Inês não é morta


Rio de Janeiro, Centro




1. Antes de vir morar para o Brasil não sabia que aqui se diz “agora Inês é morta” a propósito do que já não tem solução.
Descobri isso num jantar de amigos cariocas em que, além de mim, mais alguém se chamava Coelho e pôs a origem do nosso sobrenome em cima da mesa: de onde viria?
Há quem o associe com cristãos-novos, porque quando a Inquisição portuguesa forçou judeus e muçulmanos à conversão, muitos tomaram nomes de plantas e animais. Mas Coelho já existia como sobrenome, e, para dar um exemplo, nesse jantar citei Pêro Coelho, um dos assassinos de Inês de Castro. Então, como nem todos os amigos presentes identificavam Inês de Castro, voltei atrás para contar a história, e agora vou fazer o mesmo, rapidamente.
Aconteceu mais de um século antes antes de qualquer europeu avistar esta margem do Atlântico Sul. Ia ser rei de Portugal D. Pedro I quando se tomou de amores por uma dama vinda na corte da sua noiva.

Estavas, linda Inês, posta em sossego
De teus anos colhendo doce fruto


contou Camões.

Crescemos com isto em Portugal, ainda mal sabemos ler. E não nos poupam ao sangue: Inês é linda e logo a seguir é morta. A luta pela coroa engendrou o crime: Inês era filha bastarda de um cavaleiro galego com uma dama portuguesa; os seus irmãos conspiravam contra Castela e queriam enredar Pedro nisso; o pai de Pedro, rei D. Afonso IV, temeu que a conspiração deitasse a perder a coroa portuguesa; então, para cortar de vez o laço entre o seu filho e a linda Inês, mandou que dois homens a degolassem.
Bem cantou Camões o colo de alabastro, que outros disseram ser de garça.
Cinco anos depois a fúria de Pedro ainda fervia e abateu-se sobre os assassinos. A lenda é que arrancou o coração de um pelo peito, o coração do outro pelas costas, e trincou ambos antes dos corpos serem queimados. Por isso ficou para a história como Pedro, o Cru.
Mais: dois anos depois disso, ou seja, quando Inês já estava morta há sete, ordenou que a desenterrassem, transferiu o corpo de Coimbra para Alcobaça e coroou-a Rainha, obrigando toda a corte a desfilar perante ela, beijando-lhe a mão. Ainda mal sabemos ler e Inês é aquela “que depois de ser morta foi rainha”, imortalizada no Canto III dos Lusíadas.
Mas esse amor além da morte foi tão carnal em vida que deu à luz cinco filhos nas várias camas que os amantes partilharam, Portugal fora.
Pedro amou Inês antes, durante e depois de ser casado com a dama de quem Inês era prima e fora companhia.
Funda-se assim o amor português numa história toda ela fora da lei.
Muitos anos depois de Camões li outra obra-prima da literatura em português inspirada por Inês de Castro, o conto que Herberto Helder escreveu do ponto de vista de um dos assassinos: Pêro Coelho.
Eis a herança do sobrenome que no tal jantar de amigos, aqui no Rio, eu partilhava com Frederico Coelho, carioca do mundo e desta casa, aliás. E entre o coração desfeito do rei e o coração arrancado ao assassino, foi o Frederico quem de repente exclamou: “Por isso dizemos no Brasil: agora Inês é morta!”

