a boa vida#2



Quando os homens da lei tomaram os morros do Complexo do Alemão, no Rio, e expuseram aos olhos da multidão cá embaixo como os bandidos vivem lá em cima, algumas coisas chamaram a atenção: a falta de resistência, a Bandeira Nacional tremulando como símbolo de conquista e, principalmente, a morada dos traficantes. Polegar se amoitava em três andares, com sancas de gesso iluminadas, piso ladrilhado, TVs de plasma e até piscina na cobertura (ali, mais conhecida como laje). Pezão tinha ar-condicionado e mandara pintar na parede um retrato do astro teen Justin Bieber. Gão possuía área de churrasco e chafariz em forma de golfinho esguichando água para dentro da piscina com um "G" desenhado no azulejo.


Não demorou um nada para batizarem os mocós do crime de "mansões" e "imóveis de luxo" com "vista privilegiada". Um erro, senão um preconceito que já nem nos damos conta, avalia a antropóloga Mariana Cavalcanti, professora do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas. "Não há motivo para tanta surpresa. Os traficantes são socializados na cultura do consumo, como todos nós", diz Mariana, que é doutora pela Universidade de Chicago e se dedica a pesquisar espaço urbano e moradia, em particular na história e no cotidiano das favelas cariocas. Suas palavras a seguir mostram que, morro acima, termos como "tragédia" e "ofensa" vão muito além de sua mera ligação com "pobreza" e "tráfico".


Nome aos bois
"Mansão e imóvel de luxo não são termos adequados para descrever as casas dos traficantes. O que define uma mansão? É o espaço? A localização? O valor de mercado? Sob nenhum desses critérios aquelas casas podem ser consideradas 'de luxo'. Não entendo a surpresa das pessoas com as banheiras de hidromassagem, as piscinas, as TVs, o quadro do artista pop juvenil na parede encontrados ali. Ora, são os valores da nossa sociedade, do capitalismo, que os tornam objetos de desejo. Os traficantes são socializados nessa cultura do consumo, como todos nós. A opção pelo tráfico também se dá pelo status (ser temido, reconhecido e assim por diante), mas se dá primordialmente pela possibilidade de ter bens de consumo. Então por que a surpresa? As pessoas, em particular a classe média da zona sul e da Barra, ficam incomodadas com a pouca nitidez da diferença entre 'nós' e 'eles', com o compartilhamento do imaginário de consumo. Entrar no mundo opaco da favela e encontrar um espelho das suas aspirações parece desestabilizar a certeza tão consolidada e cultivada de que os traficantes em particular e os moradores de favelas em geral são 'os outros'.


Nem tudo é barraco
"Achar que morador de favela vive em barraco é uma ideia datada. Historicamente, os migrantes chegavam aos morros e, de fato, alugavam um barraco de madeira, de um cômodo, que era melhorado ao longo dos anos. Como disse um morador uma vez, casa na favela nunca fica pronta. Mas, hoje, há muitas casas acabadas por dentro e por fora, decoradas com capricho, com uma série de preocupações estéticas e afetivas que refletem investimentos materiais e subjetivos. Ainda há os blocos aparentes e a falta de reboco, mas, na última década, vi pouco chão batido. A maioria tem piso. Claro que os pobres ainda vivem em condições precárias, há toda sorte de problemas arquitetônicos, a circulação de ar, a entrada de luz e outros aspectos básicos ainda deixam a desejar. Contudo, a tendência é que essas casas se tornem cada vez mais parecidas, em termos de acabamento, com as da cidade dita formal. A metamorfose de um barraco em uma casa não apenas transforma a forma e a qualidade da moradia. É uma transformação que abre a promessa de um futuro melhor - em parte, devido à própria experiência de acúmulo de capital na forma de uma casa que participa de um mercado imobiliário dinâmico, ainda que limitado pelos traficantes e pelos estereótipos relacionados à favela.


Disfarce
"A mídia noticiou que é possível que alguns traficantes tenham fugido ‘disfarçados de moradores’. Isso é uma ofensa inenarrável aos moradores e reafirma estereótipos terríveis relacionados a raça, classe e lugar de moradia. No asfalto nós sabemos diferenciar o cidadão que paga imposto do que sonega? O honesto do corrupto, ou do que pratica violência doméstica? Então, por que no morro os traficantes, moradores locais que são, seriam identificados tão facilmente? Além disso, essa ideia tende a reforçar outra, essa sim mais perversa, que é a velha ladainha de que os moradores de favela são coniventes com o tráfico. A quantidade de ligações ao disque-denúncia faz esse estereótipo cair por terra. E é bom que o faça, pois, assim como classificar os acontecimentos recentes de ‘guerra’, a ideia de que os moradores são coniventes tende a legitimar incursões policiais truculentas e a sedimentar os preconceitos de quem associa pobre a bandido. Nos anos 80 e 90 o tráfico era uma atividade muito mais lucrativa do que é hoje. E menos institucionalizada, também. Os chefes eram crias da favela e mantinham relações de respeito com os moradores - coisa que os jovens que os sucederam já não mantêm. Os moradores tinham menos oportunidades de ascensão social naquela época, ou seja, a desigualdade entre o traficante e o morador comum diminuiu, seja porque o tráfico se tornou menos lucrativo, seja porque os moradores passaram a ter mais poder aquisitivo e mais oportunidades de formação e qualificação profissional.


