em 1936 Le Corbusier viaja até ao Rio de Janeiro para algumas lições de arquitectura





em voo transatlântico a bordo do Graf Zeppelin. This is the glamorous life there's no time for fooling around.

sobre a adesão da cidade aos princípios do modernismo


[Eat Me: a Gula ou a Luxúria?, Lígia Pape, 1976]

Na época nós todos estávamos convencidos que essa nova arquitetura que estávamos fazendo essa nova abordagem, era uma coisa ligada à renovação social. Parecia que o mundo, a sociedade nova, a arquitetura nova eram coisas gêmeas, uma coisa vinculada à outra.


Lúcio Costa, 1987

from main street to wall street


[IAC Building, Frank Gehry, 2007 + 100 10th Residences, Jean Nouvel, 2010]


Poder-se-á acompanhar o roteiro de Charles Jenks na interpretação do que seja um edifício icónico: um signo que se dilui naquilo que ele próprio representa sem perda do que o torna único; forma que na sua singularidade e diferença é também metafórica do seu entorno (cultural).
O aparato crítico da obra de Oliver Stone detém-se em muitos dos ícones que construíram a cultura americana de massas - e global -  do pós-guerra. Não serão, portanto, casuais, aleatórios e inocentes os planos em Wall Street: Money Never Sleeps que sobrevoam em olho de pássaro o IAC Building de Frank Gehry e o vizinho 100 10th Residences de Jean Nouvel.

O que é que a arquitectura se propõe criticar?

estética restritiva


Rua de Santa Luzia, Rio de Janeiro

Falar a mesma língua e não falar a mesma linguagem. Uma primeira perplexidade ao olhar de um estrangeiro indisciplinado releva dos incontáveis contrastes. E se já vínhamos avisados pelo cliché à volta de uma sociedade contrastante mas diversa, os contrastes revelam-se mais subtis e mais lentos. Mas não menos violentos. Por exemplo a(s) arquitectura(s).
As imagens construídas e mitificadas de um modernismo tropical que influenciara o curso da História da disciplina no curso do séc. XX revelam-se cruelmente irreais. Se a cada esquina e em cada quadra se denunciam princípios que tenham decorrido do Vers Une Architecture, os mesmos manifestam-se de modo canhestro, desajeitado, quando não ideologicamente perversamente interpretados. Mas ainda assim, e percebe-se no uso da linguagem corrente na cidade, termos como pilotis ou brise soleil são reconhecidos e usados não apenas por camadas ilustradas na disciplina, mas por classes – o discurso classista é aqui uma evidência - aparentemente menos versadas num discurso disciplinar. Vocábulos iminentemente técnicos, de uso restringido aos arquitectos, são aqui quase vox populi.

Uma primeira tentação e intuição, e no desconhecimento dos factos, é atribuir esta disseminação lexical ao combate público que terá sido o transplante da capitalidade do Rio de Janeiro para Brasília. Ou de como a invenção de uma cidade – talvez ainda não uma cidade, talvez por enquanto um parque temático de negócios e política, que é Brasília – foi anunciada e negociada em espaço público, e de como esse debate fez verter para a linguagem comum termos que à época seriam os da vanguarda disciplinar. Em certo sentido, isto é o concretizar de uma das vias da utopia modernista: a democratização da arquitectura e, radicalizando, a inclusão do cliente – não enquanto indivíduo, mas enquanto classe – no próprio debate do projecto.

Mas se grande parte das arquitecturas são sustentadas por pilotis o que se lhe apõe é a violência dos gradeamentos. O chão solto, livre, solo de todas as possibilidades, proporcionadas pela ideia modernista – devidamente zonada, claro – é violentamente interrompido pelas grades metálicas. E como que para mitigar essa crueldade consequência do terror que vem de cima, da favela, o gradeamento, que se manifesta como se fora o embasamento corrido de todos os edifício de todas as ruas, é executado em grossos perfis de secção circular em alumínio castanho. A liberdade radical outrora sonhada, esmagada às mãos do serralheiro que viu o seu negócio prosperar à sombra da violência e do medo que se foram instalando. A casa é cercada, a rua é sitiada.
O regresso da rua, por contraste com o chão livre e cartesianamente infinito para o qual os edifícios teriam sido pensados, é feito não pela via ideológica e da revisão do cânone da Carta de Atenas, mas pelo corte abrupto e ensanguentado com o mito do bom selvagem que, ironia da história das ideias, terá sido formulado a partir dos primeiros relatos que chegaram à Europa do acolhimento, amabilidade, convivialidade, das civilizações aqui encontradas, em São Sebastião do Rio de Janeiro.