2. As palavras sobrevivem à sua origem. Somos assim o que já não sabemos de onde vem e o que ainda não sabemos para onde irá.
Tanto melhor quanto nos formos achando em-nós. Olho para estas três metades tão desiguais, Portugal, África, Brasil, e o que cada vez mais vejo em-si é o Brasil.
Uma palavra vai-se repetindo na minha cabeça: soberania. O Brasil é não apenas um país-continente sem inimigos, como conseguiu o prodígio de inspirar revolucionários até do outro lado do mundo que não falam uma palavra de português.
Porque construiu uma nova democracia em 25 anos. Porque descobriu que tinha petróleo mas isso não tornou os pobres mais pobres. Porque caminha de uma pirâmide de desigualdades brutais para um losango.
Visto do outro lado do mundo, o Brasil é o país que levantou a cabeça, mostrando que as riquezas naturais não têm de ser uma maldição, e que a desigualdade brutal não é crónica.
Foi assim que há semanas me falaram do Brasil — personificado em Lula — os jovens acampados na praça Tahrir, lá no Cairo, durante a revolução que levou à queda de Mubarak.
No tempo da deslocalização, o Brasil emergiu simultaneamente como uma inspiração global e uma nação soberana.
Não conheço outro exemplo.
Essa inspiração e essa soberania têm uma raiz comum: os muitos milhões maiores-que-a-vida, índios, pretos e mulatos, que aqui não foram devorados pela História mas afinal a devoraram, aqueles que nunca deixaram de fazer o Carnaval mesmo que tudo acabe na quarta-feira, porque a verdade é que tudo recomeça na quinta.
A alegria é uma arma soberana.
Contra todas as evidências em contrário / a alegria, diz um verso de Manuel Gusmão, poeta português contemporâneo. Se há um país do futuro será esse, o da alegria contra todas as evidências.
Não o Brasil do nicho que esteve bom para “playboys”, coronéis e ditadores, e hoje continua a estar. Não esse nicho displicente, incapaz de ver e ouvir para além das suas grades e das suas “grifes”, que reduz o Outro à caricatura, seja ele português, africano, muçulmano, nordestino, favelado, ou um daqueles sem-tecto do centro do Rio de Janeiro que lembram os intocáveis da Índia.
Displicência é ignorância. No melhor dos casos, uma risada. No pior, arrogância, preconceito, racismo. Esse nicho será o Brasil da flor cortada, sem raiz. Vai pondo água para não murchar, e por baixo da pele não resta nada.
Mas o Brasil que vi no Carnaval é o avistado por Oswald de Andrade, aquele em que todos se comem e ficam mais fortes. País de asa no quadril, a levantar o chão com os pés, voando com todas as raízes.

3. Há umas semanas falei da pujança que o Brasil vive num colóquio realizado no Porto, Norte de Portugal. Não foi um momento pacífico. Um académico francês achou que eu estava a desprezar a Europa e uma programadora alemã achou que eu tinha uma visão idílica do Brasil. Mas nunca me achei tão europeia como agora, e justamente como europeia e para europeus me pareceu importante falar do que no Brasil está pujante. E morando aqui como correspondente de um jornal, o que implica conviver com o resultado de séculos de desigualdade, desde a colonização portuguesa, vejo todos os dias a diferença entre pujança e idílio.
O que emergiu desse colóquio foi uma expressão da crise europeia. Não sei se é o medo que acentua a crise se é a crise que acentua o medo, mas o medo é uma perda de soberania, escrevi então numa crónica.
Vou citar uma parte:
“Viver o Brasil agora é uma experiência de exposição a essa energia que trespassa o corpo como trespassa a língua.
Sendo eu portuguesa, há nisto um sentido político construído pelo passado. Mas o futuro do nosso passado é sempre feito a partir deste exacto momento, e se isso é válido para o passado individual também será válido para o passado comum.
A identidade não se perde, está em movimento. Ser lisboeta-português-europeu será uma carga fixa que cada um funde com outras como pode ou quer.
Muito mais que o sentido político passado — gerador de toda uma bibliografia colonialista, pós-colonialista e pós-pós-colonialista — interessa-me o sentido político futuro, por exemplo a forma como o brasileiro absorve o estranho, o estrangeiro, o bárbaro. A sabedoria que faz o brasileiro ficar soberano.”
Fim de citação.
Não podemos andar em frente com a cara sempre voltada para trás, como o Anjo da História pintado por Klee que assombrou Walter Benjamim. Há que conhecer a História, mas conhecer a História não evita o pior do que somos, e o pior do que somos está à nossa frente a cada dia. Eis o verdadeiro desafio: honrar os mortos é cuidar dos vivos.
Então finco o pé no chão e ponho a mão no quadril daquela passista da Mangueira que me tentou ensinar a voar: “É para a frente”, dizia ela, um pé adiante do outro.

