não é aquela que rasteja na negra miséria, nem aquela a que falta a rede de esgotos, ou a que é um ninho de cólera ou esquistossomose, nem é a que é dominada pelo narcotráfico ou pelos interesses de uns e de outros.
A favela que nos interessa é aquela formada pela história das pessoas que nela vivem, pela estrutura de sua sociedade feita de relações de parentesco, amizade, confiança e origem, pela ancestralidade da presença das comadres e das lideranças, pelo modo como o casario se mistura sem ordem aparente, acompanhando os caminhos antigos que levam à fonte ou à montanha, pela maneira como os quintais se amoldam ao terreno e às necessidades de cada um, às tensões das relações sociais, ao alívio das vizinhanças.
A favela que buscamos, por debaixo do lixo, dos esgotos, das crianças doentes, é aquela que precisamente é capaz de sobreviver a tudo isto, e ainda prover formas estruturadas, dentro de seu contexto, de sustentabilidade da vida, de resistência e, acima de tudo, de felicidade pessoal e colectiva.



[Breve História das Favelas, Luis Kehl]


*Ruy Belo

a house is not a home

Relatório Especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada.

mam







































































[Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro, Affonso Eduardo Reidy, 1953]

nem vem de garfo, que hoje é dia de sopa/esquenta o ferro, passa a minha roupa*


Bar do Luiz


*Nem Vem Que Não Tem, Wilson Simonal

madame tem um parafuso a menos só fala veneno meu Deus que horror*



*Pra que discutir com madame, João Gilberto

a minha onda é a do vai e vem*






















































*Rapaz do Bem, Carlos Lyra

l&m lights


© Laurinda Alves


[...] porque a partir do momento em que ponho dois tijolos ao alto, estou a especular.

Eduardo Souto Moura, Jornal de Letras

diferença e repetição



Para o homem primitivo, um objecto ou uma acção apenas adquire valor, isto é, apenas encontra a sua realidade e indentidade, na medida em que participa de algum modo de uma realidade que o transcende: uma acção só adquire significado enquanto gesto que retoma uma acção primordial, enquanto repetição desse primeiro gesto já inaugurado, do mesmo modo que um espaço ou uma construção só é real e identificável enquanto espaço ou construção que retoma um arquétipo extra-humano.

[Entre o Corpo e a Paisagem, Arquitectura e lugar antes do genius loci, Armando Rabaça, 2011]



[2001: A Space Odyssey, Stanley Kubrik, 1968]

Porventura esquece-se a arquitectura do gesto que lhe dá origem. E significado. Ou na turbulência desta modernidade se faça necessária a revisitação a arcaísmos: à raiz das palavras, à autenticidade das coisas, à irrepetibilidade e permanente reactualização do real.
A urgência das casas é excluída dos RGEUS, PDM’s, do labirinto regulamentar que corporiza a sociedade (tecnologicamente) complexa.
Terrivelmente primária na necessidade, talvez convenha à arquitectura deixar de ser moderna para voltar a ser moderna.

terceira metade*



Com agradecimento à Marta Mestre.
Terceira Metade

Inês não é morta


Rio de Janeiro, Centro




1. Antes de vir morar para o Brasil não sabia que aqui se diz “agora Inês é morta” a propósito do que já não tem solução.
Descobri isso num jantar de amigos cariocas em que, além de mim, mais alguém se chamava Coelho e pôs a origem do nosso sobrenome em cima da mesa: de onde viria?
Há quem o associe com cristãos-novos, porque quando a Inquisição portuguesa forçou judeus e muçulmanos à conversão, muitos tomaram nomes de plantas e animais. Mas Coelho já existia como sobrenome, e, para dar um exemplo, nesse jantar citei Pêro Coelho, um dos assassinos de Inês de Castro. Então, como nem todos os amigos presentes identificavam Inês de Castro, voltei atrás para contar a história, e agora vou fazer o mesmo, rapidamente.
Aconteceu mais de um século antes antes de qualquer europeu avistar esta margem do Atlântico Sul. Ia ser rei de Portugal D. Pedro I quando se tomou de amores por uma dama vinda na corte da sua noiva.

Estavas, linda Inês, posta em sossego
De teus anos colhendo doce fruto


contou Camões.