Rua Visconde de Pirajá, Rio de Janeiro

a beleza que existe*



Flanar por Ipanema é um exercício contraditório: à contemplação do desastre arquitectónico – isole-se cada edifíco, objecto, e ter-se-á uma ideia aproximada do que possa ser o provincianismo em arquitectura - à excepção de um ou outro, escassíssimos, exemplares dos gloriosos anos do modernismo desenvolvimentista á la JK.
Pese embora o conjunto sugerir a imagem de uma cidade cosmopolita (e icónica), o cosmopolitismo deste bairro reveste-se de outro carácter que não o do construído. E inscreve-se no corpo de quem passa.
A canção não canta um mito. Celebra a realidade. As belezas naturais excedem largamente as que descreve Jean de Léry no seu relato de 1578. E já não falamos da envergadura granítica dos morros que se erguem a cada direcção do olhar, nem do exuberante coberto vegetal.

E por paradoxo, o Rio de Janeiro jamais será uma cidade feminina. O paradoxo carioca reside numa querela tumultuosa entre aquilo que Le Corbusier acusou em Niemeyer e no seu desenho arquitectónico – a curva sensual elegante e feminina, vertida da geografia, do skyline – e o carácter vigoroso da rocha granítica que sustenta a curva do céu.
E tudo se erotiza. A começar pelo discurso.


*Tom Jobim, Vinicius de Moraes

ipanema do mundo




A minha interferência nas composições alegóricas se conduz às vezes premeditadamente, às vezes consoante às oferecidas circunstâncias. Exercito-me em variáveis ocasiões, solícito em captar as oportunas e já quase expostas alegorias; em alguns painéis faltando apenas que eu me desloque de um lugar a outro, que o meu olhar introduza ou dispense mais um elemento disponível. Portanto, invisto-me no papel de existenciador que se obstina em tornar, no mínimo, frequente, a liberdade da cenografia externa no tocante à criatividade minha, que as envolve. A vida ocular é um passeio aliciante, no decurso do qual, à proporção que existencio o elenco dos atores, de imediato, se a situação o permite, lhe inoculo a significação que têm em minha incomensurável peça. Em muitos ensejos, demoro-me a assimilar o espontâneo do desempenho, mas ressalto que os intérpretes foram nascidos para o advento na existencialidade que lhes propicio, em mim, comigo. Tais efígies, em retábulos que confessam a minha ótica, as registrei ao longo dos livros sobre a ordem fisionômica, designando-os por meio de simples letras, o que expressa, antes de tudo, o significado de havê-las na condição de atores em anonimato, isto é, de vultos em trânsito para o perdimento; anoto-as possuídas da destinação de se extinguirem em mim, comigo, o que representa a extinção absoluta. Facilitada pelo movimento e pela temporalidade – os mais prestimosos auxiliares na elaboração de alegorias – facilitada por agentes tão solícitos, a minha lente mais se vê unificada, em solidão infalível, com as respostas das presenças em relação à ausência a que se dirigem em mim, comigo.


[A Artisticidade do Ser, Evaldo Coutinho, 1987]

a que distância deixaste o coração [interlúdio]



Coisas tão felizes

Entre amigo e amigo
jamais se afastam
coisas tão felizes:
os instantâneos silêncios de certas formas
os protestos inocentes à nossa passagem
a natureza fortuita, dizia eu
imortal, dizias tu
do vento?