4. Quando aterrei no Galeão chegada do Cairo, senti como nunca que estava a vir do Velho Mundo, e como Europa e Oriente Médio são tão o mesmo mundo, por serem Velho Mundo.
Mas se posso dizer “o meu Brasil”, o meu Brasil é do mundo, mesmo que aqui o mundo páre para o Carnaval passar. É uma ideia no coração do jovem revolucionário Khaled, que por sua vez inspira algum jovem em Luanda ou em Lisboa.
Depois do Cairo, Luanda saiu mesmo à rua, ainda que tenham sido poucos. E depois Lisboa saiu mesmo à rua e foram muitos. Eu vi a luz em um país perdido. É um verso de Camilo Pessanha, poeta português do começo do século.
Meses antes disso, em cima do Viaduto do Chá, em São Paulo, eu tinha visto a luz de um país perdido: o prodígio de à minha volta toda a gente falar português. Foi numa manhã cor-de-cinza, depois de passar dias entre libaneses e judeus, japoneses e italianos, do bairro da Liberdade ao Bom Retiro, da Haddock Lobo ao Mercado Central. Eram todos brasileiros e falavam português.
É a isto que chamamos epifania, a súbita revelação de algo permanente: 190 milhões de brasileiros a falarem português.
Talvez Portugal só tenha existido para nos deixar a todos uma língua: nós, árabes, judeus, índios, africanos, europeus.
Então, esse será o nosso país comum do futuro.

5. Stefan Zweig disse que o país do futuro era o Brasil, e isso foi uma maldição antes de ser verdade.
Ruy Belo — que fez um poema do tamanho de um livro sobre Inês de Castro e lhe chamou Margem da Alegria —, disse que o país do futuro não era Portugal.
E Lula Pena canta, a partir de Antonio Cícero, que jamais foi mais escuro no país do futuro — e da televisão.
É sempre escuro no país do futuro porque falta fazê-lo, e ninguém o fará senão nós.
Portanto, quanto a Atlânticos e Índicos em todas as suas margens falantes de português, acredito que Inês não é morta. Depende de haver quem fale e quem escute, como podemos escutar Lula Pena e ela ser fado, morna ou Caetano Veloso, sendo única: ela própria.
Eu, que ouvi mais morna que fado, e certamente muito mais Caetano Veloso, até do outro lado do mundo, a levantar voo de Cabul, bebo a isso, e canto com a Lula: entre milhões de humanos, e siderais enganos, eu quero-te abraçar.
Acredito no ar que inspiramos, todos.






Alexandra Lucas Coelho

Texto para o seminário A Terceira Metade, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, 31-03-2011

quarta-feira de cinzas


Lisboa




[...]
Because I know that time is always time
And place is always and only place
And what is actual is actual only for one time
And only for one place
I rejoice that things are as they are and
I renounce the blessèd face
And renounce the voice
Because I cannot hope to turn again
Consequently I rejoice, having to construct something
Upon which to rejoice

[...]

[Ash-Wednesday, T.S. Eliot, 1927]


Rio de Janeiro

Dar à luz é dar à morte*, pensei eu, na origem e no limite e entre o meio o corpo, como único instrumento de uma verdade, pensei, onde se inscrevem as cidades por que passa: feridas que não fecham e atestam a realidade da arquitectura.


*Parto, José Agostinho Baptista, 1998

ousadia

O Rio parecia inesgotável
àquele adolescente que era eu.
Sozinho entrar no ônibus Castelo,
saltar no fim da linha, andar sem medo
no centro da cidade proibida,
em meio à multidão que nem notava
que eu não lhe pertencia – e de repente,
anônimo entre anônimos, notar
eufórico que sim, que pertencia
a ela, e ela a mim –, entrar em becos,
travessas, avenidas, galerias,
cinemas, livrarias: Leonardo
Da Vinci Larga Rex Central Colombo
Marrecas Íris Meio-Dia Cosmos
Alfândega Cruzeiro Carioca
Marrocos Passos Civilização
Cavé Saara São José Rosário
Passeio Público Ouvidor Padrão
Vitória Lavradio Cinelândia:
lugares que antes eu nem conhecia
abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis
por todas as cidades que existiam.
Eu só sentira algo semelhante
ao perceber que os livros dos adultos
também me interessavam: que em princípio
haviam sido escritos para mim
os livros todos. Hoje é diferente,
pois todas as cidades encolheram,
são previsíveis, dão claustrofobia
e até dariam tédio, se não fossem
os livros infinitos que contêm.




[A cidade e os livros, Antônio Cícero]





falso leblon*


[Avenida Ataulfo de Paiva, Rio de Janeiro]



Habitamos
uma casa quando
a sombra dos nossos gestos
fica mesmo depois
de fecharmos a porta.