Notais fiscais
"O episódio da moradora que voltou para casa e soube que a sua TV LCD, ganha num sorteio, tinha sido metralhada por um policial, mesmo ela tendo deixado à vista a nota fiscal do aparelho, é simplesmente trágico. Porém, não surpreende. Perdi a conta de quantas vezes, nas minhas pesquisas, entrei na casa das pessoas e elas faziam questão de me mostrar as notas fiscais dos eletrodomésticos que tinham a sua volta. Os recibos ficavam sempre à mão, para que fossem facilmente localizáveis na hora em que a polícia chegasse. Esse fato é sintomático da relação difícil e recheada de desconfianças que, infelizmente, não são infundadas. Claro que nem todo policial é ladrão de eletrodoméstico de trabalhador, mas também não podemos afirmar que não há precedentes para esses cuidados dos moradores.


Mágico de Oz
"Já as crianças se banhando na piscina dos traficantes é a imagem mais comovente de todo o evento. Nela, sim, há uma vitalidade que poderia ser descrita em termos de uma possível libertação - ainda que por uma tarde na piscina. Lembra quando a bruxa morre em O Mágico de Oz? Todos cantam e dançam alegremente? Está um calor absurdo no Rio, e não existem clubes para esses meninos no Complexo do Alemão. Mas me incomoda que essa imagem bonita seja usada para cantar a vitória da ocupação. Os desafios ainda são muitos, as denúncias de violações de direitos humanos aumentam a cada dia, ainda há muitos traficantes soltos, outras facções, as milícias... A vitória cantada antecipadamente e a metáfora da guerra são nocivas. Tiram a atenção dos inúmeros desafios que são urgentes ali e no resto da cidade."


[Um espelho no morro, Christian Carvalho Cruz, in O Estado de São Paulo, 5.12.2010]

apenas uma breve consideração sobre a natureza dos objectos


[Terminal de Cruzeiros de Lisboa, João Luís Carrilho da Graça, 2010/...]


Se uma das funções da arquitectura é tornar visível (o que sem ela não seria possível ver-se), ela fá-lo pelo vagar, ente cena e obscena, através das subtilezas das luz e da obscuridade. Não exactamente como num teatro, ainda que com o drama partilhe alguns dos materiais e a urgência do tornar-se visível para dar a ver.

Alguém hoje, depois de uma furtiva viagem a Lisboa, propunha, lado-a-lado, o Carrilho da Graça que trazia na bagagem e Isay Weinfeld.
Pode ser. Não apontar para nenhuma direcção é uma legítima opção, no mar-rede de direcções possíveis. Como também o é, obscenamente, querer deixar de dar a ver para, com alguma ansiedade e/ou vaidade, desejar apenas ser-se visto.

Mas aí talvez já não estejamos a falar de arquitectura. Talvez de objectos. Apenas.

4’33’’ à espera de godot, não mais que isso


[Casa Dogon, Mali]


Responde-se a si mesma, essa longa marcha lenga-lenga que prossegues - e estás bem acompanhado por toda a tradição moderna e pós-moderna, diga-se: a auto-proclamada vitória final da razão e da mecânica funcionalista, genericamente, o pensamento que guia ainda a produção arquitectónica, e a tábua rasa. E é nessa exacta linha, do confronto com os limites da razão e com o método positivista, onde se levantam as maiores perplexidades dessa vontade revolucionária. Até porque a História que nos é contada diverge dos factos, valendo-se da percepção induzida às massas por aquilo que alguém chamou da semicultura destas amplas democracias. Bem entendido, recusa-se aqui um regresso ao passado trágico das multidões ignaras a trabalhar de sol a sol para senhores ou pela escassa sobrevivência. Mas andaremos assim tão distantes da indigência quanto a hiper-modernidade nos faz crer?