A voz solitária do homem

Há palavras que escrevemos mais depressa
o terror dessas palavras derruba
o passado dos homens
são tão pouco: vestígios, índices, poeira
mas nada lhes é desconhecido
as horas em que vigiamos o escuro
os sítios nenhuns das imagens
a ligeira mudança que resgataria
o abandono, todo o abandono





Da verdade do amor

Da verdade do amor se meditam
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito


pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados


não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce
sem rumor



Sobre um improviso de John Coltrane

Ainda espero o amor
como no ringue o lutador caído
espera a sala vazia


primeiro vive-se e não se pensa em nada
não me digam a mim
com o tempo apenas se consegue
chegar aos degraus da frente:
é didícil
é cada vez mais difícil entrar em casa


não discuto o que fizeram de nós estes anos
a verdade é de outra importância
mas hoje anuncio que me despeço
à procura de um país de árvores


e ainda se me deixo ficar
um pouco além do razoável
não ouvem? O amor é um cordeiro
que grita abraçado à minha canção


[Baldios, José Tolentino Mendonça]



Sobre a reedição de um livro. Sobre a amizade. Sobre um homem. Sobre Lisboa. Sobre o que se deixa para trás. Sobre o mar que se estende em frente. Sobre o que se esquece. Sobre o que nunca se esquece. Sobre o que se encontra e rapidamente esquece. Sobre uma cidade velha e uma cidade nova. Sobre o encontro. Sobre o desencontro. Sobre a água. Sobre o pão. Sobre o caminho. Sobre o Tejo que aqui vem dar.
Todos os dias.

herança


[Ministério da Educação e Cultura, Le Corbusier, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Rio de Janeiro, 1929]


- O Capanema será um centro de referência do Brasil no século XX. Um aspecto importante disso tudo é a falta de experiência na conservação dos edifícios modernos brasileiros. A gente está acostumado com os edifícios coloniais, do século XVIII e XIX, mas ainda tem pouca prática com os edifícios modernos. Estamos aprendendo a fazer. Reformar o Capanema é um desafio diferente de uma igreja do século XVIII. Não há essa cultura de preservação, e pretendemos mudar isso a partir de agora - afirma Almeida.

dopo l'architettura moderna


[Alvorada, Tobias Putrih, 2010]

29ª Bienal de São Paulo

tristes trópicos


Av. Epitácio Pessoa, 2480, Rio de Janeiro

linha vermelha


Linha Vermelha

A cidade, o corpo, nos músculos, nas artérias, nos bairros, no sangue, no latejar da veia prestes a rebentar. É contraditória a sobreposição de cidades no mesmo lugar. A cidade natural rasgada pela espinha da cidade artificial [Christopher Alexander]. E se a cidade orgânica, se vai justapondo e construindo pela medida do tempo da urgência, a via inventada para trafegabilidade, acessibilidade, abre a carne de onde explode o sangue.
A intensidade da luz crepuscular azul vermelho laranja amarelo verde fluorescente, pontos, fragmentos, mosaicos improvisados tijolos adaptados desmaiados que se estendem pelo território linear da auto-estrada. Non-Lieux, trágica ironia: a via como lugar de terror de violência do medo da morte?

A cidade natural que come a cidade artificial que expele a carne. Vive dela, vomita-a. A cidade artificial que se socorre da velocidade, dos olhos fechados irracionais, para fugir do pânico e da natureza humana onde cresce. O veloz movimento com que a cidade artificial se escapa pela via é arrebatado pela velocidade com que a cidade natural explode implode cresce desloca territorializa desterritorializa sem cessar. O projecto contra o não-projecto. [Descartes contra Deleuze contra o corpo.] O tempo fixo no desenho contra a invenção i-desenhável que se desdobra pelo tempo e necessidade. Le Corbusier é um cadáver às mãos dos traficantes sem outro prazer que o do instante e do sangue.