[Morada, Margarida Ferra in Curso Intensivo de Jardinagem, 2010]


*Caetano Veloso

da incapacidade dos arquitectos para decriaçã*


[Cobra Verde, Werner Herzog, 1987]



*Simone Weill

a beleza que existe


[Baía da Guanabara, Centro, Rio de Janeiro]

o objecto segundo o lugar


A utopia dos 360º. Ou a generosidade que, inadvertidamente, nos põe a rodar sobre o vazio, onde, claro, é a instituição que ordena. Não considerando a impraticabilidade do espaço total para o fim específico a que se destina, um qualquer fim, será aqui dentro um excesso contra o movimento das paredes.
Talvez uma bola de espelhos, festiva, ao meio. Uma magnífica festa. Como o é o objecto, segundo o lugar.




[Museu de Arte Contemporânea de Niterói, Oscar Niemeyer, 1996]

encontros


Encontros - Lucio Costa, Ana Luiza Nobre, Azougue, 2010




viagem a portugal


[Museu das Missões, Lucio Costa, S. Miguel, Brasil, 1940]


Cedo fica claro que a questão, o projecto, é o da identidade.
Lúcio Costa, em 1924,viaja a Portugal em busca do conhecimento das origens da arquitectura colonial. Ao mesmo tempo, Raul Lino, esboça o modelo da casa portuguesa e, espantado, reconhece a impossibilidade de referentes unívocos para uma arquitectura tão diversa mesmo, ou sobretudo, num território exíguo.
A tensão permanente de Costa é entre a herança, da qual reconhce, também, a impossibilidade de encontro da raiz única e o futuro, comprometido com essa herança e com a radicalidade moderna. É, naturalmente, um projecto cultural. No sentido mais amplo, de continuidade, não de ruptura, de adequação aos novos programas da nova sociedade, dentro de um quadro cultural específico.
E do Brasil, dessa tensão, Costa acha um certo desterro (sic.) nas suas origens.

faraway, so close


[Aguarela do colégio de freiras com passadiço em Diamantina, Lúcio Costa, 1924]




Adivinhava-se-lhe o desconforto com os ecletismos e o mission style, ainda que polidos por erudição clássica e educação europeia. Ao espírito inquieto, que acreditava num espírito do tempo, que acreditava, sobretudo, na necessidade de uma arquitectura nacional. Porque a arquitectura é também uma questão de fé, essa linguagem nacional, não a queria insuflada de nacionalismos servis, mas antes, e de acordo com um país que se construía de novo e onde havia tudo por construir, uma arquitectura que servisse de esplendor do sonho brasileiro. Uma cidade nova em chão vazio.
Em 1922 Lúcio Costa regressa de Diamantina e traz consigo uma hipotética síntese do que poderia ser essa linguagem nacional nova. A arquitectura civil luso-colonial.
A versatilidade, adaptabilidade e aptidão tecnológica em qualquer circunstância sócio-histórica e cultural, a inteligência técnica. A simplicidade (sic.) de um arquitectura que considerava despojada dos artifícios do barroco e do ornamentalismo da arquitectura religiosa, que aliava à possibilidade técnológica da construção em concreto armado.
E talvez tenha sido esse aporte de Lúcio Costa que levasse Le Corbusier a caracterizar a docilidade e gentileza – chamou os brasileiros de femininos – introduzidos no Palácio Capanema. A leveza que não interessava ao peso e gravidade corbusianas. E isto reconheceu-o ele, ele que dificilmente reconheceria alguma coisa fora de si, a propósito do Capanema – o primeiro edifício histórico totalmente de acordo com os cinco pontos da Carta de Atenas.

Por outro lado, a arquitectura portuguesa, vernacular, como influência da via que aprofundou o europeíssimo modernismo International Style. A mesma via que, anos depois, por mão de Távora e da Escola do Porto, fez com que a arquitectura portuguesa tomasse seu, também, o movimento moderno.




e a grandeza épica de um povo em formação/nos atrai, nos deslumbra e estimula*


[Palácio Capanema, Rio de Janeiro, 1936/1945]


Gustavo Capanema, Ministro da Educação, assistido por Carlos Drummond de Andrade, assessorado por Manoel Bandeira, junta Lúcio Costa que acha Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Cândido Portinari, Burle Marx et al, e estes sob tutela de Le Corbusier.
Com um punhado de homens destes seria difícil não crer no homem, na redenção do homem amanhã, na salvação pelo progresso técnico.