Crescemos com isto em Portugal, ainda mal sabemos ler. E não nos poupam ao sangue: Inês é linda e logo a seguir é morta. A luta pela coroa engendrou o crime: Inês era filha bastarda de um cavaleiro galego com uma dama portuguesa; os seus irmãos conspiravam contra Castela e queriam enredar Pedro nisso; o pai de Pedro, rei D. Afonso IV, temeu que a conspiração deitasse a perder a coroa portuguesa; então, para cortar de vez o laço entre o seu filho e a linda Inês, mandou que dois homens a degolassem.
Bem cantou Camões o colo de alabastro, que outros disseram ser de garça.
Cinco anos depois a fúria de Pedro ainda fervia e abateu-se sobre os assassinos. A lenda é que arrancou o coração de um pelo peito, o coração do outro pelas costas, e trincou ambos antes dos corpos serem queimados. Por isso ficou para a história como Pedro, o Cru.
Mais: dois anos depois disso, ou seja, quando Inês já estava morta há sete, ordenou que a desenterrassem, transferiu o corpo de Coimbra para Alcobaça e coroou-a Rainha, obrigando toda a corte a desfilar perante ela, beijando-lhe a mão. Ainda mal sabemos ler e Inês é aquela “que depois de ser morta foi rainha”, imortalizada no Canto III dos Lusíadas.
Mas esse amor além da morte foi tão carnal em vida que deu à luz cinco filhos nas várias camas que os amantes partilharam, Portugal fora.
Pedro amou Inês antes, durante e depois de ser casado com a dama de quem Inês era prima e fora companhia.
Funda-se assim o amor português numa história toda ela fora da lei.
Muitos anos depois de Camões li outra obra-prima da literatura em português inspirada por Inês de Castro, o conto que Herberto Helder escreveu do ponto de vista de um dos assassinos: Pêro Coelho.
Eis a herança do sobrenome que no tal jantar de amigos, aqui no Rio, eu partilhava com Frederico Coelho, carioca do mundo e desta casa, aliás. E entre o coração desfeito do rei e o coração arrancado ao assassino, foi o Frederico quem de repente exclamou: “Por isso dizemos no Brasil: agora Inês é morta!”

2. As palavras sobrevivem à sua origem. Somos assim o que já não sabemos de onde vem e o que ainda não sabemos para onde irá.
Tanto melhor quanto nos formos achando em-nós. Olho para estas três metades tão desiguais, Portugal, África, Brasil, e o que cada vez mais vejo em-si é o Brasil.
Uma palavra vai-se repetindo na minha cabeça: soberania. O Brasil é não apenas um país-continente sem inimigos, como conseguiu o prodígio de inspirar revolucionários até do outro lado do mundo que não falam uma palavra de português.
Porque construiu uma nova democracia em 25 anos. Porque descobriu que tinha petróleo mas isso não tornou os pobres mais pobres. Porque caminha de uma pirâmide de desigualdades brutais para um losango.
Visto do outro lado do mundo, o Brasil é o país que levantou a cabeça, mostrando que as riquezas naturais não têm de ser uma maldição, e que a desigualdade brutal não é crónica.
Foi assim que há semanas me falaram do Brasil — personificado em Lula — os jovens acampados na praça Tahrir, lá no Cairo, durante a revolução que levou à queda de Mubarak.
No tempo da deslocalização, o Brasil emergiu simultaneamente como uma inspiração global e uma nação soberana.
Não conheço outro exemplo.
Essa inspiração e essa soberania têm uma raiz comum: os muitos milhões maiores-que-a-vida, índios, pretos e mulatos, que aqui não foram devorados pela História mas afinal a devoraram, aqueles que nunca deixaram de fazer o Carnaval mesmo que tudo acabe na quarta-feira, porque a verdade é que tudo recomeça na quinta.
A alegria é uma arma soberana.
Contra todas as evidências em contrário / a alegria, diz um verso de Manuel Gusmão, poeta português contemporâneo. Se há um país do futuro será esse, o da alegria contra todas as evidências.
Não o Brasil do nicho que esteve bom para “playboys”, coronéis e ditadores, e hoje continua a estar. Não esse nicho displicente, incapaz de ver e ouvir para além das suas grades e das suas “grifes”, que reduz o Outro à caricatura, seja ele português, africano, muçulmano, nordestino, favelado, ou um daqueles sem-tecto do centro do Rio de Janeiro que lembram os intocáveis da Índia.
Displicência é ignorância. No melhor dos casos, uma risada. No pior, arrogância, preconceito, racismo. Esse nicho será o Brasil da flor cortada, sem raiz. Vai pondo água para não murchar, e por baixo da pele não resta nada.
Mas o Brasil que vi no Carnaval é o avistado por Oswald de Andrade, aquele em que todos se comem e ficam mais fortes. País de asa no quadril, a levantar o chão com os pés, voando com todas as raízes.