E é o outro passado, o edénico, obstinado em surgir em todas as reflexões de todos os que se propõem desocultar um sentido para a prática da construção mais que construção. Tome a forma de especulação erudita ou de devaneio ensandecido, de Vitrúvio a Le Corbusier, averiguar a natureza da cabana primitiva ocupou os espíritos mais agudos do ofício, e nem todos com a fineza de um Proust. E não é inocente a travagem repentina desta marcha em Le Corbusier, a acreditar que a História é uma marcha imparável.
A razão que nos governa com determinação desde Newton tem proporcionado à espécie magníficos avanços técnicos e materiais mas não tem caucionado respostas satisfatórias a ansiedades mais profundas. E não é lirismo nem superstição dizer-se que as questões que se levantarão a Koolhaas ao adormecer serão, provavelmente, as mesmas pelas quais Vitrúvio terá passado noites em claro. Exactamente as mesmas que deram origem ao mito, à religião, à filosofia, à arte. E aqui ainda andamos perplexos. As mesmas por que se queimam tantos cigarros.
Esqueça-se o ambiente sócio-histórico de cada um dos estilos, esqueçam-se as disputas e as querelles, se vem primeiro a ideia se primeiro a forma, se a madeira se a pedra, se a pirâmide se a caverna e as belas prosas que nos chegaram, sabemos que um estilo é uma paciente elaboração da teia de relações que articula o homem com o que o rodeia. Sim, o cosmos, e não apenas o contextualismo (crítico), que permite ao Homem situar-se num Universo desconhecido. A ciência tem-nos trazido notícias, quase diárias, do recuo do desconhecimento, mas ela própria sente-se incapaz de verificar as causas primeiras, mesmo com todo o dispositivo tecnológico à disposição.

Recorro à noção de abrigo, ou antes, a um possível significado de abrigo, que poderá, por hipótese transcender cada um de nós para se situar no plano simbólico e de facto, da manutenção da espécie: no abrigo descansamos, preparamos o alimento, procriamos. E tendo a achar que o significado do abrigo e da arquitectura se atravessa neste plano, do símbolo e do mistério existencial, mais largo que a boutade da máquina de habitar. E ainda que a máquina de habitar tenha produzido belas obras, e ainda que possamos, num esforço hermenêutico que contrarie o cerne do aforisma e da intenção do autor, atribuir uma função simbólica que se evidencie também no form follows function, a realidade é que o abrigo produzido sob a estrita prescrição do funcionalismo pura e simplesmente foi recusado pela ansiedade com que se estende a vida perante outras realidades mais largas que o trivial quotidiano. O exemplos são muitos e um deles é a própria Ville Savoye, logo abandonada pelos donos aos animais e transformada em estábulo para ressuscitar, após a II Guerra como casa-museu. Não valerá a pena aprofundar muito sobre a Casa Farnsworth e o penoso processo que opôs a cliente (e amiga) de Mies ao arquitecto de uma casa que o não chegou a ser. Serão experiências radicais e necessárias. Assinalam uma época, qualquer que seja, mas trazem mais de provocação que de conclusão, evidentemente.

O abrigo, e a arquitectura como primeiro abrigo, (certo, somos pós-freudianos, sabemos do líquido amniótico), convoca o arquitecto à exigência de pensar, em projecto, em todas as relações que transcendem o indivíduo e a praticabilidade quotidiana da arquitectura. São essas relações que, mais ou menos evidentes, mais ou menos mensuráveis (intuição?), apelam incessantemente à procura da origem (do princípio e da causa). Relações que o racionalismo não poderia responder.

(Mas mais, o racionalismo, ao eliminá-lo, ainda levanta o problema estético.)

Mas concordo que visto dessa maneira apresentes um panorama retroactivo do fim da História. Temo que ela ainda não tenha terminado. Esta arrogância da razão são 4’33’’ à espera de Godot. Não mais que isso.


adenda: Qualquer coisa como isso.


causas primeiras


[Templo Primitivo, Le Corbusier in Vers Une Architecture, 1923]


Curioso que sigas a linearidade dessa arqueologia. Poderia acrescentar Serlio, Laugier, Blondel, filho, John Soane, Piranesi, Viollet-le-Duc, e os outros, quase todos. A pirâmide como arquétipo (um dos), das origens da arquitectura, tratada por todas essas famílias da teoria e da crítica. E à excepção de Le Corbusier e Frank Lloyd Wright, mas este sem o fulgor propagandista do primeiro, nenhum dos arquitectos do séc. XX que referes constrói uma narrativa no trilho das origens da arquitectura. Inevitavelmente uma empresa desta importância passará pelos arquétipos arrolados em toda a História da Teoria e, hoje,  também pela luz de Jung, (ainda que esta passagem careça de muita cautela).
O que pergunto é por que deixaram os arquitectos de se preocupar com a origem (como princípio e como causa) da arquitectura? É que, presumo, será na relação do Homem com a realidade - na conhecida e na misteriosa - esse o empreendimento válido da razão e da imaginação e o modo de pela razão e pela imaginação se chegar a um sentido do ofício que nos ocupa.
Ou talvez que o racionalismo nos não permita reivindicar a imaginação?