Há uma luta dura que tudo faz exceder sem nunca nada fazer sobrar. Tão severa como uma memória nova que se não quer transportar.

visconde pirajá, 572




Seul et parfois même accompagné
(...)
D'aphrodites et de Salomés.

expansão


[Edifício Verde Mar - arquitecto Artacho Jurado, Hans Gunter Flieg, 1958]


[Mercedes-Benz do Brasil - show room arquitecto Henry Maluf, Hans Gunter Flieg, 1960]

Notícias da expansão de um país, como Julius Shulman nos trouxe o moderno via California lifestyle.

psicoTRÓPICOS


[Estética da ginga - A arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica, Paola Berenstein Jacques, 2007]

Pode até ser romântica, sentimental, esta proposta de pensar a favela, a arquitectura da favela e a sua relação com a cidade de baixo, a partir dos movimentos do samba e da dança, no movimento contorcionado que ocorre quando se percorre a favela. A aproximação à obra de Hélio Oiticica como construção de uma teoria arquitectónica, a partir dos acontecimentos [cf. Deleuze/Guatari e o acontecimento como o que faz actuar o pensamento] do abrigo fragmento, favela labirinto, cidade rizoma, e como construção de um pensamento e de um conceito da cidade que escapa aos códigos binários do que é ou não é arquitectura, do que é ou não é cidade, sugere, antes de tudo a riqueza do mundo que foge do cânone erudito das arquitecturas e das formas cultas com que se pensa a arquitectura e as cidades. (Ou o cânone da especulação.)
A ordem é pensar e procurar pensável o imprevisto, o rasgo da necessidade e da urgência, a recolha dos materiais incoerentes, a precariedade, a heterotopia do arquitecto, o objecto anti-projecto.



[Arquitetura kitsch: suburbana e rural, Dinah Guimaraens, Lauro Cavalcanti, 1979]

Ocorreu-me o trabalho de Manuel Graça Dias à volta da casa do emigrante, o encontro com Arquitetura Kitsh. Há pelo menos a coincidência de trazer ao domínio da arte e da arquitectura o papel que a cultura de massas joga na construção do real. Que, sabemos, é mais vasto que a teoria e o desenho do arquitecto:  o desejo.

história contra-factual


Le Corbusier


Ministério da Educação e Cultura, Le Corbusier






[Ministério da Educação e Cultura, Le Corbusier, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Rio de Janeiro, 1929]

São por demais conhecidas as consequências das cinco semanas passadas por Le Corbusier, em 1929, no Rio de Janeiro. Mais que à cidade, evidentemente, foi o próprio modernismo corbusiano que sofreu uma inflexão. Talvez não tivesse havido Notre Dame de Ronchamp sem o Rio de Janeiro, atrevo-me. E talvez não tivesse existido Niemeyer (e Lúcio Costa, ou ao contrário) se estas cinco semanas em 1929 não tivessem acontecido. E talvez o resto da História conhecida fosse outro.Talvez.

cotidiano#7


[Parece que sim, Waltércio Caldas, 2010]

Seria solto do corpo então se se confirmassem alguns rumores da filosofia e se alguma da arte não se apresentasse na sua falência. Uma rua ou uma cidade ou o mundo não é sem o que no tempo se foi inscrevendo na carne do corpo. Ainda que ele próprio seja falência diante do que se desconhece. Derivar, à luz de um corpo e de uma cidade, seria uma hipótese de liberdade dentro daquilo que se conhece.
A suspensão é impossível, apesar de tudo, dentro do que se não conhece. A psicogeografia responde apenas pelo desejo do que se conhece. É irremediavelmente irrelevante no território que se estende ainda i-nomeado.

rua do mundo#2


Provavelmente o moderno, e essa disciplina que inventa, o urbanismo, convoca a ideia de disciplinar o mundo. Labirinto, desejo, sombra, recato, são hipóteses excluídas do empreendimento racionalista. Uma cidade na América nasce já moderna. E a tentação totalitária da razão é contradita pela geografia insubmissa ao desígnio humano.
É necessário o tempo e o uso, a atenção dos arquitectos construtores, para verificação do espaço que cada indivíduo para si reivindica na cidade. Atender às marcas na relva.

rua do mundo



A liberdade é a possibilidade do isolamento. [Fernando Pessoa] É pesada possibilidade: acto contínuo, perdido perder-se, é entrar nela a cada passo um pouco mais. E só aí, numa rua de sombra e de água, poder depois encontrar o outro. O amor?