3. Há umas semanas falei da pujança que o Brasil vive num colóquio realizado no Porto, Norte de Portugal. Não foi um momento pacífico. Um académico francês achou que eu estava a desprezar a Europa e uma programadora alemã achou que eu tinha uma visão idílica do Brasil. Mas nunca me achei tão europeia como agora, e justamente como europeia e para europeus me pareceu importante falar do que no Brasil está pujante. E morando aqui como correspondente de um jornal, o que implica conviver com o resultado de séculos de desigualdade, desde a colonização portuguesa, vejo todos os dias a diferença entre pujança e idílio.
O que emergiu desse colóquio foi uma expressão da crise europeia. Não sei se é o medo que acentua a crise se é a crise que acentua o medo, mas o medo é uma perda de soberania, escrevi então numa crónica.
Vou citar uma parte:
“Viver o Brasil agora é uma experiência de exposição a essa energia que trespassa o corpo como trespassa a língua.
Sendo eu portuguesa, há nisto um sentido político construído pelo passado. Mas o futuro do nosso passado é sempre feito a partir deste exacto momento, e se isso é válido para o passado individual também será válido para o passado comum.
A identidade não se perde, está em movimento. Ser lisboeta-português-europeu será uma carga fixa que cada um funde com outras como pode ou quer.
Muito mais que o sentido político passado — gerador de toda uma bibliografia colonialista, pós-colonialista e pós-pós-colonialista — interessa-me o sentido político futuro, por exemplo a forma como o brasileiro absorve o estranho, o estrangeiro, o bárbaro. A sabedoria que faz o brasileiro ficar soberano.”
Fim de citação.
Não podemos andar em frente com a cara sempre voltada para trás, como o Anjo da História pintado por Klee que assombrou Walter Benjamim. Há que conhecer a História, mas conhecer a História não evita o pior do que somos, e o pior do que somos está à nossa frente a cada dia. Eis o verdadeiro desafio: honrar os mortos é cuidar dos vivos.
Então finco o pé no chão e ponho a mão no quadril daquela passista da Mangueira que me tentou ensinar a voar: “É para a frente”, dizia ela, um pé adiante do outro.

4. Quando aterrei no Galeão chegada do Cairo, senti como nunca que estava a vir do Velho Mundo, e como Europa e Oriente Médio são tão o mesmo mundo, por serem Velho Mundo.
Mas se posso dizer “o meu Brasil”, o meu Brasil é do mundo, mesmo que aqui o mundo páre para o Carnaval passar. É uma ideia no coração do jovem revolucionário Khaled, que por sua vez inspira algum jovem em Luanda ou em Lisboa.
Depois do Cairo, Luanda saiu mesmo à rua, ainda que tenham sido poucos. E depois Lisboa saiu mesmo à rua e foram muitos. Eu vi a luz em um país perdido. É um verso de Camilo Pessanha, poeta português do começo do século.
Meses antes disso, em cima do Viaduto do Chá, em São Paulo, eu tinha visto a luz de um país perdido: o prodígio de à minha volta toda a gente falar português. Foi numa manhã cor-de-cinza, depois de passar dias entre libaneses e judeus, japoneses e italianos, do bairro da Liberdade ao Bom Retiro, da Haddock Lobo ao Mercado Central. Eram todos brasileiros e falavam português.
É a isto que chamamos epifania, a súbita revelação de algo permanente: 190 milhões de brasileiros a falarem português.
Talvez Portugal só tenha existido para nos deixar a todos uma língua: nós, árabes, judeus, índios, africanos, europeus.
Então, esse será o nosso país comum do futuro.

5. Stefan Zweig disse que o país do futuro era o Brasil, e isso foi uma maldição antes de ser verdade.
Ruy Belo — que fez um poema do tamanho de um livro sobre Inês de Castro e lhe chamou Margem da Alegria —, disse que o país do futuro não era Portugal.
E Lula Pena canta, a partir de Antonio Cícero, que jamais foi mais escuro no país do futuro — e da televisão.
É sempre escuro no país do futuro porque falta fazê-lo, e ninguém o fará senão nós.
Portanto, quanto a Atlânticos e Índicos em todas as suas margens falantes de português, acredito que Inês não é morta. Depende de haver quem fale e quem escute, como podemos escutar Lula Pena e ela ser fado, morna ou Caetano Veloso, sendo única: ela própria.
Eu, que ouvi mais morna que fado, e certamente muito mais Caetano Veloso, até do outro lado do mundo, a levantar voo de Cabul, bebo a isso, e canto com a Lula: entre milhões de humanos, e siderais enganos, eu quero-te abraçar.
Acredito no ar que inspiramos, todos.






Alexandra Lucas Coelho

Texto para o seminário A Terceira Metade, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, 31-03-2011