a boa vida


[Villa Dall'Ava, Rem Koolhaas, Paris, 1991]











lucrécia neves





O subúrbio de S. Geraldo, no ano de 192..., já misturava ao cheiro de estrebaria algum progresso. Quanto mais fábricas se abriam nos arredores, mais o subúrdio se erguia em vida própria sem que os habitantes pudessem dizer que transformação os atingia. Os movimentos já se haviam congestionado e não se poderia atravessar uma rua sem desviar-se de uma carroça que os cavalos vagarosos puxavam, enquanto um automóvel impaciente buzinava atrás lançando fumaça. Mesmo os crepúsculos eram agora enfumaçados e sanguinolentos.
De manhã, entre os caminhões que pediam passagem para a nova usina, transportando madeira e ferro, as cestas de peixe se espalhavam pela calçada, vindas através da noite de centros maiores. Dos sobrados desciam mulheres despenteadas com panelas, os peixes eram pesados quase na mão, enquanto vendedores em manga de camisa gritavam os preços. E quando sobre o algre movimento da manhã soprava o vento fresco e perturbador, dir-se-ia que a população inteira se preparava para um embarque.
Ao pôr do sol galos invisíveis ainda cocoricavam. E misturando-se ainda à poeira metálica das fábricas o cheiro das vacas nutria o entardecer. Mas de noite, com as ruas subitamente desertas, já se respirava o silêncio com desassossego, como numa cidade; e nos andares piscando de luz todos pareciam estar sentados. As noites cheiravam a estrume e eram frescas. Às vezes chovia.



A Cidade Sitiada, Clarice Lispector, 1949

felicidade clandestina*


Vila Cruzeiro, Rio de Janeiro, 26.11.2010

A transformação da realidade operada a partir das palavras é um exercício que encerra perigos e obriga-nos à desconfiança. A partir da instauração do mundo, que é em todo o esplendor, o poder e acção da palavra, a realidade constrói-se também pelos desvios a que submetemos a palavra. O perigo é a cegueira ao real provocada por uma vontade ideológica; e a desconfiança de incorrer-se em equívocos num trabalho sobre a realidade.
Chamou-me de início a atenção a substituição, no discurso oficial e oficioso, da palavra favela pela de comunidade. Intrigante mudança de nome que, desconfiado – ou cínico –, me remetia para a imposição semântica do politicamente correcto. Se favela transporta o óbvio estigma produzido e reproduzido e difundido de pobreza, miséria, violência, doença e morte, comunidade pretendia, como que por ordem superior, transformar esse estigma, evidentemente uma generalização equivocada, numa realidade que deturpasse as duras condições de vida da favela. E também, que remetesse para as sombras, essa realidade de pobreza, miséria, violência, doença e morte que também existe na favela.
Percepção e preconceito são inseparáveis, mas, só por medo, despudor ideológico, ou ignorância, alguém, depois de um ou dois segundos de reflexão sobre a condição da favela, poderá consentir que os quase 20% de habitantes cariocas que moram em favelas serão todos portadores do estigma que se associa ao lugar de onde provêm.
Mais interessante é a classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de aglomerados normais, a cidade formal, e aglomerados subnormais, a favela. Esta caracterização, ela sim, preconceituosa e ditada por uma ideia de cidade obediente ao desenho autoritário de arquitectos e urbanistas e cientistas e políticos, é feita a partir de noções de desorganização, ausência de estruturas e infra-estruturas básicas (escolas, centros comunitários, redes de água, saneamento e internet, etc.) que, pura e simplesmente, não coincidem com a realidade da favela.

A originalidade da favela, contraposta à cidade do asfalto, constitui-se no uso criativo dos materiais encontrados na cidade do asfalto – a cidade formal na construção da qual trabalhavam os primeiros favelizados e das sobras da qual extraíam os materiais para a construção das suas próprias casas nos morros baldios – a ocupação densa e aparentemente desorganizada do território, e o projecto como processo sem final determinado, (nem relação de poder e hierarquia decorrente de uma vaga legitimidade académica ou científica), mas antes sustentado nas necessidades elementares do habitar e nas possibilidades e contingências da vida quotidiana.
As relações sociais tecidas nestes territórios alcançam, evidentemente, um grau de comunitarismo que a cidade formal, genericamente ainda decorrente dos princípios da Carta de Atenas, não estimula e muito menos permite.
Evidentemente que uma favela é uma comunidade. O comunitarismo da favela, com as suas frágeis redes de solidariedade e de vizinhança, serve aos moradores da favela como contraponto à precariedade das suas condições existenciais e debilidade das suas casas. É a resposta espontânea de um grupo à adversidade e exclusão imposta por inúmeras e complexas razões.