respigador


[Verme, Nuno Ramos, 2010]

Muitas caipirinhas depois, dentro do táxi, sou avisado que ia em sentido contrário. Vinha caminhando por uma praia que me pareceu sem fim, um túnel ocre amarelo gasto abafado intoxicado deserto, a agora, também perigoso, o mar era só um rumor ruidoso e o casario parecia-me desorganizado, tanto quanto o mundo pode parecer organizado a quem não tem horas nem posição no mundo, e até a verticalidade parece difícil, e aquilo poderia até ser uma favela, pela sobreposição caótica das luzes.
Sem lenço sem documento sem conhecimento, o mapa é a noite que passa e o álcool e a cidade que nasce de todas essas imensas escuridões.
Malcolm Lowry de segunda, respigador dos excessos de um bar aberto, construo a cidade, construo-me, em aproximações ao que existe. A perda é condição da liberdade: guardar a solidão como honra e glória da descoberta do que se não conhece. Os limites, guardam-se para os assuntos do dia, para o desencontro das coisas que se acham na noite. Que existem.

cotidiano#6


de sol a sol
soldado
de sal a sal
salgado
de sova a sova
sovado
de suco a suco
sugado
de sono a sono
sonado

sangrado
de sangue a sangue



[Haroldo Campos]

cotidiano#5


O lápis, o esquadro, o papel;
o desenho, o projeto, o número:
o engenheiro pensa o mundo justo,
mundo que nenhum véu encobre



[João Cabral de Melo Neto]

cotidiano#4


Ao andar pelas ruas,
te vejo
em todos os lugares.




[Pelas Ruas, António Cícero]

cotidiano#3


Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.

Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade
- essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.



[A Lucidez Perigosa, Clarice Lispector]

cotidiano#2


Aquele que aproxima os que sempre estarão
distantes e desunidos
e separa os que pareceriam
para sempre unidos e semelhantes
enxuga meus olhos
no alto da noite de mil direções.
Encostada a seu peito,
contemplo desfigurada
o negro curso da vida
como, um dia,
do alto de uma fortaleza
vi a solidão das pedras milenares
que desciam por suas arruinadas vertentes.




[Aquele que Aproxima os que Sempre Estarão, Cecília Meireles]

cotidiano


Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego



Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido

Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado


[Construção, Chico Buarque]

água disciplinada


[Pinturas e Platibandas, Anna Mariani, 1987]

Se um dos trabalhos da arquitectura será o disciplinar do curso da água, a invenção é, depois, tornar bela, aprazível aos olhos, a violência dessa dominação. Se o não fosse, o belo sem a mecânica funcionalista, seríamos engenheiros hidráulicos.

entrevista a Anna Mariani

deriva


No desconhecimento, todas as ruas afiguram-se o limite da cidade. Como construir escolher andar guiado pela cartografia da ignorância ou do medo? Qual a conveniência da memória, dos factos, das recordações?




Sou o homem-bomba voluntário, sem paraíso prometido, para explodir de vez esta soma de vozes, hierarquizada em intervalos (oitavas, quartas, terças), com o único eco, bum, da minha solidão - vocês ouvem seu ruído espantoso? o deslocamento de ar? os carros incendiados, os pedaços de carne humana, o sangue no asfalto, nas paredes? Outra solidão se vingará.

[Homem-bomba in O Mau Vidraceiro, Nuno Ramos, 2010]

outro do outro do outro


[Espaço na Entrelinhas, Fred Sandback]

Da solidez das coisas precárias, dos passos em volta do meio das coisas, da descoberta da margem onde ninguém me espera.
[foi matéria da exaltação dos espelhos (em que nos vimos) matemáticos loucos escandalosamente iguais nos reflexos, então, inexplicáveis]

no alto de santa catarina (a ver navios)


O ouro brasileiro não modificaria, porém, certas estruturas e atrasos resultantes da conjuntura local. Em Portugal, tudo quanto exigisse maior técnica era importado, uma vez que sua manufatura era pouco desenvolvida. No início do século XIII comprou-se até roupa velha, não obstante a indignação da Câmara de Lisboa, que reagia dizendo que as casacas, camisas e lençóis poderiam ter pertencido a tísicos e leprosos. A cidade de Lisboa estava inundada por produtos do exterior e a voga, que começara com as elites, chegava inclusive aos gostos populares. Os portugueses buscavam mais e mais viver e se vestir à europeia, costume que não levava a um incremento imediato nas técnicas de produção. Isto é, o mercantilismo, política económica que visava manter uma balança superavitária, estava longe de ser uma realidade em terras lusas.
O dinheiro fácil tampouco alterava os costumes.