*

Haiti, Caetano Veloso + Gilberto Gil, 1993

somos condenados a ser modernos?


[Praça de Espanha, Roma]


Vincent Scully abre a sua história do movimento moderno com a Praça de Espanha, em Roma. O último instante histórico em que verifica ausência de qualquer elemento moderno.
Uma epopeia de optimismo e crença na razão e democracia que se desmorona na adenda de 1974, que termina com a Casa de Nantucket, de Robert Venturi.
Sendo uma incursão por uma arquitectura da democracia, da emancipação do indivíduo, do precário balanço entre a continuidade - do desejo do indivíduo pelo espaço contínuo - e a fragmentação, que desordena essa continuidade - e no imprevisto que esse desejo do sujeito, atomizado, suscita. O que no barroco era uma liberdade ilusória e fabricada pela arquitectura, com apoteose no lugar do poder, na solidão da casa de Venturi encerra-se, de certa forma, naquilo a que estamos condenados, depois de todos os ismos: somos ainda modernos. Somos, cada vez mais, sozinhos.

Não por acaso, de Nantucket larga Ahab, com ira, à caça da baleia branca.




[Nantucket House, Robert Venturi, 1972]


para O Ouriquense.

a natureza das cidades


[Parque do Flamengo, Burle Marx, 1965]


Qualquer coisa de determinista nesta palavra, de utilitarista, de dialéctica que restringe a complexidade do mundo a um punhado de conceitos objectivos, que me inibe de utilizá-la, à palavra produção, para nomear a capacidade humana de intervenção no espaço, sendo esse espaço o território, pela humanização e pela arquitectura, tornado paisagem. O espaço não é redutível à objectificação, não é uma coisa de fabricação e manipulação mais ou menos virtuosa, mas mais uma experiência. Mesmo que Lefebvre a produção do espaço seja a espacialização, é uma espacialização social, insuficiente à complexidade e integridade da experiência do espaço.
Não crendo já em paraísos perdidos, o fulgor com que o parque de Burle Marx nos diz que isto é uma cidade, que cidade é que é, que lugar é este no mundo, na orla da Guanabara, é uma coincidência entre um Éden perdido e a construção humana, naturalmente imperfeita. E atravessada por uma auto-estrada.




103


[Brasília, René Burri]


Depois de subir ao monumento, o homem regressa à terra mais homem.
É também isso que devemos a Niemeyer.


temas & debates


[THX1138, George Lucas, 1971]


Para ser mais preciso: evanescência.
Onde tudo tende à invisibilidade: a estrutura escondida; a parede reduzida à epiderme; os vãos falhos na qualidade – ontológica – de instituição consciente de um interior com um exterior; a força da matéria cede perante a ilusão de contrariar a gravidade; a diversidade dos sítios subsumida nas superfícies infinitamente pintadas à cor branca; a proporção subjugada a uma afectada composição – outro equívoco, a composição - subordinada à primazia do visual com a erosão dos restantes sentidos; um corpo, ou partes de um corpo, sem juntas, que oblitera inconscientemente o corpo humano; o tráfico da integridade – integração das relações com os lugares e com o corpo e daí se permitirem deduzir e instituir as relações da arquitectura com o mundo, a apreensão da forma, íntegra, desse mundo interior/exterior, pelo homem - por simples ou complexas representações desse mundo que se propõe; a frívola e esquizofrénica tentativa de instalar estabilidade num entorno instável, (paredes, tectos, pavimentos, todos iguais, indiferenciados, inarticulados, em superfícies uniformes sem princípio nem fim nem as juntas mecânicas que a matéria e a tecnologia impõem).
Onde tudo tende à invisibilidade, o ápice da abstracção, é a indefinição, inconsciente, da arquitectura. A recusa em tomar partido num mundo, todos os dias, um pouco menos conhecido.


ar condicionado


[Vitra, Daniel Libeskind, São Paulo, 2010/...]