Ainda que o território labiríntico da favela, não concebido pelas leis da vigilância e do higienismo modernista, construído sobre uma dramática geografia, permita esconderijo fácil aos bandos do narcotráfico e a irrelevância da Lei do Estado de Direito democrático, não chega como motivo para a demolição das casas e das condições que aqueles indivíduos ergueram na contingência das suas vidas. Arrasar cegamente e a eito as favelas, a sua substituição por tipologias urbanísticas que satisfazem o olhar eruditamente treinado do arquitecto é, também, uma forma de violência contra a vida e os laços relacionais dos habitantes das favelas.

Ao isolamento do indivíduo, costumizado e fantasiado de si mesmo, embriagado no shopping mall contemporâneo e global, habitante efémero e nómada de torres tecno-ecológicas do Dubai e de células em Tóquio, ou encerrado em «novos paradigmas do habitar» dos mais mediáticos nomes da arquitectura e da especulação, a favela oferece uma visão do território e da vida radicalmente diferentes e provavelmente incompreensíveis a quem reduz o mundo e o outro a imagens.
Aos habitantes da cidade do asfalto global, para quem a favela é uma excrescência na paisagem, cabe perceber que o preconceito e o julgamento moral a que estão sujeitos os favelizados é alimentado pela cada vez mais poderosa máquina criminosa que envolve o narcotráfico, políticos inescrupulosos, magistrados corruptos e polícias vendidos que mantém reféns os moradores da favela.
Ao alcance de todos está o entendimento de que comportamentos criminosos e acções violentas de uma ínfima minoria - poderosa e pelo terror dominadora - não justificam a demolição homogeneizadora do que o favelizado ergue com suor e dor e amor.

Aos arquitectos pede-se uma intervenção sobre o real. A denominação de comunidade pode transportar a boa vontade das intenções dos políticos e cientistas que trabalham para tornar a condição de favelizado mais próxima da dignidade, mas elide todo um mundo de relações, humanas, urbanísticas e arquitectónicas, de realidade construida e em construção. Um bom princípio para não se derramar todo o preconceito apreendido nos bancos da escola (moderna) sobre a vida e realidade de quem constrói e habita a favela é o entendimento do que ela significa. É esse o sentido e o mistério da palavra e das cidades.


*Clarice Lispector

cidade de deus


[Favela Vila Cruzeiro, Rio de Janeiro, 23.11.2010]

Tudo o que foi posto no mundo foi-o por Deus. Também o Mal. Assim crê um católico romano, como este vosso escriba, mas não necessita o preclaro leitor de partilhar esta confissão para aceitar que daqui, desta fé, brota um insaciável optimismo. Ainda que as distracções sejam muitas, a época se incline para as sombras e aceitar isto soe a monstruosidade.
No meio do terror e do pânico espalhados pelas ruas da cidade o que é espantoso é assistir ao nascimento da esperança a partir do medo.
Rua a rua, porta a porta, cada milímetro conquistado nesta guerra no interior dos muros da cidade (bem sei que este nosso mundo extinguiu as categorias de centro e periferia, perdoe-se-me o anacronismo), é celebrado em alegria e adesão ao futuro por todos os cariocas. O cansaço, com certeza, mas sobretudo o vislumbre e o desejo de um amanhã numa cidade livre.
Confirmo que do medo pode nascer a esperança e da ruína cidades abertas ao amanhã.


para o Tolentino






p.s. Para acompanhar, aqui.



reconfiguração das fronteiras


[Fendas, José Bechara, MAM Rio de Janeiro]

A noção de fronteira é «boa para pensar»*, se o limite do conhecimento é, permanentemente, a tentativa da ciência para fazer recuar o desconhecimento, e uma razão da adesão da arte ao pensamento espacial e à arquitectura.