[A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis, Lilia Moritz Schwarcz, 2002]

south american caffee


[Cidade, Rio de Janeiro]

A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. […] Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da ‘ideia de Europa.

George Steiner, A Ideia de Europa


É a cartografia da perplexidade que não se encontra na Cidade. O café, ainda antes do encontro marcado, o espaço e o tempo fora do mundo da rua – ainda que nas esplanadas de Paris ou na Pç. das Flores em Lisboa – arredado do movimento fundamental, em frente, das calçadas desajeitadas da Cidade. Pedra portuguesa arrancada ou toscamente executada, lajes de betão poroso partidas, outras refeitas, granito escuro duro perene talhado da idade jovem da política velha do país, não importa o desalinho do caminho, importa caminhar. Andar em frente imperativo da condição do fazer.
E se a hipótese de Steinar é viável, se foi no confronto sobre as mesas do café que cresceu a política a arte a filosofia, da vita contemplativa de Hannah Arendt aqui o salto é alto para a veloz e voraz vita activa imperativa. Fazer uma cidade, construir um país, erguer uma identidade, esforço exigente que permite um instante de descanso, um frugal alimento, em pé, no botequim, essa invenção do português que saiu, uma esquina trabalhada de um qualquer edifício. Ou então a pausa que resta do cotidiano duro e cansado.

E disto, talvez seja um excesso a aproximação ao que desconheço pelo contorno em negativo do que conheço.

reconciliação:




[Catedral do Rio de Janeiro, Oscar Niemeyer, 1979]

Do interior encontrar as perguntas certas do exterior. E talvez a necessidade de outro continente na necessidade de impor as certas perguntas.
Uma outra nova origem das coisas, debaixo dos mesmos olhos velhos.
E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento
Sigo mais sozinho caminhando contra o vento

interiores


Sérgio Rodrigues

um lugar no mundo#4

ii.


1

ó neste autocarro, um continente, amar-te
eternamente. quero dizer: viajar
é ser penetrado pelo sempre presente
sentimento das coisas
precocemente duradouras.
assim o teu nome, e os teus olhos
de precário vidro,
e os botões de camisa esvoaçando.
logo a cidade nos alcança. agora
mergulhados em árvores no meio
de um continente
envelhecemos.


4

português quando chega compra garrafa,
compra e vende garrafa, logo
abre um barzinho no Rio.
o Brasil é uma coisa
genital.
só há aviador por aqui.
conhece mundo, sabe avaliar
plantação de pimenta,
seu merecimento é grande.
japonês todo em carro.
português quando chega,
já sabe de comércio
e de navio.


[Visitação, António Franco Alexandre]

recolhes e esqueces e
derivas por
entre acasos (inventados)
que desconheces
sem antes sem
depois
um desígnio instituído instantâneo
que te designa
completa voraz
incompletude
(sem antes sem depois)
dissidente das coisas a que pertences

uma aprendizagem


[Rua do Catete, Rio de Janeiro]