Uma síntese tecnológica – via sustentabilidade – será sempre um olhar redutor sobre a arquitectura. Para mais em tempo em que essa sustentabilidade se apõe, com grande força, como a grande narrativa, no medo do presente, de redenção no futuro.
De certa forma a sustentabilidade é aquilo que Heidegger enunciava como o pensamento que calcula. O pensamento que administra a tecnologia. Um pensamento necessário, mas longe do alcance do pensamento que medita, que Heidegger acreditava em perda pelo homem contemporâneo.
Com um paralelismo pedestre posso dizer destes tipos de pensamento como uma diferença entre as engenharias e a arquitectura. Não é reclamada a presença do engenheiro no estaleiro. Há hoje teconologias que permitem essa ausência sem comprometer o rigor da obra. Ao arquitecto pede-se que abandone o projecto, no exacto momento do início da execução da obra, quando o projecto é posto em obra. A presença em obra.

A sustentabilidade é a eficácia desse pensamento que calcula. Mas o risco é permanecermos reféns deste pensamento, de certa forma um pensamento da necessidade e não das causas e essências. Como que um recurso alarmista, uma tecnologia do pensamento que calcula, o mesmo pensamento que descobriu as tecnologias que hoje põem em risco a sobrevivência da espécie. A sustentabilidade é essa via da urgência. De certa forma é uma perda. A perda que Heidegger assinalava como a nossa cada vez maior incapacidade de pensar.
Ainda que pertinentes, este tipo de críticas, encerram em si o perigo de conduzir a arquitectura ao beco sem saída; um método de cálculo da eficiência ambiental, julgando-a, à arquitectura, não pelo que de conhecimento e humanidade acrescenta à própria humanidade, mas apenas pela eficiência tecnológica.

A forma de Libeskind não ajuda nada. E a grande falha nem será a dos recursos que uma obra destas consumirá. Mas mais a irrelevância do paralelepípedo de vidro torcido debaixo do sol dos trópicos. Sem invenção para além da patrocinada por muitos dólares emergentes. Sem qualquer imposição crítica ao mundo que esse paralelepípedo inventa. Apenas a repetição da repetição da repetição da repetição de coisas tantas vezes vistas. Uma distopia das imagens. Um dos valores das sociedades que a elas anseiam aceder como padrão da contemporaneidade.


opinião pública


[Sforzinda, Filarete, 1464]


Não que o escrutínio da opinião pública seja essencial ou decisivo, mas é relevantíssimo para qualquer prática artística, científica ou política. Quer por da sociedade decorrer alguma da legitimidade moral que sustenta essas práticas, quer pelos efeitos dessas práticas no seio da comunidade.
Se tudo correr bem, do acordar ao deitar, somos rodeados por arquitectura. Porque também uma prática social, por ocupar cada vez mais indivíduos no seu cada vez mais complexo processo de produção, por consumir recursos cada vez mais vastos, muitos deles património comum, a sua acção é sensível a qualquer indivíduo. A arquitectura adquire maior visibilidade, literalmente, por ser inescapável.
Ainda para mais numa época em que a arquitectura se torna refém de sistemas (pouco) éticos, (ainda menos) estéticos, que se representam na aparência da democracia mediática, é de todo o interesse dos arquitectos ouvirem não apenas os pares e/ou privilegiados clientes, mas uma, ainda que frágil e esparsa, opinião pública. Foi assim que li O elogio de um arquitecto, de Carlos do Carmo Carapinha.
Por não provir de alguém da corporação, por apresentar argumentos eruditos e ilustrados no conhecimento genérico da História recente da disciplina e, sobretudo, por o texto encerrar os paradoxos com que a disciplina se debate ao tentar-se explicar à sociedade. E não me refiro ao erro inicial de atribuir à arte (pintura, escultura) o estatuto supérfluo [luxos?] que faria as delícias da, também ela muito discutível, tese freudiana que deduz a produção artística de uma pueril sublimação do indivíduo sob efeitos do mal-estar na civilização.
Convém assinalar que em estopa de fundo do texto está uma clara confusão entre o que é arquitectura e construção. É que se a arquitectura é, também, construção, o contrário nem sempre é verdade. Muito poucas vezes, até. São palavras do autor que o confirma quando invoca o percurso por Telheiras (ou Massamá); ou quando observa, ao longe, a arquitectura de certos dormitórios das zonas metropolitanas de Lisboa e Porto, certamente inspirados na arquitectura do Leste Europeu (triste, deprimente, monocórdica, condenada a uma decadência indigente), por sua vez filha (bastarda?) do modernismo do Sr. Corbusier ou do Sr. Gropius; ou quando observa os blocos habitacionais em Brasília, inspirados pela «ideologia» do planeamento urbano, forjada na Carta de Atenas de 1933. Não que não paire o espectro destes arquitectos sobre as paisagens que o texto descreve: ecos distantes e distorcidos; adaptações incultas; citações equivocadas; imagens deslumbradas; mas sobretudo o ‘espírito do tempo’, o científico, que decide a maioria das opções culturais do último século, espírito do qual a arquitectura foi, em determinada circunstância, a modernista, uma poderosa força propagandista - mas ainda que muitos os deméritos, insuficiências e inadequações dos modernos, pelo menos propôs-se devolver, pela arquitectura, e pela primeira vez na História, a felicidade a todos os indivíduos. Provavelmente estas paisagens terão pouco do contributo dos arquitectos e quando isso suceda, não esqueçamos, é um contributo escrutinado pelo poder político, via autarquias, por exemplo, logo, e pelo menos desde 1974, em Portugal, para me reportar directamente à realidade que o texto reclama, legitimado pelo regime democrático. Correndo o riso de apresentar um argumento que possa se lido à luz de um mero e egoísta interesse corporativo, e desconhecendo o rigor dos números, creio andar à roda dos 10% o volume de construção, em Portugal, que tenha, de facto, feito uso de arquitectos. Não será, portanto, essencialmente da culpa dos arquitectos ou da arquitectura o caos em que se encontra as nossas cidades.