*Por uma Antropologia da Mobilidade, Marc Augé, 2009


caveirão*

Seoul (adenda à entrada anterior)

No paralelo 38 ainda é a fronteira, a mesma linha por onde deslizam espectros do séc. XX e chocam as placas tectónicas do séc. XXI, entre passado, futuro, no presente sempre presente, ondas do distúrbio caótico, a geometria rugosa sobre a extinção do mundo cartesiano. Outro espaço crítico de que não compreendemos ainda a forma, apenas ainda indícios do conflito.

via Cláudia Pestana, no Extremo Oriente


Médio Ocidente


[Rio de Janeiro, 24.11.2010, Sérgio Moraes / Reuters]


Sabemos agora, depois do séc.XX, que as fronteiras não se abolem. E sabemos agora, no séc. XXI, que as fronteiras podem estar diluídas ou difusas ou ténues. Mas não cessam, apenas sofrem processos de reconfiguração e de re-desenho. Talvez a novidade da época de reconfiguração dos limites e fronteiras seja, por um lado, a percepção desse processo pelo indivíduo na sua vida quotidiana e, por outro, a consciência que essa reconfiguração assume uma escala global de causas e efeitos instantâneos e que todos os homens, em todos os lugares do mundo, são parte dessas transformações.
Se o gótico demorou cem ou duzentos anos a baixar a Portugal, por exemplo, ou as vanguardas modernistas necessitaram de trinta anos, duas guerras mundiais e muita propaganda, para se imporem como arquitectura e ideologia dominantes, o carácter dos acontecimentos destes dias será a instantaneidade. Futuro, passado, diluídos num aparente sempre presente.
A linearidade como ideia, optimista, de progresso histórico e emancipação humana cede è evidência que os acontecimentos de que hoje somos parte são efeitos de causas díspares no tempo e no espaço. Como uma evidência, na carne e no quotidiano, da teoria do caos ou da teoria das catástrofes. Se a matemática explica as condições de disseminação e propagação dos elementos a politica demonstra toda a impotência e incapacidade em entender a realidade (instável).
No século anterior manifestaram-se tragicamente os limites das ideologias que compreendiam a realidade como totalidades acabadas e o seu caminho foi uma procissão de morte; os escassos anos que nos distanciam da queda do muro de Berlim explicam-nos também a impossibilidade da compreensão do real à luz das teorias que pretendem emular a natureza como orientação social, aparentemente livre, e paradigma da condução (aparentemente sem regras) dos assuntos humanos. Há quem diga que Hegel morreu, que Adam Smith tenha sucumbido, mas ainda não há confirmações oficiais por parte da classe política. Esta ainda se mantém submissa a velharias ideológicas sem alcance nem horizonte para os dias que correm.

Justamente a política (europeia) que ainda não compreendeu o recuo do eurocentrismo e da mudança do centro económico global do Atlântico para o Pacífico, a política (dos BRIC’s) que, na especificidade de cada um deles, acede e deseja maior protagonismo num mercado global em que os símbolos dominantes são ainda e serão os (arcos dourados) produzidos pela indústria ideológica norte-americana (de matriz, evidentemente, europeia). Como uma conversa em linhas trocadas talvez a política não tenha ainda entendido que as fronteiras do velho mundo, realidades outrora acabadas, perderam eficácia e que é momento de entender os limites (do conhecimento), tentar explorá-los ou ultrapassá-los.
Em Lisboa, altos representantes políticos e militares reúnem-se para repensar a estratégia de intervenção global das instituições que representam. No Rio de Janeiro estala a guerra quando o estado, finalmente, pretende impor a lei e o estado de direito (formal, pelo menos, discutível, certamente), sobre territórios onde ela está ausente. Em Lisboa o velho mundo, atordoado, exibe-se no esplendor da sua fraqueza num acordo de escudo de protecção anti-míssil, sem que tal aparato militar tenha adesão às novas formas de guerra e terror. No Rio de Janeiro antecipa-se o futuro, Olímpicos e Copa, como possibilidade final da concretização da utopia da Cidade Maravilhosa e a “limpeza da cidade”, sustentada num discurso e linguagem bélicos, de uso corrente, e numa realidade de terror e pânico. Aparentemente diversos e distantes, são eventos como asas da mesma borboleta caótica.

A condição urbana global (não condição genérica), é a estrutura física onde estes acontecimentos ocorrem. E se no Rio de Janeiro o artefacto e o discurso militar são parte do quotidiano e da linguagem de uso quotidiano, na tentativa de aceder a modelos urbanos europeus e norte-americanos, vistos e pensados como os únicos possíveis, em Lisboa adquirem-se, com incompetência e estupidez habituais, artefactos militares para uma «guerra de bairros» inexistente e que apenas demonstra a falência e a ignorância dos políticos que dirigem a polis. A falência, porque mais um momento de depredação do dinheiro dos contribuintes sem qualquer carácter de serviço público e de aumento da liberdade, a ignorância, porque a recusa do poder político em pensar a condição urbana portuguesa à luz das características sociais, do vazio de qualquer política territorial e de cidades que foram os últimos 36 anos e apenas a importação de modelos de manutenção da paz, segurança e liberdade urbanas que nada têm a ver com a realidade portuguesa.
Curiosamente não houve conhecimento de que alguma voz, algum arquitecto ou urbanista, se tivesse pronunciado sobre tal monstruosidade.