Aprender. Esperar.
Aprender um país, esperar uma cidade, desejar uma mulher, aprender um nome, aprender a esperar. Aprender a rezar a cada passo trocado falhado.
Olhar a mulher cansada bêbada farta de esperar a esperar um nome que não regressa. Um nome que se despenha do alto do morro, um nome que se recolhe pelas ruas da cidade, um nome que se vai juntando nas mãos como fizeram os construtores inadvertidos do alto da montanha. Pedaço de nome roubado, pedaço de nome recolhido, pedaço de nome encontrado, pedaço de nome indeciso, pedaço de nome indecidido.
Construtores ou arquitectos? Construir como rezar, são os arquitectos da urgência dos elementos. E é tão pouco o necessário à necessidade: um pedaço de pano, uma mão-cheia de cimento, uns poucos tijolos: as mãos.
Lóri apartada da cidade na cidade aprendia a esperar. Lóri à sombra do Jardim Botânico esperava Ulisses que aprendia o poema e a filosofia e a esperança que não sabia.
Do alto, construtores arquitectos esqueciam o esperar enquanto as suas mãos aprendiam o conhecimento dos tijolos sobrepostos em desenho impensado, o não-desenhado bastante ao abrigo.
Construtores não-arquitectos encarregues da protecção da noite e da vigilância aos elementos, trabalhadores incansáveis das mãos imprevidentes, inventores do nada quase suficiente.
Precários, primitivos, atentos aos restos cá de baixo, operários das sobras, oficiais das sombras, outras formas construídas achadas sem um tempo para o fim. Dentro da recomposição inesperada, dissidentes de um projecto sem prazo estipulado.
Ulisses rasgou os poemas quando colidiu com o corpo de Lóri.

um lugar no mundo#3

Rasurar o mapa e mergulhar na multidão. Cidade, City, Downtown, Baixa, Rio de Janeiro, Londres, Nova Iorque, Lisboa. Interpela-nos a multiplicidade, sei-o clichet, mas é a diversidade. Wall Street funde-se confunde-se com a main street, as lojas da 5ª Avenida com as da Almirante Reis, Luanda e o Golfo da Guiné – via Salvador e a História contada em português – com as tribos da floresta impenetrável. E falou-se sábado à noite dessa possibilidade única, e Histórica, de um reconhecimento do mundo, em português, pela miscigenação: cada um é um, no seu estatuto ontológico, dito nomeado em português do verbo ser e do estar, e por ser e por estar se uma hipótese provável e possível para uma nova filosofia pós-heideggeriana?


Rasurar o mapa do conhecimento, todas as possibilidades são maiores no não conhecer: um edifício baptizado Oscar Niemeyer que, com certeza, se o souber, o abjurará, no seu monumentalismo para-fascista, longe do desejo imenso da liberdade da elegante e infinita curva niemeyriana; Le Corbusier aqui, daqui, detestava a Baía da Guanabara, como detestava Manhattan, como não contava com o indivíduo e a sua irrazoabilidade, na infinita utopia cartesiana – Le Corbusier terá saído de 30 dias daqui a pensar noutra techné que não a da razão; Oscar Niemeyer emulado em brise-soleil repetitivos e burocráticos, como perplexidade diante do estatuto da obra arquitectónica na era da reprodução técnica; calcário importado no embasamento do clube dos empresário, a ostentação do poder sobre o solo antigo de granito; homens graves de fato vincado e gravata italiana, a calcular o optimismo do Brasil BRIC, um mulato de terno tropicalmente aprumado, descamisados cobertos de camisolas do Flamengo, mulheres bonitas e tristes; a boca do metro dentro de um mercado de produtos hip-hop, tanto quanto uma t-shirt do Barcelona FC ao som ruidoso de Beyoncé; edifícios do capitalismo concreto, monumentais monólitos na era i’m a whore Phillip Johnson Sony Building, igrejas coloniais, blibliotecas reais – D. João VI fez embarcar os livros e o prazer e a loucura; viadutos barreira amplificadores do ruído ensurdecedor das máquinas portuárias.

Rasurar o mapa é nem sequer desejar ter mapa. Um passo em frente, outro errado, da larga Av. Presidente Vargas – um ditador adorado? – ao lado a favela. Rasurar o mapa é o melhor. E construir um caminho como os construtores das favelas: recolher reconhecer roubar a matéria e as sobras das cidades e da vida, sem projecto, logo sem um tempo de um fim.

Rasurar o mapa: vibração distorção.

intimidade


[Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Lúcio Costa, 1956/1968]

Reconhecer a dócil curva da intimidade sob o pesado betão silencioso e optimista da modernidade.