Nesta atmosfera, justificável, de desconfiança em que foi lavrado o texto, mais desconfiança me levanta o exemplo de boa prática de que o Carlos do Carmo Carapinha se socorre para nos apresentar uma possível redenção dos arquitectos e da arquitectura. Não porque seja João Maria Trindade, ou a arquitectura de João Maria Trindade, mas porque é esta uma prática que recusa a divergência [cito o Pedro Machado Costa] de uma genealogia que tem trazido, em muito, a arquitectura aos impasses indiciados no texto.
Grosseiramente, o que distinguirá o trabalho de João Maria Trindade do de Falcão Campos, do dos Aires Mateus, do de Inês Lobo, do de Bak Gordon, do de Gonçalo Byrne, do de Carrilho da Graça, (e das réplicas, ressonâncias, ecos, distorções, citações, espalhadas pelo território em temerosas paredes brancas clean), apenas para irmos directamente à realidade, a produção portuguesa hediorna, que o post induz? Não que estes não sejam nomes que não tragam novas luzes, ou indícios, ao problema da arquitectura. Não que não sejam arquitectos que reflictam ponderada e sofisticadamente sobre os temas que, livre e legitimamente, escolhem. A dúvida é se esses temas serão, ao fim de contas, os mais relevantes para responderem com mais precisão e força às questões que Carlos do Carmo Carapinha sugere.
Não discuto as afinidades electivas, legítimas, repito, dos arquitectos acima referidos. O que discuto é a capacidade dessas arquitecturas apresentarem e representarem outro mundo que o do design autoritário e asséptico, desligado de significados e articulações à realidade, numa autoreferência infinita à cada vez mais ensimesmada arquitectura que reverencia indulgentemente os nomes modernos que o texto fustiga. Eis o paradoxo.

Desconheço a obra de Auberon Waugh, tão pouco de que pressupostos se lança para lançar essa boutade. Arrisco até que se inscreva numa tradição que Scruton e o mais mediático e superficial de Botton reivindicam: a de uma nostalgia que recusa, por medo ou insegurança ou cautela ou parcimónia, enfrentar a galáxia de problemas que se levantam sobre as cidades e as arquitecturas, para lá do refúgio acolhedor e melancólico do country side.
Em todo o caso, não se recusa, tanto aos nostálgicos, como aos arquitectos aqui ditos, pelo menos, a tentação da beleza. Ainda que insuficiente e consequente de valores tíbios.