lucky strike


Não são tanto as respostas, até porque é uma entrevista de escassíssimo interesse arquitectónico, mas mais as perguntas. Não é a arquitectura, é a sociologia [de pacotilha] e são as condições em que se pratica a arquitectura em Portugal.
Talvez mesmo mais longe que Lisboa e a comezinha burguesia de extracção Frágil-anos-oitenta, a caixa de comentários da entrevista exiba as condições e a precariedade com que, um a um, caem os jovens iludidos da arquitectura.
Existirão razões mais fundas para o que sucede. Razões endógenas à prática moderna da disciplina e ao ensino da arquitectura: a erosão do conceito do belo e da estrutura estética da arquitectura, contrariamente ao que as mundanas e poderosas imagens nos fazem crer; o credo num funcionalismo e mecanicismo absoluto, ainda que dirimido nessas mesmas imagens de atracção libidinosa; a obrigatoriedade imposta ao arquitecto da invenção do novo e do deslumbramento do original que nada terá a ver com as origens. E admita-se que, depois de cinco anos de mergulho na ilusão niilista, um jovem-arquitecto, (a recibos verdes e subsídio do IEFP, concertado pela entidade empreadora), resulte num indivíduo em que a frustração e o ego ferido sejam as características mais evidentes.

Ressentidos de todo o mundo, uni-vos pelas caixas de comentários públicas. As falácias em que foram instruídos tombam, uma a uma, com a «crise».
Claro que Aires Mateus não é Aires Mateus. É Carrilho da Graça (perdoem-me a maldade, o Darth Vader do eixo socio-arquitectónico Lisboa-Cascais?), é Koolhaas, é Zaha Hadid, são as centenas de ateliers, como gostam de nomear os compartimentos de trabalho onde espalham os novos amanuenses da arquitectura, que propagam a monotonia, o tédio, o horror arquitectónico e a tragédia urbana. É mais uma condição do que chamam globalização e que a nossa impante realidade ridícula também chama de Estado Social e, às vezes, em arrogância comprometida, arte.
O deslumbramento, a construção e o culto do arquitecto como figura do sucesso (de ressonância, perdão, cavaquista), eleva-se no coreto da nossa paróquia. E esquecemo-nos da arquitectura. De nós mesmos. E do outro.


[Pede-se perdão pelas falhas técnicas de comunicação: uma greve geral aí, algumas, poucas, caipirinhas aqui, demasiado sangue derramado no chão da cidade em barbárie do narcotráfico, a vida como ela é, caros arquitectos de blog.]



Para o Daniel e para o Pedro.


este samba vai para Dorival Cayme, João Gilberto e Caetano Veloso e para todos os grevistas anti-socialistas,


o outro lado da História

[Goetheanum, Rudolf Steiner, Dornach, Suiça, 1920]

À atenção do Tiago.

prelo


[Brasil: Arquiteturas Após 1950, Maria Alice Junqueira Bastos, Ruth Verde Zein, São Paulo, 2010]

breves inquietações de um sujeito-arquitecto

Acredito quando afirmas a possibilidade de inscrever na parte de trás de um bilhete de autocarro o que distingue uma construção de uma obra de arquitectura. É admirável essa capacidade de síntese. Confesso a minha incapacidade para tal sintética descrição, até porque os bilhetes de autocarros são cada vez mais reduzidos e com a parte de trás estampada por estereotipadas turísticas imagens (passe o pleonasmo) da cidade que o autocarro sirva. Além de que existem, ao que se conhece, dois milénios e meio, pesada literatura, muita polémica, sobre o assunto.
Antes de perguntar o como, tem-me ocupado mais o porquê. O porquê da arquitectura. O porquê da vontade, individual, do sujeito-arquitecto, colectiva, da comunidade humana, de juntar umas pedras, elevá-las ao céu, cobri-las com tecto - partindo do princípio que a arquitectura arranca a História na pedra e não na madeira, outra antiquíssima disputa.
É que quando penso nisso recuso o tipo de trivialismo com que, por exemplo, Graça Dias aqui despreza a casa. A Casa e o Mundo. Porque nem só de Cidade se faz o Mundo e, tão pouco a cidade é metáfora da vida como ela é. E talvez a casa seja mais mundo do que hoje, encadedeados, possamos admitir.
Porquê.
[Adão Protege-se da Chuva, Filarete]