FÁBRICA DO POEMA

In memoriam Donna Lina Bo Bardi

sonho o poema de arquitectura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa
palavra por palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das
britas
e leite de pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por
fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do
vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera
sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos
moucos, assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-se os dedos estarrecidos.

sinédoques, catacreses,
metonímias, aliterações, metáforas,
oxímoros sumido no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão chave é:
sob que máscara retornará o
recalcado?

(mas eu figuro meu vulto
caminhando até à escrivaninha
e abrindo o caderno de rascunho
que a palavra "recalcado" é uma
expressão
por demais definida, de sintomatologia
cerrada:
assim numa operação de supressão
mágica      vou rasurá-la daqui do poema.)

pois a questão chave é:
sob que máscara retornará?


(Algaravias)

[ FÁBRICA DO POEMA, Wally Salomão]

um lugar no mundo#2

i.
The world is NOT flat: talvez não tenha Friedman conhecimento de outras hipóteses de mundo que não o da linearidade veloz das trocas que convergem aos milhões de ecrans globais. O morro, por exemplo, antítese da hipótese planificada/planificadora de desígnio ilusoriamente previsto.
O mundo plano, a recusa das categorias da precariedade, do improviso, do imprevisto, do inusitado, poderá até servir como crítica às alcatifas esterilizadas dos escritórios multinacionais de Nova Iorque, aos armazéns estandardizados de Paris, aos franchisings assépticos de Lisboa, não contemplará a insubmissão com que o outro mundo, fora da rede e de outro plano com outro desígnio que não apenas o da rede. Outro mundo, insubmisso e tumultuoso, além da linearidade que se nos apresenta como um paradoxo de Zenão, ou da previsível instabilidade quieta da rede.
Por uma técnica do bem-estar (material), o mundo plano recusa o alarme e a surpresa e abraça a obediência, compromete-se num traiçoeiro desvio moral que oblitera a condição do viver e do não viver, do continuar vivo e do não continuar vivo, como não decisões que recusam forçar o movimento das coisas reais.

ii.
Existia uma luz nova nas cidades, a luz da técnica, luz que dava saltos materiais que antes nenhum animal conseguiria dar; e essa nova claridade aumentava o ódio que os elementos mais antigos do mundo pareciam ter guardado, desde sempre, em relação ao homem.

[Aprender a Rezar na Era da Técnica, Gonçalo M. Tavares]


E se essa técnica outra da construção for o amontoar das formas e dos recursos naturais e técnicos e humanos, por uma lei que os políticos e os planeadores e os urbanistas e os arquitectos desconhecem, sem outra lógica de a da necessidade, da recolha violenta do que sobra desses elementos anteriores, de um desejo de comunidade?
Altar e sabedoria não dita, não escrita proscrita da condição precária que é a dos homens, das construções e das cidades.

iii.

[Café Benfica, R. Siqueira Campos, Copacabana, Rio de Janeiro]

A liberdade como técnica da reorganização do mundo terá o preço necessário de uma re-conquista do real rua a rua porta a porta. Erros, recuos, dúvidas no endereço das coisas dos outros, equívocas direcções, cruzamentos indecididos, mapas imprimidos massificados que nos não servem ao nosso desconhecimento, uma esquina do mundo abre ao espanto. O mundo novo, um mundo novo, depois de despidos que somos do cinismo das coisas (re)conhecidas, será uma capacidade já esquecida de interpelar a História.
É possível que a insurreição da novidade seja uma outra re-significação do que antes, à mercê de frágeis e intangíveis construções mentais, fosse o pasto de uma realidade irreal, provavelmente constituída de pedaços de desejo e de música. E talvez seja possível que a razão que nos cabe seja a tentação da construção de uma História que ultrapasse a da natureza sem história que apenas se repete: uma tentativa histórica de encontrar ruas novas desconhecidas escolhidas decididas a partir de coordenadas frágeis e, sempre, outra vez, de desejo.
Como um estado de infantil surpresa, outro olhar novo quando olhamos para o que todos olham, o suficiente à reordenação do mundo.