foreign legion


Jardim de Alá, Rio de Janeiro

Atender à toponímia é achar uma síntese de um lugar. História, Geografia, crenças, mitos, uma realidade mais ou menos opaca, lenta, de acordo com a linguagem, usos e desusos, de uma comunidade. Como arqueologia, desocultar significados em ruas e travessas e passos que muitos outros antes gastaram.
Eventualmente a História, dos testemunhos escritos, não bastará. Nem a Geografia –recorrente prefixo dos caminhos - dos acidentes naturais e humanos. Ainda menos a Filologia e a interpretação objectiva dos étimos. Talvez isso tudo isso e o entendimento do nome de uma rua ou praça como transmissão do valores inerentes a uma comunidade. Uma memória, claro.
Ao atravessar de Ipanema ao Leblon, passar pelo Jardim de Alá, sobre o canal, um europeu treinado em pedras antigas e muitas já gastas e sem significado reconhecível, pensará em exílios e comunidades expatriadas, libaneses e sírios vindos para o Novo Mundo em fuga ou em demanda, e a demarcação simbólica e identitária das diferenças e das crenças.
Mas talvez a História seja matéria mais prosaica.
Saber que o Jardim de Alá é a memória de uma outra deusa - de carne -, Marlene Dietrich que, no deserto berbere, recolhia segredos do amante, depois dos espanto inicial, é o reconhecimento de uma outra liberdade. Da que se constrói onde antes, há pouco mais de oitenta anos, não existia o elemento humano (urbano).
Uma maneira da liberdade, a deste nomear, que ainda custa a entender.

história contra-factual#2


[Bombardeamento e incêndio na Catedral de Reims, 19 Setembro 1914]


Dizer que se não tivesse ocorrido o Renascimento, o preciso instante em que o arquitecto passou a ser um cavalheiro ao deixar talhar a pedra com as mãos, pode querer dizer que não passaríamos aqui. A abstracção aguda, absurda, que começou ao deixar, o arquitecto, de estar na/em obra.
Tão absurda como querer conduzir a arquitectura à invisibilidade: o reflexo do tudo que pode ser tudo e, no fim, é o nada.



novo mundo#2

[Elevador liga a favela ao asfalto, Rua Barão da Torre, Ipanema, Rio de Janeiro]

Enquanto aqui embaixo a indefinição é o regime
E dançamos com uma graça cujo segredo
Nem eu mesmo sei
Entre a delícia e a desgraça
Entre o monstruoso e o sublime

[Americanos, Caetano Veloso, 1992]


Uma das hipóteses que coloco após a semana de «guerra» que o Rio de Janeiro viveu, é a da ineficácia da arquitectura em instruir respostas às formas de espaço e território e paisagem e sociedade que se ergueram fora do alcance da disciplina. Estas, obliteradas pelo cânone escolar, académico, científico, teórico e prático, (que adquiriu contornos de esquizofreniacom a actualização ao segundo via web), quero dizer, a falta de adesão da arquitectura à realidade. E a esta questão, algures uma académica me respondeu com Koolhaas, o espaço fluído por ele teorizado, fora do alcance do que os modernistas poderiam ter pensado, e a cidade espontânea e genérica, por exemplo.
Naturalmente que esta resposta não satisfaz. Talvez estes modelos sirvam ao desiderato contemporâneo da originalidade e novidade. E a citação a Koolhaas fará até sentido a partir do ponto de vista de quem afere o mundo pela capacidade de consumo de cada indivíduo, et pour cause, uma resposta conhecedora da mecânica da sociedade hiper-mediatizada e que daí extrai as vantagens à sua própria divulgação. Mas as dúvidas maiores sugerem-me se tais respostas sirvam, de facto, à avassaladora condição urbana planetária. Como se a arquitectura, por medo ou arrogância, entrincheirada na academia e em premissas obsoletas, se esquecesse do seu original propósito: construir um belo abrigo para o Homem.
E nesta hipótese de demissão da arquitectura, a partir da experiência do Rio de Janeiro em semana de «guerra», repito (e o termo é equívoco, claro), reconhece-se uma ténue luz que decorre directamente da política. Aquilo que a disciplina se recusa a pensar, a política, via Beltrame, tenta propor: respostas integradas, ainda que frágeis, a uma cidade livre, em que todo o cidadão o é por direito democrático e com todos os direitos de dignidade consequentes.

Talvez fosse uma ideia a arquitectura desaprender para voltar a aprender, citando Clarice. Esquecer os padrões do bom gosto que originam casas iguais na 5ª Av., no Boulevard de Saint Germain, em Belgravia, no Leblon ou na Quinta Patiño. Erradicar o preconceito escolástico que reduz à indigência o que é inventado pelo vigor e vontade de quem é excluído das baias do bom gosto educado e que conduz a arquitectura ao ensimesmamento e que reduz à condição, pobre, de objecto aquilo que vai, esquizofrenicamente, produzindo.