causas inconscientes

É latente o desconforto experimentado perante a palavra estética, dita num contexto arquitectónico. Usada como manifestação de alguns vulgares factos que sugiram não mais que um vago prazer visual, ou quando muito de uns outros sentidos difusos, é sempre dita como subterfúgio, defesa ou afirmação de uma resoluta vontade do arquitecto.
Uma disciplina nascida da revolução e vigor iluminista, que se propõe adquirir um pensamento sobre o belo, naturalmente, num contexto de escrupulosa veneração à matéria, à ciência, à tecnologia, resultaria num paradoxo evidente: como pensar e tornar pensável, racional, o que é da ordem da mais subjectiva relação do indivíduo com o mundo?
De certa forma The End of the Classical: The End of the Beginning, the End of the End aflora a sucessão de ficções a que recorreu a arquitectura depois do período iluminista, ainda que, em rigor, a tese de Eisenman assinale o corte com o clássico a partir do Renascimento, é, o uso pós-kantiano da expressão estética que é o motivo de algumas poucas disputas ou melancólicos silêncio.
Se na era clássica a estética era resultado de uma técnica, um conjunto de leis que mediavam o homem e o universo, a partir de um cânone que é isso mesmo, uma ressonância da ordem e do mistério cósmico talhado à escala humana, a morte de Deus e o eclipsar de qualquer ordem transcendental tornam inútil esta disciplina. Porque a verificação, a legitimidade, da arquitectura decorre da ciência, reduzindo-a a pouco mais que a fabricação técnica de espaços sem qualquer relacionamento com outras realidade (espirituais?) que não as sociológicas ou tecnológicas.


Do séc. XVII, restrospectivamente, apenas se poderiam alimentar disputas contra uma arquitectura que não fosse fundada no conhecimento racional do mundo. Com argumentos pretensamente universais que cedo amputariam quaisquer tentativas, sempre vistas como reaccionárias, de uma arquitectura outra que recorresse a leis que não as da razão e da matéria.
O pós-I Guerra Mundial foi o momento propício para, a partir da destruição da Europa, se erguer uma arquitectura higienicamente extirpada de elementos decorativos, convenientemente calculada para a produção industrial. O modernismo, no seu impulso totalitáro, materialista e científico, envidentemente que só se poderia impor, pela negação da História e, desse modo, precipitando a morte do estilo – como o são o estilo jónico ou dórico, como vislumbre, na pedra, de uma ordem transcendental.
Venturi ainda recuperou a história, mas demitiu-se de ir mais adiante que a invenção da figura do arquitecto não mais que um manipulador de símbolos para enfeitar os pavilhões de critério científico, a maior parte dos quais desenhados por engenheiros.

Rapidamente tudo se repete e propaga, imagens de imagens de imagens de arquitecturas deslumbrantes, hiper-modernas, hiper-cosmopolitas, (que, por um processo autofágico são elas próprias sancionadas pelas próprias imagens do que por outra ciência), contíguas a arquitecturas construídas com as sobras do hiper-capitalismo, deslocadas para a invisibilidade e apagadas no photoshop dos roteiros turísticos que reforçam a nossa condição de espectadores.
A paisagem arquitectónica global segue o ritmo da monotonia interrompida por espasmos e orgasmos de imagens que apresentem a cada momento o absolutamente novo, belo ou horrível, já não para deleite dos sentidos mas reduzido às primícias e exigências dos egos feridos da profissão. Qualquer coisa de psicanalítico, que os arquitectos agora insistem em chamar de estética.


[Museu da Imagem e do Som, Diller Scofidio, Copacabana, Rio de Janeiro]

propriedade de produzir efeitos imprevistos

[Row House, Tadao Ando, Osaka, Japão, 1975.1976]

utilitarismo da paisagem: baía da guanabara

O  projecto da bossa-nova, democrático social racial, como utopia da modernidade-cool, optimismo estético, ético e político, um país novo, uma música nova, o futuro e a História em frente ao mar, a paisagem ainda ao ritmo da contemplação do abandono.

[Inútil Paisagem, Tom Jobim, 1964]

Logo depois, quando as botas cardadas da ditadura militar esmagavam as avenidas rasgadas por Lúcio Costa, por entre as árvores novas plantadas por Burle Marx, que não haviam crescido, sem escala, sombra ou proporção, paisagem concreta, útil, da modernidade possível, da possibilidade sincretista do tropicalismo.

[Útil Paisagem, Caetano Veloso, 1968]


















Hoje, tudo por um fio, é o mundo que anda hostil.

[De Onde Vem A Calma, Los Hermanos, 2003]

inocentes do Leblon



Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
trouxe imigrantes?
trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.


[Inocentes do Leblon, Carlos Drummond de Andrade in Sentimento do Mundo, 1940]